Monday, November 28, 2011

Escalpelada por Almodóvar

Pensei até em não escrever sobre A pele que habito. Tenho absoluta certeza de que muita gente vai fazer isso. É um filme que irá provocar profissionais de diversas áreas. Foram, porém, as perguntas da minha irmã que me convenceram de que eu deveria escrever. A tarefa é difícil. Principalmente porque sou contra contar a história. Tenho pavor de sinopses. Mas vou fazer coisas que também não aprovo. Primeiro, dizer que considero um filme imperdível. Por quê? Para mim, sempre que alguém consegue trazer uma história completamente nova, imprevisível, que exige novos paradigmas, acho genial. A pele que habito tem este poder. Não só traz como custa a entregar. Até a última cena o espectador ainda não sabe o que vai acontecer e, quando aparecem os créditos, as perguntas sobre os personagens e seu futuro continuam. Muitas, sem resposta.

Nunca vi nada de Antonio Bandeiras de que não gostasse. Mesmo os filmes de ação, Zorro, etc. Gosto do jeito dele atuar. Ele sempre me convence seja no papel de professor de dança em escola de periferia (Vem dançar) ou até fazendo o Gato de Botas, o acho expressivo. Pedro Almodóvar também significa, em minha opinião, que devo ir ao cinema, mesmo correndo o risco de não gostar. Acredito profundamente que se deva a sua forma de dirigir o fato do filme ser tão instigante. Mas, logo me dei conta de que não poderia ignorar a origem no livro de Thierry Jonquet. Um escritor do qual nunca tinha ouvido falar.  Pelo jeito a história já trazia em si as questões que são perturbadoras: os avanços da ciência, as mudanças da sexualidade nos tempos atuais, entre tantas outras que também vão surgindo ao longo do drama. Porém, quem já viu algumas coisas desse diretor sabe que ele tem um jeito peculiar de nos colocar na trama. Até a posição das câmeras nos induzem a visualizar de uma forma ou de outra os personagens que, neste filme tem sua sexualidade, seus escrúpulos expostos e debatidos.

Como não tenho a menor familiaridade com o termo transgênese tive que recorrer ao dicionário para me certificar de que se tratava da manipulação genética de uma forma que provavelmente não aconteceria na natureza. Ou seja, o homem brincando de Deus, como se costuma dizer. Neste caso, acho que seria mais certo dizer, de Diabo. As linhas entre o que é certo e o que é errado, entre o que é um homem e o que é uma mulher não são apenas ultrapassadas. São rompidas com violência. O que me leva de volta as perguntas da minha irmã. Antônio Banderas faz um homossexual? O ator coadjuvante também era? E se percebemos um comportamento patológico entre os dois irmãos da intriga porque rechaçamos um e torcemos pelo outro? Bem, esta eu acho que sei: um é rico, bem sucedido, competente profissionalmente e o outro aparece fantasiado de tigre na porta da casa sem ter onde cair morto.

E eu, que pensei que teria medo de cenas que dilacerariam o corpo, saio remexida por dentro pelas dúvidas, pela crueldade da história sem mocinhos mas vários bandidos que não se vêem assim e isso é realmente assustador. Assim, sem que eu percebesse, sem agulhas, nem cortes, sinto que, ali, no escuro do cinema, tentaram arrancar a pele que habito.

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