Sunday, June 26, 2011

É meia-noite, é meio-dia, é toda hora

Escrever sobre um filme de Woody Allen, sem dúvida, é uma ousadia e revela uma vontade de aparecer. Afinal, ele, certamente, não precisa das minhas palavras. Mas, sem audácia ele não teria chegado onde está, então, para ter pelo menos alguma coisa em comum com este gênio do cinema, vou me atrever. Quase briguei para que não me contassem partes do filme. Muitas pessoas amigas já tinham ido e estavam loucas para comentar. Mas eu não leio nem a caixinha dos filmes que alugo e não queria saber nadinha. A única coisa que chegou aos meus ouvidos é que, nos primeiros minutos de filme, a gente via uma boa parte de Paris. Não deu outra. Eu, que só sonho em voltar àquela cidade, suspirava com tais imagens. Ver lugares bonitos é ótimo, mas reconhecê-los é ainda melhor.

Logo em seguida, a gente começa a ouvir a fala de um dos atores. Tive a nítida impressão de que era Woody Allen. Aquela maneira insegura, ansiosa de falar, vacilando entre pensamentos e palavras e sempre se questionando. O plano abre e vejo que me enganei. Lá estava aquele ator moço, louro que vi em vários filmes bobinhos. O nome dele? Não fazia a menor idéia. E do que se trata? O que é fantástico é que não é um filme com uma história muito profunda, mas isso, porém, não quer dizer que não seja complexa. Aliás, saí do cinema pensando o que seria do filme para quem não tem todas as referências aos famosos escritores e artistas que vão aparecendo ao longo do filme. São muitos. Eu mesma perdi pelo menos dois dos quais nunca tinha ouvido falar e que agora não lembro quais eram. Picasso, Dali, Cole Porter, Modigliani, Zelda e Scott Fitzgerald, Hemingway, Lautrec... a maioria representada por atores que não reconheci e cuja a aparência lembra, exatamente, os personagens. Carla Bruni não passa despercebida mesmo em um pequeno papel e Marion Cottilard sempre que aparece na tela me convence de que hipnotizaria qualquer homem, como acontece neste filme. Identifiquei também Kathy Bates, que há muito me conquistou como atriz, e que aparece como Gertrude Stein. É ela que fica encarregada de ler o texto do protagonista que faz sucesso no cinema, mas que gostaria mesmo é de ser escritor e morar em Paris. Mas mais surpresa do que com os nomes famosos que foram aparecendo fiquei com o ator Owen Wilson (é este o seu nome) que veste a pele de Woody Allen com perfeição. O cineasta nos dá a chance de ver Paris, visitando locais extraordinários, em épocas de glamour.

Bem, mas não pretendo, porém, ficar aqui contando a história. Assim como eu, imagino que muita gente ainda não tenha ido ver e que está perdendo uma ótima oportunidade de rir, ao mesmo tempo em que filosofa, o que é uma capacidade absolutamente impecável deste cineasta. Enquanto somos conduzidos, por um roteiro que permite viagens no tempo apenas com o badalar dos sinos de uma igreja à meia-noite, somos também levados a perceber os erros de nossas crenças existenciais. Ver Woody Allen nos diverte e nos liberta. Ele nem se preocupa em tentar dar uma explicação racional ou coerente para as fantásticas aparições e nem nós precisamos dela para compreender. Saímos do cinema tendo tomado um banho de cultura e erudição associadas à leveza da comédia. Isso é ou não genial?


Friday, June 24, 2011

Cego é aquele que não quer ver

Já comentei outras vezes que, embora tenha decidido estudar teatro, sou apaixonada por cinema. A justificativa é que quando um filme é ruim eu não chego a sair antes, mas não fico constrangida. No caso de um espetáculo, sim. Porém, não há nada comparado ao teatro quando este é bom como no caso de Rei Cego, do Teatro do Clã. Tenho tido preguiça de assistir. A correria anda grande e foi assim, meio devido à obrigação, que fui parar na platéia deste espetáculo. Ainda bem.


Outro dia, ouvia de um amigo, também com formação em Artes cênicas, que as pessoas estavam esquecendo de que o teatro tinha que contar uma história. Não queria criar conflito, mas, por dentro pensei: não concordo com isso. Já assisti a muitos espetáculos que me provocaram experiências interessantíssimas, mas que saí sem saber do que se tratava exatamente. A arte contemporânea tem uma proposta diferente em relação a isso.
O Rei Cego conta uma história. Daquele gênero de “capa e espada” que eu ouvia quando era pequena. De heróis e bandidos, de homens bons e maus, de gigantes e mistério. Não é, no entanto, uma história surpreendente, impactante. Nada disso. Uma história simples. Porém, a forma como ela é contada é que merecia o meu “bravo” no final. Por quê? Bem, vejamos. O cenário é simples. Entretanto, nos levam a imaginar vários lugares e permitem aos atores todos os deslocamentos necessários para nos convencer daquilo que está sendo dito. Não é realista, mas concretiza para os espectadores todas as imagens que dão ritmo a atuação do elenco. Por falar neste, está composto por três atores e atrizes que fazem vários papéis (nove personagens) e todos convincentes. É um elenco parelho. No bom sentido do termo. Ninguém se destaca, mas todos impressionam e conquistam o público. Não é para menos. Eles cantam, dançam, fazem piruetas e... atuam. O texto é dito claramente, expressivamente. Todos os movimentos são sincronizados e executados com perfeição. Nada nem ninguém entra ou sai da cena por acaso. E assim, eles vão conduzindo a plateia pela passagem do espaço e do tempo, estabelecendo uma dinâmica leve e contundente ao mesmo tempo. Em destaque, ainda, os elementos cênicos como “o gigante” que aparece e desaparece com simples movimentos dos atores, dois braços e uma cabeça. Ah, às vezes, esqueço do figurino. Justamente quando ele é adequado, correto e auxiliam a tornar os atores os personagens que eles representam. O mesmo acontece com a luz. O espetáculo tem uma dinâmica que só um bom diretor pode garantir. Difícil acreditar que seja o primeiro espetáculo do grupo. Que ótimo que eles tenham sido escolhidos pelo Projeto Nova Coras e, nestas horas, quer dizer 55 minutos, tenho a certeza de que nenhum filme valeria tanto a pena.



Sunday, June 19, 2011

Sessão de muita classe, história, arte e cultura

Sonhei com coisas na vida que não se realizaram, mas, em compensação, vivencio outras que jamais poderia imaginar. Quando assistia aos muitos eventos dos quais já participei como ouvinte, não pensava que, um dia, seria amiga de palestrantes. Porém, nesta quinta-feira, fui ver cinco, dos quais três fazem parte, hoje, das minhas relações. Então, chega a ser engraçado ver eles lá, distanciados pelo formato da apresentação, com cadeiras no foco, copos d’água ao lado, ou seja, no palco. Isso sem falar das pessoas envolvidas com a organização que também conheço e que me recebem calorosamente, como Laura Backes.

Sessão da classe recebe os convidados com vinho e café, o que em noites mais frias já é um aconchego. A abertura ficou por conta da coordenadora Nádia Maria Weber Santos. Doutora em História da UFRGS. Bem, quem olhar o meu currículo vai ver que já fui aluna deste curso. Sempre gostei muito de história. Tendo como professor no Instituto Educacional João XXIII Voltaire Schilling acho que não poderia ser diferente. Como jornalista, achava que seria muito bom associar as duas coisas. Mas acabei desistindo ao perceber que teria que passar primeiro por todas as cadeiras da pré-história e da história da antiguidade até chegar ao contemporâneo. Ficava muito puxado ir ao campus naquela época. Porém, minha paixão nunca arrefeceu.

A primeira a falar foi Alice Dubina Trusz, também doutora em história pela UFRGS. No tema dela mais um assunto que sempre me atraiu: cinema. Como ela mesma conta, a fonte de informações foi os jornais. Ou seja, ela mesclou em sua pesquisa teatro, cinema, história e jornalismo. Como eu não iria gostar? Despretensiosa já ganhou minha simpatia quando riu de si mesma por estar ali já que não trabalhava com memória, nem com teatro, nem com a efemeridade. Sua pesquisa foi sobre cinema como espetáculo entre 1896 e 1908. Ela teve que ir aos jornais para resgatar esta história de uma época em que o cinema era novidade e que precisava acontecer junto com outras atividades como o circo, o teatro, as feiras. E por não haver como registrar isso por imagens, os jornalistas tinham necessidade de descrever detalhadamente o que acontecia. O cinema aparecia junto com gêneros espetaculares como as touradas. Touradas? Nem sabia que tinha isso por aqui...Em seguida, ela explicava que não era para imaginar um cinema como o de hoje. Ela estava falando de um projetor chamado Lanterna Mágica que mostrava imagens fixas. Foram 30 anos destas experiências. “Uma espécie de Power point dos dias de hoje”, disse ela, arrancando risadas da plateia. Cheia, por sinal. Acho que ela conseguiu informações interessantes justamente por ter se colocado no lugar do espectador, como ela disse. Ela contou que, mais tarde, o cinema se sedentariza. Isso quer dizer: vai ocupar os espaços teatrais, acontecendo em um lugar físico confortável. E tinha que ser já que isso significa duas horas com intervalos. Tinha dia para ir aos cinemas. Foi em 1908 que surgiram as salas pequenas legitimadas como espaço de cinema, havendo uma regularização e chegando ao que conhecemos hoje.

Depois dessa aula entusiasmada de Alice Trusz sobre cinema sem que ela tivesse necessidade de consultar seus escritos, foi a vez de Betha Medeiros. Ela começou fazendo uma reflexão interessante sobre a questão do tempo, pois, até então, achava que sua pesquisa sobre o espetáculo Reis Vagabundos encenado há 28 anos era antiga, mas vendo aquela do início do século, era obrigada a mudar a sua percepção. Betha não parte da suposição que todos conhecem a história da mitologia grega de Penélope que prometeu se casar de novo quando terminasse uma peça em seu tear e a explica para falar da metáfora entre o nome do grupo e a situação de sua pesquisa.Gosto da franqueza dela que conta sobre os seus devaneios e seus insights em lugares insólitos. Suas relações levam a considerações sobre o teatro falado que leva ao corpo do ator e ao corpo criador do século XXI. O discurso de Betha é recheado de onomatopéias (vruum, diz ela). Ela também chega aos jornais quando conta que pouco era guardado do material sobre os espetáculos, que as fotos iam parar nos setores de divulgação da imprensa. Bem, a prova disso é o quadro que tenho na minha parede com fotos de filmes hollyoodianos. E ela também não teve como escapar de outra prática da comunicação: as entrevistas. Segundo ela, estas foram gerando uma polifonia, um imenso quebra-cabeça. Fiapo, o cenógrafo do espetáculo, lembrou que não conhecia a palavra clown e que eles faziam um trabalho de improvisação como mendigos, catadores de lixo nas ruas, mas que, um dia, Maria Helena Lopes chegou nos ensaios com os “narizes” e tudo mudou, fez-se a mágica. Betha não esconde a admiração que tem pela diretora (que estava presente aquela noite na Álvaro Moreira) e que se revela ainda mais neste momento. Ela reforça que se tratava de uma peça sem texto e que, no entanto, provocou fortes e inesquecíveis impressões. Mesmo em sua pesquisa acadêmica Betha se deu a liberdade de criar seus próprios títulos e fala de suas conclusões, quer dizer, de seus “alinhavos”. Ela faz uma rápida associação da pesquisa anterior e comenta que vai mostrar a SUA lanterna mágica. Projeta fotos do espetáculo e a música enche a sala mostrando a força daqueles registros resgatados pelo seu trabalho apaixonado, provando que estas duas coisas podem, sim, ser misturadas.

A próxima a falar é também minha colega de mestrado, Cibele Sastre. No Facebook Laura havia dito que ela explicaria Laban, ao que eu comentei que tinha medo. Ela reaparece com o seu ótimo título: Nada é sempre a mesma coisa. Sua saia longa e seu corpo longilíneo de bailarina me lembram Julie Andrews como Mary Poppins.Traz uma velha brincadeira nossa de dizer que “cada um no seu icosaedro”, uma mistura do popular com o acadêmico que nos ajudava a suavizar a tensão da época. Coisa que me parece muito bem resolvida agora em seu momento de doutorado quando ela diz que foi buscar “alguns amiguinhos” ao se referir a Foucault. E Cibele foi mesmo além. Ela já não fala só da notação de movimento de Laban, mas de sua apropriação. Comenta o quanto o coreógrafo ajudou no registro e difusão da coreografia e eu lembro a primeira vez que vi os “desenhos” do trabalho dela e o quanto tudo aquilo era, absolutamente, estranho para mim. Hoje, graças a ela, já sei do que ela fala e até me surpreendo pensando porque achei tão complicado compreender que se existe partituras para a música, nada mais natural do que haver também para o corpo. Quer dizer... isso depois de Laban ter feito o que fez e Cibele falar disso sempre em sala de aula, é claro! É isso: o coreógrafo criou estes códigos para compartilhar os movimentos do corpo. Mas Cibele não se contentou com isso. Em sua pesquisa, usou este código, que até então era uma tarefa de movimento, como motor de um processo, como um dispositivo, como ela mesmo disse. Seu Power point com as imagens não funcionou. Ainda bem. Mal sabe ela o quanto foi prazeroso vê-la levantar e usar o próprio corpo para explicar do que ela estava falando. Se sua fala ainda não tinha convencido alguém, não tenho dúvida de que aqueles movimentos perfeitos, aquela consciência corporal exata e ao mesmo tempo flexível, fizeram isso. Mesmo sendo fã das novas tecnologias, não há nada como alguém “ao vivo e a cores”.

A próxima palestrante, doutora em história, Maria Luiza Martini teve dificuldade de começar a sua fala tamanha era a sua emoção. A conversa dos demais havia provocado nela muitas lembranças e ela se esforçou para conter as lágrimas e a voz saiu embargada. Ela começa falando da importância da história cultural ter dado espaço para esta mistura com a arte. Recorda sua professora Sandra Pesavento e sua batalha para este reconhecimento. Ela diz que, enquanto a história está sempre se esforçando para expressar como foi, a memória é fazer aparecer o efêmero da ficção. Sua fala é empolgante, cheia de energia e isso se revela em frases como “eu me agarrei neste pedaço”, dita sobre a questão da evocação da memória, da qual fala Izquierdo. Ela fala de algo que conheço muito bem, mas que jamais tinha ouvido ser chamado assim: as categorias sintáticas, ou seja, quem, como, quando, onde. Aos poucos, ela vai falando das suas lembranças sobre os espetáculos e conta que, em um, ela sabia onde e como estavam quase todos. “Faltava apenas a cabeça do Damasceno”, disse ela. Até que alguém disse para ela que, durante o espetáculo, ele usava uma máscara africana. Ela reforça a ideia de que para que possamos lembrar é preciso compartilhar o passado, pois a memória não vem completa. São aparições e no movimento de aproximação, elas apresentam falhas. Segundo ela, é preciso aceitar “o caráter lacunar e não ter medo de ter estas visões”. Maria Luiza segue recordando e fazendo análises sobre estes registros. Comenta também que ela tinha uma forte lembrança da presença de um carrinho de bebê, mas que, depois, percebeu que se tratava apenas de um pequeno gesto que era feito com as mãos, insinuando alguém pegando o carrinho. Lembrou também Susana Saldanha que vendia um fogão imaginário mas que a partir de sua relação com o público ia se “materializando”. Ela disse que Susana se ofendeu por ela não lembrar do fogão, mas que também não lembrava onde ela estava no palco até que alguém disse que era em uma fila, mas que para saber mais detalhes precisaria encontrar algum outro ator que também estivesse com ela. Ela enfatiza este caráter da troca e fala em “historiografar as emoções na arte e na memória, partindo do contexto evocativo. Fala em fazer uma “rede Scherazade”[1] e, diferente de Betha, não rememora do que se trata, o que, naquele momento, me deixa meio perdida, enquanto a plateia ri.

Meu amigo Newton Pinto da Silva ficou por último. Ele faz rapidamente uma recapitulação da sua ligação com o teatro e comenta como chegou ao Acervo de 24 programas da TVE que apresentavam espetáculos teatrais e entrevistas com os atores de 1987-1990. Ele intercala a sua fala com pequenos trechos destes. Assim, vemos Tangos e Tragédias, A mãe da miss e o pai do Punk, Ostal, entre outros, incluindo A verdadeira história de Édipo Rei. Este espetáculo provoca sempre a minha memória, pois assisti em meu primeiro emprego quando trabalhei de assessora de imprensa na SAT em Tramandaí. Devo ter no meu arquivo um jornal do clube com uma matéria sobre esta apresentação. Para mim, isso é mais uma prova de como fatos e pessoas estão mais entrelaçados do que podemos imaginar. Bem, mas ele fez recortes dos sete espetáculos pesquisados. Niltinho, como o chamam as pessoas ligadas à cultura na cidade, não apenas resgatou este material, mas partiu para as relações com a historiografia, usando para isso, como ele sempre gosta de frisar, os conceitos de Michel de Certeau, entre outros importantes autores. Fez um trabalho profundo selecionando, editando, reagrupando as imagens. Ele revela parte do processo para chegar aqui, partindo da seguinte pergunta: “como deixar falar estes documentos?”. A partir disso, não sem muitas dúvidas a serem solucionadas, ele criou nove categorias e elaborou um painel da cena teatral do período, onde aparece a força da estética experimental, a variedade de repertório e o hibridismo de gêneros. Para mim, foi muito bom ver que ele já resolveu internamente as dúvidas que tinha e fala agora com orgulho dos resultados. É fácil perceber que ele já se apropriou dos pensamentos de todos aqueles que antes eram ilustres desconhecidos. Tanto é assim que se ao ser convidado ele se questiona sobre o que irá falar, depois quer até passar do tempo e tira risos da plateia quando diz que fez duas páginas de justificativa para o uso de imagens que não eram do programa.

Muitas vezes, quando termino meus textos, penso que fiquei escrevendo eu, eu, eu, mas, acontece que, apesar de ter gente que diz que eu escrevo críticas, crônicas, eu digo que são relatos. Para mim, é como o que eu escrevia nos meus diários aos dez anos só que agora não fica mais nos meus cadernos dentro do armário. Vão para os blogs. Aliás, a tecnologia é outra paixão minha e não é para menos, afinal, quem quiser saber muito mais, sobre todos estes temas basta acessar: link http://maisteatro.blogspot.com/2011/06/sessao-da-classe-apresenta-memoria-do_10.html.
Eu recomendo.


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[1] Lenda de Scherazade que seduz o rei com suas histórias o que o impede de mandá-la assassinar.

Saturday, June 11, 2011

Entre o velho e o novo... fica a vontade de ver de novo

Confesso. Vou ver o grupo Farsa procurando achar defeitos e problemas no espetáculo. Por que? Porque tenho na minha mente de jornalista a busca pela  imparcialidade. E como tenho uma queda pelo Molière por ser francês, sou amiga de quase todos no elenco, do diretor e uma forte tendência a já gostar do que eles fazem sem ver, fico lá catando alguma coisa mal feita. Pura perda de tempo.
Cheguei a estranhar a luz para depois perceber que era uma escolha pensada e propositalmente usada de modo muito inteligente. Assim como outros recursos que prefiro não comentar para não estragar as surpresas. Mas, imaginem que o figurino é basicamente preto e branco e que o cenário é praticamente vazio. Algumas cadeiras, uma mesa... e que os atores, várias vezes, se posicionem no palco como na época do classicismo francês: de frente para o público, os pés fixos, movimentando basicamente a parte superior do corpo. Quando estudei isso, imaginava que devia ser terrível. Não com este grupo. Muito pelo contrário. Toda esta marcação, precisa, demonstra o quanto de trabalho tem por trás e acaba tornando a encenação ainda mais engraçada. O que, aliás, não é nada difícil com Lucia Bendati no elenco. Agora quem recebeu de presente um ótimo personagem foi Ariane Guerra. Isso, porém, não quer dizer que ela não tenha o incrível mérito de ter aproveitado da melhor maneira possível. Ela se sobressai mesmo sem estar no foco. Não chega a roubar a cena porque esta é outra boa característica do Farsa. Eles são generosos uns com os outros.  Não há disputa. Eu diria até que é possível sentir a satisfação que um tem quando vê que o outro está se saindo bem no palco. Como Elison Couto que, como Tartufo, mostra o seu lado camaleão deixando totalmente para trás o avarento do último espetáculo e assumindo o safado e inescrupuloso papel escrito pelo dramaturgo francês. E o Grupo Farsa prova, mais uma vez, que ator não tem idade. Pode ser filho, mãe, neto. Se for bom, vai convencer. É isso que faz Laura Leão no papel de mãe do personagem de Marcos Chaves. Este, além de atuar em um papel bem diferente do que fazia  no Avarento, ainda é o responsável pela parte musical do espetáculo. Parte importante, inclusive, que coloca uma banda no palco e que traz contemporaneidade à obra do século XVII. Em 1664, Tartufo quase foi proibida pelos devotos da época, influentes no reino de Luis XIV que sentiram ofendidos pelo espetáculo. A peça, considerada uma das mais famosas de Molière e que provocou o surgimento até de novos adjetivos, segue muito atual já que é uma crítica à hipocrisia, à falsidade, escondida sob a religião. Afinal “tartufice” é o que não falta por aí. Felizmente, o grupo não passou pelas mesmas dificuldades de Molière que foi obrigado a muitas tratativas com o rei para conseguir que sua peça continuasse a ser encenada.
Essa possibilidade de fazer rir mas também denunciar deve provocar ainda mais prazer em Gilberto Fonseca que, além de diretor, é também educador e crítico do papel da arte na sociedade atual. Lembro dele inquieto com a falta de valorização da arte, se questionando sobre continuar ou não a fazer teatro. Não sei se Gilberto ainda se pergunta sobre isso. Provavelmente sim, pois é uma das maneiras de continuar fazendo coisas boas, mas eu não me pergunto mais porque vou assistir. E olha que ainda não desisti de ser imparcial porque, pensando bem, Tartufo está tão lindo naqueles ternos...

Tuesday, May 31, 2011

Poderes da mente

Quando me dou conta das coisas incríveis que a minha mente é capaz é que sinto o seu poder. Posso imaginar as coisas mais tenebrosas. Minha mente já provocou em mim sensações de medo e desconforto imensas. Ela foi capaz de criar ansiedades e nervosismos que me fizeram suar frio e tremer. Isso sem falar nas doenças psicossomáticas: gripes, alergias, espinhas... Dores nas costas, contraturas musculares. A lista é imensa. Inteiramente produzida por pensamentos. Negativos, claro! Então, foi justamente por tudo isso que, um dia, percebi que poderia usar ela, esta mesma para imaginar coisas boas, situações deliciosas, harmonia, alegria, conforto, paz... Assim, como em um passe de mágica. De uma hora para outra. Sem nenhuma substância externa, nenhuma medicação. Grana? Nada. Sol? Chuva? Calor? Frio? Tanto faz. Companhia? Amigos? De preferência, mas não imprescindível. O que é necessário? Uma boa respiração ajuda. Concentração também não faz mal. Basta. O resto fica apenas a cargo da minha mente. Tem quem diga que é alienação. Que é preciso encarar a realidade. Mal sabem eles o quanto o que minha mente produz é real para mim. Não foram eles que passaram anos quase paralisados com medo do ridículo, de não serem amados, de acabarem vivendo na sarjeta e, como não poderia deixar de ser: mortos. Atropelados, assassinados, de morte súbita, de morte longa, de uma queda no riacho Ipiranga. Ah, eram tantas as maneiras que é melhor nem começar a enumerar. Então, dito isso, creio que eles até possam começar a entender porque agora não tenho vergonha de acreditar que o mundo está repleto de pessoas boas, que a natureza é simplesmente perfeita e que sou privilegiada pelos seres que foram colocados em meu caminho. Bem, a verdade é, que se elas não quiserem entender, sinto muito. Não é culpa minha. É dela. Só dela. Da força e do poder da minha mente. E para encerrar um dos seus devaneios preciso compartilhar um segredo, destes que é bom espalhar: a mente de vocês também tem este poder. Ah, vocês não sabiam? Experimentem. Não tenho dúvidas de que vocês vão ficar tão surpresos quanto eu e que a vida nunca mais será a mesma, mesmo que tudo continue igual.

Friday, May 13, 2011

As aparências de Heiner Müller

Antônio Holfeldt

A decisão de montar um texto do dramaturgo alemão Heiner Müller, recentemente falecido (1929-1995), é sempre uma decisão radical. É como um salto do artista de circo, sem rede de segurança. Porque as peças de Müller não apresentam nenhum ponto de apoio, ou de referência, para o encenador. Por vezes, existe algum aspecto paródico a um texto dramático anterior, mais conhecido, mas isso é uma espécie de trompe oeil: quando a gente chega ali pertinho, verifica que aquela aparente referência é um engodo.

Aliás, de aparências e, neste sentido, de enganos, vive a peça Descrição de uma imagem (1984, edição em livro da Paz & Terra), com cujo projeto de montagem a jovem diretora Júlia Rodrigues ganhou um concurso e com isso pôde concretizar a ideia. Vemo-la, agora, em cena, no espaço da Sala Álvaro Moreyra, cuja proximidade é mais um desafio.
Irene Brietszcke falou em “teatro sem drama”. Na verdade, a fala do(s) personagens funciona como uma espécie de câmara em movimento de looping muito lento: o olhar se desloca vagarosamente por uma superfície, mas à medida que ele corre pela imagem ou dela se aproxima, quanto mais próxima mais confusa fica a imagem. Porque aquilo de que se fala são apenas aparências, como se (herança platônica?) o dramaturgo e/ou o personagem não acreditasse em seus sentidos. Assim, embora a descrição se inicie com uma certa segurança, logo perde este passo e se distrai em possibilidades de interpretações sobre o que seja que pareça (ou não) ser.
Estamos diante de um assassinato sexual, que se segue a um estupro? Ou frente a um radical relacionamento com uma entrega total de ambos os parceiros, semelhante ao filme Império dos sentidos?
Pode-se ver, no YouTube, imagens de uma outra montagem, recente, de grupo paulista. Bonita. Felizmente, Júlia Rodrigues resolveu seguir seu próprio caminho. O espetáculo do grupo Barra Quatro é talvez mais denso e menos poético, mas por isso mesmo é capaz de recuperar certa dramaticidade de que Müller parece querer se desvencilhar, sem alcançar, porque esta dramaticidade não se encontra no acontecimento em si, mas sim no próprio olhar de quem assiste ou observa a realidade em seu entorno.
Müller inovou, sob muitos aspectos, a cena contemporânea. Mas, sobretudo, chamou a atenção para o jogo de aparências que caracteriza a vida humana cotidiana. Aquilo que se pensa ver não é necessariamente o que ocorre etc.
Thiago Pirajira, Kayane Rodrigues e Kyky Rodrigues (irmãs, gêmeas? Pela parecença que ajuda neste jogo sugestivo) personificam os dois personagens (uma delas parecendo ser a sombra da outra (outra referência platônica?)) O cenário de Élcio Rossini valoriza o jogo de aparências com os véus que são esticados ao máximo, quando “vestidos” pelos personagens. Os figurinos de Letícia Pinheiro e Isadora Fantin são leves e “neutros”, de maneira a não atrair a atenção do espectador, que deve se concentrar nos personagens e no espaço, deixar-se levar por efeitos sinestésicos da trilha sonora de Ricardo Pavão e da iluminação de Bathista Freire, com focos de luz raramente incidindo diretamente sobre os personagens, criando um ambiente de lusco-fusco que mais ajuda a iludir e a sugerir. A preparação corporal coordenada por Dagmar Dornelles parece ser seguida fielmente pelos intérpretes, que se movimentam calculada, ainda que não artificialmente, movendo-se com lentidão na cena, como numa cena ralentada que nos permite acompanhar os detalhes dos movimentos e das modificações.

Eis um espetáculo raro, merecidamente premiado desde o início de sua concepção. Espetáculo a ser não apenas assistido quanto refletido. Um bom momento da cena porto-alegrense na atual temporada.

Publicado no Jornal do Comércio 13/05/2011

Sunday, May 08, 2011

Amor de mãe

Foi uma amiga que me inspirou a escrever para e sobre a minha mãe. Não tinha intenções de copiá-la, mas ao perceber que aquela história de que “mãe só muda de endereço” é um daqueles ditos populares muito verdadeiros, e sabendo que a mãe da minha amiga já se foi pensei que minha mãe merece que eu escreva já. Não é a primeira vez. Tenho este hábito de usar as palavras principalmente quando a falta de grana não permite que eu dê o presente que as pessoas merecem. Agora, imaginem o da minha mãe... Sem chance!


Tenho o privilégio de ainda poder conviver diariamente com a minha. Claro que isso não acontece de forma tranqüila todos os dias. Ao contrário. Minha mãe é uma mulher de um temperamento forte. Cheia de energia. Mas cheia mesmo. Daquelas que acordam cedo querendo fazer mil coisas e vão até as tantas da noite fazendo. E nesta atitude proativa vai cutucando quem está em volta. Então, não importa se já tomei o café, temos horários, exigências, cobranças. Então, eu resmungo. Tento fazer ela esperar e ela se esforça muito para respeitar este momento. Às vezes consegue, outras não. Ela não é a pessoa mais organizada do mundo, nem detalhista. Gosta de impor sua vontade.

Porém, eu não estou aqui para falar destas miudezas, fazer críticas a qualquer comportamento dela. Muito pelo contrário. Tenho um orgulho enorme dela. Ela é comunicativa, inteligente. Uma das pessoas mais interessadas em tudo que acontece no mundo que eu conheço. E sempre querendo ter todos em volta, ajudar todo mundo. De uma maneira quase obcecada. Basta que a gente comente com ela de alguém em dificuldade e ela já começa a pensar como resolver aquela situação. Abre mão de qualquer coisa só para dar chance, oportunidade para outro.

Teria que escrever muito, mesmo que quisesse fazer um resumo de tudo que ela já fez na vida. Dava aula, cuidava da casa, cozinhava. Faz até hoje uma ambrosia e um doce de coco que todo mundo elogia. Mas não é só por isso que eu a admiro. Nem por ter criado quatro filhos sempre cuidando para estarem bem vestidos, alimentados e terem todas as oportunidades de estudo e de viagens que desejavam. Nem por sua elegância e educação. Nem por ter me aconselhando e me consolado em todas as vezes que estive agoniada ou triste. Nem por cuidar de todos os bichos que inventamos de ter. Nem tão pouco por ter conseguido reagir à morte prematura do primeiro filho e levado adiante o trabalho do meu pai, seu companheiro de toda a vida. Eu a admiro por ter me ajudado a ser parecida com ela.

PS: O presente que dei para a minha mãe foi o livro reeditados dos Jogos Boole (projeto do meu pai e que ela segue desenvolvendo) e que ela há muito tempo me pedia para terminar. Ela vibrou!

Friday, April 29, 2011

Cena do balcão no século XXI

Além do fato de serem do mesmo país do maior autor de teatro de todos os tempos, o príncipe William e a agora princesa Kate pouco tem em comum. Entretanto, ao ouvir falar na expectativa do povo em ver a cena do balcão, Shakespeare me veio rapidamente a memória.

Depois de muito blábláblá na imprensa, divulgação de várias informações e especulações sobre o casamento, chegou o famoso dia. Perdi a entrada dos convidados mas assim mesmo pude ver um desfile de chapéus e alegorias na cabeça da maioria das mulheres. As filhas do príncipe Andrew erraram feio e perderam uma ótima chance de estarem elegantes. Pareciam mais as malévolas do filme Cinderela do Walt Disney.

Kate Midleton apareceu com um vestido aparentemente simples mas com bordados a mão, a tiara da realeza e numa elegância só. William não estava mentindo quando disse que ela estava linda, embora eu tenha convicção que ela podia estar enrolada em um saco de batatas que ele diria a mesma coisa.

Os convidados foram levados para a abadia em algo que eles faziam questão de chamar de “carruagens motorizadas” mas que não me pareceram nada diferentes da lotação que passa aqui na esquina, a não ser pela cor. Por falar em cor, a rainha acertou em cheio com aquela roupa amarela. Conseguiu se destacar e ainda manter a classe. Chamando a atenção como sempre pelo seu chapéu e bolsa e mantendo o maior enigma da face da terra: o que ela leva dentro da mesma e provocando a velha piadinha que são as chaves da casa.

Willian não tinha como errar naquele uniforme, porém, a longa cabeleira de sua futura esposa fez destacar ainda mais a falta de cabelos do príncipe. Entretanto, este “defeito” não chega a tirar o carisma, que dizem, ele herdou da mãe (do pai eu sei que não foi). Além disso, aqueles olhos azuis, com certeza, vão fazer com que as mulheres que já tinham a mania de ficar esperando seu príncipe achar que agora valerá mesmo a pena. Até porque aquela que encontrar não será obrigada a ficar ouvindo três horas de sinos tocando, o que mal posso acreditar que tenha de fato acontecido. Mas se considerarmos que perguntaram duas vezes se havia alguém que tinha algo contra o matrimônio e que ninguém se manifestou é provável que haja mesmo razão para tanto barulho. E, pensando bem, a Kate não deve ter se importado com isso depois de ouvir Willian dizer que o que era dele ele compartilhava com ela. Frase que por pouco não cai em descrédito depois que a aliança deu uma trancada nas juntas do dedo de Kate antes de, finalmente, entrar.

A Abadia de Westminster estava interessante com as árvores que Kate colocou lá dentro para a cerimônia. Estas davam uma certa leveza a austeridade do momento. Quem também contribuiu para momentos menos formais foi Richard Carau, o bispo que em seu discurso fez questão de dizer que “todos os casamentos são reais” e que “olhamos para um século que tem muitas promessas e muitos paradoxos” e que o “amor deve ser seguro e não opressivo”. Disse também que hoje era um dia de alegria e de esperança. Embora nem tanto para os 2/3 que não foram convidados para a festa. Ainda assim, para comemorar este casamento que não foi arranjado pela família real ainda seria feito um buffet para 600 pessoas. Isso sem falar nas champagnes que eles já começaram a tomar logo após a cerimônia. Eu devia era ter comprado uma para comemorar o momento. Mesmo que não fosse uma Pol Roger. Afinal, concordo plenamente com Churchill que dizia que ao ganhar ele merecia uma e que ao perder precisava dela.

Imagino uma festa grande e cansativa. Porém, como o casal pediu dois anos de moratória para só depois começar com as obrigações reais creio que eles terão bastante tempo para descansar. Isso, espero, depois de trocarem uns beijos bem mais intensos do que os que acabaram trocando na sacada porque tenho certeza de que se Romeu tivesse subido o balcão, com certeza, não teria dado apenas um “selinho” na Julieta.

Friday, April 22, 2011

Chega de Páscoa Sofrida

Marcelo Carneiro da Cunha

De São Paulo


Estimados leitores, essa coluna inicia aqui o movimento internacional e global pelo fim da Páscoa. O que não significa o final do feriado, de maneira alguma. Todo mundo vai poder continuar ficando preso em engarrafamento livremente, não se preocupem.

Mas, o que eu acho que seria uma excelente ideia é apenas remover do nosso calendário emocional uma data baseada no pior do catolicismo: a ideia de compartilhar do sofrimento de algo ou alguém que estava lá de propósito e para isso mesmo.

Páscoa, estimados leitores, está centrada na tal paixão de Cristo. Mas paixão aqui no sentido latino, de passio, ou sofrimento. Na paixão de Cristo, o coitado é sovado sem dó por romanos e por quem mais estiver assistindo, e a gente é convidado a compartilhar da pancadaria na condição de quem a sofre. No grande final, o sujeito que veio até aqui para salvar todo mundo dos seus pecados é solenemente crucificado. Essa não é a minha ideia de divertimento, estimados leitores.

Apenas como comparação linguística, compaixão é compartilhar do sofrimento do outro. Na forma germânica, compaixão é Mitgefühl, ou algo assim, significando co-sentir, ou compartilhar dos sentimentos do outro. Eu gostaria muito, muito mais se a gente passasse a comemorar um feriado onde se praticasse o Mitgefühl, e a gente se dedicasse a sentir o outro, e, eventualmente, compreendê-lo, do que passar dias pensando no coitadinho do outro e o quanto ele se sacrificou por nós, sem que a gente pedisse.

Culpa, dor, sofrimento. Essa é a parte do catolicismo que mais me incomoda, o culto ao que existe de pior na vida, a celebração da morte, o que invariavelmente leva a sentimentos de vingança. Meu pobre pai sofre até hoje pelo que ele e os meninos da sua vizinhança faziam no sábado de malhar Judas, instigados pelo padre, quem mais.

Saibam que os romanos crucificavam todo mundo e por qualquer motivo. O cara espirrou torto, pimba, crucifiquem. Madeira e mão de obra custavam pouco, a civilização romana, com toda sua sofisticação, era muito cruel na essência. Não havia nada de especial em crucificar alguém, apenas o horror da coisa, que os contemporâneos viam e temiam. A cruz somente foi adotada pelo cristianismo uns quatro séculos depois de pararem com a prática da crucificação, quando a memória do seu horror já estava distante o suficiente para a cruz poder ser tratada como símbolo, um símbolo muito, muito eficaz. Para que celebrarmos hoje em dia o que existe de pior em uma religião tão preocupada com o sofrimento nesse mundo? Vamos para o outro lado, vamos curtir o feriado imersos em pensamentos mais felizes.

O coelhinho da Páscoa é o meu candidato a se tornar o símbolo da Nova Páscoa. Chocolate é muito melhor enquanto proposta de vida. Estimulante, prazeroso pra caramba, mais saudável do que dizem. E o coelhinho, por diversos motivos, é símbolo do que existe de divertido na vida, não é?

Não que coelhos ovíparos sejam exatamente algo muito racional. Mas, se pensarmos em crenças esquisitas, o mito cristão é tão esquisito quanto, e muito menos feliz. Feriado do Coelhinho, já. Começou a campanha e unam-se a ela, caros leitores.

O mundo era o que era, e é certo lembrar dele como foi, para compreendermos melhor o que nos tornamos. Mas celebrar os seus piores aspectos, eternizando-os em nossa mente coletiva não me parece uma boa maneira de caminhar pela vida, como sociedade.

Guerras, lutas, morte, dureza, fome, constituíram a experiência central da humanidade por milênios, mas lutamos muito e superamos parte desse karma. Existem guerras, existe infelizmente ainda a fome. Mas a maioria dos humanos não está experimentando nada disso e provavelmente nunca irá ter a tristeza de passar por tanta desgraça. Temos vacinas, produzimos comida, criamos sistemas de governo centrados na ideia de que o bem comum deve ser buscado por todos e para todos. Queremos aprender a parar de aquecer o planeta, devastar sua natureza e eliminar a pobreza mais dura. Assim que conseguirmos isso e ainda por cima fizermos desaparecer o axé, estaremos bem. Isso, sim, merece ser celebrado, e creio que o Coelhinho, com sua mensagem de fertilidade e alegria será um ótimo representante do novo feriado.

Enquanto vocês pensam no assunto, vou aqui praticar a felicidade fazendo o meu inigualável chocolate quente, receita do Café Hermés, de Paris, com o maravilhoso chocolate Rey, em pó e em barra, vindo da Venezuela especialmente para essa ocasião.

Quem quiser se juntar a mim nos festejos da Nova Páscoa, é só pedir e eu mando a receita do chocolate quente perfeito. Uma feliz Nova Páscoa a todos, é o que lhes deseja esse seu servo, eu.

Fonte: Terra Magazine

Saturday, March 26, 2011

A relatividade do tempo

Quatro semanas sem fazer nada é muito.

Quatro semanas para terminar um projeto é pouco.

Quatro semanas com dor é muito.

Quatro semanas de vida é pouco.

Quatro semanas no hospital é muito.

Quatro semanas para entrar em forma é pouco.

Quatro semanas de exercício é muito.

Quatro semanas para perder aqueles quilos é pouco.

Quatro semanas sem dinheiro é muito.

Quatro semanas para conseguir dinheiro é pouco.

Quatro semanas esperando um pagamento é muito.

Quatro semanas esperando um visto é muito

Quatro semanas viajando é pouco.

Quatro semanas longe de quem ama é muito.

Quatro semanas para esquecer alguém é pouco.


Será que antes de fazer cálculos e fórmulas, Einstein pensou algo assim?

Thursday, March 24, 2011

Blues Fúnebres


W. H. Auden


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Friday, March 11, 2011

Resultado da seleção de jurados para o Prêmio Revelação dos Projetos Teatro Aberto e Novas Caras

Os selecionados devem apresentar-se dia 15 de março, às 18:30, no Auditório do Atelier Livre do Centro Municipal de Cultura.

Maiores esclarecimentos através do e-mail premioscac@yahoo.com.br , com assunto “NOVOS JURADOS”.


Ariane Mendes

Camila Maria da Rosa Ribeiro

Cibele Donato dos Reis

Douglas Castro

Edgar Benitez

Helena Mello

Igor Silva Ramos

Joice Rossato Lima

Karine Capiotti

Liége Biasotto

Luciana Athayde Paz

Natasha Centenaro

Pablo Fernando Barbosa Damian

Patrícia Ragazzon

Patricia Sacchet

Plínio Marcos Rodrigues

Plinio Mosca

Renata Teixeira

Rita de Cassia Schell Réus

Roberto Mônaco

Rodrigo Ruiz

Rossendo Rodrigues

Tusnelda Marins

Ulisses Pimentel

Vinícius Mitto Navarro

Com o objetivo de abrir um espaço de aprendizagem para a formação de novos jurados, a CAC (Coordenação de Artes Cênicas) recebeu inscrições dos interessados em compor a comissão da primeira edição do Prêmio Revelação Mais Teatro.

A comissão será acompanhada pela equipe da CAC e por jurados experientes, buscando proporcionar uma prática de análise de espetáculos de prêmio norteada por conceitos comuns a todos e visão ética de trabalho no teatro.
Também será oferecido aos integrantes da comissão um workshop que pretende que os mesmos acessem informações sobre a recepção do espetáculo pelo público, e sobre a prática de trabalho de um jurado.

Fonte:  Coordenação de Artes Cênicas

Tuesday, March 01, 2011

Entre o prazer e a dor da vida e da morte

Estava na praia. Completamente fora do mundo. Só vendo filmes, tomando banhos de mar, comendo, dormindo, namorando. Encarando apenas a tensão de enfrentar a chuva e a noite em quatro rodas. De olho na estrada e, principalmente, nos outros motoristas.
Vi ontem uma pessoa lendo o jornal na areia com uma tarja preta na capa e li: Adeus a...e não conclui a frase. Sabia que alguém importante tinha morrido, mas não quem. E continuei sem me preocupar. Logo estaria de volta a cidade e tomaria conhecimento de tudo que havia acontecido nos últimos dias. Não demorou muito para saber que havia sido Moacyr Scliar. Lastimei. Achei que ele se recuperaria. Ao mesmo tempo, acho melhor que ele não tenha sobrevivido para ser apenas um ínfimo do que já foi para sua família e para milhares de pessoas entre pacientes e leitores.
Hoje, pego o jornal e leio: “Fugi para não ser linchado”. Assim, fiquei sabendo que Ricardo Neis, funcionário do Banco Central havia atropelado ciclistas em Porto Alegre e o texto, baseado nas palavras dele, deixava “em aberto” a sua culpabilidade. Dizia que os ciclistas batiam no carro e o ameaçavam e que isso justificaria a sua atitude. Já tive este tipo de medo ao ver pessoas saindo dos estádios de futebol algariadas, alcolizadas e em bando se sentirem com mais coragem do que o normal. Então, por uns breves instantes, pensei que podia haver alguma fagulha de verdade nesta informação. Porém, bastou que eu olhasse o vídeo gravado pelos próprios ciclistas para ficar tomada de assombro. Com lágrimas nos olhos, segui assistindo ao carro passando em velocidade por cima de bicicletas e pessoas que mal tiveram tempo de perceber o que acontecia. Logo eu que fecho os olhos no cinema quando alguma cena ameaça mostrar algo do gênero estava ali assistindo aquela barbárie. Agora eu quero este motorista preso ou, no mínimo, internado. Ele não pode continuar pelas ruas. Não deve. Além de poder cometer outra ação cruel como esta, estará, realmente, ameaçado. Até porque agora ele não é mais apenas um motorista. Ele tem rosto. Tem nome.
Moacyr Scliar teve falência múltipla de órgãos. Foi sem saber que deixa um mundo com pessoas como esta, sem coração que, tão diferente dele, não tem respeito nenhum pela vida. As pessoas choram na morte, mas esquecem que viver e “conviver” com pessoas insensíveis é muito mais doloroso.

http://www.youtube.com/watch?v=AheHJMzrV1Q
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/fugi+para+nao+ser+linchado+diz+motorista+que+atropelou+ciclistas/n1238122593955.html

Saturday, January 29, 2011

Uma audácia que não se perdeu na curva

No meu entender, o público tem sorte do Porto Verão Alegre ser quase um Festival Julio Conte. Afinal, na programação estão incluídos vários espetáculos desse diretor que teve a dádiva e a desgraça de ter feito Bailei na curva. Digo isso porque acompanho a cobrança que existe sobre ele de continuar fazendo algo no mesmo estilo. Porém, já faz tempo que ele demonstra que não pretende viver dos “louros” de um dos maiores sucessos do teatro gaúcho. Mas também é verdade (pelo menos a mim parece) que é, justamente, isso que permite que ele tenha o atrevimento de trazer para o público seus “experimentos”. E é assim que eu vejo Essa noite se improvisa. Não porque não seja acabado, porque seja menor ou mais simples. Muito pelo contrário.

Acho que não é preciso ser psicanalista para saber como é complexo misturar várias linguagens e deixar todas elas quase ao sabor do vento. Eu disse quase. Isso porque é clara e nítida a mão do diretor em tudo que acontece. E esta mão é firme e competente e ao mesmo tempo sutil. E eu acredito que não existam tantos diretores que tenham esta coragem, esta audácia de correr riscos todo o tempo. Tudo que é proposto pode, simplesmente, não funcionar ou funcionar hoje e ser terrível amanhã. Claro que sempre é assim no teatro. Só que Conte leva isso ao extremo.

Em teoria, o que ele propõe poderia ser extremamente chato e monótono: reproduzir cenas de filme no palco. Mas como ele não pretende deixar por menos, não é qualquer filme, mas Um bonde chamado desejo. Uma história conturbada, cheia de nuances, com personagens complexos e, cá entre nós, com um elenco que intimidaria qualquer um. No entanto, aquele grupo demonstra toda a sua disponibilidade e se coloca à disposição para aceitar o congelamento das cenas, o retorno, a inversão. Conte “brinca” com seus atores como alguém que tem o controle do DVD na mão e faz isso enquanto projeta as cenas do filme e as imagens da própria cena no palco. Mexe com o tempo e com espaço. As trocas dos atores que encenam personagens de outros sexos remetem a própria homossexualidade do dramaturgo americano e tudo isso acaba interessante e divertido.

Incita, também, a participação do público e de uma maneira que eu que entrei decidida a não fazer nada já estava repensando esta decisão. Mesmo que quem se habilite tenha alguma experiência, serve para fazer entender melhor o teatro e dá a oportunidade para aqueles que sempre sonharam em pisar no palco. Aliás, este é um ponto importante do espetáculo. Uma espécie de aula que a gente leva de brinde. Sobre Tennesse Williams, sobre improvisação, sobre personagens...

Agora, se você faz questão de assistir a uma peça, vai se perguntar por que está vendo um filme, se você quer ver o filme, vai querer saber por que precisa ver aquelas cenas. Se você já conhece Tennesse Williams vai achar que não precisava tantas informações sobre ele. Se nunca ouviu falar vai achar ruim que tanta coisa seja dita em tão pouco tempo. Assim, eu sugiro que você não fique criando expectativas, mas esteja aberto a uma proposta que pode até não ser só teatro, pode também não ser filme, nem aula, mas que, sem dúvida, é uma experiência artística. Vendo Essa noite se improvisa entendo, completamente, o medo de Blanche Dubois de enlouquecer e fico em estado de alerta quando ouço Julio Conte dizer: “se me der na louca...” porque sabe-se lá o que esta mente criativa será capaz de fazer.

Friday, January 28, 2011

Sobre o Arrigo

Publico eu mesma um comentário do colega Marcio Silveira que me chega por email. Afinal, a frase dele é pura poesia!


"Como o vento minuano, ricocheteia as ideias e derruba o vivente num descampado de imaginações mesmo tão longe do sul. Eta saudades da minha terra onde cantava Lupicinio e Elis."

Arrigo Barnabé e Lupicínio Rodrigues “beliscando meu coração”

Fui provocada pela minha colega Betha Medeiros para ver o show de Arrigo Barnabé cantando Lupicínio. Como me pareceu uma mistura inusitada de talentos e era em um lugar que tem feito propostas sempre interessantes, decidi comprar os ingressos pela internet. Escolhi a primeira fila para juntar o prazer de ouvir música ao de estar ao lado de minhas amigas. E estava certa.

O lugar estava lotado. Logo percebo a presença de Roger Lerina. (Às vezes, acho que jornalistas têm faro para outros jornalistas). A sala é pequena, mas aconchegante e a permissão de poder consumir bebidas enquanto se assiste ao espetáculo me agrada. Mesmo antes de Arrigo entrar já dava para perceber que estaríamos muito perto. Quando ele chega, minha primeira impressão é estranha. Aquele homem de cabelos brancos pouco se parece com o cantor irreverente dos meus 20 anos. É... o tempo passou e rápido. Ao piano, ele executa uma das músicas de forma bem tradicional, o que me causa estranheza. Será que ele mudou tanto assim? Porém, mal termino o pensamento, ele já está de pé, cantando outra música com o seu timbre característico e com a força de uma interpretação sem igual. Ao fundo, fotos em preto e branco dos bares freqüentados por Lupicínio. Locais simples, cheios de gente, muvuca total. Em sua conversa com a plateia, Arrigo faz menção ao vento Minuano e é muito bom pensar que este gênio da música andava por aqui, em minha cidade.

No palco, Arrigo já conversa com o público e dá a cada sentença das músicas uma intenção. Algumas músicas mais conhecidas do que outras, mas todas poéticas, verdadeiras, espelhos da alma humana. A emoção surge em mim quando tomo consciência de que estou ali vivendo um momento único, especial. Isso fica ainda mais claro quando o cantor-interpréte começa a se perder em uma música e diz que está emocionado e intimidado pela presença do filho do homem. Mais uma titubeada, e o filho de Lupicínio sobe ao palco e começa a cantar com ele. Isso é impressionante. Temos tanto medo de errar e, no entanto, quando alguém, com a experiência de Arrigo, declara sua incapacidade, a gente se delicia. É quando nos sentimos mais próximos do artista.

Fico pensando que o boêmio gaúcho adoraria ver suas músicas cantadas daquela maneira. Tão diferente do seu próprio jeito. Quando interpreta Vingança, Arrigo traz para a música um escárnio, um prazer que faz a plateia sorrir. As palavras ricocheteiam. Não sobra nada da voz suave e do jeito doce de seu autor. Nem por isso, deixamos de perceber a perfeição dessa letra que só quem já sofreu por amor pode entender.

Arrigo interpreta também Volta uma das minhas músicas preferidas. Fico controlando a vontade de cantar também para não atrapalhar. Mas fica quase impossível quando ele canta Esses moços, uma das primeiras músicas que aprendi no violão. Quer dizer... na verdade, não precisa a ligação ser tão direta. Também quero cantar Judiaria, Se acaso você chegasse, Nervos de aço, Aves Daninhas e até mesmo Dona Divergência ou Prá São João decidir, isso sem conhecer estas últimas.

Ainda bem que não tinha um repertório mental. Se não, era capaz de ficar lá querendo ouvir Foi Assim, Nunca, Felicidade e tantos outros sucessos gravados por outros incríveis cantores como Elis Regina e Maria Bethânia. A boa música não perde força, nem beleza e com isso faz com que a gente até esqueça que lá se vão muitos anos desde que havia visto Arrigo Barnabé que mostra que sempre haverá tempo para Lupicínio que não só inventou o termo “dor-de-cotovelo” como deixou muito claro do que ele estava falando, ou melhor, cantando.

Thursday, January 27, 2011

Sobre a minha ausência na performance Viúvas

Quando comecei a ouvir falar do espetáculo Viúvas, do Oi nóis aqui traveiz, tentei convencer amigos a irem também. Uma me disse que tinha medo de andar do barco. Brincando (mas nem tanto) disse que eu tinha medo do grupo e outra me disse que tinha medo da Tânia (uma das atrizes). Na verdade, isso tudo faz sentido. Afinal, falava com pessoas que já conhecem o trabalho deles e sabem que ninguém sai dos seus espetáculos ileso.

De qualquer forma, acabei sendo convidada também e, mesmo sabendo que as senhas só começariam a ser distribuídas às 19h, fui para a fila às 16h. Muitas pessoas já estavam lá. Havia uma lista e a primeira tinha chegado às 14h. Resultado: não adiantaria esperar. O barco que levaria todos para a ilha, local da performance, só tinha 40 lugares. Teria esperado se houvesse alguma possibilidade. Acho cansativo. Acho chato, mas fico. Em parte, concordo que a espera faz parte do “evento” e, muitas vezes, gera conversas interessantes e até mesmo novas amizades. Não deu.

Voltar outro dia não estava nos meus planos. Por isso, recebi feliz a notícia de que a TVE faria uma transmissão sobre o espetáculo, com cenas do mesmo. Peça televisionada é teatro? Não. Não há dúvidas sobre isso. É outra coisa, outra forma de linguagem, outro meio. Mas isso não quer dizer que não possa dar uma boa idéia do que se trata e, se o roteiro for bom, se a equipe de TV trabalhar bem, podemos ter, sentir, imaginar o que sentiríamos se lá estivéssemos. Perdemos em percepção. Ganhamos em conforto e temos uma visão do espetáculo que não sofre de miopia, nem tem problemas de audição. Passa pelos “olhos” daqueles que captam as imagens, editam, etc. Isso não sou eu que digo. Minha formação em comunicação me dá esta consciência, mas existem muitos pensadores sobre o tema, trabalhos acadêmicos, bibliografia. Dito isso, sabia que seria melhor se tivesse conseguido aquela senha. Porém, me consolava o fato de que teria uma idéia.

Mesmo passando pela estrutura de um programa televisivo com apresentador, entrevistas e comerciais, pude ver o quanto a beleza da natureza transformava o lugar em um cenário incrível. Já no barco, um dos atores começava a “dar o texto”, o que, sem dúvida, ia preparando o público para o que estava por vir. Na medida em que todos vão descendo do barco, recebidos já pelos personagens, me dei conta de que havia ali uma grande entrega da “plateia” que havia se disponibilizado a ficar à mercê do grupo, de sua organização, de sua estrutura. Duvido que alguém ali soubesse como fazer para voltar da ilha caso o barco do grupo não estivesse mais naquele local na hora de ir embora. Esta confiança significa respeito pelo Oi nóis.
O programa incluiu também entrevistas que falam das diretrizes da performance, da alegoria política, das mães de maio. Este caráter simbólico de suas apresentações é algo que já acompanha o grupo há muito tempo, desde o início. Os espetáculos são sempre cheio de metáforas, de uma meta-linguagem que, embora tão sofisticada em teoria, chegam até mesmo às pessoas comuns e geram impacto. Eles usam para isso elementos que estão presentes no cotidiano: a água, o fogo, a terra... Mas que com as palavras dos atores ganham muitos significados.

Dá para ver, mesmo pela TV, que a luz tem uma participação importante no clima que se cria em cada ambiente. Paulo Flores fala em ritual. Logo depois, a TV mostra uma cena de Tânia Farias de joelhos diante de alguém do público. Nesta hora, volto a pensar na amiga que falava do seu temor. É difícil ser indiferente a alguém suplicante. Isso lembra exatamente o tema da peça. Os mortos da ditadura. Não há um discurso. Não é preciso. Ao contrário, há cenas com dança, música... Oferecem bebida e comida a plateia. Tudo isso sem tirar a força do que é preciso ser dito. A estética das cenas é impactante. O público está dentro dos acontecimentos em um cenário real o que acaba mesmo por tornar o espetáculo inesquecível e imperdível como diz quem conseguiu assistir. O programa da TVE encerra com a fala de algumas pessoas que acabaram de assistir ao espetáculo. Sinto que elas estão sob o efeito de algo que elas jamais vão esquecer. Acredito que Oi nóis colabore, mais uma vez, através da arte, para que o Brasil não apague da memória o que não deve nunca mais se repetir. Ao contrário do espetáculo que, tomara, eu ainda tenha a chance de assistir.

Enquanto isso, agradeço a TVE e ao grupo que permitiu as filmagens por não ter ficado tão à margem.



Sunday, January 16, 2011

6º dia – Céu, sol, sul, terra e cor

Com a chegada do fim-de-semana, mudança da rotina. Acordamos mais cedo para irmos a uma nova praia. O trajeto no carro dirigido pelo marido da minha amiga revela a beleza do Rio. Uma extensão de mar que não lembro ter visto em outro lugar. O dia está mais bonito que os demais até agora. O ar-condicionado do carro me permite apreciar a vista. Passamos na frente do espaço onde acontece o Rock’in Rio. Eu fui. Aliás, são muitas as lembranças por aqui. Graças aos nossos amigos (até hoje) cariocas vim muitas vezes durante um bom período. Conheço grande parte dos lugares turísticos, desfilei na Sapucaí, no bloco de Carlinhos de Jesus...Mas sempre há lugares a serem descobertos.

Chegamos a uma praia cercada por morros. Uma espécie de enseada. Algo que lembra Santa Catarina. Difícil de estacionar, embora a praia ainda tenha pouca gente. Em pouco tempo estamos instalados. Cadeiras, guarda-sóis e um isopor com bebidas. Entrar no mar ainda é complicado. As ondas furiosas batem no meu corpo e quase me derrubam. O banho é tenso, mas a água limpa e em boa temperatura. Aproveito que é cedo para ficar de costas no sol com a intenção de emparelhar meu “bronzeado”. Afinal, até então, nem parece que vim ao Rio. Todos os dias com muitas nuvens quase não haviam alterado a cor da minha pele protegida pelo filtro solar. Algumas horas depois e decidimos ir almoçar em um restaurante ali perto. Vista para o mar, claro! Peixe e caipirinha. O gosto do verão e das férias.

Em casa, o sono vem rápido vendo “Meu malvado favorito”. A menininha briga comigo por fechar os olhos por cada vez mais tempo. Não há como evitar. Entre jogos, programas de TV e filmes do Mr.Beans a noite chega. Pão de queijo e vinho e um bom papo com minha amiga. Uma combinação que me deixa feliz. Não demoro muito para dormir novamente. Não sem antes ver que o pouco tempo que fiquei de costas no sol deixou suas marcas. Apesar de ser minha cor preferida não é a que gostaria para a minha pele. Assim como as chuvas, o sol do Rio não está para brincadeira.

Saturday, January 15, 2011

5º dia - turismo




Café da manhã/almoço, filme infantil. Já está virando um hábito carioca. Céu nublado. Insisto para irmos para a praia. Dessa vez, para zona sul. Isso implica em pegar um táxi até o terminal de ônibus e um ônibus até Ipanema ou Copacabana. No primeiro, o motorista se põe a falar loucamente. O assunto? Casamentos. Dele, da atual mulher, de outras mulheres...Eu aproveito a presença da minha amiga para não dizer uma palavra. Digo para ela que a partir de agora ela vai falar que eu sou surda ou que não compreendo a língua. “Pardon, excusez-moi”.

Para conseguirmos descobrir o ônibus minha amiga chega a balançar a mão na frente do rosto da pessoa que coordena a saída deste. Comento com ela que é como estar morta e não poder ser vista, nem ouvida. O ônibus tem ar-condicionado. O que no calor abafado do Rio é muito útil. A paisagem do trajeto é muito linda. Penhascos, altos morros e o mar lá embaixo. Água azul. Água verde. Começo a reconhecer o trajeto. Decidimos descer em frente ao Copacabana Palace. De longe, enxergo o Cristo. Pensei que fosse embora sem vê-lo. Agora, lá está. O mar não está tão bonito quanto na Barra. Nem vejo pessoas bonitas tão pouco. Mas não dá para fazer comentários sobre os cariocas. Não são eles que estão ali. É tempo de férias. Eles estão em outros lugares. Estamos cercadas por pessoas de outras nacionalidades, de outros estados. Os papéis atirados no chão na minha frente me incomodam. Pego um saco e junto. Pronto. Agora sim posso aproveitar a vista.
Duas horas depois, é hora de voltarmos. É sexta-feira. Os transportes e o trânsito se complicam no final da tarde. Minha amiga decide pedir umas batatas fritas para a filha. Estamos em um dos lugares mais turísticos do mundo e a espera é de mais de 45 minutos. Perdemos três ônibus enquanto isso. Felizmente, quando os pingos de chuva começam conseguimos um ônibus que vai nos levar até a frente do condomínio. Descubro, finalmente, que pegar táxi é mais um hábito da minha amiga do que algo imprescindível para o deslocamento. Em “casa” vemos uma nova versão do Príncipe e o sapo, comemos pizza, tomo vinho e vou ler Cachinhos dourados antes de dormir. Não tenho fôlego para uma segunda história. Como as crianças pequenas, os olhos pesam...

Friday, January 14, 2011

4º dia - reflexões

Posso começar a me acostumar a acordar mais tarde... Depois do café da manhã, comendo coisas que em geral não como em Porto Alegre, vemos um filme infantil. É divertido. Deveria fazer parte da programação de todo adulto para a gente não esquecer como era quando acreditávamos em uma vida mais simples. E nessa bobeira, chega a hora do almoço. Também poderia me acostumar com esta vida de não fazer nada. Minha amiga faz para mim o que faz para a filha de seis anos. Nada mal.


Mesmo com o dia nublado, resolvo ir para praia. Dessa vez, sozinha. Peço uma cadeira, um guarda-sol que vai servir mais como guarda-chuva e me sento lendo meu livro. Mas antes de começar a grudar os olhos nas páginas, decido olhar as pessoas na água, os morros, o movimento. O mar é lindo. Vê-lo me dá sensação de liberdade, de amplitude. É, a vida não é só o nosso quarto, o nosso escritório. O mundo é maior. E por mais ÓBVIO que isso pareça é sempre bom deixar registradas estas imagens para aqueles momentos em que vivemos nossos dramas pessoais, nossas tragédias particulares. Cada vez mais me convenço que o sofrimento é uma questão de perspectiva. E fico assim, por horas. Lendo, dormindo, tomando água de coco.

Final de tarde, levanto sem precisar carregar nada e saio pela avenida caminhando. Percebo que apenas eu uso chapéu. Achando melhor não dar tanta cara de turista, tiro e guardo na bolsa. Caminho bastante, mas decido pegar um taxi em um ponto já no final da avenida para garantir. O motorista é um senhor que logo puxa conversa e embora eu tente responder só sim ou não ele vai insistindo, quer saber mais. Começa a me ganhar nos elogios. Diz que eu pareço ser uma pessoa feliz. Concordo com ele. Há poucos minutos, havia pensado exatamente nisso. Estar aqui e neste momento da minha vida é motivo para agradecer ao universo. Viajar mexe comigo. Põe todo e qualquer problema de lado. Bem, mas a conversa segue até que chega a pergunta que vale um milhão: “por que não me casei?” Fiz cinco anos de terapia buscando esta resposta. Parei percebendo que talvez nunca a tivesse. Não, não fui eu que não quis. Não, eu não sei porque. Filhos? Também não. Mas não saio com má impressão do motorista. Afinal, ele me dá 33 anos e a previsão de que ainda há muito pela frente. Quem sou eu para discordar?

À noite, mais um filme infantil, um vinho branco gelado, atirada na “cadeira do papai”. O sono vem fácil.