Thursday, August 18, 2011

Sobre academias



Publico aqui dois textos que não são meus. Um, foi publicado no blog do Julio Conte. O outro, é do meu primo Rogério Menegassi. Duas pessoas bem intencionadas. Dois pontos de vista. Uma conclusão: a sua.


TERÇA-FEIRA, 16 DE AGOSTO DE 2011

FREE JEANS NA BODY ONE
O diabo mora nos detalhes. Ás vezes as grandes coisas se revelam em pequenas situações. São conteúdos menores mas que revelam uma forma arbitraria. Difícil dimensionar, e sempre se corre o risco de parecer ridículo com se estivéssemos brigando por centavos na caixa do supermercado.Porém, como vários pensadores importantes da nossa civilização já escreveram, quando se concede no detalhe se concede na essência. Existe um belo poema de Bertold Brecht e outro de Maiakovski sobre o assunto. Uma vez que se permite o abuso ele toma proporções inimagináveis. Tal qual a teoria do Caos, um pequeno erro no input gera uma diferença astronômica no output. Quero contar para vocês uma situação pequena em seu conteúdo, mas bem grave em sua forma porque esta recheada de arbitrariedade e arrogância. Fui tirado da aula de Ginastica Funcional na Academia Body One porque estava vestindo um bermudão jeans. Diga-se de passagem que era feito de um tecido elástico especial para usar em atividades físicas. No entanto fui barrado. Motivo: estava usando uma bermuda de brim azul catalogada como “jeans”. E “jeans” é proibida “em todas as academias” segundo o professor de Funcional, o personal que me orienta e a supervisora geral da academia Gabryelle Sperotto que em sua sabedoria apenas argumentava que nenhuma academia permite fazer ginastica usando “jeans”. Diga-se de passagem que para mim, jeans é uma calça e não uma bermuda. Só mais um detalhe. Em nenhum momento, em mais de dois anos pagando e frequentando a Body One, fui informado de tal proibição. Pelo contrário, nestes dois anos assisti na charmosa Body One um desfile de modelitos de todos os tipos, masculinos e femininos, e especialmente de bermudas, sendo uma grande maioria de algodão tipo jeans mas de outras cores. Com agravante, muitas delas com aqueles bolsões no lado da perna, especialmente feitos para se agarrar em barras entre aparelhos. Mas é claro, que apesar de tal risco, como derrubar uma barra de ferro sobre alguém, o fato de não ser azul, portanto não é “jeans”, não cria impedimento e isso segue acontecendo. Cabe ressaltar que argumentei como o professor que permaneceu submetido a regra absurda, ao orientar e a supervisora Gabryelle Sperotto que, como de resto, permaneceu em sua fortaleza dogmática. Reitero que apesar do fato ser de repercussão mínima, subjaz, com soe acontecer, um boa dose de cegueira e altas pitadas de autoritarismo. Por isso estou lançando a campanha “free jeans na Body One”. Quem achar que vale a pena, mande um email marcelle@bodyoneclub.com.br dizendo: FREE JEANS NA BODY ONE.
Agradeço o apoio porque com escrevi em outro post citando Brutus: "sic semper tyrannis"

Prezado Júlio Conte
Tomei conhecimento de sua campanha FREE JEANS NA BODY ONE.
Meu nome é Rogério Menegassi, sou Presidente da Associação das Academias do RS - ACAD-RS,
Presidente da Associação dos Grupos de Corrida - AGCRS, Proprietário de uma Academia e Profissional de Ed.Física.
Trabalho em academia desde 1984, ou seja, 27 anos; atualmente estou com 47 anos.
Concordo com você quando falas que "quando se concede no detalhe se concede na essência".
Sou exatamente assim, brigo pela essência, pela teoria, pelo justo, correto e honesto, independente do "tamanho do valor".
Em pleno século 21, de total globalização, onde o cliente, mais do que nunca, tem sempre razão.
Onde o atendimento, o respeito ao cliente, a exigência de qualidade em todos os níveis da organização e
onde a oferta dos serviços e produtos é muito grande, não podemos deixar que pequenos abusos tomem proporções inimagináveis
como você mesmo disse.
Porém, como também gosto do contraponto - do contraditório,
gostaria de emitir a minha opinião, não como empresário e proprietário de um estabelecimento, no caso, uma academia,
mas como Professor e Profissional de Ed. Física.
Como Professor, aprendemos na Faculdade, entre tantas outras coisas, que existem vestimentas apropriadas para a prática da atividade física. Que nossa função como Professores é orientar, corrigir, motivar e estabelecer regras para o bom funcionamento e por que não dizer, para ajudarmos os nossos alunos (não nossos clientes) a atingirem os seus objetivos.
Na minha opinião, o uso de roupas não confeccionadas para a prática da atividade física não devem ser motivo de campanhas,
explico porque. FREE JEANS, levará aos seus adeptos a também exigirem FREE PANTS JEANS, ou falando no bom português,
até porque também valorizo muito a nossa língua e não gosto dessa ideia de americanizarmos o nosso idioma,
havendo sucesso na sua campanha, logo logo, os alunos estarão exigindo frequentar e treinar nas academias de calça de brim,
pois se pode bermuda, porque não calça? E se pode calça de brim, porque não calça de tergal? E se pode calça de tergal porque não sapato? E se pode sapato, também poderia chinelo, correto? Veja que uma simples campanha desencadearia uma grande revolução na moda, levando os estilistas a fazerem vestidos longos, com paetês e lantejoulas para malhar.
Assim como os advogados não podem frequentar um tribunal sem vestir terno e gravata, bem como os médicos devem usar luvas cirúrgicas, também devemos respeitar as normas do bom senso que dizem que para malhar em uma academia deve-se estar vestindo: tênis, calção e camiseta; roupas leves e confortáveis para a execução do movimento e transpiração.
No caso específico da aula de Ginástica Funcional, o maior impedimento, para qualquer aluno usar um bermudão, seja ele de jeans ou de algodão, azul ou vermelho, é o fato do professor não conseguir ver a perfeita execução do movimento. Diferentemente de uma caminhada na esteira, em uma aula de Ginástica Funcional os exercícios exigem maior concentração, cuidado na execução e muita atenção do professor, pois são exercícios onde o aluno executa movimentos em desequilíbrio, utilizando muitas vezes o peso do seu próprio corpo. Sabendo do sucesso de seu blog, de sua Profissão e de suas peças e textos, gostaria de lhe sugerir uma outra campanha. O que mais mata no Mundo e no Brasil também, são as Doenças Cardiovasculares. No Mundo a cada dois segundos e no Brasil a cada três minutos uma pessoa morre de problemas do coração. Entre os fatores de risco como: hereditariedade, obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo, está o SEDENTARISMO. Por que não juntar nossas forças e o seu grande sucesso e começarmos essa campanha? A Associação Brasileira de Academias estima que no máximo 4% da população faça atividade física orientada. A prática regular de exercícios reduz a principal causa de morte. Muito mais que acidentes de trânsito, que a violência, que a AIDS ou as guerras. Por dia, quase 500 pessoas morrem no Brasil por problemas de coração.
Alimentação saudável e atividade física regular salvariam milhares de vidas por ano. O que achas? Vamos nessa? Campanha:
Viva Mais e Melhor - Faça Atividade Física Orientada!
Forte Abraço
Rogério Menegassi - Presidente ACAD-RS
acadrs@acadrs.com.br
A tempo: Jeans é um tipo de tecido, que pode ser calça, bermuda ou até jaqueta.
Significado de Jeans
apos. e s.m. (pal. ing.) (Tecido) de algodão sarjado de trama cerrada, muito resistente, usado especialmente para roupas esporte e de trabalho. / &151; S.m.sing. e pl.. Calças feitas desse tecido ou de brim ou de zuarte; blue-jeans.

Wednesday, August 03, 2011

Mensagem de Bebeto Alves no Facebook:

"Um amigo meu, o arquiteto Marcelo Gotuzzo, enviou um projeto de recuperação de prédios abandonados no centro de Porto Alegre, de rara beleza e competência. O projeto precisa de divulgação, visibilidade para que se torne real. Assista, dê a sua opinião, participe disso tb, compartilhe. É lindo... E a apresentação do projeto é maravilhosa."

http://youtu.be/D29H8F-nIqY

Wednesday, July 27, 2011

Momentos de decisão

Tem muita gente que diz que futebol é bobagem, que se foi o tempo de um futebol arte, que agora é tudo na base da grana e coisa e tal, mas ontem vivi uma situação que me fez repensar sobre isso. Sou colorada. Já disse que fui induzida pelo meu avô que dava umas balas para os netos se eles torcessem pelo Inter. Mas, mesmo gulosa, não foi isso que me fez aderir ao time. Foi a vontade de agradá-lo. De ver por trás daquela cara sisuda um meio-sorriso. Mas já faz tempo que ando bem desligada em relação aos jogos. Isso que moro no caminho do Beira Rio. Acompanho o trânsito. Não as partidas. Daí, ontem estava passando na frente do estádio quando um carro começou a buzinar muito. Como eu não estava fazendo nada de estranho, nada que pudesse atrapalhá-lo, achei que devia ser algo a ver com os times. Liguei o rádio e logo soube que era o Inter que havia feito um gol contra o Barcelona em uma partida em que ele estava perdendo. Pelo empate, já no segundo tempo, a decisão seria nos pênaltis. Fiquei contente com a notícia. Resolvi deixar o rádio ligado. Mais algumas quadras e um dos radialistas ainda estava na metade do comentário sobre o gol de empate e pronto: o Barcelona fazia outro gol. Lá estava o Inter perdendo novamente.

Cheguei ao meu destino. Enquanto aguardava ser atendida, me conectei. Um primo postava no Facebook o novo empate. Não tive mais como acompanhar. Só depois fui saber que perdemos nos pênaltis. E isso me fez pensar. Mesmo que o futebol não seja mais o que já foi, que haja mesmo muita grana envolvida, ele pode servir para preparar para as perdas da vida. Neste esporte, mais do que em qualquer outro, tudo pode mudar a qualquer minuto, segundos até eu diria. A prova estava ali, naquela tarde. Fiquei pensando na quantidade de torcedores que chegaram a pensar em instantes que a vitória estava próxima. 70 mil pessoas estavam ali naquela mesma situação. Ora achando que iam vencer, ora achando que iam perder. Bem, mas justo quando eu achava que era a única a filosofar sobre o futebol ouço Ruy Carlos Ostermann, meu professor desta disciplina no colégio. Em seu comentário ele disse que nem era tão surpresa assim o Inter ter perdido para o Barcelona. Segundo ele, um time que cobra pênaltis muito, muito bem. E todo torcedor sabe que não é fácil quando vai para esta parte. Na vida, em geral, a gente não passa da felicidade para a tristeza tão rápido assim. Mas acontece. Então, depois de alguns poucos quilômetros, pensei que o futebol pode servir de treinamento para que a gente lide com esta possibilidade sem achar que é o fim do mundo. Até porque, na vida, depois de “perder nos pênaltis” a gente tem que estar sempre pronto para uma próxima partida.

Sunday, July 17, 2011

Molière: queridinho do rei, perseguido pelo clero, rejeitado pelos poderosos


Já há algum tempo me convenci que mesmo a pessoa mais brilhante, mais genial, não se sente assim. Adoro ver as histórias e depoimentos de pessoas muito famosas, consagradas que expressam suas inseguranças, seus medos, suas fraquezas. Isso tudo faz delas gente como a gente. Depois, o tempo passa, elas atingem o sucesso, todo mundo os reconhece e fica cada vez mais difícil acreditar que, um dia, eles tiveram dúvida sobre suas escolhas na vida. Com Molière não foi diferente. Ele estudou direito. Mas decidiu fazer teatro.  Ficou sem dinheiro para pagar os impostos. Passou um tempo na prisão. Caiu nas graças do rei Luis XIV e enfrentou a sociedade. Em uma época em que ninguém queria saber de comédia, em que atores nem podiam ser enterrados em solo sagrado, Molière escreveu sobre a arrogância, a falsidade, resumindo, sobre a babaquice, quando este termo nem existia ainda. E por que ele segue sendo montado até hoje no mundo todo? Venha descobrir.

Dia 22 – Quarta-feira
Hora: 19h

Local: Santa Teresinha,59
Valor: R$ 35,00

Inscrições:

Sunday, July 10, 2011

14 de julho: Comemore sem perder a cabeça

Nunca serei a favor de sair cortando a cabeça de quem quer que seja. Criar um aparato para fazer isso mais rápido então...não contem comigo. Mas, dia 14 de julho está chegando e é comum algumas pessoas dizerem que não há o que comemorar. Não concordo. Bem, é verdade que festa é comigo mesmo. No caso da Revolução Francesa, porém, acho que existem razões mais concretas. Está correta a observação de que ainda estamos longe dos ideias de “liberdade, igualidade, fraternidade”, mas mesmo considerando terrível esta história de guilhotina, se a gente relembra que a ideia era igualar a forma de morrer de qualquer um (sem distinção de nível social ou econômico) havia por trás uma tentativa de direitos iguais até na morte. Além do mais, será sempre um exemplo de que nenhum poder é para sempre e que o povo tem força de transformar o que parecia imutável.
Não dá para dizer que ter escrito a Declaração dos Direitos Humanos é inútil. Podemos até discutir se são ou não cumpridos mas é preciso partir deste fato para chegar a esta conclusão. Voltaire Schilling, historiador e meu professor do segundo grau, afirma que “os ideais que serviram de pano de fundo à Revolução francesa mudaram de vez a forma de encarar a educação. É a partir dela que um ensino público que dê as mesmas oportunidades a todos é estabelecido”. Quem não concorda que isso é um bom motivo para pelo menos tomar um vinho neste dia? Eu sei. Dá pena da Maria Antonieta. Ainda mais depois do filme que mostra que o Luis XVI  não dava a mínima para ela, mas chegaram a sugerir a ele que colocasse fogo no povo. Ele achou que não devia e acabou com a cabeça cortada.
Talvez, estar agora escrevendo neste blog se deva há muitas cabeças cortadas. Afinal, desde então,  “a livre comunicação dos pensamentos e opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; todo o cidadão pode, pois, falar, escrever e imprimir livremente; salvo a responsabilidade do abuso dessa liberdade nos casos determinados pela lei". Bem, mas é justamente por causa disso tudo e por ter aprendido desde pequena a cantar “Allons enfant de la patrie, le jour de gloire est arrivé” que não vou ficar aqui tentando impor a minha opinião. Sei que, nesta quinta-feira, vou estar na atividade proposta pela Arte na Corte, na Santa Terezinha, 59, às 21h. Quem estiver a fim, faça a sua reserva por aqui. 

Sunday, July 03, 2011



A sofisticada simplicidade do novo espetáculo do Gaia
Fui ver Cinderela fashion week. Não sabia o que esperar. De cara, já achei agradável ser colocada em uma sala que recria justamente uma passarela. De frente uns para os outros, olho as tantas pessoas que saíram de casa para ver o espetáculo em uma noite fria e sei que também sou vista. Aos poucos, sou levada a um universo divertido e, ao mesmo tempo, intenso.
Se o cenário é apenas uma plataforma, quase uma cópia do real, os figurinos (muitos, aliás) moldam os corpos em cada gesto. Algo simples como colocar um par de botas nos braços, encobrindo as mãos, geram uma impressão estética extremamente forte como se tudo estivesse de pernas para o ar.
A trilha sonora traz muitos sucessos populares nacionais e internacionais que remetem  a ícones como Xuxa a Leonardo di Caprio e provocam emoções diversas.  Quer tango? Tem. Quer valsa? Tem. Quer Axé. Também tem. Tem até uma caixinha de música! Enquanto isso, os bailarinos atores (ou atores bailarinos?) cruzam o tapete vermelho de ponta a ponta, ora em movimentos normais, ora lentos, ora hiper velozes.  Ora quase voando, ora rastejando. Neste espetáculo o corpo não só fala, como grita e esperneia.
Sinto uma falsa leveza na proposta do grupo Gaia que, enquanto me embala ao som de músicas tão conhecidas, me faz ver um dos homens com o rosto coberto por uma máscara negra, arrastar uma das mulheres que sorri, quase inconsciente da brutalidade da qual é vítima. Gestos agressivos aparecem em várias outras ocasiões, em uma contracenação em que a mulher aparece quase sempre submissa e desfazem o mito da história feliz daquela que espera pelo príncipe.
Para mim, Cinderela Fashion week é sensual, divertido, dramático. Será que estou vendo demais? Será que tudo que vejo e ouço foi pensado ou é resultado de improvisação e intuição? Estou tornando filosófica uma proposta que não tinha esta intenção? Mas saber isso, realmente, importa? Quem continua apegado ao caráter de denúncia e subversão da arte, perde muitos momentos de pura fruição e se tem uma coisa que aprendi com os cursos que fiz  é que nenhum artista controla as repercussões daquilo que cria e que, muitas vezes, o público  percebe coisas que ele não tinha consciência, mas que estavam lá.
E para quem pensa que eu estou sendo “boazinha” como a fada madrinha, devo dizer que não gosto do final. Acho que a escolha de sambas força, desnecessariamente, a empatia do público. Afinal, ao ritmo de uma bateria não tem quem não se deixe levar. Mas, na minha opinião, não acrescenta. Só não chega a ser grave já que eles pretendiam mesmo acabar. E se alguém discorda completamente de tudo que eu disse, ótimo. Sinal que estava lá para assistir. Quanto a mim, bem que gostaria de uma cópia daquela trilha para espantar o frio, exatamente como o grupo Gaia, botando o corpo prá dançar. Ah, talvez, acrescentasse a Macarena só para lembrar.


Ficha técnica
Direção geral e coreografia: Diego Mac e Alessandra Chemello
Elenco: Alessandra Chemello, Aline Jones, Daniela Aquino, Denis Gosch, Fabi Vanoni, Guadalupe Casal, Joana Nascimento do Amaral, Nilton Gaffree, Patrick Vargas e Ricardo Zigomático.
Figurino: Raquel Capeletto
Cenário: Zoé Degani
Iluminação: Fabrício Simões
Trilha-sonora: Diego Mac
Designer: Tupax - Tiago Giordani 
Assessoria de Imprensa: Fabulosa Ideia
Produção Operacional: Sandra Santos
Produção: Grupo Gaia
Financiamento: Fumproarte


Serviço

Espetáculo: Cinderela Fashion Week
Datas e horários: 02,03, 09, 16 e 17 de julho, sessões às 17h e 19h. Não há sessões no dia 10.
Local: 4° andar da Casa de Cultua Mário Quintana
Ingresso: entrada gratuita

O Festival da Canção Francesa e seu imprevisível clima musical

Fazia bastante frio e, como se isso não bastasse, chovia. Porém, não me passava pela cabeça deixar de ir ao Festival da canção francesa. Parece que muita gente pensou da mesma forma. A Reitoria estava quase lotada. Muitos rostos conhecidos. Só o fato de saber que todos estão lá para ouvir pessoas cantando música francesa já me traz satisfação. Além de ver que mais gente compartilha do meu interesse pela França, para mim, significa que aquelas visitas de minha mãe de emissora em emissora de rádio, tentando divulgar a música francesa (junto com a então presidente da Associação dos professores de francês, Denakir Campos) não foram em vão.

As apresentações começam. Imediatamente, lembro com saudades de Christophe, o diretor anterior que criou o Festival. E não sou a única. Ele é citado pelo presidente: Hipérides Ferreira de Mello. Em seguida, Jacques Petriment, atual diretor, faz os devidos agradecimentos. Lê em português e percebe que misturou um pouco de espanhol ao dizer “por supuesto”. Encerra falando “beleza”, o que me gera um certo estranhamento da gíria, mas minha irmã chama a atenção que é melhor do que “show de bola”. Quem foi que disse que falar português é fácil?

Dudu Sperb começa a chamar os concorrentes do Festival que este ano homenageia Serge Gainsbourg. A primeira música, deste cantor que não conhecia, me chama a atenção pelo título: “Je suis venu te dire que je m’en vais”, ou seja, eu vim dizer que eu me vou. Parece incoerente, mas lembra muito o término das relações. Além disso, a ótima voz do primeiro cantor mostra que a noite, realmente, promete. Mas não vou falar de cada um. Apenas direi que a concorrência era mesmo acirrada. O nível dos selecionados garantiu, sem dúvida, um ótimo show. Nem todos me agradaram, mas é verdade que estamos ficando cada vez mais exigentes. De qualquer forma, eu que havia pedido no último festival, mais movimentação no palco, tive meus desejos atendidos pelos cantores da noite. Alguns tinham até fã-clube, torcidas, com gritos e tudo mais.

Em todas as edições sempre me vejo achando no mínimo engraçado estar em plena cidade gaúcha com aquelas pessoas cantando em francês, estabelecendo uma mágica ponte POA-Paris que só aqueles que amam esta língua podem fazer. Além disso, foi interessante a ideia de conversar com os vencedores anteriores. Foi muito bom poder ouvi-los cantar novamente também. Richard Emunds disse que a pessoa que ganhasse o prêmio deveria se sentir a pessoa mais feliz do mundo quando chegasse a Paris, pois, não estaria ali por ter ganho uma passagem de alguém, mas sim, pelo fato de ter cantado bem. Concordo.

Com gente tão boa competindo fica evidente que não são só os jornalistas que tem dificuldade de se destacar profissionalmente. Ser cantor também não é nada fácil. Afinal, muitos tinham todas as condições de serem famosos, se a fama dependesse apenas de talento. Bem difícil para a comissão julgadora, da qual fazia parte meu amigo, Newton Silva.

Quando uma das concorrentes favoritas do público foi chamada para o terceiro prêmio, o público não perdoou e vaiou. Eu, particularmente, não concordo com esta reação. Mesmo que o primeiro lugar não tenha sido a minha escolha, achei simplesmente terrível as pessoas começarem a sair, enquanto ele cantava novamente a canção vencedora. Infelizmente, mostra que ainda serão necessários mais festivais para que todos entendam que mesmo que o escolhido não seja o da nossa preferência, o que importa é este incrível evento que valoriza esta língua linda e coloca no palco pessoas que com suas vozes aquecem uma noite fria. Ano que vem, mesmo que esteja nevando, estarei lá. Com o frio que está lá fora, alguém dúvida?



1º Lugar
Augusto Darde (RS)
Música: Initials BB
Pela segunda vez no Festival da Canção, Augusto Darde é integrante da banda de eletro-folk "L'étoile est morte". Estudante de Francês na UFRGS, sua relação com a música vem desde a pré-adolescência, quando aprendeu a tocar bateria e logo depois vieram as cordas. Passou a juventude ouvindo e tocando, fazendo parte de diversas bandas como baterista e compositor/guitarrista. Suas principais influências musicais estão no pós-punk e na new wave dos anos 80.

2º Lugar
Helena Wöhl Coelho (RS)
Música: Le Poinçonneur dês Lilás
Jornalista formada pela UFRGS e em Comércio Exterior pela Unisinos. Trabalha com arte desde sempre, através de projetos como o “Cante e Dance com a Gente”, onde teve sua formação voltada para a atuação em Musicais e participou de produções cênicas, fonográficas e audiovisuais. Estudou canto e piano na Musikschule Bochum e no Instituto de Música da EST; ballet clássico na escola Petit Ballet, e cursou a Oficina de Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo, além de passar por diversos grupos vocais no Brasil e no exterior. Atualmente estuda francês, faz aulas de salsa e segue cantando.

3º Lugar
Raíssa Panatieri (RS)
Música: Le Poinçonneur des Lilás
Bacharel em Música com Habilitação em Canto pela UFRGS, Raíssa Panatieri é mezzo-soprano e transita com fluidez entre o repertório lírico e o popular. Em maio de 2009, sob a orientação do barítono Carlos Rodriguez (Brasil/Holanda), realizou com a OSPA, sob a regência do Maestro Manfredo Schmiedt, a sua estréia como cantora profissional. Atualmente realiza a preparação vocal do Coro do Colégio de Aplicação da UFRGS, e conclui a Licenciatura em Música pela mesma universidade.

Sunday, June 26, 2011

É meia-noite, é meio-dia, é toda hora

Escrever sobre um filme de Woody Allen, sem dúvida, é uma ousadia e revela uma vontade de aparecer. Afinal, ele, certamente, não precisa das minhas palavras. Mas, sem audácia ele não teria chegado onde está, então, para ter pelo menos alguma coisa em comum com este gênio do cinema, vou me atrever. Quase briguei para que não me contassem partes do filme. Muitas pessoas amigas já tinham ido e estavam loucas para comentar. Mas eu não leio nem a caixinha dos filmes que alugo e não queria saber nadinha. A única coisa que chegou aos meus ouvidos é que, nos primeiros minutos de filme, a gente via uma boa parte de Paris. Não deu outra. Eu, que só sonho em voltar àquela cidade, suspirava com tais imagens. Ver lugares bonitos é ótimo, mas reconhecê-los é ainda melhor.

Logo em seguida, a gente começa a ouvir a fala de um dos atores. Tive a nítida impressão de que era Woody Allen. Aquela maneira insegura, ansiosa de falar, vacilando entre pensamentos e palavras e sempre se questionando. O plano abre e vejo que me enganei. Lá estava aquele ator moço, louro que vi em vários filmes bobinhos. O nome dele? Não fazia a menor idéia. E do que se trata? O que é fantástico é que não é um filme com uma história muito profunda, mas isso, porém, não quer dizer que não seja complexa. Aliás, saí do cinema pensando o que seria do filme para quem não tem todas as referências aos famosos escritores e artistas que vão aparecendo ao longo do filme. São muitos. Eu mesma perdi pelo menos dois dos quais nunca tinha ouvido falar e que agora não lembro quais eram. Picasso, Dali, Cole Porter, Modigliani, Zelda e Scott Fitzgerald, Hemingway, Lautrec... a maioria representada por atores que não reconheci e cuja a aparência lembra, exatamente, os personagens. Carla Bruni não passa despercebida mesmo em um pequeno papel e Marion Cottilard sempre que aparece na tela me convence de que hipnotizaria qualquer homem, como acontece neste filme. Identifiquei também Kathy Bates, que há muito me conquistou como atriz, e que aparece como Gertrude Stein. É ela que fica encarregada de ler o texto do protagonista que faz sucesso no cinema, mas que gostaria mesmo é de ser escritor e morar em Paris. Mas mais surpresa do que com os nomes famosos que foram aparecendo fiquei com o ator Owen Wilson (é este o seu nome) que veste a pele de Woody Allen com perfeição. O cineasta nos dá a chance de ver Paris, visitando locais extraordinários, em épocas de glamour.

Bem, mas não pretendo, porém, ficar aqui contando a história. Assim como eu, imagino que muita gente ainda não tenha ido ver e que está perdendo uma ótima oportunidade de rir, ao mesmo tempo em que filosofa, o que é uma capacidade absolutamente impecável deste cineasta. Enquanto somos conduzidos, por um roteiro que permite viagens no tempo apenas com o badalar dos sinos de uma igreja à meia-noite, somos também levados a perceber os erros de nossas crenças existenciais. Ver Woody Allen nos diverte e nos liberta. Ele nem se preocupa em tentar dar uma explicação racional ou coerente para as fantásticas aparições e nem nós precisamos dela para compreender. Saímos do cinema tendo tomado um banho de cultura e erudição associadas à leveza da comédia. Isso é ou não genial?


Friday, June 24, 2011

Cego é aquele que não quer ver

Já comentei outras vezes que, embora tenha decidido estudar teatro, sou apaixonada por cinema. A justificativa é que quando um filme é ruim eu não chego a sair antes, mas não fico constrangida. No caso de um espetáculo, sim. Porém, não há nada comparado ao teatro quando este é bom como no caso de Rei Cego, do Teatro do Clã. Tenho tido preguiça de assistir. A correria anda grande e foi assim, meio devido à obrigação, que fui parar na platéia deste espetáculo. Ainda bem.


Outro dia, ouvia de um amigo, também com formação em Artes cênicas, que as pessoas estavam esquecendo de que o teatro tinha que contar uma história. Não queria criar conflito, mas, por dentro pensei: não concordo com isso. Já assisti a muitos espetáculos que me provocaram experiências interessantíssimas, mas que saí sem saber do que se tratava exatamente. A arte contemporânea tem uma proposta diferente em relação a isso.
O Rei Cego conta uma história. Daquele gênero de “capa e espada” que eu ouvia quando era pequena. De heróis e bandidos, de homens bons e maus, de gigantes e mistério. Não é, no entanto, uma história surpreendente, impactante. Nada disso. Uma história simples. Porém, a forma como ela é contada é que merecia o meu “bravo” no final. Por quê? Bem, vejamos. O cenário é simples. Entretanto, nos levam a imaginar vários lugares e permitem aos atores todos os deslocamentos necessários para nos convencer daquilo que está sendo dito. Não é realista, mas concretiza para os espectadores todas as imagens que dão ritmo a atuação do elenco. Por falar neste, está composto por três atores e atrizes que fazem vários papéis (nove personagens) e todos convincentes. É um elenco parelho. No bom sentido do termo. Ninguém se destaca, mas todos impressionam e conquistam o público. Não é para menos. Eles cantam, dançam, fazem piruetas e... atuam. O texto é dito claramente, expressivamente. Todos os movimentos são sincronizados e executados com perfeição. Nada nem ninguém entra ou sai da cena por acaso. E assim, eles vão conduzindo a plateia pela passagem do espaço e do tempo, estabelecendo uma dinâmica leve e contundente ao mesmo tempo. Em destaque, ainda, os elementos cênicos como “o gigante” que aparece e desaparece com simples movimentos dos atores, dois braços e uma cabeça. Ah, às vezes, esqueço do figurino. Justamente quando ele é adequado, correto e auxiliam a tornar os atores os personagens que eles representam. O mesmo acontece com a luz. O espetáculo tem uma dinâmica que só um bom diretor pode garantir. Difícil acreditar que seja o primeiro espetáculo do grupo. Que ótimo que eles tenham sido escolhidos pelo Projeto Nova Coras e, nestas horas, quer dizer 55 minutos, tenho a certeza de que nenhum filme valeria tanto a pena.



Sunday, June 19, 2011

Sessão de muita classe, história, arte e cultura

Sonhei com coisas na vida que não se realizaram, mas, em compensação, vivencio outras que jamais poderia imaginar. Quando assistia aos muitos eventos dos quais já participei como ouvinte, não pensava que, um dia, seria amiga de palestrantes. Porém, nesta quinta-feira, fui ver cinco, dos quais três fazem parte, hoje, das minhas relações. Então, chega a ser engraçado ver eles lá, distanciados pelo formato da apresentação, com cadeiras no foco, copos d’água ao lado, ou seja, no palco. Isso sem falar das pessoas envolvidas com a organização que também conheço e que me recebem calorosamente, como Laura Backes.

Sessão da classe recebe os convidados com vinho e café, o que em noites mais frias já é um aconchego. A abertura ficou por conta da coordenadora Nádia Maria Weber Santos. Doutora em História da UFRGS. Bem, quem olhar o meu currículo vai ver que já fui aluna deste curso. Sempre gostei muito de história. Tendo como professor no Instituto Educacional João XXIII Voltaire Schilling acho que não poderia ser diferente. Como jornalista, achava que seria muito bom associar as duas coisas. Mas acabei desistindo ao perceber que teria que passar primeiro por todas as cadeiras da pré-história e da história da antiguidade até chegar ao contemporâneo. Ficava muito puxado ir ao campus naquela época. Porém, minha paixão nunca arrefeceu.

A primeira a falar foi Alice Dubina Trusz, também doutora em história pela UFRGS. No tema dela mais um assunto que sempre me atraiu: cinema. Como ela mesma conta, a fonte de informações foi os jornais. Ou seja, ela mesclou em sua pesquisa teatro, cinema, história e jornalismo. Como eu não iria gostar? Despretensiosa já ganhou minha simpatia quando riu de si mesma por estar ali já que não trabalhava com memória, nem com teatro, nem com a efemeridade. Sua pesquisa foi sobre cinema como espetáculo entre 1896 e 1908. Ela teve que ir aos jornais para resgatar esta história de uma época em que o cinema era novidade e que precisava acontecer junto com outras atividades como o circo, o teatro, as feiras. E por não haver como registrar isso por imagens, os jornalistas tinham necessidade de descrever detalhadamente o que acontecia. O cinema aparecia junto com gêneros espetaculares como as touradas. Touradas? Nem sabia que tinha isso por aqui...Em seguida, ela explicava que não era para imaginar um cinema como o de hoje. Ela estava falando de um projetor chamado Lanterna Mágica que mostrava imagens fixas. Foram 30 anos destas experiências. “Uma espécie de Power point dos dias de hoje”, disse ela, arrancando risadas da plateia. Cheia, por sinal. Acho que ela conseguiu informações interessantes justamente por ter se colocado no lugar do espectador, como ela disse. Ela contou que, mais tarde, o cinema se sedentariza. Isso quer dizer: vai ocupar os espaços teatrais, acontecendo em um lugar físico confortável. E tinha que ser já que isso significa duas horas com intervalos. Tinha dia para ir aos cinemas. Foi em 1908 que surgiram as salas pequenas legitimadas como espaço de cinema, havendo uma regularização e chegando ao que conhecemos hoje.

Depois dessa aula entusiasmada de Alice Trusz sobre cinema sem que ela tivesse necessidade de consultar seus escritos, foi a vez de Betha Medeiros. Ela começou fazendo uma reflexão interessante sobre a questão do tempo, pois, até então, achava que sua pesquisa sobre o espetáculo Reis Vagabundos encenado há 28 anos era antiga, mas vendo aquela do início do século, era obrigada a mudar a sua percepção. Betha não parte da suposição que todos conhecem a história da mitologia grega de Penélope que prometeu se casar de novo quando terminasse uma peça em seu tear e a explica para falar da metáfora entre o nome do grupo e a situação de sua pesquisa.Gosto da franqueza dela que conta sobre os seus devaneios e seus insights em lugares insólitos. Suas relações levam a considerações sobre o teatro falado que leva ao corpo do ator e ao corpo criador do século XXI. O discurso de Betha é recheado de onomatopéias (vruum, diz ela). Ela também chega aos jornais quando conta que pouco era guardado do material sobre os espetáculos, que as fotos iam parar nos setores de divulgação da imprensa. Bem, a prova disso é o quadro que tenho na minha parede com fotos de filmes hollyoodianos. E ela também não teve como escapar de outra prática da comunicação: as entrevistas. Segundo ela, estas foram gerando uma polifonia, um imenso quebra-cabeça. Fiapo, o cenógrafo do espetáculo, lembrou que não conhecia a palavra clown e que eles faziam um trabalho de improvisação como mendigos, catadores de lixo nas ruas, mas que, um dia, Maria Helena Lopes chegou nos ensaios com os “narizes” e tudo mudou, fez-se a mágica. Betha não esconde a admiração que tem pela diretora (que estava presente aquela noite na Álvaro Moreira) e que se revela ainda mais neste momento. Ela reforça que se tratava de uma peça sem texto e que, no entanto, provocou fortes e inesquecíveis impressões. Mesmo em sua pesquisa acadêmica Betha se deu a liberdade de criar seus próprios títulos e fala de suas conclusões, quer dizer, de seus “alinhavos”. Ela faz uma rápida associação da pesquisa anterior e comenta que vai mostrar a SUA lanterna mágica. Projeta fotos do espetáculo e a música enche a sala mostrando a força daqueles registros resgatados pelo seu trabalho apaixonado, provando que estas duas coisas podem, sim, ser misturadas.

A próxima a falar é também minha colega de mestrado, Cibele Sastre. No Facebook Laura havia dito que ela explicaria Laban, ao que eu comentei que tinha medo. Ela reaparece com o seu ótimo título: Nada é sempre a mesma coisa. Sua saia longa e seu corpo longilíneo de bailarina me lembram Julie Andrews como Mary Poppins.Traz uma velha brincadeira nossa de dizer que “cada um no seu icosaedro”, uma mistura do popular com o acadêmico que nos ajudava a suavizar a tensão da época. Coisa que me parece muito bem resolvida agora em seu momento de doutorado quando ela diz que foi buscar “alguns amiguinhos” ao se referir a Foucault. E Cibele foi mesmo além. Ela já não fala só da notação de movimento de Laban, mas de sua apropriação. Comenta o quanto o coreógrafo ajudou no registro e difusão da coreografia e eu lembro a primeira vez que vi os “desenhos” do trabalho dela e o quanto tudo aquilo era, absolutamente, estranho para mim. Hoje, graças a ela, já sei do que ela fala e até me surpreendo pensando porque achei tão complicado compreender que se existe partituras para a música, nada mais natural do que haver também para o corpo. Quer dizer... isso depois de Laban ter feito o que fez e Cibele falar disso sempre em sala de aula, é claro! É isso: o coreógrafo criou estes códigos para compartilhar os movimentos do corpo. Mas Cibele não se contentou com isso. Em sua pesquisa, usou este código, que até então era uma tarefa de movimento, como motor de um processo, como um dispositivo, como ela mesmo disse. Seu Power point com as imagens não funcionou. Ainda bem. Mal sabe ela o quanto foi prazeroso vê-la levantar e usar o próprio corpo para explicar do que ela estava falando. Se sua fala ainda não tinha convencido alguém, não tenho dúvida de que aqueles movimentos perfeitos, aquela consciência corporal exata e ao mesmo tempo flexível, fizeram isso. Mesmo sendo fã das novas tecnologias, não há nada como alguém “ao vivo e a cores”.

A próxima palestrante, doutora em história, Maria Luiza Martini teve dificuldade de começar a sua fala tamanha era a sua emoção. A conversa dos demais havia provocado nela muitas lembranças e ela se esforçou para conter as lágrimas e a voz saiu embargada. Ela começa falando da importância da história cultural ter dado espaço para esta mistura com a arte. Recorda sua professora Sandra Pesavento e sua batalha para este reconhecimento. Ela diz que, enquanto a história está sempre se esforçando para expressar como foi, a memória é fazer aparecer o efêmero da ficção. Sua fala é empolgante, cheia de energia e isso se revela em frases como “eu me agarrei neste pedaço”, dita sobre a questão da evocação da memória, da qual fala Izquierdo. Ela fala de algo que conheço muito bem, mas que jamais tinha ouvido ser chamado assim: as categorias sintáticas, ou seja, quem, como, quando, onde. Aos poucos, ela vai falando das suas lembranças sobre os espetáculos e conta que, em um, ela sabia onde e como estavam quase todos. “Faltava apenas a cabeça do Damasceno”, disse ela. Até que alguém disse para ela que, durante o espetáculo, ele usava uma máscara africana. Ela reforça a ideia de que para que possamos lembrar é preciso compartilhar o passado, pois a memória não vem completa. São aparições e no movimento de aproximação, elas apresentam falhas. Segundo ela, é preciso aceitar “o caráter lacunar e não ter medo de ter estas visões”. Maria Luiza segue recordando e fazendo análises sobre estes registros. Comenta também que ela tinha uma forte lembrança da presença de um carrinho de bebê, mas que, depois, percebeu que se tratava apenas de um pequeno gesto que era feito com as mãos, insinuando alguém pegando o carrinho. Lembrou também Susana Saldanha que vendia um fogão imaginário mas que a partir de sua relação com o público ia se “materializando”. Ela disse que Susana se ofendeu por ela não lembrar do fogão, mas que também não lembrava onde ela estava no palco até que alguém disse que era em uma fila, mas que para saber mais detalhes precisaria encontrar algum outro ator que também estivesse com ela. Ela enfatiza este caráter da troca e fala em “historiografar as emoções na arte e na memória, partindo do contexto evocativo. Fala em fazer uma “rede Scherazade”[1] e, diferente de Betha, não rememora do que se trata, o que, naquele momento, me deixa meio perdida, enquanto a plateia ri.

Meu amigo Newton Pinto da Silva ficou por último. Ele faz rapidamente uma recapitulação da sua ligação com o teatro e comenta como chegou ao Acervo de 24 programas da TVE que apresentavam espetáculos teatrais e entrevistas com os atores de 1987-1990. Ele intercala a sua fala com pequenos trechos destes. Assim, vemos Tangos e Tragédias, A mãe da miss e o pai do Punk, Ostal, entre outros, incluindo A verdadeira história de Édipo Rei. Este espetáculo provoca sempre a minha memória, pois assisti em meu primeiro emprego quando trabalhei de assessora de imprensa na SAT em Tramandaí. Devo ter no meu arquivo um jornal do clube com uma matéria sobre esta apresentação. Para mim, isso é mais uma prova de como fatos e pessoas estão mais entrelaçados do que podemos imaginar. Bem, mas ele fez recortes dos sete espetáculos pesquisados. Niltinho, como o chamam as pessoas ligadas à cultura na cidade, não apenas resgatou este material, mas partiu para as relações com a historiografia, usando para isso, como ele sempre gosta de frisar, os conceitos de Michel de Certeau, entre outros importantes autores. Fez um trabalho profundo selecionando, editando, reagrupando as imagens. Ele revela parte do processo para chegar aqui, partindo da seguinte pergunta: “como deixar falar estes documentos?”. A partir disso, não sem muitas dúvidas a serem solucionadas, ele criou nove categorias e elaborou um painel da cena teatral do período, onde aparece a força da estética experimental, a variedade de repertório e o hibridismo de gêneros. Para mim, foi muito bom ver que ele já resolveu internamente as dúvidas que tinha e fala agora com orgulho dos resultados. É fácil perceber que ele já se apropriou dos pensamentos de todos aqueles que antes eram ilustres desconhecidos. Tanto é assim que se ao ser convidado ele se questiona sobre o que irá falar, depois quer até passar do tempo e tira risos da plateia quando diz que fez duas páginas de justificativa para o uso de imagens que não eram do programa.

Muitas vezes, quando termino meus textos, penso que fiquei escrevendo eu, eu, eu, mas, acontece que, apesar de ter gente que diz que eu escrevo críticas, crônicas, eu digo que são relatos. Para mim, é como o que eu escrevia nos meus diários aos dez anos só que agora não fica mais nos meus cadernos dentro do armário. Vão para os blogs. Aliás, a tecnologia é outra paixão minha e não é para menos, afinal, quem quiser saber muito mais, sobre todos estes temas basta acessar: link http://maisteatro.blogspot.com/2011/06/sessao-da-classe-apresenta-memoria-do_10.html.
Eu recomendo.


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[1] Lenda de Scherazade que seduz o rei com suas histórias o que o impede de mandá-la assassinar.

Saturday, June 11, 2011

Entre o velho e o novo... fica a vontade de ver de novo

Confesso. Vou ver o grupo Farsa procurando achar defeitos e problemas no espetáculo. Por que? Porque tenho na minha mente de jornalista a busca pela  imparcialidade. E como tenho uma queda pelo Molière por ser francês, sou amiga de quase todos no elenco, do diretor e uma forte tendência a já gostar do que eles fazem sem ver, fico lá catando alguma coisa mal feita. Pura perda de tempo.
Cheguei a estranhar a luz para depois perceber que era uma escolha pensada e propositalmente usada de modo muito inteligente. Assim como outros recursos que prefiro não comentar para não estragar as surpresas. Mas, imaginem que o figurino é basicamente preto e branco e que o cenário é praticamente vazio. Algumas cadeiras, uma mesa... e que os atores, várias vezes, se posicionem no palco como na época do classicismo francês: de frente para o público, os pés fixos, movimentando basicamente a parte superior do corpo. Quando estudei isso, imaginava que devia ser terrível. Não com este grupo. Muito pelo contrário. Toda esta marcação, precisa, demonstra o quanto de trabalho tem por trás e acaba tornando a encenação ainda mais engraçada. O que, aliás, não é nada difícil com Lucia Bendati no elenco. Agora quem recebeu de presente um ótimo personagem foi Ariane Guerra. Isso, porém, não quer dizer que ela não tenha o incrível mérito de ter aproveitado da melhor maneira possível. Ela se sobressai mesmo sem estar no foco. Não chega a roubar a cena porque esta é outra boa característica do Farsa. Eles são generosos uns com os outros.  Não há disputa. Eu diria até que é possível sentir a satisfação que um tem quando vê que o outro está se saindo bem no palco. Como Elison Couto que, como Tartufo, mostra o seu lado camaleão deixando totalmente para trás o avarento do último espetáculo e assumindo o safado e inescrupuloso papel escrito pelo dramaturgo francês. E o Grupo Farsa prova, mais uma vez, que ator não tem idade. Pode ser filho, mãe, neto. Se for bom, vai convencer. É isso que faz Laura Leão no papel de mãe do personagem de Marcos Chaves. Este, além de atuar em um papel bem diferente do que fazia  no Avarento, ainda é o responsável pela parte musical do espetáculo. Parte importante, inclusive, que coloca uma banda no palco e que traz contemporaneidade à obra do século XVII. Em 1664, Tartufo quase foi proibida pelos devotos da época, influentes no reino de Luis XIV que sentiram ofendidos pelo espetáculo. A peça, considerada uma das mais famosas de Molière e que provocou o surgimento até de novos adjetivos, segue muito atual já que é uma crítica à hipocrisia, à falsidade, escondida sob a religião. Afinal “tartufice” é o que não falta por aí. Felizmente, o grupo não passou pelas mesmas dificuldades de Molière que foi obrigado a muitas tratativas com o rei para conseguir que sua peça continuasse a ser encenada.
Essa possibilidade de fazer rir mas também denunciar deve provocar ainda mais prazer em Gilberto Fonseca que, além de diretor, é também educador e crítico do papel da arte na sociedade atual. Lembro dele inquieto com a falta de valorização da arte, se questionando sobre continuar ou não a fazer teatro. Não sei se Gilberto ainda se pergunta sobre isso. Provavelmente sim, pois é uma das maneiras de continuar fazendo coisas boas, mas eu não me pergunto mais porque vou assistir. E olha que ainda não desisti de ser imparcial porque, pensando bem, Tartufo está tão lindo naqueles ternos...

Tuesday, May 31, 2011

Poderes da mente

Quando me dou conta das coisas incríveis que a minha mente é capaz é que sinto o seu poder. Posso imaginar as coisas mais tenebrosas. Minha mente já provocou em mim sensações de medo e desconforto imensas. Ela foi capaz de criar ansiedades e nervosismos que me fizeram suar frio e tremer. Isso sem falar nas doenças psicossomáticas: gripes, alergias, espinhas... Dores nas costas, contraturas musculares. A lista é imensa. Inteiramente produzida por pensamentos. Negativos, claro! Então, foi justamente por tudo isso que, um dia, percebi que poderia usar ela, esta mesma para imaginar coisas boas, situações deliciosas, harmonia, alegria, conforto, paz... Assim, como em um passe de mágica. De uma hora para outra. Sem nenhuma substância externa, nenhuma medicação. Grana? Nada. Sol? Chuva? Calor? Frio? Tanto faz. Companhia? Amigos? De preferência, mas não imprescindível. O que é necessário? Uma boa respiração ajuda. Concentração também não faz mal. Basta. O resto fica apenas a cargo da minha mente. Tem quem diga que é alienação. Que é preciso encarar a realidade. Mal sabem eles o quanto o que minha mente produz é real para mim. Não foram eles que passaram anos quase paralisados com medo do ridículo, de não serem amados, de acabarem vivendo na sarjeta e, como não poderia deixar de ser: mortos. Atropelados, assassinados, de morte súbita, de morte longa, de uma queda no riacho Ipiranga. Ah, eram tantas as maneiras que é melhor nem começar a enumerar. Então, dito isso, creio que eles até possam começar a entender porque agora não tenho vergonha de acreditar que o mundo está repleto de pessoas boas, que a natureza é simplesmente perfeita e que sou privilegiada pelos seres que foram colocados em meu caminho. Bem, a verdade é, que se elas não quiserem entender, sinto muito. Não é culpa minha. É dela. Só dela. Da força e do poder da minha mente. E para encerrar um dos seus devaneios preciso compartilhar um segredo, destes que é bom espalhar: a mente de vocês também tem este poder. Ah, vocês não sabiam? Experimentem. Não tenho dúvidas de que vocês vão ficar tão surpresos quanto eu e que a vida nunca mais será a mesma, mesmo que tudo continue igual.

Friday, May 13, 2011

As aparências de Heiner Müller

Antônio Holfeldt

A decisão de montar um texto do dramaturgo alemão Heiner Müller, recentemente falecido (1929-1995), é sempre uma decisão radical. É como um salto do artista de circo, sem rede de segurança. Porque as peças de Müller não apresentam nenhum ponto de apoio, ou de referência, para o encenador. Por vezes, existe algum aspecto paródico a um texto dramático anterior, mais conhecido, mas isso é uma espécie de trompe oeil: quando a gente chega ali pertinho, verifica que aquela aparente referência é um engodo.

Aliás, de aparências e, neste sentido, de enganos, vive a peça Descrição de uma imagem (1984, edição em livro da Paz & Terra), com cujo projeto de montagem a jovem diretora Júlia Rodrigues ganhou um concurso e com isso pôde concretizar a ideia. Vemo-la, agora, em cena, no espaço da Sala Álvaro Moreyra, cuja proximidade é mais um desafio.
Irene Brietszcke falou em “teatro sem drama”. Na verdade, a fala do(s) personagens funciona como uma espécie de câmara em movimento de looping muito lento: o olhar se desloca vagarosamente por uma superfície, mas à medida que ele corre pela imagem ou dela se aproxima, quanto mais próxima mais confusa fica a imagem. Porque aquilo de que se fala são apenas aparências, como se (herança platônica?) o dramaturgo e/ou o personagem não acreditasse em seus sentidos. Assim, embora a descrição se inicie com uma certa segurança, logo perde este passo e se distrai em possibilidades de interpretações sobre o que seja que pareça (ou não) ser.
Estamos diante de um assassinato sexual, que se segue a um estupro? Ou frente a um radical relacionamento com uma entrega total de ambos os parceiros, semelhante ao filme Império dos sentidos?
Pode-se ver, no YouTube, imagens de uma outra montagem, recente, de grupo paulista. Bonita. Felizmente, Júlia Rodrigues resolveu seguir seu próprio caminho. O espetáculo do grupo Barra Quatro é talvez mais denso e menos poético, mas por isso mesmo é capaz de recuperar certa dramaticidade de que Müller parece querer se desvencilhar, sem alcançar, porque esta dramaticidade não se encontra no acontecimento em si, mas sim no próprio olhar de quem assiste ou observa a realidade em seu entorno.
Müller inovou, sob muitos aspectos, a cena contemporânea. Mas, sobretudo, chamou a atenção para o jogo de aparências que caracteriza a vida humana cotidiana. Aquilo que se pensa ver não é necessariamente o que ocorre etc.
Thiago Pirajira, Kayane Rodrigues e Kyky Rodrigues (irmãs, gêmeas? Pela parecença que ajuda neste jogo sugestivo) personificam os dois personagens (uma delas parecendo ser a sombra da outra (outra referência platônica?)) O cenário de Élcio Rossini valoriza o jogo de aparências com os véus que são esticados ao máximo, quando “vestidos” pelos personagens. Os figurinos de Letícia Pinheiro e Isadora Fantin são leves e “neutros”, de maneira a não atrair a atenção do espectador, que deve se concentrar nos personagens e no espaço, deixar-se levar por efeitos sinestésicos da trilha sonora de Ricardo Pavão e da iluminação de Bathista Freire, com focos de luz raramente incidindo diretamente sobre os personagens, criando um ambiente de lusco-fusco que mais ajuda a iludir e a sugerir. A preparação corporal coordenada por Dagmar Dornelles parece ser seguida fielmente pelos intérpretes, que se movimentam calculada, ainda que não artificialmente, movendo-se com lentidão na cena, como numa cena ralentada que nos permite acompanhar os detalhes dos movimentos e das modificações.

Eis um espetáculo raro, merecidamente premiado desde o início de sua concepção. Espetáculo a ser não apenas assistido quanto refletido. Um bom momento da cena porto-alegrense na atual temporada.

Publicado no Jornal do Comércio 13/05/2011

Sunday, May 08, 2011

Amor de mãe

Foi uma amiga que me inspirou a escrever para e sobre a minha mãe. Não tinha intenções de copiá-la, mas ao perceber que aquela história de que “mãe só muda de endereço” é um daqueles ditos populares muito verdadeiros, e sabendo que a mãe da minha amiga já se foi pensei que minha mãe merece que eu escreva já. Não é a primeira vez. Tenho este hábito de usar as palavras principalmente quando a falta de grana não permite que eu dê o presente que as pessoas merecem. Agora, imaginem o da minha mãe... Sem chance!


Tenho o privilégio de ainda poder conviver diariamente com a minha. Claro que isso não acontece de forma tranqüila todos os dias. Ao contrário. Minha mãe é uma mulher de um temperamento forte. Cheia de energia. Mas cheia mesmo. Daquelas que acordam cedo querendo fazer mil coisas e vão até as tantas da noite fazendo. E nesta atitude proativa vai cutucando quem está em volta. Então, não importa se já tomei o café, temos horários, exigências, cobranças. Então, eu resmungo. Tento fazer ela esperar e ela se esforça muito para respeitar este momento. Às vezes consegue, outras não. Ela não é a pessoa mais organizada do mundo, nem detalhista. Gosta de impor sua vontade.

Porém, eu não estou aqui para falar destas miudezas, fazer críticas a qualquer comportamento dela. Muito pelo contrário. Tenho um orgulho enorme dela. Ela é comunicativa, inteligente. Uma das pessoas mais interessadas em tudo que acontece no mundo que eu conheço. E sempre querendo ter todos em volta, ajudar todo mundo. De uma maneira quase obcecada. Basta que a gente comente com ela de alguém em dificuldade e ela já começa a pensar como resolver aquela situação. Abre mão de qualquer coisa só para dar chance, oportunidade para outro.

Teria que escrever muito, mesmo que quisesse fazer um resumo de tudo que ela já fez na vida. Dava aula, cuidava da casa, cozinhava. Faz até hoje uma ambrosia e um doce de coco que todo mundo elogia. Mas não é só por isso que eu a admiro. Nem por ter criado quatro filhos sempre cuidando para estarem bem vestidos, alimentados e terem todas as oportunidades de estudo e de viagens que desejavam. Nem por sua elegância e educação. Nem por ter me aconselhando e me consolado em todas as vezes que estive agoniada ou triste. Nem por cuidar de todos os bichos que inventamos de ter. Nem tão pouco por ter conseguido reagir à morte prematura do primeiro filho e levado adiante o trabalho do meu pai, seu companheiro de toda a vida. Eu a admiro por ter me ajudado a ser parecida com ela.

PS: O presente que dei para a minha mãe foi o livro reeditados dos Jogos Boole (projeto do meu pai e que ela segue desenvolvendo) e que ela há muito tempo me pedia para terminar. Ela vibrou!

Friday, April 29, 2011

Cena do balcão no século XXI

Além do fato de serem do mesmo país do maior autor de teatro de todos os tempos, o príncipe William e a agora princesa Kate pouco tem em comum. Entretanto, ao ouvir falar na expectativa do povo em ver a cena do balcão, Shakespeare me veio rapidamente a memória.

Depois de muito blábláblá na imprensa, divulgação de várias informações e especulações sobre o casamento, chegou o famoso dia. Perdi a entrada dos convidados mas assim mesmo pude ver um desfile de chapéus e alegorias na cabeça da maioria das mulheres. As filhas do príncipe Andrew erraram feio e perderam uma ótima chance de estarem elegantes. Pareciam mais as malévolas do filme Cinderela do Walt Disney.

Kate Midleton apareceu com um vestido aparentemente simples mas com bordados a mão, a tiara da realeza e numa elegância só. William não estava mentindo quando disse que ela estava linda, embora eu tenha convicção que ela podia estar enrolada em um saco de batatas que ele diria a mesma coisa.

Os convidados foram levados para a abadia em algo que eles faziam questão de chamar de “carruagens motorizadas” mas que não me pareceram nada diferentes da lotação que passa aqui na esquina, a não ser pela cor. Por falar em cor, a rainha acertou em cheio com aquela roupa amarela. Conseguiu se destacar e ainda manter a classe. Chamando a atenção como sempre pelo seu chapéu e bolsa e mantendo o maior enigma da face da terra: o que ela leva dentro da mesma e provocando a velha piadinha que são as chaves da casa.

Willian não tinha como errar naquele uniforme, porém, a longa cabeleira de sua futura esposa fez destacar ainda mais a falta de cabelos do príncipe. Entretanto, este “defeito” não chega a tirar o carisma, que dizem, ele herdou da mãe (do pai eu sei que não foi). Além disso, aqueles olhos azuis, com certeza, vão fazer com que as mulheres que já tinham a mania de ficar esperando seu príncipe achar que agora valerá mesmo a pena. Até porque aquela que encontrar não será obrigada a ficar ouvindo três horas de sinos tocando, o que mal posso acreditar que tenha de fato acontecido. Mas se considerarmos que perguntaram duas vezes se havia alguém que tinha algo contra o matrimônio e que ninguém se manifestou é provável que haja mesmo razão para tanto barulho. E, pensando bem, a Kate não deve ter se importado com isso depois de ouvir Willian dizer que o que era dele ele compartilhava com ela. Frase que por pouco não cai em descrédito depois que a aliança deu uma trancada nas juntas do dedo de Kate antes de, finalmente, entrar.

A Abadia de Westminster estava interessante com as árvores que Kate colocou lá dentro para a cerimônia. Estas davam uma certa leveza a austeridade do momento. Quem também contribuiu para momentos menos formais foi Richard Carau, o bispo que em seu discurso fez questão de dizer que “todos os casamentos são reais” e que “olhamos para um século que tem muitas promessas e muitos paradoxos” e que o “amor deve ser seguro e não opressivo”. Disse também que hoje era um dia de alegria e de esperança. Embora nem tanto para os 2/3 que não foram convidados para a festa. Ainda assim, para comemorar este casamento que não foi arranjado pela família real ainda seria feito um buffet para 600 pessoas. Isso sem falar nas champagnes que eles já começaram a tomar logo após a cerimônia. Eu devia era ter comprado uma para comemorar o momento. Mesmo que não fosse uma Pol Roger. Afinal, concordo plenamente com Churchill que dizia que ao ganhar ele merecia uma e que ao perder precisava dela.

Imagino uma festa grande e cansativa. Porém, como o casal pediu dois anos de moratória para só depois começar com as obrigações reais creio que eles terão bastante tempo para descansar. Isso, espero, depois de trocarem uns beijos bem mais intensos do que os que acabaram trocando na sacada porque tenho certeza de que se Romeu tivesse subido o balcão, com certeza, não teria dado apenas um “selinho” na Julieta.

Friday, April 22, 2011

Chega de Páscoa Sofrida

Marcelo Carneiro da Cunha

De São Paulo


Estimados leitores, essa coluna inicia aqui o movimento internacional e global pelo fim da Páscoa. O que não significa o final do feriado, de maneira alguma. Todo mundo vai poder continuar ficando preso em engarrafamento livremente, não se preocupem.

Mas, o que eu acho que seria uma excelente ideia é apenas remover do nosso calendário emocional uma data baseada no pior do catolicismo: a ideia de compartilhar do sofrimento de algo ou alguém que estava lá de propósito e para isso mesmo.

Páscoa, estimados leitores, está centrada na tal paixão de Cristo. Mas paixão aqui no sentido latino, de passio, ou sofrimento. Na paixão de Cristo, o coitado é sovado sem dó por romanos e por quem mais estiver assistindo, e a gente é convidado a compartilhar da pancadaria na condição de quem a sofre. No grande final, o sujeito que veio até aqui para salvar todo mundo dos seus pecados é solenemente crucificado. Essa não é a minha ideia de divertimento, estimados leitores.

Apenas como comparação linguística, compaixão é compartilhar do sofrimento do outro. Na forma germânica, compaixão é Mitgefühl, ou algo assim, significando co-sentir, ou compartilhar dos sentimentos do outro. Eu gostaria muito, muito mais se a gente passasse a comemorar um feriado onde se praticasse o Mitgefühl, e a gente se dedicasse a sentir o outro, e, eventualmente, compreendê-lo, do que passar dias pensando no coitadinho do outro e o quanto ele se sacrificou por nós, sem que a gente pedisse.

Culpa, dor, sofrimento. Essa é a parte do catolicismo que mais me incomoda, o culto ao que existe de pior na vida, a celebração da morte, o que invariavelmente leva a sentimentos de vingança. Meu pobre pai sofre até hoje pelo que ele e os meninos da sua vizinhança faziam no sábado de malhar Judas, instigados pelo padre, quem mais.

Saibam que os romanos crucificavam todo mundo e por qualquer motivo. O cara espirrou torto, pimba, crucifiquem. Madeira e mão de obra custavam pouco, a civilização romana, com toda sua sofisticação, era muito cruel na essência. Não havia nada de especial em crucificar alguém, apenas o horror da coisa, que os contemporâneos viam e temiam. A cruz somente foi adotada pelo cristianismo uns quatro séculos depois de pararem com a prática da crucificação, quando a memória do seu horror já estava distante o suficiente para a cruz poder ser tratada como símbolo, um símbolo muito, muito eficaz. Para que celebrarmos hoje em dia o que existe de pior em uma religião tão preocupada com o sofrimento nesse mundo? Vamos para o outro lado, vamos curtir o feriado imersos em pensamentos mais felizes.

O coelhinho da Páscoa é o meu candidato a se tornar o símbolo da Nova Páscoa. Chocolate é muito melhor enquanto proposta de vida. Estimulante, prazeroso pra caramba, mais saudável do que dizem. E o coelhinho, por diversos motivos, é símbolo do que existe de divertido na vida, não é?

Não que coelhos ovíparos sejam exatamente algo muito racional. Mas, se pensarmos em crenças esquisitas, o mito cristão é tão esquisito quanto, e muito menos feliz. Feriado do Coelhinho, já. Começou a campanha e unam-se a ela, caros leitores.

O mundo era o que era, e é certo lembrar dele como foi, para compreendermos melhor o que nos tornamos. Mas celebrar os seus piores aspectos, eternizando-os em nossa mente coletiva não me parece uma boa maneira de caminhar pela vida, como sociedade.

Guerras, lutas, morte, dureza, fome, constituíram a experiência central da humanidade por milênios, mas lutamos muito e superamos parte desse karma. Existem guerras, existe infelizmente ainda a fome. Mas a maioria dos humanos não está experimentando nada disso e provavelmente nunca irá ter a tristeza de passar por tanta desgraça. Temos vacinas, produzimos comida, criamos sistemas de governo centrados na ideia de que o bem comum deve ser buscado por todos e para todos. Queremos aprender a parar de aquecer o planeta, devastar sua natureza e eliminar a pobreza mais dura. Assim que conseguirmos isso e ainda por cima fizermos desaparecer o axé, estaremos bem. Isso, sim, merece ser celebrado, e creio que o Coelhinho, com sua mensagem de fertilidade e alegria será um ótimo representante do novo feriado.

Enquanto vocês pensam no assunto, vou aqui praticar a felicidade fazendo o meu inigualável chocolate quente, receita do Café Hermés, de Paris, com o maravilhoso chocolate Rey, em pó e em barra, vindo da Venezuela especialmente para essa ocasião.

Quem quiser se juntar a mim nos festejos da Nova Páscoa, é só pedir e eu mando a receita do chocolate quente perfeito. Uma feliz Nova Páscoa a todos, é o que lhes deseja esse seu servo, eu.

Fonte: Terra Magazine

Saturday, March 26, 2011

A relatividade do tempo

Quatro semanas sem fazer nada é muito.

Quatro semanas para terminar um projeto é pouco.

Quatro semanas com dor é muito.

Quatro semanas de vida é pouco.

Quatro semanas no hospital é muito.

Quatro semanas para entrar em forma é pouco.

Quatro semanas de exercício é muito.

Quatro semanas para perder aqueles quilos é pouco.

Quatro semanas sem dinheiro é muito.

Quatro semanas para conseguir dinheiro é pouco.

Quatro semanas esperando um pagamento é muito.

Quatro semanas esperando um visto é muito

Quatro semanas viajando é pouco.

Quatro semanas longe de quem ama é muito.

Quatro semanas para esquecer alguém é pouco.


Será que antes de fazer cálculos e fórmulas, Einstein pensou algo assim?