Quando eu digo que os bichos ensinam a gente...Resolvi fazer um novo post para falar de velhice. Afinal, comentei sobre minha cadela e foram todos muito solidários. Mas, uma vez, tive uma das raras conversas com meu pai (a gente não dizia duas palavras sem brigar) e ele se ressentia dos males que a idade havia trazido e eu falei que se morrêssemos em plena juventude seria bem mais complicado (isso aconteceu ao meu irmão, depois, com 49 anos). Pois, com a idade, vamos sentindo dores e vamos tendo restrições. Não fazemos mais o que fazíamos. Porém, acho sábia essa etapa. Chega um momento, em que começamos a nos despedir. E não digo isso com tristeza. É preciso aceitação das etapas da vida. Ninguém (pelo menos entre as pessoas que eu conheço) quer ficar eternamente numa cama de hospital, cheia de tubos, sem poder fazer nada. Então, com a passagem do tempo, vêm as limitações e as dores. E a gente vai se dando conta de que já viveu um tanto. E vai refletindo sobre isso. E vai se dando conta de que sentir dor todos os dias não é vida para ninguém. Não poder fazer as coisas que ama, muito menos. E vai pensando no que já fez, nos amores que conquistou, nos amigos que estão por perto. Dá mais valor para os momentos de alegria, para as palavras ditas, para o afeto que dá e recebe, para aquilo que dá prazer. E já não tem mais tanto medo de que isso tudo acabe. Embora, eu não acredite em um fim, não posso ignorar que existe uma ruptura entre o que sou, a vida que eu levo e o que virá depois. Mas, também, tenho consciência de que não fomos feitos para viver esta vida de agora, eternamente, e que isso não deveria nos aterrorizar, nem nos fazer sofrer. Existe uma sabedoria (não sei se divina) em ir nos preparando para o momento de aceitar essa passagem chamada morte. A dor física, às vezes, é uma das etapas que, no meu caso, espero que seja como foi para o meu pai que, com muitas complicações de saúde, três pontes de safena, um câncer, me disse um dia que não sentia dores. E, numa manhã, em que deveríamos ir para Santo Antônio da Patrulha fazer um evento com o material que ele criou, os Jogos Boole, acabou não viajando no mundo real, mas fazendo a sua partida e me deixando na memória a nossa conversa sobre porque a gente envelhece, afinal.
Os amigos me convenceram a começar o meu blog. Sou jornalista e mestra em artes cênicas. Sempre adorei escrever e tenho enviado textos para os meus conhecidos com uma certa frequência. Os assuntos? Os mais variados possíveis, mas, ligados as minhas experiências, ao que acho de tudo que está em minha volta. Gostaria de compartilhar com mais pessoas.
Sunday, April 02, 2017
Sunday, April 17, 2016
A linguagem universal das mães
Queria ver Língua Mãe Mameloschn desde a estreia em junho do ano passado, curiosa com o trabalho dos atores que conheço. Mas, não havia conseguido. Hoje, vencendo o calor e o cansaço e, durante um momento tão significante para o Brasil, lá estava eu e minha irmã, Vera Mello.
Porém, depois de assistir, percebo que não somos só nós que vamos aos espetáculos, mas estes também vêm até nós. Afinal, justamente esta semana, o assunto com a minha própria mãe foi a superproteção e o fato de que mesmo, apesar dos meus 53 anos, ela segue me dizendo o que fazer. E, provavelmente, os terapeutas possam explicar por que o que provoca a nossa ira na vida real, faz com que a gente se divirta tanto na ficção e não deve ser à-toa que a peça começa justamente falando destes estudiosos da mente humana.
Lingua Mãe Mameloschn, dirigido por Mirah Laline, não é uma comédia. Longe disso. Entretanto, como não rir ao ver ali personagens que nos são tão familiares? A vó, a mãe e a filha em seus diálogos quase ininterruptos em um misto de impaciência, rebeldia, mágoa, afeto.
Porém, depois de assistir, percebo que não somos só nós que vamos aos espetáculos, mas estes também vêm até nós. Afinal, justamente esta semana, o assunto com a minha própria mãe foi a superproteção e o fato de que mesmo, apesar dos meus 53 anos, ela segue me dizendo o que fazer. E, provavelmente, os terapeutas possam explicar por que o que provoca a nossa ira na vida real, faz com que a gente se divirta tanto na ficção e não deve ser à-toa que a peça começa justamente falando destes estudiosos da mente humana.
Lingua Mãe Mameloschn, dirigido por Mirah Laline, não é uma comédia. Longe disso. Entretanto, como não rir ao ver ali personagens que nos são tão familiares? A vó, a mãe e a filha em seus diálogos quase ininterruptos em um misto de impaciência, rebeldia, mágoa, afeto.
Imediatamente, relaciono a cena com uma história contada pela minha prima, ainda ontem, sobre a partida da sua filha exatamente para a Alemanha (onde o espetáculo foi apresentado recentemente). Com uma boa dose de teatralidade, ela me dizia que aflita com a partida da filha, a agente de viagens sugeriu que ela acompanhasse o voo da filha em um site, o que ela começou a fazer de forma um tanto obsessiva. Até o momento em que ela colocou o número do voo e leu: voo não encontrado. Pronto. Imediatamente, começou a pensar que a aeronave havia caído. E em um diálogo consigo mesma disse: “não...se tivesse acontecido isso teriam me ligado. Mas, será que ela deu o meu número? Talvez, eles tenham sido obrigados a retornar e por isso não aparece” A partir daí, já não conseguiu dormir. Foi tomar um chá, mas sempre com o notebook para averiguar se a informação se modificava. Nada. Nisso, chega o outro filho e pergunta porque ela está acordada àquela hora e ela se põe a chorar loucamente recontando a história. O filho tenta acalmá-la e pede o número do voo. Ela vai buscar o papel onde anotou ainda chorando. Ele verifica e lá está: avião sobrevoando o oceano. Ela havia pesquisado invertendo os números do voo.
E é por essas e por outras que logo quero saber quem é Marianna Salzmann, pois, em tempo de vazamento de informações e escutas, a impressão que fico ao sair do teatro, é que ela está investigando a minha família. Surpresa: a dramaturga nasceu na Rússia e mudou-se para a Alemanha quando criança. Isso só confirma aquela máxima: mãe só muda de endereço.
Importante ressaltar que a peça não trata “apenas” das relações familiares, mas discute as questões de nacionalidade, religião, política, hábitos e cultura. Não de forma doutrinária ou acadêmica, mas entre os diálogos travados pelas atrizes Ida Celina Weber Silveira, Mirna Spritzer e Valquíria Cardoso. Aliás, a grande força do espetáculo está no texto e fazia muito tempo que não via no palco atrizes tão capazes de expressar, principalmente através das palavras, os sentimentos de seus personagens. Dicção, entonação, pausas, ritmo. Tudo aquilo que é preciso para que os espectadores se deliciem na plateia. Aliás, quem é essa atriz que assume o papel da filha com todas as suas nuances? Quem sabe a Ida, que conheci fazendo justamente o papel de minha mãe no filme Quase um tango de Sergio Silva, possa nos apresentar? E baseada no que já assisti dessa atriz gaúcha tão especial, considero que sua atuação mereça destaque. Não poucas vezes me peguei tentando ver por trás daquela senhora idosa, com um caminhar, gestos e um tom de voz tão peculiar, a minha amiga e, devo admitir, não foi fácil.
Bem, e embora o Lipsen Lipsen tenha feito um vídeo comentando que havia ido a Alemanha somente para tocar pequenos trechos, a música executada ao vivo terá sempre um impacto favorável nas cenas e não por acaso é ele que assina a trilha original. E, eu diria que sua presença entre cadeiras, um sofá e outros elementos desse cenário minimalista, mas funcional de Rodrigo Shalako, com certeza, valia a passagem. E, assim espero que muito mais gente ainda possa assistir a Língua Mãe Mameloshn, principalmente as mães que pensam que seus filhos “estão à mercê das drogas, do terrorismo ou do olho do furacão”, ou simplesmente possam decidir não voltar. Não é, prima?
Importante ressaltar que a peça não trata “apenas” das relações familiares, mas discute as questões de nacionalidade, religião, política, hábitos e cultura. Não de forma doutrinária ou acadêmica, mas entre os diálogos travados pelas atrizes Ida Celina Weber Silveira, Mirna Spritzer e Valquíria Cardoso. Aliás, a grande força do espetáculo está no texto e fazia muito tempo que não via no palco atrizes tão capazes de expressar, principalmente através das palavras, os sentimentos de seus personagens. Dicção, entonação, pausas, ritmo. Tudo aquilo que é preciso para que os espectadores se deliciem na plateia. Aliás, quem é essa atriz que assume o papel da filha com todas as suas nuances? Quem sabe a Ida, que conheci fazendo justamente o papel de minha mãe no filme Quase um tango de Sergio Silva, possa nos apresentar? E baseada no que já assisti dessa atriz gaúcha tão especial, considero que sua atuação mereça destaque. Não poucas vezes me peguei tentando ver por trás daquela senhora idosa, com um caminhar, gestos e um tom de voz tão peculiar, a minha amiga e, devo admitir, não foi fácil.
Bem, e embora o Lipsen Lipsen tenha feito um vídeo comentando que havia ido a Alemanha somente para tocar pequenos trechos, a música executada ao vivo terá sempre um impacto favorável nas cenas e não por acaso é ele que assina a trilha original. E, eu diria que sua presença entre cadeiras, um sofá e outros elementos desse cenário minimalista, mas funcional de Rodrigo Shalako, com certeza, valia a passagem. E, assim espero que muito mais gente ainda possa assistir a Língua Mãe Mameloshn, principalmente as mães que pensam que seus filhos “estão à mercê das drogas, do terrorismo ou do olho do furacão”, ou simplesmente possam decidir não voltar. Não é, prima?
Friday, January 08, 2016
A arte nunca nos deixará nus
Dizem os pesquisadores e críticos que um espetáculo de teatro não acaba quando termina. A frase pode parecer um pouco estranha, mas, quase todos nós já passamos pela experiência de ver uma peça e depois ir para um bar bater papo e discutir o que foi visto. Poucas coisas são tão divertidas e interessantes. Tem gente que concorda. Tem gente que discorda. Tem gente que nem viu o que a gente viu. Tem gente que vê coisas que a gente nem sabia que estavam lá. Mas, se tem uma coisa que compreendi desde que comecei a estudar teatro, é que a gente aprende muito com tudo isso. Então, o convite do Plínio Mósca para irmos à casa dele depois do espetáculo Um conto para um rei tonto, em cartaz na Casa de Cultura Mário Quintana, do diretor Igor Ramos, além de ser uma enorme gentileza, era imperdível. A sua casa já vale a visita. Digna de um diretor que fez parte dos seus estudos na França, cheia de elementos cênicos de várias outras partes do Brasil, além de uma coleção de galinhas e outra de xícaras. E foi nesse ambiente que começamos a falar sobre a sobrevivência no teatro e fora dele. Afinal, subir no palco paga as contas? Confesso que entre os meus amigos não sei de ninguém. Todos fazem alguma outra atividade. E por que esse foi o primeiro assunto? Porque no grupo que se apresentou hoje está Josué Fraga, de 16 anos, que, apesar do nítido talento, está prestes a se afastar da cena por pelo menos um ano para fazer um curso pré-vestibular, cujo objetivo não é ingressar na faculdade de Artes cênicas porque a família teme pelo seu futuro financeiro. O que me restou foi dar alguns palpites e acreditar que, mesmo que ele precise tomar uma certa distância, o teatro estará sempre no seu caminho. Caso contrário, como não se abalar com essa ruptura de um ator capaz de dominar seu personagem de bobo da corte, fazendo jus ao seu chapéu de cinco pontas e guizos? Esse personagem com papel fundamental nessa história recontada pelo Grupo Experimental de teatro que traz também no elenco Larissa Vaz, Mariana Fagundes. Um texto já tão conhecido, mas exposto de forma intrigante em que um rei escuta a história do outro rei vaidoso que acaba desfilando nu. Essa fábula que eu já ouvi tantas e tantas vezes, mas nunca nessa versão e muito menos nessa marcação cênica tão clara e definida em que os atores seguem no palco mesmo quando não fazem parte da cena. Desse figurino cheio de cores e brilhos que são uma das provas do cuidado que o diretor tem com todos os seus trabalhos. E como é bom poder ver tomar forma aquela fantasia do nosso imaginário na figura da ama feita pela Juliana Johann. E, cuidado, não simpatize com a costureira inescrupulosa que finge costurar o tecido invisível no ar com a eficiência dos melhores costureiros parisienses, papel da Renata Severo. Dá para sentir que é um trabalho conjunto, resultado de um processo de trabalho que vai buscando encontrar um único rumo para pessoas diferentes, com características distintas. E, mesmo depois de ouvir todos os ajustes que o nosso anfitrião e a mestre em letras e dramaturga premiada, Natasha Centenaro, sugeriram ao diretor do espetáculo que ouvia atentamente, em relação ao ritmo da peça, ao figurino, à luz e algumas características dos personagens e falas (com os quais concordo com quase todos) o que fica na minha memória é um mergulho nesse universo das artes, no prazer de compartilhar sentimentos e ideias e a visão de uma bandeja cheia de brigadeiros. Sim, porque, não só a arte, mas os amigos artistas também nos alimentam.
Thursday, October 22, 2015
Planeta (sem) água
Andava prometendo ir aos shows do Dudu Sperb há algum tempo. Sempre acontecia alguma coisa. Hoje, estava decidida. Tanto que caiu a maior chuva bem na hora de sair e eu fiz de conta que nada havia acontecido e lá nos fomos, eu e minha irmã Ana Maria Mello. Pouca gente na plateia, o que era de se esperar. Mas, sempre penso como o ego dos artistas precisa ser forte para não se deixar afetar. Têm os ensaios, a preparação toda e, na hora, podem aparecer...dois. Felizmente, tinha mais e foram chegando outros. Ao olhar o repertório, não identifico várias músicas, mas, basta ele começar a cantar para eu reconhecer quase todas. E logo me dou conta porque estou ali. Porque vale o esforço. Dudu canta de um jeito especial. Tem um timbre muito interessante e o carisma e uma gentileza com a plateia... Mas, vou confessar: no início, eu estava implicando com os defeitos da parede do Solar dos câmara, que bem lembra um salão parisiense, e com a cor da camisa dele. Queria algo mais vibrante que combinasse com o seu charme. Mas, na terceira música, já estou totalmente seduzida e não dando a mínima importância a nada disso.
Nesse show, que comemora os 12 anos de parceria com Toneco Costa, tem músicas do Chico, do Caetano e outras tantas cantadas pela Elis. Ou seja, tem que ser realmente bom para cantar canções de gente tão incrível e assim mesmo impressionar. Mas, Dudu Sperb faz parte desses cantores que interpreta. De olhos fechados, ele demonstra no rosto que sente cada palavra. Cheguei a pensar se ele ensaia diante do espelho. Provavelmente não. E mesmo que o fizesse, ele canta muito de olhos fechados. Coisa que, aliás, deu muita vontade de fazer, ao escutá-lo. Sua voz relaxa, afaga. E, de vez em quando leva a mente para longe. Eu pensei na minha amiga Andrea Bettina Enrich Bittencourt enquanto ele cantava: “eu faço samba até tarde e tenho muito sono de amanhã”. E também em outro amigo do Uruguai, o Gustavo González Zeblis por causa das músicas cantadas em espanhol como “Esta tarde vi llover” que eu não conhecia e me emocionou. Ah, essa língua tem algo de especial... Depois canta Cuesta Abajo, que eu ouvia muito, cantada pelo Caetano. Aliás, descobri que a Elis tinha algo em comum comigo: era totalmente fã do cantor baiano. E já comentei por aqui que fiquei muito impressionada quando soube que um dos autores de Moda de Sangue, tão lindamente interpreta pela Elis, é um gaúcho, o Jerônimo Jardim. Já quase no final, Dudu canta “Todo o sentimento” que fala no tempo da delicadeza. Queria tanto que esse chegasse logo... E para encerrar, Dudu Sperb interpreta nada mais, nada menos que Roberto Carlos e canta As curvas da estrada de Santos e só posso concordar com ele que disse que a música é outro planeta. Tanto é que, ao sair na rua, me dou conta de que havia esquecido completamente do tempo tenebroso lá fora. O que mais uma vez prova a capacidade da música de nos aquecer por dentro e nos transportar para outro lugar. No tempo que levou 16 canções, eu estive em um local em que não chovia, isso já seria o suficiente para me fazer sair de casa, mas, foi mais e a Maria Elisa Wilkens Rodrigues Rodrigues que estava lá também pode confirmar.
PS: O vídeo não é do show, mas a camisa é a mesma. :)
https://youtu.be/GnUw_FZC4rY
Wednesday, September 09, 2015
O vazio político em cena
Primeiro pensei nos
equívocos que poderia cometer ao escrever sobre um texto que tão pouco conheço.
Uma das obras de Shakespeare, meu autor
preferido, que ainda não li. Mas, afinal, o teatro exige conhecimentos prévios
ou a pessoa que vai assistir deve compreender o que acontece em cena mesmo que
seja a sua primeira vez na plateia? Enquanto me questiono sobre isso, resolvi
comentar sobre o espetáculo que assisti ontem. Não há dúvida de que os atores Caco Ciocler e Carmo Dalla Vecchia são capazes de
bem interpretar o texto dando vida, inclusive a mais personagens. Entretanto, apesar da competência do elenco
enxuto, estranho a proposta cênica do diretor Roberto Alvim para Ceasar.
Minimalista, eu diria. Quase nada de cenário. Um figurino austero, todo negro. Há
poucos dias, eu comentava sobre as radionovelas. Essa peça me trouxe novamente
à lembrança. Ficaria extasiada se apenas ouvisse o espetáculo. Ao ver, porém, os poucos gestos dos atores
não me tocam. Os deslocamentos são contidos, partituras. A fala dos atores é
cheia de nuances. Mas, assim como murmurar por muito tempo ou gritar por vários
momentos torna exaustivo para quem assiste, oscilar entre esses dois, também
pode causar um desconforto que não me parece proposital.
Há um jogo de luz e sombra
interessante. Coloca ou retira os atores da cena. Sublinha, ofusca ou suaviza. Mas daquela
limpeza toda de elementos, de repente, uma vela parece ser um dos poucos itens
a trazer algo que elimine a ausência de tudo. Mas, também me dá a impressão que
destoa de todo o resto. Assim, como o acender dos charutos.
É bom um teatro que dê tanto
valor ao texto. Ainda mais de um autor que parece ser tão preciso em cada palavra,
porém, essa escolha de deslocamentos ríspidos não me conquistou. Essa limpeza
de movimentos tão radical deixou, a meu ver, o texto frio, mesmo que fale de
conspirações e assassinatos. A música é o elemento mais teatral do espetáculo. A trilha sonora de Vladimir
Safatle executada ao vivo no piano é um personagem. Ela dá
dramaticidade, suspense, suaviza e quase agride, provocando diversos momentos
de tensão. Quem diria que o simples fechar de um piano repetidamente pareceria
quase um tambor? Em determinados momentos, chega a roubar a cena, eu diria. Cena
esta que quase não existe.
Engana-se, porém, quem pensa
que com isso, quero dizer que não valha a pena assistir. O teatro estava lotado
e os aplausos do final garantem que a plateia não está de acordo com as minhas
impressões. O teatro sempre significará coisas distintas, provocando sensações
e opiniões diversas para quem assiste. Assim deve ser a arte. Assim deve ser a vida.
Thursday, May 21, 2015
Só um Chapeleiro maluco poderia trazer o Big Ben aos palcos de Porto Alegre
Minha
proximidade com Igor Ramos começou justamente em uma apresentação do Teatro
Aberto. Bem na hora em que o seu grupo apresentava, com o teatro Renascença
lotado, falta luz. E a peça era boa. O Magico de Oz estava em ótimas mãos. Os
atores divertindo a plateia, emocionando. Ninguém queria ir embora. Foi um
momento tenso. Lembro da atriz que fazia a bruxa aos prantos. Mas, eles fizeram
algo muito difícil: a luz voltou e eles terminaram o espetáculo. Desde então, passei
a prestar mais atenção no trabalho dele. Acabamos amigos e ele sempre me
convida para ver o que está fazendo. Hoje, fui assistir O Chapeleiro Maluco, no
mesmo evento do ano em que nos conhecemos. Sim, eu vou para gostar. Mas, não
saberia fazer isso forçadamente. Acontece que o trabalho do Igor tem um cuidado
e um capricho que são especiais e que ficam evidentes neste espetáculo. Pode
ter quase nada de cenário. Mas, uma tábua vai ser uma mesa e vai ser também o
Big Ben. Isso mesmo. Aquele relógio inglês, ponto turístico da cidade. Acontece
que o Grupo Leva Eu se dedica ao básico do teatro, a uma história bem contada,
a autenticidade dos seus atores Juliana
Johann, Josué Fraga e Alessandra Souza que são harmônicos e
revelam a potência do teatro feito sem protagonismos e com poucos recursos.
Como havia muitas falas em inglês (embora fossem traduzidas) tive dúvidas da
compreensão. Mas, a reação do público demonstrou que isso não chegou a ser uma
barreira. Aliás, as crianças que lotaram a sala deram uma aula de comportamento.
E é na criatividade de usar uma luz estroboscópica para mostrar a passagem dos
personagens por um local desconhecido, no jogo entre o imaginário do espaço delineado
pelas falas e atuações e o realismo de uma xícara de chá que vai parar na mão
do público, que O Chapeleiro Maluco vai se mostrando um teatro infantil que
respeita quem vai ao teatro. Assim, eles conseguem comprovar, mais uma vez, que
o teatro é uma das artes mais criativas que existe. Que, se bem feito, pode nos
fazer viajar de Porto Alegre à capital da Inglaterra em segundos. E por respeitar todo esforço que significa
levar ao palco um trabalho assim é que eu não vou indicar aqui os poucos pontos
que eu acho que poderiam melhorar e não faço isso, também, porque o diretor tem
a humildade de dizer que está aberto as minhas considerações e reage ao meu
comentário dizendo que estava, justamente, querendo esse olhar de fora. Assim, não
preciso enfatizar algo que, provavelmente, já estará diferente nas próximas
apresentações. Essa atitude traz à tona uma das características mais
importantes do teatro que, como arte viva, é diferente a cada representação e, ao
contrário do cinema, pode ir se construindo a partir da experiência e do
público, garantindo o verdadeiro sentido do Teatro Aberto e de um diretor amigo.
Sunday, May 03, 2015
Abobrinhas com novos recheios
Já escrevi antes sobre este espetáculo, mas, a bem da verdade, o que vi hoje não era a mesma coisa. De qualquer forma, é um novo desafio escrever sobre Abobrinhas recheadas. Porque se engana quem pensa que é só de humor que se trata o que é colocado em cena. É uma linguagem que eu ainda não havia lido nada sobre ela. É em cima da mímica, mas vai além. Lembra algumas brincadeiras de criança e, se traz a música da Velha a fiar, o que vemos no palco é um exercício de sincronicidade, de trabalho em conjunto que faz com que a plateia lotada, logo perceba que é uma cena que merece ser fortemente aplaudida. E, se outros espetáculos ou atores, acham difícil conquistar o público, Diego Mac faz isso desde o começo. Daniela Aquino, Denis Gosch, Joana Amaral e Nilton Gaffree são de uma eficiência perturbadora, pois, não raro, não sabemos a quem prestar mais atenção. E os números apresentados vão da sutileza da música de Adriana Calcanhoto ao caos de Renato Russo. E, enquanto assisto a expressividade dos gestos e movimentos faciais de Daniela Aquino, Denis Gosh e Nilton Gaffre penso que seria ótimo se a cantora pudesse vê-los, pois, as escolhas feitas acrescentam novos sentidos à música. Um repertório eclético, cômico, romântico, brega, onde só eles conseguem me fazer ver alguma utilidade em uma música que diz “vou te amarrar na minha cama”. Não vou fingir que tenho competência para analisar exatamente o que está por trás do que faz rir as pessoas presentes ou de alguém gritar “bravo” para a ação dos atores/bailarinos sobre uma música das mais simplórias. Mas, ao mesmo tempo, é muito claro para mim que existe um forte trabalho de pesquisa para chegar naquele resultado. Algo que pode partir do improviso, mas que acaba colado em cada palavra, como se a única forma de expressar aquele sentido fosse aquele gesto e não milhares de outros possíveis. E, justamente quando eu estou pensando que seria bom se o Abobrinhas começasse a fazer como o Tangos e Tragédias e convidar alguém para a plateia, Joana Amaral faz uma linda interpretação de Feito picolé ao sol, do Nico Nicolaiewsky e sou pega pela emoção. Como posso sentir saudade de alguém que nem conheci? Mas, é exatamente o que os artistas fazem conosco. E aqui eles trazem essa harmonia entre os integrantes e, ao mesmo tempo diversidade. E isso é explorado da melhor maneira nos “números” individuais e nos feitos pelo grupo. Espero que os alunos do Departamento de Artes cênicas da UFRGS tenham tido a oportunidade de ver sua professora em cena e observar a capacidade dessa linda mulher ser tão expressiva e cômica. Denis Gosch é, para mim, o nosso Philip Seymour Hoffman e isso é uma das coisas que me faz pensar que essa forma de interpretar as músicas deveria percorrer não apenas o Brasil, mas ir lá para fora, mostrando o que está sendo feito por aqui. E, como se meus pensamentos também fizessem parte da apresentação de hoje, o grupo encerra com uma música em inglês e a distribuição de Bis (o chocolate) para a plateia que aplaude com prazer. De minha parte, quero uma vida longa ao Abobrinha. A ponto de quando eu procurar uma imagem no site de pesquisa, não me venha a receita do alimento, mas a foto desse grupo cheio de talentos.
Tuesday, January 20, 2015
Libertando-se do papel da mocinha
Fui
ver Livre no Domingo e não tinha escrito nada porque, embora tenha gostado do
filme, não achei impactante. Mas, vi comentários por aqui e me deu vontade de
escrever sobre ele também. Já tinha ficado impressionada com Reese Witherspoon saindo do papel de bonitinha e
romântica para papéis fortes no filme Uma boa mentira, onde ela faz um
personagem que recebe refugiados da África. Mesmo tendo sido vencedora do Oscar
em Jonhy e June, ela vinha presa a comédias românticas. O que, certamente, não
é o caso de Livre, onde achei ela bem, porém, uma das coisas que saí me
perguntando é se uma outra atriz no papel não teria transformado o filme em
algo que me atingisse mais profundamente. Até porque se trata de uma superação
de uma vida de dramas. E, o que me faz questionar ainda mais sobre isso é que Laura
Dern está incrível no papel de sua
mãe, totalmente convincente e impressionante em todas as cenas e isso que ela
nem aparece tanto assim. Meu sobrinho achou curioso eu fazer essa reflexão.
Disse que não costuma sair pensando como seria se um outro ator estivesse em um
determinado papel. Bem, pois eu, não fazia. Agora, faço. Acho que faz parte do
meu processo de entender a diferença entre atores/personagens, o que até pouco
tempo ainda estava muito vinculado. De
qualquer forma, o filme tem muitos méritos já que o fazer com que o espectador
fique acompanhando com interesse alguém em uma trilha não é algo fácil e eu,
pelo menos, não achei nada monótono. Ponto para o roteiro (baseado em uma
história verídica de Cheryl Strayed
do livro Wild). O
fato de ser um filme basicamente ao ar-livre garante a beleza da fotografia e
não tenho dúvidas de que existe uma mão firme de direção. Não saberia dizer
quem poderia substituir a Reese Witherspoon. Ainda não me ocorreu. E, volto a
dizer, que aplaudo o fato dela estar indo além dos personagens que havia feito
até então. Não tenho dúvidas de que foi um imenso desafio até porque o filme é
totalmente calcado nela, na sua atuação. Talvez seja o caso de deixá-la
amadurecer em personagens dramáticos para que possa, um dia, me arrebatar
Tuesday, December 09, 2014
Buenos Aires, uma cidade para se comemorar!
Depois de Paris, Buenos Aires sempre foi a cidade preferida
de minha mãe. Com quatro filhos, meus pais não tinham, exatamente, férias, mas,
eventualmente, conseguiam roubar alguns dias para visitar a capital Argentina.
Crescemos ouvindo histórias de seus dias caminhando pela 9 de julho,
Corrientes, Suipacha, Santa Fé e sobre suas compras que, para nós, significavam
pirulitos gigantes e chocolates suíços.
Não cansamos de contar aos amigos a história do dia em que
minha mãe saiu do hotel, comprou toda uma roupa nova, uma peruca e, ao voltar,
foi barrada por um recepcionista que não a reconheceu. Assim, acabamos querendo
vir com eles algumas vezes e, nos últimos anos, tenho tido a chance de voltar
seja sozinha ou em família.
Não dá para apagar esse afeto que tenho por essa cidade de
ruas largas e prédios de arquitetura tão semelhante à francesa. O que, aliás,
não é à-toa, já que muitos foram mesmo projetados por profissionais europeus.
Por isso, entendo, perfeitamente, o desejo de minha mãe de ir comemorar o aniversário
lá.
Menos de duas horas de Porto Alegre e estamos hospedadas em
um hotel a poucas quadras do Obelisco. O que, como diz uma das minhas irmãs é a
Tour Eiffel portenha. Descobri esse local na internet e temos sido bem
acolhidos por uma diária menor do que muitos hotéis no interior do RS. Boa
cama, bom banho e medialunas no café da manhã, entre outros tipos de bolo que
minha mãe tanto adora.
No mais, é seguir pelas ruas planas e ver lindas praças,
beber vinho e comer milanesas e empanadas. Sim, na hora de pagar pelas
refeições sabemos que estamos muito distantes daqueles anos tão vantajosos para
os brasileiros. Não importa se, no câmbio, cada real vale mais de três pesos,
tudo também triplica de valor. Não vale mais a pena comprar nem roupas, nem sapatos,
nada. Ainda é possível achar um pequeno objeto diferente e interessante por um
valor razoável para não voltar de mãos vazias para os parentes e amigos. Mas, é
só.
Tem sujeira nas ruas e, não é de agora. Assim como gente
pedindo ou dormindo nas calçadas. Mas, o movimento intenso de gente nos bares e
restaurantes até depois da meia-noite faz com que tenhamos a impressão de que
estamos mais seguros do que em nossa própria cidade. Talvez, não seja bem
assim. Talvez, seja mais uma questão de hábito que eles ainda mantenham como o
cigarro, a leitura nas ruas e o costume de comprar flores ou ir ao teatro.
Esses, aliás, em quantidades absurdas e com enormes filas. E, enquanto eles
ganham toda a minha simpatia por esse desejo de cultura, o contrário não acontece.
Eu, que busco sempre entender o comportamento alheio, observo o jeito nada
sorridente dos argentinos de Buenos Aires e relevo o atendimento quase
agressivo, principalmente nos mercados e serviços, o que transforma um simples
sorvete em uma experiência de paciência e compreensão.
Sei que os argentinos estão ressentidos da sua situação e a
enxurrada de brasileiros que transita para lá e para cá não é exatamente o que
eles queriam, mas todo cidadão deve saber que turistas trazem divisas para o
país e, mesmo que eu não esteja lá para resolver nenhum problema econômico e,
nem mesmo para pensar no que significa essa alta inflação, nós também temos
nossos próprios problemas e a vontade de escapar deles indo para a cidade
vizinha.
E como acreditamos na vida após a morte e já doamos o corpo,
fizemos um acordo de que quando uma de nós se for, a homenagem será, se for
verão, derramar as lágrimas de saudade no mar ou, no inverno, com uma bela
garrafa de vinho e Buenos Aires é sempre um bom destino para isso.
Monday, December 01, 2014
Eles encontraram mais de 100 formas para o amor
Quando no início do espetáculo, anunciam o nome dos bailarinos e citam Denis Gosh, acho
estranho. Afinal, sempre ouvi que profissionais da dança tinham que ser muito
magros. Mas, precisou apenas alguns minutos de espetáculo para eu perceber que,
não havia nada de errado nessa definição. Muito pelo contrário. Gosh dança
muito e, se ele tem algum desejo de parecer mais magro, consegue no palco. Ele
mantém uma leveza a cada passo e mostra também sua força, sustentando diversas
vezes outras pessoas do grupo. Além disso, carrega do teatro toda a sua
expressividade. Não é por acaso que ele assina a direção de elenco desses oito
bailarinos (Aline Karpinski, Dani Dutra, Eduardo Richa, Fernando Faleiro, Joana
Amaral, Juliana Rutkowski e Renata Teixeira) que, sendo tão únicos, parecem um
só. E eles começam com uma música francesa, o que, é claro, me agrada. Mas, ao longo
do espetáculo, ouvimos músicas de diversas nacionalidades. E não é só isso.
Existe uma mistura de muitos estilos. Eles
mexem com o preconceito, com essa vigilância sobre o que devemos ou não ouvir e
põem em cena músicas que, não raro, são rejeitadas justamente por quem
frequenta teatro. Nesse espetáculo, não existe música brega ou de elite. As escolhas são surpreendentes e a trilha é
totalmente eclética.
Sem nada de cenário, o palco totalmente nu, os bailarinos
ocupam o espaço todo o tempo. Não todos. Aliás, um ponto alto de 100 formas
para amor é, justamente, o jeito de “costurar” a coreografia de uma música para
outra. Quem poderia imaginar aquelas emendas? Aquelas 100 formas de sair de
cena? Só na mão de um diretor como Diego Mac tudo pode acabar tão bem conectado
e apresentar essa perfeição cênica.
Existe também uma mescla de precisão e criatividade, duas
características que, a princípio, nos parecem antagônicas. Em 100 formas de
amor, elas estão em cada momento, em cada gesto que mantém tão presente a Macarena
que o grupo já mostrou que pode ser poética. Mas, o grupo não mostra só o lado
leve do amor, mas, também, os exageros da paixão e do ciúme. E, se grandes
chefs de cozinha dizem que não se deve pegar um ingrediente e tentar fazê-lo
ser outra coisa, as escolhas desse espetáculo mostram que, às vezes, uma música
quer ser outra coisa. Assim, tem horas que, simplesmente, recordamos o que a
música traz à memória e, em outras, somos completamente surpreendidos pela
proposta dos coreógrafos. São muitos gestos, muitos movimentos, como o
revezamento dos bailarinos durante a música Eduardo e Mônica. Nada é previsível
na dramaturgia de Gui Malgarizi.
A maquiagem é singela, mas faz brilhar o rosto dos bailarinos,
trazendo glamour e beleza, mas não vou fingir que sei como Fabrício Simões
conseguiu aquele resultado de iluminação que dá poesia a cada momento, que
destaca alguns pares em detrimento de outros e, depois, ilumina todos.
O figurino de Fabrício Rodrigues é sofisticado. As roupas
parecem luxuosas e, embora nenhum bailarino esteja vestindo a mesma coisa, existe
uma profunda harmonia.
Não consigo deixar de pensar que adoraria receber um abraço
como tantos que vi e ser carregada por alguém daquela maneira. Aquela entrega
já é o amor. E é justamente a música com esse nome, na versão de Maria Bethânia,
que vai mexendo comigo, com a minha vontade de amar assim. Logo eu que já
cantei tantas vezes com deboche essa música tão melodramática.
“Mas, tudo isso é pouco diante do que sinto” ... para dar
uma pequena ideia da capacidade desse grupo em alternar ritmos, o que, sem
dúvida, exige muito e a gente sai do
espetáculo pensando que outra música seria bom vê-los dançar. Que venha o 200
formas para o amor!
Wednesday, November 26, 2014
De filho para pai
Ambientes teatrais costumam reunir boas histórias e nem
sempre elas estão no palco. É o caso de Paulo Fraga, pai de um dos alunos do
Festival de Teatro Estudantil em Viamão que se aproximou para falar sobre a
peça que ele havia gostado. Aos poucos, foi contando que havia começado a ver
teatro somente há uns três anos quando veio para cidade. Com 55 anos, tanto
divido até então na zona rural, conta que o primeiro filme que assistiu foi com
seus amigos. Sentados em cima de vacas, olhavam o “cinema” projetado em um
galpão, uma história do Teixeirinha.
Foi o filho Josué de 15 anos que o aproximou das
apresentações na escola. Tendo participado de apenas quatro espetáculos até
hoje conseguiu Destaque de Melhor ator em 2013 no espetáculo Memórias de um
sargento de Milícias e foi indicado no Festival de teatro Municipal. Ele só dá
motivos de orgulho ao pai que sempre que pode o acompanha. Foi assim que Paulo
acabou participando do Curta Gaúcho Oxigênio. “Eles precisavam de alguém mais
velho e eu estava lá”. Fraga conta que os filhos tocam vários instrumentos e,
provando que os apoia nesse lado artístico, conta que, mesmo não tendo muitas
posses, tem um bom investimento musical no quarto dos meninos. Segundo ele,
fazem apresentações gratuitas em asilos e para crianças carentes.
Voltando a se referir ao espetáculo Maria Degolada
apresentado no 2º Festival Estudantil de Teatro de Viamão, ele diz que se
arrepia só de falar. “Meus filhos não foram classificados, mas eu tenho que
admitir que esse espetáculo selecionado é muito bom”. Em seguida, já começa a
fazer planos com Josué, que também está sempre presente e colaborando com os
demais grupos participantes do festival, para fazer uma apresentação musical
ainda nesse Natal.
Friday, November 21, 2014
Quando o jornalismo vira teatro
O Mal-entendido, escrito em 1941 e publicado em 1944, pelo francês Albert Camus, foi uma tentativa do autor de criar uma tragédia moderna a partir de um “fait divers” que ele teria lido em um jornal em 1935. Para quem não sabe essa é uma expressão jornalística para os assuntos que não são categorizáveis nas editorias tradicionais como política, economia, etc, apresentando casos inexplicáveis e excepcionais. Mas, quem me conhece sabe que eu não gosto de ficar adiantando a história. Assim, o que posso dizer é que, para mim, será sempre fascinante essas situações em que “revelações” surgem como um golpe do destino.
O espetáculo de Gilberto Fonseca e Daniel Colin (que também assina a dramaturgia) tem a coragem de apresentar ao público essa história intrincada e trágica.
Fernanda Petit está irreconhecível no papel da filha, conseguindo oscilar entre um personagem que por vezes parece frio e em outros momentos à beira de um colapso. E não estou falando aqui só da sua aparência, cujo figurino de Antonio Rabadan tão bem caracteriza todos os atores, mas de sua atuação firme, segura e tão expressiva. Por conhecê-la mais de perto, sei que ela sofre para chegar a esse resultado e que duvida de si mesma, mas, acredito que seja exatamente por isso que ela consiga se colocar em cena tão inteira, tão outra. Contracenando com Gabriela Greco, elas mantêm a plateia sob suspense, gerando piedade e ao mesmo tempo asco. Só Elison Couto, a quem admiro e que têm a experiência de vários protagonistas, para conseguir ocupar espaço entre estas duas e acrescentar mais riqueza e energia a cada momento. Aliás, devo dizer que ele é um dos caras mais vivos e, com certeza, o mais morto que eu já vi nos palcos.
Não é à-toa que Patrícia Maciel teve certa dificuldade de fazer com que sua participação em diversas cenas tivesse a mesma vibração. Não se trata de uma tarefa fácil. Até porque seu personagem não tem a mesma história para contar, não traz as mesmas sensações. Também acredito que falte mais mistério nesse personagem de Pedro Nambuco do serviçal que, tendo um papel tão contundente na história, poderia ser mais inconveniente, sorrateiro e menos caricato.
A trilha sonora, em minha opinião, poderia ser mais sutil. Por vezes, escorrega para um terror que não condiz com o suspense. Ou, em alguns momentos, causa cortes que não deixam fluir as cenas.
Agora, isso não diminui a competência do grupo Teatro de Areia na ocupação do Teatro de Arena que consegue transformar um espaço tão pequeno em um ambiente tão cheio de simbologia, criando uma forte atmosfera. Os elementos utilizados, a forma como os personagens interagem com eles merecem todos os elogios.
Creio que se Camus visse essa adaptação poderia até dizer que não tinha pensado em uma irmã tão agressiva, nem numa mãe tão sem esperança, mas ele teria que confessar que também não imaginara que fosse possível fazer tanto em um local tão restrito. E é essa a arte do teatro que é viva, mutante e deve ser vista por outros olhares. Assim, recomendo que aproveitem essa oportunidade de conhecer esse texto tão bem explorado por esse grupo e tirem suas próprias conclusões.
O espetáculo de Gilberto Fonseca e Daniel Colin (que também assina a dramaturgia) tem a coragem de apresentar ao público essa história intrincada e trágica.
Fernanda Petit está irreconhecível no papel da filha, conseguindo oscilar entre um personagem que por vezes parece frio e em outros momentos à beira de um colapso. E não estou falando aqui só da sua aparência, cujo figurino de Antonio Rabadan tão bem caracteriza todos os atores, mas de sua atuação firme, segura e tão expressiva. Por conhecê-la mais de perto, sei que ela sofre para chegar a esse resultado e que duvida de si mesma, mas, acredito que seja exatamente por isso que ela consiga se colocar em cena tão inteira, tão outra. Contracenando com Gabriela Greco, elas mantêm a plateia sob suspense, gerando piedade e ao mesmo tempo asco. Só Elison Couto, a quem admiro e que têm a experiência de vários protagonistas, para conseguir ocupar espaço entre estas duas e acrescentar mais riqueza e energia a cada momento. Aliás, devo dizer que ele é um dos caras mais vivos e, com certeza, o mais morto que eu já vi nos palcos.
Não é à-toa que Patrícia Maciel teve certa dificuldade de fazer com que sua participação em diversas cenas tivesse a mesma vibração. Não se trata de uma tarefa fácil. Até porque seu personagem não tem a mesma história para contar, não traz as mesmas sensações. Também acredito que falte mais mistério nesse personagem de Pedro Nambuco do serviçal que, tendo um papel tão contundente na história, poderia ser mais inconveniente, sorrateiro e menos caricato.
A trilha sonora, em minha opinião, poderia ser mais sutil. Por vezes, escorrega para um terror que não condiz com o suspense. Ou, em alguns momentos, causa cortes que não deixam fluir as cenas.
Agora, isso não diminui a competência do grupo Teatro de Areia na ocupação do Teatro de Arena que consegue transformar um espaço tão pequeno em um ambiente tão cheio de simbologia, criando uma forte atmosfera. Os elementos utilizados, a forma como os personagens interagem com eles merecem todos os elogios.
Creio que se Camus visse essa adaptação poderia até dizer que não tinha pensado em uma irmã tão agressiva, nem numa mãe tão sem esperança, mas ele teria que confessar que também não imaginara que fosse possível fazer tanto em um local tão restrito. E é essa a arte do teatro que é viva, mutante e deve ser vista por outros olhares. Assim, recomendo que aproveitem essa oportunidade de conhecer esse texto tão bem explorado por esse grupo e tirem suas próprias conclusões.
Saturday, November 15, 2014
Uma estrela amarela, um triângulo rosa e uma história para nunca mais esquecer
Talvez, algumas pessoas, como eu, achem que tratar de
homofobia em uma época nazista seja tanta barbárie que acabe com certo receio
de ir ao teatro para ver Os homens do triângulo rosa. Por isso, foi preciso que alguns amigos
começassem a fazer comentários muito favoráveis para que eu me convencesse que
não poderia deixar de ir. Assim, preparada, fui surpreendida por um começo
quase cômico do espetáculo e a presença musical e marcante de Gisela Haybeche. Eu
conhecia sua voz de timbre aveludado das aulas do Departamento de Artes
cênicas, mas nunca tinha imaginado que ela poderia ficar quase irreconhecível
em um personagem glamoroso e, ao mesmo tempo, tão real. O figurino de Antonio
Rabadan contribui para isso. Mas, é a força, a confiança com que ela anda pelo
palco e a intensidade dos olhares que conquista.
Marcelo Adams e Gustavo Susin contracenam com desenvoltura e
firmeza nos papeis de homossexuais e levam, mesmo para os campos da época de
Hitler, um lado engraçado de uma forte relação amorosa. E é esse clima inicial
de cumplicidade, tão bem desenvolvido pela dupla que desperta todo o respeito e
empatia que torna o que está por vir ainda mais cruel.
Não tem como não achar que todos os elogios que eu havia
lido não foram suficientes para falar desse espetáculo feito com tanta
delicadeza, mas também com tanta garra pela Cia Teatro ao Quadrado. Com poucos
elementos cênicos (como o grande painel de pessoas aplaudindo) e ao mesmo tempo
tão fundamentais para criar toda a atmosfera de uma época tão sinistra, é preciso
uma direção corajosa como da Margarida Peixoto não só pela temática, mas pelas
cenas que, por vezes, lembram “Esperando Godot”, de Beckett, com o mesmo
non-sense tão carregado de sentido. Pelo tempo entre as falas. Pelo desafio de
prender o público deixando apenas o sentimento suspenso no ar.
Os homens do triângulo rosa não seria como é se não fosse a
atuação impecável de cada personagem desse
elenco composto também por Alex Limberger, Pedro Delgado e Edgar Rosa,
incluindo até mesmo o caminhar dos guardas e a postura que só pode vir da
rigidez e do ódio. Aliás, é um espetáculo cuja linguagem corporal preenche
todos os diálogos e tudo que não é dito. E o que vai sendo contado assim é tão
perturbador que eu me defendo buscando um olhar de espectador, de quem ainda se
fascina com esse poder da arte de nos fazer mergulhar em outro tempo e espaço. E,
ali, naquele palco, o teatro é mágico, mas, é também agonia.
Violentamente, Frederico Vasques nos transporta para aquele
momento da história, nos fazendo esquecer que estamos em um espaço cênico em
uma outra época, ainda que com tanto em comum. Sua contracenação com Marcelo
Adams é impecável e intensa, não tem sobras e mostra o patético do seu
personagem preso por um fio, o da intolerância. Já Marcelo Adams nos apresenta todas as
nuances de sentimentos tão profundos e antagônicos de quem não pode fugir do
que é, nem tão pouco revelar.
Assim, apesar de todas as histórias sobre o nazismo que já
vimos, esta peça, baseada no livro Bent, de Martin Sherman, nos atira para uma
realidade que não foi suficientemente relatada na história, provando que, por
mais terrível que possamos imaginar a força do preconceito nazista, este
conseguiu ser ainda pior ao tratar dos homossexuais. Não, não há como se
preparar para um espetáculo como esse porque ele é arrebatador por essa mistura
de violência e delicadeza, de crueldade e de afeto e por apontar tão duramente
o que o amor e a falta dele podem provocar na humanidade.
Thursday, November 06, 2014
O milagre da Torre Eiffel
Eu acredito em milagres porque eles acontecem comigo. Estava
na fila para subir na Torre Eiffel e uma senhora e uma criança de uns seis anos
falavam em francês sobre de onde vinham todas as pessoas que estavam ali,
fazendo uma lista de diversos países. Eu me meti na conversa e citei o Brasil.
Começamos a conversar. O menino, muito sorridente e esperto, dizia que não
precisaria de bilhete pois tinha uma “chave” e mostrava a sua pequena torre
dourada em um chaveiro. Eu, já cansada por ter ido a pé do centro até lá,
comentei sobre a energia do menino e disse que deveria ser a torre que lhe dava
esse poder. Ele achou engraçado e fingia que ia me dar a torre e pegava de
volta. Entramos no elevador e não nos vimos mais. Amaguei numa fila por um bom
tempo pois tinha comprado o bilhete para a parte mais alta (e menor). Não
fiquei muito tempo lá em cima pois já eram quatro horas da tarde e eu estava
sem comer nem beber nada e o corpo dava indícios de exaustão. Saí procurando
uma estação de metrô e, no caminho, encontrei um restaurante. Lembrei que minha
mãe sempre sugere que se faça uma parada para recuperar as forças quando o
caminho é longo e resolvi comer ali. Uma multidão passava pela minha frente a
cada instante em direção a torre. Não demorou muito, surge a minha frente a
mesma senhora e o menino, procurando um lugar para beber algo. O menino me
vendo diz para a senhora que quer se sentar ali. Ficam os dois ao meu lado e
começamos a conversar sobre as nossas viagens já que ela havia vindo do
interior com o menino e também fazia programas turísticos. É ela que me ajuda
depois a encontrar a estação e pegar o primeiro RER da minha viagem e chegar em
pouco tempo ao meu destino. Bem, quem já esteve por lá sabe a gigantesca
quantidade de pessoas que circula por ali e sendo o lugar mais visitado do mundo
é o pior para marcar um encontro. O
propósito? Será sempre um mistério, mas, para mim, não deixa de ser um milagre.
Wednesday, October 01, 2014
- E lá se foi meu amigo Pierre Pitré, um dos franceses que desmente completamente aquela ideia de que eles não têm humor e que se sentem superiores aos demais. Tive o prazer de conviver com a sua intensa curiosidade por tudo, sua tentativa de aprender português, dizendo churrascô e tantas outras palavras. Hospedado aqui em casa, estava sempre disponível para toda e qualquer programação que inventássemos. Recebendo a gente lá, era incansável em tentar nos fazer sentir em casa, com todas as gentilezas possíveis, desde fazer questão de nos buscar no aeroporto até nos servir vários copos de vinho. Na última vez em que estivemos juntos, ele relembrou momentos da sua vida e contava alegre as conquistas que fizera. Andou estrada a fora para nos mostrar alguns lugares do seu país. Ficou um bom tempo pendurado em uma linha telefônica só para descobrir se o albergue onde estava o meu sobrinho estaria aberto até ele voltar. A geografia fez com que convivêssemos pouco, mas em momentos marcantes para nós. Foi a casa que me acolheu na minha primeira vez em Paris e isso ficará para sempre em minha memória. Apesar do pouco tempo que tivemos juntos, deixa muita saudade e milhares de lembranças felizes de uma alma generosa e que sabia levar uma vida com a leveza que ela merece.
http://youtu.be/fDio3_1AaJ8
Sunday, September 07, 2014
Músicas francesas na voz de um anjo gaúcho
Nos tempos de hoje, não deixa de
ser estranho que uma pessoa jovem escolha o canto erudito. Sei de gente que
pode achar chato. Para mim, ouvir uma voz de soprano me remete a um tempo
passado, quem sabe a uma outra vida já que se tratava de músicas francesas?
Fato é que as pinturas da sala, o espelho, o piano e o próprio figurino negro
de Fernanda D’Almeida na Casa da Música também colaboravam para essa impressão. Não é a primeira vez que a vejo, nem que
escrevo sobre isso, mas dessa vez o repertório do recital chamado Melodies parecia
escolhido para me agradar. Como se o simples fato daquela voz límpida,
angelical já não o fizesse. É preciso também destacar o fato de que ela não se
limita a emitir aqueles sons impecáveis, ela interpreta cada palavra e me
humilha com a sua memória prodigiosa declamando antes cada letra em português. Foram
dez músicas, todas decoradas nas duas línguas, acompanhadas ao piano por Arthur
Wilkens, indo dez de uma canção sobre patinhos à Debussy.
Como se já não bastasse a figura
de cabelos negros, a boca carnuda e seus olhos brilhantes, Fernanda tem
presença cênica. É expressiva. Cresce quando está no palco, mesmo que seja um
pequeno espaço lotado. Quem a conhece mais de perto comenta que ela fica bem
diferente do dia-a-dia, mas, não é assim com todo artista? Para encerrar, ela escolhe
a música “J’ai deux amants” (Eu tenho dois amantes) e enquanto canta gesticula,
sorri, faz um olhar provocador e sensual e brinca com a plateia sobre o
conteúdo da canção que chama os homens de bobos.
Minha prima, Doralice Alves, anda
pela Europa e não pode assistir a filha. Mas, espero que o talento do seu outro
filho, Marcelo Alves, no trato das imagens, assim como a filmagem da sua irmã
Claudia D’Almeida possam dar uma ideia do que foi essa noite chuvosa em Porto
Alegre, onde me senti um pouco em Paris. Será assim também no dia 25 de
setembro no Festival da Canção Francesa quando voltarei a ouvi-la. Fernanda D’Almeida foi uma das 10
selecionadas para esse evento que acompanho há anos e que vem reunindo grandes
talentos que fazem essa ponte que existe para mim desde criança: Paris-Porto
Alegre.
Thursday, July 17, 2014
Cadeira vazia? Só se for a música.
Escrevo mais por
vício, pois quando um espetáculo consegue lotar um lugar como a Reitoria (depois
de já ter lotado o Teatro São Pedro) com um público entusiasmado, talvez, não
haja muito mais a dizer. Mas, me atrai essa proposta de montar musicais que
anda por aqui. E Lupicínio, em particular, me interessa. Eu conheci suas músicas
mais na voz de Maria Bethânia e fiquei impressionada com a força das letras,
com aquele sentimento todo. Mesmo assim, foi com surpresa que percebi que ainda
há muitas letras desse incrível poeta.
Sou leiga no
assunto, mas, neste espetáculo, todos parecem ter competência para cantar. Tirando
alguns poucos momentos, em que alguns atores recebem suporte dos demais, em
geral, as vozes enchem o espaço com força e delicadeza. Cintia Ferrer traz para
a cena o seu carisma, o seu preparo corporal e a sua capacidade de fazer mais
de um personagem, ou seja, sua presença cênica. Raul Voges, que eu conheci
dançando lindamente com minha prima Angela Spiazzi em outro espetáculo, mostra que
é capaz de cantar muito bem. Assim como Lucas Krug que imprime em sua voz e ao
seu corpo uma expressividade trazida das experiências cênicas e um timbre que o
permite não apenas cantar, mas interpretar as músicas. E se cito
particularmente estes é porque os conheço pessoalmente ou de outros trabalhos,
mas, não há dúvidas de que todos os demais formam um grupo competente musicalmente
em cena.
Os painéis
transformados em cenário são representativos da obra e da presença de Lupicínio
em Porto Alegre. O figurino de Fabrizio Rodrigues parece adequado a cada
integrante, trazendo, em alguns momentos, beleza à cena, como acontece no
número de “Elis”. Aliás, a aparição de alguns outros artistas que fizeram parte
da vida de Lupi, assim como alguns números femininos, sem dúvida, enriquecem a
história a ser contada e o jogo com a linha do tempo mostrando Lupicínio
menino, moço ou mais velho traz uma bela dinâmica. Por escolhas como essas, nada vai diminuir o
mérito desta produção gaúcha que obtém aplausos da plateia em cena aberta, que
mostra a força e o potencial deste gênero no teatro. Porém, é justamente aqui
que encontro uma certa fragilidade. Afinal, a música de Lupi é dramática. Cada
palavra permite a visualização de uma cena. E, no entanto, isso não aparece.
Sem querer, minha irmã destaca o único item que eu já pensava comentar quando
diz: o prefeito Fortunatti estava no “show”.
E é isso que me faz buscar a definição de musical para saber se esta
impressão que ficou para mim faz sentido.
É inegável que
Artur José Pinto criou um roteiro que possui comentários inteligentes e frases
engraçadas que ilustram a vida do boêmio. Mas, não chega a ser biográfico, não
alinhava as histórias da vida do seu “protagonista”. Duas coisas evidenciam
essa falta de teatralidade a qual me refiro: os “atores” cantarem, quase
sempre, virados para o público e a visibilidade dos músicos. Não há como “entrar
na história” se vejo mexerem nos instrumentos. Tanto é que um deles até canta
uma das músicas. O que me fez ficar procurando quem estava cantando. E como, a princípio, o que se chama
de musical é um gênero onde a narrativa é
apoiada em um conjunto de músicas coreografadas, a meu ver, o que
acontece em Lupi é o contrário. São músicas, intercaladas por alguma narrativa
ou simplesmente por uma espécie de “pano de fundo” com ações do elenco.
Não acho que para quem estava no teatro hoje à noite isso
faça alguma diferença. Tanto é que o simples hino do Grêmio provoca fortes
reações do público. Tanto a favor quanto contra. Creio que a maioria esperava
ouvir boa música e nisso não foram decepcionados. Foi uma excelente escolha
terminar o espetáculo levando o público a cantar “Se acaso você chegasse”. Entretanto, se levar a risca o título “uma
vida em estado de paixão”, devo dizer que vi mais eficiência do que emoção, mas
que ainda assim sai do teatro com um sentimento muito favorável em relação ao
que estamos conseguindo produzir por aqui. E não tenho a menor dúvida de que
este é um dos gêneros teatrais mais difíceis de ser montado e que exige muito
mais do que lindas vozes.
Monday, June 09, 2014
Nico Nicolaiewsky: a vida interrompida de um personagem eterno.
“Eram duas caveiras que se
amavam e que a meia-noite se encontravam....” Esse é apenas um dos trechos das
muitas músicas que estão na cabeça de todos os que assistiram Tangos e
Tragédias. O espetáculo criado, em 1984, por Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez, chegou a entrar em sua 30ª temporada no dia 9 de janeiro, no Teatro São
Pedro, com todos os ingressos praticamente vendidos, mas teve que ser cancelado.
Nico Nicolaiewsky que estava hospitalizado no Moinhos de Vento, desde o dia 23 e
lutava contra uma leucemia mielóide aguda não resistiu. No dia 7 de fevereiro,
a cidade amanheceu de luto com a notícia da morte, aos 56 anos, do ator.
Nelson Nicolaiewsky,
seu nome de batismo, nasceu no dia 9 de junho de 1957, em Porto Alegre. Estudou piano desde os 7 anos e, e
aos 13, foi aprovado em um teste no Instituto de Belas Artes da UFRGS, onde
seguiu seus estudos até os 16 anos. Na década de 1970, aos 21 anos, foi um dos fundadores do “Musical
Saracura” um dos mais importantes grupos do Rio Grande do Sul que,
infelizmente, teve um único Cd gravado antes de se dissolver. Em 1984, o Tangos e Tragédias recém estava
começando as apresentações quando Nico foi para o Rio de Janeiro, morando lá durante 10 anos e estudando com
o maestro Hans-Joachim
Koellreuter.
Ao
retornar ao Rio Grande do Sul, lançou dois discos solo: Nico Nicolaiewsky
(1996) e As Sete Caras da Verdade (2002). O primeiro contém valsas e canções
líricas e virou trilha do filme Amores, de Domingos de Oliveira. O segundo
consiste em uma ópera-cômica. Em 2007, Nico Nicolaiewsky lançou seu terceiro
disco, intitulado Onde Está o Amor? que,
diferente dos anteriores, contém músicas de caráter mais pop. O disco foi
produzido por John Ulhoa, guitarrista
da banda Pato Fu, e além de composições próprias, inclusive canções do Musical
Saracura, como
"Marcou Bobeira" e "Flor",
o repertório incluía releituras de clássicos da música brasileira como
"Maluco Beleza" de Raul Seixas, "Ana Júlia" dos Los
Hermanos e "Dia de Domingo" de Tim Maia. Conhecido em todo o Rio
Grande do Sul, o ator participou de programas da RBS TV e da Rede Globo, como o
Galpão Crioulo, tradicional atração de música regionalista do estado. Um dos seus últimos trabalhos foi o espetáculo de
2013 "Música de Camelô", onde cantava sozinho ao piano, canções populares
como "Ai Se Eu Te Pego", de Michel
Teló, e "Tô Nem Aí", da cantora Luka,
Mas foi com o Tangos & Tragédias que
conquistou reconhecimento nacional.
Tangos & Tragédias era um espetáculo que
reunia música, humor, teatro e muita interação com o público. Os recursos
cênicos eram garantidos pela ficção construída em torno dos dois personagens: o
Maestro Plestkaya (Nico Nicolaiewsky) e o violinista Kraunus Sang (Hique
Gomez), artistas vindos de um país imaginário chamado Sbørnia. Todas as músicas
escolhidas, canções brasileiras e sucessos da música internacional, passavam
pela comicidade dos dois, criando um espetáculo capaz de agradar diferentes
plateias e faixas etárias. O espetáculo foi encenado nos mais importantes
teatros do Brasil e recebeu uma versão integral para língua espanhola, apresentada
na Argentina, Equador, Colômbia e Espanha. Em 2003, em Portugal, Tangos e
Tragédias foi escolhido pelo público como o melhor espetáculo durante o
Festival Internacional de Teatro de Almada e, em 2004, como "Espetáculo de
Honra". Em 2007, voltaram para uma semana no teatro Tívoli e rápida turnê
pelo país. Nesse mesmo ano, o espetáculo foi lançado em DVD. Em 2011, foi eleito o Melhor Show Popular do ano pela
Associação Paulista de Críticos de Arte. As aventuras dos personagens Kraunus
Sang e maestro Plestkaya também viraram filme, a animação “Até Que a Sbórnia
nos Separe”, do cineasta Otto Guerra, exibida no Festival de Gramado de 2013.
Tangos e Tragédias: as razões do seu sucesso
O espetáculo, que criava todo um contexto imaginário sobre a cidade batizada pelos
artistas de Sbórnia, não obteve sucesso logo no início. Durante dois anos foi
apresentado em barzinhos de Porto Alegre para pequenas plateias. Só em 1986 faz
a primeira apresentação no palco do Instituto Goethe de Porto Alegre com a
participação de Dilmar Messias, ator e diretor que encarnou Frantz, um dos
primeiros (serão muitos artistas ao longo das três décadas) “sbornianos célebres”.
Ainda assim, poucas pessoas assistiram essa primeira temporada. Isso não
impediu, porém, que no ano seguinte eles estreassem no Rio e em São Paulo e que
em 1988, fizessem a primeira estreia da temporada de verão no palco mais
importante de Porto Alegre, o Theatro São Pedro. Hique Gomez atribui o início do sucesso de
Tangos e Tragédias a uma entrevista no programa do Jô Soares onde, ao longo dos anos de 1990,
eles farão 14 aparições e irão garantir a presença em massa dos
porto-alegrenses.
Tratando com humor grandes temas como
o amor impossível, a dor-de-cotovelo e outras tragédias do ser humano, Tangos
& Tragédias reunia música, humor, teatro e muita interação com o público
que insistia em retornar cada vez que o espetáculo entrava em cartaz. Apesar
das plateias lotadas, não era difícil encontrar em Porto Alegre quem nunca
tivesse visto Tangos e Tragédias, mas poucas pessoas haviam visto apenas uma
vez. E o que tornava esse espetáculo tão atraente para o público? Afinal, eram
poucos elementos de cenário, apenas dois artistas no palco, um figurino simples
e uma maquiagem caricata para reforçar os tipos e, apesar de algumas
atualizações, as falas e as canções eram praticamente as mesmas. Para compreender
esse fato é preciso destacar a multiplicidade de talentos de Nico Nicolaiewsky.
Sua formação musical clássica aliada a sua sensibilidade de identificar o valor
da música popular. Nico era músico, cantor,
compositor e ator. Afora isso, havia seu indiscutível carisma no papel de maestro, conduzindo
homens, mulheres e crianças a cantar junto com a dupla.
De forma irônica, mas sem nunca
desrespeitar, debochar ou tentar fazer graça com os equívocos dos presentes,
eles conquistavam o público. Os personagens seguiam um roteiro em que um
assumia a liderança e o outro reforçava suas ironias. Um maestro que tocava
acordeom e que contava histórias trágicas, cheias de emoção, no papel de líder,
e Kraunus Sang (Hique
Gomez), apoiando ou até mesmo contrariando simplesmente com gestos ou
com mudanças de fisionomia e seus olhos expressivos, formando uma cumplicidade
profunda e arrebatadora. É a partir dessa simbiose que surge a grande força
cênica que é transmitida nas entrelinhas do que é ou não, dito. Nos momentos de
tensão dos intervalos entre as notas. Na expectativa do público do que àqueles
dois pretendiam fazer no próximo instante. Na capacidade deles de sustentarem esse
suspense como longas notas de um instrumento para finalizar com alguma atitude
brusca, uma fala simples, levando o público às gargalhadas. E essa mistura
entre a qualidade musical dos dois artistas e esse humor ora ingênuo, ora
arguto e corrosivo, essa ironia implacável, associada à sutileza das frases
poéticas, isso tudo foi construindo esse sucesso que só se torna possível
quando atinge o público e esse faz reverberar o quanto é divertido e agradável
ver Tangos e Tragédias. Não uma, mas duas, três, dez vezes. Porque as piadas
podiam ser as mesmas, mas havia o caráter de improviso a cada apresentação, o
que ocorre sempre que o espetáculo valoriza a interação com o público. Não
importa se era previsível que alguém seria chamado ao palco. Afinal, ninguém,
nem mesmo eles, sabia quem seria convidado a participar e isso tornava aquele
momento único. O que Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez sabiam fazer com perfeição
era valorizar o efêmero. O público percebia que, independente de todos os
ensaios, eles estavam ali presentes, inteiros, executando as melodias com o
prazer de uma primeira vez, mas com a eficiência de quem aprendeu a dominar uma
platéia.
Talvez, seja importante considerar também
que, por mais emocionantes e interessantes que fossem suas apresentações,
provavelmente eles não teriam atingido o mesmo sucesso sem todo o imaginário
criado em torno da cidade fictícia de onde teriam vindo esses dois talentosos
artistas. Citadas pelos dois durante o espetáculo, as características da Sbórnia,
seu povo e seus costumes foram rompendo o espaço cênico e, aos poucos, fazendo parte
da cultura dos gaúchos. Apresentada no palco, a dança chamada por eles de
Copérnico (em que os braços e as mãos ficam imóveis e só a cabeça se
movimenta), tornou-se conhecida em Porto Alegre. Aparentemente “non-sense”, a
história da Sbórnia trazia traços da realidade econômica e social vigente no
Brasil e todos os dados sobre o seu sistema político, o turismo, a moeda
oficial da Sbórnia vinham carregados de críticas ao país. Na história do
espetáculo, contada pelos próprios autores em seu espaço de divulgação, é
difícil identificar o que é real ou foi criado apenas para fazer graça e é
justamente essa mescla que torna tudo tão interessante. Não há dúvidas, porém,
de que muitas ideias levadas ao palco surgiram a partir das experiências reais
dos seus autores. Um exemplo disso, é o relato de Nico Nicolaiewsky sobre o
plano de levar para fora do teatro a encenação do Tangos e Tragédias.
“Lembro
da primeira vez que saímos tocando do teatro para a rua. Nós íamos terminar o
show, como sempre, saindo do palco e entrando no camarim. Acontece que o
camarim estava trancado e nós não tínhamos para onde ir (o palco nesse teatro –
Teatro Cândido Mendes no Rio de Janeiro – dava direto para o camarim, não tinha
corredor), então começamos a sair do palco pela única saída que restava que era
a saída para a rua e o povo nos seguindo e cantando. Aí nós continuamos a tocar
e fomos até a praça. E o povo nos seguindo. A partir daí fazemos igualzinho em
todos os shows como se fosse pela primeira vez.”(NICOLAIEWSKY, Nico)
Fato é que, durante muitos anos, Porto Alegre teve a chance
de presenciar um espetáculo a céu aberto em uma das áreas mais nobres da
cidade, na Praça da Matriz. Juntavam-se àqueles que haviam comprado ingresso,
pessoas só para assistirem a essa pequena parte, que já sabiam que, no final,
Pletskaya e Kraunnus Sang arrastariam centenas de pessoas para fora e se
dirigiam para o local só para assistir essa pequena parte. Assim, a proposta
artística de Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez foi levada, literalmente, muito
além das paredes do Theatro São Pedro, onde também seria, finalmente, a
despedida do Maestro.
Uma enorme faixa preta foi colocada na
fachada. Lá, os amigos e pessoas de todas as áreas importantes da cidade foram
dar adeus ao artista. O governador Tarso Genro
decretou luto oficial de três dias e visitou o local, que pela primeira vez
sediava um velório, para também prestar homenagem ao músico. Grandes nomes da
música e do teatro foram confortar a família e amigos de Nico como os músicos
Nelson Coelho de Castro, Vagner Cunha, Thedy Correa, Sady Homrich, o escritor
Luis Fernando Verissimo e a mulher Lucia, o diretor Zé Adão Barbosa, os atores
Zé Victor Castiel, Rogério Beretta, a diretora e coreógrafa Carlota Albuquerque
e os maestros Antônio Borges-Cunha e Tiago Flores. O
caixão estava no fosso que separa o palco da plateia, coberto por um pano preto
com a Estrela de Davi, conforme a tradição judaica. Sobre esse, uma manta que Nico
ganhou de presente do pai com notas musicais e teclas de piano. No palco, foram colocados uma cadeira vazia e um piano no
qual algumas pessoas tocaram como Simone Rasslan, Arthur de Faria
e Fernando Pezão. Hique Gomez emocionou tocando violino e anunciando a criação
do instituto de “Artes Sbornianas” para preservar a obra do parceiro com quem
dividiu 30 anos de palco. Sua filha, a escritora Clara
Averbuck escreveu:
“Eu sempre estive lá, então acho que nunca cheguei a realmente dizer o
tanto que eu admiro o trabalho que o Nico e o meu pai fizeram, como aquele
espetáculo foi mágico, como era lindo, como me surpreende e deleita a
capacidade dele de tocar absolutamente todo o tipo de pessoa, como era um
imenso gerador de alegria para todos que assistiam com o incrível poder
transformador das coisas feitas com o coração, capazes de fazer multidões
entrarem em catarse. Eu sei todas as letras de todas as músicas há anos, sei
todos os timings das piadas, tudo. Faz parte de mim. Faz parte de quem eu sou.
E eu nunca pensei que fosse terminar. Esse ano, no dia da estreia, meu pai
esqueceu um apetrecho fundamental para o cabelo do Kraunus e eu e minha mãe
fomos correndo levar no Theatro. O Nico estava fazendo uns acertos com o
Levitan e o Pezão, a Gran Orchestra da Sbornia, já prontos pra entrar no palco.
Quando me viu, largou o acordeon e me deu um abraço tão apertado e querido que
eu quis ficar para ver o espetáculo mais uma vez. Pensei: ah, depois eu vejo.
Vai ter sempre. O Tangos nunca vai acabar E não vai mesmo. O Tangos e Tragédias está eternizado no coração de cada
um que viu, de cada um que conheceu, de cada um que, nesses 30 anos, saiu cheio
de alegria daquele e de outros teatros pelo Brasil e pelo mundo. Agora cabe a
nós espalhar e registrar ainda mais a genialidade desse espetáculo que tocou tanta
gente. Obrigada, Nico, por tudo. A música nunca vai morrer...”
Durante todo o dia, o teatro esteve lotado não só de pessoas conhecidas,
mas de tantos outros que apenas queriam homenagear o artista. As pessoas se acomodavam nas mesmas poltronas
onde assistiram tantas vezes ao espetáculo musical e humorístico Tangos & Tragédias,
fenômeno de popularidade sem precedentes no Rio Grande do Sul. A sala que sempre estivera repleta de música e risos era, naquele
momento, local de silêncio, emoção e lágrimas na despedida de um artista que,
embora tenha sido consagrado em um único papel, era reconhecido no meio musical
como um compositor de indiscutível talento.
Artur Faria, músico e amigo de Nico, também escreveria nas
redes sociais: “Hoje eu pus pedras brancas
sobre a terra úmida embaixo da qual jazia o corpo morto do meu amigo. Hoje, e
ontem, eu toquei pra ele, com outros amigos nossos, e não tocamos nada, só
tocamos. Só deixar a música sair, a música que viesse, música nenhuma, música
qualquer. Hoje, e ontem, eu tinha certeza de que ele ia dizer pra gente, com
aquele riso de orelha a orelha, o tom mais agudo na voz, meio falando meio
rindo: - Baaaaaaah, mas vocês bem que podiam ter ensaiado, né?”(FARIA, Artur,
2014).
Subscribe to:
Posts (Atom)
















