Quando voltei de Buenos Aires em agosto falei tão bem da cidade que mal tinha colocado o pé em POA, minha mãe disse: vamos comemorar meu aniversário lá? Como que eu ia contrariar esta idéia? Não é que quando a data se aproximou eu já estava louca para ir novamente? E com a tarefa de agendar as atividades dos quatro dias. Como boa libriana, tá aí uma tarefa que eu curto e levo a sério. Consegui passagens direto POA-Buenos Aires, pois acho muita sacanagem ter que ir a São Paulo primeiro. Fomos pela TAM o que nos garantiu um almoço (coisa que na Gol não tinha) e tvs. Ah, eu me divirto muito com imagens mesmo que seja um documentário sobre as ruas da cidade. Nosso hotel era na Carlos Pellegrini e tinha um preço ótimo para um quarto para as três: eu, minha mãe e minha irmã. É a rua do lado da 9 de julho, a rua do obelisco. Sem prédios separando nada. Só uma calçada. Ou seja, melhor localização, impossível. Sabia que podia pegar um taxi no próprio aeroporto e teria o preço certo. Só não imaginava que um dos encarregados sairia correndo na frente com as nossas malas e depois ficaria segurando a porta e pedindo gorjeta. Bem chato.
Instaladas fomos para em direção a Florida para pegar o ônibus turístico. Descobri em minha viagem anterior que era a melhor maneira de ir a todos os lugares principais sem ter que esquentar a cabeça por um único valor, durante dois dias. São 14 paradas, entre elas: Caminito, Porto Madero, Recoleta, Casa Rosada, Palermo, etc. Queria muito levar minha mãe que ama flores ao Rosedal, mas chegamos lá quase às 19h e já estava fechado. Tarde também para pegar o mesmo ônibus de volta. Assim, começava a aventura de ir atrás de um “colectivo” para voltar para o centro. Sem saber nem o preço da passagem, descobrimos que este deve ser pago com moedas, o que não tínhamos. O fiscal acabou deixando que andássemos sem pagar. Algo inusitado para a minha mãe. Pedi informações para descer com as indicações de 9 de julho e Corrientes e rapidamente descemos na região. Só que indiquei o lado oposto e caminhamos na direção contrária. Quando resolvemos perguntar novamente estávamos a sete quadras do nosso hotel. Parece mentira que em uma cidade com tantos pontos de referência isso ainda aconteça. O homem que nos indicou o caminho puxou papo. Disse que era jornalista. Ah...tinha que ser. Perguntou nossos nomes e quando decidiu dar um cartão de visita, olhava para a minha irmã e dizia: “eu vou estar neste número, viu?” (falava o nome dela). Foi uma cantada bem engraçada. Ostensiva e, ao mesmo tempo, não invasiva.
Dia seguinte vamos para o salão do café da manhã. Muitas medialunas de todos os jeitos. Biscoitos e pães com doce de leite. Assim como todo o resto de um hotel 4 estrelas. O interessante é que eles tinham uma bandeja na qual podíamos botar tudo que escolhêssemos, sem ter que ficar indo e voltando como costuma acontecer. Lá nos fomos pegar o ônibus turístico outra vez, pois nosso bilhete era válido por 48 horas. Não tinha mais certeza o que deveríamos ver. Mas queria retornar ao Caminito onde escolhi uma bolsa meses antes, mas a grana curta não me deixou comprar. Encontramos várias outras lembrancinhas bacanas. Perdíamos a noção das horas e quando voltamos ao ônibus achei melhor descer no Porto Madero, mas ir até a praça de maio almoçar em um lugar que já conhecia na esquina do Cabildo, um prédio branco histórico, lindo que fica em frente à Casa Rosada. Não foi exatamente barato, mas o lugar é maravilhoso. Voltamos para o hotel para descansar. Afinal, à noite havíamos feito uma reserva para o show de tango no La Ventana. Não é fácil escolher um desses lugares. Há muitos. Fui pelo preço e pela proposta. Sem jantar, mas com uma garrafa de vinho e alguns quitutes. Além do transporte de ida e volta. Minha mãe desceu sozinha no elevador que abria para os dois lados e não se deu conta de que estava de costas para a porta aberta na recepção. Eu a chamei e ela me respondeu de volta. Ainda olhando a porta fechada. Rimos. Quanto ao show, acertei em cheio. O lugar era lindo. A apresentação maravilhosa. Gente muito boa e muitos números. Um cantor e uma cantora ótimos. Vários casais de bailarinos e diversos figurinos. Só pensava em quantos chutes nas canelas até chegar aquele momento. Era impresionante. Mais uma orquestra e um número de boleadeira daqueles de arrepiar e vinho, muito vinho. Terminada a primeira garrafa, o garçon trouxe outra de cortesia. Isso sem saber que comemorávamos lá o aniversário da minha mãe. Voltamos para o hotel cansadas e felizes e precisando mesmo de um motorista.
Bem, teve a parte das compras na Lavalle e na Florida. Nada muito significativo pois a idéia era passear. Mas uns garfos maravilhosos para churrasco, a mala perfeita para uma viagem internacional e alguns presentinhos de Natal. Um café no Shopping Pacífico. E sem seguir a cronologia exata dos fatos, fomos ao Café Tortoni encontrar a Silvia, minha anfitriã da outra vez em que estive lá. Aliás, rever a cidade só me fez perceber ainda mais como ela havia transformado a minha viagem em algo tão prazeroso. Na praça de maio uma homenagem ao presidente Kischner reunindo diversas entidades do país. No local, uma faixa com uma frase para Cristina: “Te queremos como uma filha, te respeitamos como uma mãe”.
Dia seguinte, o primeiro dia nublado depois de dias esplendorosos de sol e céu azul. Encaramos o passeio até o Delta do tigre com o Trem da Costa. Passamos antes pela praça San Martin que traz fortes recordações das viagens em que meu pai estava presente, tanto para minha mãe, quanto para mim. Uma certa frustração ao rever a estação San Isidro. Na última vez, fervilhante de gente, de lojas e alegria. Dessa vez, com algumas excursões turísticas, muitos locais abandonados e um pequeno restaurante em funcionamento. Ainda há sinais da crise por lá. Na volta, um outdoor dizia: o melhor iogurte do mundo. Tirei até foto. Afinal, já havíamos reparado que para eles tudo é assim: o maior, o melhor, o mais antigo, o mais premiado...Eles adoram os superlativos! Tenho a impressão de que fazem até piadas de si mesmos...ou não.
Em nossas andanças, passando por um dos muitos teatros da Corrientes, um show do Djavan. Uma multidão na calçada para vê-lo. Argentinos. Enquanto descansávamos no hotel, muita programação em espanhol. A série Monk, filmes com Steve Martin e até Caminho das Índias. Tudo muito bem dublado (pelo menos parecia). Ah, não posso esquecer de contar que realizei meu sonho de falar francês na Argentina. No café da manhã, vários franceses conversando. Virava e mexia eu escutava o famoso: “Ah...bom!”
Na última noite, ao voltamos ao hotel, a rua 9 de julho estava fechada. Perguntamos o que haveria e como a resposta foi ballet, achei que o recepcionista tinha dito baile (verbo que eles usam para dança), mas estava errada. O grupo do teatro Colon (que aliás só vi de longe) fez uma apresentação ao ar livre do ballet La Traviata, com orquestra e tudo. Uma multidão na rua de todas as idades. Cadeiras e pais com as crianças nos ombros. Lindo. Os bailarinos víamos mais pelos 3 telões espalhados pela rua. É... o aniversário de “mi madre” não podia deixar por menos. Andamos no meio da rua mais larga do mundo (140 metros) sem pressa. Um jantar com uma porção gigante de batatas fritas e já era meia-noite. Nossa hora de dormir. A cidade segue fervilhante.
Um taxi chamado pelo hotel nos leva até o aeroporto de Ezeiza. Minha mãe é atendida por um rapaz que diz que as mulheres gaúchas são as mais bonitas do mundo. Quando libera o meu bilhete, diz que no mês que vem viria para cá. Esbarro nele novamente quando entro no avião, recolhendo os bilhetes. Brinco com ele que a cidade o espera. Bem, eu não conheço muitos lugares do mundo, mas que os Argentinos são muito lindos, isso são. Minha irmã diz que um terno e um jeito conquistador já faz a diferença.
O fato é que saio de Buenos Aires, pensando outra vez em retornar. Afinal, foi a melhor viagem do mundo!
PS: Encontramos também um professor da FAPA que eu e minha irmã reconhecemos de vista. O curioso é que ele viajou conosco na ida de na volta, sem termos combinado absolutamente nada. Só para a gente lembrar que a vida é cheia destes mistérios...
Os amigos me convenceram a começar o meu blog. Sou jornalista e mestra em artes cênicas. Sempre adorei escrever e tenho enviado textos para os meus conhecidos com uma certa frequência. Os assuntos? Os mais variados possíveis, mas, ligados as minhas experiências, ao que acho de tudo que está em minha volta. Gostaria de compartilhar com mais pessoas.
Tuesday, November 30, 2010
Thursday, November 18, 2010
Pronta para o acaso
Não sou exatamente uma pessoa que goste de surpresas, mas também não preciso de muito planejamento. Ultimamente, porém, ando reticente a convites de última hora. Bate a preguiça, desorganiza a agenda. Apesar disso, não sou de jogar fora oportunidades. Assim, quando minha cunhada ligou no final da tarde e disse que não poderia usar o seu ingresso para o show do Ivan Lins, eu topei. Confesso que não vibrei de cara com a oferta (vou ter que me redimir). Tinha acordado arrumadinha, mesmo achando que não sairia de casa e o urgente, urgentíssimo trabalho que fizera o dia todo bem que podia esperar algumas horas. Afinal, eu nunca tinha entrado no Bourbon. Achava sempre caro. Perdi as chances do POA em cena. Cá entre nós, é lindo.
Só quando cheguei é que vi no ingresso: R$ 90,00. Ah, não teria pago isso mesmo, embora tenha ficado interessada quando li a notícia no jornal. Sempre gostei de Ivan Lins. Além da voz, me parecia um cara alto astral, camarada, eu diria. Além disso, várias de suas músicas fizeram parte de momentos significativos da minha vida. Fato é que já tinha escrito até aqui enquanto as pessoas chegavam aos poucos no teatro. Mas chega de blá,blá,blá. Preciso assistir ao show pra poder comentar.
Primeiro devo dizer que agora é oficial: envelheci. Ivan Lins está com 65 anos e eu o achei um gato. Uns quilos a mais de quando eu o “conheci”, mas ainda assim carismático e interessante. Se bem que tem muita gente nova que considera Sean Connery, o máximo. Bem, mas mal ele começa a cantar e voz suave enche o teatro. “O amor é o meu país...” Ele sempre cantou de um jeito que parecia fácil. Só ele para fazer melodia com biri-biri e dadaum. Já na segunda música ele pede para a plateia cantar um trecho. Logo depois, ele fala que o show é em comemoração aos 40 anos de carreira, o mesmo tempo que tem o seu sucesso Madalena. Ele conversa com o público dizendo que era um compositor universitário quando Nelson Motta o encontrou e que foi Elis Regina quem gravou este seu primeiro sucesso. Quem diria que ele também tinha tido alguns problemas com a censura? Bem, ele disse que foi chamado no DOPS, mas que no fim era por erros datilográficos que foram considerados um código. Se bem que naquele contexto uma música que diz: “deixa, deixa, deixa dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar” pode mesmo ser considerada subversiva. Aos poucos vou me dando conta que conheço mais o seu repertório do que imaginava e mais acho as letras realmente ótimas: “Não corra o risco de ficar alegre para nunca chorar...”, “Não fale do medo que temos da vida” e, realmente, agora mais do que nunca Deus deve estar conosco até o pescoço. Quase meio século de atividade e o cantor diz que precisa pegar o andamento de uma música nova, ganhando a simpatia do público. Lá pelas tantas chama Geraldo Flach no palco. Fazia séculos que não o via. De bengala, fragilizado, é aplaudido de pé pelo teatro lotado. O outro convidado foi Leandro Maia. Um novo talento, segundo Lins, garimpado na intrnet. O cantor gaúcho diz que agora só falta acertar na loteria. Entendo. Afinal, dividir o palco com alguém com tamanha experiência deve ser mesmo emocionante. Ele canta Paisagens e mesmo para quem foi assistir apenas a Ivan Lins ouvir este cantor deve ter sido um prazer. Linda voz. Percebo que o fim se aproxima quando chega a hora de “Começar de novo...”. Eu que pensei que já tinha enjoado de ouvir esta música, me surpreendi. E as letras fortes e poéticas continuam: “viestes com a cara e a coragem pra dentro de mim...”, “o amor tem feito coisas, que até mesmo Deus duvida”..., “Quero toda a sua vontade de passar dos seus limites e ir além...”Aplaudido de pé, ele volta para o bis. Canta mais uma música com Leandro Maia e ainda me impressiona com sua música: Bilhete. Quem diria...tantos anos depois e minha vida ainda “combina” com sua música...”e por fim nosso caso acabou, está morto”. Encho os olhos de lágrimas, enquanto me sinto aliviada pela capacidade de ainda me emocionar dessa forma. Exatamente como há quase 40 anos atrás.PS1: Lembrei de Luis Claudio Conceição, meu amigo que era fã de Ivan Lins e que perdi o contato
PS2: Algo em Ivan Lins me lembra Julio Conte (espero que ele não se importe)
PS3: Lembrei de Mirna Spritzer, pois achei que ela gostaria do show
Monday, November 15, 2010
Museu da Língua portuguesa: vale muito a pena se a alma não pequena
Esta não é a primeira vez que falo do Museu da Língua portuguesa de São Paulo e, certamente, não será a última. A ida a este lugar já estava planejada desde que soube que iria estar na cidade. Assim, comecei a falar para outras pessoas que viajaram comigo e planejamos ir. Porém, como minhas colegas pretendiam também fazer compras na José Paulino, uma das ruas mais conhecidas por suas lojas de preços baixos que fica perto, quando chegamos na entrada já passava das 16h.
Sendo uma sexta-feira, véspera de feriado, a ideia era pegarmos o metrô o quanto antes, pois o movimento seria intenso. Resultado: só deu tempo de dar uma espiadinha na exposição temporária sobre Fernando Pessoa e assistir ao vídeo sobre a história da língua. Assim mesmo, minhas impressões favoráveis se mantiveram. Mais uma vez, achei muito instigante a forma que os curadores apresentam as informações, associando tecnologia e conhecimento. Textos “escritos” na areia, livros digitalizados e tantas outras coisas que provam que a cibercultura não só é possível como emocionante. Por falar em emoção, não sei porque ouvir Dorival Caymi cantar “Coqueiro de Itapuã, areia...” faz meus olhos ficarem cheios de lágrimas. Tem uma suavidade em sua voz, uma calma que contrasta com o mundo lá fora. Principalmente, quando se trata das ruas de São Paulo.
No mais, já tinha compreendido porque estar cercada de letras por todos os lados mexia tanto comigo. Inclusive já disse isso antes: visualizo a história da minha vida desde os meus seis anos, quando aprendi a escrever. Aos 10 já estava lá redigindo meus diários, falando de mim e dos meus sentimentos. Como agora. Por tudo isso, o tempo no museu foi pouco e quando surgiu a oportunidade de voltar no dia seguinte, não hesitei. Desta vez sabia que poderia ficar o tempo que quisesse e olhar com calma. Pelas paredes textos de Pessoa que podem ser mudados a partir de um gesto do próprio visitante. Uma mesa e cadeiras penduradas no ar junto a imagem do poeta. Pouco depois, a sala de espelhos onde eu e todos os visitantes podem ver sua imagem multiplicada, fazendo uma analogia aos heterônimos (personagens) de Fernando Pessoa. Sim, porque além de poeta, ele também foi capaz de criar várias personalidades e descrevê-las: suas características físicas, seus gostos, seus pensamentos, alguns muito famosos como: “todas as cartas de amor são ridículas”.
Um corredor inteiro para a sua cronologia. Muitos livros, muitos textos até sua última frase em Inglês: "I don't know what tomorrow will bring… " ("Não sei o que o amanhã trará"). Eu também não sei, mas pelo menos pude voltar ao Museu que tanto me impressionou há anos atrás e continuar achando que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Sunday, November 14, 2010
Vida de mestre
Como recém mestra pensei que seria importante ir a ABRACE e assim que soube que meu trabalho havia sido aceito, comecei as articulações para conseguir um lugar para ficar. Sem isso, as chances de estar em São Paulo por uma semana eram mínimas. Logo lembrei da colega de Artes cênicas que estava morando na cidade e que sempre me escrevia palavras de afeto, que sempre me tratava com uma gentileza que pouco se vê hoje em dia. Assim, alguns emails depois já sabia para onde ir. Quando cheguei em sua casa, aquelas palavras foram se transformando a cada dia em pequenos gestos de acolhimento e de carinho. A partir daquele momento, havia também aquele que ela escolhera para ser seu companheiro na vida e como não podia deixar de ser alguém amável e interessante com quem a conversa fluiu rapidamente como se fossemos velhos amigos. Desse jeito, apesar do pouco tempo que passamos juntos, devido ao meu envolvimento com o evento, tive a oportunidade de estar próxima de duas pessoas que eu tenho certeza ainda terão muito a contribuir para aquele mundo melhor que todos queremos e, enquanto isso, eu aproveito para viver estes momentos tão especiais que dão a este título recém adquirido o sentido que eu queria: o de pertencer ao grupo de pessoas que amam a arte e a vida.
A Cyntia Muller e a Rodrigo Pessim o meu muito obrigada.
A Cyntia Muller e a Rodrigo Pessim o meu muito obrigada.
Wednesday, November 10, 2010
Abraçando São Paulo
Primeiro dia do evento da ABRACE - Associação Brasileira de Pesquisa em Artes Cênicas. Primeiro desafio: chegar a Barra Funda. Na véspera, meus amigos diziam que era muito fácil e não tinha erro. Esqueciam que estavam falando de mim que se bobear me perco até na minha cama. Mas, de mapa do metrô na mão, lá me fui rua acima. Dúvidas quando ela bifurcou. Outras, quando parecia distante, mas cheguei. Uma vez lá dentro, é tudo bem indicadinho. Se a gente sabe ler e presta alguma atenção, chega lá, mesmo trocando de linha, como foi o caso. Porém, quando cessam as informações para onde ir? Hora de perguntar e apesar da resposta meio inútil é o tempo de encontrar mais alguém perdido perguntando pela mesma coisa. Um paulistano. Então, melhor segui-lo. Missão 1, cumprida.
O lugar da abertura é muito bonito. Sento logo nas primeiras filas. Uma abertura rápida do pessoal da ABRACE (Maria Lucia Puppo e Luis Fernando Ramos) e sobe a mesa Sábato Magaldi e Jacó Guinsburg. Já tinha reparado no primeiro. Meu objeto de estudo. Fiquei emocionada. Era o encontro do pesquisador com o pesquisado, aplaudido de pé por um teatro lotado.
É Sergio Carvalho quem lê o texto sobre o crítico. Há poucos minutos estava ali do meu lado com umas folhas rasuradas na mão. Agora, está lá na mesa fazendo referência a um texto que Sábato escreveu sobre Décio de Almeida Prado, mas que, sem dúvida, poderia ser sobre ele mesmo. Carvalho obtém o equilíbrio perfeito entre informações histórias, curiosidades e afetividade.
A palestra é em francês, mas assim mesmo pego os fones. Sei bem que muitas vezes não se trata de entender a língua. Se o palestrante falar baixo, enrolado ou qualquer outra coisa, a tradutora tá lá para dar um jeito. Só que neste caso, não teve como. Tentei várias vezes acompanhar a linha de raciocínio do convidado, mas há divagação era grande e eu que amo a língua francesa não estava mais me divertindo com os leeee, laaaa que eles adoram. Jean François Peyret tinha a tarefa de falar sobre “Uma arte exposta a ciências”. Acho que a exposição causou danos porque ficou difícil de entender em françês ou português.
No caminho do almoço, esbarro em Edélcio Mostaço. Corro para abraçá-lo. Só tenho a agradecer a ele, inclusive por estar aqui. Do lado, Faleiro, outro professor que tem sido de uma gentileza quando me vê... Tantas caras conhecidas e importantes no meio da pesquisa teatral que me dou conta que as articulações de nossa coordenadora Marta Isaacsson e do restante do grupo tem sido realmente muito bem sucedidas. Afinal, o programa ainda é muito recente e nestes poucos anos já nos aproximou de outros que pesquisam há muito tempo.
Depois de alguns copos de champagnhe oferecidos pela ABRACE, um rápido almoço rodeada de colegas e professores, vamos para a palestra seguinte. Antônio Araújo diz que está nervoso e que por isso terá que ler. Mas o texto escrito é muito bom. Ele diz que pesquisar é jogar com o desconhecido. Parece bonito, mas dá muito medo. Pesquisar artisticamente é avançar aos tropeções em um interminável looping. É duvidar sempre e acreditar apenas por átimos. Perceber que não sabíamos que sabíamos. Mal-me-quer, bem-me-quer. A aventura do pensar fazer e do fazer pensar.
Sabia que deveria vir embora antes do final da tarde, mas me distrai. Acabei pegando a famosa hora de pique. Algo assustador. A mesma pessoa que está ali do seu lado esperando o metrô quando as portas se abrem, se transforma em um agressor. Não entrei no metrô. Fui empurrada e procurei não resistir. Foi ruim? Claro. Mas, felizmente, no meu caso é ocasional. Já pensou ter que passar todos os dias por isso?
No mais, hospedada na casa de amigos, muito bem acolhida transformando minha viagem em momentos ainda mais agradáveis. Coisa boa poder juntar conhecimento, novas experiências e amigos. É a minha paixão pelo teatro me proporcionando novas oportunidades.
O lugar da abertura é muito bonito. Sento logo nas primeiras filas. Uma abertura rápida do pessoal da ABRACE (Maria Lucia Puppo e Luis Fernando Ramos) e sobe a mesa Sábato Magaldi e Jacó Guinsburg. Já tinha reparado no primeiro. Meu objeto de estudo. Fiquei emocionada. Era o encontro do pesquisador com o pesquisado, aplaudido de pé por um teatro lotado.
É Sergio Carvalho quem lê o texto sobre o crítico. Há poucos minutos estava ali do meu lado com umas folhas rasuradas na mão. Agora, está lá na mesa fazendo referência a um texto que Sábato escreveu sobre Décio de Almeida Prado, mas que, sem dúvida, poderia ser sobre ele mesmo. Carvalho obtém o equilíbrio perfeito entre informações histórias, curiosidades e afetividade.
A palestra é em francês, mas assim mesmo pego os fones. Sei bem que muitas vezes não se trata de entender a língua. Se o palestrante falar baixo, enrolado ou qualquer outra coisa, a tradutora tá lá para dar um jeito. Só que neste caso, não teve como. Tentei várias vezes acompanhar a linha de raciocínio do convidado, mas há divagação era grande e eu que amo a língua francesa não estava mais me divertindo com os leeee, laaaa que eles adoram. Jean François Peyret tinha a tarefa de falar sobre “Uma arte exposta a ciências”. Acho que a exposição causou danos porque ficou difícil de entender em françês ou português.
No caminho do almoço, esbarro em Edélcio Mostaço. Corro para abraçá-lo. Só tenho a agradecer a ele, inclusive por estar aqui. Do lado, Faleiro, outro professor que tem sido de uma gentileza quando me vê... Tantas caras conhecidas e importantes no meio da pesquisa teatral que me dou conta que as articulações de nossa coordenadora Marta Isaacsson e do restante do grupo tem sido realmente muito bem sucedidas. Afinal, o programa ainda é muito recente e nestes poucos anos já nos aproximou de outros que pesquisam há muito tempo.
Depois de alguns copos de champagnhe oferecidos pela ABRACE, um rápido almoço rodeada de colegas e professores, vamos para a palestra seguinte. Antônio Araújo diz que está nervoso e que por isso terá que ler. Mas o texto escrito é muito bom. Ele diz que pesquisar é jogar com o desconhecido. Parece bonito, mas dá muito medo. Pesquisar artisticamente é avançar aos tropeções em um interminável looping. É duvidar sempre e acreditar apenas por átimos. Perceber que não sabíamos que sabíamos. Mal-me-quer, bem-me-quer. A aventura do pensar fazer e do fazer pensar.
Sabia que deveria vir embora antes do final da tarde, mas me distrai. Acabei pegando a famosa hora de pique. Algo assustador. A mesma pessoa que está ali do seu lado esperando o metrô quando as portas se abrem, se transforma em um agressor. Não entrei no metrô. Fui empurrada e procurei não resistir. Foi ruim? Claro. Mas, felizmente, no meu caso é ocasional. Já pensou ter que passar todos os dias por isso?
No mais, hospedada na casa de amigos, muito bem acolhida transformando minha viagem em momentos ainda mais agradáveis. Coisa boa poder juntar conhecimento, novas experiências e amigos. É a minha paixão pelo teatro me proporcionando novas oportunidades.
Sunday, October 24, 2010
A boba da corte
De início, o nome Arte na Corte me parecia um pouco arrogante. Vinha a minha mente reis, rainhas e castelos. Algo esnobe. Porém, o lançamento desta proposta, que visa uma integração entre arte, cultura, língua, música veio para me fazer pensar de uma maneira bem diferente. O lugar provisório no Bom Fim é uma casa antiga, salas de pé direito alto, mesas, sofás, bem aconchegante, na verdade. Sabendo que haveria uma certa improvisação no serviço e que o cardápio seria reduzido, fui surpreendida pelo sabor do que era oferecido e pela simpatia das pessoas que se esforçavam para atender de maneira gentil e eficiente. Rapidamente, as pessoas iam se juntando e era visível que as conversas vinham fácil e a integração ocorria rapidamente.
Assim, estavam todos se divertindo quando Vera Mello pegou o microfone para apresentar as pessoas da casa, um lugar agora chamado Passageiro 59 que pretende manter atividades como esta com certa frequência. O assunto divulgado no convite super bem feito era a única coisa que eu, realmente, já sabia: Tour de France. Entretanto, pouco sabia sobre o tema. Assim, toda e qualquer informação recebida foi bem-vinda. Cansada do longo dia de trabalho, imaginava quanto tempo duraria a fala desta professora de francês que sempre pesquisa sobre o que vai dizer para os seus alunos que, nesta noite éramos nós. Porém, ela teve a sensibilidade de não se estender e mais, o jogo de cintura de descobrir naquele momento que a famosa corrida de bicicleta já não era tão importante assim para os franceses e trazer isso à tona pela voz de um francês que compareceu ao encontro. Desta forma, mesmo que ele viesse para contrapor algumas de suas colocações anteriores, sem dúvida, valorizava ainda mais a apresentação.
Como se isso não bastasse ainda escutamos a vencedora do Festival da canção francesa deste ano Luana Pacheco cantar L’amour. Assim, a Arte na Corte cumpriu com sua promessa de um jeito gostoso de fechar a semana e ainda “entregou” algumas surpresas como eu descobrir que minha irmã, que se diz uma rígida virginiana, fala muito bem em público e ainda por cima no microfone! Fiquei boba. E como nenhum evento, por menor que seja, “termina depois que acaba”, este rendeu conversas que me fizeram descobrir que Samuel Beckett escreveu Esperando Godott justamente por causa de um dos competidores do Tour de France que todos esperavam e que não chegava nunca. Cultura é isso. Algo que cresce e se multiplica. E mesmo que alguns reis e rainhas não soubessem, são mais valiosos do que os bens, pois não acaba nunca e não pode ser roubada. Uma vez que chega até nós, será nossa para sempre.
PS: Por falar em roubar, sai com a caneta que me emprestaram para que eu pudesse fazer as anotações que gerariam este texto.
Sunday, October 17, 2010
Se você quer cantar, cante.
Bem, se você quer cantar, cante
E se você quer ser livre, seja
Porque existem muitas coisas pra ser
Você sabe que sim
E se você quer viver pra cima, viva
E se você quer viver pra baixo, viva
Poque existem muitos caminhos pra ir
Você sabe que sim
Você pode fazer o que quer
A oportunidade está aí
E você pode encontrar um novo caminhos
Pode fazer isso hoje
Fazer com que tudo seja verdadeiro
Fazer com que seja desfeito
Você vê ah ah ah
É fácil ah ah ah
Você só tem que querer
Bem, se você quer dizer sim, diga
E se você quer dizer não, diga
Porque existem muitos caminhos pra ir
Você sabe que sim
E se você quer ser eu, seja
E se você quer ser você, seja
Porque existem muitas coisas pra se fazer
Você sabe que sim
Bem, se você quer cantar, cante
E se você quer ser livre, seja
Porque existem muitas coisas pra ser
Você sabe que sim
Você sabe que sim
Você sabe que sim
Você sabe que sim
Tuesday, October 12, 2010
RICARDO SILVESTRIN
Por Ramon Mello
A MUTIPLICIDADE DE UM POETA
Passeando pelo calçadão virtual, no Orkut, conheci um poeta gaúcho chamado Ricardo Silvestrin. Fiquei entusiasmado ao esbarrar no site dele e perceber que a música, o jornalismo, a performance e o universo acadêmico são quintais explorados pelo poeta. Desde então, indico a leitura dos seus poemas para todos os meus amigos.
Formado em Letras pela UFRS, Silvestrin coleciona publicações em verso e prosa, além de se dedicar à Editora Ameop e ao grupo PoETs - que acaba de lançar o CD Música Legal com Letra Bacana, que mistura música e poesia com bastante humor.
Não li todos os seus livros, mas tive acesso ao O Menos Vendido (Nankin Editorial), uma coletânea com poemas inéditos, que transmite a vontade de dizer a poesia para outras pessoas. Este livro recebeu o Prêmio Açorianos, de melhor livro de poesia de 2007, concedido pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. É o terceiro livro do poeta a receber a premiação.
eu poderia ficar a noite inteira aqui
a vida inteira
escrevendo esses poemas
mas preciso viver um pouquinho
para ter mais assunto
Gostou? Então leia o resultado desse encontro virtual, que aconteceu por MSN, com o poeta Ricardo Silvestrin.
CLICK(IN)VERSOS – É difícil trabalhar com literatura fora do eixo RIO- SP?
RICARDO SILVESTRIN - Não. A literatura é sempre fora dos eixos.
CLICK(IN)VERSOS – Internet ajuda a literatura? Como é a sua relação com a Internet?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Hoje conheço muitas pessoas de fora do RS. Mas sempre tive um trânsito bom em todo o Brasil. Desde os anos 80, Alice Ruiz, Leminski, Mano Melo, entre outros, sempre trocaram figurinhas comigo, mesmo sem Internet.
CLICK(IN)VERSOS – Como acontecia essa troca?
RICARDO SILVESTRIN - Por exemplo, a Alice e o Paulo vieram a Porto Alegre para um evento em 1987. Passei meu livro ‘Viagem dos Olhos’ para eles. Gostaram e convidaram para ir ao Encontro Brasileiro de Haicai em SP... Fomos... A Roda de Poesia, um evento que havia no Brique da Redenção por aqui também recebia os poetas que chegavam... Os poetas estão sempre ligados, de uma forma ou de outra se acham.
CLICK(IN)VERSOS – Eu conheci o seu trabalho na Web. A Internet colabora para a Literatura de que maneira? Existe a tão discutida 'Literatura de Internet'?
RICARDO SILVESTRIN - No meu caso, sou pré-internet. Demorei inclusive para fazer um site. No meu site, coloquei todas as faces da minha produção: a poesia com os 6 livros para adultos, mais os 4 de poesia para crianças, mais o caminho para o site dos poETs com o trabalho musical, os ensaios, a crítica a meu respeito, enfim, reuni tudo para que me visse por inteiro.
CLICK(IN)VERSOS – Quando você começou a se interessar por Literatura?
RICARDO SILVESTRIN - Desde criança, estou sempre ligado a coisas criativas, fazendo música, peça de teatro, na escola, em casa, com os amigos... Gostava muito das aulas de português, das crônicas, dos poemas nos livros como o Criatividade, que tinha quadrinhos, letras de música, poemas... Aos 15 anos, queria fazer uma banda de rock pesado, mas não tocava nada. Comecei a escrever letras para uma banda que não existia. Então, li o Manuel Bandeira e vi que queria ser poeta. Vi que o texto poderia ficar no papel e ser rock and roll.
CLICK(IN)VERSOS – Você lançou o CD Música Legal com Letra Bacana, com o PoETs. Como é essa relação de música e poesia?
RICARDO SILVESTRIN - Tem uma parte do trabalho de letra e de poema em que há uma intersecção entre as duas artes, que é na construção do verso. E tem outra parte em que cada uma das artes tem a sua especificidade (nós brincamos que falar essa palavra especificidade é um teste pra saber se o cara está bêbado...)
CLICK(IN)VERSOS – Letra de música é poesia? Ou poesia é letra de música?
RICARDO SILVESTRIN - A letra é parte da música. Tem a harmonia da música, a melodia da música, o ritmo da música, o pulso da música, a interpretação da música e a letra da música. A letra de música não tem esse nome por acaso. Não é um lapso: puxa esquecemos de chamar de poesia. Isso não tem nada que ver com uma idéia de valor. A letra é uma arte que pode ser tão culta e criativa quanto a poesia (escrita ou falada).
CLICK(IN)VERSOS – O que você prefere fazer música ou poesia? Por que?
RICARDO SILVESTRIN - Tem que escolher? A minha arte número um é a poesia. Adoro o poema no papel. Gosto muito também da música e da letra e do palco e de cantar. O que aprendi criando foi a compor a melodia e aí colocar a letra. É um trabalho também muito divertido.
CLICK(IN)VERSOS - É diferente o processo de criação da poesia e da música? Como acontece com você?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Poesia escrevo sozinho. Tenho um caminho criativo já de muitos anos. Vivo pensando em poesia. Se mostram uma caixinha de papelão, já penso, ó ficaria legal uns poemas ali dentro... Exploro possibilidades, leio os outros, enfim, sou poeta. Na letra, e não apenas na letra, na composição da música, trabalho predominantemente com o Ronald Augusto e o Alexandre Brito, que junto comigo formamos poETs. Nosso processo é coletivo. Juntos criamos uma seqüência de acordes (ou um já traz), daí partimos para a criação da melodia e só no fim colocamos a letra. E mesmo quando escrevo uma letra apenas para algum músico, penso numa letra e não num poema. Penso em algo bom de ser cantado. No poema, crio algo para ser lido.
CLICK(IN)VERSOS - Não tem vontade de escrever prosa?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Vou lançar um livro de contos em Abril. São 17 contos, cada um com a sua história. E tenho também uma coluna quinzenal com ensaios/crônicas no jornal Zero Hora.
CLICK(IN)VERSOS - E como é a experiência de escrever para jornal?
RICARDO SILVESTRIN - No jornal, o pedido da editoria é que fale sempre de algo relacionado à cultura, arte. Então, faço um misto de mini-ensaio com uma linguagem de crônica. Procura revelar algo interessante, mostrar um enfoque, ampliar o repertório dos leitores. A receptividade tem sido muito boa. Muita gente me escreve ou fala que leu.
CLICK(IN)VERSOS - Por que escrever? Por que poesia?
RICARDO SILVESTRIN - Escrevo para ser lido. Pelos outros e por mim mesmo. E poesia porque amo poesia.
CLICK(IN)VERSOS - O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra Mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção e Mmmmonstro!. Qual o seu preferido?
RICARDO SILVESTRIN - Acho que O Menos Vendido coloca uma produção de 336 páginas, só com poemas inéditos, que foram trabalhados com muita dedicação, ao longo de anos. O Palavra Mágica também reúne uma produção forte, foi a consolidação de uma procura estética. É tudo invenção foi um desafio legal, escrever poemas longos todos com aquela temática de encontrar versões para algumas coisas foram inventadas.
CLICK(IN)VERSOS - Porque você convidou o poeta Antônio Carlos Secchin para apresentar o seu livro O Menos Vendido?
RICARDO SILVESTRIN - O dos Planetas também tem um senso de humor e uma surpresa que me alegra muito. Enfim... O Secchin conheceu a minha poesia através de um jornal que circulou aí pelo Rio. Ele gostou muito do poema que leu e colocou como encerramento de uma aula inaugural numa universidade carioca. Saiu um livro com essa aula, e ele ligou para Porto Alegre atrás de mim para mandar o livro. Um cara que é um excelente poeta, que publica um poema meu e ainda acha um jeito de me achar merece um tratamento especial. O Pequenas Obsevações Sobre a Vida em Outros Planetas já está com 20 mil exemplares vendidos. A piazada adora.
CLICK(IN)VERSOS - Você é professor é graduado em Letras. O conhecimento acadêmico atrapalha na sua produção poética?
RICARDO SILVESTRIN - Não. Fui fazer Letras para conhecer mais o que faço. Achei alguns professores que foram importantes na minha busca: Tânia Carvalhal, Donaldo Schüler, enfim, gente que sabe das coisas.
CLICK(IN)VERSOS - Você também trabalha como publicitário. É impossível viver de literatura?
RICARDO SILVESTRIN - É impossível viver sem literatura.
CLICK(IN)VERSOS - Você tem uma editora, a AMEOP. Fale um pouco sobre esse trabalho.
RICARDO SILVESTRIN - A AMEOP lançou 14 livros de 14 poetas: Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Estrela Ruiz Leminski, Frank Jorge, Paulo Seben, Alexandre Brito, Ronald Augusto, entre outros. Fomos, eu e o Alexandre Brito, atrás de patrocinadores. Conseguimos. A idéia foi lançar os livros em precisar de grana de autor. Nem nossa! Fizemos lançamentos em Porto Alegre, Curitiba, Campinas e São Paulo. Sempre em sessões de autógrafos com vários poetas. Vendemos cerca de 150 livros em cada lançamento. Foi capa da Ilustrada.
CLICK(IN)VERSOS – Como conseguem grana para a publicação?
RICARDO SILVESTRIN - Pedimos papel para a Ripasa. E as gráficas Metrópole e Maredi imprimem. Mas o fundamental é a qualidade dos livros. Colocamos 14 bons poetas nas livrarias.
CLICK(IN)VERSOS – Qual o critério para escolha dos poetas que serão publicados?
RICARDO SILVESTRIN - O que eu e o Alexandre gostarmos.
CLICK(IN)VERSOS – Os títulos dos seus livros são bem criativos O Menos Vendido , Culto e Grosso. Como é o processo de escolha dos títulos dos seus livros?
RICARDO SILVESTRIN - Adoro criar títulos. Bashô um santo em mim começou pelo título. Tenho outros títulos sem livro ou que já foram o título, mas depois mudei. Guardo o título, quem sabe o uso mais adiante. O Menos Vendido é um exemplo disso. Penso numa solução que seja sonora e que cause uma curiosidade. Antes de tudo, que me divirta.
CLICK(IN)VERSOS – Você tem três livros infantis publicados. É diferente escrever para crianças e adultos?
RICARDO SILVESTRIN - Para ambos, escrevi poesia. A primeira coisa que me orienta é fazer um bom poema. A diferença nos para crianças e que procuro não fazer um poema difícil de entender nem com temática exclusivamente adulta. Desse modo, meus poemas para crianças são lidos também por adultos. E vários dos livros de adultos falo para as crianças quando vou a escolas.
CLICK(IN)VERSOS – Você tem filhos?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. A Carolina, que tem 19, e o Leonardo, que tem 10. Os dois gostam muito de arte. Gostam também de criar.
CLICK(IN)VERSOS – Você publica desde os anos 80. Como você analisa o movimento literário atual?
RICARDO SILVESTRIN - Acho que está havendo uma boa agitação tanto do mercado editorial, com as grandes editoras investindo, publicando, com grana dessas fusões, como da troca por Internet, além de eventos, saraus, shows, feiras de livro por todo o país, atividades em escolas. Houve um período ali nos anos 90 de baixa das editoras. Mas agora vejo com otimismo um grande interesse pela literatura.
CLICK(IN)VERSOS – Você lê os autores contemporâneos? Quem? Quais são os artistas gaúchos que você admira?
RICARDO SILVESTRIN - O bom da literatura é que sempre se está descobrindo novos autores. Por exemplo, o Erasmo de Roterdã, de 1511, é um autor novo para mim e com uma visão de mundo extremamente contemporânea no seu Elogio da Loucura. Mas sobres os contemporâneos-contemporâneos, na poesia, gosto muito de Geraldo Carneiro, Antônio Cícero, Chacal, Alice Ruiz, Ferreira Gullar, João Angelo Salvadori, Ronald Augusto, Alexandre Brito, Paulo Seben, Roberto Silvestrin, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, pra ficar nos vivos. Dos gaúchos, tem na lista acima quatro deles.
CLICK(IN)VERSOS – O que e/ou quem te influencia diretamente?
RICARDO SILVESTRIN - Ler poesia. Ver filme. Ver uma exposição de artes plásticas. Ouvir um cd. Rock, jazz...
CLICK(IN)VERSOS – O que você diria para um alguém que deseja ser escritor?
RICARDO SILVESTRIN - Que seja bom! Assim eu posso ler!
Dezembro de 2007 - Link publicado recentemente no Facebook, pelo Ricardo.
A MUTIPLICIDADE DE UM POETA
Passeando pelo calçadão virtual, no Orkut, conheci um poeta gaúcho chamado Ricardo Silvestrin. Fiquei entusiasmado ao esbarrar no site dele e perceber que a música, o jornalismo, a performance e o universo acadêmico são quintais explorados pelo poeta. Desde então, indico a leitura dos seus poemas para todos os meus amigos.
Formado em Letras pela UFRS, Silvestrin coleciona publicações em verso e prosa, além de se dedicar à Editora Ameop e ao grupo PoETs - que acaba de lançar o CD Música Legal com Letra Bacana, que mistura música e poesia com bastante humor.
Não li todos os seus livros, mas tive acesso ao O Menos Vendido (Nankin Editorial), uma coletânea com poemas inéditos, que transmite a vontade de dizer a poesia para outras pessoas. Este livro recebeu o Prêmio Açorianos, de melhor livro de poesia de 2007, concedido pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. É o terceiro livro do poeta a receber a premiação.
eu poderia ficar a noite inteira aqui
a vida inteira
escrevendo esses poemas
mas preciso viver um pouquinho
para ter mais assunto
Gostou? Então leia o resultado desse encontro virtual, que aconteceu por MSN, com o poeta Ricardo Silvestrin.
CLICK(IN)VERSOS – É difícil trabalhar com literatura fora do eixo RIO- SP?
RICARDO SILVESTRIN - Não. A literatura é sempre fora dos eixos.
CLICK(IN)VERSOS – Internet ajuda a literatura? Como é a sua relação com a Internet?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Hoje conheço muitas pessoas de fora do RS. Mas sempre tive um trânsito bom em todo o Brasil. Desde os anos 80, Alice Ruiz, Leminski, Mano Melo, entre outros, sempre trocaram figurinhas comigo, mesmo sem Internet.
CLICK(IN)VERSOS – Como acontecia essa troca?
RICARDO SILVESTRIN - Por exemplo, a Alice e o Paulo vieram a Porto Alegre para um evento em 1987. Passei meu livro ‘Viagem dos Olhos’ para eles. Gostaram e convidaram para ir ao Encontro Brasileiro de Haicai em SP... Fomos... A Roda de Poesia, um evento que havia no Brique da Redenção por aqui também recebia os poetas que chegavam... Os poetas estão sempre ligados, de uma forma ou de outra se acham.
CLICK(IN)VERSOS – Eu conheci o seu trabalho na Web. A Internet colabora para a Literatura de que maneira? Existe a tão discutida 'Literatura de Internet'?
RICARDO SILVESTRIN - No meu caso, sou pré-internet. Demorei inclusive para fazer um site. No meu site, coloquei todas as faces da minha produção: a poesia com os 6 livros para adultos, mais os 4 de poesia para crianças, mais o caminho para o site dos poETs com o trabalho musical, os ensaios, a crítica a meu respeito, enfim, reuni tudo para que me visse por inteiro.
CLICK(IN)VERSOS – Quando você começou a se interessar por Literatura?
RICARDO SILVESTRIN - Desde criança, estou sempre ligado a coisas criativas, fazendo música, peça de teatro, na escola, em casa, com os amigos... Gostava muito das aulas de português, das crônicas, dos poemas nos livros como o Criatividade, que tinha quadrinhos, letras de música, poemas... Aos 15 anos, queria fazer uma banda de rock pesado, mas não tocava nada. Comecei a escrever letras para uma banda que não existia. Então, li o Manuel Bandeira e vi que queria ser poeta. Vi que o texto poderia ficar no papel e ser rock and roll.
CLICK(IN)VERSOS – Você lançou o CD Música Legal com Letra Bacana, com o PoETs. Como é essa relação de música e poesia?
RICARDO SILVESTRIN - Tem uma parte do trabalho de letra e de poema em que há uma intersecção entre as duas artes, que é na construção do verso. E tem outra parte em que cada uma das artes tem a sua especificidade (nós brincamos que falar essa palavra especificidade é um teste pra saber se o cara está bêbado...)
CLICK(IN)VERSOS – Letra de música é poesia? Ou poesia é letra de música?
RICARDO SILVESTRIN - A letra é parte da música. Tem a harmonia da música, a melodia da música, o ritmo da música, o pulso da música, a interpretação da música e a letra da música. A letra de música não tem esse nome por acaso. Não é um lapso: puxa esquecemos de chamar de poesia. Isso não tem nada que ver com uma idéia de valor. A letra é uma arte que pode ser tão culta e criativa quanto a poesia (escrita ou falada).
CLICK(IN)VERSOS – O que você prefere fazer música ou poesia? Por que?
RICARDO SILVESTRIN - Tem que escolher? A minha arte número um é a poesia. Adoro o poema no papel. Gosto muito também da música e da letra e do palco e de cantar. O que aprendi criando foi a compor a melodia e aí colocar a letra. É um trabalho também muito divertido.
CLICK(IN)VERSOS - É diferente o processo de criação da poesia e da música? Como acontece com você?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Poesia escrevo sozinho. Tenho um caminho criativo já de muitos anos. Vivo pensando em poesia. Se mostram uma caixinha de papelão, já penso, ó ficaria legal uns poemas ali dentro... Exploro possibilidades, leio os outros, enfim, sou poeta. Na letra, e não apenas na letra, na composição da música, trabalho predominantemente com o Ronald Augusto e o Alexandre Brito, que junto comigo formamos poETs. Nosso processo é coletivo. Juntos criamos uma seqüência de acordes (ou um já traz), daí partimos para a criação da melodia e só no fim colocamos a letra. E mesmo quando escrevo uma letra apenas para algum músico, penso numa letra e não num poema. Penso em algo bom de ser cantado. No poema, crio algo para ser lido.
CLICK(IN)VERSOS - Não tem vontade de escrever prosa?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. Vou lançar um livro de contos em Abril. São 17 contos, cada um com a sua história. E tenho também uma coluna quinzenal com ensaios/crônicas no jornal Zero Hora.
CLICK(IN)VERSOS - E como é a experiência de escrever para jornal?
RICARDO SILVESTRIN - No jornal, o pedido da editoria é que fale sempre de algo relacionado à cultura, arte. Então, faço um misto de mini-ensaio com uma linguagem de crônica. Procura revelar algo interessante, mostrar um enfoque, ampliar o repertório dos leitores. A receptividade tem sido muito boa. Muita gente me escreve ou fala que leu.
CLICK(IN)VERSOS - Por que escrever? Por que poesia?
RICARDO SILVESTRIN - Escrevo para ser lido. Pelos outros e por mim mesmo. E poesia porque amo poesia.
CLICK(IN)VERSOS - O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra Mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção e Mmmmonstro!. Qual o seu preferido?
RICARDO SILVESTRIN - Acho que O Menos Vendido coloca uma produção de 336 páginas, só com poemas inéditos, que foram trabalhados com muita dedicação, ao longo de anos. O Palavra Mágica também reúne uma produção forte, foi a consolidação de uma procura estética. É tudo invenção foi um desafio legal, escrever poemas longos todos com aquela temática de encontrar versões para algumas coisas foram inventadas.
CLICK(IN)VERSOS - Porque você convidou o poeta Antônio Carlos Secchin para apresentar o seu livro O Menos Vendido?
RICARDO SILVESTRIN - O dos Planetas também tem um senso de humor e uma surpresa que me alegra muito. Enfim... O Secchin conheceu a minha poesia através de um jornal que circulou aí pelo Rio. Ele gostou muito do poema que leu e colocou como encerramento de uma aula inaugural numa universidade carioca. Saiu um livro com essa aula, e ele ligou para Porto Alegre atrás de mim para mandar o livro. Um cara que é um excelente poeta, que publica um poema meu e ainda acha um jeito de me achar merece um tratamento especial. O Pequenas Obsevações Sobre a Vida em Outros Planetas já está com 20 mil exemplares vendidos. A piazada adora.
CLICK(IN)VERSOS - Você é professor é graduado em Letras. O conhecimento acadêmico atrapalha na sua produção poética?
RICARDO SILVESTRIN - Não. Fui fazer Letras para conhecer mais o que faço. Achei alguns professores que foram importantes na minha busca: Tânia Carvalhal, Donaldo Schüler, enfim, gente que sabe das coisas.
CLICK(IN)VERSOS - Você também trabalha como publicitário. É impossível viver de literatura?
RICARDO SILVESTRIN - É impossível viver sem literatura.
CLICK(IN)VERSOS - Você tem uma editora, a AMEOP. Fale um pouco sobre esse trabalho.
RICARDO SILVESTRIN - A AMEOP lançou 14 livros de 14 poetas: Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Estrela Ruiz Leminski, Frank Jorge, Paulo Seben, Alexandre Brito, Ronald Augusto, entre outros. Fomos, eu e o Alexandre Brito, atrás de patrocinadores. Conseguimos. A idéia foi lançar os livros em precisar de grana de autor. Nem nossa! Fizemos lançamentos em Porto Alegre, Curitiba, Campinas e São Paulo. Sempre em sessões de autógrafos com vários poetas. Vendemos cerca de 150 livros em cada lançamento. Foi capa da Ilustrada.
CLICK(IN)VERSOS – Como conseguem grana para a publicação?
RICARDO SILVESTRIN - Pedimos papel para a Ripasa. E as gráficas Metrópole e Maredi imprimem. Mas o fundamental é a qualidade dos livros. Colocamos 14 bons poetas nas livrarias.
CLICK(IN)VERSOS – Qual o critério para escolha dos poetas que serão publicados?
RICARDO SILVESTRIN - O que eu e o Alexandre gostarmos.
CLICK(IN)VERSOS – Os títulos dos seus livros são bem criativos O Menos Vendido , Culto e Grosso. Como é o processo de escolha dos títulos dos seus livros?
RICARDO SILVESTRIN - Adoro criar títulos. Bashô um santo em mim começou pelo título. Tenho outros títulos sem livro ou que já foram o título, mas depois mudei. Guardo o título, quem sabe o uso mais adiante. O Menos Vendido é um exemplo disso. Penso numa solução que seja sonora e que cause uma curiosidade. Antes de tudo, que me divirta.
CLICK(IN)VERSOS – Você tem três livros infantis publicados. É diferente escrever para crianças e adultos?
RICARDO SILVESTRIN - Para ambos, escrevi poesia. A primeira coisa que me orienta é fazer um bom poema. A diferença nos para crianças e que procuro não fazer um poema difícil de entender nem com temática exclusivamente adulta. Desse modo, meus poemas para crianças são lidos também por adultos. E vários dos livros de adultos falo para as crianças quando vou a escolas.
CLICK(IN)VERSOS – Você tem filhos?
RICARDO SILVESTRIN - Sim. A Carolina, que tem 19, e o Leonardo, que tem 10. Os dois gostam muito de arte. Gostam também de criar.
CLICK(IN)VERSOS – Você publica desde os anos 80. Como você analisa o movimento literário atual?
RICARDO SILVESTRIN - Acho que está havendo uma boa agitação tanto do mercado editorial, com as grandes editoras investindo, publicando, com grana dessas fusões, como da troca por Internet, além de eventos, saraus, shows, feiras de livro por todo o país, atividades em escolas. Houve um período ali nos anos 90 de baixa das editoras. Mas agora vejo com otimismo um grande interesse pela literatura.
CLICK(IN)VERSOS – Você lê os autores contemporâneos? Quem? Quais são os artistas gaúchos que você admira?
RICARDO SILVESTRIN - O bom da literatura é que sempre se está descobrindo novos autores. Por exemplo, o Erasmo de Roterdã, de 1511, é um autor novo para mim e com uma visão de mundo extremamente contemporânea no seu Elogio da Loucura. Mas sobres os contemporâneos-contemporâneos, na poesia, gosto muito de Geraldo Carneiro, Antônio Cícero, Chacal, Alice Ruiz, Ferreira Gullar, João Angelo Salvadori, Ronald Augusto, Alexandre Brito, Paulo Seben, Roberto Silvestrin, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, pra ficar nos vivos. Dos gaúchos, tem na lista acima quatro deles.
CLICK(IN)VERSOS – O que e/ou quem te influencia diretamente?
RICARDO SILVESTRIN - Ler poesia. Ver filme. Ver uma exposição de artes plásticas. Ouvir um cd. Rock, jazz...
CLICK(IN)VERSOS – O que você diria para um alguém que deseja ser escritor?
RICARDO SILVESTRIN - Que seja bom! Assim eu posso ler!
Dezembro de 2007 - Link publicado recentemente no Facebook, pelo Ricardo.
Monday, September 27, 2010
Em tempo de eleição
O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons.
Martin Luther King
O que mais preocupa é o silêncio dos bons.
Martin Luther King
Friday, September 17, 2010
O alemão Hans-Thies Lehmann destaca o teatro pós-dramático
Sérgio Maggio
Publicação: 08/09/2010 08:46
É cada vez mais comum o espectador sair de um espetáculo sem saber se é teatro, dança, performance, show, artes visuais. Atordoado com tanto cruzamento de linguagens, não consegue conceituar o que lhe parece escapulir aos padrões do drama convencional, com narrativa sustentada num texto de começo, meio e fim. A confusão estética, que se acentua como um problema de fruição, tem resposta, ou melhor uma bela análise no livro Teatro pós-dramático, do alemão Hans-Thies Lehmann, que virou leitura obrigatória entre estudiosos das artes cênicas.
Na segunda-feira, o encontro que parecia improvável, para quem encontrou alento nos conceitos do teatrólogo alemão, concretizou-se no Teatro Helena Barcelos (do Instituto de Artes da UnB). Leitores e autor ficaram frente a frente para ouvir as noções que norteiam a obra do alemão Hans-Thies Lehmann. Estudantes, professores e artistas encheram o espaço para acompanhá-lo atentamente. Bem-humorado, o teórico falou sobre a crise do drama burguês, questionado logo ao fim do século 19, e voltou para os elementos da tragédia grega (o coro, a máscara) a fim de mostrar que a arte de hoje dialoga melhor com a história, retomando elementos rituais e da ancestralidade.
- No século 20, diversos campos do conhecimento (sociologia, linguagem, psicanálise) apontam um novo conceito para o ser humano, que não é mais um ente autônomo e, sim um sujeito levado pelas circunstâncias. E o teatro responde a isso, rompendo com a identificação do drama moderno em que o homem é visto como herói, observa.
Vida absurda
Lehmann brinca e faz até piada. Lembra aqueles que definem o teatro do século 20 como o teatro do século 19, da ideologia burguesa que nasce com o renascimento e se prolonga. Mas ressalta que Shakespeare não precisou de Beckett para reafirmar o absurdo que é a vida humana.
- Basta lembrar a célebre frase de Shakespeare: "A vida é feita de som e fúria sobre o nada".
Essa resposta ao homem que é afetado pela circunstância social surge reposicionando o papel do espectador, na explosão dos espaço cênicos, numa dramaturgia do corpo e da voz, na fragmentação da narrativa, no papel do ator, que agora não só representa, mas também se presentifica no palco. Apresenta-se também como um ser político. Lehmann não cria um rótulo para ser aplicado nesse ou naquele teatro, apenas fornece um arcabouço teórico para que se entenda uma cena complexa, que já não cabe mais nas relações clássicas de texto, diretor, ator.
- São formas híbridas que se manifestam em possibilidades para o teatro questionar o papel do espectador de provocar o seu olhar diante da sociedade do espetáculo, observa Lehmann, que ainda orientou individualmente trabalhos de pesquisa ao lado da professora Eleni Varopoulou, especialista em teatro grego antigo e contemporâneo.
A vinda do alemão Hans-Thies Lehmann para a UnB foi organizada pela Tanteatro Companhia em parceria com o Laboratório de Dramaturgia e Imaginação Dramático (Ladi), coordenado pelo professor e dramaturgo Marcus Mota.
Esta é a terceira vez que o crítico e professor de teatro alemão Hans-Thies Lehmann vem ao Brasil. Ele esteve aqui, em 2006, e integrou as comemorações ao cinquentenário de morte do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Em 2009, voltou para lançar Teatro pós-dramático. Agora, visita universidades em São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis e Salvador.
Mestre
Hans-Thies Lehmann é um dos mais importantes teóricos do teatro contemporâneo e da estética teatral. É professor de Estudos Teatrais da Universidade Goethe, em Frankfurt am Main/Alemanha, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas. Entre seus livros destacam-se Teatro Pós-dramático e Escritura política no texto teatral.
Para saber mais
Outra forma de fazer arte
O que Lehmann propõe no livro, sobretudo, é a quebra de um paradigma para um teatro em crise, que não é mais capaz de atender as demandas do homem do século 20, perdendo-se como linguagem diante de meios potentes da indústria midiática, como o cinema e a televisão. Esse teatro burguês, sustentado no diálogo e na identificação do homem como um ser capaz de alterar o destino, entra em colapso por não mais ser capaz emancipar o espectador como um agente ativo de recepção.
Ao longo do século 20, aos poucos, premissas estéticas questionaram o lugar do drama e a força do texto como um guia da representação. Outros autores, sobretudo os do teatro do absurdo como Samuel Beckett, trituram a dramaturgia aristotélica em fragmentos, ao passo que homens de teatro, como Brecht, propuseram técnicas capazes de emancipar a audiência. Isso sem falar no vertiginoso avanço das tecnologias e da adesão de seus elementos na cena, erguida também com a narrativa das artes da imagem, do cinema, das artes plásticas, do circo.
O teatro pós-dramático seria provocado pelo teatro de estética pós-moderna dos anos 1960 e começa a se estabelecer, sobretudo, na década de 1980. "Esta nova forma teatral não procura suscitar a adesão do espectador, mas provocar sua percepção ou emoção significativa. Os aspectos fragmentários desses textos, ou dessas montagens, permeiam uma reescritura cênica que engloba os aspectos textuais, cenográficos e os problemas que são propostos por um jogo não necessariamente psicológico."
--
Eu não disse que a palavra não era nada {...} disse que o teatro não se limitava à palavra. Juntei o corpo à palavra {...}. Procuro, para além da palavra, a razão da palavra e, para além da gesticulação, procuro o mito (em 1947).
Antonin Artaud - in Cahiers de la Pléiade, VII, Printemps 1949; Paris, Gallimard, p.109. Ao ler as críticas ao seu texto Le Théâtre et son Double (1938), publicadas no jornal Combat.
Correio Braziliense
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/08/diversaoearte,i=211950/O+ALEMAO+HANS+THIES+LEHMANN+DESTACA+O+TEATRO+POS+DRAMATICO.shtml
Publicação: 08/09/2010 08:46
É cada vez mais comum o espectador sair de um espetáculo sem saber se é teatro, dança, performance, show, artes visuais. Atordoado com tanto cruzamento de linguagens, não consegue conceituar o que lhe parece escapulir aos padrões do drama convencional, com narrativa sustentada num texto de começo, meio e fim. A confusão estética, que se acentua como um problema de fruição, tem resposta, ou melhor uma bela análise no livro Teatro pós-dramático, do alemão Hans-Thies Lehmann, que virou leitura obrigatória entre estudiosos das artes cênicas.
Na segunda-feira, o encontro que parecia improvável, para quem encontrou alento nos conceitos do teatrólogo alemão, concretizou-se no Teatro Helena Barcelos (do Instituto de Artes da UnB). Leitores e autor ficaram frente a frente para ouvir as noções que norteiam a obra do alemão Hans-Thies Lehmann. Estudantes, professores e artistas encheram o espaço para acompanhá-lo atentamente. Bem-humorado, o teórico falou sobre a crise do drama burguês, questionado logo ao fim do século 19, e voltou para os elementos da tragédia grega (o coro, a máscara) a fim de mostrar que a arte de hoje dialoga melhor com a história, retomando elementos rituais e da ancestralidade.
- No século 20, diversos campos do conhecimento (sociologia, linguagem, psicanálise) apontam um novo conceito para o ser humano, que não é mais um ente autônomo e, sim um sujeito levado pelas circunstâncias. E o teatro responde a isso, rompendo com a identificação do drama moderno em que o homem é visto como herói, observa.
Vida absurda
Lehmann brinca e faz até piada. Lembra aqueles que definem o teatro do século 20 como o teatro do século 19, da ideologia burguesa que nasce com o renascimento e se prolonga. Mas ressalta que Shakespeare não precisou de Beckett para reafirmar o absurdo que é a vida humana.
- Basta lembrar a célebre frase de Shakespeare: "A vida é feita de som e fúria sobre o nada".
Essa resposta ao homem que é afetado pela circunstância social surge reposicionando o papel do espectador, na explosão dos espaço cênicos, numa dramaturgia do corpo e da voz, na fragmentação da narrativa, no papel do ator, que agora não só representa, mas também se presentifica no palco. Apresenta-se também como um ser político. Lehmann não cria um rótulo para ser aplicado nesse ou naquele teatro, apenas fornece um arcabouço teórico para que se entenda uma cena complexa, que já não cabe mais nas relações clássicas de texto, diretor, ator.
- São formas híbridas que se manifestam em possibilidades para o teatro questionar o papel do espectador de provocar o seu olhar diante da sociedade do espetáculo, observa Lehmann, que ainda orientou individualmente trabalhos de pesquisa ao lado da professora Eleni Varopoulou, especialista em teatro grego antigo e contemporâneo.
A vinda do alemão Hans-Thies Lehmann para a UnB foi organizada pela Tanteatro Companhia em parceria com o Laboratório de Dramaturgia e Imaginação Dramático (Ladi), coordenado pelo professor e dramaturgo Marcus Mota.
Esta é a terceira vez que o crítico e professor de teatro alemão Hans-Thies Lehmann vem ao Brasil. Ele esteve aqui, em 2006, e integrou as comemorações ao cinquentenário de morte do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Em 2009, voltou para lançar Teatro pós-dramático. Agora, visita universidades em São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis e Salvador.
Mestre
Hans-Thies Lehmann é um dos mais importantes teóricos do teatro contemporâneo e da estética teatral. É professor de Estudos Teatrais da Universidade Goethe, em Frankfurt am Main/Alemanha, e membro da Academia Alemã de Artes Cênicas. Entre seus livros destacam-se Teatro Pós-dramático e Escritura política no texto teatral.
Para saber mais
Outra forma de fazer arte
O que Lehmann propõe no livro, sobretudo, é a quebra de um paradigma para um teatro em crise, que não é mais capaz de atender as demandas do homem do século 20, perdendo-se como linguagem diante de meios potentes da indústria midiática, como o cinema e a televisão. Esse teatro burguês, sustentado no diálogo e na identificação do homem como um ser capaz de alterar o destino, entra em colapso por não mais ser capaz emancipar o espectador como um agente ativo de recepção.
Ao longo do século 20, aos poucos, premissas estéticas questionaram o lugar do drama e a força do texto como um guia da representação. Outros autores, sobretudo os do teatro do absurdo como Samuel Beckett, trituram a dramaturgia aristotélica em fragmentos, ao passo que homens de teatro, como Brecht, propuseram técnicas capazes de emancipar a audiência. Isso sem falar no vertiginoso avanço das tecnologias e da adesão de seus elementos na cena, erguida também com a narrativa das artes da imagem, do cinema, das artes plásticas, do circo.
O teatro pós-dramático seria provocado pelo teatro de estética pós-moderna dos anos 1960 e começa a se estabelecer, sobretudo, na década de 1980. "Esta nova forma teatral não procura suscitar a adesão do espectador, mas provocar sua percepção ou emoção significativa. Os aspectos fragmentários desses textos, ou dessas montagens, permeiam uma reescritura cênica que engloba os aspectos textuais, cenográficos e os problemas que são propostos por um jogo não necessariamente psicológico."
--
Eu não disse que a palavra não era nada {...} disse que o teatro não se limitava à palavra. Juntei o corpo à palavra {...}. Procuro, para além da palavra, a razão da palavra e, para além da gesticulação, procuro o mito (em 1947).
Antonin Artaud - in Cahiers de la Pléiade, VII, Printemps 1949; Paris, Gallimard, p.109. Ao ler as críticas ao seu texto Le Théâtre et son Double (1938), publicadas no jornal Combat.
Correio Braziliense
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/08/diversaoearte,i=211950/O+ALEMAO+HANS+THIES+LEHMANN+DESTACA+O+TEATRO+POS+DRAMATICO.shtml
Thursday, September 09, 2010
“Unhappy theater”
Cinco anos se passaram desde a última vez que estive no Theatro São Pedro para assistir Happy Days de Peter Brook. Lembro que quase morri de tédio. Mas não sabia dizer se o espetáculo realmente não prestava, pois meu irmão havia morrido naquela semana aos 49 anos de um ataque cardíaco fulminante. Tentei seguir assistindo aos espetáculos como uma homenagem a ele que, certamente, gostaria que eu continuasse as minhas atividades, sobretudo as que, normalmente, me dariam prazer. Porém, nenhum talento cênico conseguiria aliviar o sentimento que me ia à alma. Lembro que no intervalo perguntei a um colega que conhecia o texto se valia à pena ficar, se melhorava e, como havia de fato uma mudança, ele disse que sim. Entretanto, o que acontecia não podia ser considerado como algo positivo, ainda mais naquele meu estado de espírito. Pois bem. Hoje, voltei.
Estou acostumada a ver Eva Sopher na entrada, mas desta vez lá estava Luis Fernando Veríssimo que, para mim, é praticamente um personagem, pois existe o texto de LFV e o próprio e, mesmo que não o conheça de perto, desconfio que eles sejam bem diferentes. Bem, mas sempre gostei de ir ao teatro e, embora não queira parecer arrogante, devo dizer que meu sentimento é ainda mais intenso agora que sou mestra em artes cênicas. Explico: ver o Theatro São Pedro lotado já me deixa feliz e é nestas horas que uma quinta feira sem graça se transforma em um happy day.
Levanto para cumprimentar Sandra Dani e Luiz Paulo Vasconcellos que, agora, considero meus amigos. Muitas outras caras conhecidas estão espalhadas pela plateia. Laura Backes, Inês Marocco, Mirna Spritzer, Flávio Maineri, Mônica Bonatto... Assim como muita gente que nunca vi e outras que eu gostaria de conhecer. De repente, me dou conta que já faz mais de dez anos que entrei neste universo. Como eu sempre soube, é um povo diferente este do teatro, gente que continua me atraindo. Desta forma, apesar de ainda não terem dado o sinal, nem apagado as luzes, sinto que o “evento” teatro já começou.
O espetáculo começa. A atriz murmura alguma coisa e eu penso: em que língua ela está falando? Só depois reconheço que é francês. Mas sem legendas? O que ela dizia não era nada de tão importante, mas podia imaginar como as pessoas que não sabem esta língua (ah...coitadas) deviam estar angustiadas por não compreenderem. Na hora, lembrei de um espetáculo que assisti no SESI em alemão onde todos riam e eu imaginava que era muito estranho tantas pessoas compreenderem. Só depois me dei conta de que eu é que não estava vendo a legenda. Assim, hoje, comecei a procurar onde estaria e aos poucos, apesar de toda a luminosidade que vinha do fundo do palco comecei a enxergar as letras. Uma senhora ao meu lado coloca seus óculos escuros. O efeito de contraste entre o morro negro onde se encontra a atriz e a luz de fundo, apesar de esteticamente muito interessante, provoca desconforto e atrapalha completamente a leitura.
Enquanto a monotonia começa a chegar, lembro das mediações feitas na Bienal e me pergunto: sobre o que é o espetáculo? Mesmo encontrando respostas como: é sobre o patético da vida, sentia que algo não estava funcionando ali. A platéia faz um silêncio enorme. Mesmo as tosses, tão comuns nestes momentos, estavam praticamente sumidas. E, enquanto o texto vai sendo despejado com um sotaque que mais me lembrava uma feirante em Marseille, vou sentindo necessidade de olhar o relógio. Havia se passado apenas meia hora e o sono já começava a chegar de forma incontrolável. Logo eu que este ano fiz questão de não comprar ingressos para o espetáculo japonês com medo de que eles botassem toda a minha cultura ocidental para dormir.
Para não achar que esta sonolência era apenas fruto da minha ignorância começo a tentar fazer reflexões sobre a dramaturgia de Samuel Beckett. Afinal, sou encantada com Esperando Godot e ainda lembro como foi incrível dizer algumas falas deste texto na montagem de Zé Adão Barbosa nos tempos em que fazia oficinas. Sigo meu raciocínio: humm, há aqui uma não relação e ao mesmo tempo uma dependência entre os personagens....Enquanto me disperso em minhas análises, chega o intervalo. É quando o professor Mainieri me pergunta: “tu fazes crítica?”. Falo do meu trabalho de mestrado que me incentivou a querer escrever sobre os espetáculos já que sigo não encontrando uma definição que me convença sobre as diferenças entre opinião, comentário e crítica.
Troco minhas impressões com algumas pessoas e além de concordarmos que o espetáculo está botando para dormir, descubro que isto ocorre porque há um problema na interpretação da atriz que apenas despeja o texto, acrescentando interjeições desnecessárias. Neste momento, concluo que há uma falta de sutileza na hora de dizer as palavras do texto cujas intenções do autor precisariam ser respeitadas. Caso contrário, como dizia meu professor Sergio Silva, tudo pode estar perdido. E é isso que está acontecendo ali.
Apesar da introdução de alguns ruídos semelhantes a trovões (que não recordo de ter ouvido na montagem de 2005) estou de novo com os mesmos sentimentos daquela última vez em que assisti a montagem de Happy Days e posso garantir que este ano não tenho a morte de nenhum parente próximo que possa justificá-los. Felizmente, sabia que faltava, aproximadamente, 40 minutos para terminar e, quando isso acontece, as pessoas aplaudem de pé, algumas gritam bravo e eu concluo, mais uma vez, que certamente a minha “opinião comentada criticamente” não vai agradar todo mundo. Não faz mal. Defendo, justamente, a provocação do debate que em casos como este costuma ser muito mais interessantes do que a própria obra. São os mistérios da arte.
PS: Caso não tenha ficado claro, o espetáculo era legendado.
Estou acostumada a ver Eva Sopher na entrada, mas desta vez lá estava Luis Fernando Veríssimo que, para mim, é praticamente um personagem, pois existe o texto de LFV e o próprio e, mesmo que não o conheça de perto, desconfio que eles sejam bem diferentes. Bem, mas sempre gostei de ir ao teatro e, embora não queira parecer arrogante, devo dizer que meu sentimento é ainda mais intenso agora que sou mestra em artes cênicas. Explico: ver o Theatro São Pedro lotado já me deixa feliz e é nestas horas que uma quinta feira sem graça se transforma em um happy day.
Levanto para cumprimentar Sandra Dani e Luiz Paulo Vasconcellos que, agora, considero meus amigos. Muitas outras caras conhecidas estão espalhadas pela plateia. Laura Backes, Inês Marocco, Mirna Spritzer, Flávio Maineri, Mônica Bonatto... Assim como muita gente que nunca vi e outras que eu gostaria de conhecer. De repente, me dou conta que já faz mais de dez anos que entrei neste universo. Como eu sempre soube, é um povo diferente este do teatro, gente que continua me atraindo. Desta forma, apesar de ainda não terem dado o sinal, nem apagado as luzes, sinto que o “evento” teatro já começou.
O espetáculo começa. A atriz murmura alguma coisa e eu penso: em que língua ela está falando? Só depois reconheço que é francês. Mas sem legendas? O que ela dizia não era nada de tão importante, mas podia imaginar como as pessoas que não sabem esta língua (ah...coitadas) deviam estar angustiadas por não compreenderem. Na hora, lembrei de um espetáculo que assisti no SESI em alemão onde todos riam e eu imaginava que era muito estranho tantas pessoas compreenderem. Só depois me dei conta de que eu é que não estava vendo a legenda. Assim, hoje, comecei a procurar onde estaria e aos poucos, apesar de toda a luminosidade que vinha do fundo do palco comecei a enxergar as letras. Uma senhora ao meu lado coloca seus óculos escuros. O efeito de contraste entre o morro negro onde se encontra a atriz e a luz de fundo, apesar de esteticamente muito interessante, provoca desconforto e atrapalha completamente a leitura.
Enquanto a monotonia começa a chegar, lembro das mediações feitas na Bienal e me pergunto: sobre o que é o espetáculo? Mesmo encontrando respostas como: é sobre o patético da vida, sentia que algo não estava funcionando ali. A platéia faz um silêncio enorme. Mesmo as tosses, tão comuns nestes momentos, estavam praticamente sumidas. E, enquanto o texto vai sendo despejado com um sotaque que mais me lembrava uma feirante em Marseille, vou sentindo necessidade de olhar o relógio. Havia se passado apenas meia hora e o sono já começava a chegar de forma incontrolável. Logo eu que este ano fiz questão de não comprar ingressos para o espetáculo japonês com medo de que eles botassem toda a minha cultura ocidental para dormir.
Para não achar que esta sonolência era apenas fruto da minha ignorância começo a tentar fazer reflexões sobre a dramaturgia de Samuel Beckett. Afinal, sou encantada com Esperando Godot e ainda lembro como foi incrível dizer algumas falas deste texto na montagem de Zé Adão Barbosa nos tempos em que fazia oficinas. Sigo meu raciocínio: humm, há aqui uma não relação e ao mesmo tempo uma dependência entre os personagens....Enquanto me disperso em minhas análises, chega o intervalo. É quando o professor Mainieri me pergunta: “tu fazes crítica?”. Falo do meu trabalho de mestrado que me incentivou a querer escrever sobre os espetáculos já que sigo não encontrando uma definição que me convença sobre as diferenças entre opinião, comentário e crítica.
Troco minhas impressões com algumas pessoas e além de concordarmos que o espetáculo está botando para dormir, descubro que isto ocorre porque há um problema na interpretação da atriz que apenas despeja o texto, acrescentando interjeições desnecessárias. Neste momento, concluo que há uma falta de sutileza na hora de dizer as palavras do texto cujas intenções do autor precisariam ser respeitadas. Caso contrário, como dizia meu professor Sergio Silva, tudo pode estar perdido. E é isso que está acontecendo ali.
Apesar da introdução de alguns ruídos semelhantes a trovões (que não recordo de ter ouvido na montagem de 2005) estou de novo com os mesmos sentimentos daquela última vez em que assisti a montagem de Happy Days e posso garantir que este ano não tenho a morte de nenhum parente próximo que possa justificá-los. Felizmente, sabia que faltava, aproximadamente, 40 minutos para terminar e, quando isso acontece, as pessoas aplaudem de pé, algumas gritam bravo e eu concluo, mais uma vez, que certamente a minha “opinião comentada criticamente” não vai agradar todo mundo. Não faz mal. Defendo, justamente, a provocação do debate que em casos como este costuma ser muito mais interessantes do que a própria obra. São os mistérios da arte.
PS: Caso não tenha ficado claro, o espetáculo era legendado.
Thursday, September 02, 2010
Divulgação de espetáculo
"A FUGA"
Estréia SEXTA-FEIRA 3 de setembro!
"A FUGA" é uma emocionante história de luta, superação e amor!
A vida de uma mulher corajosa, casada, com 11 filhos que, em 1910 fugiu de um marido agressivo,e de sua cidade - Santa Vitória do Palmar - rumo à cidade de Rio Grande, levando 8 de seus 11 filhos, numa carroça de boi... numa viagem de 32 dias!
Peça adulta - Tempo aproximado: 30 minutos.
TEATRO GLÊNIO PERES - Av. Loureiro da Silva, 255. Centro. (Câmara Municipal)
(Estacionamento cortesia no pátio).
Todas as sextas-feiras do mês de setembro: 3, 10, 17 e 24 às 20 horas Entrada franca.
Dia 10 de setembro, intérprete de LIBRAS (linguagem para surdos) com Mariana Alencastro
Estréia SEXTA-FEIRA 3 de setembro!
"A FUGA" é uma emocionante história de luta, superação e amor!
A vida de uma mulher corajosa, casada, com 11 filhos que, em 1910 fugiu de um marido agressivo,e de sua cidade - Santa Vitória do Palmar - rumo à cidade de Rio Grande, levando 8 de seus 11 filhos, numa carroça de boi... numa viagem de 32 dias!
Peça adulta - Tempo aproximado: 30 minutos.
TEATRO GLÊNIO PERES - Av. Loureiro da Silva, 255. Centro. (Câmara Municipal)
(Estacionamento cortesia no pátio).
Todas as sextas-feiras do mês de setembro: 3, 10, 17 e 24 às 20 horas Entrada franca.
Dia 10 de setembro, intérprete de LIBRAS (linguagem para surdos) com Mariana Alencastro
Monday, August 30, 2010
Eu tive um sonho?
A semana veio e a semana se foi. Estou em uma outra semana. Se não escrevo sobre o que acontece parece que não terminei as tarefas daquela semana. Ainda mais se foram importantes. Se foram especiais. Minha participação no Seminário de 20 anos do Teatro Nilton Filho foi como realizar um sonho. Isso se eu tivesse tido a ousadia de sonhar que um dia estaria lá, no palco, falando de teatro, de crítica teatral, de mim, agora mestra em artes cênicas.
Muita gente diz que se não sonhamos não atingimos objetivos. Não sei se é mesmo assim. A vida segue me surpreendendo. Algumas frustrações do passado me fizeram parar de criar expectativas grandiosas, de pretender realizar coisas fantásticas e nem por isso elas deixam de acontecer. Sendo assim, lá estava eu, me sentindo entre amigos. Recebida com carinho e elogios. O reconhecimento dos meus esforços e da minha paixão pelo teatro já havia acontecido pelo convite para estar lá. Nilton Filho reuniu um grupo receptivo, simpático que ocupava as cadeiras vermelhas da plateia. Ao meu lado Maristela Bairros que eu conhecia muito de ouvir falar e de algumas rápidas apresentações por seus amigos e Newton Silva, meu colega de mestrado e também jornalista.
Pensar em estar diante de uma plateia sempre me deixa com um misto de inquietação e alegria. Falar de um assunto que me apaixona também. Me preocupa pensar que meu entusiasmo possa turvar minhas ideias e que eu não saiba repassar coisas que possam ser aproveitadas por aqueles que me ouvem. De qualquer forma, foi divertido. Afinal, havia pensado que não iria somente apresentar minha pesquisa de mestrado. Mas sim, começar a apresentar as questões que investiguei, assumir algumas posições sobre o tema e tentar fazer com que as pessoas se sentissem motivadas a pensar sobre. Tive a impressão de que consegui, pois no final fizeram comentários instigantes, quiseram falar comigo depois...Porém, não vou entrar em detalhes da apresentação, nem do que discutimos. Porque não foi a razão, os produtos do intelecto, o mais importante daquele momento. Não para mim.
Preciso registrar a gentileza e a ideia criativa e inteligente desta dupla Nilton Filho e Hyro Mattos que, após a nossa apresentação, trouxe uma espécie de troféu para cada um dos “palestrantes” (eu!) que era um pedaço do tijolo-o do próprio teatro que nestes anos todos passou por profundas reformas e vidro com um papel escrito: “Certificado de gratidão”. Como se não bastasse, ainda explicaram que o tijolo significa a solidez do trabalho e o vidro a transparência das atitudes. Nenhum comunicador ou profissional do marketing teria feito melhor. Esta ideia tinha que vir mesmo destes dois artistas arteiros.
Nilton Filho poderia ter sido apenas mais um professor de um curso que nem cheguei a terminar, mas como alguns poucos outros que, felizmente, cruzaram o meu caminho, ele se transformou em um mestre e um amigo. Tem compartilhado comigo minhas dificuldades e minhas alegrias que, aliás, desde que eu passei a contar com sua visão da vida, seu apoio e seu afeto, tem sido cada vez maiores. E assim, chorei de emoção ao receber esta homenagem porque não tenho dúvidas de que era um momento mágico e confesso que ficou difícil não duvidar de que estava sonhando.
Muita gente diz que se não sonhamos não atingimos objetivos. Não sei se é mesmo assim. A vida segue me surpreendendo. Algumas frustrações do passado me fizeram parar de criar expectativas grandiosas, de pretender realizar coisas fantásticas e nem por isso elas deixam de acontecer. Sendo assim, lá estava eu, me sentindo entre amigos. Recebida com carinho e elogios. O reconhecimento dos meus esforços e da minha paixão pelo teatro já havia acontecido pelo convite para estar lá. Nilton Filho reuniu um grupo receptivo, simpático que ocupava as cadeiras vermelhas da plateia. Ao meu lado Maristela Bairros que eu conhecia muito de ouvir falar e de algumas rápidas apresentações por seus amigos e Newton Silva, meu colega de mestrado e também jornalista.
Pensar em estar diante de uma plateia sempre me deixa com um misto de inquietação e alegria. Falar de um assunto que me apaixona também. Me preocupa pensar que meu entusiasmo possa turvar minhas ideias e que eu não saiba repassar coisas que possam ser aproveitadas por aqueles que me ouvem. De qualquer forma, foi divertido. Afinal, havia pensado que não iria somente apresentar minha pesquisa de mestrado. Mas sim, começar a apresentar as questões que investiguei, assumir algumas posições sobre o tema e tentar fazer com que as pessoas se sentissem motivadas a pensar sobre. Tive a impressão de que consegui, pois no final fizeram comentários instigantes, quiseram falar comigo depois...Porém, não vou entrar em detalhes da apresentação, nem do que discutimos. Porque não foi a razão, os produtos do intelecto, o mais importante daquele momento. Não para mim.
Preciso registrar a gentileza e a ideia criativa e inteligente desta dupla Nilton Filho e Hyro Mattos que, após a nossa apresentação, trouxe uma espécie de troféu para cada um dos “palestrantes” (eu!) que era um pedaço do tijolo-o do próprio teatro que nestes anos todos passou por profundas reformas e vidro com um papel escrito: “Certificado de gratidão”. Como se não bastasse, ainda explicaram que o tijolo significa a solidez do trabalho e o vidro a transparência das atitudes. Nenhum comunicador ou profissional do marketing teria feito melhor. Esta ideia tinha que vir mesmo destes dois artistas arteiros.
Nilton Filho poderia ter sido apenas mais um professor de um curso que nem cheguei a terminar, mas como alguns poucos outros que, felizmente, cruzaram o meu caminho, ele se transformou em um mestre e um amigo. Tem compartilhado comigo minhas dificuldades e minhas alegrias que, aliás, desde que eu passei a contar com sua visão da vida, seu apoio e seu afeto, tem sido cada vez maiores. E assim, chorei de emoção ao receber esta homenagem porque não tenho dúvidas de que era um momento mágico e confesso que ficou difícil não duvidar de que estava sonhando.
Monday, August 23, 2010
Karma
Se tu não tivesses sofrido por minha causa
Aposto que já teria morrido.
Ai de mim que ainda te gosto
e nunca imaginaria que seria assim.
Aposto que já teria morrido.
Ai de mim que ainda te gosto
e nunca imaginaria que seria assim.
Friday, August 20, 2010
Por que ainda somos os mesmos
Fui assistir ADOLESCER a convite de uma tia que, por sua vez, foi convidada por José Outeiral, supervisor do espetáculo. Nem sabia que existia esta função... Não teria ido por conta própria. Talvez, porque esta fosse uma época da minha vida da qual não sinto exatamente falta. Não sabia quase nada de sexo, tinha discussões homéricas com meu pai, não gostava do meu corpo e era ridicularizada na escola. Não saber o que fazer no futuro me angustiava a ponto de me deprimir. Pronto. Fiz um resumo deste período, na minha ótica, daquele tempo.
Mas foi ótimo ter ido. Primeiro, porque o elenco é muito bom. E não me peçam para explicar o que este adjetivo exatamente quer dizer. Eles são expressivos, dizem os textos de maneira convincente e dançam maravilhosamente bem. Além disso, fazem mais de um papel ao mesmo tempo e são bons em todos eles. O nome da diretora, Vanja Ca Michel não me é estranho, mas pouco sei dela. Trata-se da diretora deste espetáculo que reúne 15 atores, entre estes, João Carlos Castanha. Este sim, meu conhecido. O nome, quero dizer.
O teatro Bruno Kieffer estava, praticamente, lotado. Na maioria, adolescentes. Dava para ver que eram grupos organizados, trazidos, especificamente, para ver o espetáculo. Aliás, achei que seria difícil assistir ao espetáculo com toda aquela agitação. Falavam alto, se mexiam nas poltronas. Não pareciam acostumados com o espaço. Uma professora sentou do meu lado. Tentou, no início, coibir os movimentos e a falação. Pensei que isso seria ainda pior. Lembrei direto da Bienal quando os alunos ficavam excitados com a provocação dos artistas e que os responsáveis vinham com suas ordens, com seu autoritarismo tentar proibir as reações. Além de não conseguirem, só aumentavam o tumulto. Felizmente, ela logo se acalmou. E não foi só ela. Toda a plateia. Pude perceber, claramente, que a dança inicial, as primeiras aparições dos atores e atrizes iam levando os adolescentes presentes para uma atitude de respeito e atenção ao que estava acontecendo no palco. Isso já demonstrava a estratégia bem sucedida da direção.
Quanto ao resto, acho que não me cabe dizer se os temas estão sendo bem tratados ou não. Mas, também não posso deixar passar em branco as informações sobre as questões sexuais. Há muito tempo (estou perto de completar meio século), me indigna as formas equivocadas de tratar homens e mulheres e suas relações. Sempre foi assim. Desde menina. Para mim, sempre fomos todos seres humanos antes de qualquer outra diferença. Então, ainda me agride pensar que em pleno século XXI ainda tenha que se registrar que as meninas que fazem sexo não devam ser chamadas de galinhas, enquanto os caras são garanhões. Porém, não me parece nada inteligente passar elas a se chamarem de “pegadoras”. Em minha opinião de mulher, antes da jornalista ou mestra em artes cênicas, não é por aí que vamos resolver este assunto. Outro dia, ouvia Flavio Gikovate na tv falar justamente sobre o fato de não ser nada verdadeiro enfatizar as grandes vantagens do sexo casual, quando o melhor sexo acontece com alguém que a gente tem cumplicidade, algo, aliás, que não nasce da noite para o dia.
Outra coisa que também me deixa desconfortável é que ainda há uma reação de prazer, misturada a constrangimento quando são ditos “palavrões” no palco. Claro que entendo que esta é uma maneira de justamente criar uma identificação da peça com o seu público. Não me incomoda nenhum pouco que estes sejam ditos. O que me aborrece é que isso ainda faça a adolescência de hoje rir de um jeito exagerado. Mas o que importa é que é um espetáculo que traz à tona os assuntos que estão no dia-a-dia dos adolescentes. Não põe para baixo do tapete. Não finge que não existe. E, ao fazer isso, acaba fazendo muito. E, se me deixa triste saber que tudo que foi tabu na minha própria adolescência ainda segue em pauta, me deixa otimista ver que, os adolescentes agora não precisam ir para o escuro do seu quarto chorar e pensar em morrer. Eles podem ir para o teatro e ter a absoluta certeza de que não estão sozinhos. Nem ali, nem na vida. Alguém sabe o que se passa com eles, tanto que transformou em algo a ser assistido. E, neste aspecto, em comparação com a minha época, de déjà vu, sobra apenas o nome da companhia.
ROTEIRO: Textos de Vanja Ca Michel com pequenos fragmentos
dos psicanalistas Cybelle Weinberg, Ruben Alves, do psiquiatra
José Outeiral e dos escritores Carlos Drummond de Andrade e
Moacyr Scliar.
CONCEPÇÃO E DIREÇÃO: Vanja Ca Michel
SUPERVISÃO: José Outeiral
ELENCO: Bibi Rositto
Débora Spadotto
Daniela Guerrieri
Diego Bittencourt
Gustavo Susin
João Carlos Castanha
José Ligabue
Lucas Ortiz
Manu Menezes
Mathias Martin
Thainá Gallo
Michel Tinho
William Molina
COREOGRAFIAS: Malu Kroeff e Michel Tinho
ILUMINAÇÃO: Moa Junior
TRILHA SONORA PESQUISADA: Vanja Ca Michel
MATERIAL GRÁFICO E SITE: Moa Junior
OPERAÇÃO DE SOM: Rogério Câmara
PRODUÇÃO: Vanja Ca Michel e Moa Junior
REALIZAÇÃO: Cia Déjà-vu
Wednesday, August 18, 2010
Meu coração é vermelho
O futebol tem sido a menor das minhas preocupações. Acompanho à distância as manchetes dos jornais. E assim, sabia que meu time vinha bem, mas não tão bem. Precisou ele chegar a final da Libertadores e com vantagem para que eu desse alguma atenção. É claro que morar um pouco além do Estádio do Inter também interfere. Há as preocupações com o trânsito. Eu, porém, nunca me importei. Se está congestionado, vou na manha, observando o movimento daqueles que torcem, como eu, pelo time vermelho.
No rádio, à tarde, acompanhava o rebuliço. Atropelamentos. Fraudes com as carteiras dos sócios. O lado negro da força.
Não me preparei para assistir a decisão. Não coloquei na agenda, mas já que estava em casa na hora, por que não? Assim, encarei o primeiro tempo, mal acreditando no gol do Chivas. Difícil imaginar que, com tantas vantagens, corríamos o risco de perder. Não precisou de muito do segundo tempo para o primeiro gol do meu time. Mas senti uma taquicardia com algumas jogadas do adversário e achei graça de ver que o futebol ainda mexe assim comigo.
Claro, porém, que não sou só eu. Enquanto eu via o jogo aqui sozinha, uma multidão no estádio movia os braços, torcendo, participando do jogo. É ótimo ver este clima de união, de integração, de festa. Todos fazem uma paródia da música dos Mamonas assassinas os torcedores cantavam. É interessante ver que há gente que veio para fazer história. Como estes meninos que tiveram suas carreiras tão drasticamente terminadas, mas que permanecem até hoje na memória das pessoas e surgem em momentos de comemoração. Assim também como o Falcão para o Inter, o Pelé para o Brasil, o Galvão para a TV brasileira. Como Sóbis, Leandro e Giuliano hoje. Este último fazendo um gol quando a conquista já parecia garantida.
Se bem que em futebol, com a minha experiência de quase meio século, enquanto não apitam o fim, eu não garanto nada. Existem coisas estranhas que podem acontecer este esporte. Tinga não deve ter imaginado que seria fotografado para eternidade com uma faixa na cabeça. As faltas foram duras, aliás, e concordo com o comentário de Galvão que tem que ser meio besta para não querer considerar as imagens da tv para julgar as ações dos jogadores. Os socos dados nas costas de Solbis pelo jogador do time adversário tinham que ser punidos. Felizmente, como tudo acabou bem, a gente vai esquecendo, mas poderia ter sido diferente, como foi o final da Copa que ainda tem um certo gosto de ressaca.
Como colorada, fiquei orgulhosa de ver Pelé de casaco vermelho entregando o Troféu ao meu time. Não ia perder o sono se ele não tivesse ganho, mas vou custar a dormir agora que ganhou. Não só pela excitação da vitória, mas por causa dos fogos de artifício e dos buzinaços na vizinhança.
Rumo a Abu Dhabi.
Yaba-daba-du!
No rádio, à tarde, acompanhava o rebuliço. Atropelamentos. Fraudes com as carteiras dos sócios. O lado negro da força.
Não me preparei para assistir a decisão. Não coloquei na agenda, mas já que estava em casa na hora, por que não? Assim, encarei o primeiro tempo, mal acreditando no gol do Chivas. Difícil imaginar que, com tantas vantagens, corríamos o risco de perder. Não precisou de muito do segundo tempo para o primeiro gol do meu time. Mas senti uma taquicardia com algumas jogadas do adversário e achei graça de ver que o futebol ainda mexe assim comigo.
Claro, porém, que não sou só eu. Enquanto eu via o jogo aqui sozinha, uma multidão no estádio movia os braços, torcendo, participando do jogo. É ótimo ver este clima de união, de integração, de festa. Todos fazem uma paródia da música dos Mamonas assassinas os torcedores cantavam. É interessante ver que há gente que veio para fazer história. Como estes meninos que tiveram suas carreiras tão drasticamente terminadas, mas que permanecem até hoje na memória das pessoas e surgem em momentos de comemoração. Assim também como o Falcão para o Inter, o Pelé para o Brasil, o Galvão para a TV brasileira. Como Sóbis, Leandro e Giuliano hoje. Este último fazendo um gol quando a conquista já parecia garantida.
Se bem que em futebol, com a minha experiência de quase meio século, enquanto não apitam o fim, eu não garanto nada. Existem coisas estranhas que podem acontecer este esporte. Tinga não deve ter imaginado que seria fotografado para eternidade com uma faixa na cabeça. As faltas foram duras, aliás, e concordo com o comentário de Galvão que tem que ser meio besta para não querer considerar as imagens da tv para julgar as ações dos jogadores. Os socos dados nas costas de Solbis pelo jogador do time adversário tinham que ser punidos. Felizmente, como tudo acabou bem, a gente vai esquecendo, mas poderia ter sido diferente, como foi o final da Copa que ainda tem um certo gosto de ressaca.
Como colorada, fiquei orgulhosa de ver Pelé de casaco vermelho entregando o Troféu ao meu time. Não ia perder o sono se ele não tivesse ganho, mas vou custar a dormir agora que ganhou. Não só pela excitação da vitória, mas por causa dos fogos de artifício e dos buzinaços na vizinhança.
Rumo a Abu Dhabi.
Yaba-daba-du!
Monday, August 16, 2010
Reflexão pós-Lehmann: sou pós-dramática, dramática, cômica e, talvez, até épica!
Juntando tudo que Hans Lehmann disse, mais as perguntas durante o Seminário Teatro contemporâneo: para além do drama deu um total de 16 páginas de conteúdo. Andei repassando parte deste aos amigos e colegas. Mas fiquei feliz em ver que alguns ainda queriam o que eles chamam de meus “relatos”. Não o texto pura e simples transcrito, mas as minhas impressões, o meu "trato jornalístico". E esta alegria não veio só por uma questão de vaidade. Também por me mostrar que meu gosto pela escrita e pelas artes tem valor para alguns. Dito isso, decidi, então, retirar de tudo que este alemão comentou o que eu considerei mais importante e dar os meus pitacos. Mas, ainda assim, vou ter que dividir em partes. Então, lá vai:
Primeiro quero dizer que gostei muito do formato que o evento acabou apresentando. Em uma articulação do Programa de pós-graduação em artes cênicas que mal acabou de concluir, mais a Secretaria, entre outros, surgiu esta ideia de misturar os “acadêmicos” e os “artistas” para esta ocasião. Para mim, isso deveria acontecer sempre. Claro que sou suspeita. Afinal, estou mais encaixada nos primeiros dos que nos últimos, mas todos sabem da minha paixão por estes. Minha admiração profunda por todos aqueles que produzem e pensam o teatro. Espero que este tenha sido o primeiro de muitos encontros deste tipo, pois assim sendo estes, certamente trarão novo significado aos eventos culturais da cidade.
Depois, quero registrar que não foi com total simpatia que ouvi as ideias do Lehmann em sala de aula. Não porque não fossem interessantes, mas porque me pareciam que vinham com o peso da “voz da verdade absoluta” e isso sempre me causa algum desconforto. Porém, ao lê-lo ia reconhecendo que seria muita burrice não dar ouvidos a este pensador tão reconhecido em toda parte. Mais burrice ainda se não fosse lá ouvi-lo ao vivo e a cores e, realmente, já adianto, não houve arrependimentos. Até porque, ele próprio, não se coloca como alguém que detém a sabedoria. Em certo momento, após algumas perguntas que exigiam um exercício de futurologia, ele disse: “não sou a pitonisa do teatro”. Afirmou, também, que as pessoas costumavam fazer reflexões sobre o que ele disse que vão muito mais além do que ele próprio havia pensado. Ou seja, uma postura modesta diante da reação das pessoas à sua obra. Fez até piadinhas. Perguntou a plateia se esta conhecia uma zombaria que se fazia na Alemanha. Disse que a resposta sobre a pergunta: “qual o teatro mais bem sucedido do século XX?”, a o do século XIX! Nem Barack Obama escapou. Lehmann comentou que mesmo que ele seja bem-intencionado, só pode mudar poucas coisas na política americana.
Claro que ele falou das misturas das artes cênicas com as outras artes, com o uso de recursos tecnológicos e todas aquelas outras coisas que quase todos já sabemos. Citou bastante Heiner Muller (o que sempre me faz pensar em Sergio Silva, pois foi quem me apresentou este autor) e a estrutura pós-dramática de seus textos. Foi dizendo frases muito fortes inseridas dentro de um contexto maior. Ou seja, se a gente não se toca, passam despercebidas. Como esta, por exemplo: "A vida é cada vez mais o contingente fragmentário e não estilo dramático, mas em episódios, fases, trechos, sessões. Uma forma de vida dramática não é mais concebível.”
Lehmann destaca Deleuze (ai, esta criatura me persegue!) para falar que a filosofia das últimas décadas desconstruiu ideias anteriores. Porém, ele sabe que não é assim tão simples, pois, segundo ele, existe em nós um desejo do drama. “Nós adoramos o drama”, diz. E isso fica bem claro no cinema. Neste momento cita um livro chamado “Aristoteles em Hollywood" (vai dizer que não deu vontade de ler?) no qual fica claro que as regras da Poética são úteis para filmes que tenham ressonância com o público. E, logo em seguida, parte para um momento delicado ao falar em entretenimento. Diz que, para ele, a arte é uma prática essencialmente crítica, que ele não despreza o entretenimento, mas diz que, como teórico, não lhe interessa. Bem, devo dizer que suas afirmações me entretêm.
Logo depois, chega o momento em que algo que ele diz abre um verdadeiro clarão na minha cabeça. Ele explica que, na verdade, diferente do que se pensa, o teatro, historicamente falando, tem muito mais tempo de não-dramático do que dramático, que em países orientais, por exemplo, sempre existiram estas outras formas de fazer arte que não mostram uma narrativa, ou seja, o ciclo da vida do teatro dramático é curto, pois o teatro da antiguidade está muito distante do drama que conhecemos desde o Renascimento. Ele disse que não era um exagero afirmar que o teatro da Antiguidade era pré-dramático.
Outro ponto nevrálgico que ele acabou abordando foi sobre a presença do ator no teatro pós-dramático. Mas até nisso ele foi tranquilizador. Lehmann comentou que sobre a pergunta do que acontece com o ator neste momento, ele responderia: isso depende. Segundo ele, não existe o teatro pós-dramático no singular. Ele diz que é uma tentação muito grande utilizar conceitos genéricos como se eles definissem as coisas e as colocassem em uma caixinha fechada. Ah, que alívio... Ele também não gosta de verdades supremas.
Fala de algo que para mim já está muito claro há algum tempo, desde a mediação da Bienal em 2005, pelo menos. Ou seja, quando surge uma proposta nova de arte, é preciso perguntar sobre a essência da arte anterior. Ele diz que um bom exemplo é a fotografia, que a pintura precisou se perguntar o que ela é, que a fotografia não é. E eu não estava errada em pensar mesmo na Bienal, pois teve uma artista que trouxe uma obra que era pintura da natureza, exatamente como os objetos reais, pássaros e frutas e todo mundo que visitava a obra dela ficava de queixo caído com a qualidade do que ela pintava. A técnica era tão incrivelmente perfeita que impressionava, mesmo agora com o fato de que qualquer um pode sair fotografando por aí. Ou seja, é preciso relativizar estas afirmações categóricas. Isso, não foi o Lehmann que disse. Isso digo eu.
Lehmann chama a atenção para outra coisa que também sabemos de cor e salteado, mas que, às vezes, parece que esquecemos: “o teatro pode implicar o espectador de uma forma diferente do que qualquer filme pode fazer. Pode enfatizar a presença de atores e espectadores de forma particular, envolver habilidades artísticas, co-presença. Enquanto “plateia” sabemos que podemos interferir no que acontece a qualquer momento. Ele enfatiza que diante da tv não estamos envolvidos na produção das imagens que nos chegam. A nossa responsabilidade diante destas não existe. Já no teatro, isso é diferente.
Ele salienta que para Guy Debord a sociedade tem a tendência se mostrar como espectador, o cidadão como recebedor passivo de processos que lhe são ensinados. O teatro muda esta mera recepção passiva. “Consiste em romper com esta concepção e isso pode acontecer de formas muito diferentes”.
Lehmann defende que não faz sentido ficar perguntando se as novas formas de representação e encenação ainda são teatro ou não. “O teatro assume características de performance e a performance se teatraliza”.
Eu não disse que ele fazia afirmações poderosas, jogadas no meio do discurso? Esta foi uma delas: “O objetivo da arte é achar o caminho para se habitar um universo”. E ele tirou até aplausos no meio do seu discurso quando disse que, em sua opinião, não existia só prazer e alegria na arte, que o teatro não deveria ser apenas uma festa, mas uma festa que lembre as pessoas que não podem participar dela. “Do contrário, ele não é nada”.
Lehmann comentou que fez referência a Aristóteles, pois, segundo ele, o nosso pensamento ainda está impregnado por este. Diz que a famosa catarse para o pensador grego não está associada ao teatro, como creem muitas pessoas que falam que este conceito. Para Aristóteles, já começa da leitura da tragédia. Mais chocante é ele dizer que para Aristóteles o teatro era para as pessoas mais burras (conheço o tradutor, caso contrário desconfiaria desta palavra) que não conseguem pensar por conta própria. Lehmann explica que esta predominância do lógico define a nossa compreensão do teatro hoje e que temos que nos voltar contra isso de forma deliberada. Neste momento penso que isso faz muito sentido e que seria bom se alguns críticos de teatro lembrassem disso também. Aliás, Lehmann também faz referência a estes, dizendo que muitos ainda falam a mesma coisa que Platão dizia ao criticar os seres humanos por se entregarem ao teatro ao invés de pensar rigorosamente utilizando a lógica.
Comenta um pensamento de Baudelaire, desses que eu adoro, pois deixa claro o quanto podemos estar enganados. Diz que este, quando a fotografia surgiu, afirmou que seria o fim da arte. Lehmann afirma que esta reação de medo, da superficialidade do teatro, sempre existiu e continua existindo hoje em dia.
Ele volta a Aristóteles para explicar que para este a arte sempre precisa ter uma forma de ordem. A definição do belo, em Aristóteles, fala de uma totalidade, unidade, coerência, do contrário não é belo. Por isso, ele diz que esta totalidade precisa existir. Para que possamos entender bem, deve ser de fácil apreensão, com um único olhar, do contrário, ficamos confusos e a confusão não pode ser bela. Em uma ideia clássica da obra de arte, a arte precisa ser como o organismo animal. Havia uma comparação com a totalidade orgânica. Só a modernidade rompeu com isso. Antes, dizia-se que o belo deveria ser como um animal, mas o animal deveria ter o tamanho certo. Não poderia ser pequeno demais, nem grande demais como um animal de dois quilômetros tipo Jurassic Park porque não conseguimos vê-lo de uma vez. Já teremos esquecido o começo quando chegar ao fim. O belo é organizado como a compreensão lógica.
Lehmann comenta que Aristóteles diz algo que ele sempre gostou de incluir em suas aulas, e que seus alunos pensam que é besta: Totalidade é uma coisa que tem início, meio e fim. Assim deve ser o teatro drama. Esta ideia de Aristóteles, para Lehmann, é uma tese muito perspicaz, a produção de uma moldura dentro da qual incluímos e tiramos coisas. Conclui dizendo: “Acho que não preciso explicar que a arte moderna invalidou esta ideia de começo, meio e fim”. Traz como exemplo o cinema de Godard que fazia filmes nos quais os espectadores tinham dificuldade de perceber o nexo. Ao ser atacado por um crítico que disse que um filme precisava ter início meio e fim, respondeu que este tinha razão, mas que isso não necessariamente nesta sequência.
Lehmann retoma a ideia de que temos uma predileção pelo drama e argumenta que foi Ricoeur quem explicou porque esta ideia de Aristoteles acabou tendo tanto poder. Segundo ele, era um argumento que estava relacionado a uma teologia do tempo. A uma ideia de criação, desenvolvimento e apocalipse. Quem diria...Assim, os argumento estético e teológico se alimentaram mutuamente.
Ao encerrar, ele diz que o nosso aparelho de percepção consegue conviver com muita anarquia, labirintos, montagem, colagem sem que basicamente nossa pulsão para o drama desapareça. Este sempre encontra uma possibilidade de satisfazer o instinto da dramatização porque quer manter esta forma dramática na qual não acreditamos mais.“Sempre estivemos além do drama e este parece ser o caminho”.
Finalizando esta primeira parte do meu relato, gostaria de dizer que o pós-dramático pode até não ser a explicação para tudo (e nem poderia), mas bem que facilita a entendermos a arte nos dias de hoje. Diria até que dá uma ajudinha até na compreensão de nós mesmos. Não é que eu tenha deixado de procurar "inícios, meios e fins", mas não há como negar que a vida é desordenada e sofremos menos se conseguimos encontrar este "guarda-chuva", como disse Lehmann, que congrega tudo. Afinal, sabemos que muitos os invernos durante a vida.
Primeiro quero dizer que gostei muito do formato que o evento acabou apresentando. Em uma articulação do Programa de pós-graduação em artes cênicas que mal acabou de concluir, mais a Secretaria, entre outros, surgiu esta ideia de misturar os “acadêmicos” e os “artistas” para esta ocasião. Para mim, isso deveria acontecer sempre. Claro que sou suspeita. Afinal, estou mais encaixada nos primeiros dos que nos últimos, mas todos sabem da minha paixão por estes. Minha admiração profunda por todos aqueles que produzem e pensam o teatro. Espero que este tenha sido o primeiro de muitos encontros deste tipo, pois assim sendo estes, certamente trarão novo significado aos eventos culturais da cidade.
Depois, quero registrar que não foi com total simpatia que ouvi as ideias do Lehmann em sala de aula. Não porque não fossem interessantes, mas porque me pareciam que vinham com o peso da “voz da verdade absoluta” e isso sempre me causa algum desconforto. Porém, ao lê-lo ia reconhecendo que seria muita burrice não dar ouvidos a este pensador tão reconhecido em toda parte. Mais burrice ainda se não fosse lá ouvi-lo ao vivo e a cores e, realmente, já adianto, não houve arrependimentos. Até porque, ele próprio, não se coloca como alguém que detém a sabedoria. Em certo momento, após algumas perguntas que exigiam um exercício de futurologia, ele disse: “não sou a pitonisa do teatro”. Afirmou, também, que as pessoas costumavam fazer reflexões sobre o que ele disse que vão muito mais além do que ele próprio havia pensado. Ou seja, uma postura modesta diante da reação das pessoas à sua obra. Fez até piadinhas. Perguntou a plateia se esta conhecia uma zombaria que se fazia na Alemanha. Disse que a resposta sobre a pergunta: “qual o teatro mais bem sucedido do século XX?”, a o do século XIX! Nem Barack Obama escapou. Lehmann comentou que mesmo que ele seja bem-intencionado, só pode mudar poucas coisas na política americana.
Claro que ele falou das misturas das artes cênicas com as outras artes, com o uso de recursos tecnológicos e todas aquelas outras coisas que quase todos já sabemos. Citou bastante Heiner Muller (o que sempre me faz pensar em Sergio Silva, pois foi quem me apresentou este autor) e a estrutura pós-dramática de seus textos. Foi dizendo frases muito fortes inseridas dentro de um contexto maior. Ou seja, se a gente não se toca, passam despercebidas. Como esta, por exemplo: "A vida é cada vez mais o contingente fragmentário e não estilo dramático, mas em episódios, fases, trechos, sessões. Uma forma de vida dramática não é mais concebível.”
Lehmann destaca Deleuze (ai, esta criatura me persegue!) para falar que a filosofia das últimas décadas desconstruiu ideias anteriores. Porém, ele sabe que não é assim tão simples, pois, segundo ele, existe em nós um desejo do drama. “Nós adoramos o drama”, diz. E isso fica bem claro no cinema. Neste momento cita um livro chamado “Aristoteles em Hollywood" (vai dizer que não deu vontade de ler?) no qual fica claro que as regras da Poética são úteis para filmes que tenham ressonância com o público. E, logo em seguida, parte para um momento delicado ao falar em entretenimento. Diz que, para ele, a arte é uma prática essencialmente crítica, que ele não despreza o entretenimento, mas diz que, como teórico, não lhe interessa. Bem, devo dizer que suas afirmações me entretêm.
Logo depois, chega o momento em que algo que ele diz abre um verdadeiro clarão na minha cabeça. Ele explica que, na verdade, diferente do que se pensa, o teatro, historicamente falando, tem muito mais tempo de não-dramático do que dramático, que em países orientais, por exemplo, sempre existiram estas outras formas de fazer arte que não mostram uma narrativa, ou seja, o ciclo da vida do teatro dramático é curto, pois o teatro da antiguidade está muito distante do drama que conhecemos desde o Renascimento. Ele disse que não era um exagero afirmar que o teatro da Antiguidade era pré-dramático.
Outro ponto nevrálgico que ele acabou abordando foi sobre a presença do ator no teatro pós-dramático. Mas até nisso ele foi tranquilizador. Lehmann comentou que sobre a pergunta do que acontece com o ator neste momento, ele responderia: isso depende. Segundo ele, não existe o teatro pós-dramático no singular. Ele diz que é uma tentação muito grande utilizar conceitos genéricos como se eles definissem as coisas e as colocassem em uma caixinha fechada. Ah, que alívio... Ele também não gosta de verdades supremas.
Fala de algo que para mim já está muito claro há algum tempo, desde a mediação da Bienal em 2005, pelo menos. Ou seja, quando surge uma proposta nova de arte, é preciso perguntar sobre a essência da arte anterior. Ele diz que um bom exemplo é a fotografia, que a pintura precisou se perguntar o que ela é, que a fotografia não é. E eu não estava errada em pensar mesmo na Bienal, pois teve uma artista que trouxe uma obra que era pintura da natureza, exatamente como os objetos reais, pássaros e frutas e todo mundo que visitava a obra dela ficava de queixo caído com a qualidade do que ela pintava. A técnica era tão incrivelmente perfeita que impressionava, mesmo agora com o fato de que qualquer um pode sair fotografando por aí. Ou seja, é preciso relativizar estas afirmações categóricas. Isso, não foi o Lehmann que disse. Isso digo eu.
Lehmann chama a atenção para outra coisa que também sabemos de cor e salteado, mas que, às vezes, parece que esquecemos: “o teatro pode implicar o espectador de uma forma diferente do que qualquer filme pode fazer. Pode enfatizar a presença de atores e espectadores de forma particular, envolver habilidades artísticas, co-presença. Enquanto “plateia” sabemos que podemos interferir no que acontece a qualquer momento. Ele enfatiza que diante da tv não estamos envolvidos na produção das imagens que nos chegam. A nossa responsabilidade diante destas não existe. Já no teatro, isso é diferente.
Ele salienta que para Guy Debord a sociedade tem a tendência se mostrar como espectador, o cidadão como recebedor passivo de processos que lhe são ensinados. O teatro muda esta mera recepção passiva. “Consiste em romper com esta concepção e isso pode acontecer de formas muito diferentes”.
Lehmann defende que não faz sentido ficar perguntando se as novas formas de representação e encenação ainda são teatro ou não. “O teatro assume características de performance e a performance se teatraliza”.
Eu não disse que ele fazia afirmações poderosas, jogadas no meio do discurso? Esta foi uma delas: “O objetivo da arte é achar o caminho para se habitar um universo”. E ele tirou até aplausos no meio do seu discurso quando disse que, em sua opinião, não existia só prazer e alegria na arte, que o teatro não deveria ser apenas uma festa, mas uma festa que lembre as pessoas que não podem participar dela. “Do contrário, ele não é nada”.
Lehmann comentou que fez referência a Aristóteles, pois, segundo ele, o nosso pensamento ainda está impregnado por este. Diz que a famosa catarse para o pensador grego não está associada ao teatro, como creem muitas pessoas que falam que este conceito. Para Aristóteles, já começa da leitura da tragédia. Mais chocante é ele dizer que para Aristóteles o teatro era para as pessoas mais burras (conheço o tradutor, caso contrário desconfiaria desta palavra) que não conseguem pensar por conta própria. Lehmann explica que esta predominância do lógico define a nossa compreensão do teatro hoje e que temos que nos voltar contra isso de forma deliberada. Neste momento penso que isso faz muito sentido e que seria bom se alguns críticos de teatro lembrassem disso também. Aliás, Lehmann também faz referência a estes, dizendo que muitos ainda falam a mesma coisa que Platão dizia ao criticar os seres humanos por se entregarem ao teatro ao invés de pensar rigorosamente utilizando a lógica.
Comenta um pensamento de Baudelaire, desses que eu adoro, pois deixa claro o quanto podemos estar enganados. Diz que este, quando a fotografia surgiu, afirmou que seria o fim da arte. Lehmann afirma que esta reação de medo, da superficialidade do teatro, sempre existiu e continua existindo hoje em dia.
Ele volta a Aristóteles para explicar que para este a arte sempre precisa ter uma forma de ordem. A definição do belo, em Aristóteles, fala de uma totalidade, unidade, coerência, do contrário não é belo. Por isso, ele diz que esta totalidade precisa existir. Para que possamos entender bem, deve ser de fácil apreensão, com um único olhar, do contrário, ficamos confusos e a confusão não pode ser bela. Em uma ideia clássica da obra de arte, a arte precisa ser como o organismo animal. Havia uma comparação com a totalidade orgânica. Só a modernidade rompeu com isso. Antes, dizia-se que o belo deveria ser como um animal, mas o animal deveria ter o tamanho certo. Não poderia ser pequeno demais, nem grande demais como um animal de dois quilômetros tipo Jurassic Park porque não conseguimos vê-lo de uma vez. Já teremos esquecido o começo quando chegar ao fim. O belo é organizado como a compreensão lógica.
Lehmann comenta que Aristóteles diz algo que ele sempre gostou de incluir em suas aulas, e que seus alunos pensam que é besta: Totalidade é uma coisa que tem início, meio e fim. Assim deve ser o teatro drama. Esta ideia de Aristóteles, para Lehmann, é uma tese muito perspicaz, a produção de uma moldura dentro da qual incluímos e tiramos coisas. Conclui dizendo: “Acho que não preciso explicar que a arte moderna invalidou esta ideia de começo, meio e fim”. Traz como exemplo o cinema de Godard que fazia filmes nos quais os espectadores tinham dificuldade de perceber o nexo. Ao ser atacado por um crítico que disse que um filme precisava ter início meio e fim, respondeu que este tinha razão, mas que isso não necessariamente nesta sequência.
Lehmann retoma a ideia de que temos uma predileção pelo drama e argumenta que foi Ricoeur quem explicou porque esta ideia de Aristoteles acabou tendo tanto poder. Segundo ele, era um argumento que estava relacionado a uma teologia do tempo. A uma ideia de criação, desenvolvimento e apocalipse. Quem diria...Assim, os argumento estético e teológico se alimentaram mutuamente.
Ao encerrar, ele diz que o nosso aparelho de percepção consegue conviver com muita anarquia, labirintos, montagem, colagem sem que basicamente nossa pulsão para o drama desapareça. Este sempre encontra uma possibilidade de satisfazer o instinto da dramatização porque quer manter esta forma dramática na qual não acreditamos mais.“Sempre estivemos além do drama e este parece ser o caminho”.
Finalizando esta primeira parte do meu relato, gostaria de dizer que o pós-dramático pode até não ser a explicação para tudo (e nem poderia), mas bem que facilita a entendermos a arte nos dias de hoje. Diria até que dá uma ajudinha até na compreensão de nós mesmos. Não é que eu tenha deixado de procurar "inícios, meios e fins", mas não há como negar que a vida é desordenada e sofremos menos se conseguimos encontrar este "guarda-chuva", como disse Lehmann, que congrega tudo. Afinal, sabemos que muitos os invernos durante a vida.
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