Perfil - Edélcio Mostaço, Professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Teatro
Doutor em Teatro pela USP (Universidade de São Paulo),
Edelcio Mostaço é professor da graduação e pós-graduação
do CEART/UDESC e atua principalmente nos temas:
história cultural e teatro, crítica e recepção,
intertextualidade cênica, teatro brasileiro,
pós-modernismo cênico, vida profissional
1) Há quanto tempo ministra aulas na Universidade e em quais disciplinas mais trabalhou? Que aulas ministra atualmente?
Prestei concurso para a UDESC em 2002. Na graduação, trabalhei com vários estágios de História do Teatro, Crítica e Estética. Porém já cheguei a ministrar Cenografia, porque a professora responsável estava em capacitação. Nos últimos anos tenho optado em ficar apenas com Estética, disciplina com a qual tenho maior afinidade. Na pós-graduação dei vários cursos diferentes, inclusive o Seminário de Pesquisa.
2) Falando um pouco sobre uma das suas áreas de trabalho, qual seria, na sua opinião, a finalidade da crítica?
A crítica de arte representa um depoimento de alguém que esteve presente ao evento artístico ou,
no caso de uma análise a posteriori, tenha se debruçado sobre um artista, um período ou um determinado tipo de técnica ou questão, por exemplo. No caso da crítica de teatro efetuada em jornal, um ramo do jornalismo opinativo, ou seja, alguém que assina uma coluna a respeito de certo assunto. Sua finalidade é dialogar primeiramente com o leitor, e, secundariamente, com os artistas envolvidos no evento. Comentário ligeiro, opinativo e qualificado, é o que cabe nos atuais espaços disponíveis na grande imprensa; não cabendo ali o exercício do ensaísmo ou uma análise muito técnica, impossível de ser acompanhada pela média dos leitores. Dentro dessas circunstâncias, a crítica visa informar o leitor sobre o contexto onde o espetáculo nasceu, foi produzido e foi apresentado, tentando, na medida do possível, expandir sua apreensão do mesmo.
Estou falando da crítica bem intencionada, é claro. Há quem use o espaço para desagravos ou comentários pessoais alheios à finalidade não apenas da crítica como da imprensa em modo amplo.
3) Que motivos contribuem para a crítica teatral ocupar menos espaço em veiculos midiáticos de grande circulação? O povo tem tido menos interesse no teatro?
A pergunta é um pouco ambígua, uma vez que também a imprensa é mídia, assim como o rádio, a TV e a internet. De qualquer modo, é preciso partir de algumas evidências: com a desagregação da sociedade de massa, entre os anos 1950 e 1960, a própria mídia em geral conheceu uma expansão jamais imaginada, adentrando o que hoje é conhecido como globalização, a erupção da "sociedade do espetáculo", uma irremediável imersão nos avatares do capital. Ou seja, a mercadoria impôs-se sob todos os formatos e sob todos os campos, inclusive e principalmente sobre os setores culturais. O que ainda existia enquanto artesanato ou livre exercício caducou e assitimos a ascenção das empresas especializadas, em cada uma das fases que intermediam a chamada matéria prima e o consumidor final. Temos assim uma proliferação de atravessadores: "gerentes", "nichos de atuação", "engenharia de produto" etc etc, uma enormidade de eufemismos para qualificar esse adensamento de manipulações que o produto cultural sofre.
Os veículos midiáticos acompanharam essa progressão em larga escala e, simultaneamente, necessitaram aumentar receitas para dar conta da sofisticação cada vez maior que seus produtos deveriam possuir para sobreviver nesse mercado altamente concorrencial. O aumento de receitas veio da publicidade e não da expansão do número de leitores. Se a lógica mercantil já existia, a partir de então ela tornou-se soberana, ditando o que deve ou não circular sob o formato de notícia. Dou um exemplo: uma grande indústria farmacêutica vai lançar um novo medicamento para combater dor no joelho. A estratégia de marketing se in icia com a divulgação junto aos órgãos de imprensa de uma série de doenças que acomentem os joelhos. Você vê isso na Veja, no Fantástico, na Folha, no site do MSN etc. Três meses depois começam a circular os anúncios do tal remédio milagroso que cura qualquer problema de joelho. A população foi, nesse caso, "sensibilizada" para correr em massa às drogarias.
Nesse ambiente altamente industrializado de notícias, informações e opiniões de especialistas, os números são tomados em milhões, em todos os sentidos da expressão. Razão pela qual falta espaço para tudo o que não se mova nesse padrão industrial de produção e consumo, como é o caso da arte, do teatro, do artesanato, da cultura imaterial etc.
Não sei se respondi a pergunta, mas tentei contextualizar o ambiente no qual assistimos, desde os anos 1970, um paulatino desaparecimento da crítica de arte nos grandes veículos de comunicação. E o surgimento de canais alternativos pa ra esse tipo de atividade, como os blogs e sites de internet, mas isso é outro capítulo...
4) Assistir a uma peça com o intuito de criticá-la certamente exige atenção apurada. Como você estabelece este olhar e o fazer a crítica em seguida?
É indispensável não dormir durante a apresentação... e procurar reunir a maior quantidade possível de informação prévia sobre o espetáculo. Costumo dizer aos alunos que assisto um espetáculo com um olho no palco e outro na platéia, como modo de tentar apreender, simultaneamente, os dois lados da equação ali formulada. Porque, afinal de contas, o crítico tem de levar em conta a reação da platéia. Falo isso dentro do contexto da crítica militante, diária, na qual o crítico chega a assistir mais de uma apresentação por dia (eu já cheguei a ver quatro peças num só dia e tinha cinco horas para escrever sobre elas).
Nesse nível de atuação, a experiência conta muito; além de um treino especial de memória, concentração e modo de manipular as informações no momento d e escrever. Isso nenhuma escola ensina, é o chamado traquejo adquirido no dia a dia.
Mas numa situação normal, a coisa é mais lenta. Você vê a peça num dia e dispõe de 24 ou 48 horas para entregar o texto, o que permite certa absorção mais lenta e algum trabalho de decantação, importantes para o ato reflexivo. De qualquer modo algumas condições prévias são indispensáveis ao crítico: cultura geral, cultura artística geral e particular, permanente atualização de informações em seu campo de trabalho, capacidade de síntese, estilo correto e claro, pensamento telegráfico.
A crítica dentro da academia, felizmente, se move a partir de outros padrões, bem mais lentos e bem menos sufocantes.
5) Você acha que a crítica interfere no fazer teatral? O artista absorve as opiniões do crítico sobre o que faz e costuma mudar sua forma de realizar o trabalho?
Depende muito do crítico e do artista, do modo como o arti sta se relaciona com a crítica. Se a coisa for levada em nível subjetivo, existem poucas chances de algo ocorrer. Mas se o artista respeita a opinião do crítico e possui uma relação menos subjetivada com seu trabalho, é frequente que ele mude ou procure se reorientar num trabalho posterior.
6) Existe um certo medo de "policiar" o trabalho dos artistas entre os críticos de teatro e, por isso, muitos deixam de achincalhar uma peça de um "figurão" ou procuram falar bem de um novo artista para procurar incentivá-lo?
Pessoalmente, não saberia o que responder, pois nunca vivi situações dessa natureza. Sempre
falei o que quis sobre qualquer artista de teatro que assisti, sem distinguir se era veterano ou novato. Faço apenas uma observação: criticar não é achincalhar. Nesse viés, entramos em outro departamento que não o da crítica de arte.
7) Existe uma estética teatral que, de certa maneira, rege a produção contemporânea do teatro brasileiro? Qual seria?
Não, ainda bem. Nada mais chato do que se ver dez peças iguais. Se, por um lado, não existe uma corrente estética dominante, por outro existem certos modismos, como, por exemplo, a "onda de fumaça" (toda peça tinha uma cena de névoa); a onda de nudez; de contra-luz na cena central; de coros cruzando a cena (imitação servil do Antunes); etc. Ultimamente está ressurgindo o "teatro de caixotinho", expressão que emprego para caracterizar aquelas peças de propaganda política em porta de fábrica dos anos 1960, feitas em cima de caixotes de cerveja.
8) Como você analisa a evolução das estéticas teatrais? Que tipo de fatores e ntram em consideração na construção de uma estética ou poética em determinado momento histórico?
Isso não é uma pergunta, mas um projeto de tese. Só respondo se você me der o site inteiro como espaço.
9) Uma de suas linhas de pesquisa aborda as infiltrações do tropicalismo no teatro. Como se observou essa influência da tropicália nas produções teatrais e em que período ocorreu?
Outra resposta longa. O tropicalismo foi um produto de época, marcado pelo contexto onde eclodiu; ou seja, os fatores sócioculturais e políticos daquele momento foram determinantes para que ele adquirisse o tônus que manifestou (meados dos anos 1960, ditadura militar, luta armada, fim do pacto populista). Houve o recurso de juntar a tecnologia de ponta com o artesanato, deglutindo influências e reprocessando dados. Foi um momento de antropofagia explícita. Existem, no meu entender, três encenações-chave para se situar o tropicalismo no teatro: "O rei da vela" (1967), Roda viva" (1968) e "Na selva das cidades" (1969), todas encenadas por José Celso Martinez Corrêa. A primeira é mais declaradamente política, pois apresenta o Brasil como uma grande hipoteca ao capital internacional, comandada por uma burguesia amoral e estúpida, no jogo social do salve-se quem puder. O espetáculo era muito violento contra esses padrões que, até hoje, ainda se manifestam aqui e ali (vide as circuntâncias que levaram à prisão o governador Arruda no DF).
"Roda viva" enfoca a vida de um cantor que, para sobreviver, necessita mudar de estilo por força da gravadora: passa de "cantor de protesto" a "cantor de iê-iê-iê", o gênero do primeiro Roberto Carlos. Ou seja, examina a situação da cultura num país periférico que, ou muda e adere à hegemonia, ou tem de morrer; que é o que ocorre ao final com o tal cantor. A terceira é um texto do jovem Brecht que enfoca a luta entre um rapaz pobre, vendedor de livraria, e um poderoso gangster de Chicago, dono de bordéis e contrabantista. A luta ocorre porque o gangster quer comprar a opinião do rapaz, e ele se recusa a vender a única coisa que possui de próprio. Há um teor metafísic o e trágico em jogo, pois trata-se da anulação da subjetividade o móvel do conflito.
As três peças, como se vê, falam do Brasil daquele momento, percebidas por diferentes olhares e distintos enfoques, mas tendo em comum a densidade dos conflitos abarcados, sempre envolvendo a esfera cultural. O tropicalismo foi esse intenso movimento de intelecção do Brasil à luz de suas intensidades, qualidades e diferenças. Roberto Schwarz tornou corrente a expressão "idéias fora do lugar", para flagrar a contradição entre o que se pensa e o que de fato existe numa dada situação. O Brasil, nesse caso, é uma idéia fora do lugar, pois não se ajusta a nenhuma das interpretações convencionais sobre ele. Há quem veja nessa metamorfose ambulante um problema. Eu, ao contrário, vejo uma virtude; pois reafirma a força do projeto frente à fragilidade da identidade. A reviravolta quando se espera o frente a frente; o outro lado quando se espera o mesmo; o desconhecido quando se pensa que se encontrou o próprio. Ou, em termos psicanalíticos, a sombra de Dionisos. O tropicalismo foi uma belíssima chacoalhada dionisíaca na cultura brasileira daquele momento.
10) O que você poderia nos falar sobre seu último projeto de pesquisa que aborda as implicações atuais do discurso antropofágico (termo emprestado dos modernistas) na produção contemporânea?
Penso que a antropofagia é um dos poucos traços genuinamente brasileiros enquanto paradigma cultural. A força dos ataques que sofreu revelam a medida de sua energia e presença. E também de seu triunfo, sob uma multip licidade de nomes hoje correntes: interculturalismo, hibridização, fronteirização, formação dialógica, semiosfera etc. São esses processos artísticos e os procedimentos que lhe são simétricos que constituem meu projeto de pesquisa, voltado especificamente para a cena contemporânea.
11) Não pude deixar de perceber um ponto curioso em seu currículo que trata de uma formação que obteve em acupuntura e medicina tradicional chinesa. Como surgiu esse interesse com práticas médicas orientais? Você também trabalha na área atualmente?
A certa altura de minha vida, também recebi "um chamado" do apelo natureba. Era o final dos anos 80 e eu, em paralelo às minhas atividades teatrais, enveredei pelas terapias alternativas. Iniciei uma formação em orgonoterapia (baseada em Reich) e, no meio do caminho, percebi que o buraco era mais embaixo: a energia só poderia ser manipulada sob intervenção mais diret a. Desisti de Reich e fui fazer um curso de medicina tradicional chinesa. Tornei-me acumputurista, abri consultório e escrevi uma monografia clínica. Desde que mudei para Florianópolis nunca mais toquei numa agulha, pois a UDESC absorve todas as minhas energias. Não pretendo voltar à clínica, mas dessa formação intensa r estou certo alargamento de consciência, certa compreensão holística, certo apelo ao pensamento figural e ideogramático, que constituem a base de todas as medicinas tradicionais.
Fonte: Centro de Artes, 29 de Março de 2010
Os amigos me convenceram a começar o meu blog. Sou jornalista e mestra em artes cênicas. Sempre adorei escrever e tenho enviado textos para os meus conhecidos com uma certa frequência. Os assuntos? Os mais variados possíveis, mas, ligados as minhas experiências, ao que acho de tudo que está em minha volta. Gostaria de compartilhar com mais pessoas.
Monday, March 29, 2010
Thursday, March 18, 2010
Cabarecht: uma noite que surpreenderia Bertold Brecht
Crítica? Imparcialidade? Sinto muito, mas não estou aqui para isso. Quero falar do espetáculo Cabarecht, mas decidi falar sobre teatro e, confesso que, até hoje, eu me surpreendo quantas coisas estão relacionadas com esta arte. Esta semana, estive no lançamento do Festival da Canção Francesa, organizado pela Aliança e eu e minha irmã comentávamos como é importante a presença cênica de um cantor. Concluímos que uma bela voz, sem performance, deve ir para o rádio.
Bem, mas com tantas atividades que temos hoje em dia, é preciso que algo nos “chame” para sair de casa por prazer. Neste caso, foi Zé Adão Barbosa. Embora ele não tenha sido a única razão, ele costuma ser a mais importante. Fui “patinho feio” na infância, tive uma ansiedade patológica na adolescência e briguei com meu lado depressivo até depois dos 30. Bastou começar a fazer teatro com este ator-professor-diretor para me libertar de meus monstros internos. Hoje, eles andam por aí me deixando em paz o suficiente para que eu possa estar às vésperas de defender meu trabalho no mestrado de Artes Cênicas.
Chegamos, então, a segunda razão para eu ir ao Teatro São Pedro. O diretor Humberto Vieira. Não o conhecia antes de começar a buscar o título de mestre. Gostei dele como colega. E, em 2008, ofereci para ele um ingresso para ver Ariane Mnouchkine no Porto Alegre em cena, pois estava trabalhando como mediadora da Bienal do Mercosul e sabia que não sobraria energia para ir. Ele aceitou. Trouxe desta experiência, de presente para mim, a programação do espetáculo. Conquistou-me. Simples assim. Daí por diante fui percebendo que não conhecê-lo era mais uma das minhas tantas ignorâncias, mesmo para alguém tão interessada em teatro.
Razão três: Sandra Dani. Sou sua admiradora de longa data. Secretamente até 2008, eu diria, quando nossos “caminhos se cruzaram” no filme do Sergio Silva Quase um tango. Tive a chance de chegar mais pertinho. Coisa boa. Sei, sei... ainda não falei do espetáculo. Mas a bem da verdade para mim tudo isso importa. Porque estas pessoas sempre me fascinaram e para minha total felicidade fui conseguindo me aproximar delas. Gente que não se espanta quando de um choro profundo, passo para um sorriso e vice-versa (como diz minha mãe). Afinal, eles fazem isso, ou melhor, seus personagens, mas isso é apenas um detalhe.
No teatro, me senti acolhida, compreendida, terapiada. Assim, nunca ir ver um espetáculo será só ver um espetáculo. Ainda mais quando neste estiver reunidas tantas pessoas que eu admiro. E, se junta a isso, o espaço teatral do São Pedro, justamente no Foyer com todos os seus lustres e cortinas, onde ainda é permitido comer e beber... Com certeza é quase o paraíso. Falando nisso, entra para assistir o espetáculo Ivete Brandalise que entrevistou meu pai pouco antes dele morrer. Hoje, faz exatamente um ano. Entendem o que eu digo? A mente é assim. Nós somos assim. Multipartidos. Complexos. E o teatro vem para nos dizer como em Cabarecht: que “a sensatez vá para o inferno!” Aliás, é para lá que eu irei se computarem o orgulho que fico de ver este mago das artes cênicas, meu mestre, perguntar se minha mãe, professora de francês, estava lá o vendo cantar e que isso o preocupava. Mas, acho que vou ter companhia. O olhar do diretor de Cabarecht para “seus” atores no palco era de admiração, mas creio que também de orgulho. E não é para menos. Que “time”! Os comentários? Todos favoráveis, claro. Zé Adão domina qualquer cena, não será uma língua estrangeira que o derrubará. Aliás, se minha pesquisa sobre Crítica teatral na era digital não fosse apenas teórica, eu usaria as novas tecnologias para elaborar um dueto entre ele e Elis Regina, uma cantora que sei que ele admira profundamente. Olha... sou suspeita. Disse isto na primeira frase, mas acho que ele não faria feio.
Bem, mas voltemos ao “palco”. Zé Adão, Sandra Dani, Antônio Carlos Brunet e Cida Moreira ao piano cantam em alemão, inglês, francês, português, músicas do alemão Kurt Weill que fez dupla com o dramaturgo Brecht em vários espetáculos como “Ópera dos três vinténs”. Nada de lariri lalálá. As melodias são difíceis. As letras então.... Suas vozes, porém, encheram a sala e provocam aplausos constantes. Mas como disse minha irmã (a qual agradeço até na minha dissertação pela paciência de ouvir tanto sobre teatro): “este é o jeito de chegarmos de uma maneira mais branda a Brecht”. Não é que ela prestava mesmo atenção?
Para aqueles que esperavam algo mais acadêmico, cito Emanuel Kant: "Cada um chama de agradável o que o satisfaz; de Belo, o que lhe agrada; de bom o que aprecia ou aprova, aquilo a que confere um valor objetivo”.
E para quem acha que este meu texto não passa de um devaneio, recupero uma frase do próprio espetáculo para encerrar: “Sabemos que tudo é transitório e nada restará a não ser a poesia”.
Helena Mello
PS: Minha tia, irmã do meu pai, foi conosco. Ela acaba conversando com os motoristas de taxi. Este, ao ouvir o nome do espetáculo, perguntou: é gauchesco? Tinha compreendido Cabare-tchê. Bem, a verdade é que o Rio Grande do Sul estava muito bem representado.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Humberto Vieira
Direção musical: Cida Moreira
Elenco: Cida Moreira, Sandra Dani, Antônio Carlos Brunet, Zé Adão Barbosa
Iluminação: Claudia De Bem
Programação visual: Humberto Vieira
Cabarecht:
Dias 10, 17 e 24 (quartas-feiras) e 30 de março (terça-feira)
Foyer Nobre do Theatro São Pedro - Praça Marechal Deodoro, s/n
Centro - Porto Alegre
Mais informações: 51 3227.5100
Direção e roteiro: Humberto Vieira
Direção musical: Cida Moreira
Elenco: Cida Moreira, Sandra Dani, Antônio Carlos Brunet, Zé Adão Barbosa
Iluminação: Claudia De Bem
Programação visual: Humberto Vieira
Cabarecht:
Dias 10, 17 e 24 (quartas-feiras) e 30 de março (terça-feira)
Foyer Nobre do Theatro São Pedro - Praça Marechal Deodoro, s/n
Centro - Porto Alegre
Mais informações: 51 3227.5100
Leia também: http://teatropoa.blogspot.com/2009/11/cabarecht.html
Sunday, March 07, 2010
Deviam ter me dito: Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo
Interromper meu trabalho de mestrado não tem sido uma coisa que me dê prazer. Porque o tempo de tentar escapar deste compromisso já se foi. Agora, é preciso encarar e quando começo nada mais me diverte. O que parecia impossível acontece: a gente vai se acostumando com a idéia de que é preciso organizar as idéias e escrevê-las.
Digo isso apenas para explicar o que significou ter ido ver “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. O convite veio de Daniela Aquino, minha colega de mestrado que também está passando por este processo, mas ainda encontra tempo para fazer outras milhares de coisas, inclusive, um espetáculo. Bem, confesso que encontrar outros colegas de mestrado no teatro já renderam boas risadas. Aquelas melhores em que rimos de nós mesmos. Só isso já trouxe uma leveza que há dias não sentia.
A porta do teatro Carlos Carvalho se abre e começamos a procurar lugares. O ambiente é impactante. Uma forte atmosfera de sala antiga, européia. Um grande abajour, poltronas, banquetas, uma mesa de jantar. Luz de velas. A música “Ne me quitte pas” sublinhava o cenário.
Bem, mas não pretendo descrever cena a cena. Nem sei se saberia fazer isso. Seria um relato impregnado pelas impressões que buscam na minha memória imagens e sensações. Só minhas. Quero, porém, falar sobre a trilha sonora. Absolutamente perfeita. Sei... sei. Isso não diz lá muita coisa. Então, vejamos. Há uma mistura de vozes, de músicas que falam de relacionamentos, de amor, de dor de cotovelo, de perda. Cada uma ao seu modo. Interpretadas por cantores com talentos diversos. Algumas reconheço de imediato. Fazem parte da trilha sonora da minha vida. Outras, faço apenas uma vaga idéia e outras nunca as ouvi, mas chegam aos meus ouvidos como velhas conhecidas. Ritmos diferentes, sexos diferentes e algo em comum.
Não há separação entre o público e as bailarinas. Estamos todos juntos naquela sala. Somos cúmplices do que acontece ali. A ponto de me deixar com medo de que minha ação de anotar algumas coisas para lembrar e escrever agora fosse interpretada como parte da cena. Principalmente quando a luz vinha em mim. Sim, ela vinha e ia. Atravessava a sala. Ia lá na bailarina e dava a volta. E a gente via tudo e não via nada. Mas assim mesmo podia sentir que tinha alguém deitado na cama lá no canto, alguém na cadeira do outro lado, alguém no chão. Meu olhar se divertia escolhendo o que eu queria ver, vendo o que eu escolhia.
Mas mesmo me sentindo envolvida pelo ambiente, me disperso enquanto Daniela lê um texto e uma bailarina faz uma “partitura”. Não entendo bem o texto, mas não sei se isso adiantaria. Não me arrebatou. Mas em todo resto do espetáculo, os movimentos das bailarinas, as músicas, a luz faziam eu buscar na minha memória as tantas vezes que sofri por amar, que fui feliz amando (antes de saber que não podia), que me senti vazia, que me desesperei. Até que tudo isso é interrompido por ela. Sim, ela mesma. Daniela Aquino que vestida de noiva cruza a sala em passos lentos, trêmula, olhar lacrimejante. E as lágrimas dela passam a ser as minhas e eu faço força para disfarçar, para não chorar, para não verem que eu choro. Eu que nunca me casei, que nunca me vesti de noiva...Mas ela cruza por outra colega que também é público e eu posso ver que também tem os olhos cheios d’água. E sinto alívio. Ah, não sou só eu que me emociono. E ela, a noiva, segue até um espelho e se altera e come bombons e destrói o buquê de rosas vermelhas e quase rasga o vestido. Só por esta cena já teria valido à pena ter ido até ali. Sua estética, sua vibração, está registrada na minha mente para sempre, junto aos amores que vivi.
Direção: Alessandra Chemello e Diego Mac
O espetáculo faz referência a Myrna pseudônimo através do qual o escritor respondia cartas e dava conselhos sentimentais aos leitores do jornal Diário da Noite, em 1949.
Projeto contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2008.
Elenco: Alessandra Chemello, Daniela Aquino, Fabi Vanoni e Joana Amaral
Digo isso apenas para explicar o que significou ter ido ver “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. O convite veio de Daniela Aquino, minha colega de mestrado que também está passando por este processo, mas ainda encontra tempo para fazer outras milhares de coisas, inclusive, um espetáculo. Bem, confesso que encontrar outros colegas de mestrado no teatro já renderam boas risadas. Aquelas melhores em que rimos de nós mesmos. Só isso já trouxe uma leveza que há dias não sentia.
A porta do teatro Carlos Carvalho se abre e começamos a procurar lugares. O ambiente é impactante. Uma forte atmosfera de sala antiga, européia. Um grande abajour, poltronas, banquetas, uma mesa de jantar. Luz de velas. A música “Ne me quitte pas” sublinhava o cenário.
Bem, mas não pretendo descrever cena a cena. Nem sei se saberia fazer isso. Seria um relato impregnado pelas impressões que buscam na minha memória imagens e sensações. Só minhas. Quero, porém, falar sobre a trilha sonora. Absolutamente perfeita. Sei... sei. Isso não diz lá muita coisa. Então, vejamos. Há uma mistura de vozes, de músicas que falam de relacionamentos, de amor, de dor de cotovelo, de perda. Cada uma ao seu modo. Interpretadas por cantores com talentos diversos. Algumas reconheço de imediato. Fazem parte da trilha sonora da minha vida. Outras, faço apenas uma vaga idéia e outras nunca as ouvi, mas chegam aos meus ouvidos como velhas conhecidas. Ritmos diferentes, sexos diferentes e algo em comum.
Não há separação entre o público e as bailarinas. Estamos todos juntos naquela sala. Somos cúmplices do que acontece ali. A ponto de me deixar com medo de que minha ação de anotar algumas coisas para lembrar e escrever agora fosse interpretada como parte da cena. Principalmente quando a luz vinha em mim. Sim, ela vinha e ia. Atravessava a sala. Ia lá na bailarina e dava a volta. E a gente via tudo e não via nada. Mas assim mesmo podia sentir que tinha alguém deitado na cama lá no canto, alguém na cadeira do outro lado, alguém no chão. Meu olhar se divertia escolhendo o que eu queria ver, vendo o que eu escolhia.
Mas mesmo me sentindo envolvida pelo ambiente, me disperso enquanto Daniela lê um texto e uma bailarina faz uma “partitura”. Não entendo bem o texto, mas não sei se isso adiantaria. Não me arrebatou. Mas em todo resto do espetáculo, os movimentos das bailarinas, as músicas, a luz faziam eu buscar na minha memória as tantas vezes que sofri por amar, que fui feliz amando (antes de saber que não podia), que me senti vazia, que me desesperei. Até que tudo isso é interrompido por ela. Sim, ela mesma. Daniela Aquino que vestida de noiva cruza a sala em passos lentos, trêmula, olhar lacrimejante. E as lágrimas dela passam a ser as minhas e eu faço força para disfarçar, para não chorar, para não verem que eu choro. Eu que nunca me casei, que nunca me vesti de noiva...Mas ela cruza por outra colega que também é público e eu posso ver que também tem os olhos cheios d’água. E sinto alívio. Ah, não sou só eu que me emociono. E ela, a noiva, segue até um espelho e se altera e come bombons e destrói o buquê de rosas vermelhas e quase rasga o vestido. Só por esta cena já teria valido à pena ter ido até ali. Sua estética, sua vibração, está registrada na minha mente para sempre, junto aos amores que vivi.
Direção: Alessandra Chemello e Diego Mac
O espetáculo faz referência a Myrna pseudônimo através do qual o escritor respondia cartas e dava conselhos sentimentais aos leitores do jornal Diário da Noite, em 1949.
Projeto contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2008.
Elenco: Alessandra Chemello, Daniela Aquino, Fabi Vanoni e Joana Amaral
Saturday, February 13, 2010
Não nesta encarnação*
Fui ver Avatar. Não ia. Pretendia tirar depois o DVD. Achei que não era o tipo de filme que me interessava. Até que minha mãe, sim, ela mesma, disse que queria ir. Daí, não dava para continuar esperando. Meu sobrinho a havia convencido de que deveria ver. Minha irmã já tinha ido e disse que valia a pena. Alguns colegas de mestrado também. Muita gente a minha volta. Se bem que meu outro sobrinho, veterinário, vegetariano e amante da natureza tinha dito que não tinha ficado tão impressionado assim. Devia tê-lo escutado.
É um filme 3D e isso me atraiu. A última vez que vi alguma coisa em 3D estava em Paris. Foi em 2001. Voltei falando (apenas para os íntimos, para não passar vergonha) que estar neste cinema tinha sido mais impactante do que o Louvre. Não pelo filme, que nem era lá grande coisa. O que me deixou absolutamente pasma foi saber que bastava colocar uns óculos para que minha percepção sobre as coisas se transformasse. Para mim esta era uma prova concreta de que o mundo não é apenas o que eu vejo. Sei o quanto esta frase parece arrogante, mas convenhamos esta é a tendência: achar que só é real o que a gente está vendo ou, às vezes, até tocando. Tem mais gente devota de São Tomé do que a gente pensa.
Naquela ocasião era uma experiência totalmente nova e isso é uma das coisas fantásticas da vida. Ter sempre coisas para experimentarmos pela primeira vez. Bem, mas o que é novo... assusta. Então, enquanto as crianças francesas entravam sorridentes no cinema, eu estava apreensiva. Eles entregavam os óculos e a gente devia se prender a cadeira. Havia uma espécie de algema onde nossos pulsos ficavam trancados. Esta precaução não me acalmava em nada. É claro que correu tudo bem. Embora o filme fosse feito especialmente para que a gente tivesse mesmo a impressão de que podíamos cair, ser atingidos, mordidos e tudo mais, mas sai ilesa do cinema. Uma sala que é um imenso globo todo espelhado na Cidade das Ciências, no bairro La Villete, chamado “La Geode”.
Bom, mas voltando ao Avatar. Tentei me deixar levar pela história. Os atores também me convenciam. Tenho uma simpatia enorme pela Sigourney Weaver. Gostei dela até em Caça Fantasmas e Na montanha com os gorilas. Ainda lembro quando assisti sozinha no cinema Marrocos no Menino Deus (é claro que nem existe mais) Alien, o 8º passageiro. Um dos vilões do filme, Giovanni Risibi, também já me conquistou faz tempo. Ele se repete em alguns trejeitos, mas dá para sentir sua entrega aos personagens.
Os efeitos especiais e a estética do filme também são impressionantes, lindos e a história vai bem até que a disputa entre um povo e outro se define. Toda e qualquer proposta de algo interessante se dissolve.
Imagino que algumas pessoas vão dizer que não tenho imaginação, que quero filmes realistas, históricos ou sei lá mais o que. Mas não creio que seja este o problema. Não tenho dificuldade em me deixar levar pela idéia de que a tecnologia nos permita um dia ter avatares por aí. Se posso gostar de A Era do Gelo e Madagascar não é exatamente a falta de realidade que me atrapalha. É justamente o oposto.
Minha pergunta é por que pessoas com tanta imaginação para inventar algo assim, precisam recorrer ao mesmo roteiro de sempre? Bandidos contra mocinhos. Guerras e Tiroteios. Já houve época em que eu não entendia bem quando alguém dizia que algo era um clichê. Hoje, ver o militar do “mal” (Stephen Lang) tomando um café no helicóptero que está para bombardear o “paraíso” me faz ficar muito incomodada. Só muda alguma coisa se for outra bebida. Um caldo de cana talvez?
Se era um povo tão ciente dos contatos com natureza, da energia, se estabeleciam conexões com os animais pelo próprio rabo de cavalo, como não sabiam outra maneira de telepaticamente fazer os humanos mudar de idéia, refletir sobre o que estavam para fazer? Por mim, podiam até encostar o dedão do pé um no outro e fazê-los desistir da destruição, da queda de aviões, helicópteros, bombas, etc, etc.
Este tipo de coisa ainda agüento quando é um filme histórico sobre alguma guerra, algo que não há como evitar e de preferência que tenha o Tom Cruise no elenco para me distrair. Ok. O outro Tom também serve. Afinal, O Resgate do Soldado Ryan tem uma das cenas mais trágicas de guerra que eu conheço e que para mim é uma obra-prima.
Com tantos devaneios não sei se fui clara. Avatar não precisava terminar com final feliz, mas este lance de confronto final e cenas de destruição me cansam. Ainda mais quando estamos falando de outros mundos e alta tecnologia. Tudo bem. Talvez, eu precise acreditar que, quando chegarmos a poder usar espaçonaves para ir de lá para cá como vou de bicicleta (bem, se não fosse a preguiça, lógico), o homem já tenha conseguido evoluir também e não partir para algo tão batido como ir lá na terra do vizinho atirar bombas.
Não sou tão ingênua de não ter percebido que o filme trata sobre o poder, sobre disputa de território e sobre coisas de valor que fazem os humanos perderem a cabeça, entretanto não sei se fica evidente o quanto é imbecil (para usar uma palavra que aparece para definir o protagonista no filme) agir egoisticamente. Se já acho uma estupidez hoje, no que se refere somente ao planeta Terra que dirá quando estivermos falando de lugares sequer imaginados.
A estas alturas quem se encantou com o filme já deve estar por conta com as minhas opiniões. Quero deixar claro que não quero desmobilizar ninguém a ir ver. Ao contrário. Acho que as pessoas têm que ter suas próprias opiniões. Se concordarem comigo ok, se não, ok também. Gostaria de receber os argumentos a favor desta história que a mim não cativou.
Até porque se tiver uma continuação que volte no passado e me conte tudo o que a cientista (personagem da Sigourney Weaver) fez para chegar a aquele estágio, eu sou capaz de ir. Não me importaria de ficar sabendo como o povo especial aprendeu a falar inglês. Imaginei que eles eram capazes de fazer uma tradução em tempo real e isto me fascinou.
Porque no mais acho que outras soluções para a convivência pacífica entre os povos não virão. Nem mesmo no cinema. Não nesta encarnação.
·
Avatar vem do sânscrito Aval, que significa "Aquele que descende de Deus", ou simplesmente "Encarnação". Qualquer espírito que ocupe um corpo de carne, representando assim uma manifestação divina na Terra.
PS: Enquanto isso... Arruda é preso. Pagam salários de R$ 500,00 aos presidiários. Escolher a pauta em tempos como este não é fácil.
Wednesday, January 27, 2010
Arte na pele
Já há algum tempo meu espírito jornalístico (estou começando a me convencer de que isso existe mesmo) fica me cobrando sobre um assunto que nunca me interessou particularmente, mas que, de uns tempos para cá, vem me instigando. Trata-se de: tatuagens. Claro que não é de hoje que vejo as pessoas nas ruas, reportagens sobre isso, etc. Mas o que mudou nos últimos dois anos foi que, em meu contato com Roger Kichalowsky, tenho acompanhado as tatuagens que ele tem feito. Hoje, já são nove.
Logo que ele começou a fazê-las, eu perguntei se não ficaria estranho quando ele envelhecesse. Ele me disse:
- Haverá toda uma geração da minha idade tatuada também.
Confesso que não tinha pensado nisso.
Mas ele não é a única pessoa que conheço mais de perto que se tatua. Aliás, conheço muitas na verdade. Até minha irmã tem uma borboleta. Não sei se o fato dela também ser artista plástica tem alguma coisa a ver com isso.
Outra pessoa tatuada que faz parte das minhas relações é Virginia Debize que morava do lado da minha casa quando eu era pequena e que muito peguei no colo. A Gika já é famosa na cidade por ter várias partes do corpo tatuadas. Ela também responde de forma bem humorada a esta questão da idade. Em entrevista publicada na Zero Hora, quando perguntaram se ela não se arrependeria quando ficasse velha, ela disse: “Serei uma uva passa colorida, uma velhinha diferente”.
No entanto, para quem pensa que é um modismo dos tempos atuais, é bom saber que a tatuagem já aparece na arte pré-histórica, quando alguns povos cobriam o corpo com desenhos. Pelo que pesquisei, há uma hipótese de que no começo as marcas eram involuntárias, adquiridas nas guerras, lutas ou caças e que provocavam orgulho e reconhecimento a quem as possuísse. Assim, os homens começaram a fazer marcas de propósito. A partir daí, várias culturas começaram a usar pinturas por motivos espirituais, rituais e para marcar fatos da vida biológica: nascimento, reprodução, virar guerreiro, sacerdote ou rei; casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois do corpo.
Para as tatuagens do Roger ele diz que não há um significado. Segundo ele, desde que fez o curso de Artes plásticas já pensava em usar o corpo como “suporte”.
- Cheguei a querer fazer várias coisas, mas queria escolher a imagem certa. Ainda bem que esperei. Fiz a primeira tatuagem em 2007 e já aproveitei para fazer também um vídeo que filmava o processo, transformando este momento em uma performance. Aliás, a arte e a música fazem parte da vida de Roger há bastante tempo.
Perguntei a ele se as tatuagens tinham a ver com o fato dele ser rockeiro. Ele disse que sim, acaba compondo um visual que, com certeza, vai interferir na imagem que as pessoas vão fazer da Sweet Freedom. É a banda que ele e Tomas Barth formaram no final de 2009 e vão lançar em março, só com músicas de autoria dele. “O som é 'pegado', rockão mesmo, com peso, forte, com calor".
Quanto à dor para fazer as tatuagens, ele considera que é suportável, mas, primeiro diz que chegou, algumas vezes a pensar em desistir, depois se corrige: “não a desistir, mas a deixar para continuar depois”. Porém, diz ele que a vontade foi sempre maior.
Várias de suas tatuagens são desenhos inspirados em produções de outro artista plástico, Luciano Montanha. Roger explica que as adaptou para a parte do corpo onde pretendia colocá-las. Suas imagens são simplificadas e em sua maioria só usando o preto. Naquelas em que usou cor foram apenas as cores primárias. Todos os desenhos são exclusivos.
Kichalowsky planeja tatuar 30% do corpo. Disse que já tem um desenho pronto para canela e para a coxa e para costela, onde disseram que a dor é ainda maior.
Se eu gosto? Confesso que depende muito de quem é o tatuado e qual é a tatuagem. O que me dá uma certeza de que valorizo mais o “conteúdo” do que a “embalagem”. Brincadeiras a parte, me tranqüiliza pensar que não julgo as pessoas pelo exterior. Mas, penso que, mesmo que a tatuagem em si não queira dizer nada, ser tatuado não é para qualquer um e carrega em si uma irreverência, um não-conformismo. Afinal, se não fosse assim, por que este desejo de mudar a natureza?
Se me tatuaria? Talvez fosse até terapêutico já que tudo que me remete a algo permanente me dá agonia. Não me importaria, por exemplo, de raspar a cabeça. Costumo dizer para estas mulheres que tem um troço por causa de um corte de cabelo mal feito que é algo que se recupera e que poucas coisas na vida são assim. Mas, já pinturas definitivas na pele é muito diferente. O certo é que como Roger, não faria algo sem pensar bem antes. Escrever nomes de pessoas ou tentar perpetuar coisas que podem se tornar passado, nem pensar. Se bem que achei legal um casal que, em vez de dividir alianças, fez a mesma tatuagem no antebraço, com os dizeres: “nitimur in vetitum” (“Lançamo-nos ao proibido”, em latim).
Mas, até hoje, meus dois sinais de nascença me bastam.
Embora os tatuadores costumem dizer que existem dois tipos de pessoas que chegam aos seus locais de trabalho: aquelas que querem entrar na moda e aquelas que querem tatuar algo que marcou suas vidas, Roger parece pertencer a um terceiro tipo: o que usa o corpo como tela para sua arte.
Um pouco de história
Em 1991, quando a múmia mais antiga do mundo, encontrada na Itália e datada de 5.300 anos antes de cristo tinha tatuagens que acompanhavam a espinha dorsal, além de uma cruz nas coxas e desejos tribais por toda a perna estava provado que estávamos falando de uma “técnica” muito mais antiga do que pensávamos. Já a segunda múmia mais antiga do mundo, uma princesa egípcia, foi encontrada com uma grande espiral desenhada na barriga e provava que nem as tatuagens em mulheres são algo recente.
Outros povos mais antigos se tatuavam para ter força e poder e acreditavam que os traços ficavam marcados na alma, permitindo que fossem reconhecidos após a morte. Bom, nem pretendo me aprofundar na quantidade de tribos e comunidades que usavam a tatuagem pelas mais diferentes razões. Desde distrair os inimigos, agradar aos deuses, seduzir o ser amado. Além disso, até os cristãos também usavam o sinal da cruz marcado no corpo como reconhecimento. Na Idade Média as coisas mudaram. As pessoas tatuadas passaram a ser perseguidas, aprisionadas e mortas. Ser tatuado no Japão feudal era pior do que a morte, pois abalava seu status social. Já os índios americanos acreditavam que uma divindade aguardava a chegada das almas e exigia ver as tatuagens para lhe dar uma passagem para o paraíso.
A palavra “tatoo” tem origem no som que os ossos finos usados como agulhas faziam ao ser batidos por uma espécie de martelinho de madeira para introduzir a tinta na pele. Felizmente, hoje, as tatuagens são feitas com pigmentos importados de origem mineral, principalmente, e com agulhas específicas para tatuar, sempre descartáveis e nunca reutilizadas (mesmo que seja na própria pessoa). Isso sem falar nas pomadas anestésicas.
No Ocidente, a tatuagem foi chegar no século XVIII e já na segunda metade do século XIX se transformou em moda entre a realeza européia. Nos Estados Unidos, ela vai se popularizar nos anos 70, reproduzindo imagens como de Marilyn Monroe, James Dean e Jimmy Hendrix. Nessa mesma época, os surfistas lançaram a moda de braços decorados com dragões e serpentes. Na década de 80, foi a vez dos tigres e das águias.
No Brasil, o precursor da tatuagem foi um cidadão dinamarquês chamado Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido popularmente como Lucky, ou Mr. Tattoo. Chegando por aqui em 1959, Lucky se estabeleceu em Santos-SP, utilizando seu talento e suas técnicas de desenhista e pintor profissional.
Atualmente, a tatuagem ganhou as ruas do mundo todo e já não está mais ligada a nenhuma idade ou classe social específica.
Os Tipos de Tatuagem
Tradicional: (tatuagem de marinheiro): São aqueles desenhos tradicionais, como uma âncora ou uma gaivota, aliás, os marinheiros foram os grandes divulgadores da tatuagem pelo mundo.
Sumi: técnica oriental que utiliza bambu ao invés de agulha. Geralmente os desenhos são ricos em detalhes.
Realista: desenhos que imitam o mundo real, como mulheres, pássaros e personalidades.
Estilizada: como o próprio nome já diz, são desenhos estilizados.
Alto relevo: muito difundida entre os índios. A pele é dissecada formando desenhos com uma infinidade de cores, praticada principalmente por aborígenes, de origem africana.
Belfaro Pigmentação: a maquiagem definitiva, como delineador, batom, etc.
Celta: desenhos de origem celta com figuras entrelaçadas. Pode ser preta ou colorida.
Tribal: desenhos em preto ou coloridos com motivos tribais. Podem ser desenhos de tribos norte-americanas, maias, incas, astecas, geométricas ou abstratas.
Oriental: trabalhos grandes, geralmente de corpo inteiro, como um painel. Os desenhos são com motivos orientais, como samurais, gueixas e dragões.
Psicodélicas: trabalhos supercoloridos com desenhos totalmente “senseless”.
Religiosas: trabalhos com personagens bíblicos, como um santo, uma cruz, etc.
Bold line: desenhos das histórias em quadrinhos com traços bem largos e cores berrantes.
Branding: tatuagem marcada a ferro e fogo.
Curiosidades e dicas:
• Os aparelhos de barbear utilizados para depilar o local da tatuagem não devem ser reaproveitados.
• O tatuador deve usar luvas e máscara para procedimentos, para evitar uma possível infecção ou até a contaminação por doenças como hepatite, AIDS, tuberculose, esporos patogênicos, bactérias e fungos.
• A limpeza do ambiente é fundamental a fim de se evitar a contaminação cruzada.
• Não dá pra tatuar palma da mão nem sola do pé. A Tattoo some junto com a pele que descasca muito.
• A Henna, ou Mehandi, ou Mehndi, como se fala na Índia, onde essa arte se originou, não é tóxica. Ela é usada há milênios. Mas ELA É MARROM, ou ferrugem, para ser mais exato. Alguns tatuadores usam um corante PRETO que é muito tóxico. Ele penetra na sua pele e deixa resíduos de CHUMBO e MERCÚRIO, que são metais pesados que o corpo não elimina nunca mais. A tatuagem feita com esses corantes é temporária, mas o veneno fica para sempre.
• Preste muita atenção se os BICOS e AGULHAS são descartáveis, e se o tatuador está abrindo uma embalagem nova.
• Não pode fazer tatto antes dos 18 anos. Enquanto o corpo ainda pode crescer, mesmo que seja só um milímetro, sua pele vai junto. A tatuagem vai ficando toda distorcida.
Link para a matéria da Zero Hora
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2581221.xml&template=3898.dwt&edition=12721§ion=997
Logo que ele começou a fazê-las, eu perguntei se não ficaria estranho quando ele envelhecesse. Ele me disse:
- Haverá toda uma geração da minha idade tatuada também.
Confesso que não tinha pensado nisso.
Mas ele não é a única pessoa que conheço mais de perto que se tatua. Aliás, conheço muitas na verdade. Até minha irmã tem uma borboleta. Não sei se o fato dela também ser artista plástica tem alguma coisa a ver com isso.
Outra pessoa tatuada que faz parte das minhas relações é Virginia Debize que morava do lado da minha casa quando eu era pequena e que muito peguei no colo. A Gika já é famosa na cidade por ter várias partes do corpo tatuadas. Ela também responde de forma bem humorada a esta questão da idade. Em entrevista publicada na Zero Hora, quando perguntaram se ela não se arrependeria quando ficasse velha, ela disse: “Serei uma uva passa colorida, uma velhinha diferente”.
No entanto, para quem pensa que é um modismo dos tempos atuais, é bom saber que a tatuagem já aparece na arte pré-histórica, quando alguns povos cobriam o corpo com desenhos. Pelo que pesquisei, há uma hipótese de que no começo as marcas eram involuntárias, adquiridas nas guerras, lutas ou caças e que provocavam orgulho e reconhecimento a quem as possuísse. Assim, os homens começaram a fazer marcas de propósito. A partir daí, várias culturas começaram a usar pinturas por motivos espirituais, rituais e para marcar fatos da vida biológica: nascimento, reprodução, virar guerreiro, sacerdote ou rei; casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois do corpo.
Para as tatuagens do Roger ele diz que não há um significado. Segundo ele, desde que fez o curso de Artes plásticas já pensava em usar o corpo como “suporte”.
- Cheguei a querer fazer várias coisas, mas queria escolher a imagem certa. Ainda bem que esperei. Fiz a primeira tatuagem em 2007 e já aproveitei para fazer também um vídeo que filmava o processo, transformando este momento em uma performance. Aliás, a arte e a música fazem parte da vida de Roger há bastante tempo.
Perguntei a ele se as tatuagens tinham a ver com o fato dele ser rockeiro. Ele disse que sim, acaba compondo um visual que, com certeza, vai interferir na imagem que as pessoas vão fazer da Sweet Freedom. É a banda que ele e Tomas Barth formaram no final de 2009 e vão lançar em março, só com músicas de autoria dele. “O som é 'pegado', rockão mesmo, com peso, forte, com calor".
Quanto à dor para fazer as tatuagens, ele considera que é suportável, mas, primeiro diz que chegou, algumas vezes a pensar em desistir, depois se corrige: “não a desistir, mas a deixar para continuar depois”. Porém, diz ele que a vontade foi sempre maior.
Várias de suas tatuagens são desenhos inspirados em produções de outro artista plástico, Luciano Montanha. Roger explica que as adaptou para a parte do corpo onde pretendia colocá-las. Suas imagens são simplificadas e em sua maioria só usando o preto. Naquelas em que usou cor foram apenas as cores primárias. Todos os desenhos são exclusivos.
Kichalowsky planeja tatuar 30% do corpo. Disse que já tem um desenho pronto para canela e para a coxa e para costela, onde disseram que a dor é ainda maior.
Se eu gosto? Confesso que depende muito de quem é o tatuado e qual é a tatuagem. O que me dá uma certeza de que valorizo mais o “conteúdo” do que a “embalagem”. Brincadeiras a parte, me tranqüiliza pensar que não julgo as pessoas pelo exterior. Mas, penso que, mesmo que a tatuagem em si não queira dizer nada, ser tatuado não é para qualquer um e carrega em si uma irreverência, um não-conformismo. Afinal, se não fosse assim, por que este desejo de mudar a natureza?
Se me tatuaria? Talvez fosse até terapêutico já que tudo que me remete a algo permanente me dá agonia. Não me importaria, por exemplo, de raspar a cabeça. Costumo dizer para estas mulheres que tem um troço por causa de um corte de cabelo mal feito que é algo que se recupera e que poucas coisas na vida são assim. Mas, já pinturas definitivas na pele é muito diferente. O certo é que como Roger, não faria algo sem pensar bem antes. Escrever nomes de pessoas ou tentar perpetuar coisas que podem se tornar passado, nem pensar. Se bem que achei legal um casal que, em vez de dividir alianças, fez a mesma tatuagem no antebraço, com os dizeres: “nitimur in vetitum” (“Lançamo-nos ao proibido”, em latim).
Mas, até hoje, meus dois sinais de nascença me bastam.
Embora os tatuadores costumem dizer que existem dois tipos de pessoas que chegam aos seus locais de trabalho: aquelas que querem entrar na moda e aquelas que querem tatuar algo que marcou suas vidas, Roger parece pertencer a um terceiro tipo: o que usa o corpo como tela para sua arte.
Um pouco de história
Em 1991, quando a múmia mais antiga do mundo, encontrada na Itália e datada de 5.300 anos antes de cristo tinha tatuagens que acompanhavam a espinha dorsal, além de uma cruz nas coxas e desejos tribais por toda a perna estava provado que estávamos falando de uma “técnica” muito mais antiga do que pensávamos. Já a segunda múmia mais antiga do mundo, uma princesa egípcia, foi encontrada com uma grande espiral desenhada na barriga e provava que nem as tatuagens em mulheres são algo recente.
Outros povos mais antigos se tatuavam para ter força e poder e acreditavam que os traços ficavam marcados na alma, permitindo que fossem reconhecidos após a morte. Bom, nem pretendo me aprofundar na quantidade de tribos e comunidades que usavam a tatuagem pelas mais diferentes razões. Desde distrair os inimigos, agradar aos deuses, seduzir o ser amado. Além disso, até os cristãos também usavam o sinal da cruz marcado no corpo como reconhecimento. Na Idade Média as coisas mudaram. As pessoas tatuadas passaram a ser perseguidas, aprisionadas e mortas. Ser tatuado no Japão feudal era pior do que a morte, pois abalava seu status social. Já os índios americanos acreditavam que uma divindade aguardava a chegada das almas e exigia ver as tatuagens para lhe dar uma passagem para o paraíso.
A palavra “tatoo” tem origem no som que os ossos finos usados como agulhas faziam ao ser batidos por uma espécie de martelinho de madeira para introduzir a tinta na pele. Felizmente, hoje, as tatuagens são feitas com pigmentos importados de origem mineral, principalmente, e com agulhas específicas para tatuar, sempre descartáveis e nunca reutilizadas (mesmo que seja na própria pessoa). Isso sem falar nas pomadas anestésicas.
No Ocidente, a tatuagem foi chegar no século XVIII e já na segunda metade do século XIX se transformou em moda entre a realeza européia. Nos Estados Unidos, ela vai se popularizar nos anos 70, reproduzindo imagens como de Marilyn Monroe, James Dean e Jimmy Hendrix. Nessa mesma época, os surfistas lançaram a moda de braços decorados com dragões e serpentes. Na década de 80, foi a vez dos tigres e das águias.
No Brasil, o precursor da tatuagem foi um cidadão dinamarquês chamado Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido popularmente como Lucky, ou Mr. Tattoo. Chegando por aqui em 1959, Lucky se estabeleceu em Santos-SP, utilizando seu talento e suas técnicas de desenhista e pintor profissional.
Atualmente, a tatuagem ganhou as ruas do mundo todo e já não está mais ligada a nenhuma idade ou classe social específica.
Os Tipos de Tatuagem
Tradicional: (tatuagem de marinheiro): São aqueles desenhos tradicionais, como uma âncora ou uma gaivota, aliás, os marinheiros foram os grandes divulgadores da tatuagem pelo mundo.
Sumi: técnica oriental que utiliza bambu ao invés de agulha. Geralmente os desenhos são ricos em detalhes.
Realista: desenhos que imitam o mundo real, como mulheres, pássaros e personalidades.
Estilizada: como o próprio nome já diz, são desenhos estilizados.
Alto relevo: muito difundida entre os índios. A pele é dissecada formando desenhos com uma infinidade de cores, praticada principalmente por aborígenes, de origem africana.
Belfaro Pigmentação: a maquiagem definitiva, como delineador, batom, etc.
Celta: desenhos de origem celta com figuras entrelaçadas. Pode ser preta ou colorida.
Tribal: desenhos em preto ou coloridos com motivos tribais. Podem ser desenhos de tribos norte-americanas, maias, incas, astecas, geométricas ou abstratas.
Oriental: trabalhos grandes, geralmente de corpo inteiro, como um painel. Os desenhos são com motivos orientais, como samurais, gueixas e dragões.
Psicodélicas: trabalhos supercoloridos com desenhos totalmente “senseless”.
Religiosas: trabalhos com personagens bíblicos, como um santo, uma cruz, etc.
Bold line: desenhos das histórias em quadrinhos com traços bem largos e cores berrantes.
Branding: tatuagem marcada a ferro e fogo.
Curiosidades e dicas:
• Os aparelhos de barbear utilizados para depilar o local da tatuagem não devem ser reaproveitados.
• O tatuador deve usar luvas e máscara para procedimentos, para evitar uma possível infecção ou até a contaminação por doenças como hepatite, AIDS, tuberculose, esporos patogênicos, bactérias e fungos.
• A limpeza do ambiente é fundamental a fim de se evitar a contaminação cruzada.
• Não dá pra tatuar palma da mão nem sola do pé. A Tattoo some junto com a pele que descasca muito.
• A Henna, ou Mehandi, ou Mehndi, como se fala na Índia, onde essa arte se originou, não é tóxica. Ela é usada há milênios. Mas ELA É MARROM, ou ferrugem, para ser mais exato. Alguns tatuadores usam um corante PRETO que é muito tóxico. Ele penetra na sua pele e deixa resíduos de CHUMBO e MERCÚRIO, que são metais pesados que o corpo não elimina nunca mais. A tatuagem feita com esses corantes é temporária, mas o veneno fica para sempre.
• Preste muita atenção se os BICOS e AGULHAS são descartáveis, e se o tatuador está abrindo uma embalagem nova.
• Não pode fazer tatto antes dos 18 anos. Enquanto o corpo ainda pode crescer, mesmo que seja só um milímetro, sua pele vai junto. A tatuagem vai ficando toda distorcida.
Link para a matéria da Zero Hora
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2581221.xml&template=3898.dwt&edition=12721§ion=997
Sunday, January 24, 2010
Indicados Açorianos 2010
indicados
Teatro adulto
Melhor espetáculo
Dentrofora
Desvario
O Amargo Santo da Purificação
O Bairro
O Sobrado
Melhor direção
Arlete Cunha (O Vendedor de Palavras)
Carlos Ramiro Fensterseifer (Dentrofora)
Inês Marocco (O Sobrado)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor ator
Elison Couto (O Avarento)
Nelson Diniz (Dentrofora)
Renato del Campão (A Serpente)
Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Sergio Lulkin (O Bairro)
Melhor atriz
Araci Esteves (Marleni)
Isandria Fermiano (O Sobrado)
Liane Venturella (Dentrofora)
Sissi Venturin (Teresa e o Aquário)
Tânia Farias (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor ator coadjuvante
João Pedro Madureira (O Avarento)
Luis Franke (O Sobrado)
Marco Sório (O Bairro)
Marcos Chaves (O Avarento)
Zé Mario Storino (O Avarento)
Melhor atriz coadjuvante
Elisa Volpatto (Desvario)
Lucia Bendati (O Avarento)
Martina Fröhlich (O Sobrado)
Sandra Dani (Platão Dois em Um)
Valéria Lima (O Bairro)
Melhor figurino
Daniel Lion (O Avarento)
Fabrízio Rodrigues (Elefantilt)
Rô Cortinhas (Platão Dois em Um)
Rodrigo Nahas (Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor cenografia
Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Elcio Rossini (Marleni, O Sobrado e Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor iluminação
Acosta (O Bairro)
Claudia de Bem (Dentrofora, O Sobrado e Marleni)
Liliane Vieira (Teresa e o Aquário)
Melhor trilha
Álvaro Rosacosta (Dentrofora)
Celso Zanini, Luis Franke, Martina Fröhlich e Philippe Philippsen (O Sobrado)
Cida Moreira (Elefantilt)
Marcos Chaves (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor dramaturgia
Celso Zanini, Elisa Heidrich, Isandria Fermiano, Marina Kerber, Mirah Laline e Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Diones Camargo e Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Rodrigo Monteiro (O Vendedor de Palavras)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor produção
Adriana Sommacal, Anildo Michelotto, Inês Marocco, Luis Franke, Manoela Wunderlich, Mirah Laline e Philipe Philippsen (O Sobrado)
Airton de Oliveira e Tainah Dadda (Desvario)
Francine Kath (Marleni)
Inês Hubner (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
*****************
Teatro infantil
Melhor espetáculo
Arca de Noé
Herlói, o Herói
O que Seria Do Vermelho se Não Fosse O Azul
Melhor direção
Raquel Grabauska (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Zé Adão Barbosa (Arca de Noé)
Melhor ator
Álvaro Vilaverde (Arca de Noé)
Denis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Gutto Szuster (Filhote de Cruz Credo)
Leonel Radde (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Vinícius Petry (Herlói, o Herói)
Melhor atriz
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Lúcia Bendati (A Menina das Estrelas)
Luciane Olendzki (Herlói, o Herói)
Simone de Dordi (Herlói, o Herói).
Simone Rasslan (Arca de Noé)
Melhor ator coadjuvante
Álvaro Rosacosta (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Lucas Sampaio (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Paulo Brasil (Era uma Vez...uma Fábula Assombrosa)
Thiago Prade (Chapeuzinho Amarelo)
Melhor atriz coadjuvante
Francine Kliemann (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Lívia Perrone (Arca de Noé)
Lúcia Bendati (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Rafaela Cassol (Filhote de Cruz Credo)
Regina Rossi (Arca de Noé)
Melhor figurino
Alexandre Magalhães e Silva (Era uma vez.... uma Fábula Assombrosa)
Ana Fuchs e Ig Borghese (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Rô Cortinhas (Filhote de Cruz Credo)
Titi Lopes (A Menina das Estrelas e Arca de Noé)
Melhor cenografia
Dênis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Júlio Freitas (A Menina das Estrelas)
O Grupo (Arca de Noé)
Paulo Balardim (O Cisne)
Melhor iluminação
Anílton Souza (Chapeuzinho Amarelo)
Carlos Azevedo (Arca de Noé)
Fabiano Silveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Osmar Montiel (A Menina das Estrelas)
Melhor trilha
Cláudio Veiga e Mateus Mapa (O Cisne)
Jean Presser (Chapeuzinho Amarelo)
Marcelo Delacroix (Arca de Noé)
Vinícius Petry (Histórias de uma Mala Só)
Melhor dramaturgia
Artur José Pinto (Chapeuzinho Amarelo)
Bob Bahlis (Filhote de Cruz Credo)
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Gustavo Finkler (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Melhor produção
Alice Ribeiro (O Cisne)
Depósito de Teatro (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Ellen D'Avila (A Menina das Estrelas)
Laura Leão (Arca de Noé)
Paulo Guerra (Chapeuzinho Amarelo)
***********
DANÇA
Melhor espetáculo
3mares
Abobrinhas Recheadas
Ditos e Malditos
My House
Melhor coreografia
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Carlota Albuquerque (Ditos e Malditos)
Ivan Motta (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Marco Rodrigues (My House)
Melhor bailarino
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Jean Guerra (My House)
Lindon Shimizu (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)
Nilton Gaffree (Abobrinhas Recheadas)
Melhor bailarina
Ana Cláudia Pedone (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Gabriela Peixoto (Ditos e Malditos)
Letícia Paranhos (Pessoas - O Diário do Desassossego)
Thais Petzhold (Percurso Infinito)
Melhor cenografia
Andrea Nedeff (My House)
Marçal Rodrigues (3mares)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Melhor figurino
Anderson de Souza (Ditos e Malditos)
Maíra Coelho (3mares)
Marcela Corrêa e Nilma Corrêa (Essência 15 anos Valsando)
Melhor iluminação
Bathista Freire (Monoton)
Guto Grecca (Ditos e Malditos)
Igor pretto (Play Beckett)
Karrá (My House)
Melhor trilha sonora
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Álvaro Rosacosta e Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Celau Moreyra (Percurso Infinito)
Guenther Andreas (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)
Melhor produção
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Ludensarte (3mares)
Miguel Sisto Jr. (Monoton)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Teatro adulto
Melhor espetáculo
Dentrofora
Desvario
O Amargo Santo da Purificação
O Bairro
O Sobrado
Melhor direção
Arlete Cunha (O Vendedor de Palavras)
Carlos Ramiro Fensterseifer (Dentrofora)
Inês Marocco (O Sobrado)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor ator
Elison Couto (O Avarento)
Nelson Diniz (Dentrofora)
Renato del Campão (A Serpente)
Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Sergio Lulkin (O Bairro)
Melhor atriz
Araci Esteves (Marleni)
Isandria Fermiano (O Sobrado)
Liane Venturella (Dentrofora)
Sissi Venturin (Teresa e o Aquário)
Tânia Farias (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor ator coadjuvante
João Pedro Madureira (O Avarento)
Luis Franke (O Sobrado)
Marco Sório (O Bairro)
Marcos Chaves (O Avarento)
Zé Mario Storino (O Avarento)
Melhor atriz coadjuvante
Elisa Volpatto (Desvario)
Lucia Bendati (O Avarento)
Martina Fröhlich (O Sobrado)
Sandra Dani (Platão Dois em Um)
Valéria Lima (O Bairro)
Melhor figurino
Daniel Lion (O Avarento)
Fabrízio Rodrigues (Elefantilt)
Rô Cortinhas (Platão Dois em Um)
Rodrigo Nahas (Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor cenografia
Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Elcio Rossini (Marleni, O Sobrado e Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor iluminação
Acosta (O Bairro)
Claudia de Bem (Dentrofora, O Sobrado e Marleni)
Liliane Vieira (Teresa e o Aquário)
Melhor trilha
Álvaro Rosacosta (Dentrofora)
Celso Zanini, Luis Franke, Martina Fröhlich e Philippe Philippsen (O Sobrado)
Cida Moreira (Elefantilt)
Marcos Chaves (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor dramaturgia
Celso Zanini, Elisa Heidrich, Isandria Fermiano, Marina Kerber, Mirah Laline e Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Diones Camargo e Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Rodrigo Monteiro (O Vendedor de Palavras)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
Melhor produção
Adriana Sommacal, Anildo Michelotto, Inês Marocco, Luis Franke, Manoela Wunderlich, Mirah Laline e Philipe Philippsen (O Sobrado)
Airton de Oliveira e Tainah Dadda (Desvario)
Francine Kath (Marleni)
Inês Hubner (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)
*****************
Teatro infantil
Melhor espetáculo
Arca de Noé
Herlói, o Herói
O que Seria Do Vermelho se Não Fosse O Azul
Melhor direção
Raquel Grabauska (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Zé Adão Barbosa (Arca de Noé)
Melhor ator
Álvaro Vilaverde (Arca de Noé)
Denis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Gutto Szuster (Filhote de Cruz Credo)
Leonel Radde (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Vinícius Petry (Herlói, o Herói)
Melhor atriz
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Lúcia Bendati (A Menina das Estrelas)
Luciane Olendzki (Herlói, o Herói)
Simone de Dordi (Herlói, o Herói).
Simone Rasslan (Arca de Noé)
Melhor ator coadjuvante
Álvaro Rosacosta (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Lucas Sampaio (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Paulo Brasil (Era uma Vez...uma Fábula Assombrosa)
Thiago Prade (Chapeuzinho Amarelo)
Melhor atriz coadjuvante
Francine Kliemann (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Lívia Perrone (Arca de Noé)
Lúcia Bendati (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Rafaela Cassol (Filhote de Cruz Credo)
Regina Rossi (Arca de Noé)
Melhor figurino
Alexandre Magalhães e Silva (Era uma vez.... uma Fábula Assombrosa)
Ana Fuchs e Ig Borghese (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Rô Cortinhas (Filhote de Cruz Credo)
Titi Lopes (A Menina das Estrelas e Arca de Noé)
Melhor cenografia
Dênis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Júlio Freitas (A Menina das Estrelas)
O Grupo (Arca de Noé)
Paulo Balardim (O Cisne)
Melhor iluminação
Anílton Souza (Chapeuzinho Amarelo)
Carlos Azevedo (Arca de Noé)
Fabiano Silveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Osmar Montiel (A Menina das Estrelas)
Melhor trilha
Cláudio Veiga e Mateus Mapa (O Cisne)
Jean Presser (Chapeuzinho Amarelo)
Marcelo Delacroix (Arca de Noé)
Vinícius Petry (Histórias de uma Mala Só)
Melhor dramaturgia
Artur José Pinto (Chapeuzinho Amarelo)
Bob Bahlis (Filhote de Cruz Credo)
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Gustavo Finkler (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Melhor produção
Alice Ribeiro (O Cisne)
Depósito de Teatro (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Ellen D'Avila (A Menina das Estrelas)
Laura Leão (Arca de Noé)
Paulo Guerra (Chapeuzinho Amarelo)
***********
DANÇA
Melhor espetáculo
3mares
Abobrinhas Recheadas
Ditos e Malditos
My House
Melhor coreografia
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Carlota Albuquerque (Ditos e Malditos)
Ivan Motta (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Marco Rodrigues (My House)
Melhor bailarino
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Jean Guerra (My House)
Lindon Shimizu (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)
Nilton Gaffree (Abobrinhas Recheadas)
Melhor bailarina
Ana Cláudia Pedone (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Gabriela Peixoto (Ditos e Malditos)
Letícia Paranhos (Pessoas - O Diário do Desassossego)
Thais Petzhold (Percurso Infinito)
Melhor cenografia
Andrea Nedeff (My House)
Marçal Rodrigues (3mares)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Melhor figurino
Anderson de Souza (Ditos e Malditos)
Maíra Coelho (3mares)
Marcela Corrêa e Nilma Corrêa (Essência 15 anos Valsando)
Melhor iluminação
Bathista Freire (Monoton)
Guto Grecca (Ditos e Malditos)
Igor pretto (Play Beckett)
Karrá (My House)
Melhor trilha sonora
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Álvaro Rosacosta e Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Celau Moreyra (Percurso Infinito)
Guenther Andreas (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)
Melhor produção
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Ludensarte (3mares)
Miguel Sisto Jr. (Monoton)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Wednesday, December 30, 2009
Novo ano, velha retrospectiva
Todo ano é a mesma coisa. Quando anunciam a retrospectiva na televisão fico interessada. Acho que é uma maneira de me informar rapidamente de coisas que acabaram passando despercebidas enquanto eu me ocupava com meus próprios assuntos. Porém, o que acontece é que nos primeiros minutos já observo que só foram destacadas as notícias ruins. A ênfase é nas tragédias. A única exceção sempre foi para o esporte. Vitórias do futebol e dos atletas. Só.
Não sei por que me surpreendo. Se o ano todo, a imprensa faz isso porque nos últimos dias ia fazer de outra forma? Não estou dizendo que as notícias são falsas, que tudo aquilo não aconteceu. Nem tem como. As imagens estão lá para provar. Esta, aliás, foi uma característica das coisas divulgadas este ano. Mas tenho absoluta certeza de que existem boas ações, conquistas em outras áreas. Afinal, são milhares de pessoas destinando energia e suor no trabalho, nas escolas, defendendo a natureza, as crianças, os animais, etc. Nada de bom resulta disso tudo? Alguém pode, realmente, acreditar nisso?
Só não entendo o que leva a direção da dita maior emissora do país a repetir sempre o mesmo formato. Qual é o objetivo de encher a cabeça das pessoas no final do ano com tudo que roubaram, com tudo que foi destruído, com todas as mortes, assassinatos? Depois, querem que na virada do ano como se nada tivesse acontecido a gente comece a cantar: “hoje é um novo dia, de um novo tempo...” Não de acordo com a retrospectiva que eles fazem todos os anos.
Pena que não segui com a idéia que tive no ano passado de fazer minha própria retrospectiva. Ir anotando, ao longo do ano, as coisas que me chamavam a atenção. As boas ações, as descobertas, os avanços na medicina. Gente que surpreendeu, que mostrou o valor da vida, do amor, da arte. Esta, talvez, seja uma das razões pela qual acabei tendo tanto interesse no teatro. Saber que neste mesmo mundo em que tanta coisa ruim fica acontecendo, existem pessoas capazes de nos fazer por algumas horas que sejam entrar em outro universo e nos fazer pensar e sentir é algo que me arrebata.
Se o ano de 2009 tivesse, realmente, sido como acabei de ver, eu não estaria com este otimismo. Mesmo que faça até uma forcinha para ficar alienada de algumas situações políticas que, muitas vezes, sugam toda a minha energia e fé no ser humano, não haveria como ficar tão distante de tantas catástrofes. O que estes editores parecem que esquecem é que para condensar tantas informações em tão pouco tempo é preciso contrabalançar. Falar de TUDO um pouco. Porque a vida de qualquer um não foi só as enchentes ou a gripe A ou o dinheiro na cueca. Em 365 dias vivemos também momentos de alegria, solidariedade, otimismo, diversão, amor, sexo, amizade. Momentos tão verdadeiros e significativos quanto qualquer guerra no exterior ou seca aqui no Sul. Se eu, que não paro para preparar um programa destes sei disso porque eles parecem não saber?
Bem, mas antes que você se contamine com este tipo de comunicação equivocada e fique meio sem expectativas, sugiro que você se concentre em algo, uma única coisa que representa que existem pessoas do bem, fazendo algo para o melhor e que estas ações vão trazer resultados. Alguns, já em 2010. Além disso, acredito que a gente possa até mesmo pensar só em si, em sua própria felicidade, nas suas próprias metas, porque se todos fizerem isso não tenho a menor dúvida de que o mundo também vai apresentar melhoras. Independente do que diga a próxima retrospectiva.
Amanhã
(Guilherme Arantes)
Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria
Que se possa imaginar, amanhã redobrada a força
Pra cima que não cessa, há de vingar
Amanhã mais nenhum mistério, acima do ilusório
O astro rei vai brilhar, amanhã a luminosidade
Alheia a qualquer vontade, há de imperar, há de imperar
Amanhã está toda a esperança por menor que pareça
O que existe é pra festejar, amanhã apesar de hoje
Ser a estrada que surge, pra de trilhar
Amanhã mesmo que uns não queiram será de outros que esperam
Ver o dia raiar, amanhã ódios aplacados temores abrandados
Será pleno, será pleno...
Friday, December 25, 2009
Mario Quintana e eu
Não lembro quando li pela primeira vez Mario Quintana. Mas sei que Ricardo Silvestrin, outro poeta, teve muito a ver com isso e que bastou ler o primeiro poema para me apaixonar. Adorava o jeito dele escrever. Decorava. Guardava para mostrar para os amigos. Aquela ironia cortante contrastando com um jeito ingênuo, inteligente e divertido. Uma palavra que não usamos muito atualmente: lucidez. Por mais labiríntico que fosse o seu pensamento era ao mesmo tempo de uma clareza impressionante!
Em quase meio século de vida (a minha) ele é um dos meus dois ídolos. O outro, para quem ainda não sabe, é o Caetano. Sim. Tenho uma queda pelos poetas. Uma vez, fiquei lá de boca aberta, numa fila, espiando Mario Quintana. Aguardando minha vez de pegar um autógrafo. Claro que quando estava bem na sua frente, tudo que disse foi o meu nome e só porque ele me pediu. Quintana veio fazendo parte da minha vida, me constituindo enquanto pessoa. Aguçando minha sensibilidade. Nas aulas de teatro, era comum eu recorrer aos seus versos para as improvisações. Também, seu texto sozinho já trazia dramaticidade. Um dos que lembro ter usado foi:
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Há anos atrás, resolvi que comemoraria meu aniversário no lugar onde ele havia morado (antigo Majestic hoje Casa de Cultura Mário Quintana) e pedi para os convidados decorarem algum de seus textos. Meu irmão (que já não está entre nós) foi o único que atendeu a meu pedido e declamou:
O tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Fiquei impressionada com sua memória e com sua apropriação de cada palavra, mas devia entender que era um poeta falando de outro poeta, pois, meu irmão também passou a vida escrevendo seus versos. Naquele dia, este texto já fez sentido e agora ainda mais...E foi por isso que no dia em que ele partiu, eu fiz questão de me despedir com um poema deste importante autor gaúcho. Lembro que um primo meu me perguntou se eu conseguiria ler e eu garanti que sim. Lembro que a emoção era enorme mas que diante de uma multidão, lia alto e firme, sabendo que esta era uma boa maneira de prestar minha homenagem. Agora, porém, não consigo trazer à memória o nome do poema.
Acabo de ler em um blog uma entrevista de Lau Siqueira, em 1987, publicada no Jornal O Norte sua resposta a pergunta de por que ele não se casou. Claro que a resposta foi típica deste poeta que me encanta: “Como é que vou saber porque é que não casei. Deve ter sido por causa dos astros, né? Vamos culpar os astros (risos).” E foi assim que me dei conta de que ao menos isso eu e Quintana temos em comum. Também culpo os astros pela solteirice. Ah, e tem também nossa paixão pelas palavras. Aliás, o que parece não ter faltado em nossas vidas foram paixões.
Wednesday, December 02, 2009
Mulheres frágeis em corpos fortes
Sim, inverto o título do espetáculo do grupo Gaia propositalmente, é claro! Tenho lá minhas razões. Vejamos: você sai para ver um espetáculo de dança contemporânea. Então, você sabe que, a princípio, não vai ver sapatilhas de ponta, nem frufrus. Mas você espera que haja música e, no entanto, as intérpretes (é este o termo para aquelas três mulheres) se movimentam ao som do conteúdo de estações de rádio. Ou seja, pode ser uma propaganda uma entrevista, a participação de uma ouvinte ou até mesmo a narração de um jogo de futebol. Ah, mas você pode achar que não dá para dançar com isso. Sinal que você não foi assistir ao espetáculo. Se lá estivesse ficaria sabendo que os movimentos podem surgir até mesmo dos ruídos do rádio. Não quero parecer pretensiosa, mas já sabia.
Há muitos anos atrás (mais de 20, com certeza), não sei exatamente como, acabei indo fazer aulas com uma professora que tinha a exata noção de que o corpo podia ser estimulado pelos mais diversos sons. E não estou falando aqui de corpos esguios e ágeis, mas de todos os tipos. Lembro ainda que ela fazia propostas de deslocamentos, colocava vários estilos de músicas, mas não nos orientava quanto ao movimento. Muitas vezes, sugeria que fechássemos os olhos e deixássemos que a música nos levasse pela sala vazia, pelo chão, pelas paredes, o que sempre acontecia. Foi nesta época que descobri o quanto não usufruímos da nossa capacidade corporal de movimento, como somos rígidos, como repetimos sempre os mesmos gestos, quando, na verdade, somos todos capazes de muito, mas muito mais. Ontem, isso tudo me voltou à memória ao assistir ao espetáculo. E, agora, sendo mesmo pretensiosa, confesso que fiquei com vontade de estar no palco também.
O cenário era simples, mas, nem por isso menos impressionante esteticamente. Pequenos retângulos brancos, caídos do teto e espalhados pelo palco e o dividindo em três. Não fiquei surpresa ao ver na ficha técnica que era de Élcio Rossini, o mesmo que na Bienal de 2005, quando fui mediadora, colocou uma grande bola branca, transparente em exposição, provocando as mais diferentes reações. Bem, mas voltando ao espetáculo, era possível sentir uma separação, mesmo sem ler o folder entregue pelo grupo no qual fala em três pedaços. Três coreógrafos: Alecs Dall’Omo, Diego Mac e Paulo Guimarães. Três interprétes: Roberta Savian, Daniela Aquino e Alessandra Chemello. Ao mesmo tempo, também era visível uma unidade.
Bom, mas devo dizer que também teve música. Clássica, popular. “Cotidiano” de Chico Buarque mexe comigo. Imediatamente, vem a minha memória meu irmão (que já se foi) escutando esta música a todo o volume em uma vitrola na minha casa. Emendava com “Você não entende nada” de Caetano. Era um impacto quando ele dizia: “eu como, eu como, eu como” e já ligava na frase seguinte que começava por “você”. São lembranças especiais pra mim. Muito pessoais para um texto escrito para falar de Mulheres fortes em corpos frágeis, mas, ao mesmo tempo, demonstra que a arte é assim: provoca.
Por que inverti o nome? Porque senti durante o espetáculo a sensualidade, a tensão a neurose daquelas mulheres que pareciam se questionar sobre o seu lugar no mundo. Ao mesmo tempo, somente corpos intensamente preparados são capazes daquelas performances, daquela intensidade de movimentos. Aliás, isso fica claro no final. Em um momento, temos a impressão de que o espetáculo chegou ao fim. Alguém toma a iniciativa e aplaude. Os outros seguem. A interpretação, porém, continua. Mais aplausos. Mas a platéia não sabe o que deve fazer. Até passou pela minha cabeça que devíamos ir embora, mas não seria eu a fazer isso. Roberta Savian faz uma pequena pausa na sua concentração de movimentos para dizer ao público que é exatamente isso que temos que fazer para dar fim ao espetáculo. Foi uma tentativa muito interessante de fugir as convenções de como terminar um espetáculo, mas esbarrou nelas.
Obs: Daniela Aquino, minha colega de mestrado, mais uma vez absolutamente linda e expressiva em cena.
Há muitos anos atrás (mais de 20, com certeza), não sei exatamente como, acabei indo fazer aulas com uma professora que tinha a exata noção de que o corpo podia ser estimulado pelos mais diversos sons. E não estou falando aqui de corpos esguios e ágeis, mas de todos os tipos. Lembro ainda que ela fazia propostas de deslocamentos, colocava vários estilos de músicas, mas não nos orientava quanto ao movimento. Muitas vezes, sugeria que fechássemos os olhos e deixássemos que a música nos levasse pela sala vazia, pelo chão, pelas paredes, o que sempre acontecia. Foi nesta época que descobri o quanto não usufruímos da nossa capacidade corporal de movimento, como somos rígidos, como repetimos sempre os mesmos gestos, quando, na verdade, somos todos capazes de muito, mas muito mais. Ontem, isso tudo me voltou à memória ao assistir ao espetáculo. E, agora, sendo mesmo pretensiosa, confesso que fiquei com vontade de estar no palco também.
O cenário era simples, mas, nem por isso menos impressionante esteticamente. Pequenos retângulos brancos, caídos do teto e espalhados pelo palco e o dividindo em três. Não fiquei surpresa ao ver na ficha técnica que era de Élcio Rossini, o mesmo que na Bienal de 2005, quando fui mediadora, colocou uma grande bola branca, transparente em exposição, provocando as mais diferentes reações. Bem, mas voltando ao espetáculo, era possível sentir uma separação, mesmo sem ler o folder entregue pelo grupo no qual fala em três pedaços. Três coreógrafos: Alecs Dall’Omo, Diego Mac e Paulo Guimarães. Três interprétes: Roberta Savian, Daniela Aquino e Alessandra Chemello. Ao mesmo tempo, também era visível uma unidade.
Bom, mas devo dizer que também teve música. Clássica, popular. “Cotidiano” de Chico Buarque mexe comigo. Imediatamente, vem a minha memória meu irmão (que já se foi) escutando esta música a todo o volume em uma vitrola na minha casa. Emendava com “Você não entende nada” de Caetano. Era um impacto quando ele dizia: “eu como, eu como, eu como” e já ligava na frase seguinte que começava por “você”. São lembranças especiais pra mim. Muito pessoais para um texto escrito para falar de Mulheres fortes em corpos frágeis, mas, ao mesmo tempo, demonstra que a arte é assim: provoca.
Por que inverti o nome? Porque senti durante o espetáculo a sensualidade, a tensão a neurose daquelas mulheres que pareciam se questionar sobre o seu lugar no mundo. Ao mesmo tempo, somente corpos intensamente preparados são capazes daquelas performances, daquela intensidade de movimentos. Aliás, isso fica claro no final. Em um momento, temos a impressão de que o espetáculo chegou ao fim. Alguém toma a iniciativa e aplaude. Os outros seguem. A interpretação, porém, continua. Mais aplausos. Mas a platéia não sabe o que deve fazer. Até passou pela minha cabeça que devíamos ir embora, mas não seria eu a fazer isso. Roberta Savian faz uma pequena pausa na sua concentração de movimentos para dizer ao público que é exatamente isso que temos que fazer para dar fim ao espetáculo. Foi uma tentativa muito interessante de fugir as convenções de como terminar um espetáculo, mas esbarrou nelas.
Obs: Daniela Aquino, minha colega de mestrado, mais uma vez absolutamente linda e expressiva em cena.
Sunday, November 22, 2009
O Vendedor de Palavras: o conforto de um bom espetáculo
Teatro de rua, a princípio, não é confortável. Pode ser ótimo, pode ser divertido, mas confortável, não é. Porém, de nada adianta estar na melhor poltrona do teatro perfeito se o espetáculo não presta. Vamos acabar dando a qüinquagésima olhada no lustre para nos distrairmos. Aliás, era este o número de apresentações de O Vendedor de palavras, espetáculo de rua a que fui assistir no Parque Farroupilha.
Para mim, estar ao livre é sinônimo de liberdade. É verdade que em Porto Alegre não é fácil o clima não atrapalhar. Se não é a chuva, é um calor úmido bem desagradável. Pior ainda para os atores que até o último minuto não sabem se vai ser possível apresentar o espetáculo. Mas eles estavam lá. E, diferente do que eu imaginara, com cenário a ser montado. Poucas coisas, mas com uma característica que eu aprecio muito: objetos que se transformam em outros. Então, em poucos minutos estávamos olhando para uma estante cheia de livros que iria se transformar em um píer. Outros pequenos detalhes e as cenas estavam completas.
O nome do espetáculo, para mim que sou jornalista, já me atraia muito. Atiçava minha curiosidade. Haveria um jeito de pagar minhas dívidas só com palavras? Não precisaria ser contratada por uma grande empresa? Ser escritora? Bem, teria que pagar para ver, quer dizer, neste caso, só ficar para ver já que não cobravam nada. A peça é baseada na crônica de Fábio Reynol, jornalista também. Provavelmente por isso eu tenha gostado da idéia.
Levei o afilhado de minha irmã comigo. Ele não tem ainda o hábito de ver teatro, então, me perguntou quando começaria o show. Eu expliquei que não era um show. Que era um espetáculo. Uma palavra que também serve para show. Mas que nós íamos ver uma peça. É... usar as palavras não é assim tão fácil. Ainda mais, quando logo no início, um dos atores fala justamente que vai fazer um “show de teatro”. Fui desmentida.
O Vendedor de palavras começa com certa improvisação, chamando o público com música. Uma melodia agradável e comunicativa. Aos poucos vai sendo contada a história. Uma? Não várias. A dos avós, a dos pais e a do menino protagonista e sua amada. Dois atores fazem todos os personagens: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler. E é um prazer ver que nenhum se destaca. Ambos são ótimos em cena. Confesso que me divirto muito com o sotaque alemão da Fernanda. Com certeza não é fácil manter esta fala diferenciada de um jeito tão bem feito, ainda mais quando se faz mais de um personagem. Já conhecia Carlos Alexandre da Comédia dos Erros, então, quando o vi, sabia o que podia esperar. Seus personagens são carismáticos e convincentes. Desculpem. Não sei falar de atuação sem usar adjetivos. Talvez, se eu pudesse comprar algumas palavras... Pronto! Nem achei clientela para vender as minhas e já estou pensando em comprar! Era só no que eu pensava quando começaram a oferecer o significado de “histriônico” a cinqüenta centavos. Claro que eu queria. Ainda bem que lá pelas tantas do espetáculo a palavra foi revelada. Por isso, passo adiante também de graça. Histriônico é engraçadinho!
As mudanças de figurino acontecem diante de nós. Nem por isso, eles deixam de nos convencer. Ao contrário. Todos os personagens estão definidos. São divertidos e inteligentes. Preciso dizer que adoro esta combinação. Algo que faça rir e pensar ao mesmo tempo, não é perfeito? E é justamente o que fazem algumas falas como: “Por que eu sozinho vou ler para o mundo se o mundo inteiro pode ler sozinho?”
A coordenadora do Instituto Estadual de Artes cênicas, Rosa Campus Velho, estava lá e agüentou firme os 40 minutos de espetáculo. Espero que ela tenha achado que valia a pena. Eu saí com uma palavra a mais e com certeza muito mais pensamentos. Bom, acho que devo dizer que histriônico pode ser também bobo, ridículo, comediante, charlatão...Desta vez, vou doar as minhas palavras, mas na próxima...
O vendedor de palavras é o primeiro espetáculo do Grupo Mototóti e foi contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2008 – Ministério da Cultura.
Concepção e Atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti
Wednesday, November 04, 2009
O vestido rosa-choque que parou uma universidade
RUTH DE AQUINO
As imagens, gravadas por celulares dos alunos, foram parar no YouTube na quarta-feira dia 28. O vídeo provoca constrangimento pela violência e pela hipocrisia. A turba ignara de universitários é a mesma que baba ao dar chibatadas em adúlteras nos estádios em países muçulmanos fundamentalistas.
A estudante pivô das cenas dantescas, incompatíveis com uma universidade que deveria ser um centro de tolerância, se apresenta no Orkut como “Michele” ou “Loirão”. Mora com os pais, um irmão e duas irmãs em Diadema, na Grande São Paulo. Estuda à noite. Está no 1o ano. No dia do tumulto, chegou à Universidade Bandeirante, campus de São Bernardo, depois de uma hora de ônibus. O pai, supervisor de serviços, paga a faculdade: R$ 310 por mês. A mãe é dona de casa.
Dias depois do tumulto, começou a circular na faculdade um rumor forte. Segundo colegas, a estudante, nas horas vagas, trabalharia como prostituta ou atriz pornô. Seria uma das estrelas conhecida como Babalu Brasileirinha, bissexual e bilíngue, disponível 24 horas por dia. A “Michelle” do site (mesmo nome divulgado pela estudante em seu blog pessoal) tem 1,69 metro de altura, 58 quilos, 90 centímetros de busto e 96 centímetros de quadris. Ela anuncia seus serviços em siglas inglesas intraduzíveis numa revista familiar de notícias.
Acessei o site e assisti aos vídeos. Eles são hard. Os olhos, o nariz e a boca se parecem muito com os da estudante. Mas pode ser uma sósia. A história de que a estudante seria prostituta foi encampada em comentários na internet recebidos por epoca.com.br. Uma assessora da faculdade comentou comigo ao telefone que “tudo isso está parecendo uma promoção pessoal”. Se estiverem difamando Geyse, ela terá sofrido um duplo ataque.
As imagens da humilhação pública da estudante foram
parar no YouTube. Nada justifica os ataques de ódio
Mesmo que fosse de fato uma atriz pornô, isso não serviria de atenuante para os atos de covardia e preconceito ocorridos na Uniban. Seus colegas disseram que ela não vestia trajes apropriados para uma universidade. Hoje, é impossível definir “traje apropriado” para universitários. Na PUC – universidade católica – do Rio de Janeiro, moças andam de shortinho, microssaia, top com ou sem sutiã, rapazes desfilam de bermuda, camisa regata, sandálias havaianas. Tem muito corpo de fora nas universidades e isso nunca foi motivo para ataques de ódio. parar no YouTube. Nada justifica os ataques de ódio
Sabe-se que garotas de programa estão “infiltradas” em diversos estabelecimentos acima de qualquer suspeita. O que determina a explosão de intolerância? A grife do vestuário? A cor? Rosa-choque é brega? Os alunos disseram que a moça rebolava. É proibido rebolar?
Digamos que Geyse fosse ousada demais. Se a loura com maquiagem de noite e unhas vermelhas chocasse seus colegas pela aparência, uma reclamação formal na diretoria pedindo discrição talvez fosse suficiente. Mesmo assim, muito estranha num país que cultua a nudez e se diz liberal.
Inaceitável foi o motim moralista que fez a faculdade parecer o presídio do Carandiru. Em catarse coletiva, centenas de jovens brandindo celulares urravam nas rampas, pulavam muros, gargalhavam, jogavam papel higiênico no pátio central. Sem a PM, Geyse corria risco de ser linchada fisicamente.
Os agressores – que espalham que a estudante seria atriz pornô – devem ser os mesmos que visitam sites adultos e se valem dos serviços de prostitutas. Só não as querem jamais sentadas na carteira ao lado.
A estudante ficará traumatizada? Ou célebre e rica? Geyse pode ganhar indenização, escrever um livro, posar para a Playboy e inspirar um filme. Esta é a vida como ela é.
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