Wednesday, October 01, 2014


  1. E lá se foi meu amigo Pierre Pitré, um dos franceses que desmente completamente aquela ideia de que eles não têm humor e que se sentem superiores aos demais. Tive o prazer de conviver com a sua intensa curiosidade por tudo, sua tentativa de aprender português, dizendo churrascô e tantas outras palavras. Hospedado aqui em casa, estava sempre disponível para toda e qualquer programação que inventássemos. Recebendo a gente lá, era incansável em tentar nos fazer sentir em casa, com todas as gentilezas possíveis, desde fazer questão de nos buscar no aeroporto até nos servir vários copos de vinho. Na última vez em que estivemos juntos, ele relembrou  momentos da sua vida e contava alegre as conquistas que fizera. Andou estrada a fora para nos mostrar alguns lugares do seu país. Ficou um bom tempo pendurado em uma linha telefônica só para descobrir se o albergue onde estava o meu sobrinho estaria aberto até ele voltar. A geografia fez com que convivêssemos pouco, mas em momentos marcantes para nós. Foi a casa que me acolheu na minha primeira vez em Paris e isso ficará para sempre em minha memória. Apesar do pouco tempo que tivemos juntos, deixa muita saudade e milhares de lembranças felizes de uma alma generosa e que sabia levar uma vida com a leveza que ela merece.

 http://youtu.be/fDio3_1AaJ8

Sunday, September 07, 2014

Músicas francesas na voz de um anjo gaúcho



Nos tempos de hoje, não deixa de ser estranho que uma pessoa jovem escolha o canto erudito. Sei de gente que pode achar chato. Para mim, ouvir uma voz de soprano me remete a um tempo passado, quem sabe a uma outra vida já que se tratava de músicas francesas? Fato é que as pinturas da sala, o espelho, o piano e o próprio figurino negro de Fernanda D’Almeida na Casa da Música também colaboravam para essa impressão.  Não é a primeira vez que a vejo, nem que escrevo sobre isso, mas dessa vez o repertório do recital chamado Melodies parecia escolhido para me agradar. Como se o simples fato daquela voz límpida, angelical já não o fizesse. É preciso também destacar o fato de que ela não se limita a emitir aqueles sons impecáveis, ela interpreta cada palavra e me humilha com a sua memória prodigiosa declamando antes cada letra em português. Foram dez músicas, todas decoradas nas duas línguas, acompanhadas ao piano por Arthur Wilkens, indo dez de uma canção sobre patinhos à Debussy.
Como se já não bastasse a figura de cabelos negros, a boca carnuda e seus olhos brilhantes, Fernanda tem presença cênica. É expressiva. Cresce quando está no palco, mesmo que seja um pequeno espaço lotado. Quem a conhece mais de perto comenta que ela fica bem diferente do dia-a-dia, mas, não é assim com todo artista? Para encerrar, ela escolhe a música “J’ai deux amants” (Eu tenho dois amantes) e enquanto canta gesticula, sorri, faz um olhar provocador e sensual e brinca com a plateia sobre o conteúdo da canção que chama os homens de bobos.

Minha prima, Doralice Alves, anda pela Europa e não pode assistir a filha. Mas, espero que o talento do seu outro filho, Marcelo Alves, no trato das imagens, assim como a filmagem da sua irmã Claudia D’Almeida possam dar uma ideia do que foi essa noite chuvosa em Porto Alegre, onde me senti um pouco em Paris. Será assim também no dia 25 de setembro no Festival da Canção Francesa quando voltarei a ouvi-la.  Fernanda D’Almeida foi uma das 10 selecionadas para esse evento que acompanho há anos e que vem reunindo grandes talentos que fazem essa ponte que existe para mim desde criança: Paris-Porto Alegre. 

Thursday, July 17, 2014

Cadeira vazia? Só se for a música.

Escrevo mais por vício, pois quando um espetáculo consegue lotar um lugar como a Reitoria (depois de já ter lotado o Teatro São Pedro) com um público entusiasmado, talvez, não haja muito mais a dizer. Mas, me atrai essa proposta de montar musicais que anda por aqui. E Lupicínio, em particular, me interessa. Eu conheci suas músicas mais na voz de Maria Bethânia e fiquei impressionada com a força das letras, com aquele sentimento todo. Mesmo assim, foi com surpresa que percebi que ainda há muitas letras desse incrível poeta.
Sou leiga no assunto, mas, neste espetáculo, todos parecem ter competência para cantar. Tirando alguns poucos momentos, em que alguns atores recebem suporte dos demais, em geral, as vozes enchem o espaço com força e delicadeza. Cintia Ferrer traz para a cena o seu carisma, o seu preparo corporal e a sua capacidade de fazer mais de um personagem, ou seja, sua presença cênica. Raul Voges, que eu conheci dançando lindamente com minha prima Angela Spiazzi em outro espetáculo, mostra que é capaz de cantar muito bem. Assim como Lucas Krug que imprime em sua voz e ao seu corpo uma expressividade trazida das experiências cênicas e um timbre que o permite não apenas cantar, mas interpretar as músicas. E se cito particularmente estes é porque os conheço pessoalmente ou de outros trabalhos, mas, não há dúvidas de que todos os demais formam um grupo competente musicalmente em cena.
Os painéis transformados em cenário são representativos da obra e da presença de Lupicínio em Porto Alegre. O figurino de Fabrizio Rodrigues parece adequado a cada integrante, trazendo, em alguns momentos, beleza à cena, como acontece no número de “Elis”. Aliás, a aparição de alguns outros artistas que fizeram parte da vida de Lupi, assim como alguns números femininos, sem dúvida, enriquecem a história a ser contada e o jogo com a linha do tempo mostrando Lupicínio menino, moço ou mais velho traz uma bela dinâmica.  Por escolhas como essas, nada vai diminuir o mérito desta produção gaúcha que obtém aplausos da plateia em cena aberta, que mostra a força e o potencial deste gênero no teatro. Porém, é justamente aqui que encontro uma certa fragilidade. Afinal, a música de Lupi é dramática. Cada palavra permite a visualização de uma cena. E, no entanto, isso não aparece. Sem querer, minha irmã destaca o único item que eu já pensava comentar quando diz: o prefeito Fortunatti estava no “show”.  E é isso que me faz buscar a definição de musical para saber se esta impressão que ficou para mim faz sentido.
É inegável que Artur José Pinto criou um roteiro que possui comentários inteligentes e frases engraçadas que ilustram a vida do boêmio. Mas, não chega a ser biográfico, não alinhava as histórias da vida do seu “protagonista”. Duas coisas evidenciam essa falta de teatralidade a qual me refiro: os “atores” cantarem, quase sempre, virados para o público e a visibilidade dos músicos. Não há como “entrar na história” se vejo mexerem nos instrumentos. Tanto é que um deles até canta uma das músicas. O que me fez ficar procurando quem estava cantando.  E como, a princípio, o que se chama de musical é um gênero onde a narrativa é apoiada em um conjunto de músicas coreografadas, a meu ver, o que acontece em Lupi é o contrário. São músicas, intercaladas por alguma narrativa ou simplesmente por uma espécie de “pano de fundo” com ações do elenco.
Não acho que para quem estava no teatro hoje à noite isso faça alguma diferença. Tanto é que o simples hino do Grêmio provoca fortes reações do público. Tanto a favor quanto contra. Creio que a maioria esperava ouvir boa música e nisso não foram decepcionados. Foi uma excelente escolha terminar o espetáculo levando o público a cantar “Se acaso você chegasse”.  Entretanto, se levar a risca o título “uma vida em estado de paixão”, devo dizer que vi mais eficiência do que emoção, mas que ainda assim sai do teatro com um sentimento muito favorável em relação ao que estamos conseguindo produzir por aqui. E não tenho a menor dúvida de que este é um dos gêneros teatrais mais difíceis de ser montado e que exige muito mais do que lindas vozes.



Monday, June 09, 2014

Nico Nicolaiewsky: a vida interrompida de um personagem eterno.

“Eram duas caveiras que se amavam e que a meia-noite se encontravam....” Esse é apenas um dos trechos das muitas músicas que estão na cabeça de todos os que assistiram Tangos e Tragédias. O espetáculo criado, em 1984, por Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez, chegou a entrar em sua 30ª temporada no dia 9 de janeiro, no Teatro São Pedro, com todos os ingressos praticamente vendidos, mas teve que ser cancelado. Nico Nicolaiewsky que estava hospitalizado no Moinhos de Vento, desde o dia 23 e lutava contra uma leucemia mielóide aguda não resistiu. No dia 7 de fevereiro, a cidade amanheceu de luto com a notícia da morte, aos 56 anos, do ator.
Nelson Nicolaiewsky, seu nome de batismo, nasceu no dia 9 de junho de 1957, em Porto Alegre. Estudou piano desde os 7 anos e, e aos 13, foi aprovado em um teste no Instituto de Belas Artes da UFRGS, onde seguiu seus estudos até os 16 anos. Na década de 1970, aos 21 anos, foi um dos fundadores do “Musical Saracura” um dos mais importantes grupos do Rio Grande do Sul que, infelizmente, teve um único Cd gravado antes de se dissolver.  Em 1984, o Tangos e Tragédias recém estava começando as apresentações quando Nico foi para o Rio de Janeiro, morando lá durante 10 anos e estudando com o maestro Hans-Joachim Koellreuter.
Ao retornar ao Rio Grande do Sul, lançou dois discos solo: Nico Nicolaiewsky (1996) e As Sete Caras da Verdade (2002). O primeiro contém valsas e canções líricas e virou trilha do filme Amores, de Domingos de Oliveira. O segundo consiste em uma ópera-cômica. Em 2007, Nico Nicolaiewsky lançou seu terceiro disco, intitulado Onde Está o Amor? que, diferente dos anteriores, contém músicas de caráter mais pop. O disco foi produzido por John Ulhoa, guitarrista da banda Pato Fu, e além de composições próprias, inclusive canções do Musical Saracura, como "Marcou Bobeira" e "Flor", o repertório incluía releituras de clássicos da música brasileira como "Maluco Beleza" de Raul Seixas, "Ana Júlia" dos Los Hermanos e "Dia de Domingo" de Tim Maia. Conhecido em todo o Rio Grande do Sul, o ator participou de programas da RBS TV e da Rede Globo, como o Galpão Crioulo, tradicional atração de música regionalista do estado. Um dos seus últimos trabalhos foi o espetáculo de 2013 "Música de Camelô", onde cantava sozinho ao piano, canções populares como "Ai Se Eu Te Pego", de Michel Teló, e "Tô Nem Aí", da cantora Luka, Mas foi com o Tangos & Tragédias que conquistou reconhecimento nacional.
Tangos & Tragédias era um espetáculo que reunia música, humor, teatro e muita interação com o público. Os recursos cênicos eram garantidos pela ficção construída em torno dos dois personagens: o Maestro Plestkaya (Nico Nicolaiewsky) e o violinista Kraunus Sang (Hique Gomez), artistas vindos de um país imaginário chamado Sbørnia. Todas as músicas escolhidas, canções brasileiras e sucessos da música internacional, passavam pela comicidade dos dois, criando um espetáculo capaz de agradar diferentes plateias e faixas etárias. O espetáculo foi encenado nos mais importantes teatros do Brasil e recebeu uma versão integral para língua espanhola, apresentada na Argentina, Equador, Colômbia e Espanha. Em 2003, em Portugal, Tangos e Tragédias foi escolhido pelo público como o melhor espetáculo durante o Festival Internacional de Teatro de Almada e, em 2004, como "Espetáculo de Honra". Em 2007, voltaram para uma semana no teatro Tívoli e rápida turnê pelo país. Nesse mesmo ano, o espetáculo foi lançado em DVD.  Em 2011, foi eleito o Melhor Show Popular do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. As aventuras dos personagens Kraunus Sang e maestro Plestkaya também viraram filme, a animação “Até Que a Sbórnia nos Separe”, do cineasta Otto Guerra, exibida no Festival de Gramado de 2013.
Tangos e Tragédias: as razões do seu sucesso
O espetáculo, que criava todo um contexto imaginário sobre a cidade batizada pelos artistas de Sbórnia, não obteve sucesso logo no início. Durante dois anos foi apresentado em barzinhos de Porto Alegre para pequenas plateias. Só em 1986 faz a primeira apresentação no palco do Instituto Goethe de Porto Alegre com a participação de Dilmar Messias, ator e diretor que encarnou Frantz, um dos primeiros (serão muitos artistas ao longo das três décadas) “sbornianos célebres”. Ainda assim, poucas pessoas assistiram essa primeira temporada. Isso não impediu, porém, que no ano seguinte eles estreassem no Rio e em São Paulo e que em 1988, fizessem a primeira estreia da temporada de verão no palco mais importante de Porto Alegre, o Theatro São Pedro. Hique Gomez atribui o início do sucesso de Tangos e Tragédias a uma entrevista no programa do Jô Soares onde, ao longo dos anos de 1990, eles farão 14 aparições e irão garantir a presença em massa dos porto-alegrenses.
Tratando com humor grandes temas como o amor impossível, a dor-de-cotovelo e outras tragédias do ser humano, Tangos & Tragédias reunia música, humor, teatro e muita interação com o público que insistia em retornar cada vez que o espetáculo entrava em cartaz. Apesar das plateias lotadas, não era difícil encontrar em Porto Alegre quem nunca tivesse visto Tangos e Tragédias, mas poucas pessoas haviam visto apenas uma vez. E o que tornava esse espetáculo tão atraente para o público? Afinal, eram poucos elementos de cenário, apenas dois artistas no palco, um figurino simples e uma maquiagem caricata para reforçar os tipos e, apesar de algumas atualizações, as falas e as canções eram praticamente as mesmas. Para compreender esse fato é preciso destacar a multiplicidade de talentos de Nico Nicolaiewsky. Sua formação musical clássica aliada a sua sensibilidade de identificar o valor da música popular. Nico era músico, cantor, compositor e ator. Afora isso, havia seu indiscutível carisma no papel de maestro, conduzindo homens, mulheres e crianças a cantar junto com a dupla.
De forma irônica, mas sem nunca desrespeitar, debochar ou tentar fazer graça com os equívocos dos presentes, eles conquistavam o público. Os personagens seguiam um roteiro em que um assumia a liderança e o outro reforçava suas ironias. Um maestro que tocava acordeom e que contava histórias trágicas, cheias de emoção, no papel de líder, e Kraunus Sang (Hique Gomez), apoiando ou até mesmo contrariando simplesmente com gestos ou com mudanças de fisionomia e seus olhos expressivos, formando uma cumplicidade profunda e arrebatadora. É a partir dessa simbiose que surge a grande força cênica que é transmitida nas entrelinhas do que é ou não, dito. Nos momentos de tensão dos intervalos entre as notas. Na expectativa do público do que àqueles dois pretendiam fazer no próximo instante. Na capacidade deles de sustentarem esse suspense como longas notas de um instrumento para finalizar com alguma atitude brusca, uma fala simples, levando o público às gargalhadas. E essa mistura entre a qualidade musical dos dois artistas e esse humor ora ingênuo, ora arguto e corrosivo, essa ironia implacável, associada à sutileza das frases poéticas, isso tudo foi construindo esse sucesso que só se torna possível quando atinge o público e esse faz reverberar o quanto é divertido e agradável ver Tangos e Tragédias. Não uma, mas duas, três, dez vezes. Porque as piadas podiam ser as mesmas, mas havia o caráter de improviso a cada apresentação, o que ocorre sempre que o espetáculo valoriza a interação com o público. Não importa se era previsível que alguém seria chamado ao palco. Afinal, ninguém, nem mesmo eles, sabia quem seria convidado a participar e isso tornava aquele momento único. O que Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez sabiam fazer com perfeição era valorizar o efêmero. O público percebia que, independente de todos os ensaios, eles estavam ali presentes, inteiros, executando as melodias com o prazer de uma primeira vez, mas com a eficiência de quem aprendeu a dominar uma platéia.
Talvez, seja importante considerar também que, por mais emocionantes e interessantes que fossem suas apresentações, provavelmente eles não teriam atingido o mesmo sucesso sem todo o imaginário criado em torno da cidade fictícia de onde teriam vindo esses dois talentosos artistas. Citadas pelos dois durante o espetáculo, as características da Sbórnia, seu povo e seus costumes foram rompendo o espaço cênico e, aos poucos, fazendo parte da cultura dos gaúchos. Apresentada no palco, a dança chamada por eles de Copérnico (em que os braços e as mãos ficam imóveis e só a cabeça se movimenta), tornou-se conhecida em Porto Alegre. Aparentemente “non-sense”, a história da Sbórnia trazia traços da realidade econômica e social vigente no Brasil e todos os dados sobre o seu sistema político, o turismo, a moeda oficial da Sbórnia vinham carregados de críticas ao país. Na história do espetáculo, contada pelos próprios autores em seu espaço de divulgação, é difícil identificar o que é real ou foi criado apenas para fazer graça e é justamente essa mescla que torna tudo tão interessante. Não há dúvidas, porém, de que muitas ideias levadas ao palco surgiram a partir das experiências reais dos seus autores. Um exemplo disso, é o relato de Nico Nicolaiewsky sobre o plano de levar para fora do teatro a encenação do Tangos e Tragédias.
Lembro da primeira vez que saímos tocando do teatro para a rua. Nós íamos terminar o show, como sempre, saindo do palco e entrando no camarim. Acontece que o camarim estava trancado e nós não tínhamos para onde ir (o palco nesse teatro – Teatro Cândido Mendes no Rio de Janeiro – dava direto para o camarim, não tinha corredor), então começamos a sair do palco pela única saída que restava que era a saída para a rua e o povo nos seguindo e cantando. Aí nós continuamos a tocar e fomos até a praça. E o povo nos seguindo. A partir daí fazemos igualzinho em todos os shows como se fosse pela primeira vez.”(NICOLAIEWSKY, Nico)
Fato é que, durante muitos anos, Porto Alegre teve a chance de presenciar um espetáculo a céu aberto em uma das áreas mais nobres da cidade, na Praça da Matriz. Juntavam-se àqueles que haviam comprado ingresso, pessoas só para assistirem a essa pequena parte, que já sabiam que, no final, Pletskaya e Kraunnus Sang arrastariam centenas de pessoas para fora e se dirigiam para o local só para assistir essa pequena parte. Assim, a proposta artística de Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez foi levada, literalmente, muito além das paredes do Theatro São Pedro, onde também seria, finalmente, a despedida do Maestro.
Uma enorme faixa preta foi colocada na fachada. Lá, os amigos e pessoas de todas as áreas importantes da cidade foram dar adeus ao artista. O governador Tarso Genro decretou luto oficial de três dias e visitou o local, que pela primeira vez sediava um velório, para também prestar homenagem ao músico. Grandes nomes da música e do teatro foram confortar a família e amigos de Nico como os músicos Nelson Coelho de Castro, Vagner Cunha, Thedy Correa, Sady Homrich, o escritor Luis Fernando Verissimo e a mulher Lucia, o diretor Zé Adão Barbosa, os atores Zé Victor Castiel, Rogério Beretta, a diretora e coreógrafa Carlota Albuquerque e os maestros Antônio Borges-Cunha e Tiago Flores. O caixão estava no fosso que separa o palco da plateia, coberto por um pano preto com a Estrela de Davi, conforme a tradição judaica. Sobre esse, uma manta que Nico ganhou de presente do pai com notas musicais e teclas de piano. No palco, foram colocados uma cadeira vazia e um piano no qual algumas pessoas tocaram como Simone Rasslan, Arthur de Faria e Fernando Pezão. Hique Gomez emocionou tocando violino e anunciando a criação do instituto de “Artes Sbornianas” para preservar a obra do parceiro com quem dividiu 30 anos de palco. Sua filha, a escritora Clara Averbuck escreveu: Eu sempre estive lá, então acho que nunca cheguei a realmente dizer o tanto que eu admiro o trabalho que o Nico e o meu pai fizeram, como aquele espetáculo foi mágico, como era lindo, como me surpreende e deleita a capacidade dele de tocar absolutamente todo o tipo de pessoa, como era um imenso gerador de alegria para todos que assistiam com o incrível poder transformador das coisas feitas com o coração, capazes de fazer multidões entrarem em catarse. Eu sei todas as letras de todas as músicas há anos, sei todos os timings das piadas, tudo. Faz parte de mim. Faz parte de quem eu sou. E eu nunca pensei que fosse terminar. Esse ano, no dia da estreia, meu pai esqueceu um apetrecho fundamental para o cabelo do Kraunus e eu e minha mãe fomos correndo levar no Theatro. O Nico estava fazendo uns acertos com o Levitan e o Pezão, a Gran Orchestra da Sbornia, já prontos pra entrar no palco. Quando me viu, largou o acordeon e me deu um abraço tão apertado e querido que eu quis ficar para ver o espetáculo mais uma vez. Pensei: ah, depois eu vejo. Vai ter sempre. O Tangos nunca vai acabar E não vai mesmo. O Tangos e Tragédias está eternizado no coração de cada um que viu, de cada um que conheceu, de cada um que, nesses 30 anos, saiu cheio de alegria daquele e de outros teatros pelo Brasil e pelo mundo. Agora cabe a nós espalhar e registrar ainda mais a genialidade desse espetáculo que tocou tanta gente. Obrigada, Nico, por tudo. A música nunca vai morrer...”
Durante todo o dia, o teatro esteve lotado não só de pessoas conhecidas, mas de tantos outros que apenas queriam homenagear o artista. As pessoas se acomodavam nas mesmas poltronas onde assistiram tantas vezes ao espetáculo musical e humorístico Tangos & Tragédias, fenômeno de popularidade sem precedentes no Rio Grande do Sul. A sala que sempre estivera repleta de música e risos era, naquele momento, local de silêncio, emoção e lágrimas na despedida de um artista que, embora tenha sido consagrado em um único papel, era reconhecido no meio musical como um compositor de indiscutível talento.

Artur Faria, músico e amigo de Nico, também escreveria nas redes sociais: “Hoje eu pus pedras brancas sobre a terra úmida embaixo da qual jazia o corpo morto do meu amigo. Hoje, e ontem, eu toquei pra ele, com outros amigos nossos, e não tocamos nada, só tocamos. Só deixar a música sair, a música que viesse, música nenhuma, música qualquer. Hoje, e ontem, eu tinha certeza de que ele ia dizer pra gente, com aquele riso de orelha a orelha, o tom mais agudo na voz, meio falando meio rindo: - Baaaaaaah, mas vocês bem que podiam ter ensaiado, né?”(FARIA, Artur, 2014). 


Monday, April 28, 2014

Cazuza: um cometa que cruzou os céus do Brasil

Não, eu não o conheci. Nem mesmo morávamos na mesma cidade. Mas, acho um privilégio ter sido contemporânea desse artista brasileiro. E o melhor comentário que posso fazer sobre o Cazuza – Pro dia Nascer feliz, o musical é que ele me fez sentir uma saudade ... Li essa semana que a vida de uma pessoa deve ser avaliada pelas lembranças que deixa. Nesse caso, nem preciso comentar o que significa. Acho que deve ser extremamente complicado para um ator representar o papel de alguém que causou um impacto tão profundo. Creio, no entanto, que todos que viram o espetáculo ficaram impressionados com a semelhança (não física) de Emílio Dantas com o original. E, embora a gente sempre escute que, ao interpretar uma pessoa real, não se deve buscar ficar igual a ela, é uma delícia poder rever os trejeitos, o jeito de falar, andar, cantar de alguém tão singular. Entre os outros atores, destaco Susana Ribeiro no papel de Lucinha Araújo, mãe do Cazuza. Assim como Marieta Severo no filme, a atriz soube levar à cena esse rigor de uma educação tradicional associada a um amor infinito e a aguda percepção de que estava diante de um ser que não lhe pertencia. O trabalho do ator Marcelo Varzea no papel de seu pai também sublinha as cenas com a dramaticidade que nos leva a sentir os desejos e o amor de todo pai. Severo em relação às atitudes inconsequentes do filho e amoroso diante das suas fragilidades. Sua atuação é sutil, mas dá todo o apoio para o protagonista. Fabiano Medeiros (Ney Matogrosso e Guto Graça Mello), também se destaca no personagem de Ney Matogrosso, principalmente, no seu solo apresentando uma das músicas do Cazuza gravadas pelo cantor. Os demais atores sustentam bem as cenas e mesmo que alguns façam caricaturas de gente importante como o Caetano, isso torna a peça divertida, mas é o protagonista que brilha. E, como nem tudo é perfeito, uma das atrizes tem uma voz anasalada, que eu odeio. Nem me importo em saber se quem ela representa possui a mesma voz. Não faço a menor questão de ver alguém assim cantando em cena.
Não tenho dúvidas de que fazer um musical é difícil. São muitos elementos. Exige uma integração de todos os atores, assim como competência vocal. A direção de João Fonseca traz uma dinâmica agradável e intercala trechos da vida de Cazuza com várias canções e, atenta ao enredo, às vezes, deixo de perceber a força da música. Ao mesmo tempo, fica a impressão de que sem elas, a parte “dramática” não se sustentaria. Ficamos diante de um show que não é do Cazuza, mas que nos remete às suas apresentações. Suas letras, suas músicas são de uma riqueza... Podemos ter nossas preferências, mas não há como não gostar de alguma. Não tinha como não me emocionar. Várias canções me levam para o passado, mexem com emoções que tanto me questionaram. Eu, criada por uma família aparentemente tradicional, jogada naquele universo da contravenção de Cazuza, da sua irreverência, do seu desejo incontrolável de liberdade. E enquanto no palco a energia cresce, acho interessante observar a plateia nos musicais. Ninguém se mexe. Creio que ninguém canta também. Tenho que parar para me dar conta de que isso até faz sentido, pois não é um show. Mas, era certo que estavam gostando. Aplaudiam cada número em cena aberta.
O figurino se ajustava perfeitamente a cada personagem, da forma bem realista. Já o cenário, explorava mais uma vez as plataformas elevadas. Não chegava a atrapalhar, mas também pouco acrescentava.   
Vemos no palco, a mesma mudança que vimos na vida. A doença ganhando terreno na vida de Cazuza, mas sem tirar o seu humor, a sua irreverência. E tudo vai ficando mais triste, mais pesado e eu penso: como eles vão conseguir finalizar isso sem resumir Cazuza à Aids? E eles conseguem. Trazem todos os atores ao palco, junto com o Cazuza do início, o Cazuza que ficou, que canta para nós até hoje. Falam também da Sociedade criada por sua mãe e tantas crianças fazendo com que Cazuza seja muito além de um cantor que deixa uma obra musical, mas que ainda hoje transforma a vida desses seres que representam o futuro.
Como jornalista, gosto da inclusão da cena da entrevista com Zeca Camargo quando ele revela, finalmente, que tem a Síndrome. Aliás, o texto de Aloísio de Abreu soube sintetizar o espírito, o senso de humor de Cazuza, o que leva a plateia a rir de várias cenas. Já a direção musical de Daniel Rocha também ganha reconhecimento do público pelos aplausos após cada número. Não posso esquecer de mencionar a banda que os acompanha. Impecável.
No fim, todos levantam, gritam, aplaudem. Os atores agradecem a forma como o teatro os recebeu. Infelizmente, eu não posso fazer a mesma coisa. Quando a Fernanda Petit comentou sobre Cazuza, o musical, a minha verba era curta. Assim comprei um ingresso para Galeria Alta à direita. É claro que não esperava uma visão perfeita do palco, mas acabei sentada do lado de um canhão de luz e por mais afeto que tenha ao meu professor de iluminação Nilton Filho não tinha nenhuma intenção de sentir um calor na orelha cada vez que o técnico tivesse que jogar a luz no palco. Ele mesmo me advertiu que eu não poderia me mexer, pois atrapalharia. Imagina eu ofuscando o Cazuza? Assim, no intervalo, vendo cadeiras vazias, resolvi mudar de lugar. Falei com uma das moças responsáveis e ela disse que teríamos que esperar recomeçar para ver quais cadeiras sobrariam. A estratégia não parecia dar certo já que outras pessoas também buscavam melhores posições. Tentei sentar em um lugar que me parecia vago. Não era. Ao tentar sair, uma moça me disse que aquele não era mesmo o meu lugar. E eu pensei: nem o dela. Afinal, quem vai assistir Cazuza com uma mentalidade mesquinha ou grosseira, definitivamente não está à altura desse grande poeta. Assisti mais de hora do espetáculo em pé. Mas, sabia que me distrairia o suficiente para esquecer o desconforto.
Concordo, totalmente, com sua mãe: Cazuza era um sol e chorei por ele, por mim, por nós. Afinal, ele se foi em 1990 e o que mudou de lá para cá? No Brasil, que precisa mostrar sua cara, quase nada. Felizmente, tivemos alguns avanços contra a Aids e todo o preconceito que havia em relação a ela.  Embora Cazuza tenha adiado contar o que tinha para evitar, principalmente, a pena das pessoas, é impossível não pensar o quão trágico foi o que aconteceu com ele. Ou conosco. Afinal, que falta nos faz um artista com o poder de dizer tanto através da poesia. De ser absolutamente contundente, sem chegar a agredir. Não tem como não pensar na perda que sua partida significou para a música. Quantas letras incríveis ele poderia ter feito? Músicas que falassem de amor, de indignação, de todos os conflitos da alma. Não. Eu não vejo ninguém ocupar esse espaço e sinto as lágrimas escorrerem ao pensar que vida breve... Que vida intensa... Que vida imensa!

http://youtu.be/IOSwTcUIreU



Tuesday, February 18, 2014

Apunhalada pela arte



Fui ver Eros Impuro porque conhecia o diretor. Quer dizer... virtualmente.  Encontrei o jornalista e dramaturgo Sergio Maggio pela internet quando fazia minha pesquisa de mestrado sobre crítica teatral. A partir de então, eu e o morador de Brasília, mantemos contato on line e foi assim que soube que ele estaria em Porto Alegre.  Como sempre, fiz questão de não ler nada sobre o espetáculo.  E, embora muita gente ache isso estranho, eu fico ainda mais admirada dessa necessidade de precisar de explicações sobre a arte. Para mim, comentários e críticas, exatamente como esse, são válidos para aprofundar impressões, usufruir outro olhar, mas gosto de ser surpreendida e é assim que descubro que a peça se trata de um monólogo do ator Jones de Abreu. É preciso dizer, porém, que ele trava intensos diálogos com outros personagens das histórias que ele narra. E a intensidade com que faz isso é presente desde o primeiro momento, quando ele passa a desenhar um rosto enquanto encara alguém na plateia. O fato de ele estar em um ateliê já torna tudo mais curioso. Afinal, quem me conhece sabe que gosto dessa mistura das artes cênicas com as artes plásticas. Quanto ao tema, não fica muito claro, para mim, logo de início. O ator nos leva aos poucos para sua vivência com os modelos que pousam para ele e provocam suas reflexões. Ao falar de sexo, prazer e culpa, ele vai provocando em mim um sentimento de desconforto que me faz lembrar meu professor e cineasta Sergio Silva que sempre me advertia que o filme que ele iria passar continha cenas picantes e que iriam perturbar minha sensibilidade originária de uma educação rígida. E esse sentimento vai me acompanhar até o final, dividido com a percepção da força da atuação desse único homem no palco que é capaz de se dividir em outros personagens, discutir com seres “invisíveis”, alternando momentos de fragilidade, raiva, lucidez e loucura.  Eu poderia falar dos vídeos, da sua contracenação com uma projeção, da luz ou da trilha, mas são suas palavras que criam imagens provocantes numa mistura de pornografia e poesia... ”escorregava as mãos por entre seus desejos”. Essa oscilação entre um mundo pervertido de crime e castigo vai se intensificando, fruto do entendimento do abuso, do desrespeito, das memórias de uma infância corrompida.  Ao sair, suspiro e tomo consciência de que o espetáculo não tem a intenção de chocar pura e simplesmente. Ele é, antes de tudo, uma denúncia que está no próprio texto do ator que diz: “a minha arte é o meu punhal”. 

Saturday, January 25, 2014

Porque nunca haverá outra Elis

Fui ver Elis, a musical, como vou ver tudo.  Sem saber o diretor, nem o elenco. A história? Bem, essa eu conheço um pouco. Afinal, nós, gaúchos, costumamos acompanhar mais de perto o que aconteceu com essa menina de 12 anos que cantou pela primeira vez em um programa da Rádio Farroupilha e, mais tarde, foi trabalhar na Rádio Gaúcha.
O lugar escolhido na hora da compra pela internet poucos dias antes, graças aos novos amigos cariocas que conheciam o teatro, não podia ser melhor.  Chegamos à 5ª fila exatamente às 17h. Horário interessante que permite que muitas pessoas de mais idade lá estejam. Sabia que a atriz Lilian Menezes era “apenas” uma substituta de Laila Garin, mas como não a conhecia, não fazia diferença. Logo no inicio, não consigo ver semelhanças com o tipo físico, nem com a voz da própria. Mas, logo me lembro de tudo que sempre leio sobre essa questão de fazer alguém que realmente existiu e da importância justamente de não mimetizar. Porém, à medida que a história evolui vejo trejeitos, gestos tão característicos daquela que acabou sendo conhecida com a maior cantora do Brasil. E aquele modo de sorrir fechando os olhos que a identificava. Na execução que arrebatou uma multidão de “Arrastão”, música de Edu Lins e Vinícius de Moraes, um dos grandes sucessos de Elis, ela ainda não se parecia, mas, isso não diminuiu a genialidade da ideia de projetar a plateia da época e colocar a atriz de costas para o público. Talvez, vinda do diretor Dennis Carvalho.
A obra retrata bem o temperamento da cantora, o impacto que sua voz causava em Miele, dono da boate do Beco das Garrafas em Copacabana, onde ela fez diversas apresentações  e Ronaldo Bôscoli, seu futuro marido. Esse interpretado por Felipe Camargo que, não raro, roubava a cena com um jeito malandro, quase calhorda e sua relação estreita com o alcoolismo e outras mulheres. Ele consegue mostrar porque, apesar disso, Elis era tão apaixonada por ele que, no início, fazia questão de desdenhá-la, falando de sua origem humilde e de seu jeito de vestir interiorano. Enquanto o via em cena, pensava na vez que também estava no Rio e o vi em um dos espaços culturais da cidade e me esforcei para vencer a timidez e ir falar com ele. Eram os tempos dos Anos Dourados na Globo e ele tinha me impressionado com seu jeito meigo contracenando com Malu Mader.
Até uma boa parte do espetáculo pensava que quase não havia cenário. Entretanto, logo me dou conta que precisava rever meu conceito. Afinal, aqueles painéis, banquetas, projeções já podem ser considerados assim. Na boate do Miele letreiros com letras apagadas me dão a ideia do cuidado que tiveram com os detalhes. Além disso, todos cantam muito bem. E isso que contei 19 pessoas em cena. Os números de dança coreografados por Alonso Barros, são ótimos e o jeito de entrar de “peixinho” no palco só podia me lembrar a coreógrafa Carlota Albuquerque e minha prima Angela Spiazzi.
Os momentos de gravação com Tom Jobim são divertidos e o ator Leo Diniz, mesmo não se parecendo fisicamente com o maestro, captou perfeitamente o seu jeito de ser perfeccionista.
Quase 19h, todos entram em cena e numa plataforma com o fundo branco, e figurinos hippies de Marília Carneiro, cantam “Eu quero uma casa no campo...”. E eu que achava que já havia ouvido essa música até a exaustão, sinto meu corpo arrepiar inteiro enquanto fecham-se as cortinas para o intervalo.
Fato real ou não, pois, o espetáculo não pretende ser um documentário, vemos uma cena do encontro de Elis com Henfil que, até então, tinha debochado dela em suas caricaturas por ela ter cantado em eventos militares. O que sabemos foi totalmente contra a sua vontade. Vou às lágrimas quando ela canta para ele “O bêbado e a equilibrista”, que corre para o telefone a avisa o irmão Betinho que “já existe o hino. Agora, só falta a revolução”.  Não é à toa que quem assina o texto é Nelson Motta, junto com Patrícia Andrade. Aliás, como todo musical, a equipe técnica é bem grande.
O difícil foi ver o filho do Ivan Lins, o ator Claudio Lins, ótimo em cena por sinal, no papel de César Camargo Mariano, quando minha memória havia sido levada para a época em que o pai ainda tinha sua idade. Ah, e mesmo fora de ordem não posso deixar de comentar a contracenação divertida e intensa com o ator que fez o papel de Jair Soares que com seu jeito irreverente parece entender o gênio da “pimentinha”.  
A segunda parte do espetáculo já é outro momento da vida de Elis, do seu engajamento maior com questões políticas e seus posicionamentos. Tudo isso colocado no palco de uma maneira criativa e interessante, mesmo usando recursos tão simples como homens fardados e a bandeira do Brasil. A forma como a coreografia dos mesmos é executada e a música da Hora do Brasil mexe com qualquer um que tenha vivido parte dessa história. Aliás, tudo nesse espetáculo mostra que é possível usar os mesmos recursos de outra maneira e cantar velhas canções provocando novas emoções. O que, sem dúvida, acontece enquanto “Elis” canta “Como nossos pais”.
E o espetáculo oscila entre momentos com todos no palco, várias ações até o resgate de um momento real da sua vida, ao colocá-la sozinha no palco para uma entrevista. Apenas uma cadeira e a luz sob ela respondendo às questões que revelam sua ansiedade e seu desejo de atingir às pessoas de alguma forma com a sua arte. Não há como não se emocionar quando ela conta que o médico disse que sua voz salvou o seu filho doente. Toda a sua fragilidade surge nesse momento em que ela diz: “A mim não interessa ser uma boa cantora a mais. Quero usar o dom que a mãe natureza me deu para diminuir a angústia de alguém. Essa ideia é que pode dar sentido ao meu trabalho.”.
E do meu lado a moradora do Rio que não só me incentivou a ir, mas me levou até lá, não cansa de elogiar, mesmo não conhecendo várias das músicas. O que prova que não importa o quanto você sabe da vida de Elis Regina, se é ou não fã, o espetáculo vale por si mesmo.
E, embora eu não entenda quase nada de luz, fiquei muito impressionada com a presença significativa da luz certa, nos momentos certos, fazendo o que eu chamo de “sublinhar as cenas”, o chamado desenho de luz de Maneco Quinderê.
De minha parte, gostei que não tivessem chegado à morte da cantora, mas mostrado apenas seu desejo de querer sempre mais e de não querer  ficar à sombra dos homens que foram tão importantes em sua vida.

O teatro cheio aplaudia em pé e cantava junto com o elenco “como se fora brincadeira de roda...” e quem estava lá revive um pouco do que foi a história dessa mulher tão talentosa, tão guerreira e, no fundo, a gente sabe que por melhor que seja a atriz, nunca haverá outra mulher como Elis Regina Carvalho Costa, mesmo que ela tenha vivido apenas 36 anos. 

Friday, January 10, 2014

So in love is so perfect!

Se é para cumprir promessas, que seja como essa que eu fiz para o Dudu Sperb de ir vê-lo cantar as canções de Cole Porter. Ficou ainda melhor quando a minha prima Angela Spiazzi disse que também iria e me ofereceu carona. Não sabíamos que precisava de reserva e quando chegamos parecia não haver mais mesas. Houve certa demora para que todos fossem acomodados no MEME, local onde já comemorei meu aniversário. O que significa que é um espaço agradável, com ótimo atendimento e coisas deliciosas. Queria poder dizer que já havia imaginado que aquele garoto que frequentava a mesma escola que eu, cantaria tão bem. Mas, não apenas isso. Interpretaria as canções, pois Dudu não é apenas para ouvido, mas para ser visto. Ele abre o show dando algumas informações sobre Cole Porter, explicando que suas músicas foram feitas para a Broadway e o tornaram um dos cantores mais populares do século XX. No início, ouvimos letras que massageiam o ego como You are the one, Easy to Love e You are the top. Afinal, quem não gostaria de ouvir: Você é camembert? Na sequência, mais músicas de amor absolutamente cheias de elogios às amadas. E eu, que costumo desconfiar dessas misturas de músicas estrangeiras com nacionais, tive que dar o braço a torcer com a escolha de Noel Rosa, Lupcínio Rodrigues, Vinícius de Moraes e me surpreender completamente com a beleza da música de Totonho Villeroy sobre Porto Alegre: Povoada de águas. Não há dúvidas de que a escolha do repertório é o resultado da percepção de alguém que tem uma sensibilidade profunda. Por isso foi muito bom ver nessa lista a música Luiza, que sempre me tocou. Talvez por frases como “eu sei que debaixo dessa neve mora um coração” e como lembrou Dudu Sperb, feita por Tom Jobim para a novela Brilhante. E são muitas as informações que o cantor vai repassando entre as músicas. Sobre a vinda de Cole Porter ao Brasil, sobre a origem da música Quem há de dizer de Lupicínio Rodrigues e tantas outras que eu não vou revelar para não estragar a surpresa, embora não haja palavras capazes de transmitir a delícia de escutar e ver o carisma desse artista.  Acompanhado do pianista Michel Dorfman, Dudu Sperb, mesmo enfrentando o barulho de um alarme de um carro que disparou por boa parte do show, consegue ser divertido, contando detalhes da criação de cada música e mostrando o seu talento, enquanto o menino que assiste de pé na porta balbucia as letras, balançando a cabeça, de olhos fechados. E nessa linha de romance, ele canta Extase de Ivan Lins e Chico Buarque, o que para Dudu é uma espécie de versão de Garota de Ipanema.  Nesse caso chamada Renata Maria que, como a outra, deve ter mesmo existido, já que é um nome bem estranho para uma mulher imaginária. E por alguns momentos, eu vejo de novo em minha mente, aquele mesmo menino dos tempos de escola, quando ele fala de uns gatinhos de uma amiga que estão para doação. Em seguida, ele volta a demonstrar todo o ritmo e me transporta aos grandes musicais americanos com essas composições que criam imagens diante de nós. Eu, que só o tinha visto cantar em francês, agora já não tenho mais dúvidas de que ele poderá cantar na língua que quiser. Mas, não posso esconder que I Love Paris com esse timbre que, por vezes, me faz lembrar Edith Piaf, me faz querer comemorar meu próximo aniversário onde Dudu Sperb estiver se apresentando.  

Tuesday, November 26, 2013

You have a problem? Call Tom Hanks

Tenho ido pouco ao cinema. Como jurada do Prêmio Açorianos, minha agenda anda mais ocupada com espetáculos. Mas, quando comecei a ver os comentários sobre o Tom Hanks (ator que considero o melhor dos tempos atuais), em Capitão Philips, decidi que já estava na hora de voltar a ver filmes, coisa que eu adoro. Não li nada sobre o que se tratava. Simplesmente comprei os ingressos e me sentei em um lugar que considerava o ideal da sala. Esquecendo, porém, que poderia chegar alguém e se sentar atrás de mim. Uma daquelas pessoas que não cala a boca. Quem me conhece sabe o quanto gosto de falar, mas no cinema ou no teatro, nem sussurrar acho certo. Considero uma interferência insuportável. Assim, segui o gesto do cara que estava sentado ao lado do tal falante e troquei de cadeira pouco depois do filme começar.  Assim pude entrar nesse universo mágico que me provoca tantas emoções.
Devo dizer que Tom Hanks é o responsável pelas maiores emoções que já tive no cinema. Obviamente, já me fez rir, chorar, ficar nervosa, com raiva... Mas fez ainda mais. Registrou em minha memória momentos inesquecíveis e falas como: “run Forrest, run” ou “Houston, we have a problem” e, em silêncio (mas nem tanto), me arrebatou em O Náufrago. Já perdi a conta do número de vezes em que assisti esse último. Ah, e o Terminal também, pois minha mãe é absolutamente apaixonada por esse filme e mesmo em Tão longe e tão perto que ele tem poucas cenas, o acho brilhante. Tom Hanks pode ser pai, ter alguma deficiência, ser comandante de nave espacial, grande, o que ele quiser. Sem exageros. Ele não precisa se por aos gritos, nem fazer caras e bocas. Cada personagem parece meticulosamente estudado para chegar à eficiência. Tanto é que se eu estivesse no espaço, numa ilha perdida ou em um navio em alto mar, eu gostaria que no comando estivesse quem? Ele.
Feito todos os elogios possíveis a esse grande ator, nesse filme em particular, não seria justo não valorizar a atuação dos “seus inimigos”. Estou tão acostumada a ver os americanos sempre enfrentando alguma ameaça que se eu não estiver atenta acabo sempre torcendo pelos Estados Unidos, sem observar as circunstâncias daqueles que os enfrentam. Fato é que, graças às atuações, lá pelas tantas estou mergulhada naquele assunto que pouco me diz respeito e menos ainda me interessa, tentando compreender o funcionamento da marinha americana, das decisões da Casa Branca e buscando imaginar o final daquela história. Isso nos poucos momentos em que conseguia algum alívio das sensações intensas de perigo e medo. Não vou nem tentar fingir que entendo de política ainda mais em águas internacionais. O que, no meu entender, não faz nenhuma diferença para aproveitar as cenas. Os atores que contracenam com Hanks são tão convincentes que acabei achando graça ao imaginá-los desfilando no tapete vermelho na entrega do Oscar. Claro que só consegui fazer isso depois de ter saído do cinema.

Tom Hanks me leva tão para dentro daquela “realidade” e consegue tanta empatia que, quando vejo o seu personagem completamente exasperado, lágrimas escorrem pelo meu rosto compartilhando seu desespero e angústia.  Felizmente, não havia ninguém do meu lado, pois embora defenda o silêncio, meus movimentos ansiosos na cadeira e meus suspiros também poderiam ter incomodado alguém. De qualquer forma, essa catarse faz com que eu saia do cinema profundamente impressionada mais uma vez com esse enorme talento e, nesse momento, chego a lastimar não estar no teatro para aplaudi-lo de pé. 

Monday, September 09, 2013

Arte, música e língua francesa: um festival de talentos

Tenho ido a todos os Festivais da Canção Francesa desde que começou. Lá se vão seis anos. O que é fácil observar que é um evento que cresce em quantidade de público e qualidade dos participantes. A cada ano parece ficar mais difícil escolher entre os dez classificados. Por isso mesmo, se transforma em um show de talentos, de vozes impressionantes e de reencontros com pessoas que, de uma forma ou outra, apreciam a língua francesa. Outro ponto alto são os discursos, quer dizer, a ausência desses. Nem o diretor da Aliança Francesa, Jacques Petriment, faz questão de pegar a palavra. Faz os agradecimentos. Fala na integração de culturas e era isso. O apresentador desse ano, Marcelo Oliveira da Silva, pareceu entrar meio seco, correto, educado,  mas sem estilo. O que foi sendo “corrigido” ao longo da noite na qual ele soube oscilar entre a formalidade das apresentações e frases descontraídas, cativando a plateia.
O teatro Dante Baroni, na Assembléia Legislativa lotado. Gente sentada no chão ou em pé. Uma sucessão de lindas vozes. Mas, desde que um dos jurados, o meu amigo,  Newton Silva tinha me falado da participação de Phillipe Philippsen, eu já havia começado a torcer por ele. Assim, foi muito bom ver que entre tantos candidatos absolutamente talentosos, ele se sobressaiu. Abrindo mão do acompanhamento da excelente banda (cujo nome não consta no site da Aliança e eu não recordo), sozinho no palco com sua sanfona, ele mostrou algo além de graves e agudos. Mostrou personalidade na voz. Coisa que eu ainda não sei definir bem, mas que faz toda diferença para um cantor impressionar no palco. Já tinha visto ele com instrumentos em espetáculos, mas não sabia que ele cantava. E como. Além do mais, foi para mim a melhor dicção da noite. Também não sabia que ele falava francês... Por ser ator, cantor e que fala (ou pelo menos sabe decorar letras) uma língua que eu amo, é claro que eu queria que ele estivesse no mínimo entre os três vencedores da noite. E para não ser só elogios, devo dizer que, embora aprecie gastronomia e, em especial, a culinária francesa, acho o prêmio de um jantar no Chez Philippe para o último lugar muito pouco. Tinha que ser, no mínimo, uma viagem à Florianópolis ou a Gramado. Já seria mais interessante. E justo. Vejam que nada tenho a dizer do segundo lugar que é um ano de estudos na Aliança Francesa, pois sei o que isso pode significar na vida de quem começa a aprender essa língua.

Bem, mas já tinha alguns favoritos quando veio o intervalo e as vencedoras do Festival nacional Hevelyn Costa e regional se apresentaram. Devo dizer que Valéria Houston cantando a versão francesa de I will survive e Voyage, Voyage impressiona muito. O figurino dela e seu jeito divertido e doce também. E por ser sua fã, digo que sinto falta dela ter um maior preparo corporal para estar diante do público, uma movimentação mais expressiva. Sei que ela pode ir bem além dos pequenos movimentos que repete. Achei bacana quando ela chamou todos os concorrentes no palco com ela e o Philippe se destacava com seus passos de dança e seu jeito descontraído.  Bem, mas assim que a apresentação das duas terminou, a banda tocou algumas músicas mostrando sua competência. Em seguida, começaram a chamar os vencedores. Discordei da decisão do júri para o terceiro e segundo lugar e já temia pelo primeiro quando disseram o nome do Philippe e a plateia aplaudiu e gritou, demonstrando que apoiava completamente a premiação. E assim terminou mais um Festival que levará o ganhador para aquele lugar que, quem ainda não foi, quer ir e quem já foi, quer voltar: Paris!

Wednesday, August 21, 2013

Quase um tango. Totalmente Sergio Silva.


Eu já havia visto Quase um tango em duas ocasiões. A primeira na casa do diretor Sergio Silva, meu professor no Departamento de Artes Cênicas em diversas disciplinas. A segunda, no Festival de Cinema de Gramado quando tive o privilégio de subir ao palco com toda a equipe que pode estar presente naquela noite. Para quem lá nos anos 80 começou a frequentar o Festival e por décadas assistiu ao ritual dos diretores e elenco apresentarem seus filmes já foi algo meio surreal. Um parceiro meu de trabalho estava lá aquela noite fazendo fotos e eu até hoje não tive a chance de vê-las. Não que a emoção dessa oportunidade não seja mais importante, mas quando a gente vive situações que nunca pensou que aconteceria é sempre bom ter um registro. Já disse em várias outras ocasiões que pouco apareço no filme e não tenho nenhuma fala mas isso não tira a importância que dou em ter participado de todo esse processo, desde o teste até a leitura do roteiro e o acompanhamento das filmagens.

Não sei como é fazer filmes com outras pessoas mas Sergio era generoso. Permitia que todos participassem das etapas de elaboração do seu filme. Tivemos acesso ao projeto com todos os custos que envolve uma produção destas, lemos o roteiro junto com o protagonista Marcos Palmeira, vimos as cenas recém filmadas e até teve gente que dava lá os seus palpites. Eu, além dos dias em que fui chamada para as filmagens, pedi ao diretor para acompanhar a equipe outros dias, em outras locações e achava tudo fascinante. Observava a mudança incrível que fazia uma troca de luz, de algum elemento cênico ou da entonação de uma fala. Não, não era Hollywood mas a Cidade Baixa. Não importa. Para mim, era especial.

Sempre gostei de contar que a primeira vez que esbarrei no Sergio não gostei nadinha. Ele estava lá para orientar os alunos na matrícula e me perguntou porque eu havia escolhido tão poucas cadeiras. Eu respondi que não tinha condições de fazer mais devido aos horários e perguntei se ele tinha alguma sugestão. Ao que ele me respondeu: faz direito, ou então, jornalismo. Achei um desaforo. Respondi que direito não me interessava e que eu já era jornalista. Depois disso, evitava fazer as matrículas com ele até que acabei sua aluna. E, como a gente nunca lembra direito quando uma amizade começa, também não sei quando começamos a perceber que tínhamos um senso de humor parecido, uma ligação muito forte com a família e um interesse pela literatura, pelo teatro, pelo cinema. Mas partiu dele a aproximação maior, a abertura para que eu participasse de suas conversas com os amigos até que eu também comecei a convidá-lo para vir a minha casa. Sergio era inteligente, divertido, bem informado. O fato dele se predispor a essa aproximação me deixava orgulhosa. Em um dos seus aniversários eu escrevi um texto falando sobre o seu jeito de ser e ele me fez ler em voz alta na sala. Mais tarde, me retribuiu com palavras gentis na apresentação que fez de mim para o Programa de pós-graduação. Acho que eu nunca tinha sido tão elogiada antes.

Hoje, ao rever o filme, não sabia bem o que esperar. Afinal, eu já não sou mais a mesma e não tinha ideia do impacto que rever aquela história causaria depois da partida de um amigo que fiz quase sem querer. Junto comigo minha mãe, irmã e tias, bem como um amigo e, aos poucos, fui entrando de novo naquela história que eu já conhecia, mas que, agora, a sua ausência torna ainda mais importante. O filme é cheio de coisas que o Sergio amava, do seu jeito de falar e de ver a vida. Assistir Quase um Tango foi matar um pouco da saudade e comprovar mais uma vez que ele já não está aqui mas que sua obra sempre estará. Seja essa que todos podem ver, seja a que é só minha, que foi construída pelas nossas conversas, pelos seus ensinamentos. Além disso, algumas cenas me remetem àqueles momentos das filmagens, às decisões tomadas de última hora, às lembranças dos contatos com todos aqueles que estão em cena e que de um jeito ou outro também cruzaram o meu caminho. Algumas ideias colocadas ali em prática e que eu considero geniais e que registram a sensibilidade do diretor. Aquilo que só a arte consegue fazer com algo que faz parte do nosso cotidiano mas que não damos muita atenção.  Lembro do Sergio falando que seu desejo era contar a história de um homem comum, da vida que poderia ser de qualquer um, com suas alegrias, tristezas, conquistas e perdas. Não há dúvida de que ele, por ser alguém nada comum, conseguiu. Fiquei emocionada ao ver na tela tanto do seu jeito. Percebi isso nas falas dos atores, nas imagens, nos cortes, tudo e tive uma sensação incrível ao pensar que eu posso não ter concretizado coisas que um dia quis, mas que nunca poderia imaginar que um dia participaria de um filme. Ao ler meu nome nos créditos de Quase um tango minha única vontade é agradecer a esse professor que não apenas me ensinou muito, mas me deixou entrar no seu mundo.

Monday, July 01, 2013

Por mais teatro como do Grupo Cerco!

Muita gente defende que quem quer criticar um espetáculo não pode usar adjetivos e deve, é claro, evitar os clichês. Nessas horas, fico feliz de não ser paga por nenhum veículo de comunicação e ser, antes de tudo, uma jornalista que gosta de comentar o que viu. Quando fui cumprimentar o Rodrigo Fiatt ao assistir o Sobrado novamente, falei que iria ver Incidente em Antares pela primeira vez. Ele me disse: “Ah, mas é um trabalho bem diferente”. Fiquei com a impressão de que ele estava querendo me preparar, que achava que eu poderia não gostar. Eu duvidei. Afinal, creio que uma das coisas mais importantes para fazer um bom espetáculo são bons atores e o Grupo Cerco já provou que é composto deles. Outro elemento é uma boa história e partindo da obra de Erico Veríssimo e dirigido por Inês Marocco seria difícil ficar ruim. Não me enganei. Muito pelo contrário. Eles já vêm imprimindo características próprias aos seus espetáculos como a precisão cênica, quase partiturada, aliada, vejam só, à irreverência e as soluções cênicas extremamente criativas e estéticas. Creio, porém, que o meu maior prazer foi vê-los fazendo diversos papéis e me dificultando o reconhecimento como aconteceu com Patrick Peres. Fui até, praticamente, metade do espetáculo sem me dar conta de que era ele. O figurino de Rô Cortinhas, certamente, contribui muito para isso. Rodrigo Fiatt também abandonara a figura imponente de Licurgo, aparentemente segura de si, para fazer, entre outros, o prefeito da cidade, um vacilante e inescrupuloso político. Rita Maurício deixando a gente tonta na tentativa de acompanhar a sua metamorfose de padre para prostituta, coro da cidade, etc. Mas, não surpresa porque, desde que a conheço, ela é assim ávida por participar, totalmente disponível quando o assunto é atuar. Carina Dias e Kayane Rodrigues também me chamaram a atenção e conduziram a plateia várias vezes ao riso. Isandria Fermiano tem me perturbado com sua intensidade e seu tom de voz peculiar, transformando cada aparição sua em um momento intenso e memorável. Martina Frölich vem me arrebatando desde O Sobrado, ora com a força ora com a sensibilidade dos seus personagens. E os que não destaquei não é porque não mereçam mas, simplesmente porque cito os que mais conheço mais pessoalmente (aliás, senti falta de Luís Franke), mas, todos eles não deixam dúvida de que são um grupo que divide o talento em um mesmo palco com generosidade entre si e que são capazes, inclusive, de fazer uma incrível trilha sonora ao vivo para esse espetáculo que conta a história de mortos não sepultos que reivindicam, em praça pública, o direito de serem enterrados.  Denunciando a corrupção da cidade de Antares é recheado de críticas políticas e sociais e, por isso mesmo, tão atual que não exagera a divulgação ao dizer que seria proibido se estivéssemos em uma ditadura.
Em Incidente em Antares, sem fazer nenhuma força para evitar os clichês, vejo antigos alunos do Departamento de Artes cênicas da UFRGS agora dando aulas de como fazer um teatro que possui todos os elementos das tantas grandes obras que estudamos e o que é melhor tratando de assuntos que partem de temas tão nossos e tão universais ao mesmo tempo, criando aquele teatro que diverte e faz pensar, que é teatro de costumes, comédia, farsa, absurdo, tudo ao mesmo tempo e que, diferente da Operação Borracha sugerida pelo prefeito de Antares, vai ficar na memória de quem viu e jamais será levado pelo vento.


Sunday, June 30, 2013

Terpsi: a arte forjada nos corpos dos bailarinos



Celebração. Talvez essa seja a melhor palavra para descrever a apresentação do Terpsi dentro da Programação Dança.ponto.com. A ideia era fazer uma homenagem aos 25 anos desse grupo. Prima de Angela Spiazzi, a única bailarina a permanecer desde o início, acompanhei toda essa história na plateia e posso dizer que não há limites para a criatividade dessa coreógrafa chamada Carlota Albuquerque. Assisti tudo  arrepiada do início ao fim, emocionando-me com a música, com o cenário e, é claro, com esses corpos que se doam a cada movimento. A predominância do branco, os poucos elementos em cena, só destacavam ainda mais os cheiros das especiarias que saiam da pequena mesa próxima a minha cadeira. No palco, não há bailarinos, mas o pé de um, a cabeça de outro, os braços de outro, tornando, ironicamente, impossível o desmembramento desse coletivo de teatro-dança. Enquanto isso, eu segurava as lágrimas que vinham da simples constatação do privilégio que era estar ali, nessa cidade que luta para não ser esquecida no cenário nacional, vendo algo tão único, criado por pessoas com tanto talento e que transformam emoção em movimento. Reconheço características de outros trabalhos, enquanto observo que nada é igual. Pouco importa que eu já tenha visto duas décadas e meia de espetáculos, nada se repete. O Terpsi transpira o calor do corpo dos bailarinos, exala a energia de sua coreógrafa e surge e ressurge chacoalhando com os nossos sentidos. Assim, mesmo que uma chaleira esteja fervendo ali ao meu lado, tenho a sensação de que estou sonhando pelo simples fato de ser difícil acreditar que esteja diante de cenas tão poéticas, tão estéticas, tão sensíveis. Mas, tendo visto tantas outras obras do grupo não deveria estranhar que tudo é novo, fresco, como se nem tivesse sido ensaiado. Mas só quem não conhece a persistência de Carlota para imaginar que tenha sido assim e, por falar nisso, ela que sempre teve como referência Pina Baush, me faz lembrar Federico Fellini. Não importa que os bailarinos brinquem com pratos, sovem massa de pão, sirvam café ou caipirinha aos expectadores, eles me transportam a um universo onírico, onde nada é impossível, onde a gravidade é desafiada em pequenos passos ou grandes movimentos. E se tem algo que sempre me atraiu é que todos os espetáculos me trazem a vontade de dançar, me dão a impressão de que qualquer um poderia levantar e dançar também. Bem, mas terminado isso tudo, chegou a hora dos depoimentos de quem fez parte dessa história e a choradeira geral, inclusive minha, já que estavam falando de especiarias, me lembrou o filme “Como água para chocolate” no qual a tristeza da cozinheira vai parar nos pratos que ela prepara levando todo mundo as lágrimas. Pudera não. Eram milhares de momentos extremamente especiais para serem recordados. De pessoas que dançaram no grupo, de quem colaborou na criação e na estruturação do Terpsi ou até mesmo para quem sempre o fotografou e da própria Carlota que declarou que ela não era só ela, mas a soma de todos aqueles que só tinham palavras de agradecimento. Intensidade. Foi a que usaram para descrevê-la e que, sem dúvida, também serve para falar do seu trabalho e dessa noite. Como ela mesma falou, mais uma vez ela disse estar fazendo seu último espetáculo. Mas quem a conhece sabe que essa afirmação só dura até ela começar a criar o próximo. Ainda bem porque, mesmo tendo visto tantos, a gente nunca se cansa de rever o Terpsi que se recria a cada espetáculo, a cada passo dessa dança-teatro que é simplesmente fascinante. Ah, prima, e tu podes aparecer aqui em casa para sovar um pão de vez em quando.

Tuesday, May 28, 2013

Uma mistura de arte e jornalismo na denúncia do descaso e da indiferença

Sair da minha casa no Cristal, devido às obras do novo viaduto e do meu time, tornou-se um desafio. Não importa o dia e nem o horário. E eu ainda não acertei o cálculo do tempo para chegar a qualquer lugar desde então. Não foi diferente no Domingo quando saí para ver Bodas de Papelão. Todo mundo sabe que eu gosto de teatro, mas, às vezes, vai além da vontade de assistir a alguma coisa. É também um compromisso assumido com os amigos.
O Gasômetro é um lugar querido para mim desde a primeira Bienal quando  fui mediadora e passei três meses andando todos os dias por aqueles corredores. Podia ter implicância, mas foi o contrário. Tenho afeto até mesmo por aquelas salinhas transformadas em teatro por algumas horas. Ainda mais quando, depois de dizer o meu nome, sinto um tom de reconhecimento de uma menina que não identifico. Preciso de alguns minutos para ver que era o “Mágico de Oz” do último espetáculo que assisti do grupo Leva Eu. E sorrio pensando que coisa boa que eles conseguiram assumir seus personagens e serem diferentes de si mesmos. Também acho graça ao me dar conta de que, desde o primeiro momento, simpatizei com o nome do grupo. Logo eu que costumo corrigir todos os erros de português que identifico. E é com essa vontade de gostar que entro no espaço que já não é uma sala escura, mas tem elementos suficientes para que a gente identifique as ruas de uma cidade qualquer.
Logo no começo, porém, os atores, no texto do jornalista Renato Mendonça, especificam que se trata das ruas de Porto Alegre. E o espetáculo traz elementos dessa mistura entre jornalismo e teatro que, depois de quase dez anos no Departamento de Artes Dramáticas, já não me surpreende.  Isso não quer dizer que o espetáculo é previsível. Não é. Trata de um assunto cotidiano. Mostra as pessoas que “vemos” todos os dias: os moradores de rua, mas com uma delicadeza e, ao mesmo tempo, com uma intensidade que não tem como não me sensibilizar e, nesse momento, eu desejo que isso aconteça com toda a plateia. O que acho que faz parte da linguagem que, nós jornalistas, aprendemos a explorar são as imagens projetadas de locais reais da cidade. Soma-se a isso uma escolha de músicas que sublinham a falta de identidade daqueles dois que, além de cantar, chegam a dançar um tango. É essa mistura entre a arte e a vida que os comunicadores da área da cultura tentam elaborar e que nesse espetáculo acabou resultando nessa dramaturgia tão relevante para os nossos dias.

Mas quem é essa atriz que brilha naquele “palco” desde o primeiro instante? Ela é tão radiante que, em alguns momentos, apesar de sua ótima interpretação, fica difícil ver alguém debilitado pela falta de atenção, de cuidados, de tudo que é básico para a sobrevivência de um ser humano. Ela se chama Marjorie Moreira. E Igor Ramos contracena com ela fazendo um personagem com uma das características mais complicadas: a de bêbado. Todo mundo que conheço já fez a imitação de alguém bêbado um dia, não convincente. Exageram demais, não enrolam a língua direito. Igor é perfeito. Se eu não conhecesse o seu profundo compromisso com o teatro diria que aquelas garrafas continham mesmo cachaça. Mas, ele não se restringe a isso. Ele é o protetor da sua esposa, o que não deixa que ela perca as esperanças, se desanime mesmo diante das agruras da vida da rua, da falta de humanidade dos outros que passam por eles como se fossem invisíveis. Os outros? Eu, tu, nós. E uma fala me chama muito a atenção: eles enfatizam que são moradores de Porto Alegre. É nesse momento, como em tantos outros desse espetáculo, que se quebra a distância que existe de quem tem um teto ou de quem fica ao relento. E o texto é repleto de sutilezas e também de palavrões, de xingamentos e de filosofia: “só viver não basta”, diz um deles. E eles sonham com a neve. Exatamente como eu, que também nunca vi nevar. Mas, não era preciso essa “coincidência” para que eu já me sentisse mexida com o espetáculo e, sem nem tentar fugir do clichê, não sou a mesma quando saio daquela sala menos de uma hora depois. Essa é a força da arte. Esse é poder do teatro que, diferente do que pensam alguns, não raro, pode fazer mais do que uma matéria publicada no jornal, esse que se espalha pelas ruas servindo de leito para tantos seres humanos. 

Thursday, May 23, 2013

Aznavour traz à França para Porto Alegre e meus amigos a minha memória


Convites comprados há muito tempo, lá me fui encontrar minha irmã Vera Mello e minha cunhada Vera Beatriz Brasil Mello para ver Charles Aznavour.  De cara, chamou à atenção a quantidade de gente muito mais moça, inclusive, do que os que estavam na plateia do Ney Matogrosso.  Quando esse cantor francês, que faz parte da minha vida desde que me conheço por gente, chega ao palco, não tem como não sentir uma emoção e, enquanto ele canta uma música que fala de Paris no mês de agosto, eu fico pensando que adoro viajar, mas estou pronta para sair agora, já, para poucos lugares, sendo que a capital francesa é o principal deles. E essa noite trouxe a França para Porto Alegre, mais precisamente para o Araújo Viana onde, como fez Bebel Crosseti, é possível brindar o aniversário do cantor.
Claro que queríamos que ele cantasse as músicas que ouvimos sempre, mas ele começa por outras que não reconhecemos. No entanto, não tem como não achar a voz dele linda e ele performático no palco. Seus gestos, seus deslocamentos, sua postura, demonstram um domínio que atrai. Mas, enquanto ele canta, eu me pergunto que “gaiola” é aquela onde está o baterista e logo penso que o Arthur de Faria deveria saber. E, quando Aznavour começa a cantar Que c’est triste Venise vejo que é em italiano e, no mesmo instante, lembro da Paola Morais. Primeiro, brinco com a minha irmã que ele não queria que eu cantasse junto. Depois, me digo que foi para não me fazer chorar pois aquela história de que a cidade é triste quando nossos amores são mortos antes mesmo de existir e que nossos amigos partiram acaba comigo. E a iluminação farta, várias cores fortes usadas no palco, contrastando com o figurino negro do cantor, me fazem pensar no Fernando Uchoa. E a moça que correu feliz ao pegar o lenço usado pelo Aznavour depois que ele cantou La Bohème me traz à cabeça a Fernanda Petit. E enquanto me impressiono com a competência vocal desse homem de 89 anos (completados exatamente nesse dia) recordo das aulas da Gisela Haybeche. Daí, emendo no Rodrigo Scolari que está na cidade luz. Já as músicas que falam da passagem do tempo, da valorização do aqui e agora reverberam com os textos de Clara Corleone e L’amour c´est comme un jour ça s’en va (o amor é como um dia, ele passa) me traz a mente Janaina Kraemer e, depois do arrepio que sinto com Hier Encore, só She, a música escolhida pelo Zé Adão para a minha entrada  na última vez em que pisei em um palco, mexe mais comigo. E junto a todos esses estão também minha mãe, meu irmão que já se foi e meus amigos franceses. Porque a música faz isso com a gente. Mexe profundamente com a memória. E todas essas lembranças só são interrompidas pela maneira interessante que Aznavour conversa com o público, explicando que não sabe falar português, mas que dirá em francês e alguém do lado poderá traduzir, pressupondo que a plateia está cheia de francófonos. E o que ele diz? Que já se perguntou muitas vezes o que é uma canção. Nessa hora, não tenho dúvida de que é por isso que ele domina o que faz. Além de mostrar simplicidade e interesse, ele é capaz de ficar por tanto tempo em pé. Eu mesmo sentada já sinto cansaço por estar na multidão. Porque um show não é uma gravação, não é um vídeo. É energia que vem, mas que também vai. E esse entusiasmo pela vida me faz pensar em alguém especial para mim que preciso tirar para dançar. E mergulhada nesse momento mágico que anuncia que o show está no fim, aproveito para chegar bem pertinho do palco e observar o quanto Aznavour parece frágil há poucos metros, mas que ainda carrega esse negócio que faz parte de todo artista e que surge de um jeito inexplicável diante da plateia que o aplaude com entusiasmo a cada música e é por essas e por outras que a cada uma delas ele impressiona mais e, todo o tempo, eu me pergunto se para os franceses estas palavras, essa poesia que ele declamou sobre a passagem do tempo, a perda da juventude, os amores perdidos causam o mesmo impacto que eu sinto nos meus ouvidos quando ele diz: “Il faut savoir qu’on ne sait pas”, o que eu traduziria por: “é preciso saber que não sabemos”, mas que dito assim parece tão menos intenso do que em francês, essa língua que me transportou para o outro lado do oceano e me trouxe aquela sensação de beleza e de aconchego que, fora da arte,  só um bom vinho pode trazer ou essa sensação de que somos todos aqueles que passam pelo nosso caminho real ou até mesmo virtual como alguns dos que estiveram comigo essa noite no show, ainda que em pensamento.

Monday, May 20, 2013

Brecht: o teatro muito além do palco


14º SIMPÓSIO DA INTERNATIONAL BRECHT SOCIETY – 1º DIA

Ano que vem estará completando 30 anos que sou jornalista. Durante esse tempo já participei de muitos eventos, trabalhando ou apenas assistindo e posso dizer que existem coisas extremamente simples que anunciam a qualidade de qualquer congresso, simpósio, jornada. Entre estas estão: a forma como somos recebidos no momento da inscrição e, por incrível que pareça, a beleza e o cuidado com o material impresso, ou seja, o crachá, a programação, a pastinha, o bloco de anotações. Parece bobagem, mas minha experiência diz que não é. Se alguém tiver que escrever o seu nome com uma caneta hidrocor e colar uma etiqueta na sua camisa, desconfie. Outra coisa é o local do evento. Não importa se é no Brasil ou no exterior. Se a gente entra em um prédio bacana, bem cuidado, há uma maior probabilidade da palestra para a qual você se inscreveu valer a pena. Assim, sabendo que a abertura do Simpósio sobre Brecht ia ser na Reitoria já achei que era bom me arrumar um pouco. A prova de que estava certa foi encontrar o coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes cênicas, João Pedro Gil, de terno. Ele mesmo, quando eu elogiei a elegância, já me cumprimentou dizendo que não era sempre. No mais, reparei no banner da entrada, nas camisetas daqueles alunos todos que pareciam muito animados em dar informações.
Também acho prenúncio de um bom evento a abertura ser curta, apesar da mesa repleta de nomes importantes da cultura, do teatro, da educação como o Reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Neto, do Diretor do Instituto de Artes, Alfredo Nicolaievsky, de Mirna Spritzer que já foi parabenizada no começo por ter aceitado o desafio de fazer parte da organização. E, assim, o tom das palavras iniciais foi de satisfação em estar ali, com a humildade de quem se interessa por arte. Outro detalhe que também faz a diferença para um evento internacional é a quantidade de pessoas na plateia com fones de ouvido. Evidencia de que não se trata de apenas um convidado para garantir o status do encontro, mas de uma presença significativa de pessoas que se comunicam em idiomas diversos. Eu mesma pude ouvir alemão, inglês, espanhol e até auxiliar um dos convidados franceses a pedido de Susi Weber poucos minutos antes de tudo começar.
Com a palavra Miguel Rubio Zapata, do Peru. Diretor e dramaturgo do Grupo Cultural Yuachkani, ele fala sobre a influência de Brecht no teatro da América Latina e vai citando Enrique Buanaventura, Augusto Boal, Atahualpa, entre outros. Comenta sobre como o dramaturgo alemão Bertold Brecht inspirou seu próprio grupo ao propor um teatro que trouxesse à tona as contradições da sociedade, ao levá-los a observar a vida cotidiana e a se surpreender diante dela. Salienta os equívocos iniciais das interpretações da proposta de Brecht que levavam a falar de uma atuação a frio na tentativa de compreender o efeito de distanciamento. Aprofunda-se na busca de uma definição da presença cênica. O ator dirigindo-se aos espectadores com consciência plena de estar diante de uma cena. Enfatiza os elementos utilizados: a iluminação, o cenário, o figurino, os cartazes. Tudo para reforçar o objetivo do estranhamento. Destaca as propostas de Boal do teatro fórum, do invisível, do dramaturgo Brasileiro,  que, segundo ele, não atingiram apenas a América Latina, mas os cinco continentes, como o teatro do oprimido, incorporando a comunidade, fazendo com que o “espectador esteja preparado para ser ator de sua própria vida”. Cita a mensagem desse pela passagem do dia mundial do teatro em 2009, destacando o trecho que diz que “ao ver um mundo de opressores e oprimidos, temos obrigação de reinventar outro mundo. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida”. Toca na questão da teatralidade, o que me faz divagar em uma reflexão que me ocorre seguido: quem sou eu? Essa que senta aqui nessa cadeira escrevendo o que escuto porque sou jornalista? A que repete mantras na aula de yoga? A que ama cozinhar?  Quantos “personagens” existem em mim? Mas Zapata me puxa de volta para outro pensamento relevante. “O teatro não é só um exemplo, mas uma forma de vida.” Ele exemplifica com as consequências da montagem do seu grupo do espetáculo Galileu Galileu, apresentado em 1965, que acabou provocando a invasão do escritório pelo exército. O que me faz compreender melhor o que ele quer dizer com “atitude Brecht”, pois não se trata de fazer de conta, mas de introjetar os preceitos do dramaturgo alemão e agir. Ao falar do próprio grupo ele comenta os diferentes processos coletivos, a necessidade de beber de diversas fontes, de dialogar com o tempo do seu país, um tempo de violência, de corrupção que faz com que ele tenha dificuldade de falar sobre o assunto. “Não sou ator, mas teria que utilizar as técnicas de Brecht em meu próprio corpo para fazer do meu país”. E ainda sobre o fato de não atuar, Zapata conta que, em 1950, foi convidado para observar o teatro em Pequim e que, em um determinado momento, disseram a ele que poderia mostrar seus personagens. Ao explicar que não fazia isso, foi interpelado: “e como você ensina o que não sabe?”. Aspecto curioso para mostrar as diferenças do teatro oriental, no qual os mestres modelam seus atores e entregam seus personagens aos seus discípulos. Dito isso, ele relata os caminhos percorridos pelo grupo que presenciou um momento histórico de um país em convulsão, com mortos, executados. Uma realidade que exigiu dos atores uma presença diferente em cena e para isso eles recorreram às artes marciais, as danças orientais, aos personal trainners gerando uma confluência, uma energia diferente do cotidiano, fazendo os atores reconhecer os próprios corpos e colocando-os à disposição. A violência política mexendo com os pressupostos do trabalho do grupo, criando importantes desafios, tentando responder a pergunta: o que o teatro pode fazer nesse momento? Zapata comenta a importância do teatro do seu grupo atrelada ao surgimento da comissão da verdade em busca de justiça, devolvendo um olhar para eles como cidadãos, questionando como a violência os afetava, buscando sentido e pertinência ao trabalho. Ele explica que Brecht sempre foi uma influência constante, mas não a única. Para encerrar mostra em vídeo cenas de alguns espetáculos e não esconde os erros cometidos pelo grupo em alguns momentos, levando para determinados locais propostas que frustram as expectativas. “Pensamos estar sendo muito inovadores, mas devemos, antes de tudo, escutar a comunidade”.
A manhã termina e eu saio satisfeita por constatar mais uma vez a importância dessa arte que tanto me atrai, refletindo sobre o equívoco daqueles que pensam que dramaturgia é apenas o que está nas telas da TV e que para ser ator basta fazer caras e bocas. Esse pensamento vai totalmente ao encontro da placa (segurada por um ator na foto mostrada desde o início no telão), com a frase: “A burguesia quer do artista uma arte que corteje e adule o seu gosto medíocre”.