Friday, September 05, 2008

Xerxeeeeeeeeeeeeeeeeeeessssssssssssssssssss!

Escrevo pressionada pelo adiantado da hora e o fato de que amanhã já estarei vendo mais um espetáculo sobre o qual devo também comentar. Fui, ontem, assistir aos Persas, espetáculo alemão. Já havia escutado dois colegas de mestrado, nos quais confio, fazerem seus comentários. No entanto, ambos discordavam profundamente e me provocaram a ir ver a peça para fazer um desempate.

Eles já haviam me comentado que havia um lance bacana no começo e, é claro que isso criou expectativa. Resultado: fiquei lá esperando e mesmo achando interessante certa contracenação proposta (a única realmente), não achei tão significativo. No mais, não consigo compreender qual era a proposta. Quatro atores dizendo um texto enorme, praticamente sem nenhuma movimentação no palco e como cenário apenas uma enorme divisória de rodinhas. Roupas pretas, atuais. Terno, gravata, salto alto, pulseiras. Texto, texto, texto. A língua alemã rasgando os ouvidos do público, com o nome de um dos guerreiros, Xerxes, ditos aos berros.

A história de Ésquilo sobre os Persas parecia interessante, mas, seria menos desgastante ler em casa. Bem, mas gostaria de ser mais precisa nestas minhas considerações. Quando converso com outras pessoas de teatro, mesmo que nossas idéias sejam semelhantes, observo que elas têm maior capacidade de serem específicas. Referem-se à ausência de direção, por exemplo, ou criticam a atuação propriamente dita. Para mim, na maioria das vezes, não é claro o que não aconteceu.
Lendo agora Décio de Almeida Prado para a aula de amanhã da oficina de Critica do Kil Abreu, encontro uma frase que fala do que é preciso para que a transposição do real para o imaginário se opere. Bem, é justamente sobre isso que estou falando. No caso de ontem o que quer que seja, não estava lá. Décio diz ainda que para as crianças basta um: “era uma vez...”. Mas, para os adultos isso já não é suficiente e, talvez, tenha sido justamente isso que os alemães tenham feito com o texto do Esquilo, forçando esta narrativa.

Algo a remarcar? Sim, uma prova de habilidade técnica impressionante. Uma longa parte deste mesmo texto foi dita por dois atores ao mesmo tempo, sem nenhuma titubeação, nenhum erro. Provavelmente, a única coisa que mereceu aplausos ontem à noite, mas, como a impressão favorável já havia passado, nem estes eu dei. Se me sinto viva aplaudindo muitas vezes de pé algo que me arrebata, é libertador não fazê-lo quando não vejo razões para tal.

OS PERSAS
http://greciantiga.org/lit/lit05a-1.asp
Os Persas é a mais antiga tragédia que conhecemos na íntegra; fazia parte da tetralogia apresentada por Ésquilo durante a primavera de -472 e que obteve o primeiro prêmio no concurso. A tetralogia era composta das seguintes peças: Fineu, Os Persas, Glauco de Potnies e Prometeu, o Acendedor do Fogo; a última era, certamente, um drama satírico. Segundo a tradição, o corego designado pelo arconte foi o célebre estadista Péricles (-495/-429), então com apenas dezoito anos.
Com exceção de Os Persas, chegaram a nós somente alguns fragmentos das outras peças da tetralogia. Aparentemente, nenhuma delas tinha qualquer ligação com as demais.

Começa a Batalha de Salamina

MENSAGEIRO
Entretanto a noite passa sem que o[ exército gregotente qualquer fuga por mar.Mas, quando o dia de brancos corcéisbanhou a terra dos seus raios resplandecentes,eis que, do lado dos Gregos,irrompe um grande clamor, semelhante a um canto,cujo eco é devolvido pelos rochedos da ilha.O terror invade então todos os bárbaros,iludidos na sua expectativa, porque não era para fugirque os gregos entoavam o péan sagrado,mas para marchar para o combate, cheios de determinação[ e coragem.E o grito da trombeta incendiava os guerreiros.Logo os remos ressoantes, movidos ritmicamente à voz do[ chefe,feriram as águas profundas e, de repente,todos aparecem aos nossos olhos.A ala direita é a primeira a avançar, organizada,em boa ordem, e logo a seguir veio todaa armada, enquanto se elevavaum grande grito: "Avante, filhos dos Gregos,libertai a vossa pátria, libertai osvossos filhos e as vossas mulheres, os santuários dos[ deuses dos vossos paise os túmulos dos vossos antepassados: a luta, hoje,[ é por tudo isto!".
[ A.Pers. 384-405 ]

2 comments:

  1. Muito bem!
    Arrasou.

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  2. Putz!
    Não vou aqui defender aquilo que tampouco pude compreender em essência. Mas não entender alemão me faz mudar meu olhar, que por sinal nunca foi assim tão textual. E uma vez que o texto não é o foco( ora veja), e que há pouco movimento dos atores em cena, e MUITO movimento de som, existe ali um foco a ser perseguido. Muita coisa fez sentido, "bateu", entre uma tentativa ou outra da minha cabeça de desviar da legenda, que me obrigava a um movimento constante e exaustivo para aquele dia de treinamento que tive. Mesmo cansada, com sono, e com o esforço de me manter atenta a um espetáculo de difícil apreciação, não me arrependo nem um pouco de ter visto que vi. Aliás, lamento não entender alemão, lamento que a oportunidade de maior apreciação tenha sido para poucos ( mesmo os que entendem dizem ter tido dificuldades ao entender), mas acho que acima de tudo nós, apreciadores, artistas e pesquisadores das artes cências, não podemos deixar passar um enigma sem tentar achar seu contexto.
    Pra mim, a ausência de mirabolantes cenários e de movimentos expansivos desenhando espaços mostra uma densidade corporal, específicamente marcada no diálogo corporalsonoro dos atores que falam em uníssono, como ressalta Helena,no jogo inicial aparentemente desconectado do texto, mas tão preciosamente conectivo em tempos passado/presente. Sem falar da maravilha nazista daquele jeito de falar XXXEERRRXXXEEEESSSS. Talvez uma das mais cômicas passagens de toda a peça, junto com aquele início. De uma ironia deliciosa. Novo? Não nada. Tudo apenas na sua busca por uma intensidade. E cada um tem e busca a sua. Se meu/nosso ritmo cultural é outro e isso interfere na apreciação, há que se relevar isso sim. O que nos leva também a uma questão de gosto!E isso às vezes é o que menos importa, já que não gera discussão!
    Helena, desculpe se invado assim teu ponto de vista, mas eu tb estava tentando dizer algo sobre os persas e de repente li teu texto e me saiu este! Tenho tanta vontade de conversar...
    bjk

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