Saturday, March 16, 2013

Ney Matogrosso: esse eterno sedutor



Um pequeno comentário nas redes sociais sobre o show de Ney Matogrosso não é suficiente para relatar esse momento. Até porque era minha primeira vez. E como sempre acontece nessas ocasiões, a gente nunca sabe o que esperar. Que eu não leio a respeito antes para não perder a surpresa, todo mundo já sabe. Ver uma lista de músicas? Comentários de pessoas que já assistiram? Ele mesmo dizendo o que pretende? Não vejo por quê. Afinal, é fácil saber que nada vai ser igual.
Decidi ir ao show meio por acaso. Minha amiga Betha Medeiros colocou uma foto do seu ingresso no Facebook e eu pensei: gostaria de ir. Providenciar os ingressos não foi assim tão simples. Para tirar minhas dúvidas da compra pela internet, fiquei pendurada no telefone por mais de dez minutos. Acabei levando o cartão de crédito errado para retirar meu ingresso e fui obrigada a retornar no ponto de venda lá no Moinhos de Ventos. Detalhe: eu moro na zona sul.  Mas, tudo bem. Sabia que quando visse o Ney esqueceria.
O lugar era ótimo. Muito próximo ao palco e a última cadeira da fila, o que me permitiria levantar a qualquer momento. E essa foi a minha vontade durante todo o show. Porém, ninguém, em uma plateia lotada no Araújo Vianna, fez esse movimento. E olha que o espaço permite. É algo que já tinha me conquistado em shows anteriores: a informalidade. Pessoas bebendo, comendo, dançando. Isso sem prejuízo da visão ou da audição dos demais. E eu, confesso, achei irresistível aquela figura sensual, dançante no palco. Não esperava que Ney viesse com um figurino de roupas colantes, penas, brilhos, embora tenha sido assim que ele me conquistou há quase 40 anos. E se ele cantou poucas músicas daquela época, todo o repertório ficou lindo com o seu jeito de dançar e suas provocações.
Dizer que o corpo desse homem de 72 anos é perfeito seria exagero. Mas entre homens e mulheres não há quem não fique de queixo caído quando ele se movimenta. E é sua audácia, sua imagem autoconfiante que atrai. Ney Matogrosso é um leonino que tem o sol na barriga, quer dizer, naquela área chapada e musculosa que ele exibe ora apenas levantando a blusa ora com um figurino que a expõe completamente. Aliás, um ponto forte são suas roupas mínimas, suas botas acima do joelho que ele põe e tira diante dos olhos da plateia. 
E como se não bastasse ser impressionante Ney no palco, ele usa vídeos que ilustram suas letras e também não teme colocar suas imagens ainda jovem. Parece não ter a mínima preocupação com as possíveis comparações. Provavelmente, servem de artifício para permitir que ele aguente por quase duas horas diante de tanta gente sempre em movimentos e gestos insinuantes. Como aquele de escorregar pelas escadas em direção à plateia enquanto cantava repetidamente: “beija-me, beija-me”... ou quando estica-se no chão e, apoiado em apenas um braço, segue cantando
A voz? É tudo aquilo que o tornou famoso, que encanta as plateias por onde passa, com seus agudos e sua interpretação incomum. E de lambuja a gente ainda ganha aquele olhar penetrante que eu poderia jurar, bateu no meu e me levou a querer dançar com ele. Assim, quando chega o fim, ele canta a música de Vitor Ramil, Astronauta lírico, bolhas de sabão caem do teto e ninguém quer que termine.
Na saída, todas aquelas pessoas, das mais diferentes idades, comentam praticamente a mesma coisa: a performance desse que, sem dúvida, é um homem com H e cujas imagens vão me servir para aqueles dias em que o desânimo se aproxima. Afinal, a vida é breve e “já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, mas antes quero encará-la com muita garra, coragem e ousadia, ou melhor, mais Ney.  

Thursday, February 28, 2013

Sempre de malas prontas




O destino: Florianópolis. Com passagens compradas já há algum tempo e hospedagem garantida, na véspera, minha mãe diz que não conseguiu dormir a noite preocupada com os incêndios dos ônibus que acontecem na cidade. Verifico com amigos que estiveram e outras que moram por lá e elas me dizem que, apesar de ser uma situação delicada, não há o que temer. Assim, começo a minha viagem com uma amiga que nunca havia andado de avião.  Eu viajei pela primeira vez aos 30 anos. Depois disso, não parei mais. Se tenho medo? Bem, minhas pernas bambearam a caminho do primeiro avião que peguei na vida. Agora, já contabilizo duas viagens sobre o oceano e muitas decolagens e aterrissagens. Então, lá estávamos nós, dentro do avião, felizes por conseguir fazer algo juntas. Depois dos avisos de que iríamos decolar, começam a fechar as portas dos bagageiros e a pedir que as poltronas fiquem na posição vertical, etc, etc. Um dos comissários aproxima-se de uma senhora idosa no lado oposto ao nosso, duas filas à frente, que está de olhos fechados. Cutuca ela e diz: senhora..... Ela... nada. Ele cutuca um pouco mais forte. Ela... nada. Na terceira cutucada, dá para reparar que ele já está ficando um tanto angustiado. A senhora acorda e os dois se surpreendem. Eu e minha amiga nos olhamos e rimos. Havíamos pensado a mesma coisa. O que não seria um bom começo. Mas, no fim das contas, o voo é bastante tranquilo.
Assim que chegamos, vamos para a parada de ônibus. Afinal, havíamos planejado uma viagem econômica. Não demora, começam as ofertas de transporte. Quando consideramos que o preço vale a pena, entramos em um táxi com mais dois passageiros. O motorista não demora para  falar sobre várias coisas ruins da cidade, enquanto faz um zigue-zague maluco por entre os carros, numa velocidade assustadora. “Por mim, explodiria essa ponte!”, disse ele enquanto olhávamos admiradas para a Hercílio Luz.  Argumenta que o dinheiro gasto até agora para restaurá-la era um absurdo que daria para  ter feito várias outras pontes. “Tinha um japonês que disse que poderia trazer uma ponte inteira, igual a essa e colocar aqui por muito menos, mas não quiseram. O japonês acabou aparecendo morto, isso sim”.  Frustrante ser recebida assim tendo ainda em mãos o folheto turístico dizendo: “bem-vindos ao paraíso”. Felizmente, o trajeto era curto e não demorou muito chegamos ao nosso hotel. Nossa aventura pelo solo (?) catarinense estava apenas começando.
Devidamente hospedadas, sugiro começarmos pela Barra da Lagoa. Uma praia que eu havia ido há poucos meses. Aproveitamos o mar, a paisagem e vemos muitas mulheres de óculos dentro d’água. Na hora da fome, não achamos tão simples achar um lugar barato. Mas, ao encontrarmos, os lanches são muito bem feitos e somos muito bem tratadas. Com atenção e gentileza.  E será assim por toda a viagem. Seremos chamadas de “queridas” várias vezes por pessoas de ambos os sexos e das mais diferentes idades. Logo percebemos que é um hábito, mas isso não quer dizer que, por isso, não seja extremamente agradável. Outra coisa que nos alegrou foi o sistema de transporte, os terminais. Graças a eles logo entendemos como ir de um canto a outro. Tivemos a chance de ver até uma das vendedoras de passagens falando inglês com um casal de turistas e, quando perguntei se ela sabia, ela disse que não, que aprendeu ali mesmo falando com os estrangeiros que passam. Devido ao intenso calor, sentimos falta, porém, de ar-condicionado nos ônibus.
Na primeira noite, saímos a pé. Querendo informações sobre um lugar para comer, escolho uma senhora que atravessava a rua. Ela para e começa a nos falar sobre de onde vinha, sobre a cidade, sobre suas crenças, sem tomar fôlego. Enquanto minha amiga tenta ser gentil, eu espero uma brecha para encerrar a conversa. Ela acaba, inclusive, nos dando o seu endereço. Não seguimos a indicação dela, mas sua longa conversa e sua tranquilidade a transforma em um dos personagens insólitos da nossa viagem. Outro, acabou sendo um senhor que veio ao nosso encontro quando já aguardávamos o ônibus para o centro em Jurerê Internacional. Uma praia de águas calmas que nos permitiu um dos melhores banhos desses dias. Um breve passeio pelo calçadão onde encontramos os doces de Pelotas, cidade da minha amiga, e nos dirigimos à parada. Foi a única vez em que o ônibus custou para chegar. Já estávamos ali há algum tempo, admirando as casas chiques em volta, quando um senhor aproxima e pergunta se sabíamos onde ficava o Banco do Brasil. Não sei nem como a conversa começou. Fato é que se tratava de um biólogo que tinha também uma formação em história e ele nos dá uma aula sobre os Incas e um desbravador de terras estrangeiras que partiu de Santa Catarina em direção a Machu Picchu antes mesmo de Francisco Pizarro. O senhor, que chegara sem fôlego, distraiu-se conosco demonstrando seu conhecimento.
Sem constrangimentos, nem medos, vemos as pessoas se aproximarem criando durante toda a viagem  uma sensação de segurança e tranquilidade. E é assim que chegaremos a Campeche. Praia onde as vitrines nos atraem logo de cara e conseguimos encontrar produtos com preços acessíveis mas, talvez o mais importante: alguém que nos atende como há muito tempo não acontece comigo em Porto Alegre. Quanto ao mar, é exatamente como eu me lembrava. Muito agitado. Chega a ser engraçado, pois cada onda vem de uma direção diferente mas, mesmo para quem tem medo como eu, é possível entrar na água. Estamos lá aproveitando o sol quando chega um desses ambulantes que circulam pela praia oferecendo coquetéis, caipirinhas e sucos. Não resisto. Ao me aproximar, vejo que quem atende é um cara com pele morena, olhos verdes e um sorriso que mais parece um teclado, como dizia a minha avó. Retorno com a bebida na mão e comento com a minha amiga que gostaria de encontrar o Zulu que acabara de esbarrar em alguém tão bonito quanto e nos divertimos olhando ele servir os drinks, conversar com as pessoas. Penso no quanto ele ganharia se fosse descoberto, mas depois me dou conta que, talvez, esse não seja o seu desejo, que ele poderia adorar estar ali mesmo, naquela vida, sendo admirado apenas por clientes como eu.
À noite, saio na busca de um lugar que havia pesquisado na internet antes mesmo de ir. Vi fotos, o local no mapa, tudo. Assim, posso me deslocar em uma cidade que pouco conheço e ir a um lugar onde nunca estive como sempre soubesse onde fica. Acabo tendo uma sensação de reconhecimento apesar de nunca ter estado no lugar. A virtualidade faz isso. Claro que pela web não tem como prever que os garçons serão tão atenciosos. Escolhemos o prato feito por R$ 15,00. Foi a única refeição completa que fizemos em cinco dias. Arroz, feijão, frango, salada, batatas e ovo fritos. Tudo muito saboroso e com uma apresentação impecável. Ah, e tinha ainda música ao vivo. Pena que chegamos ao final da tarde e acabamos não aproveitando tanto a movimentação do lugar que deve acabar ficando bem cheio.
Dia seguinte, minha ideia era ir a Praia Mole. Ao lermos as características já não temos tanta certeza: “corpos sarados desfilam na areia...” Digo para minha amiga que será apenas por um dia que invadiremos esse espaço. Fizemos bem. Na verdade, como toda praia tinha de tudo, mas de vez em quando aparecia uns corpos masculinos que pareciam ter passado no photoshop. Há tempos não via tanta “barriga tanquinho” por metro quadrado. E quando menos esperávamos passa um carinha com uma menina que parecia sua filha que desbancava o Rodrigo Santoro. No mais, a diversão era a narração do campeonato de surf. Intrigadas em como os participantes conseguiam escutar as ordens lá de dentro do mar e obedecer. Coisa que muitas outras pessoas não faziam em relação às ordens dos salva-vidas para não ir tão para dentro. Resultado: o salvamento de um casal. Minha amiga estava indignada. Eu, havia ficado surpresa com a capacidade dos dois de nadar de costas, boiar, tentar várias alternativas até que um surfista chegasse para ajudá-los, antes mesmo dos profissionais da área. Na hora de ir embora, passamos por um grupo de senhoras idosas na frente do pórtico que valia uma foto. Elas não estavam nem aí para os tais corpos sarados. Era Domingo, dia de sol. Ou seja, engarrafamento garantido. Para nossa sorte o ônibus não demora muito a chegar. De volta ao hotel, com coisinhas para comer e aguardar o Oscar. Porém, o vinho nos faz dormir muito antes.
Chega o dia do retorno. Teríamos que sair do hotel às 14h. Difícil curtir a praia cuidando o relógio. Decidimos pagar mais meia diária e esquecer da vida. Foi ótimo. Teria sido uma pena não ter curtido a Praia da Armação. Calma com água limpa e sem ondas. Uma paisagem de cinema. Perfeita para despedida. Mais uma vez, os ônibus parecem estar a nossa disposição. Sem cuidar os horários, acertamos em cheio a hora de nos deslocarmos. A não ser pela ida ao aeroporto em que concordamos em ir bem cedo para não correr o risco de não chegar a tempo. Já sei por experiência anterior que se perdêssemos o voo promocional custaria muito caro para conseguir outra passagem e toda a economia que fizemos iria por água a baixo.
No aeroporto, a chuva começa. E não uma chuvinha qualquer. Uma tempestade de raios e trovões. Não faço nenhum comentário para não assustar minha amiga, mas ninguém gosta de voar assim. Já passei por isso, mas não recomendo. Não deu outra. Turbulência. Nada que me deixe nervosa. Aprendi a não dar muita importância e depois de vários dias fora da rotina, andando para tantos lados, o cansaço é maior do que o medo. Para contrabalançar, o piloto faz um poso perfeito e desliza nos solo gaúcho. Chegamos. Despedimo-nos já falando das próximas viagens. É, acho que agora minha amiga me entende: viajar vicia.


Friday, February 01, 2013

Django Livre - A violência da arte de Tarantino


Como sempre fui para o cinema com muito pouca informação sobre o filme. Mas pelo menos duas mereciam a minha consideração: estava na lista do Oscar e meu sobrinho João Mello havia gostado. Mas não sabia que tinha Jamie Foxx no elenco, muito menos Di Caprio. Tinha visto comentários muito favoráveis à trilha sonora no Facebook. Então, vou começar por essa. Até porque na primeira música já dá para entender porque as pessoas elogiavam. Durante toda a película, as músicas não passam despercebidas. Não são pano de fundo. Elas surgem salientes, em destaque e nos divertem, desde o início, com a competência em contribuir para nos colocar no clima. Já no primeiro acorde, na primeira cena fui fisgada para dentro da tela. Devo dizer, porém, que Django Livre não é exatamente o meu tipo de filme. Tem cenas, como a dos cães e da luta que eu, praticamente, não consegui olhar, tamanha violência, apesar de tentar manter a consciência de que não era real. Aliás, não sei se posso fazer esse tipo de comparação, mas há, nesse filme, um tipo de distanciamento provocado. Algum elemento que nos diz todo o tempo que se trata de ficção, como as produções teatrais de Brecht. Assim mesmo, tem horas que, para mim, é difícil de encarar. Mas, ao mesmo tempo, dei risada em várias cenas e eu acho que essa é uma das características mais interessantes do Tarantino. Esse humor agressivo, irônico, associado a imagens sanguinolentas, torturas, judiarias. Cada uma delas elaboradas tão cuidadosamente, com um senso estético tão perfeito que, mesmo que a gente fique arrepiada, vale uma espiadela. É preciso ser um gênio para fazer isso sem cair no ridículo, sem exagerar. Somam-se a isso interpretações incríveis como a de Christoph Waltz, no papel do alemão Dr. King Schultz, caçador de recompensas, que desencadeia o enredo. Gestos e falas tão precisas que nos levam a emoções autênticas e a reações as mais surpreendentes. Não importa quantas pessoas ele mate no filme, a gente acaba torcendo por ele. Quanto à Foxx, já tinha me deixado boquiaberta em Ray e segue provando que não há papel que ele não possa fazer. Assim, como Di Caprio, que ficou muito tempo fazendo personagens açucarados, mas que, desde o início de sua carreira (quando ele fez um personagem coadjuvante de um menino excepcional, cujo nome do filme nem localizei em sua biografia), já tinha mostrado que é muito mais do que um rostinho bonito. No mais, todo o elenco impressiona e dirigido por Quentin Tarantino fazem cenas extremamente difíceis. Não reconheci Samuel L. Jackson, apesar de ficar fascinada pelo personagem do mal (?) que ele faz, Stephen. Kerry Washington, que ainda não identifico com facilidade, aparece com toda a sua beleza. Todos os demais, e são muitos, ótimos em seus personagens, em suas atuações. E, apesar de todo sangue derramado, o filme, como já disse, me fez rir, principalmente pela forma debochada como Tarantino nos conta toda uma época. Sim, porque apesar dos exageros quase caricatos, a história está lá, no roteiro elaborado por ele. Os preconceitos, a crueldade. Além disso, a mim, parece que nenhum detalhe escapa. O figurino é impressionante. A fotografia também merece destaque. Seja nos detalhes ou nos planos abertos há um jogo de luz e sombra que não é comum. Por tudo isso, mesmo eu que não sou fã de filmes violentos, saio do cinema convencida de que vale muito a pena, que, mais do que um filme, o que assisti foi uma obra de arte, ou melhor, de muitas artes: musical, plástica, cênica e, é claro, cinematográfica. 

Monday, January 28, 2013

O dia em que o coração do Rio Grande parou


Sempre morei em Porto Alegre. Adoro a cidade. Quando escolhi o jornalismo sonhava em ser correspondente internacional, mas não pensava em morar em outro lugar. Em verdade, só tive uma oportunidade em Santa Catarina para exercer fora a minha profissão. Não quis. Mas, era comum eu dizer que se tivesse que morar no interior seria Santa Maria, conhecida como o coração do estado. Não conhecia muito a cidade, mas, nas poucas vezes em que fui, percebi uma energia boa no ar. A juventude, associada ao desejo de conhecimento, era uma mistura que tornava o lugar especial. Muitos eventos culturais, muitos cursos e, é claro, muitas festas, muitos bares charmosos e agradáveis, locais de discussão dos mais diversos temas e diversão.
Por tudo isso, tinha ainda mais interesse em acompanhar desde cedo as informações sobre a tragédia deste Domingo, 27. Como tenho hábito de acordar e ir olhar o Facebook já havia alguém comentando sobre o incêndio na boate Kiss mas ainda não dava para ter ideia da gravidade. A partir de então, foram surgindo novos dados, comentários, informações diversas. De crônicas a solicitações de auxílio. Não liguei o rádio, nem a TV. Perdi esse hábito. Estou cansada da maneira como a imprensa trata as notícias no dia-a-dia e em como conduzem as pessoas a falarem só sobre tragédias e violência todo o tempo, imagina uma hora dessas... Na rede social, os dados também chegam e, a meu ver, de uma forma mais reflexiva, atenta, afetiva e por fontes que eu tenho melhores condições de avaliar a veracidade, a confiabilidade. As opiniões vão se somando e eu posso tirar minhas próprias conclusões. Não sou induzida por uma linha editorial sanguinolenta. Sendo assim, fazia muito tempo que não assistia o Jornal Nacional. Nessa segunda, depois de ler uma publicação no Facebook que sobre a presença de “estrelas” do jornalismo na cidade, resolvi encarar. Logo de cara, comecei a me emocionar, a ficar angustiada, mas tomei uma decisão: assistir analisando o trabalho jornalístico.
Willian Bonner provou que sabe entrar ao vivo. Não titubeia. Também não esperava menos de alguém com toda a sua experiência. As matérias mostram os jornalistas indo atrás de várias fontes, dando ênfase a vários aspectos que o tema abrange. Os recursos tecnológicos permitem avaliar diversos ângulos das principais dúvidas levantadas. Os repórteres, no entanto, insistem em forçar reações emocionais dos entrevistados. É sempre assim, embora eu não lembre de ter aprendido isso na faculdade (e posso garantir que não era de faltar as aulas). O objetivo? Eu não ainda não sei. As pessoas dizem que é pela audiência. Isso quer dizer que está cheio de gente em casa querendo ver pela televisão o sofrimento alheio? Prefiro acreditar que é despreparo mesmo. Incompetência. Conclui que o próprio curso de comunicação deveria aprofundar a forma de abordar esses momentos, criar regras, impor limites. Ou de nada adiantará todos os recursos, jatinho, computadores de última geração. Estarão sempre pondo tudo a perder e merecendo todas as críticas e o deboche que recebem. Foi assim com os integrantes da banda.
O depoimento de um dos artistas pode ser criticado pelos parentes e amigos, mas posso imaginar o que ele quis dizer quando falou que pareciam animais. Tenho para mim que se não praticarmos ações menos egoístas em horas calmas não vai ser no pânico que vamos ajudar quem está querendo achar uma porta da saída. Os peritos ainda vão definir melhor tudo. Mas, embora existam queimados, já sabemos que foi a asfixia que matou a maioria das vítimas e... gente que caiu, foi pisoteada, o fato de terem sido encurralados buscando uma forma de sair.

Culpados? Eu tenho pavor de “caça às bruxas”. Acho que as pessoas são totalmente irracionais nessas horas. Considero que prender aqueles que estão sendo apontados como responsáveis é uma maneira de protegê-los, nesse momento. Tenho medo das pessoas que acham que devem tomar a justiça com as próprias mãos e não estou falando dos familiares e amigos.
Fora isso, foi uma tragédia, mas não uma catástrofe e mesmo assim, apesar de todos os esforços, de toda a união, há muitas falhas na hora de socorrer as pessoas. Muita informação desencontrada e fico simplesmente apavorada quando vejo lista de necessidades que vão de água ao papel higiênico. Por que estamos tão despreparados? Afinal, estamos falando de um evento localizado, com um número grande, mas muito inferior à população geral da cidade, do estado e infinitamente menor do país.  No entanto, é um corre-corre absurdo para resolver grandes e pequenos problemas. Então, é verdade. Podemos ser dizimados a qualquer instante por algum fenômeno da natureza, crise de energia, etc, tornando reais as profecias?
Não acredito no acaso. Não acho que a morte dos jovens tenha sido “causada” pela negligência. Minha crença é outra. Mas atenção: não estou dizendo que tudo deva ficar por isso mesmo. Muito ao contrário. Quero que se aprofundem muito em todas as questões, estudem a fundo o que pode ser feito diferente. Façam tudo para impedir novas tragédias como essa porque, como já foi dito muitas vezes, existem milhares de lugares em circunstâncias semelhantes a esse de Santa Maria. Provavelmente, entrarei em um amanhã.  Quanto às questões jornalísticas?  Apesar dos exageros e dessa tendência macabra de expor desgraças, a imprensa tem trazido à tona muitas discussões, investigado muitos fatos que de outra forma ficariam ocultos. De uma forma, meio torta, prestam um serviço à sociedade que tem ido muito além da informação.
Quanto a Santa Maria? Jamais será a mesma. Ela já não é. Mas sei que a dor também une as pessoas e essa união se transforma em uma força que todos vão precisar para enfrentar a tristeza, a saudade. Acredito que, aos poucos, a cidade vai renascer e que no lugar do eu, do tu, do dedo em riste, o que vai importar vai ser o “nós”. Não vai ser amanhã, nem mês que vem, mas as ruas vão voltar a ter aquele som de risadas e gente falando alto e música, todos aqueles ruídos da alegria quando se manifesta e eu espero que os jornalistas neste dia voltem para ver a cidade eu sempre achei que valia a pena morar.

Friday, January 25, 2013

O Rio na metamorfose da memória



Cada vez que volto ao Rio de Janeiro tenho novas impressões. O que comprova que as cidades estão permanentemente em mutação, assim como as pessoas.  Sim, o Cristo está no mesmo lugar (embora eu só tenha visto de longe dessa vez). O Pão de açúcar também. Aliás, todos os monumentos, pelo que eu saiba.  Eu, porém, certamente, cheguei  lá diferente das outras vezes e isso afeta a forma como observei a cidade, agora,  sob a minha ótica em 2013.
A maneira como fui tratada nas ruas dessa vez foi bem melhor.  Consegui informações das pessoas sobre os locais onde eu gostaria de ir. Uma moça me ajudou, inclusive, a retirar uma bicicleta para andar pela Lagoa Rodrigo de Freitas gastando o tempo dela e me proporcionando um dos melhores momentos da viagem. Fui bem atendida em lojas, comércios, etc. Isso, porém, não facilitou muito o meu trânsito por lá. Dependendo de transporte público, fui deixada na parada algumas vezes por motoristas que passavam pela faixa central, correndo, sem dar nenhuma atenção aos potenciais passageiros. Em poucos dias, porém, comecei a pegar alguns macetes. Escolhi paradas menos congestionadas, pedi ajuda aos que também esperavam o ônibus para confirmar se o ônibus que vinha à distância era o que eu desejava e andei, andei, andei, me perdendo e me achando e, nos momentos de maior preguiça, pegava táxi, o que não chega a causar grande prejuízo ao meu pequeno orçamento.  
Quanto à moda no Rio de Janeiro é bem difícil dizer. Lembro que há muitos anos, ficávamos impressionados com a quantidade de cores e adereços que nossos amigos cariocas gostavam de usar. Os dedos cheios de anéis, os brincos encostando nos ombros e as fortes cores das vestimentas eram motivo de comentários. Já não sinto mais esse estranhamento. Não sei se me acostumei, se também começamos a usar coisas assim... Porém, não é fácil falar de hábitos locais de uma cidade está repleta de turistas. Mas, embora seja uma cidade praiana, eles parecem ter suas regras. A gente não vê ninguém nos calçadões de biquíni, nem mesmo maiô. Se for para andar assim, vá para a areia.  Mas é claro que a gente vê muita gente de bermuda, de chinelo e que chamam a atenção os homens de terno. Aliás, os homens foram mais gentis comigo do que aqui em Porto Alegre, abrindo portas, dando passagem, oferecendo lugar. Até no trânsito alguns motoristas pararam para me dar passagem. Coisas que aqui já não acontecem mais comigo faz tempo. E isso que há muitas avenidas longas e largas o que, sem dúvida, faz com que eles gostem de correr e tentar chegar primeiro, como em qualquer outra cidade um pouco maior do Brasil.
Não aproveitei os famosos botecos, mas a cidade tem muita oferta de comidas rápidas e gostosas, lanches, sucos e coisas assim. Já os peixes e camarões mexeriam mais no meu bolso, então, só foram possíveis nas ocasiões em que meus amigos me “patrocinaram”, como em Búzios, mais precisamente na praia João Fernandes. Coincidência ou não, justamente essa praia foi escolhida pelo The Guardian como uma das oito praias mais lindas do mundo. Não posso opinar sobre isso pois ainda me falta conhecer muitas. mas, sem dúvida, foi um privilégio ter estado lá. Mas convenhamos... flanar gratuitamente pelas ruas do Rio de Janeiro já é algo especial. A paisagem, misturando mar e serra, é uma das coisas mais lindas que eu já vi e sempre me impressiona e me encanta. A proximidade da água, a falta de compromisso, o calor do sol na areia... tudo isso vai relaxando não só o corpo mas a mente.  Sou dessas que acredita sim que o clima interfere no comportamento das pessoas. E por falar nisso o astro rei apareceu sempre muito timidamente enquanto estive lá. Tinha que apostar que ia dar praia. Felizmente, ganhei quase todos os dias. Só no último, o que consegui foi me despedir com um banho de chuva como há muito eu não tomava. A sensação (antes de enfrentar encharcada o frio do ar-condicionado a toda do ônibus) foi de liberdade, de prazer. Sentimentos que estiveram presentes em toda a minha estada em férias. Se fosse a trabalho (o que nunca fiz), as impressões, muito provavelmente, seriam outras.
Não sei quantas vezes já fui ao Rio. Na verdade, não sei nem mesmo qual foi a primeira. Minhas recordações estão todas misturadas. Lembro-me de uma época em que fui com o pai e a mãe e que andávamos de carro por toda cidade, esbarramos em uma gravação com o Antônio Fagundes e a Ana pediu o autógrafo dele no nosso guia que nos permitia descobrir novos lugares, bem como meu pai gostava de fazer... Lembro de outra em que o meu irmão também estava, com a minha cunhada e o meu sobrinho e inventava programas como ir a Petrópolis ou a Paquetá. Lembro-me da minha primeira viagem de avião cujo destino foi justamente o Rio. Lembro-me do incrível convite para ir ao primeiro Rock in Rio e, é claro, jamais esquecerei de ter desfilado na Sapucaí devido a um convite inusitado que surgiu por causa da desistência de outra pessoa.
Dessa vez, não fui a teatro, não fui a cinema. Não vi nenhum show e, sem dúvida, tudo isso também faz do Rio de Janeiro uma cidade especial. No entanto, há algo que venho aprendendo com essa cidade: a vida é feita de escolhas. Não adianta ficar lastimando aquilo que a gente não viu, aquilo que a gente não fez, o lugar em que a gente não esteve. Somos exigentes e insaciáveis. Queremos sempre mais e mais. Perdemos a chance de parar um pouco, respirar fundo e pensar: eu estou exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria estar fazendo, seja dentro do ônibus trancado no trânsito ou com água até o pescoço vendo os dedos dos pés.
Tomara que eu ainda possa voltar muitas vezes. Que eu possa ir decifrando cada vez mais essa cidade incrível da qual tenho cada vez mais ótimas lembranças para guardar porque, para quem não sabe, até o que parece ruim em um momento, acaba sofrendo uma metamorfose na memória e acaba provocando saudade.           

Monday, December 31, 2012

"A vida vem em ondas"


Desde os dez anos que escrevo algo no dia 31. Sério. Considero uma data importante, pois além das comemorações é um dia em que a gente acaba fazendo uma espécie de avaliação do que nos aconteceu e das nossas atitudes, é meio inevitável. Pelo que me lembro, sempre dei um jeito de encerrar o meu texto com alguma mensagem de esperança e não creio que esse ano vá ser diferente.
Comecei 2012 ganhando a possibilidade de cuidar melhor da minha saúde de um jeito muito especial que mais me parecia um presente divino. Logo no início, fui ao Rio de Janeiro e fortaleci ainda mais uma amizade com alguém que entrou na minha vida pelo trabalho e se instalou pelo afeto.
Foi o ano em que consegui, finalmente, retornar à Paris e, talvez, por isso mesmo, pelo menos até outubro, nenhuma coisa ruim de fato me atingiu. Passei por momentos chatos, claro. Encarei pessoas inconvenientes, óbvio. Falta de grana? Alguma dúvida? Porém, em todos esses momentos, eu estava lá, concentrada, pensando que no dia do meu aniversário estaria na cidade luz, falando uma língua que amo e, dessa vez, de lambuja, com a minha irmã, meus dois sobrinhos e amigos. Não dava para ter “tempo ruim”. E não é que com isso o dia-a-dia ficou mais interessante?
Fiz novos e especiais amigos. Fui chamada para fazer pequenos trabalhos ligados ao teatro, comemorei com muita conversa e risadas vários momentos com as pessoas que amo. Ah, fiz muitos almoços, jantares, comidinhas especiais por puro prazer de reunir as pessoas em volta de uma mesa. Acompanhei a compra da casa nova de minha irmã e produzi, com a minha irmã e a minha mãe, vários materiais tentando levar as pessoas um pouco mais de conhecimento. Em troca, muitos elogios ao meu pai, criador dos jogos da família, muitos agradecimentos por esses produtos existirem. Surgiram trabalhos inesperados,  assim como continuei fazendo outros em que posso perceber o que aprendi até agora.
Fui a Buenos Aires, apresentar minhas ideias. Venci meus medos de falar em público e até em outras línguas, vejam só...Vi trabalhos artísticos lindos, outros de muita garra. Andei pelas ruas da minha cidade, de outras cidades, em outros países. Segui fazendo natação e reduzindo assim minhas ansiedades e, sempre que algo me tirava do meu equilíbrio, logo logo encontrava um amigo para me tranquilizar, para mostrar que a vida era muito mais do que aquele momento e que sim, o que quer que fosse ia passar. E passou. A prova está que chegamos ao final do ano.  E há poucos dias lá se foi uma pessoa que sempre teve muita importância na minha vida, mesmo quando distante. A simples lembrança dela era capaz de me fazer sorrir, de me confortar. Mas eu me nego a ficar triste. Me emociono, de vez em quando, claro, mas eu e ela sempre soubemos que a vida é efêmera e que como 2012 passa muito rápido. Tão rápido que só me instiga a continuar com essa urgência de viver, de me concentrar nas coisas boas, a dar valor para o que realmente importa e a continuar tentando ter cada vez mais gente que dê valor a cada minuto por perto. E por incrível que pareça o ano está terminando cheio de perspectivas de que eu não vou querer isso sozinha.  Que 2013 seja um ano de mais encontros e de reencontros. 

Monday, December 03, 2012

Palavras que estremecem, cenas que transformam o espetáculo da vida



Não sou dessas pessoas que se apaixonam pelas palavras, mas “estremeço” tem uma sonoridade que me agrada e que me atraiu para ver o trabalho da Cia Stravaganza mesmo mantendo o hábito de não ler nada a respeito para não estragar a surpresa. Assim, desde o primeiro momento, fiquei em suspensão ao ouvir cada parte daquele texto curioso, enigmático, profundo. Não demorou muito para surgir uma sensação de prazer, de alívio, por constatar mais uma vez a força do teatro em traduzir o que nos angustia, o que está em nosso pensamento, o que faz parte do nosso dia-a-dia. Porém, não de um jeito mastigado, liquidefeito, mas instigante e desafiador.
Precisava ser um grupo como esse para trazer ao palco o texto de Joël Pommerat, esse francês que descobriu, desde os 12 anos, que era o teatro que lhe interessava. Essa paixão está em cada palavra. Todas as dúvidas de quem se interessa pela arte, de quem não deixa a vida passar em vão, de quem quer ir ao fundo de todas as questões da existência e que volta ao começo, busca as origens, tentando resgatar um otimismo, uma razão e esbarrando tantas vezes no vazio, no susto, no medo, mas mantendo ainda assim o humor, me levando a uma disputa entre manter a atenção no palco e ao que cada cena me provocava.
Dei muitas risadas nos espetáculos anteriores do Stravaganza. Admirei o trabalho de Rodrigo Mello quando o vi pela primeira vez e segui apreciando as atuações dos meus amigos Lauro Ramalho e Sofia Salvatori. Dessa vez, tenho ainda o prazer de rever Adriane Mottola em cena. De fixar meu olhar em Cassiano Ranzolin que tem uma energia magnética. De sentir medo do personagem de Duda Cardoso durante todo o tempo e de me impressionar e divertir com a multiplicidade de Janaina Pelizzon. Todos expressivos e intensos.
Enquanto os assistia me perguntava o que era criação do grupo, o que o autor havia definido e vislumbrei uma semelhança ao pouco que conheço dos textos de Heiner Müller, em que tudo fica para ser pensado por quem decide encená-lo, sejam os atores, ou o diretor. Devo dizer que não tenho facilidade em identificar as habilidades desse último. Não sem conhecer o processo. Não quando ele acerta. Nesse caso, ela: Camila Bauer. Porém, um amigo tornou isso muito claro ao explicar que, mesmo que as escolhas das ações, do cenário ou de qualquer outra coisa em cena não seja da diretora, ela tem que aprovar. Afinal, é o seu nome que vai “assinar” tudo isso. E em Estremeço existem momentos muito especiais, audaciosos, mostrando que ainda não vimos tudo que é possível no teatro. Fernanda Petit  dando seu texto em um microfone no chão é um desses e existem muitos outros. Também observo que quando não há nada a excluir, quando há uma precisão, isso é mérito da diretora.
Além disso, ao verificar que Elcio Rossini assina a cenografia já não me espanta que tenha visto pernas de aranha no que deveria ser uma cortina, de me surpreender com os artefatos que traziam e levavam os atores e, embora Naray Pereira seja um nome novo para mim, não posso deixar de falar do figurino que me parece absolutamente impecável.
Estremeço prova mais uma vez para mim que arte é literatura, arte é comunicação, arte é psicanálise e sintetiza isso tudo ali, naquele palco. Resume todas as discussões filosóficas em pouco mais de uma hora de uma forma contundente, impactante, mostrando o quanto o teatro pode revolucionar por fora e por dentro. A sensação de sair do teatro diferente de quando entrei me garante que nesse mundo tão caótico em que vivemos é a arte que nos manterá vivos no sentido mais profundo dessa palavra. E por falar nisso, tem horas (não muitas), em que o português consegue ser mais belo que o francês. Assim, “Je tremble” passou a ser “Estremeço” cuja palavra soa aos meus ouvidos de uma forma muito mais intensa causando sensações que só quem viu o espetáculo pode sentir.  Estremecer significa fazer tremer, abalar, sacudir, causar medo. Esse espetáculo faz tudo isso e vai além.

Saturday, November 24, 2012

Randevú com o homem que mudou a minha vida


Nem sei se o que tenho para dizer do espetáculo de Zé Adão Barbosa vai servir de alguma forma. Mas ficar tentando verificar a utilidade das palavras me parece ainda mais inútil quando se trata de arte. Não li os comentários sobre o espetáculo Coração Randevú. Tive medo que me tirassem as surpresas, interferissem em minhas próprias impressões. E foi assim que cheguei a Casa de Teatro para ver o meu mestre.
Confesso que não há coisa melhor do que ver alguém que a gente admira atuando. Nem pior. Ainda essa semana, comentava que simplesmente detesto o “compromisso” de ter que gostar das coisas. Essa é uma palavra que traz junto uma carga, um peso, um desagrado. Fui ver o Zé porque queria, porque desejava ver em cena nem que fosse uma pequena parte de tudo que aprendi com ele, pois muito antes de dar importância para o seu trabalho como ator, diretor, eu o conheci como professor.
Já contei outras vezes que foi, por acaso (se é que isso existe) que fui parar no teatro, levada por uma colega de trabalho que iria começar uma oficina com ele. Ela desistiu. Eu me apaixonei.  E, hoje, só posso pensar que tenha sido essa paixão comum que fez ele me acolher, me entender, me incentivar. Assim, no final dos anos 90, passei a ver Zé Adão Barbosa todas as semanas durante três anos. E não só a ver. Mas ouvir, entender, visualizar cada gesto, cada palavra, cada movimento. E nunca foi chato, nunca foi repetitivo, nunca foi rotina. Ao contrário, o compromisso da aula me fazia pensar por que fazia aquilo, mas não houve um só dia que não saísse feliz, cheia de energia e de vontade de sugar a vida. E é isso que vemos no espetáculo. Essa intensidade, essa garra, esse desvario que persegue todo o artista.
Disse para o Zé, ao final do espetáculo, que chorei todo o tempo. E ele disse que é porque é um espetáculo que mexe com a memória. E ele não está errado. Mas é porque trazia a minha lembrança a importância de tê-lo conhecido. De já saber de algumas histórias que ele traz para o palco. Pela emoção de ter compartilhado algumas em minha própria casa e por lembrar quem eu era antes e depois de tê-lo conhecido. De voltar a sentir a emoção de vê-lo inteiro, expressivo, exposto, escancarado ao contar a sua vida, ao mostrar como é possível tratar as palavras de forma tão diferente só com a mudança de timbre, de intenção. Tal qual aquela vez em que ele provou por A + B que podíamos dizer “nuvem” com leveza e alegria como também com pesar, bastando para isso imaginar que essa impediria uma ida à praia. Ou a tantas outras em que, acrescentando um “detalhe”, ele fazia crescer, impactar a ação de um ator e foram tantos aprendizes que hoje estão por aí...  
Bem, mas tudo isso pode ser muito pessoal e não convencer ninguém de que Randevú merece ser visto.  Mas isso só para quem acha que Fernando Pessoa não tem nada a nos dizer, quem não se interessa por poesia, por música, por reviver tudo o que nos faz sonhar. Para esses não há encontro possível. Zé Adão leva para o palco o que ele é, o que ele sabe, o que ele não sabe, com a delicadeza e a firmeza que passou pela mão de Patrícia Fagundes e que enfrentou as dúvidas, as certezas, as inseguranças desse artista, a quem eu só posso agradecer pelo resultado, não só do trabalho mas pelo que sinto ela fez pela sua alma.
Minha vida se divide entre antes e depois de cruzar com Zé Adão Barbosa no meu caminho. Permitiu-me resgatar todas as coisas que sempre tiveram valor para mim, provocou uma descoberta da minha essência.  Depois do Zé, fiquei ousada, corajosa, sedenta. Dei destino a minha sensibilidade que, até então, tanto me atrapalhara. Assim, nada melhor do que voltar a ver agora esse homem em cena. Esse que considero meu amigo. Amizade que deixava meu pai, cuja relação fora sempre tão difícil comigo, orgulhoso. Que também impressionara minha mãe, meus sobrinhos (que também foram seus alunos), meu irmão (que já sei foi), ou seja, minha família. Que passou a ser para ele: os Mello, sempre tratados com a delicadeza que ele teve ao entregar a rosa do final do espetáculo para a minha mãe.  Esse é o meu eterno professor, o homem que mudou a minha vida e que, em cena, provocou emoções que só podiam me levar às lágrimas. 

Tuesday, November 13, 2012

Um por todos e todos por Plauto Cruz. E quem pela arte brasileira?


Foi pelo Facebook que fiquei sabendo que Plauto Cruz precisava de ajuda e não estava bem de saúde. Foi também pela rede social que recebi a informação de que os artistas haviam se mobilizado para fazer um show cuja arrecadação seria destinada a ele.  As duas coisas me sensibilizaram de um modo especial.  Afinal, mesmo não sendo tão musical quanto eu gostaria, esse músico entrou em minha vida há uns 30 anos, quando Ricardo Silvestrin me informou sobre suas apresentações no Vinha d’alho, cujo nome só identifiquei quando citado hoje no show.
No programa, 30 músicas previstas. Alguns nomes que eu conhecia muito bem, outros nem tanto. A plateia lotada. Confesso que os primeiros quatro nomes eu não conhecia. Já as músicas... Em 3º lugar, Darcy Alves cantou “Esses moços” e mesmo esquecendo em alguns momentos parte da letra, sua voz e sua interpretação, receberam fortes aplausos. De mim, em pé. Tem sido fácil me emocionar ultimamente.
Cristiano Quevedo cativou a plateia com o seu refrão “Eu te espero, meu coração, vem dividir comigo o chimarrão”. Logo em seguida, Renato Borguetti, mesmo dizendo que não era muito de falar, conta que teve o prazer de dividir o espaço muitas vezes com o homenageado na Cia de Sanduíche, já que morava em frente. No palco, ele mistura piano, violão, flauta, gaita e parece se divertir. Faz um verdadeiro diálogo com as notas, o que parece explicar porque ele não é apenas mais um gaitista. O Clube do Choro também não faz feio e tudo parecia bem até Plauto Cruz aparecer no palco.
Em uma cadeira de rodas, surgia o homenageado, visivelmente debilitado. Já vi minha irmã, que foi ao show comigo, em uma cadeira de rodas depois de ter sido atropelada e convivi com meu pai debilitado por uma doença cardíaca, mas ali o Plauto era o foco. E nem Claudio Britto (um dos apresentadores além de Tânia Carvalho e Juarez Fonseca), nem os aplausos, nem o pessoal da emergência de prontidão, conseguiu minimizar a agonia de vê-lo tão de perto tentando ajustar o microfone ou tocar sua própria flauta. No início, todos apenas aguardavam enquanto ele dizia: “surgiram alguns imprevistos, mas não é nada”. Mas não demorou para que suas tentativas se mostrassem totalmente improdutivas.  Enquanto isso, as pessoas comuns e a imprensa faziam fotos e filmavam. Por alguns instantes me vi a favor da censura. Qual a necessidade daqueles registros?  Doía em mim as tentativas de Plauto de tentar se comunicar ou soprar a flauta.  Minha vontade era subir no palco e protegê-lo, segurar a sua mão, passar a mão na sua cabeça. Onde estavam, afinal, seus amigos? Ninguém podia tentar ao menos ouvi-lo? Só posso imaginar que ele fizera questão de estar ali e que aqueles que lhe são mais próximos sabiam o quanto era importante deixá-lo tentar fazer o que pretendia. Finalmente, Britto tomou a atitude de pedir palmas e alguém, que acredito ser da sua família, pouco depois, recolhia a sua flauta. Finalmente, os paramédicos o retiraram do palco. Ainda ouvimos Plauto dizer: “não era isso que eu tinha planejado”. Ele argumentara que a flauta não estava funcionando, que o microfone não estava bom, mas sua fragilidade parecia a explicação para tudo, tivesse ele ou não razão já que tantos outros músicos reclamariam de algo parecido depois.
Creio que só consegui começar mesmo a me recompor quando Rafael Ferraz disse que Plauto havia mostrado que a musicalidade ainda existia em seu coração que, segundo ele, aliás, é onde aparece pela primeira vez em qualquer músico. Até ver e ouvir Ivone Pacheco, minha cabeça ainda fervilhava com essas imagens. Depois, Lucio Yanel apresentou  El Condor Pasa não sem antes dizer que, durante os 26 anos nos quais morou em Porto Alegre, esteve pela noite próximo de Plautinho, como o chamavam.  E o clima de celebração foi ressurgindo com a interpretação de Noites Cariocas, do grupo liderado por Luiz Machado, com Feijão no pandeiro. O destaque para esse último vem por conta do fato de que eu o conheço. Já quase fizemos um trabalho juntos e sei da sua ligação profunda com a música e seu jeito divertido, o que deve justificar ele continuar exatamente igual há anos quando nos encontramos pela primeira vez. Além disso, é nessa hora que eu fico sabendo que as músicas do Plauto foram registradas por escrito pelo líder do grupo, o que, sem dúvida, é algo vital para todo e qualquer músico. “Eles são os que mais se divertem”, disse a minha irmã, se referindo aos músicos.  O que me fez pensar o quanto isso também é válido para o teatro. Creio que, na verdade, para todo e qualquer artista. 
Bem, e aos poucos, vários artistas foram desfilando pelo palco do Renascença em homenagem a Plauto Cruz. Dizendo palavras carinhosas, de reconhecimento pelo seu talento, pela sua generosidade, sua genialidade. Vi gente tocando violão de um jeito quase divino. Não fosse a necessidade de ter que ajustar os instrumentos a cada apresentação, aquelas vozes e notas pareceriam toques de mágica. Porém, o trabalho incrível dos assistentes de palco eram registros concretos das necessidades técnicas que um show com tantos artistas, tantos talentos exige. E um único holding fazia quase todos os ajustes, demonstrando que entendia de todos os instrumentos e ainda era capaz de se comunicar com os demais apenas por sinais. E assim, seguiram-se as horas em que cada artista, por instrução da produção do espetáculo, foi contando qual o seu vínculo com o homenageado, alguma história que os ligava, o que tornava tudo mais interessante e não deixava nenhuma dúvida da importância desse para a música não só do Rio Grande do Sul, nem do país, mas, simplesmente, da música. Houve mudanças na programação, estabelecida por Pedrinho Figueiredo. E foram muitas apresentações, muitas histórias de todos os voluntários que se engajaram nessa ideia provocada inicialmente por Graça Garcia até chegar a outro músico que também faz parte da minha lembrança de uma mesma época em que eu começava a ganhar a minha independência e sair por aí. Foi a vez de Nelson Coelho de Castro que cantou Cristal 753 e explicou que, quase sem querer, fez a escolha dessa música que era o seu endereço de uma casa no bairro onde eu moro hoje e onde Plauto havia estado. Diferente dos demais, confessou que, às vezes, se irritava com o flautista que atendia a todas as súplicas da plateia para que tocasse alguma música, “o que ele fazia a cada vez melhor, com uma generosidade que o faz um baluarte da cultura de Porto Alegre, um patrimônio da cidade”. Nelson encerrou sua participação dizendo: “Salve Plauto para sempre”.
E de resto foi tudo muito lindo, muito emocionante, muito bem pensado pelos organizadores e pela Secretaria Municipal de Cultura, permitindo que Hique Gomez mais uma vez mostrasse o seu talento ao se apresentar com uma banda formada nos bastidores.  Porém, não posso deixar de concordar com um dos meus poucos amigos músicos, Marcos Ungaretti, que nunca, jamais um artista, quanto mais no nível de Plauto Cruz, deveria ter que chegar ao ponto de fazer um show beneficente a si próprio.  Enquanto a cidade e a imprensa discutem a Copa do Mundo de 2014 e as obras dos estádios, os músicos, em geral, seguem sem espaço para mostrar os seus talentos e sem condições de manter uma vida digna, principalmente, se o corpo não lhes permite continuar fazendo aquilo que mais sabem: arte. Nesse espetáculo tão especial, em tantos sentidos, tive orgulho de ser gaúcha. Tive vergonha de como tratamos nossos artistas. Queria ter apenas chorado com o choro da flauta de Plauto Cruz, mas foram lágrimas reais que molharam meu rosto nessa noite.

Saturday, October 06, 2012

Meus pais nunca me disseram: “eu te amo”


Como todo mundo que se interessa por psicologia, psicanálise, psicoterapia, acabei analisando as atitudes dos meus pais na busca de explicações para coisas que aconteceram comigo. Passei anos (que pareciam infindáveis) com problemas de autoestima. Embora já tenha ouvido pelos parentes que, desde pequena, era extrovertida, falante, engraçada, minha adolescência me levou, como geralmente leva, a crises profundas, revoltas, vontades que iam, desde sair de casa a morrer, desaparecer da face da terra.
Sim, eu me lembro de me sentir sozinha antes disso. Por alguma razão, eu estudava em períodos diferentes das minhas duas irmãs e do meu irmãos e ficava com as auxiliares em casa enquanto os demais iam com os meus pais professores para a escola. Houve outras circunstâncias semelhantes. Depois o sentimento de solidão tinha mais a ver com o fato de não ser compreendida. Eu me sentia frágil, carente, quase todo o tempo. Meus pais haviam sido criados por pais determinados, batalhadores, de boa índole, amantes da ética e dos bons costumes. Associado a isso, vinha uma ideia de que se estivéssemos limpos, saudáveis, alimentados era suficiente. Não para mim. Eu queria mais. Só não sabia exatamente o que, nem como. Mas achei que precisava buscar fora da família.
Talvez, por isso, já aos dez anos tenha me apaixonado por um colega de classe. É claro que era platônico. Não, nunca me declarei. Acho até que ele nem sabia. E aos 13 engatei em um namoro com outro. Foi quando disse “eu te amo” para alguém pela primeira vez. Ah, e ouvi também. Mas era tudo muito conturbado. Eu não me amava como alguém poderia me amar? E o que eu devia fazer para sentir esse amor, acreditar nele? Isso gerou muitos conflitos, a partir dos 18, quando não bastava ser bom moço para me interessar e outros começaram a me querer também.
Nos últimos dias, me peguei, pensando que, só recentemente, tenho ouvido, com mais frequência: “eu te amo”, dito pelos amigos. E eu acabo duvidando, achando exagerado e não raro vem àquela vozinha: “me ama porque não me conhece direito...”. Em seguida, percebo que isso é falta de prática em ouvir essas palavras. Não posso dizer que faz muitos anos que não digo. Vez por outra, faço uma força e deixo as palavras saírem, sempre pensando que se ficar evitando, um dia, poderá ser tarde demais. Não é fácil. Afinal, demorei muito tempo para valorizar o amor que recebi dos meus pais mesmo sem eles saberem como expressar isso e acredito que, numa atitude defensiva, passei a dar muito valor aos gestos, ao comportamento e menos a essas palavras. Outro dia, pensava nisso enquanto segurava o meu cachorro doente dentro do banheiro em uma tentativa de “nebulização” para ajudá-lo a sair da crise respiratória em que estava. Se não fico dizendo que amo pessoas, nunca digo que amo meus bichos, mas sempre me esforcei para mantê-los limpos, alimentados e saudáveis. Será que basta? Bem, me acostumei a achar que sim, mas se fosse totalmente verdade, por que me vem uma tristeza, uma melancolia quando algo me traz à memória meu passado, uma época em que eu, não só amava, como amava demais. Era bem sofrido. Então, por que essa saudade? Acho que é da esperança de encontrar alguém para me dizer: “eu te amo”. 
Daqui a alguns dias, faço 50 anos. Já está mais do que na hora de voltar a dizer “eu te amo” novamente. 

Saturday, September 29, 2012

Intocáveis: o luxo de uma relação improvável


Muita gente comentando sobre o filme Intocáveis. Deixei o tempo passar sem escrever nada, mas acabei tendo vontade de registrar algumas impressões. Porque não é sempre, não tem sido tão constante como eu gostaria, ter algo que me motive como nesse caso.
Primeiro: não gosto da cena inicial. Por quê? Bem, porque  é uma enganação de uma situação crítica, de emergência. Um trote. E essas coisas nunca foram do meu agrado. Porém, é uma cena incrível, muito significativa. Nela já reside a cumplicidade dos dois personagens principais, na maneira como eles encaram a situação terrível em que se encontra um tetraplégico. E é ela que já começa a nos dizer que não se trata de uma história para sentirmos pena. Nisso reside a maestria desse filme.
A fotografia do filme é linda. Não é escura. Não trabalha com tons de desgraça, tristeza, pesares. O fato de um dos personagens ser rico e quase todas as cenas se passarem nesse ambiente de luxo fica impressionando nossos olhos e, pelo menos para mim, saber que eles estão em Paris também reforça essa sensação. Porém, não é isso o verdadeiro valor dos Intocáveis. Ao contrário. É o olhar que eles fazem para dentro de si mesmos, e entre eles, que nos toca. Além disso, o filme mantém, na maior parte, um tom cômico. As coisas mais graves e dramáticas aparecem de forma levemente engraçada. E sem que percebamos estamos rindo daquele corpo inerte, daquela incapacitação. Por sadismo? Não. Mas porque o filme consegue nos passar que não é somente naquilo que se restringe o protagonista. Talvez fosse antes de ele estabelecer a relação com seu cuidador que é o verdadeiro foco. E por que ela se estabelece? Pela necessidade. De ambos. Coloca a desigualdade social em paralelo com a incapacidade física. De certa forma, ambos carecem de mobilidade. E a medica que a relação deles vai se aprofundando, as cenas vão sendo apresentadas como sopros de vida, nas duas vidas. E nós podemos sentir o afeto crescendo e trazendo expectativas para os dois.
Não há nada de patético. Eles se divertem e dançam, trocam confidências. Entre carros de luxos, ambientes incríveis e críticas ao mercado da arte, os dois atores nos encantam com suas performances que são devidamente reforçadas por todos os demais personagens do filme que seguem a mesma forma de atuar em que olhares e sorrisos dizem mais do que todas as palavras. Aliás, tirando raros momentos de conversas mais longas, o filme explora de modo perfeito pequenos gestos e expressões.
Nenhum aspecto é esquecido. Sexo, morte, drogas tudo é trazido à-tona sem discursos moralistas nem lados fúnebres. São temas que vão aparecendo aos poucos, na medida em que a relação se intensifica. Assim, enquanto tanto se fala em acessibilidade e inclusão social, os Intocáveis dá uma aula, mostrando que não são apenas rampas e portas que farão com que qualquer pessoa que tenha algum problema físico ou interior se sinta pertencente a algo. É preciso troca. É preciso atenção. É preciso ver no outro tudo que ele é além da sua incapacitação. O filme faz isso parecer fácil e saímos dele mexidos com tanta sutileza, com tanto sentimento. Saber que se trata uma história verídica só valoriza a força dessa obra que soube captar de maneira genial esse relacionamento improvável.  Creio que é por tudo isso que ninguém sai do cinema intocado. 

Thursday, September 20, 2012

“Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamás”*



É lúdico, é crítico, é poético, é técnico, é genial. Antes de sair, tentei ver quanto tempo tinha para pensar na logística da volta. Não encontrei Fuerza Bruta entre os espetáculos. E não é à toa. Ele está na lista de shows e foi programado para ser apresentado no Pepsi on stage, onde eu nunca tinha ido antes. Não podia ter feito uma estreia mais perfeita. Voltarei a esse local, mas, dificilmente, verei algo melhor. Se bem que quando se trata do Porto Alegre em cena, e do que Luciano Alabarse é capaz de trazer a cidade, é melhor não dizer isso.

Fui sozinha e não lembro quando foi a última vez que fui aos espetáculos sem ver na plateia as caras de teatro. Mas é isso que o festival faz além de incluir diversas faixas etárias e muitas “tribos”. Do salto alto a cabelos roxos e tatuagens. Sem lugares marcados, em um espaço enorme, as pessoas iam chegando sem saber muito onde ficar e havia uma inquietação, um burburinho e uma tentativa de disputar o melhor lugar mesmo sem saber onde seria. Entretanto, assim que somos induzidos a entrar isso já não faz o menor sentido. Durante todo o tempo o foco é mudado de lugar. Somos levados de um lado para outro, obrigados a fazer um movimento conjunto e não individual e, muito menos, individualista. E a tensão que paira no ar nos faz cúmplices e não tenho dúvidas de que provoca em cada um impressões diferentes. Para mim, a fumaça que começava a preencher o ambiente, enquanto todos olhavam para o alto sem espaço para se mover, lembrou uma cena do filme A lista de Shindler quando os judeus entravam para as câmeras de gás ainda sem saber o que aconteceria mas tensos. Dramático, eu sei. Tem pessoas que acham que comentar ou criticar um espetáculo não tem a ver com dizer o que se sente e o que se pensa sob um ponto de vista pessoal. Eu, porém, em geral, não leio o que os outros escrevem, pois tudo que encontro é uma descrição das cenas, o resumo das histórias, meio que se encaminhando para aquele chiste de quem avisa que o protagonista morre no final. Eu, por outro lado, não sei escrever sobre nada se tiver que deixar de lado minhas impressões. Só fiz isso quando escrevia sobre notícias e não assinava os textos. Hoje, quem me lê já sabe que vai encontrar a minha opinião associada com as minhas experiências. E é isso que o espetáculo significou para mim. Mas, não se engane que tudo possa ser assim previsível. Se você pensa que já viu de tudo, devo dizer que esse show prova que não.

Felizmente, a expectativa nesse caso era mais branda, embora as cenas que seriam propostas nos colocariam em cheque com algo pesado, a imagem da violência e a inutilidade do esforço constante em direção a algo que não se alcança nunca. Mas essa é apenas uma das propostas. Existem outras mais leves, divertidas e que também nos envolvem. E quando você está simplesmente maravilhado com os integrantes do grupo, desejando ser um deles, fazer o que eles estão fazendo, eles se misturam com o público e vão além do anúncio feito no início de que você faria parte do espetáculo. Agora, são eles que fazem parte do público. E eles se arriscam fisicamente embora pareçam estar brincando. E eles mostram a beleza estética do corpo humano em movimento. Isso tudo de forma vertiginosa e com um rigor, uma precisão impressionantes. Ao sair, concluo que, se um dia eu pensei que as palavras nos salvariam da nossa desumanidade, hoje, acredito que é a arte. Creio que serão necessárias outras Fuerzas Brutas.

*Ernesto Che Guevara

Ficha Técnica

Direção artística: Diqui James / Direção Técnica: Alejandro García / Produção: Diego Weinschelbaum / Produção Executiva: Analia Turuzzi e Liz Hood / Elenco: flutuante / Duração: 60min / Recomendação Etária: 16 anos

Monday, September 03, 2012

FITE: Sete dias de arte circulando pelas ruas, pelas veias, pela vida.


Quando tomei conhecimento do Festival Internacional de Teatro estudantil pensei que não poderia acompanhar, pois estava envolvida com outras atividades. Felizmente, acabei sendo convidada pela Coordenação de Artes cênicas para ser analisadora dos espetáculos. Tive uma pequena participação nesse evento que promoveu workshops, palestras, debates, além de claro, dos espetáculos.
Dos quase 40 espetáculos apresentados vi apenas aqueles que comentei. Sete no total. Não vou falar de todos, pois teria muito que escrever e não é tarefa fácil resumir o que significou ver esses trabalhos. Uma coisa que repeti em todas as apresentações foi o meu prazer em ver teatro com tanta gente no palco. Por uma questão de praticidade, de logística, o teatro de hoje tende a ser de grupos menores e, até mesmo, monólogos.  Assim, ver a solução desses diretores para garantir a participação de todos, seja criando núcleos, dividindo funções, mesclando formas artísticas como a dança, a música, a contação de causos... Em quase tudo que vi havia soluções cênicas inteligentes e criativas que exigiam dos atores uma maturidade que superou em muito as minhas expectativas.
Preciso falar também como foi bom ver em prática essa ideia de fazer pensar a arte através das discussões com o grupo e com a plateia. Depois de ter sido mediadora da Bienal do Mercosul, foi ótimo poder fazer isso com  teatro. Por ser uma proposta nova para mim, não sei se fiz certo ou errado, mas não achei que devesse considerar toda a adversidade que professores e alunos enfrentam para chegar aos resultados. Tentava olhar com certa frieza, como um espectador que paga o ingresso e vai assistir a um espetáculo. Sei que isso deve ter parecido muito injusto em algumas ocasiões, mas acabei me tranquilizando ao perceber que, toda vez que fazia um comentário mais crítico, a própria plateia tomava a frente e partia em defesa dos grupos que saiam do palco com muitos elogios e muito reforço para continuar fazendo o que estavam fazendo.
O FITE mostrou o resultado de uma equipe competente que não mede esforços para abrir espaço para as artes cênicas e que sabe enfrentar diversidades e lidar com os imprevistos deste evento que me ensinou novas palavras pelo espetáculo de Isaias Quadros com Eros e Thanatos in Pessoa, me fez saber mais sobre o Rio São Francisco pelo grupo de mineiros, me emocionou com a dura realidade retratada pelo grupo da CESMAR, me mostrou a liberdade da arte na releitura de Giselle em cordel, me divertiu com as histórias do Reino das Névoas e O mágico de Oz. Porém, o melhor de tudo é que não fez isso só comigo. Atraiu um público de estudantes que, em sua maioria, se comportou melhor do que plateias adultas, muito mais acostumadas com teatro. Não havia celulares tocando, fotos sendo tiradas, conversas paralelas. Ao contrário. Silenciosos, respeitosos.
Durante sete dias, houve uma movimentação intensa nas salas teatrais da cidade. Workshops, oficinas, gente trocando experiências, compartilhando conhecimento ou simplesmente fazendo como o menino ruivo que se aproximou de mim e disse: “Muito prazer. Meu nome é Leonardo. Que lindo esse teu anel.” Gentilezas que surgiam do prazer de estar próximo de pessoas que gostam das mesmas coisas, que entendem a importância do “fazer de conta”. Agora, nada foi mais emocionante e me trouxe mais esperanças no futuro do que ver a Dona Hilma no palco totalmente concentrada em suas cenas. Uma senhora de avançada idade, mesclada a um elenco heterogêneo que deixou ainda mais claro porque o teatro me apaixona. Para fazer teatro não é preciso ser alto, baixo, magro, gordo, louro, moreno, branco ou preto, jovem, velho.
Fui para analisar, que em grego significa “dissolver”, para facilitar a compreensão, uma prática utilizada antes mesmo de Aristóteles como um método para a descoberta de fenômenos físicos. Sai dissolvida em poesia, em emoção, em energia, entendendo ainda mais que o teatro é a arte da inclusão natural, onde todos podem tudo e descobrimos o quanto a vida vale a pena se explorarmos ela com coragem até o fim.







Wednesday, August 29, 2012

Um espetáculo para iluminar a alma



Quando eu ainda estava no Departamento de Artes Dramáticas, fui duramente criticada pelos colegas nas redes sociais por dizer que eles eram pretensiosos por quererem, já de início, fazer espetáculos a partir de textos de dramaturgos famosos, clássicos como Romeu e Julieta, as Gaivotas, etc. Ainda penso que certas obras exigem maturidade do ator e não estou falando aqui de idade, mas de experiência, de ensaios, de preparação. Então, foi com surpresa que recebi o trabalho do diretor Igor Ramos em O mágico de Oz, apresentado pelos alunos da Escola Cecília Meireles, no Festival de Teatro Estudantil.
Como diz no programa, livremente adaptado da obra de L. Frank Baum e que já foi montada muitas vezes por grandes companhias internacionais, transformada em filme... Assim, parecia um desafio enorme para estudantes. Não pela capacidade dos professores, mas pelas circunstâncias, horário das aulas, espaços, etc.
Sem cenário, o espetáculo se baseia nos atores que, na mão de uma direção precisa, com as cenas bem definidas e mantendo o essencial da história, deixa tempo para observar o trabalho corporal intenso e, ao mesmo tempo, delicado do espantalho. Algo realmente difícil de fazer e que exige muito da atriz. Também vemos a flexibilidade do “cão” de Dorothy, a menina protagonista que conduz as cenas com segurança e mantém o equilíbrio de todos os demais.
O figurino deixa claro quem eles são e ganha toques especiais na bruxa e no homem lata, ambos divertidos e, enquanto o texto aparece reduzido, cresce a força da cena e os poucos elementos como os sapatos de Dorothy, a corda e o caldeirão da bruxa, a latinha de óleo do homem de lata vão destacando os cuidados desse trabalho.
A plateia, adultos e crianças, entram nesse universo de fantasia em que a luz tem também um papel importante e, quando estamos todos envolvidos, é justamente essa que falta no teatro e deixa todos nós no escuro para frustração, tanto do público, como dos atores. Ninguém quer ir embora. Ninguém quer o cancelamento. Sugiro aplaudir os atores, mas nem isso acontece, pois representaria de fato o fim da expectativa. Subo no palco e cumprimento os atores pelo trabalho. As lágrimas escorrem nos rostos de alguns e molham a maquiagem.  Não tenho dúvidas de que é essa paixão, essa vontade que chegava até nós. A luz volta. Eles também. Resgatam a mesma força cênica de antes e vão até o final. Saímos com um sentimento de conquista, de vitória contra uma adversidade que revela tão “claramente” uma das características mais importantes do teatro: a imprevisibilidade.
Sentada do lado de fora, uma menina vem em minha direção e só a identifico pelo comentário que ela faz. Era o “cão” agora sem maquiagem e sem lágrimas. Creio que ela ainda nem sabe que ser ator é isso, fazer o personagem ocupar nossas vidas e nos transformar por fora, mas, principalmente, por dentro. Logo depois, vem o diretor que fala da sua satisfação em ter visto seu mestre na plateia. Sem dúvidas, o que Igor Ramos apresentou no teatro Renascença comprova que Luis Paulo Vasconcellos conseguiu mesmo repassar seus ensinamentos no curso de direção. Por tudo isso, me vejo pensando que Shakespeare, assim como todos os grandes mestres de teatro foram estudantes um dia e, assim como Dorothy, volto para minha casa me sentindo mais inteligente, como o espantalho, com coragem para continuar buscando um caminho, como o leão, e com ótimos sentimentos, como o homem de lata. Tudo isso provocado pela arte que nos tira da escuridão. 

Monday, August 27, 2012

Sem tempo ruim para bom teatro



Domingo, de manhã, chovendo. Vou ao teatro. Por que? Porque no palco vão estar meus amigos apresentando Fábulas em 4 tempos ou o fabuloso La Fontaine. O espetáculo do Grupo Farsa e Nossa Trupe é dirigido por Marcos Chaves que me convidou para traduzir um filme sobre esse escritor e me puxou para dentro do universo desse francês que escreveu mais de 200 fábulas e desafiou o rei Luis XIV.
Sou a primeira a chegar. Passa pela minha cabeça que, talvez, nem haja espetáculo. Em poucos minutos, porém, as pessoas vão entrando, as crianças... Logo em seguida, aparece Gilberto Fonseca, meu colega de mestrado, que tem uma ligação profunda com o grupo e que, também, ainda não tinha conseguido vê-los. Aliás, entrar no teatro de Arena me faz concordar totalmente com ele: é um espaço que deveria ser mais bem aproveitado. É um local agradável, central e que permite um contato mais próximo com o público.
Não demora o espetáculo começa. Os atores conversam com o público como se ainda não estivessem encenando. Já de cara sou seduzida pela energia dos atores em cena. Plinio Marcos, Ariane Guerra, Lisiane Medeiros, Tefa Polidoro estão à vontade, inteiros, mas não relaxados, quer dizer, eles mantêm as marcações dos movimentos, das falas, gestos, tudo no que eu só posso chamar de capricho e que reflete a mão desse novo diretor. Como plateia me sinto respeitada ao ver eles se transformarem em burro, pomba, leão, raposa, etc sem titubear, sem medo do ridículo. Ao contrário, precisos, convincentes. Esse mesmo cuidado aparece em toda a produção gráfica do espetáculo: programa, cartazes, desenhos que estão à venda no próprio teatro, o que não deixa de ser uma homenagem a La Fontaine que sempre desenhou suas fábulas.
Eu sabia que eles haviam ensaiado várias fábulas e que apenas algumas seriam sorteadas e encenadas, mas a ideia da roleta da sorte para fazer a escolha acrescenta ainda mais criatividade a tudo que já percebemos. O figurino, os elementos de cena, os acessórios são, sem dúvida, um ponto forte. Talvez por isso seis nomes assinem pela equipe de Arte: Marcos Fronckowiak, Maura Sobrosa, Daniel Carvalho, Rafael Araújo, Paulo Cruz, Ateliê GZBL. Resta saber que basta a atriz colocar uma máscara para uma das crianças dizer: “a formiiiga!” Outra imita o movimento que a pomba (Ariane) faz com a cabeça.
O espetáculo segue e eu me divirto com a maneira com que os atores contam as histórias. Esqueço o desafio que foi ensaiar 16 fábulas para apresentar apenas quatro, mas que ainda assim me levam para aquele mundo cheio de fantasia. Um enorme desafio para o grupo com essa proposta deixa em aberto para uma das características que mais aprecio no teatro: o improviso. Previsível, porém, é que a trilha sonora seja tão boa e tão adequada às cenas. Afinal, quem se responsabiliza por essa é o próprio diretor.
 Eu me pego, em um determinado momento, fazendo uma exclamação de surpresa, quando as personagens “deixam cair o leite no chão”. Para mim, essa é a prova de que o espetáculo atingiu seu objetivo de chegar à plateia e que valeu todo o esforço de usar linguagens distintas como do musical, do clown e do teatro de objetos para contar essas histórias, tão ricas de conteúdo, de mensagens que fazem nós, adultos refletirmos e que encantam as crianças.
Só na saída do teatro lembro que chovia. Saio pensando que mais pessoas precisavam ter contato com a arte, que uma visão mais otimista do mundo vem daí. São nesses momentos que deixamos de nos concentrar nas coisas ruins, no lado mal dos seres humanos, nas dificuldades de nossas próprias vidas para como diz uma das músicas do espetáculo “poder sonhar”. Tudo isso tem muita relação com o que o diretor escreveu no programa, onde consta o meu nome nos agradecimentos:  “Será loucura a guia de quem dedica-se à arte? Se sim, que predomine a insanidade do mundo para que o Amor esteja sempre presente”. Considero uma honra ver meu nome associado a artistas que levam a arte tão a sério. Por tudo isso, quem sai agradecida sou eu. E como La Fontaine dizia que textos curtos e interessantes eram melhores do que longos e distantes encerro por aqui, certa de que, realmente, as fábulas tem poder, o poder de ficar na memória. Caminho pela Avenida Borges cantarolando uma música da minha infância de uma fábula de La Fontaine: “Lá vem dona tartaruga, vem andando sossegada. Vou sair da frente dela para não ser atropelada”.

Friday, August 24, 2012

“Quero acabar de viver o que me cabe”



Nada como a música para sublinhar os acontecimentos dos últimos dias e sacudir ainda mais profundamente minha memória. Betha Medeiros me liga e diz: “responde rápido sem pensar muito. Eu tenho dois convites para ver o show da Gal hoje, tu queres?” Até parece que é um teste, pois tenho dito que preciso de um tempo para me programar, não tenho disponibilidade imediata. Mas, nesse caso, não tinha por que dizer não.  Fui poucas vezes ao Bourbon Country. É meio longe, mas a principal razão é que não é um dos lugares mais baratos. Então, essa era uma oportunidade que não podia ser desperdiçada.  Nessas horas, lembro-me do meu amigo e diretor de teatro Nilton Filho que, quando recebe algo de alguém, comenta que deve estar fazendo alguma coisa certa já que mereceu tal coisa. Pois então... é isso que me vem a cabeça. Quem tem amigos... Aliás, poder rever a Betha já era suficiente para mim. Então, lá nos fomos. 
Um pouco antes de entrar, ela me avisa que nossos lugares são na plateia alta e eu digo rindo que, então, vou embora, que ela devia ter me dito antes, etc. Brincadeira, claro, mas se não fosse um espetáculo de música seria mesmo difícil. No início, tudo que consigo ver é a cabeleira crespa de Gal.  Pouca luz, ela de preto, mas a voz, é claro, inconfundível. Estranho as músicas mais taciturnas. Na minha cabeça,  está a imagem de uma Gal meio carnavalesca. Mas não demora muito para ela começar a cantar as canções que me jogam para um passado distante. Vejo-me no início dos anos 80, em meu primeiro emprego como assessora de imprensa na Sociedade Amigos de Tramandaí. Hospedada em Imbé, fazia o trajeto de uma praia a outra todos os dias e, no caminho ouvia muitas vezes: “Eu preciso lhe falar....lhe encontrar de qualquer jeito...” Tendo terminado um namoro de nove anos com o meu primeiro namorado,  é natural que a música surtisse um efeito angustiado que me marcaria para sempre. Talvez, por isso, tenha sido tão bom ver a Gal fazendo ora uma voz grave, imitando Tim Maia, ora a sua própria voz, levando toda a plateia, inclusive a mim, a rir.
Cantando uma música atrás da outra (e foram muitas) fui atirada de volta para o momento presente, enquanto ela cantava “eu vi a mulher preparando outra pessoa...” Imediatamente, surgia na minha cabeça a imagem da minha amiga Daniela Aquino que está grávida do seu primeiro filho. Sempre achara essa frase extremamente forte e poética e agora podia ligá-la a um momento tão real, tão importante e reforçar o meu afeto por essa atriz, mestra, bailarina, professora. Depois (ou antes), foi a vez de lembrar de  um amigo ainda mais antigo que, ao perceber o meu jeito mais prático de ver as coisas, cantava para mim: “Você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina...”
E as lágrimas vieram entre uma música e outra e eu ouvia vozes masculinas na plateia gritando “linda” para essa mulher de quase 70 anos, cheia de curvas e via nos seus deslocamentos, nos seus gestos a direção do  meu ídolo Caetano Veloso. Tudo que a deixara tão charmosa e tão cativante, levando um teatro lotado a aplaudi-la de pé, mesmo antes dela fazer o bis e incluir uma música que fazia o elo entre o passado e o presente. Mais precisamente com os acontecimentos dessa semana em que reencontrei meus colegas de comunicação que propuseram que nós deveríamos nos reapresentar. Isso me fez acordar no dia seguinte pensando que deveria simplesmente ter cantado: “Quando eu vim para esse mundo, eu não atinava em nada. Hoje, eu sou Gabriela. Gabriela êee meus camaradas....” Afinal, ilusão pensar que podemos conhecer (ou reconhecer) as pessoas apenas pelo que elas nos contam ou cantam. Mas, devo dizer que, por noites como essa quando "tudo é divino e maravilhoso", ao contrário do autor do poema “Ressuscita-me”, musicado por Caetano, Vladimir Maiakovki  (que de acordo com os registros, se suicidou aos 37 anos) eu ainda quero viver o que me cabe.




Wednesday, August 15, 2012

Em homenagem a Sergio Silva que nos deixa publico um texto que escrevi quando ainda era sua aluna. Ele diz um pouco do que representou para mim o ter conhecido. Ainda essa semana pedi para minha mãe, Dora Mello, fazer um doce de coco para eu levar para ele, pois moramos perto e nas vezes em que veio aqui em casa ele sempre elogiou. Vou sentir saudades...

Sergio Silva é destas pessoas que, em um primeiro momento pode não parecer simpática. Não é dado a sorrisos e não gosta muito de eventos sociais, mas, na medida em que a gente tem a oportunidade de conhecê-lo, começa a se divertir com seus comentários irônicos que vão servindo para estabelecer contato. Aos poucos, vai se descobrindo que, como todo mundo que se envolve com a arte, ele se interessa pelas pessoas.


Gosta de falar e sabe o que diz. Já leu muito, estudou bastante e, hoje, repassa o que aprendeu de maneira interessada e divertida. Gosta de viajar, mas, também tem prazer de ficar no seu espaço, onde pode usufruir algum conforto e dos prazeres de tomar um Whisky, sua bebida preferida, seguida pelo café.

Fuma sem parar e cada baforada deve ser, como dizia Mario Quintana, um suspiro. Sim, porque ele não passa pela vida impunemente. Está atento e angustia-se com o que acontece ao seu redor. Buscou na arte, mais precisamente no cinema como diretor, sua maneira de extravasar isso. Crítico e pontual em seus comentários sobre a cultura, sobre o teatro, sobre a política, é capaz de ir as lágrimas com a cena de um filme.

Avesso às novas tecnologias, não esconde sua falta de habilidade com equipamentos eletrônicos, computadores, entre outros. Às vezes, posiciona-se de forma pessimista diante do futuro e da humanidade, mas isso não o impede de ensinar de forma apaixonada, e sua disposição e paciência para dar aula, demonstram que ele tem esperanças de um mundo melhor.

Apesar de manter sua vida pessoal reservada, é comum fazer comentários sobre sua família, suas tias, seus parentes e, principalmente, sua mãe. Suas críticas divertidas ao seu comportamento são cheias de afeto e amorosidade. Transforma pequenas histórias do cotidiano em situações engraçadas e experiências de vida.

Por essas e por outras, é muito bom que o meu caminho tenha se cruzado com o dele a ponto de eu desejar ser sua amiga, o que acredito esteja começando a acontecer.

Helena Mello – Jornalista

15 de outubro de 2004

Monday, August 13, 2012

Mais do que um diploma, uma conquista para sempre



Assim que fui convidada para a formatura da Isadora Kolecza confirmei minha presença. Ando meio preguiçosa, mas não dava para não participar de um momento desses. Ao contrário de outras pessoas que tem medo de envelhecer, eu gosto de sentir a passagem do tempo, principalmente quando ele representa conquistas. Conheço a Isadora desde que nasceu. Fui a alguns aniversários dela e até hoje comento o delicioso bolo que a sua avó fez em uma dessas datas. Algo, realmente, inesquecível. Minha irmã, Ana Mello, como costuma me fazer companhia e também conhece a família, confirmou que iria comigo. Já minha mãe, tinha recomendações médicas para evitar lugares de muito movimento por mais uns dias. No entanto, na véspera, disse que iria, pois, gostava muito da mãe da formanda, a jornalista Rita Escobar, e queria estar lá nessa hora tão importante para ela.
Já na entrada, a estrutura do Centro de eventos da PUC impressiona, assim como a organização. São muitos profissionais espalhados por todo lugar para orientar os convidados. Mal chegamos, e tivemos o prazer de ver a Isadora, vindo em nossa direção, toda sorridente e de toga. Gentil como sempre, explicava que estava tranquila mesmo sendo ela a oradora da turma. Logo depois, encontrávamos o resto da família, incluindo o meu afilhado Pedro Escobar que quase não reconheci. Já fazia um bom tempo que não nos víamos e já ia longe o menino tímido que havia saído da minha casa. Lá estava um “rapaz”, como diria minha vó, com cabelos cumpridos e todo elegante.
Começa a cerimônia. Cantar o hino em época de Olimpíadas tem outro sabor. Por alguns instantes, sintonizávamos com aquele momento de orgulho do nosso país. Alguns outros procedimentos mais formais e começava a entrega dos diplomas. Magda Cunha, minha contemporânea da época em que cursei jornalismo, presidia o evento e fiquei imaginando como deveria ser prazeroso saber que ela contribuíra para aquele momento que, como ela mesmo disse depois, é um fim, mas também um começo. E, assim, a obrigação de repetir as mesmas palavras tantas vezes  deveria trazer uma gostosa satisfação interior.  
Ver a cerimônia me fez lembrar que havíamos escolhido o jornalista Marx Leonam para ser o nosso paraninfo e que eu nunca havia buscado as fotos da minha formatura. Na época, resistia às formalidades e não fiz questão de ter esses registros. Hoje, me arrependo. Gostaria de ter essas fotos. Lembro que o fotógrafo guardava as fotos por cinco anos e durante todo esse tempo eu de vez em quando lembrava que deveria ir buscar alguma, mas nunca o fiz.
Carlos Kober, entre outros professores da minha época também vieram a minha mente. Assim como colegas como a Rosangela Batistella e o Humberto Trezzi com os quais voltei a ter contato, pelo menos virtual.  Enquanto outros nomes iam sendo chamados, eu recordava o jeito da Rosangela sempre muito lúcido de argumentar, sempre compenetrada em todas as tarefas e das discussões que tinha com o Humberto em sala de aula,  pois ele era muito mais politizado que eu, mas assim mesmo eu insistia em defender meus argumentos. Refleti o quanto isso havia me auxiliado a desenvolver esse jeito de dizer sempre o que penso.
Houve, também, momentos emocionantes como as entregas dos diplomas por familiares que já haviam feito a mesma formação como no caso da Rita que entregou o canudo para a Isadora. Fiquei emocionada, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando a importância que isso tinha para a Rita já que eu a conhecera no início da sua vida profissional.  Chamou-me a atenção, porém, como poucas pessoas escolheram músicas brasileiras para a hora da entrega e como todos (e era uma turma grande) eram bonitos, tantos os homens quanto as mulheres e jovens, é claro!
O discurso da Isadora e do seu colega teve sempre um toque divertido, mas, ao mesmo tempo, respeitando o significado daquela etapa. Comentaram sobre um professor que havia deixado claro que o termo marketeiro não deveria ser usado e fizeram ironias sobre o fato de que “publicitários não comem, degustam, não pensam, têm insights”, etc. Conscientes de que estavam vivendo o final de uma etapa, destacaram a passagem do tempo, lembrando que quando entraram ali a palavra “ideia” ainda tinha acento, bem como outros fatos ocorridos durante aqueles anos de faculdade e ressaltaram o poder do comunicador de influenciar outras pessoas. Fizeram um paralelo entre o desconforto de quando chegaram e o de estar saindo e brincaram com o fato de agora já poderem ter seus próprios estagiários.
Os demais discursos foram breves, o que, para mim, já significa que não se passa por uma faculdade de comunicação em vão.  No mínimo, aprende-se que não é a quantidade de palavras ditas que importa, mas a qualidade delas e somos treinados a editar o que queremos dizer para criar potência ao que é dito, transmitir o que queremos sem perder o interesse da plateia para qual falamos. Assim, o paraninfo da turma também fez um discurso que, mesmo repetindo palavras previsíveis como estar feliz e orgulhoso, soube reforçar o principal ao dizer que o bastão que eles recebiam ali significava uma conquista e que eles deveriam evitar de parar de estudar. Disse também que a medicina criou muitas próteses, mas nenhuma para a alma e fazendo uma citação disse que “só se descobre novos mundos quando não se vê mais a costa”.  
Gostei de ver que, além da entrega do destaque para o aluno com melhor rendimento, foi entregue também um para o aluno mais solidário, dando valor não só a pessoa com melhores notas, mas também aquela que se mostrou mais amiga dos colegas, mais presente. E, tive a prova de é a mais pura verdade que, aqui no sul, as pessoas cantam com mais entusiasmo o Hino Rio-grandense do que o brasileiro.
Assim, depois de abraçar a mais nova publicitária do mercado, voltei para a casa ainda vibrando com o sentimento de que o passado e o presente haviam se interligado e que, como dizia Pierre Bourdieu, somos resultado de todas as nossas experiências, de tudo que vivemos e de todos que encontramos em nosso caminho, reforçando o que o paraninfo tinha dito: “ninguém pode nos tirar o conhecimento que adquirimos”.