Wednesday, January 27, 2010

Arte na pele


Já há algum tempo meu espírito jornalístico (estou começando a me convencer de que isso existe mesmo) fica me cobrando sobre um assunto que nunca me interessou particularmente, mas que, de uns tempos para cá, vem me instigando. Trata-se de: tatuagens. Claro que não é de hoje que vejo as pessoas nas ruas, reportagens sobre isso, etc. Mas o que mudou nos últimos dois anos foi que, em meu contato com Roger Kichalowsky, tenho acompanhado as tatuagens que ele tem feito. Hoje, já são nove.

Logo que ele começou a fazê-las, eu perguntei se não ficaria estranho quando ele envelhecesse. Ele me disse:

- Haverá toda uma geração da minha idade tatuada também.

Confesso que não tinha pensado nisso.

Mas ele não é a única pessoa que conheço mais de perto que se tatua. Aliás, conheço muitas na verdade. Até minha irmã tem uma borboleta. Não sei se o fato dela também ser artista plástica tem alguma coisa a ver com isso.

Outra pessoa tatuada que faz parte das minhas relações é Virginia Debize que morava do lado da minha casa quando eu era pequena e que muito peguei no colo. A Gika já é famosa na cidade por ter várias partes do corpo tatuadas. Ela também responde de forma bem humorada a esta questão da idade. Em entrevista publicada na Zero Hora, quando perguntaram se ela não se arrependeria quando ficasse velha, ela disse: “Serei uma uva passa colorida, uma velhinha diferente”.

No entanto, para quem pensa que é um modismo dos tempos atuais, é bom saber que a tatuagem já aparece na arte pré-histórica, quando alguns povos cobriam o corpo com desenhos. Pelo que pesquisei, há uma hipótese de que no começo as marcas eram involuntárias, adquiridas nas guerras, lutas ou caças e que provocavam orgulho e reconhecimento a quem as possuísse. Assim, os homens começaram a fazer marcas de propósito. A partir daí, várias culturas começaram a usar pinturas por motivos espirituais, rituais e para marcar fatos da vida biológica: nascimento, reprodução, virar guerreiro, sacerdote ou rei; casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois do corpo.

Para as tatuagens do Roger ele diz que não há um significado. Segundo ele, desde que fez o curso de Artes plásticas já pensava em usar o corpo como “suporte”.

- Cheguei a querer fazer várias coisas, mas queria escolher a imagem certa. Ainda bem que esperei. Fiz a primeira tatuagem em 2007 e já aproveitei para fazer também um vídeo que filmava o processo, transformando este momento em uma performance. Aliás, a arte e a música fazem parte da vida de Roger há bastante tempo.

Perguntei a ele se as tatuagens tinham a ver com o fato dele ser rockeiro. Ele disse que sim, acaba compondo um visual que, com certeza, vai interferir na imagem que as pessoas vão fazer da Sweet Freedom. É a banda que ele e Tomas Barth formaram no final de 2009 e vão lançar em março, só com músicas de autoria dele. “O som é 'pegado', rockão mesmo, com peso, forte, com calor".

Quanto à dor para fazer as tatuagens, ele considera que é suportável, mas, primeiro diz que chegou, algumas vezes a pensar em desistir, depois se corrige: “não a desistir, mas a deixar para continuar depois”. Porém, diz ele que a vontade foi sempre maior.

Várias de suas tatuagens são desenhos inspirados em produções de outro artista plástico, Luciano Montanha. Roger explica que as adaptou para a parte do corpo onde pretendia colocá-las. Suas imagens são simplificadas e em sua maioria só usando o preto. Naquelas em que usou cor foram apenas as cores primárias. Todos os desenhos são exclusivos.

Kichalowsky planeja tatuar 30% do corpo. Disse que já tem um desenho pronto para canela e para a coxa e para costela, onde disseram que a dor é ainda maior.

Se eu gosto? Confesso que depende muito de quem é o tatuado e qual é a tatuagem. O que me dá uma certeza de que valorizo mais o “conteúdo” do que a “embalagem”. Brincadeiras a parte, me tranqüiliza pensar que não julgo as pessoas pelo exterior. Mas, penso que, mesmo que a tatuagem em si não queira dizer nada, ser tatuado não é para qualquer um e carrega em si uma irreverência, um não-conformismo. Afinal, se não fosse assim, por que este desejo de mudar a natureza?

Se me tatuaria? Talvez fosse até terapêutico já que tudo que me remete a algo permanente me dá agonia. Não me importaria, por exemplo, de raspar a cabeça. Costumo dizer para estas mulheres que tem um troço por causa de um corte de cabelo mal feito que é algo que se recupera e que poucas coisas na vida são assim. Mas, já pinturas definitivas na pele é muito diferente. O certo é que como Roger, não faria algo sem pensar bem antes. Escrever nomes de pessoas ou tentar perpetuar coisas que podem se tornar passado, nem pensar. Se bem que achei legal um casal que, em vez de dividir alianças, fez a mesma tatuagem no antebraço, com os dizeres: “nitimur in vetitum” (“Lançamo-nos ao proibido”, em latim).

Mas, até hoje, meus dois sinais de nascença me bastam.

Embora os tatuadores costumem dizer que existem dois tipos de pessoas que chegam aos seus locais de trabalho: aquelas que querem entrar na moda e aquelas que querem tatuar algo que marcou suas vidas, Roger parece pertencer a um terceiro tipo: o que usa o corpo como tela para sua arte.

Um pouco de história

Em 1991, quando a múmia mais antiga do mundo, encontrada na Itália e datada de 5.300 anos antes de cristo tinha tatuagens que acompanhavam a espinha dorsal, além de uma cruz nas coxas e desejos tribais por toda a perna estava provado que estávamos falando de uma “técnica” muito mais antiga do que pensávamos. Já a segunda múmia mais antiga do mundo, uma princesa egípcia, foi encontrada com uma grande espiral desenhada na barriga e provava que nem as tatuagens em mulheres são algo recente.

Outros povos mais antigos se tatuavam para ter força e poder e acreditavam que os traços ficavam marcados na alma, permitindo que fossem reconhecidos após a morte. Bom, nem pretendo me aprofundar na quantidade de tribos e comunidades que usavam a tatuagem pelas mais diferentes razões. Desde distrair os inimigos, agradar aos deuses, seduzir o ser amado. Além disso, até os cristãos também usavam o sinal da cruz marcado no corpo como reconhecimento. Na Idade Média as coisas mudaram. As pessoas tatuadas passaram a ser perseguidas, aprisionadas e mortas. Ser tatuado no Japão feudal era pior do que a morte, pois abalava seu status social. Já os índios americanos acreditavam que uma divindade aguardava a chegada das almas e exigia ver as tatuagens para lhe dar uma passagem para o paraíso.

A palavra “tatoo” tem origem no som que os ossos finos usados como agulhas faziam ao ser batidos por uma espécie de martelinho de madeira para introduzir a tinta na pele. Felizmente, hoje, as tatuagens são feitas com pigmentos importados de origem mineral, principalmente, e com agulhas específicas para tatuar, sempre descartáveis e nunca reutilizadas (mesmo que seja na própria pessoa). Isso sem falar nas pomadas anestésicas.

No Ocidente, a tatuagem foi chegar no século XVIII e já na segunda metade do século XIX se transformou em moda entre a realeza européia. Nos Estados Unidos, ela vai se popularizar nos anos 70, reproduzindo imagens como de Marilyn Monroe, James Dean e Jimmy Hendrix. Nessa mesma época, os surfistas lançaram a moda de braços decorados com dragões e serpentes. Na década de 80, foi a vez dos tigres e das águias.

No Brasil, o precursor da tatuagem foi um cidadão dinamarquês chamado Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido popularmente como Lucky, ou Mr. Tattoo. Chegando por aqui em 1959, Lucky se estabeleceu em Santos-SP, utilizando seu talento e suas técnicas de desenhista e pintor profissional.

Atualmente, a tatuagem ganhou as ruas do mundo todo e já não está mais ligada a nenhuma idade ou classe social específica.

Os Tipos de Tatuagem

Tradicional: (tatuagem de marinheiro): São aqueles desenhos tradicionais, como uma âncora ou uma gaivota, aliás, os marinheiros foram os grandes divulgadores da tatuagem pelo mundo.

Sumi: técnica oriental que utiliza bambu ao invés de agulha. Geralmente os desenhos são ricos em detalhes.

Realista: desenhos que imitam o mundo real, como mulheres, pássaros e personalidades.

Estilizada: como o próprio nome já diz, são desenhos estilizados.

Alto relevo: muito difundida entre os índios. A pele é dissecada formando desenhos com uma infinidade de cores, praticada principalmente por aborígenes, de origem africana.

Belfaro Pigmentação: a maquiagem definitiva, como delineador, batom, etc.

Celta: desenhos de origem celta com figuras entrelaçadas. Pode ser preta ou colorida.

Tribal: desenhos em preto ou coloridos com motivos tribais. Podem ser desenhos de tribos norte-americanas, maias, incas, astecas, geométricas ou abstratas.

Oriental: trabalhos grandes, geralmente de corpo inteiro, como um painel. Os desenhos são com motivos orientais, como samurais, gueixas e dragões.

Psicodélicas: trabalhos supercoloridos com desenhos totalmente “senseless”.

Religiosas: trabalhos com personagens bíblicos, como um santo, uma cruz, etc.

Bold line: desenhos das histórias em quadrinhos com traços bem largos e cores berrantes.

Branding: tatuagem marcada a ferro e fogo.

Curiosidades e dicas:

• Os aparelhos de barbear utilizados para depilar o local da tatuagem não devem ser reaproveitados.

• O tatuador deve usar luvas e máscara para procedimentos, para evitar uma possível infecção ou até a contaminação por doenças como hepatite, AIDS, tuberculose, esporos patogênicos, bactérias e fungos.

• A limpeza do ambiente é fundamental a fim de se evitar a contaminação cruzada.

• Não dá pra tatuar palma da mão nem sola do pé. A Tattoo some junto com a pele que descasca muito.

• A Henna, ou Mehandi, ou Mehndi, como se fala na Índia, onde essa arte se originou, não é tóxica. Ela é usada há milênios. Mas ELA É MARROM, ou ferrugem, para ser mais exato. Alguns tatuadores usam um corante PRETO que é muito tóxico. Ele penetra na sua pele e deixa resíduos de CHUMBO e MERCÚRIO, que são metais pesados que o corpo não elimina nunca mais. A tatuagem feita com esses corantes é temporária, mas o veneno fica para sempre.

• Preste muita atenção se os BICOS e AGULHAS são descartáveis, e se o tatuador está abrindo uma embalagem nova.

• Não pode fazer tatto antes dos 18 anos. Enquanto o corpo ainda pode crescer, mesmo que seja só um milímetro, sua pele vai junto. A tatuagem vai ficando toda distorcida.


Link para a matéria da Zero Hora

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2581221.xml&template=3898.dwt&edition=12721§ion=997

Sunday, January 24, 2010

Indicados Açorianos 2010

 indicados

Teatro adulto

Melhor espetáculo
Dentrofora
Desvario
O Amargo Santo da Purificação
O Bairro
O Sobrado
Melhor direção
Arlete Cunha (O Vendedor de Palavras)
Carlos Ramiro Fensterseifer (Dentrofora)
Inês Marocco (O Sobrado)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor ator 
Elison Couto (O Avarento)
Nelson Diniz (Dentrofora)
Renato del Campão (A Serpente)
Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Sergio Lulkin (O Bairro)

Melhor atriz
Araci Esteves (Marleni)
Isandria Fermiano (O Sobrado)
Liane Venturella (Dentrofora)
Sissi Venturin (Teresa e o Aquário)
Tânia Farias (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor ator coadjuvante 
João Pedro Madureira (O Avarento)
Luis Franke (O Sobrado)
Marco Sório (O Bairro)
Marcos Chaves (O Avarento)
Zé Mario Storino (O Avarento)

Melhor atriz coadjuvante 
Elisa Volpatto (Desvario)
Lucia Bendati (O Avarento)
Martina Fröhlich (O Sobrado)
Sandra Dani (Platão Dois em Um)
Valéria Lima (O Bairro)

Melhor figurino 
Daniel Lion (O Avarento)
Fabrízio Rodrigues (Elefantilt)
Rô Cortinhas (Platão Dois em Um)
Rodrigo Nahas (Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor cenografia
Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Elcio Rossini (Marleni, O Sobrado e Dentrofora)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor iluminação 
Acosta (O Bairro)
Claudia de Bem (Dentrofora, O Sobrado e Marleni)
Liliane Vieira (Teresa e o Aquário)

Melhor trilha 
Álvaro Rosacosta (Dentrofora)
Celso Zanini, Luis Franke, Martina Fröhlich e Philippe Philippsen (O Sobrado)
Cida Moreira (Elefantilt)
Marcos Chaves (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor dramaturgia 
Celso Zanini, Elisa Heidrich, Isandria Fermiano, Marina Kerber, Mirah Laline e Rodrigo Fiatt (O Sobrado)
Diones Camargo e Cia. Espaço em Branco (Teresa e o Aquário)
Marco Fronchetti (O Bairro)
Rodrigo Monteiro (O Vendedor de Palavras)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

Melhor produção 
Adriana Sommacal, Anildo Michelotto, Inês Marocco, Luis Franke, Manoela Wunderlich, Mirah Laline e Philipe Philippsen (O Sobrado)
Airton de Oliveira e Tainah Dadda (Desvario)
Francine Kath (Marleni)
Inês Hubner (O Avarento)
Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (O Amargo Santo da Purificação)

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Teatro infantil

Melhor espetáculo
Arca de Noé
Herlói, o Herói
O que Seria Do Vermelho se Não Fosse O Azul

Melhor direção 
Raquel Grabauska (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Zé Adão Barbosa (Arca de Noé)

Melhor ator 
Álvaro Vilaverde (Arca de Noé)
Denis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Gutto Szuster (Filhote de Cruz Credo)
Leonel Radde (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Vinícius Petry (Herlói, o Herói)

Melhor atriz
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Lúcia Bendati (A Menina das Estrelas)
Luciane Olendzki (Herlói, o Herói)
Simone de Dordi (Herlói, o Herói).
Simone Rasslan (Arca de Noé)

Melhor ator coadjuvante 
Álvaro Rosacosta (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Lucas Sampaio (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Paulo Brasil (Era uma Vez...uma Fábula Assombrosa)
Thiago Prade (Chapeuzinho Amarelo)

Melhor atriz coadjuvante 
Francine Kliemann (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Lívia Perrone (Arca de Noé)
Lúcia Bendati (Peter Pan e a Terra do Nunca)
Rafaela Cassol (Filhote de Cruz Credo)
Regina Rossi (Arca de Noé)

Melhor figurino 
Alexandre Magalhães e Silva (Era uma vez.... uma Fábula Assombrosa)
Ana Fuchs e Ig Borghese (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Rô Cortinhas (Filhote de Cruz Credo)
Titi Lopes (A Menina das Estrelas e Arca de Noé)

Melhor cenografia 
Dênis Gosch (Chapeuzinho Amarelo)
Júlio Freitas (A Menina das Estrelas)
O Grupo (Arca de Noé)
Paulo Balardim (O Cisne)

Melhor iluminação 
Anílton Souza (Chapeuzinho Amarelo)
Carlos Azevedo (Arca de Noé)
Fabiano Silveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Osmar Montiel (A Menina das Estrelas)

Melhor trilha
Cláudio Veiga e Mateus Mapa (O Cisne)
Jean Presser (Chapeuzinho Amarelo)
Marcelo Delacroix (Arca de Noé)
Vinícius Petry (Histórias de uma Mala Só)

Melhor dramaturgia
Artur José Pinto (Chapeuzinho Amarelo)
Bob Bahlis (Filhote de Cruz Credo)
Elisa Lucas (Histórias de uma Mala Só)
Gustavo Finkler (Herlói, o Herói)
Roberto Oliveira (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)

Melhor produção 
Alice Ribeiro (O Cisne)
Depósito de Teatro (O que Seria Do Vermelho se Não Fosse o Azul)
Ellen D'Avila (A Menina das Estrelas)
Laura Leão (Arca de Noé)
Paulo Guerra (Chapeuzinho Amarelo)

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DANÇA

Melhor espetáculo
3mares
Abobrinhas Recheadas
Ditos e Malditos
My House

Melhor coreografia
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Carlota Albuquerque (Ditos e Malditos)
Ivan Motta (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Marco Rodrigues (My House)

Melhor bailarino
Aldo Gonçalves (Essência 15 Anos Valsando)
Jean Guerra (My House)
Lindon Shimizu (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)
Nilton Gaffree (Abobrinhas Recheadas)

Melhor bailarina 
Ana Cláudia Pedone (Pessoas — O Diário do Desassossego)
Gabriela Peixoto (Ditos e Malditos)
Letícia Paranhos (Pessoas - O Diário do Desassossego)
Thais Petzhold (Percurso Infinito)

Melhor cenografia
Andrea Nedeff (My House)
Marçal Rodrigues (3mares)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)

Melhor figurino 
Anderson de Souza (Ditos e Malditos)
Maíra Coelho (3mares)
Marcela Corrêa e Nilma Corrêa (Essência 15 anos Valsando)

Melhor iluminação
Bathista Freire (Monoton)
Guto Grecca (Ditos e Malditos)
Igor pretto (Play Beckett)
Karrá (My House)

Melhor trilha sonora 
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Álvaro Rosacosta e Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)
Celau Moreyra (Percurso Infinito)
Guenther Andreas (Ato ao Acaso)
Marco Rodrigues (My House)

Melhor produção 
Alessandra Chemello e Diego Mac (Abobrinhas Recheadas)
Ludensarte (3mares)
Miguel Sisto Jr. (Monoton)
Terpsí Teatro de Dança (Ditos e Malditos)

Wednesday, December 30, 2009

Novo ano, velha retrospectiva

Todo ano é a mesma coisa. Quando anunciam a retrospectiva na televisão fico interessada. Acho que é uma maneira de me informar rapidamente de coisas que acabaram passando despercebidas enquanto eu me ocupava com meus próprios assuntos. Porém, o que acontece é que nos primeiros minutos já observo que só foram destacadas as notícias ruins. A ênfase é nas tragédias. A única exceção sempre foi para o esporte. Vitórias do futebol e dos atletas. Só.
Não sei por que me surpreendo. Se o ano todo, a imprensa faz isso porque nos últimos dias ia fazer de outra forma? Não estou dizendo que as notícias são falsas, que tudo aquilo não aconteceu. Nem tem como. As imagens estão lá para provar. Esta, aliás, foi uma característica das coisas divulgadas este ano. Mas tenho absoluta certeza de que existem boas ações, conquistas em outras áreas. Afinal, são milhares de pessoas destinando energia e suor no trabalho, nas escolas, defendendo a natureza, as crianças, os animais, etc. Nada de bom resulta disso tudo? Alguém pode, realmente, acreditar nisso?
Só não entendo o que leva a direção da dita maior emissora do país a repetir sempre o mesmo formato. Qual é o objetivo de encher a cabeça das pessoas no final do ano com tudo que roubaram, com tudo que foi destruído, com todas as mortes, assassinatos? Depois, querem que na virada do ano como se nada tivesse acontecido a gente comece a cantar: “hoje é um novo dia, de um novo tempo...” Não de acordo com a retrospectiva que eles fazem todos os anos.
Pena que não segui com a idéia que tive no ano passado de fazer minha própria retrospectiva. Ir anotando, ao longo do ano, as coisas que me chamavam a atenção. As boas ações, as descobertas, os avanços na medicina. Gente que surpreendeu, que mostrou o valor da vida, do amor, da arte.  Esta, talvez, seja uma das razões pela qual acabei tendo tanto interesse no teatro. Saber que neste mesmo mundo em que tanta coisa ruim fica acontecendo, existem pessoas capazes de nos fazer por algumas horas que sejam entrar em outro universo e nos fazer pensar e sentir é algo que me arrebata.
Se o ano de 2009 tivesse, realmente, sido como acabei de ver, eu não estaria com este otimismo. Mesmo que faça até uma forcinha para ficar alienada de algumas situações políticas que, muitas vezes, sugam toda a minha energia e fé no ser humano, não haveria como ficar tão distante de tantas catástrofes. O que estes editores parecem que esquecem é que para condensar tantas informações em tão pouco tempo é preciso contrabalançar. Falar de TUDO um pouco. Porque a vida de qualquer um não foi só as enchentes ou a gripe A ou o dinheiro na cueca. Em 365 dias vivemos também momentos de alegria, solidariedade, otimismo, diversão, amor, sexo, amizade. Momentos tão verdadeiros e significativos quanto qualquer guerra no exterior ou seca aqui no Sul. Se eu, que não paro para preparar um programa destes sei disso porque eles parecem não saber?
Bem, mas antes que você se contamine com este tipo de comunicação equivocada e fique meio sem expectativas, sugiro que você se concentre em algo, uma única coisa que representa que existem pessoas do bem, fazendo algo para o melhor e que estas ações vão trazer resultados. Alguns, já em 2010. Além disso, acredito que a gente possa até mesmo pensar só em si, em sua própria felicidade, nas suas próprias metas, porque se todos fizerem isso não tenho a menor dúvida de que o mundo também vai apresentar melhoras. Independente do que diga a próxima retrospectiva.

Amanhã
(Guilherme Arantes)
Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria

Que se possa imaginar, amanhã redobrada a força

Pra cima que não cessa, há de vingar

Amanhã mais nenhum mistério, acima do ilusório

O astro rei vai brilhar, amanhã a luminosidade

Alheia a qualquer vontade, há de imperar, há de imperar

Amanhã está toda a esperança por menor que pareça

O que existe é pra festejar, amanhã apesar de hoje

Ser a estrada que surge, pra de trilhar

Amanhã mesmo que uns não queiram será de outros que esperam

Ver o dia raiar, amanhã ódios aplacados temores abrandados

Será pleno, será pleno...

Friday, December 25, 2009

Mario Quintana e eu






Não lembro quando li pela primeira vez Mario Quintana. Mas sei que Ricardo Silvestrin, outro poeta, teve muito a ver com isso e que bastou ler o primeiro poema para me apaixonar. Adorava o jeito dele escrever. Decorava. Guardava para mostrar para os amigos. Aquela ironia cortante contrastando com um jeito ingênuo, inteligente e divertido. Uma palavra que não usamos muito atualmente: lucidez. Por mais labiríntico que fosse o seu pensamento era ao mesmo tempo de uma clareza impressionante!
Em quase meio século de vida (a minha) ele é um dos meus dois ídolos. O outro, para quem ainda não sabe, é o Caetano. Sim. Tenho uma queda pelos poetas. Uma vez, fiquei lá de boca aberta, numa fila, espiando Mario Quintana. Aguardando minha vez de pegar um autógrafo. Claro que quando estava bem na sua frente, tudo que disse foi o meu nome e só porque ele me pediu. Quintana veio fazendo parte da minha vida, me constituindo enquanto pessoa. Aguçando minha sensibilidade. Nas aulas de teatro, era comum eu recorrer aos seus versos para as improvisações. Também, seu texto sozinho já trazia dramaticidade. Um dos que lembro ter usado foi:


Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa m
ão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz
sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!



Há anos atrás, resolvi que comemoraria meu aniversário no lugar onde ele havia morado (antigo Majestic hoje Casa de Cultura Mário Quintana) e pedi para os convidados decorarem algum de seus textos. Meu irmão (que já não está entre nós) foi o único que atendeu a meu pedido e declamou:


O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
 
Quando se vê, já são seis horas!
 
Quando de vê, já é sexta-feira!
 
Quando se vê, já é natal...
 
Quando se vê, já terminou o ano...
 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
 
Quando se vê passaram 50 anos!
 
Agora é tarde demais para ser reprovado...
 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
 
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
 
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
 
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
 
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


Fiquei impressionada com sua memória e com sua apropriação de cada palavra, mas devia entender que era um poeta falando de outro poeta, pois, meu irmão também passou a vida escrevendo seus versos. Naquele dia, este texto já fez sentido e agora ainda mais...E foi por isso que no dia em que ele partiu, eu fiz questão de me despedir com um poema deste importante autor gaúcho. Lembro que um primo meu me perguntou se eu conseguiria ler e eu garanti que sim. Lembro que a emoção era enorme mas que diante de uma multidão, lia alto e firme, sabendo que esta era uma boa maneira de prestar minha homenagem. Agora, porém, não consigo trazer à memória o nome do poema.
Acabo de ler em um blog uma entrevista de Lau Siqueira, em 1987, publicada no Jornal O Norte sua resposta a pergunta de por que ele não se casou. Claro que a resposta foi típica deste poeta que me encanta: “Como é que vou saber porque é que não casei. Deve ter sido por causa dos astros, né? Vamos culpar os astros (risos).” E foi assim que me dei conta de que ao menos isso eu e Quintana temos em comum. Também culpo os astros pela solteirice. Ah, e tem também nossa paixão pelas palavras. Aliás, o que parece não ter faltado em nossas vidas foram paixões. 

Wednesday, December 02, 2009

Mulheres frágeis em corpos fortes


Sim, inverto o título do espetáculo do grupo Gaia propositalmente, é claro! Tenho lá minhas razões. Vejamos: você sai para ver um espetáculo de dança contemporânea. Então, você sabe que, a princípio, não vai ver sapatilhas de ponta, nem frufrus. Mas você espera que haja música e, no entanto, as intérpretes (é este o termo para aquelas três mulheres) se movimentam ao som do conteúdo de estações de rádio. Ou seja, pode ser uma propaganda uma entrevista, a participação de uma ouvinte ou até mesmo a narração de um jogo de futebol. Ah, mas você pode achar que não dá para dançar com isso. Sinal que você não foi assistir ao espetáculo. Se lá estivesse ficaria sabendo que os movimentos podem surgir até mesmo dos ruídos do rádio. Não quero parecer pretensiosa, mas já sabia.

Há muitos anos atrás (mais de 20, com certeza), não sei exatamente como, acabei indo fazer aulas com uma professora que tinha a exata noção de que o corpo podia ser estimulado pelos mais diversos sons. E não estou falando aqui de corpos esguios e ágeis, mas de todos os tipos. Lembro ainda que ela fazia propostas de deslocamentos, colocava vários estilos de músicas, mas não nos orientava quanto ao movimento. Muitas vezes, sugeria que fechássemos os olhos e deixássemos que a música nos levasse pela sala vazia, pelo chão, pelas paredes, o que sempre acontecia. Foi nesta época que descobri o quanto não usufruímos da nossa capacidade corporal de movimento, como somos rígidos, como repetimos sempre os mesmos gestos, quando, na verdade, somos todos capazes de muito, mas muito mais. Ontem, isso tudo me voltou à memória ao assistir ao espetáculo. E, agora, sendo mesmo pretensiosa, confesso que fiquei com vontade de estar no palco também.
O cenário era simples, mas, nem por isso menos impressionante esteticamente. Pequenos retângulos brancos, caídos do teto e espalhados pelo palco e o dividindo em três. Não fiquei surpresa ao ver na ficha técnica que era de Élcio Rossini, o mesmo que na Bienal de 2005, quando fui mediadora, colocou uma grande bola branca, transparente em exposição, provocando as mais diferentes reações. Bem, mas voltando ao espetáculo, era possível sentir uma separação, mesmo sem ler o folder entregue pelo grupo no qual fala em três pedaços. Três coreógrafos: Alecs Dall’Omo, Diego Mac e Paulo Guimarães. Três interprétes: Roberta Savian, Daniela Aquino e Alessandra Chemello. Ao mesmo tempo, também era visível uma unidade.
Bom, mas devo dizer que também teve música. Clássica, popular. “Cotidiano” de Chico Buarque mexe comigo. Imediatamente, vem a minha memória meu irmão (que já se foi) escutando esta música a todo o volume em uma vitrola na minha casa. Emendava com “Você não entende nada” de Caetano. Era um impacto quando ele dizia: “eu como, eu como, eu como” e já ligava na frase seguinte que começava por “você”. São lembranças especiais pra mim. Muito pessoais para um texto escrito para falar de Mulheres fortes em corpos frágeis, mas, ao mesmo tempo, demonstra que a arte é assim: provoca.

Por que inverti o nome? Porque senti durante o espetáculo a sensualidade, a tensão a neurose daquelas mulheres que pareciam se questionar sobre o seu lugar no mundo. Ao mesmo tempo, somente corpos intensamente preparados são capazes daquelas performances, daquela intensidade de movimentos. Aliás, isso fica claro no final. Em um momento, temos a impressão de que o espetáculo chegou ao fim. Alguém toma a iniciativa e aplaude. Os outros seguem. A interpretação, porém, continua. Mais aplausos. Mas a platéia não sabe o que deve fazer. Até passou pela minha cabeça que devíamos ir embora, mas não seria eu a fazer isso. Roberta Savian faz uma pequena pausa na sua concentração de movimentos para dizer ao público que é exatamente isso que temos que fazer para dar fim ao espetáculo. Foi uma tentativa muito interessante de fugir as convenções de como terminar um espetáculo, mas esbarrou nelas.

Obs: Daniela Aquino, minha colega de mestrado, mais uma vez absolutamente linda e expressiva em cena.

Sunday, November 22, 2009

O Vendedor de Palavras: o conforto de um bom espetáculo




Teatro de rua, a princípio, não é confortável. Pode ser ótimo, pode ser divertido, mas confortável, não é. Porém, de nada adianta estar na melhor poltrona do teatro perfeito se o espetáculo não presta. Vamos acabar dando a qüinquagésima olhada no lustre para nos distrairmos. Aliás, era este o número de apresentações de O Vendedor de palavras, espetáculo de rua a que fui assistir no Parque Farroupilha.
Para mim, estar ao livre é sinônimo de liberdade. É verdade que em Porto Alegre não é fácil o clima não atrapalhar. Se não é a chuva,  é um calor úmido bem desagradável. Pior ainda para os atores que até o último minuto não sabem se vai ser possível apresentar o espetáculo. Mas eles estavam lá. E, diferente do que eu imaginara, com cenário a ser montado. Poucas coisas, mas com uma característica que eu aprecio muito: objetos que se transformam em outros. Então, em poucos minutos estávamos olhando para uma estante cheia de livros que iria se transformar em um píer. Outros pequenos detalhes e as cenas estavam completas.
O nome do espetáculo, para mim que sou jornalista, já me atraia muito. Atiçava minha curiosidade. Haveria um jeito de pagar minhas dívidas só com palavras? Não precisaria ser contratada por uma grande empresa? Ser escritora? Bem, teria que pagar para ver, quer dizer, neste caso, só ficar para ver já que não cobravam nada. A peça é baseada na crônica de Fábio Reynol, jornalista também. Provavelmente por isso eu tenha gostado da idéia.  
Levei o afilhado de minha irmã comigo. Ele não tem ainda o hábito de ver teatro, então, me perguntou quando começaria o show. Eu expliquei que não era um show. Que era um espetáculo. Uma palavra que também serve para show. Mas que nós íamos ver uma peça. É... usar as palavras não é assim tão fácil. Ainda mais, quando logo no início, um dos atores fala justamente que vai fazer um “show de teatro”. Fui desmentida.
O Vendedor de palavras começa com certa improvisação, chamando o público com música. Uma melodia agradável e comunicativa. Aos poucos vai sendo contada a história. Uma? Não várias. A dos avós, a dos pais e a do menino protagonista e sua amada. Dois atores fazem todos os personagens: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler. E é um prazer ver que nenhum se destaca. Ambos são ótimos em cena. Confesso que me divirto muito com o sotaque alemão da Fernanda. Com certeza não é fácil manter esta fala diferenciada de um jeito tão bem feito, ainda mais quando se faz mais de um personagem. Já conhecia Carlos Alexandre da Comédia dos Erros, então, quando o vi, sabia o que podia esperar.  Seus personagens são carismáticos e convincentes. Desculpem. Não sei falar de atuação sem usar adjetivos. Talvez, se eu pudesse comprar algumas palavras... Pronto! Nem achei clientela para vender as minhas e já estou pensando em comprar! Era só no que eu pensava quando começaram a oferecer o significado de “histriônico” a cinqüenta centavos. Claro que eu queria. Ainda bem que lá pelas tantas do espetáculo a palavra foi revelada. Por isso, passo adiante também de graça. Histriônico é engraçadinho!
As mudanças de figurino acontecem diante de nós. Nem por isso, eles deixam de nos convencer. Ao contrário. Todos os personagens estão definidos. São divertidos e inteligentes. Preciso dizer que adoro esta combinação. Algo que faça rir e pensar ao mesmo tempo, não é perfeito? E é justamente o que fazem algumas falas como: “Por que eu sozinho vou ler para o mundo se o mundo inteiro pode ler sozinho?”
A coordenadora do Instituto Estadual de Artes cênicas, Rosa Campus Velho, estava lá e agüentou firme os 40 minutos de espetáculo. Espero que ela tenha achado que valia a pena. Eu saí com uma palavra a mais e com certeza muito mais pensamentos. Bom, acho que devo dizer que histriônico pode ser também bobo, ridículo, comediante, charlatão...Desta vez, vou doar as minhas palavras, mas na próxima...
O vendedor de palavras é o primeiro espetáculo do Grupo Mototóti e foi contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2008 – Ministério da Cultura.


Concepção e Atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti



Wednesday, November 04, 2009

O vestido rosa-choque que parou uma universidade



RUTH DE AQUINO

RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Um microvestido rosa-choque que deixava entrever a calcinha parou uma universidade paulista na quinta-feira dia 22 de outubro. A excitação causada por uma estudante de turismo de 20 anos, ao subir a rampa, incendiou o campus: cerca de 700 alunos e alunas ficaram histéricos a ponto de o coordenador do curso pedir a Geyse que fosse embora, com um jaleco branco cobrindo seu corpo. A PM a escoltou e usou spray de pimenta para afastar a multidão ensandecida que a xingava de “p...”, “p...”.
As imagens, gravadas por celulares dos alunos, foram parar no YouTube na quarta-feira dia 28. O vídeo provoca constrangimento pela violência e pela hipocrisia. A turba ignara de universitários é a mesma que baba ao dar chibatadas em adúlteras nos estádios em países muçulmanos fundamentalistas.
A estudante pivô das cenas dantescas, incompatíveis com uma universidade que deveria ser um centro de tolerância, se apresenta no Orkut como “Michele” ou “Loirão”. Mora com os pais, um irmão e duas irmãs em Diadema, na Grande São Paulo. Estuda à noite. Está no 1o ano. No dia do tumulto, chegou à Universidade Bandeirante, campus de São Bernardo, depois de uma hora de ônibus. O pai, supervisor de serviços, paga a faculdade: R$ 310 por mês. A mãe é dona de casa.
Dias depois do tumulto, começou a circular na faculdade um rumor forte. Segundo colegas, a estudante, nas horas vagas, trabalharia como prostituta ou atriz pornô. Seria uma das estrelas conhecida como Babalu Brasileirinha, bissexual e bilíngue, disponível 24 horas por dia. A “Michelle” do site (mesmo nome divulgado pela estudante em seu blog pessoal) tem 1,69 metro de altura, 58 quilos, 90 centímetros de busto e 96 centímetros de quadris. Ela anuncia seus serviços em siglas inglesas intraduzíveis numa revista familiar de notícias.
Acessei o site e assisti aos vídeos. Eles são hard. Os olhos, o nariz e a boca se parecem muito com os da estudante. Mas pode ser uma sósia. A história de que a estudante seria prostituta foi encampada em comentários na internet recebidos por epoca.com.br. Uma assessora da faculdade comentou comigo ao telefone que “tudo isso está parecendo uma promoção pessoal”. Se estiverem difamando Geyse, ela terá sofrido um duplo ataque.
As imagens da humilhação pública da estudante foram
parar no YouTube. Nada justifica os ataques de ódio
Mesmo que fosse de fato uma atriz pornô, isso não serviria de atenuante para os atos de covardia e preconceito ocorridos na Uniban. Seus colegas disseram que ela não vestia trajes apropriados para uma universidade. Hoje, é impossível definir “traje apropriado” para universitários. Na PUC – universidade católica – do Rio de Janeiro, moças andam de shortinho, microssaia, top com ou sem sutiã, rapazes desfilam de bermuda, camisa regata, sandálias havaianas. Tem muito corpo de fora nas universidades e isso nunca foi motivo para ataques de ódio.
Sabe-se que garotas de programa estão “infiltradas” em diversos estabelecimentos acima de qualquer suspeita. O que determina a explosão de intolerância? A grife do vestuário? A cor? Rosa-choque é brega? Os alunos disseram que a moça rebolava. É proibido rebolar?
Digamos que Geyse fosse ousada demais. Se a loura com maquiagem de noite e unhas vermelhas chocasse seus colegas pela aparência, uma reclamação formal na diretoria pedindo discrição talvez fosse suficiente. Mesmo assim, muito estranha num país que cultua a nudez e se diz liberal.
Inaceitável foi o motim moralista que fez a faculdade parecer o presídio do Carandiru. Em catarse coletiva, centenas de jovens brandindo celulares urravam nas rampas, pulavam muros, gargalhavam, jogavam papel higiênico no pátio central. Sem a PM, Geyse corria risco de ser linchada fisicamente.
Os agressores – que espalham que a estudante seria atriz pornô – devem ser os mesmos que visitam sites adultos e se valem dos serviços de prostitutas. Só não as querem jamais sentadas na carteira ao lado.
A estudante ficará traumatizada? Ou célebre e rica? Geyse pode ganhar indenização, escrever um livro, posar para a Playboy e inspirar um filme. Esta é a vida como ela é.

Monday, November 02, 2009

Um fim com cara de recomeço

Último dia – tema Arte e convergência das Mídias
Tom Zé entra no circo. As poucas pessoas que já chegaram, enfrentando novamente o calor, batem palmas, gritam. Rápida abertura e a palavra vai para ele. Ao  invés de começar a discursar, ele comenta a distribuição no espaço. Reclama da separação entre o palco e a platéia, da distribuição das cadeiras até dos óculos escuros de Alcione Araújo. Diz que estes criam uma separação. Com o que eu concordo profundamente. Não tem coisa mais irritante para mim do que ver um apresentador de TV de óculos escuros. Eu nunca esqueço de tirar os meus quando falo com alguém pela primeira vez, não importa se o sol me ofusque.
Tom Zé faz todos trocarem os lugares. Mexe nas cadeiras. “Assim fica mais alegre para as pessoas”.  Ao perceber um certo burburinho,  diz que as pessoas têm que saber que tem dia bom para falar e dia bom para ouvir e que aquele era um dia bom para ouvir. Comenta que viu os currículos das pessoas no site, ficou impressionado e decidiu que vai ficar tomando nota do que eles vão dizer (que nem eu).  Assim, a palavra vai para Alckmar Santos.
Alckmar é daqueles que consegue transitar entre as áreas exatas e humanísticas. Tenho uma certa inveja. Formado em engenharia eletrônica, fez mestrado em teoria literária e doutorado, adivinhem onde? Paris. E Julia Kistreva foi a sua orientadora. É...Tom Zé deve ter mesmo razão. Mas o calor tá pegando e vendo o número de folhas que ele tem nas mãos fico um pouco apreensiva. Acho que lendo meus pensamentos, ele comenta: “trago várias folhas, mas só vale mesmo a primeira”. Ufa! Começa a falar de um conceito interessante: o atraso do progresso. Diz que muita gente fala da saturação tecnológica e tenta discutir se é bom ou é mau. Se a exposição avassaladora a que estamos sendo submetidos é benéfica ou nociva. No entanto, diz ele, não se trata disso. Sempre foram os dois. Segundo ele existe, os tecnólogos positivistas que ignoram que os estrangulamentos que a grande quantidade de informações vêm provocando, assim como, em contrapartida, tem o discurso catastrofista. Para ele, a causa dos atrasos ao progresso é a paralisia diante de tantas informações, a acumulação. (Cai um microfone. Tom Zé vai lá e junta). “Está muito difícil falar de gêneros literários”. Há muita coisa acontecendo, muitos tipos distintos que dificultam o trabalho didático. Com medo de extrapolar seu tempo, ele decide parar por aqui.
É a vez de Constanza Mekis. Esqueçam tudo que vocês pensavam que sabiam sobre uma bibliotecária. Vemos no palco dois bonecos grandes de pano. Ela fala em espanhol o que não me ajuda muito, principalmente, quando o calor rouba de mim grande parte da minha atenção. Mas não importa. Na medida em que ela vai mostrando os slides sobre como auxiliar, programar, facilitar a leitura ela vai trazendo outros elementos. Uma “Julieta” sob ao palco e procura o seu Romeu. Pouco depois, ela pega um acordeon (ou sanfona, não faço a menor idéia da diferença) e toca a música “Meu coração...não sei por que....” Só que a letra está mudada e fala sobre o professor não saber integrar a leitura. Vai trocando de música. As letras alteradas falam de livros, de leitura, etc. Uma show-woman. Mamãe eu quero agora é Leer yo quiero! Mais um pouco e ela aparece com uma bola, onde em cada “gomo” tem um poema e sugere que o professor de educação física possa trabalhar também a leitura. Ela é a prova viva de que não importa o que a gente faça, desde que ame, vai fazer bem. Parece satisfeita por que estão pensando, agora, não só em implementar as bibliotecas, mas também mantê-las. Falando, assim, em sustentabilidade. Não satisfeita, aparece com um pão e entrega para a coordenadora do evento e diz: “teremos que ler como se come, todos os dias, até que nos faça crescer”. Eu já estava impressionada com a performance dela, mas ela ainda parte para a dança. Tenta tirar os demais do palco para acompanhá-la. O único que aceita é Alcione Araújo que, por sinal, não faz feio.
A próxima a falar é Emily Short. Uma moça vestida de preto (ai, que calor) cujo tema é Ficção interativa. Traduzindo: uma história da qual o leitor pode participar. Os leitores recebem instruções para saber o que fazer. “Temos um novo tipo de contação de história. Não sabemos ainda o que acontecerá com tudo isso no futuro. Não vai ser literatura, não vai ser romance, não vai ser filme, nem jogos, mas algo novo, mas será algo que terá tanto valor quanto às outras formas de arte”. Emily diz que é um erro esperar a mesma coisa. Explica que para criar estas novas propostas, sempre é usada uma mais antiga. Mas que quando estas amadurecerem não vão mais precisar destes modelos. “As grandes histórias do futuro ainda não estão aqui”. Os leitores devem confiar que o autor levará a algo interessante, diz ela. Mesmo que a escolha leve a um final infeliz, este terá um significado. O leitor se perguntará: o que é permitido que eu faça? Quais as escolhas que tenho? Começa a apresentar um exemplo chamado Photopia. Pessoas estão em um carro e o motorista está bêbado. Causam um acidente e uma morte. O leitor ao perceber o que levou a esta situação decide jogar novamente, tentando fazer as coisas serem diferentes, melhores. Porém, ele não sabe que não importa o que faça, ele não conseguirá impedir a batida. A história não tem um objetivo moral. Ao contrário, quer mostrar que é impossível evitar o acidente, não importa o que ele faça. A história só termina quando ele aceita o inevitável. Quando para de tentar mudar o rumo dos acontecimentos. Outra história que ela apresenta se chama Faith. Uma rainha está esperando um bebê e este irá morrer devido a ações da corte. O leitor poderá tentará impedir, mas perceberá que cada ação tem um preço. Que não há como proteger o bebê sem causar danos a outras pessoas. Ele terá que mentir, trair e, às vezes, matar. A questão que se impõe nesta ficção interativa é até onde é aceitável agir para tentar proteger uma vida? Qual sofrimento é pior? “A interação encoraja o leitor a pensar sobre suas crenças.” Para cada leitor a história é diferente. Este tipo de obra não representa a morte do autor. Não é um substituto do livro. A ficção interativa permite uma relação sem igual em outras mídias. “Isto também deve ser arte”. Pareceu bastante interessante o trabalho que Emily desenvolve, por isso, divulgo o site dela para quem deseje maiores informações: www.emilyshort.com
O próximo a falar é Pedro Bandeira. Começa dizendo que é impossível, hoje, dizer: eu acompanho tudo que está acontecendo, que nem os jovens estão conseguindo fazer isso. Diz que para falar sobre as discussões sobre os avanços tecnológicos vai começar por uma parábola e conta a seguinte história:
Há muito tempo, um rico mercador grego tinha um empregado chamado Tim, um escravo sem grande força ou habilidades, mas com uma sabedoria singular.
Então, um dia, o rico fazendeiro, quis colocar à prova as qualidades de seu empregado. E disse:
– Toma, Tim. Aqui está esse saco cheio de moedas. Corre ao mercado e compre lá a pior comida que houver, seja o que for, para um banquete. Mas, não tentes me enganar.
Pouco tempo depois, Tim voltou com um prato coberto por um pano e o pôs sobre a mesa. Quando o mercador levantou o pano, ficou surpreso:
– Língua?
Tim baixou os olhos e respondeu:
– A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos. A mãe de todas as discussões. É a língua que separa a humanidade, divide os povos. É ela quem mente, esconde, engana, blasfema, insulta, se acovarda, xinga, destrói, vende, corrompe. Com a língua dizemos “morre”, “eu te odeio”, “você é um infeliz”, “você é um incapaz”. A língua é o órgão da mentira, da discórdia, dos desentendimentos. Aí está, senhor, porque a língua é a pior comida do mundo.
– Muito bem, Tim! Tu realmente cumpriste tua missão. Tome agora esta sacola de moedas e me traga a melhor comida do mundo.
Mais uma vez, passou algum tempo e o empregado estava de volta, trazendo um prato coberto por um pano de linho fino.
O mercador recebeu-o com um sorriso e disse:
– Já sei o que há de pior. Vejamos agora o que há de melhor...
Após levantar o pano, o mercador ficou indignado com o que viu:
– Que brincadeira de mau gosto! Língua? Outra vez? Tu não disseste que isso era o que havia de pior?
O escravo, humilde, baixou a cabeça e explicou-se:
– O que há de melhor que a língua? A língua é que nos une a todos quando falamos. Sem a língua não poderíamos nos comunicar completamente. A língua é o órgão de verdade e da razão. Graças a ela é que se constroem as cidades, casas e tudo o que há. É com ela que expressamos o nosso amor. Com a língua se ensina, se instrui, se reza, se explica, se canta, se elogia, se demonstra e se afirma. Com a língua dizemos: “querido”, “amor”, como também “Deus”, “sim”, “tudo vai dar certo”, “obrigado”, “eu te amo”, etc. A língua é órgão do diálogo. É a língua que torna eternas as idéias dos grandes salmistas e as idéias dos grandes escritores.

Achei fantástico. Não há dúvidas de que é preciso astúcia para ocupar os 15 minutos de fala com uma história dessas e deixar tão claro a sua opinião e provocar uma bela reflexão. Importante dizer que Pedro Bandeira interpretou os dois personagens, fazendo trejeitos corporais e mudando a voz. Uma esquete teatral.
Nilton Azevedo começa. Ele se desloca em uma cadeira de rodas destas automáticas e diz que as pessoas não devem ocupar as vagas de trânsito para deficientes e nem entrar na parte reservada para os mesmos no banheiro. Mostra uma texto que se chama Ata-me. Um sistema onde cada imagem de um corpo conta uma história. Ao mexer o mouse, a pessoa escolhe qual parte vai acionar. Imediatamente, uma voz começa a dar pequenos trechos do texto.
Lembram do Tom Zé? Que deveria ser o primeiro a falar? Pois é...um dos mediadores resolve jogar para ele de novo a palavra. Este, porém, faz mais algumas colocações singelas: “bem, tirando o preço do calor...” Diz que levará para casa ótimas idéias, que mesmo as coisas que não se resolveram brilhantemente durante a apresentação foram muito interessantes. “Daria o meu cachê do show de hoje à noite só para estar aqui neste momento”. Acho melhor ele na ficar dando idéias...
Mais um tempo zanzando pelas áreas verdes da Universidade e volto para o Show do Apocalipse. Ótima voz, ótimos músicos.
Vamos para o encerramento. Um vídeo faz uma retrospectiva de todas as atividades realizadas naqueles cinco dias. É emocionante. A quantidade de pessoas na platéia assistindo aos painéis, os shows, as crianças circulando... Em poucos minutos, temos uma idéia da magnitude do evento. Discursos das autoridades. Entra o Bloconeco de Catim e sua banda navegante. Sobem ao palco. Corpos de pessoas com cabeças gigantes. Roupas coloridas. Dançam bolero, tango e outros ritmos.
Alcione Araújo pega a palavra. Fala sobre a persistência de todos naquela temperatura: “Se o calor estragou equipamento, imagina o meu cérebro que é muito mais sensível”. Diz que a estrela do evento é o público. Quando começo a pensar que ele está querendo agradar, ele diz: e não estou fazendo média. Comenta que ficou observando e que o público sabia exatamente a hora de rir. Destaca também os comentários e as perguntas feitas aos participantes. Mais uma vez, elogios para a coordenadora.
É a hora do show de Tom Zé. Enquanto ele se apresenta penso: que fascinante esta pessoa! Um homem pequeno, com uma aparência tão simples, traços brutos e tão carismático. Que exemplo de que a preocupação com a estética obsessiva com o  corpo é uma perda de tempo. Se a pessoa é autêntica, se transpassa energia é isso que todos vemos. É, exatamente, este o caso. Suas letras irreverentes e seu jeito anárquico no palco diverte e faz pensar. Conta várias histórias entre uma música e outra e assim termina, finalmente, esta jornada.  Ainda bem que um dos responsáveis pela Universidade já disse que Tânia Roosing ia descansar alguns dias e já ia começar a preparar 2011. 

Alô, alô Terezinha...Falta o sucesso da discoteca do Chacrinha.



Fui assistir ontem o filme Alô, Alô Terezinha, com uma jornalista, amiga minha há mais de dez anos. Acho que já comentei aqui. Somos bem diferentes em relação ao comportamento, mas temos princípios e uma ética que nos mantém unida desde que nos conhecemos. Fazia tempo que não a via e quando sobra um tempinho para ela sair e ir a um cinema, lá vamos nós. Ela que escolhe o filme. Foi assim que vi Homem Aranha, Arquivo X e outras coisas que, por conta própria não veria. Agora, ela até já começou a me advertir. Mas vou é pela companhia.
Fiquei incomodada durante o filme. Depois, aos poucos comecei a tentar entender o porquê.  Na minha cabeça ia assistir a um filme sobre o Chacrinha, mas não. O que a gente vê na tela, na maior parte do tempo, são os depoimentos das Chacretes na época. Até aí, tudo bem. Mas o filme explora o patético. A situação decadente em que se encontram agora. Aquelas mesmas mulheres jovens, sensuais, desejadas, agora, gordas, velhas e sem grana.
Deu para perceber que esta sensação desconfortável foi provocada. Era, sem dúvida, a intenção do diretor Nelson Hoineff. Fiquei até procurando razões nobres, do tipo: mostrar como perde quem tenta viver só do corpo, de uma circunstância, da juventude. Isto até acho bom. Afinal, a cada dia, a indústria da beleza força uma estética que aprisiona as mulheres ou as coloca para baixo. Aquela idéia de saber envelhecer parece coisa do passado (lembrei do Arriaga dizendo que devíamos ter orgulho das nossas cicatrizes). Não tenho nada contra aproveitar as fórmulas que ajudam a retardar as rugas, que garantem que a gente se mantenha com uma aparência cuidada. No entanto, não é isso que a gente vê. Aliás, principalmente nas camadas mais altas, as mulheres estão ficando deformadas. Bocas inchadas pelo botox, caras puxadas pelas cirurgias plásticas. Às vezes, me bate uma saudade daquele velhinha ajeitada, natural que eu via por aí.
Bem, mas o que acabou não me agradando é que se as Chacretes eram exploradas, foram novamente neste filme. Foi me dando uma tristeza de vê-las tão decadentes e sem a menor consciência disso. Ainda tentando manter a pose. A idéia de fazê-las voltar a fazer as mesmas dancinhas é de doer. A mesma coisa aconteceu com os calouros apresentados no filme. A maioria contando o quanto foi arrasador ser buzinado no programa e de seus sonhos (ainda) de serem transformados em cantores. Tem uma cena em que um deles canta em uma sacada, com uma afinação bastante razoável e faz contraponto com Agnaldo Timóteo em outro local, mas basta que o plano se abra para vermos que o primeiro está em uma favela e que os únicos aplausos vêm dos transeuntes de uma rua sem calçada.
Aparecem também alguns famosos. Fábio Junior, Ney Matogrosso, Baby Consuelo, Morais Moreira, Caetano e até o rei Roberto Carlos, mas mesmo estes são filmados de forma a passar uma imagem pobre, desgastada.
O programa para quem não sabe era uma zorra. O público ao vivo, as Chacretes em trajes decotados, Chacrinha sempre fantasiado e buzinando e correndo para todo lado. Atira farinha, atira bacalhau. O filme não mostra aquela famosa versão do quanto ele ajudou o início de carreira de muitos. Rapidamente, alguns falam que bastava a música aparecer no programa para virar um sucesso. Mas é só.
Valeu à pena ter visto até para que eu possa pensar sobre tudo isso que me desagradou. Afinal, como conversava minha irmã, o programa durava a tarde toda e era, naquela época, a única opção na TV. Minha amiga ainda disse: “sou feliz e não sabia. Agora, tenho canal acabo e outros programas para ver.” Em compensação, na minha cabeça ficou as imagens daquelas mulheres tão requisitadas antigamente e, agora (2007) fazendo força para sobreviver. Seria uma bela denúncia, um ótimo registro, se não tivesse ficado claro que elas não têm consciência de nada disso e buscam, ao dar seus depoimentos, aparecer pelo menos mais uma vez. Para quem gosta de filmes trash, eu recomendo.

Saturday, October 31, 2009

Da frustração a fruição

3º dia. O plano era chegar atrasada. Sim, sou destas que planeja o atraso. Queria levar minha mãe à rodoviária. Com mais de 75 anos, ela segue trabalhando, divulgando os Jogos Boole (www.jogosboole.com.br), criados pelo meu pai. Já tinha feito os contatos com as escolas que queria, feito algumas vendas, o que a faz trair a língua que ama e dizer: “yes,yes,yes”, enquanto comemora a ação bem sucedida. Não podia se permitir ficar até o final da semana por aqui. Mas como as atividades da Jornada começam as 14h, achei que ainda teria muito que assistir. Só que não foi bem assim.

Frustração um – o tema de hoje era Literatura, teatro, música e novas tecnologias. Faltava apenas a fala de Eloy Fritsch e isso porque ele teve problemas com a tecnologia (estava demorando...). Assim mesmo o que vejo é interessante. Na tela Clair de lune, tocada virtualmente. Logo depois, Fritsch recupera informações históricas. As primeiras experiências da música eletrônica. Chega na música acusmática (como dizia uma amiga minha: é para comer ou para passar no cabelo?) Fala em cinema para o ouvido. Divertida esta imagem. Chega no rock, nos Beatles e Pink Floyd. Mas é quando ele fala em Rick Waykemann que meu interesse aumenta. Daí, ele cita Jean Michel Jarre. Bem lembro o impacto que estes nomes causaram na época. Também, não foi à toa. Frisch diz que este último levou três milhões e 500 mil pessoas para ouvir sua música em Moscou em 1981. O maior número até hoje. Mostra instrumentos sendo tocados por dedos em telas planas. Penso na importância dos dedos, do toque para esta época tecnológica. Claro...Não sou eu que falo todo tempo em digital? Apresenta novas interfaces com vídeos do youtube como a escada piano, uma experiência em Estocolmo e termina com o piano controlado por ondas cerebrais de Eduardo Miranda, na Inglaterra. Ok. Também não sei como isso funciona. Entrem aí no Google e pesquisem, ora bolas (expressão da mesma época de “bananices”)!

Fruição um - Vai falar Alcione Araújo. Bem, preciso dizer que bastaram algumas horas para que este cineasta me conquistasse e, olha que não me acho tão fácil assim. Azar é o dele. Ele nem abriu a boca e minha expectativa já e grande. Vai falar de que? Teatro o que, segundo ele, trata-se de gente imitando gente para a gente ver. Só que salienta: “Na contemporaneidade, este homem incorporou a tecnologia no seu dia-à-dia”. O que ele quer dizer com isso? Ele explica: O personagem do teatro de hoje pode ser um transplantado e a história pode ser ele amar a pessoa que quem doou o coração amava. Uma nova situação provocada pela tecnologia. E agora vem uma parte que me traz certo deleite. A ciência ficou sendo vista como ameaça. Assim, como marcianos atacariam a Terra com suas novas tecnologias. Nosso imaginário ficou impregnado de temores, mas não é a tecnologia que traz perigos. Estes estão com o homem. Questões relacionadas ao caráter, a moral, a ética do ser humano. Fora do Brasil, a atitude é  ainda mais reacionária, sendo proibidas as pesquisas com células tronco. Não precisamos ter medo da ciência, mas do próprio homem. A arte não está ameaçada. Ela é antropofágica. É capaz de digerir as tecnologias. A ciência é tão revolucionária quanto à arte. A arte é preocupada com a criação da subjetividade. “Nós artistas não temos medo do formato livro desaparecer. Devemos ter medo é de nós mesmos.” Terminado o painel, a parte das perguntas também trouxe algumas informações interessantes, mas, vou pular para que não tenha que me estender muito mais porque o melhor ainda está por vir. Registro apenas algumas frases:
- A tecnologia ajuda a elaborar o texto quanto a sua mecânica, mas, não interfere na criatividade.
- Há mais caminhos para as manifestações artísiticas
- O livro se repotencializa.
- Temos que manter uma vigilância crítica para o tipo de discurso que tem um objetivo apenas comercial do tipo: o futuro é hoje.
- A morte tem a sua função. Prorrogar a existência de alguém artificialmente não se justifica. Há um ponto final.
Bom, mas, me sinto obrigada a voltar para a fala de Alcione Araújo que foi solicitado a responder o que ele achava sobre espetáculos teatrais multimídias e se ele considerava que a tecnologia podia substitui o ator. Sobre isso, Alcione diz que a ideia de teatralidade é mais complexa. O ator nunca é o outro, nem apenas ele. Esta é a grandeza do ator. Comenta a torcida curiosa e perversa, oculta e incofessa que quer que o ator erre. Segundo ele, o risco é parte incorporada do espetáculo. Um ator pode morrer em cena.

Frustração dois – Terminado o painel, a idéia permanecer por lá até a conferência das 20h o que, certamente, parecia ser muito tempo. Descubro, porém, que haverá o Café literário e me dirijo para o Centro de Convivência. Chego em um mini-shopping, com farmácia, lojas de sapatos, acessórios, biquinis e uma espécie de praça de alimentação. Em uma das paredes um imenso logo, escrito RU. Dá para acreditar? Não demorou muito para o encontro começar. Tezza seria o entrevistado por Loyola e Fischer. Prometia. Mas houve um pequeno problema. Nem todas as pessoas estavam ali para ouvir outros e muito menos interessados em fazer silêncio. A acústica do espaço não é boa e assim, era um zumzumzum irritante. Desisti.
Fruição dois - Volto para a área do circo. Paso pelo espaço da imprensa e vejo uns braços gesticulando do outro lado dos vidros. Reconheço Ricardo (Silvestrin) dando uma entrevista pra a Rádio UPF. Desculpe, eu sei, estou falando de novo nele, mas fazer o quê? É a única pessoa que (re)conheço neste universo tão incrível de pessoas e, com isso, percebo que só agora tenho, realmente, uma turma. São meus colegas de mestrado. Na escola, meu boletim vivia com recomendações do tipo: “precisa se relacionar melhor com os colegas”. Na universidade, me dava bem com todos. Fui até representante do Centro Acadêmico, mas não fiz, realmente, amigos. Foi preciso eu escolher a arte para encontrar meus iguais. Iguais? Nada. Somos todos tão absolutamente diferentes e, no entanto, temos tanto em comum e recorro a um texto que me fez pensar direto neles: “Meus objetivos são todos subjetivos”. Preciso dizer de quem?  

Fruição três – Vou para o circo. Está quase na hora do show. Não tinha nenhuma expectativa. Para mim, era apenas uma forma de passar o tempo. No palco o grupo Repercussão. Começam com Trenzinho caipira de Vila Lobos. Não sei por que, mas esta música sempre mexeu comigo. Passam para Asa branca, o frevo Vassourinhas e Brasileirinho. Um dos músicos no palco apresenta o grupo. “Ele é professor aqui da UFP”, me diz a menina que conheci aqui no primeiro dia. Logo vi. A cada música ele acrescentava informações sobre os compositores, os instrumentos, etc. Sandro Cartier explica que se trata de um projeto chamado No baú a música do Brasil. Minha atenção se volta para a moça que traduz tudo que ouvimos em Libras. Está lá desde o primeiro dia, mas fico imaginando como será explicar aquelas palavras típicas da linguagem popular deste país tão grande. Sou surpreendida pela questão sobre qual seria o único ritmo gaúcho por excelência. Quem arrisca a responder, erra feio. A resposta vem do professor: O bugil! Nunca pensei... “Este é um projeto educacional  que queremos levar para as escolas falando sobre compositores, intérpretes, gêneros, resgatando canções”.
Fruição 4 - Antes da conferência de Arriaga, sobem ao palco 23 integrantes de Alta Floresta, Mato Grosso que vieram para a jornada. Enquanto isso, contava para a minha nova amiga uma parte da minha vida e lembrava de uma viagem que havia feito na época de faculdade para Salvador para participar de um encontro de Comunicação. “54 horas de viagem de ônibus”, digo a ela. Quando a coordenadora do evento pergunta ao grupo quantas horas elas levaram para chegar ali, a resposta foi: 54 horas. Até parece história de mentiroso! Uma das professoras fala pelas demais. Diz que esteve no evento em 2007 e que prometeu que sozinha não voltava mais, queria que outras pessoas também tivessem a oportunidade de participar (entendo perfeitamente este sentimento).

Deleite único
Guilherme Arriaga é chamado ao palco. Tenho um sério problema para associar o nome as pessoas e até ali não tinha me dado conta de que estava diante do roteirista de 21 gramas e Babel, para citar só estes dois. Fala do seu orgulho em estar ali, do quanto é importante reunir mais de cinco mil pessoas para falar de literatura. Tem um jeito simpático e expressivo de se comunicar e vai conquistando rapidamente o público, eu, inclusive. Para isso, comenta suas experiências no Brasil. Um contato com Octávio Araújo que tinha um projeto de organização de bibliotecas nas favelas do Rio de Janeiro, com a intenção de alterar o quadro de violência, usando a literatura. Outra experiência era relacionada a idéia de levar livros às prisões, pois lendo os presidiários eram livres. Comenta o privilégio que é estar em uma universidade e poder resgatar a leitura, o que para ele permite encontrar a nós mesmos.
Pede que lhe alcancem um livro. Diz que é um objeto perfeito. Guarda no bolso. Coloca embaixo do braço. Diz que ao fazer isso mostramos que o livro é NOSSO. Dá para marcar, dobrar e...atirar (lança o livro de em direção ao público). São objetos resistentes, observa.
“A arte coloca luz em lugares onde não imaginávamos que havia algo. Faz a gente pensar em lugares que não teríamos visto. O ato de ler pode ser subversivo.” Quanto a preocupação dos jovens não lerem mais, ele afirma: “Se assim fosse, não haveria um Harry Potter”.Arriaga comenta que as pessoas que estão no evento escrevem todos os dias e que os jovens não vão deixar de ler.Para ele, um escritor pode trabalhar em muitos meios e revela que se ele não escreve as histórias trancam na sua garganta. Defende que um roteiro (nem gosta desta palavra) já é literatura, já é uma obra. Tudo que é dito pelos atores está escrito e conta de uma situação em que os atores queriam improvisar e outro mais experiente disse: “por que tu achas que vais conseguir em cinco minutos um texto que foi escrito em três anos?”
Suas colocações ficavam cada vez mais interessantes e a expectativa em relação ao que ainda iria ser dito ia aumentando, porém, ele parou e disse que queria as perguntas. Surpresa na platéia. Jà? Como estas não vieram ele seguiu dizendo existe uma palavra em linguagem patagônica que significa um homem e uma mulher sentados um em frente ao outro e não se atrevendo a dizer o que sentem. Fala que as peles que acariciamos ficam em nossos dedos, que o momento se perde. “O ato de escrever é finito, mas o ato de ler é INFINITO. Fala que em uma ocasião uma pessoa disse para ele: li seu livro em três horas, o que lhe gerou uma certa tristeza. Cinco anos para escrever e apenas três horas de leitura? Um amigo dele, no entanto, lhe disse: “Se tu juntares três horas de um leitor, com três horas de outro leitor e daí por diante, tu vais completar os cinco anos.”
Arriaga diz que na escrita não há resultado, não há progresso. Exemplifica dizendo que se assim fosse o último livro de Garcia Marques seria melhor do que os anteriores. Conta que o escritor convive com o medo permanente de que não tenha mais o que escrever. É um terror permanente. E insiste: alguma pergunta? Ah, se eu soubesse que ele estava tão desejoso de questões...
O diretor, autor pede para todos olharem suas mãos. O espanhol atrapalha e grande parte da platéia se dá as mãos. Eu, por exemplo. Ele entende o engano. Afirma: “Haverá um momento em que estas mãos serão mãos de cadáver. Por isso, devemos acariciar tudo que queremos, golpear tudo, escrito tudo. Diz que mantém caveiras ao lado do seu computador de diversos materiais para lembrar que ele tem que construir uma obra.
“O que passa se não lemos Shakespeare?” Nada. Cita vários outros grandes autores e a resposta é sempre a mesma: nada. O problema, diz ele, é que quando os lemos se passa tudo.
Lendo sabemos que outros seres humanos têm momentos semelhantes aos nossos. Todos os seres humanos necessitam compreender as experiências dos outros.
Questionado sobre as adaptações de livros para o cinema, ele diz que estas rompem com o que o leitor imaginou quando leu a obra e isso o desaponta. Diz que passou por uma experiência assim com um livro seu. Considera que, por isso, os piores livros permitem as melhores adaptações. Diz que o livro As pontes de Madison não presta, mas, que o filme é grandioso.
Sim. As perguntas chegaram. Querem saber porque a morte se faz tão presente na sua obra. Pensei que isso já estava respondido. Mas Arriaga vai além: todos vamos morrer. Falar da morte não é falar da morte é saber que há um fim, que precisamos viver com mais intensidade.
Mostra a sua careca dizendo que esta foi a língua da morte passando sobre a sua cabeça para dizer que ela virá. Diz que devemos ser orgulhosos das nossas cicatrizes. Busca empatia no público praticamente feminino dizendo que a celulite também é apenas uma destas cicatrizes da vida.
Voltando a questão do valor literário do roteiro, ele diz que quando os arquitetos fazem uma planta, os músicos, uma partitura já é uma obra, por que com o cinema seria diferente? O texto de Shakespeare já não é uma obra antes de ser encenado?
Por que se interessou pela literatura? “Tinha uma paixão enlouquecida pelas mulheres”. Precisava entender como resolver situações amorosas, diz ele.Conta que aos 13 anos montou Romeu e Julieta na escola e que este  personagem o ensinou a como tratar as mulheres. “A partir daí comecei a entender que a literatura era imprescindível”.  Acredita que esta possa contestar e transformar a realidade. Cita Paulo Freire.
Sobre como pensou em 21 gramas, ele diz que o filme se baseia em uma experiência pessoal. Uma membrana do seu próprio coração estava inflamada e, talvez, ele pudesse precisar de um transplante. Só imaginar viver com o órgão de outra pessoa já provocava muitos questionamentos. Depois, viu um atropelamento onde uma pessoa morreu. Viu quando o policial pegou o documento da vítima e tirou de dentro uma foto dele com uma mulher e uma menina e pensou que naquele momento aquelas mulheres teriam que viver sem aquele homem, sem aquele marido, sem aquele pai. (Neste momento, já sinto arrepios na minha própria pele e fico feliz de que apenas palavras possam ter este efeito). Estas coisas, ajudaram a criar 21 gramas. Quanto a sua estrutura surgiu da observação de que o passado nunca vêm de forma ordenada.
E o cinema produzido com elenco virtual? “Não gostaria de atores virtuais, assim como não acho interessante sexo virtual”.
 “Estamos cada vez mais vinculados a seres não reais ou se são reais não são presença de carne e osso. A função da arte é devolver a cada um dos sujeitos seu valor como pessoa”.
Arriaga conclui dizendo: “Todo o escritor precisa de ajuda. Não quero que os meus livros morram. Por favor, me ajudem a completar os cinco anos que levei para escrever.”
Impactante. Como já disse antes, fico extremamente satisfeita de que as palavras, as quais sempre me dediquei, tem o poder de mexer tanto com a gente. Provocar novos sentimentos e, por que não, atitudes. Arriaga me deu a sacudida interna de que estava precisando. Aliás, acho que fez isso com toda a sua platéia. Minha nova amiga diz algo que define a impressão que tive: “ele parece uma pessoa amorosa”. Saimos as duas comentando nossas vidas e incertezas. Mais uma vez, ela me dá uma carona em seu fusquinha, me deixando na porta da frente. Ainda bem que sei aproveitar estes momentos com a intensidade que eles merecem. Serei mais feliz quando conseguir parar de temer a reação alheia e ir naturalmente ao encontro daqueles que me são verdadeiramente importantes sem medos, quando não for mais “desconcertante rever o grande amor”.
(continua...)