Saturday, October 31, 2009

Da frustração a fruição

3º dia. O plano era chegar atrasada. Sim, sou destas que planeja o atraso. Queria levar minha mãe à rodoviária. Com mais de 75 anos, ela segue trabalhando, divulgando os Jogos Boole (www.jogosboole.com.br), criados pelo meu pai. Já tinha feito os contatos com as escolas que queria, feito algumas vendas, o que a faz trair a língua que ama e dizer: “yes,yes,yes”, enquanto comemora a ação bem sucedida. Não podia se permitir ficar até o final da semana por aqui. Mas como as atividades da Jornada começam as 14h, achei que ainda teria muito que assistir. Só que não foi bem assim.

Frustração um – o tema de hoje era Literatura, teatro, música e novas tecnologias. Faltava apenas a fala de Eloy Fritsch e isso porque ele teve problemas com a tecnologia (estava demorando...). Assim mesmo o que vejo é interessante. Na tela Clair de lune, tocada virtualmente. Logo depois, Fritsch recupera informações históricas. As primeiras experiências da música eletrônica. Chega na música acusmática (como dizia uma amiga minha: é para comer ou para passar no cabelo?) Fala em cinema para o ouvido. Divertida esta imagem. Chega no rock, nos Beatles e Pink Floyd. Mas é quando ele fala em Rick Waykemann que meu interesse aumenta. Daí, ele cita Jean Michel Jarre. Bem lembro o impacto que estes nomes causaram na época. Também, não foi à toa. Frisch diz que este último levou três milhões e 500 mil pessoas para ouvir sua música em Moscou em 1981. O maior número até hoje. Mostra instrumentos sendo tocados por dedos em telas planas. Penso na importância dos dedos, do toque para esta época tecnológica. Claro...Não sou eu que falo todo tempo em digital? Apresenta novas interfaces com vídeos do youtube como a escada piano, uma experiência em Estocolmo e termina com o piano controlado por ondas cerebrais de Eduardo Miranda, na Inglaterra. Ok. Também não sei como isso funciona. Entrem aí no Google e pesquisem, ora bolas (expressão da mesma época de “bananices”)!

Fruição um - Vai falar Alcione Araújo. Bem, preciso dizer que bastaram algumas horas para que este cineasta me conquistasse e, olha que não me acho tão fácil assim. Azar é o dele. Ele nem abriu a boca e minha expectativa já e grande. Vai falar de que? Teatro o que, segundo ele, trata-se de gente imitando gente para a gente ver. Só que salienta: “Na contemporaneidade, este homem incorporou a tecnologia no seu dia-à-dia”. O que ele quer dizer com isso? Ele explica: O personagem do teatro de hoje pode ser um transplantado e a história pode ser ele amar a pessoa que quem doou o coração amava. Uma nova situação provocada pela tecnologia. E agora vem uma parte que me traz certo deleite. A ciência ficou sendo vista como ameaça. Assim, como marcianos atacariam a Terra com suas novas tecnologias. Nosso imaginário ficou impregnado de temores, mas não é a tecnologia que traz perigos. Estes estão com o homem. Questões relacionadas ao caráter, a moral, a ética do ser humano. Fora do Brasil, a atitude é  ainda mais reacionária, sendo proibidas as pesquisas com células tronco. Não precisamos ter medo da ciência, mas do próprio homem. A arte não está ameaçada. Ela é antropofágica. É capaz de digerir as tecnologias. A ciência é tão revolucionária quanto à arte. A arte é preocupada com a criação da subjetividade. “Nós artistas não temos medo do formato livro desaparecer. Devemos ter medo é de nós mesmos.” Terminado o painel, a parte das perguntas também trouxe algumas informações interessantes, mas, vou pular para que não tenha que me estender muito mais porque o melhor ainda está por vir. Registro apenas algumas frases:
- A tecnologia ajuda a elaborar o texto quanto a sua mecânica, mas, não interfere na criatividade.
- Há mais caminhos para as manifestações artísiticas
- O livro se repotencializa.
- Temos que manter uma vigilância crítica para o tipo de discurso que tem um objetivo apenas comercial do tipo: o futuro é hoje.
- A morte tem a sua função. Prorrogar a existência de alguém artificialmente não se justifica. Há um ponto final.
Bom, mas, me sinto obrigada a voltar para a fala de Alcione Araújo que foi solicitado a responder o que ele achava sobre espetáculos teatrais multimídias e se ele considerava que a tecnologia podia substitui o ator. Sobre isso, Alcione diz que a ideia de teatralidade é mais complexa. O ator nunca é o outro, nem apenas ele. Esta é a grandeza do ator. Comenta a torcida curiosa e perversa, oculta e incofessa que quer que o ator erre. Segundo ele, o risco é parte incorporada do espetáculo. Um ator pode morrer em cena.

Frustração dois – Terminado o painel, a idéia permanecer por lá até a conferência das 20h o que, certamente, parecia ser muito tempo. Descubro, porém, que haverá o Café literário e me dirijo para o Centro de Convivência. Chego em um mini-shopping, com farmácia, lojas de sapatos, acessórios, biquinis e uma espécie de praça de alimentação. Em uma das paredes um imenso logo, escrito RU. Dá para acreditar? Não demorou muito para o encontro começar. Tezza seria o entrevistado por Loyola e Fischer. Prometia. Mas houve um pequeno problema. Nem todas as pessoas estavam ali para ouvir outros e muito menos interessados em fazer silêncio. A acústica do espaço não é boa e assim, era um zumzumzum irritante. Desisti.
Fruição dois - Volto para a área do circo. Paso pelo espaço da imprensa e vejo uns braços gesticulando do outro lado dos vidros. Reconheço Ricardo (Silvestrin) dando uma entrevista pra a Rádio UPF. Desculpe, eu sei, estou falando de novo nele, mas fazer o quê? É a única pessoa que (re)conheço neste universo tão incrível de pessoas e, com isso, percebo que só agora tenho, realmente, uma turma. São meus colegas de mestrado. Na escola, meu boletim vivia com recomendações do tipo: “precisa se relacionar melhor com os colegas”. Na universidade, me dava bem com todos. Fui até representante do Centro Acadêmico, mas não fiz, realmente, amigos. Foi preciso eu escolher a arte para encontrar meus iguais. Iguais? Nada. Somos todos tão absolutamente diferentes e, no entanto, temos tanto em comum e recorro a um texto que me fez pensar direto neles: “Meus objetivos são todos subjetivos”. Preciso dizer de quem?  

Fruição três – Vou para o circo. Está quase na hora do show. Não tinha nenhuma expectativa. Para mim, era apenas uma forma de passar o tempo. No palco o grupo Repercussão. Começam com Trenzinho caipira de Vila Lobos. Não sei por que, mas esta música sempre mexeu comigo. Passam para Asa branca, o frevo Vassourinhas e Brasileirinho. Um dos músicos no palco apresenta o grupo. “Ele é professor aqui da UFP”, me diz a menina que conheci aqui no primeiro dia. Logo vi. A cada música ele acrescentava informações sobre os compositores, os instrumentos, etc. Sandro Cartier explica que se trata de um projeto chamado No baú a música do Brasil. Minha atenção se volta para a moça que traduz tudo que ouvimos em Libras. Está lá desde o primeiro dia, mas fico imaginando como será explicar aquelas palavras típicas da linguagem popular deste país tão grande. Sou surpreendida pela questão sobre qual seria o único ritmo gaúcho por excelência. Quem arrisca a responder, erra feio. A resposta vem do professor: O bugil! Nunca pensei... “Este é um projeto educacional  que queremos levar para as escolas falando sobre compositores, intérpretes, gêneros, resgatando canções”.
Fruição 4 - Antes da conferência de Arriaga, sobem ao palco 23 integrantes de Alta Floresta, Mato Grosso que vieram para a jornada. Enquanto isso, contava para a minha nova amiga uma parte da minha vida e lembrava de uma viagem que havia feito na época de faculdade para Salvador para participar de um encontro de Comunicação. “54 horas de viagem de ônibus”, digo a ela. Quando a coordenadora do evento pergunta ao grupo quantas horas elas levaram para chegar ali, a resposta foi: 54 horas. Até parece história de mentiroso! Uma das professoras fala pelas demais. Diz que esteve no evento em 2007 e que prometeu que sozinha não voltava mais, queria que outras pessoas também tivessem a oportunidade de participar (entendo perfeitamente este sentimento).

Deleite único
Guilherme Arriaga é chamado ao palco. Tenho um sério problema para associar o nome as pessoas e até ali não tinha me dado conta de que estava diante do roteirista de 21 gramas e Babel, para citar só estes dois. Fala do seu orgulho em estar ali, do quanto é importante reunir mais de cinco mil pessoas para falar de literatura. Tem um jeito simpático e expressivo de se comunicar e vai conquistando rapidamente o público, eu, inclusive. Para isso, comenta suas experiências no Brasil. Um contato com Octávio Araújo que tinha um projeto de organização de bibliotecas nas favelas do Rio de Janeiro, com a intenção de alterar o quadro de violência, usando a literatura. Outra experiência era relacionada a idéia de levar livros às prisões, pois lendo os presidiários eram livres. Comenta o privilégio que é estar em uma universidade e poder resgatar a leitura, o que para ele permite encontrar a nós mesmos.
Pede que lhe alcancem um livro. Diz que é um objeto perfeito. Guarda no bolso. Coloca embaixo do braço. Diz que ao fazer isso mostramos que o livro é NOSSO. Dá para marcar, dobrar e...atirar (lança o livro de em direção ao público). São objetos resistentes, observa.
“A arte coloca luz em lugares onde não imaginávamos que havia algo. Faz a gente pensar em lugares que não teríamos visto. O ato de ler pode ser subversivo.” Quanto a preocupação dos jovens não lerem mais, ele afirma: “Se assim fosse, não haveria um Harry Potter”.Arriaga comenta que as pessoas que estão no evento escrevem todos os dias e que os jovens não vão deixar de ler.Para ele, um escritor pode trabalhar em muitos meios e revela que se ele não escreve as histórias trancam na sua garganta. Defende que um roteiro (nem gosta desta palavra) já é literatura, já é uma obra. Tudo que é dito pelos atores está escrito e conta de uma situação em que os atores queriam improvisar e outro mais experiente disse: “por que tu achas que vais conseguir em cinco minutos um texto que foi escrito em três anos?”
Suas colocações ficavam cada vez mais interessantes e a expectativa em relação ao que ainda iria ser dito ia aumentando, porém, ele parou e disse que queria as perguntas. Surpresa na platéia. Jà? Como estas não vieram ele seguiu dizendo existe uma palavra em linguagem patagônica que significa um homem e uma mulher sentados um em frente ao outro e não se atrevendo a dizer o que sentem. Fala que as peles que acariciamos ficam em nossos dedos, que o momento se perde. “O ato de escrever é finito, mas o ato de ler é INFINITO. Fala que em uma ocasião uma pessoa disse para ele: li seu livro em três horas, o que lhe gerou uma certa tristeza. Cinco anos para escrever e apenas três horas de leitura? Um amigo dele, no entanto, lhe disse: “Se tu juntares três horas de um leitor, com três horas de outro leitor e daí por diante, tu vais completar os cinco anos.”
Arriaga diz que na escrita não há resultado, não há progresso. Exemplifica dizendo que se assim fosse o último livro de Garcia Marques seria melhor do que os anteriores. Conta que o escritor convive com o medo permanente de que não tenha mais o que escrever. É um terror permanente. E insiste: alguma pergunta? Ah, se eu soubesse que ele estava tão desejoso de questões...
O diretor, autor pede para todos olharem suas mãos. O espanhol atrapalha e grande parte da platéia se dá as mãos. Eu, por exemplo. Ele entende o engano. Afirma: “Haverá um momento em que estas mãos serão mãos de cadáver. Por isso, devemos acariciar tudo que queremos, golpear tudo, escrito tudo. Diz que mantém caveiras ao lado do seu computador de diversos materiais para lembrar que ele tem que construir uma obra.
“O que passa se não lemos Shakespeare?” Nada. Cita vários outros grandes autores e a resposta é sempre a mesma: nada. O problema, diz ele, é que quando os lemos se passa tudo.
Lendo sabemos que outros seres humanos têm momentos semelhantes aos nossos. Todos os seres humanos necessitam compreender as experiências dos outros.
Questionado sobre as adaptações de livros para o cinema, ele diz que estas rompem com o que o leitor imaginou quando leu a obra e isso o desaponta. Diz que passou por uma experiência assim com um livro seu. Considera que, por isso, os piores livros permitem as melhores adaptações. Diz que o livro As pontes de Madison não presta, mas, que o filme é grandioso.
Sim. As perguntas chegaram. Querem saber porque a morte se faz tão presente na sua obra. Pensei que isso já estava respondido. Mas Arriaga vai além: todos vamos morrer. Falar da morte não é falar da morte é saber que há um fim, que precisamos viver com mais intensidade.
Mostra a sua careca dizendo que esta foi a língua da morte passando sobre a sua cabeça para dizer que ela virá. Diz que devemos ser orgulhosos das nossas cicatrizes. Busca empatia no público praticamente feminino dizendo que a celulite também é apenas uma destas cicatrizes da vida.
Voltando a questão do valor literário do roteiro, ele diz que quando os arquitetos fazem uma planta, os músicos, uma partitura já é uma obra, por que com o cinema seria diferente? O texto de Shakespeare já não é uma obra antes de ser encenado?
Por que se interessou pela literatura? “Tinha uma paixão enlouquecida pelas mulheres”. Precisava entender como resolver situações amorosas, diz ele.Conta que aos 13 anos montou Romeu e Julieta na escola e que este  personagem o ensinou a como tratar as mulheres. “A partir daí comecei a entender que a literatura era imprescindível”.  Acredita que esta possa contestar e transformar a realidade. Cita Paulo Freire.
Sobre como pensou em 21 gramas, ele diz que o filme se baseia em uma experiência pessoal. Uma membrana do seu próprio coração estava inflamada e, talvez, ele pudesse precisar de um transplante. Só imaginar viver com o órgão de outra pessoa já provocava muitos questionamentos. Depois, viu um atropelamento onde uma pessoa morreu. Viu quando o policial pegou o documento da vítima e tirou de dentro uma foto dele com uma mulher e uma menina e pensou que naquele momento aquelas mulheres teriam que viver sem aquele homem, sem aquele marido, sem aquele pai. (Neste momento, já sinto arrepios na minha própria pele e fico feliz de que apenas palavras possam ter este efeito). Estas coisas, ajudaram a criar 21 gramas. Quanto a sua estrutura surgiu da observação de que o passado nunca vêm de forma ordenada.
E o cinema produzido com elenco virtual? “Não gostaria de atores virtuais, assim como não acho interessante sexo virtual”.
 “Estamos cada vez mais vinculados a seres não reais ou se são reais não são presença de carne e osso. A função da arte é devolver a cada um dos sujeitos seu valor como pessoa”.
Arriaga conclui dizendo: “Todo o escritor precisa de ajuda. Não quero que os meus livros morram. Por favor, me ajudem a completar os cinco anos que levei para escrever.”
Impactante. Como já disse antes, fico extremamente satisfeita de que as palavras, as quais sempre me dediquei, tem o poder de mexer tanto com a gente. Provocar novos sentimentos e, por que não, atitudes. Arriaga me deu a sacudida interna de que estava precisando. Aliás, acho que fez isso com toda a sua platéia. Minha nova amiga diz algo que define a impressão que tive: “ele parece uma pessoa amorosa”. Saimos as duas comentando nossas vidas e incertezas. Mais uma vez, ela me dá uma carona em seu fusquinha, me deixando na porta da frente. Ainda bem que sei aproveitar estes momentos com a intensidade que eles merecem. Serei mais feliz quando conseguir parar de temer a reação alheia e ir naturalmente ao encontro daqueles que me são verdadeiramente importantes sem medos, quando não for mais “desconcertante rever o grande amor”.
(continua...)

Tuesday, October 27, 2009

Entre o paraíso e o inferno

Segundo dia de Jornada. O tema: Jornalismo, cinema e internet. Quem me conhece sabe, discutir estas três coisas juntas com gente talentosa e competente? Tudo indicava que seria o paraíso. Até chegar lá e sentir o calor do circo. Tinha esquecido o que era ficar dentro de uma lona daquelas. Logo eu que jamais me agasalho e estou sempre esbaforida. Pensei em me abanar com um bolo de papel que tinha na mão, mas, ia ser desgastante. Resolvi usar minhas práticas de yoga para abstrair a temperatura e registrar o que estava sendo dito.

Antes da abertura do painel, mais algumas manifestações dos organizadores e dos responsáveis pelo evento. Logo em seguida, o apresentador diz que vai falar sobre as “grandes estrelas desta tarde”. Acho a imagem engraçada... Pensar em Ricardo Silvestrin como uma estrela ou mesmo Jorge Furtado que conheci no início de sua jornada no cinema é estranho para mim. Mesmo que eu seja uma das primeiras pessoas a reconhecer que ambos merecem todo o crédito que recebem.

Ignácio de Loyola Brandão pega o microfone e já recebe o carinho da platéia. Começa a dizer que ainda não sabe o que vai cantar este ano (pressuponho que ele tenha cantado em outros), mas que estão se preparando. Fala que já chegou a pessoa que vai ensaiá-los: Vanuza, fazendo referência ao fiasco que a cantora fez no Congresso. Humor meio negro para o meu gosto. Em seguida começa a contar uma história com a qual me identifico. Diz que a matemática o perseguiu, o torturou e quase o destruiu, mas um professor conseguiu ver o potencial que ele tinha. Diz que deixou para o último dia fazer sua matrícula e que na fila do clássico, voltado para as áreas humanas, tinha 80 pessoas e que na fila do científico, das áreas exatas, apenas 4, então acabou se inscrevendo neste. Ficou cinco anos fazendo algo que era para ser feito em três: “Porque tudo que eu faço, faço bem.” Em 1956, com 20 anos, estava em Araraquara e tinha um exame oral da disciplina que tanto temia. Segundo ele, o professor havia perguntado: “De quanto você precisa?” E ele: 9,7. Nesta situação, o professor sugeriu que ele fosse para o tudo ou nada. E disse que ele devia fazer uma equação. Para Loyola podia ser hieróglifo ou aramaico que daria no mesmo. Mas, segundo ele, a platéia estava formada por lindas meninas e ele pensou: “tudo menos a vergonha”. Começou, então, a escrever todos os símbolos matemáticos que vinham a sua cabeça até chegar ao símbolo do PI. Conta que tinha um cara fazendo o teste para física e que ele pediu mais espaço para que ele pudesse continuar escrevendo a sua equação. Colocou um resultado: 540 cdq (como queria demonstrar) e jogou o giz em um gesto teatral. Sua nota? 10. E não acreditando no resultado, questionou o professor que teria respondido: É 10. 10 pelo delírio, 10 pela loucura, 10 pela imaginação, terminando por dizer: Vai embora. Ignácio, o seu mundo é o da fantasia! Acho que não preciso comentar o quanto de performance tem nesta fala, não é mesmo? Bem sucedida, diga-se de passagem.

Fernando Molica jornalista e escritor foi quem começou a falar do tema do Painel, dizendo que há sempre os apocalípticos, mas que as coisas vão se reiventando e a cada meio que vai sendo criado, vamos encarando novos desafios. Para ele, a internet retira o monopólio da fala. Nunca, diz ele, a humanidade foi tão produtora de informação. “A gente ainda não sabe como isso vai evoluir, mas não implica em um fim. Observou que, em tese, a jornada é arcaica, que aqueles “encontros” poderiam estar acontecendo de forma virtual, mas que precisamos de contato. (Nesta hora, pensei que estar em algum lugar com ar-condicionado, acessando aquele circo pela internet não seria má idéia.) Seguiu dizendo que a tecnologia por si só não é nada, somos nós que produzimos o seu conteúdo. Lá pelas tantas, foi falando apenas dos seus livros e acabou com um tom meio de propaganda. Queria mais.

A palavra foi para Guilherme Fiuza, autor de Meu nome não é Johnny, não o filme, o livro! Também jornalista. Fez justamente os comentários que eu gostaria de fazer. Sobre o tamanho da jornada e sobre a logística que um evento deste porte exige, elogiando a capacidade empreendedora da coordenadora. Claro que ele falava com muito maior conhecimento de causa, pois foi contatado pela mesma para tratar da sua estada ali. Foi bastante humilde (ou realista?) ao dizer que é tão chamado para falar de cinema que ou vai se transformar em um especialista ou o Brasil vai acabar percebendo que ele não entende nada do assunto. Talvez, até tenha feito este comentário considerando a presença de Jorge Furtado no Painel. Mas este quando começou também não tinha tanto conhecimento e sei que Giba Assis Brasil, seu parceiro cineasta, também não. A fonte é garantida. Sua própria mãe me contou os primeiros passos do filho quando surrupiava os vasos da casa que só iam aparecer sendo estatelados em alguma cena na “obra de arte” do filho. Bem, mas voltando a Fiuza, ele relatou toda a sua experiência enquanto jornalista que queria escrever uma reportagem que não cabia em qualquer veículo de comunicação. Foi quando procurou Estrella dizendo que queria contar sua história, mas esperando que esse dissesse que não aceitava. Este, no entanto, topou. Livro publicado, produtores de cinema começaram a procurá-lo dizendo que ele havia escrito um roteiro de cinema.

Seu relato me fez refletir justamente neste momento em que vivemos de conexão das mídias: uma reportagem, que vira um livro, que vira um filme. Acho que está na hora de aceitarmos isso com mais naturalidade. Fiuza falou também de sua experiência com os blogs. Dos temores das pessoas de que estes venham a substituir o jornal, coisa na qual ele não acredita. Mas afirma que estamos tratando de algo poderoso e teve provas disso no seu primeiro blog quando podia ou não aprovar os comentários dos seus textos publicados na internet, mas não conseguia encontrar um critério adequado. Os que elogiavam seriam publicados. Não colocar nenhum dos que criticavam seria ridículo. Acabou deixando passar tudo. Diz que acabaram xingando até a sua mãe. Mais tarde, quando a Revista Época o convidou para fazer um novo blog, voltaram a discutir os tais critérios e, mais uma vez, acabaram não fazendo nenhuma censura. Assim, surgiam campanhas pessoais contra ele. “Um negócio orquestrado”. Ele decidiu ver até onde ia dar e acabou percebendo que, não reagindo, as tais campanhas foram desaparecendo e as mesmas pessoas que o haviam criticado severamente, começaram a publicar coisas muito coerentes, lúcidas, pertinentes. A conclusão a que ele chegou é que o público não quer mais ser passivo.

Fiuza acredita que a partir das manifestações em blogs, os autores podem acabar partindo para sua própria produção de conteúdo, pois observava que, às vezes, os textos postados eram até melhor fundamentados do que o dele. “Estamos diante de um desafio. A única saída para este flagelo do álcool e das drogas é estes alunos verem a possibilidade de se expressar. Dá espaço para tanta gente ser alguém? Acredito que sim.” O jornalista vê tudo isso sem saudosismo e olha para o futuro de forma otimista. Defende que os produtores de conhecimento devem dar importância para a simplicidade. “A arte intangível perdeu a graça. Não há mais espaço para o fetiche do saber”.

Chegou a vez de Jorge Furtado. Já o vi falar muitas vezes, menos do que gostaria, pois ele sempre parece à vontade diante da platéia e qualquer aparição sua se transforma em uma conversa com o público, como se a gente estivesse na sala de casa ou na mesa de bar. Bem, quem sabe um dia... Então, ele começa falando da foto do livro que acabaram de distribuir sobre o Plano Nacional do Livro e Leitura, onde tem um jegue que transporta livros e faz referência ao livro burro que havia na Colômbia e de uma história do desaparecimento do livro Odisséia que havia interessado o povo porque este se identificava com a história. Furtado diz isso para corroborar sua afirmação de que o livro não vai morrer. Diz que gostaria de discordar dos que falaram antes dele, para a conversa ficar mais divertida, mas que não conseguiu. Sim, a arte não é substitutiva, é cumulativa. Dito isso, traz à tona outra questão: a discussão entre realidade, verdade, fato, ficção. Fala sobre o livro Robson Cruzoé cujo autor acabou enganando seus leitores que achavam que aquela história era verídica, pois até então não se usavam nomes próprios nos romances. Comenta que há uma demanda pelo realismo no cinema. Relembra o primeiro filme dos irmãos Lumière que era a saída de uma fábrica. Mas chama a atenção que, embora possa parecer um documentário, os empregados não estavam vestidos como sempre, assim como houve uma certa coordenação do tempo.

E o diretor de cinema pergunta: e qual é o limite? Segundo ele, o trato que nós fizemos. Diz ele que ao ver o telejornal não quer ficção, quer os fatos. Ao mesmo tempo em que fala em verdade e logo se questiona sobre o significado desta palavra. Bem, como jornalista, entendo o que ele quer dizer, esta necessidade dos fatos, das provas, da coerência das informações. Mas acho que na sociedade do espetáculo em que vivemos é uma luta inglória esta. É quase como pedir para ser enganado. Particularmente, acho que não tem mais como sermos tão severos em relação a isso. Temos que filtrar as coisas que nos chegam. Avaliar, ver o que nos serve e descartar o restante. Se vamos começar a tentar comprovar tudo que é dito ou divulgado não sobrará mais tempo para nada em nossas vidas e está aí algo que já anda bastante escasso. A própria história contada por Furtado comprova isso. Ele falou sobre uma notícia engraçada (?) sobre um Picasso que estaria às traças no INSS que foi divulgada em importantes jornais do país, mas que bastou alguma atenção para perceber que não condizia com a verdade. O quadro, a Mulher em branco, era apenas uma cópia. Tratada como obra rara. O diretor bem que tentou avisar os “seus colegas” do engano, mas de nada adiantou. Ao contrário. Estes reforçaram o engano, entrevistando a filha do Picasso, noticiando, anos depois, que a obra havia escapado de um incêndio. Até que ele conseguiu chegar o mais perto da verdade: o quadro havia pago uma dívida com a União e era melhor deixar a história por isso mesmo.

Esta, aliás, é uma história leve se considerarmos todas as “fraudes” que o meio virtual permite. Mas adianta acabar com a internet para dar um fim a isso? Claro que não e nem Furtado estava falando disso. “Nunca fui tão bem informado”. Diz ainda que a gente tem que ler, inclusive, quem discorda de nossas idéias, ter que ler de tudo.

Pronto. Tua vez, Ricardo. Ele começa falando que ficar para o fim é um problema, pois ele já havia feito três palestras na sua cabeça. Disse que ia fazer algo habitual: começar com um poema.

“Não me pergunte pra que serve a arte,

Se você sabe.

Antes de nascer você já sabia.

Se alimentava de arte pelo cordão umbilical

se não, como você conseguiria

atravessar nove meses sem respostas

as suas perguntas?

Ritmo é a resposta

no som submerso

Só a melodia da fala que nada dizia

uma entonação,

uma dança

das mãos sobre o ventre

em que você dormia.

Desde que nasceu,

sem arte, que você sabe

como ninguém para que serve,

ser arte, pra que a vida serviria?

Para mim, ele já nem precisaria dizer mais nada. Podia levantar e ir embora. Mas daí eu perderia ver alguém dizendo algumas das coisas que eu tenho repetido no último ano e meio. Por que este espanto com a tecnologia? A mídia e a tecnologia acompanham a arte desde o início dos tempos. Silvestrin (é engraçado para mim chamá-lo pelo sobrenome), segue explicando, dando exemplos de como a “tecnologia” influenciou a língua, os versos, a recepção, a produção. A palavra que ocupava o papel até pouco tempo atrás e que agora ganha movimento, foto, som. Vai dar certo? Vai ficar legal? Esta é a verdadeira (olha a palavra aí de novo) questão. Além do calor que fazia no circo, as palavras deste poeta-autor aquecem ainda mais o ambiente literário: “Não basta dizer que as pessoas têm que ler. É preciso discutir: ler o que?” Usa uma expressão que me faz voltar aos anos 80 quando nos reuníamos quase todos os dias: “Tem bananices? Claro! Há livros que é melhor o cara nem ler!” Interrompe o que estava falando para fechar um botão da camisa. Compulsão? Algo que nos mostra que o poeta afinal é um simples mortal (mas, pode acabar imortal)? Fala dos seus blogs. Sim, porque para alguém com tantas inquietações apenas um não basta. Também faz referência aos discursos apocalípticos. O papel vai acabar? Para mim se não acabar o papel higiênico já estou feliz!” Ah, Ricardo, sabia que um dia teu senso de humor transbordaria nos teus textos e nas tuas falas.

Comecei a ver Sergio Leo falar. Outro jornalista, atual escritor que ganhou o prêmio SESC de literatura. Não vi até o final. O calor, as idéias foram me deixando sem condições de receber mais informações. Talvez, Fiúza tenha razão ao dizer que se o leitor não abandonar a leitura até o final do parágrafo ele é um herói. Registro apenas uma fala de Leo que me chamou a atenção até eu sair: “Todo relato é uma interpretação. Às vezes, o repórter pensa que está fazendo jornalismo e está fazendo ficção”. Como jornalista já vi isso acontecer muitas vezes. Por falar nisso, o que faço aqui é um relato ou ficção? Confesso que estabelecer esta divisão não me interessa muito. Sim, tento ser fidedigna as palavras. Anoto o máximo que posso. Mas dou ênfase aquilo que me interessa. Recorto aquilo que não desejo. Enfatizo trechos com os quais concordo e vou recriando sob a minha ótica o painel de hoje à tarde da Jornada de Literatura. Por quê? Porque como todos os seres conectados do mundo de hoje sinto necessidade de compartilhar idéias e experiências.

Não fiquei para o show dos Poets. Não fiquei para a palestra às 20h de Marcelo Dantas. Mas deixei uma multidão lá para assisti-los. Troquei estas atividades pelo jantar em uma galeteria da cidade com os parentes que me hospedam neste momento. Gosto de ver minha mãe contando para eles as histórias da família e lá pelas tantas começar a botar água no vinho e pedir para que eu alcance os alfinetes , leia-se palitos.

Uma jornada noite a dentro

Há muitos anos tinha vontade de vir à Jornada de literatura de Passo Fundo. 13 para ser mais exata. Mas nunca me organizava para tal ou acontecia algo na época que me ocupava e acabei não vindo. Este ano, os organizadores anunciaram que trariam Pierre Lévy e como este autor faz parte do meu trabalho de mestrado parecia que estava aí o empurrãozinho que faltava. Fiz minha inscrição e a Jornada acabou sendo prorrogada. Lévy veio antes à cidade e fez uma palestra. Só fui saber depois. Mas como já tinha pago e o tema era Arte e tecnologia – novas interfaces pensei que poderia ser interessante de qualquer forma.

Hoje era o primeiro dia do evento. Assim, peguei um ônibus para quatro horas de viagem para ficar na casa de parentes. Minha mãe veio comigo, pois, são pessoas ligadas diretamente a ela. Uma tia avó minha morava aqui. Vim muitos anos quando era pequena. Algumas lembranças ainda são fortes na minha memória: o fato dela matar galinhas no pátio e preparar com um gosto que ainda esta na minha mente, o medo que senti quando, em uma época de páscoa, ouvi barulhos em uma casa estranha para mim e pensei que era o coelho, a massa de pastel que ela fazia, o som dos grilos no mato em frente e seu neto dizendo: - mas, será o pé do cabrito! Bem, o que quero dizer é que sempre foi divertido vir a esta cidade. Logo de cara, reconheço a estátua de Teixeirinha e vem na minha cabeça a letra da música: “sou gaúcho lá de Passo Fundo e trato todo mundo com o maior respeito”. Mais lembranças. Dos primeiros filmes que assisti na vida eram feitos por ele.

Chegada a hora do evento, depois de ter sido tão gentilmente recebida pelos parentes que foram nos buscar na rodoviária em um carro de luxo como eu nunca tinha visto igual, ganhei uma carona neste mesmo veículo até a Universidade. Comecei a procurar o local. O movimento já era grande. Veio, então, o primeiro impacto: a entrada no circo. Já tinha lido a respeito, visto fotos. Mas não podia imaginar. É uma estrutura linda e ao mesmo tempo de uma simplicidade maravilhosa. Arquibancadas e cadeiras de plástico que aos poucos vão sendo ocupadas por uma multidão (infelizmente, não sei calcular públicos). Ainda remexendo a memória, vejo Ricardo Silvestrin que foi alguém muito importante para mim quando eu tinha 18 a 20 anos. Com tanta gente já no circo e acabamos em filas próximas e ele na minha linha de visão. Sabia que ele estaria aqui, pois, li seu nome na programação, como autor, como debatedor, como integrante da banda Os Poets que fará uma apresentação. É, Ricardo... Sonhávamos com este reconhecimento, tu agora já o tens de sobra. Perguntei alguma coisa para a menina que estava na minha frente. Ela foi bastante gentil, me contou que já veio há várias edições e até já trabalhou na Jornada algumas vezes. Lá pelas tantas me disse: tu vais te emocionar com o que acontece aqui.

A coordenadora do evento Tânia Rösing fala que estamos em um templo de celebração, da vida, da solidariedade. Comenta que houve uma crise mundial que chegou ao Brasil. Falou das empresas escondendo seus lucros para não investir na cultura e depois ainda veio a gripe suína. Ou seja, tudo que tentou impedir ou prejudicar a realização da Jornada que antes tratava do binômio: educação e cultura, mas que, agora, estava sendo transformada em um trinômio: educação, cultura, tecnologia para integrar os neo-leitores. A coordenadora foi ácida na sua abertura, mas agradeceu aos amigos, sem os quais, segundo ela, nada disso teria sido realizado. Pediu também aplausos para os trabalhadores anônimos que construíram a tal estrutura da qual já falei. Interessante esta lembrança. Dá, para mim, o tom do encontro. Ela diz que quer fazer um registro: “não tivemos a Lei de Incentivo à cultura”. Por favor... Como pode? Para encerrar fala da letra da música tema desta edição com o estribilho: “cai na real, a nossa vida é virtual”, letra do homenageado deste ano Pedro Bandeira que só hoje fui saber que é ator, diretor e jornalista. Ou seja, muita coisa em comum comigo! Ok. Ele é autor, mas há quem diga que eu também ainda serei, então...

Logo depois vieram as verdadeiras palavras de abertura. Tânia Rösing diz: “respeitável público...o circo da cultura se abre e o espetáculo vai começar. É a hora do grupo Tholl. Sei que tem gente que acha que eles são uma cópia mal feita do Cirque Du Soleil. Discordo. Acho fascinante este trabalho do grupo, a origem humilde de vários integrantes e o colorido dos figurinos e toda aquela movimentação no palco, fora as habilidades circenses, é claro! Confesso que não gostei muito das músicas. Muito americanizadas para o meu gosto. E nestas horas surge aquela questão da necessidade de optar pelo “ao vivo” ou pela melhor visibilidade nos telões! Sim, as vigas do circo ficam cortando o palco. Nem todo mundo tem uma boa localização. Muitas entradas e saídas e aplausos um a um para todos os integrantes do grupo. Nesta hora já comecei a olhar o relógio para calcular que horas deveria terminar. Afinal, ainda não sabia como chegaria de volta “em casa” em uma cidade que não conheço.

Um coro aparece para cantar algumas músicas, enquanto eles organizam o palco. “Talvez, eu seja simplesmente um sapato velho, mas basta você me calçar e eu aqueço o frio dos teus pés”. Vamos cantar o hino entusiasticamente e com respeito, pedem os apresentadores. Ai,ai,ai, se precisa “orquestrar” a platéia é porque as coisas não andam lá muito bem, não é mesmo?

De repente, no palco 16 “autoridades” e TODAS irão falar. Meu Deus! Eram 21h45. Ao menos o limite para cada um era de dois minutos e eles quase obedeceram e, em sua maioria, falaram coisas interessantes. Mesmo assim, vou registrar algumas palavras do Ministro da Educação Fernando Haddad que falou pouco, mas, falou bem (além de ser bonito). Começou com uma piadinha, dizendo que Beto Albuquerque tinha muita influência na presença dele, pois havia dito que participaria de um número do Tholl. Mas logo partiu para as informações que os organizadores do evento deveriam estar querendo ouvir: “A Jornada precisa estar no calendário de eventos do orçamento do MEC.” Disse também que esta merece um apoio institucional perene independente de quem está nos cargos políticos. Logo depois da sua fala, os apresentadores disseram que o Ministro não ficaria para o evento, retornando para Brasília. A platéia disse: Ahhh....Lastimando a sua saída. A mesma platéia, aliás, que vaiou Mônica Leal quando disseram que ela representava a Governadora Ieda Crusius.

Ainda houve assinaturas, entrega de prêmios pelos concursos de contos, livros... A estas alturas eu já ansiava pela palestra de Win Veen, intitulada: Homo Zappiens. Mas antes preciso comentar a homenagem feita a dois escritores que não puderam estar presentes, pois foram vítimas de doenças que os levaram a morte. São eles Roberto Zanatta de 10 anos e Pedro Albuquerque de 20 anos. O primeiro escreveu três livros no seu último ano de vida e o segundo, filho de Beto Albuquerque, um livro de quase 500 páginas também no mesmo período. Tânia Roosing relembrou os dois emocionada e emocionando, chamando a família destes ao palco.

Ainda vou falar da palestra que me levou ao circo, mas finalizo esta primeira parte, dizendo que a menina que me disse que eu me emocionaria estava certa. Não só por causa destas homenagens, mas por constatar que eu estava presente em um evento daquele tamanho, seja pela quantidade de convidados, pelas estrutura ou pelo público, mas por ser um evento voltado para a cultura. Nunca tinha visto nada igual. Já participei de eventos maiores, mas voltados para os negócios, como a Expointer onde coordenei a central de imprensa ou outros organizados pela Procergs visando às empresas. Pensar que tudo aquilo era ligado à educação, a leitura, às pessoas acabou mexendo mesmo comigo. São nestas horas em que a gente não só imagina que as coisas possam ser diferentes, elas são. Não é à-toa que a platéia é tão afetiva com a coordenadora. Eu que mal a conheço senti orgulho de estar perto de alguém com esta garra.

Win Veen – uma espera que valeu a pena

Uma pena que as pessoas não tenham resistido a tantas atividades e o avançado da hora tenha feito o público diminuir consideravelmente. Não tenho dúvidas, porém, que quem ficou não se arrependeu. Ele veio da Holanda (o que mostra a força do evento). É coordenador da área de educação e tecnologia da Universidade de Tecnologia de Delf. Uma figura de fala tranqüila e entusiasmada e, apesar de um certo nervosismo da tradutora logo no início, estou certa de que disse coisas bem claras. Ou seja, falou de um assunto extremamente complexo com simplicidade. Algo que só os especialistas conseguem fazer. (Sempre digo que não sei inglês, mas, nestas horas vejo que consigo confrontar a fala estrangeira com a tradução).

Veen começou dizendo que, hoje, com apenas três anos as crianças já estão em contato com muita tecnologia. Aos oito, á tem celular e aos 11 já estão jogando Play Station 3. Afirmou que o que os diferencia das gerações anteriores é que são eles que têm o controle do fluxo de informações. Fez questão de dizer, várias vezes, que não estava falando do futuro, mas, do presente. Apresentou um vídeo em que uma família “convivia” com um bicho de estimação virtual. Falou que para os jovens de hoje, o contato com a tecnologia começa às 6h e termina a meia noite e que neste tempo existem apenas dois períodos em que eles não estão usando mídias. São aqueles em que eles estão na escola. Disse que estes nunca lêem os manuais dos jogos e programas. Colocam o CD e já saem mexendo direto. Quando eles não sabem continuam não recorrendo aos manuais. Pegam o celular e ligam para alguém que possa saber a resposta. “A geração atual está integrando os meios físicos e virtuais e não vêem diferença entre eles.” Para estes aprender é igual a brincar. Quanto as razões para este interesse todo pelas tecnologias, o palestrante destacou: você escolhe, você decide, você cria. Reafirmando que as pessoas da nova geração querem estar no controle. Mostrou avatares que são, praticamente, reais. Aliás, impactante a imagem real de uma moça comparada com a imagem virtual. Não há como distinguir uma da outra. Acho até que há de ter pessoas que pensem que a real é a virtual e vice-versa. Falou que utiliza estas tecnologias para realizar entrevistas com candidatos virtualmente, para fazer conferências. “A tecnologia está progredindo” e para mostrar como apresenta o que ele chamou de livro moderno. Um vídeo no qual um leitor abre o que se assemelha a páginas de um livro, mas, toca nas fotos para ampliá-las, clica em vídeos para obter mais informações e som, tudo em 3D, usando um óculos que, hoje, está custando 300 euros. Não é ficção. É um livro da universidade na Holanda. Veen explica que os leitores constroem conteúdos e tem acesso a uma realidade “aumentada”. “Nós usamos a internet para pesquisar, baixar textos e vídeos. Esta geração a usa para compartilhar conhecimento.” Saem de uma realidade representativa para uma realidade participatória. Explica que todo mundo está colocando algum conteúdo na internet e que com isso estamos construindo conhecimento. Lembrou que existem pessoas que temem tudo isso, dizendo que as pessoas aprendem superficialmente, ficam colando e copiando conteúdo, que falta disciplina e concentração e pergunta: “mas o que eles estão fazendo exatamente?” Para ele a resposta é: múltiplas tarefas nas quais são estimulados por ícones e não por textos, acessando uma informação descontinuada e afirma: “a web não é para ler, mas para agregar.” Diz ainda que o processo de aprendizagem não é linear. “Escolas são lineares, livros são lineares. Os livros terminam sempre do mesmo jeito. No jogo você está imerso.” Segundo ele, as crianças desenvolvem habilidades diferentes de antes quando apenas internalizavam conteúdos. Hoje, eles compartilham conhecimento. Aos 21 anos, diz ele, a pessoa já terá jogado vídeo-game por 20 mil horas, assistido a 80 mil horas de TV e a 5 mil horas de leitura no micro. Com tudo isso vão adquirindo habilidades diferentes das gerações anteriores. Aos 38 anos, segundo Veen, o indivíduo já terá passado por 15 empregos diferentes.

E escola? Hoje, diz Veen, ela reprova um aluno que tenha baixas notas em matemática ou inglês. “Isso provoca a destruição do capital intelectual”. As escolas precisam se adaptar ao aprendizado individual. Ninguém aprende do mesmo jeito. Não há uma mesma medida para todos. Aprender de forma digital é diferente. Para ele, os professores precisam se prepara para estes novos papéis, serem inspiradores, motivadores, transformadores da teoria na prática e, principalmente: observadores de talentos. Ele observa que na maioria das escolas os professores enfatizam o que os alunos não sabem, o que erraram, nunca o que é certo, nunca destacando as competências. “Na Holanda este processo já começou. Estamos nos defazendo dos livros didáticos. Tudo isso não é sobre conteúdo. É sobre comunicação. Os professores têm o poder de adotar a tecnologia e criar uma nova escola.”

Pena que já fosse tão tarde e não tenha havido debate. Até porque estavam no palco para isso Alcione Araújo, Ignácio de Loyola Brandão e Júlio Diniz que mesmo que não fossem discordar do palestrante acredito que trariam contribuições importantes.

Na saída, enquanto penso como voltar para a casa dos meus parentes, a menina do início vem falar comigo e me oferece uma carona. Pede desculpas, dizendo que o seu carro é simples. Entro em um fusquinha e volto para casa feliz com este primeiro dia e noite de Jornada.

Thursday, October 15, 2009

Dia dos meus pais


Dia dos professores sempre foi uma data comemorada na minha casa. Pelo menos, um parabéns,  logo cedo,  sempre pintava.  Quando nasci meus pais já estudavam com a pretensão dar aulas no futuro. Éramos quatro filhos e minha mãe se desdobrava para ir a Aliança Francesa fazer seu curso. Meu pai, além do trabalho, ia para a Universidade. Física? Matemática? Não sei. Ele fez as duas. Depois, quando fui para a minha primeira escola, eles já lecionavam lá. Fui até aluna da minha mãe que, por sinal, depois de fazer algumas advertências para que eu ficasse quieta, acabou me colocando para fora da aula. Foi a única vez em minha vida que fui expulsa e logo pela minha mãe! Assim, cresci sabendo que estudar era coisa séria e que dar aula exigia muito tempo e dedicação. Talvez, seja importante dizer que ambos amavam o que faziam. O emprego no Banco do Brasil do meu pai foi sempre para sustentar a família, mas, onde ele se realizava era desafiando os alunos a aprender matemática de um jeito diferente.
Minha casa sempre foi cheia de livros. Durante os momentos em que estávamos juntos os assuntos discutidos eram os mais diversos... cultura, política, economia e, é claro: educação. Lembro de acompanhar minha mãe em alguns movimentos grevistas, de ir até um acampamento na praça da Matriz, de discutir as propostas e reivindicações desta categoria tão maltratada neste país. Tudo isso era normal para mim. Rotineiro. Só muitos anos depois, uma amiga chamou minha atenção, dizendo: “- Aqui na tua casa, vocês sempre debatem tudo. Na minha, só falo com meu pai para pedir que ele me passe a manteiga.” Vejam só...Eu pensava que todas as famílias eram assim. Acredito que venha daí este meu jeito questionador.
Minha mãe amava a língua francesa. Amava? Ainda é completamente louca por tudo que se relacione a este país. Até hoje, ela diz que quando morrer vai para a França. Com todo este entusiasmo ela acabou representando a classe na Associação de Professores de Francês do Rio Grande do Sul, o que lhe rendeu um importante título oferecido por aquele país: as palmas acadêmicas. Ah, minha mãe poderia também dar aula de inglês. Estudou sozinha e fez as provas que eram exigidas na época para obter o título de professora também desta outra língua estrangeira, mas, nunca quis fazer isso. Não ia ser com a mesma paixão.
Nunca tive aula com meu pai, ou melhor, até tentei algumas aulas particulares (eu bem que precisava), mas, que quase sempre acabavam em briga. Eu não entendia nada e não tinha paciência com seu jeito calmo e tão interessado por todos aqueles números e fórmulas e ele também ficava meio irritado com o meu desinteresse por algo que era tão fascinante para ele. No entanto, muitos alunos adoravam a maneira irreverente dele dar aula. Seus enigmas, suas histórias sobre o Sherlock Homes, o personagem que ele criou chamado o homem de cinzento, as gincanas que ele promovia na escola, etc, etc, etc. Idéias estranhas. Muitas incompreendidas que se transformaram hoje nos Jogos Boole e que vêm recebendo aceitação de educadores em todo o país (depois de terem sido reconhecidos pelo Governo Francês). Não raro, minha irmã psicopedagoga ouve os professores dizerem: teu pai era um gênio!
Hoje, o dia vai ser ainda mais comemorado do que de costume. Vamos receber aqui em casa a Lilia Rodrigues Alves. A fundadora e diretora do Instituto Educacional João XXIII da época em que meus pais estavam lá. A idéia surgiu depois que ela fez um contato com a família para dizer que lamentava a morte do meu pai. Foi neste momento que minha mãe teve a oportunidade de dizer que graças a ela ele pode desenvolver o trabalho que tanto amava. Ela deu liberdade para ele fazer inúmeras atividades naquela escola que poucos administradores escolares permitiriam. Eu, que conhecia as idéias do meu pai, apelidado de Professor Pardal, sei que não deve ter sido fácil não temer que aquilo tudo acabasse em reclamações dos pais ou dos próprios alunos. Esta atitude compreensiva e incentivadora desta diretora não foi apenas com ele, mas, com vários professores e alunos daquela escola. Por isso, ela será homenageada e o fato de ser aqui em casa só faz parte de um histórico da minha família, no qual esta profissão sempre teve muito valor.

Obs: Lilia Rodrigues Alves ainda não sabe desta comemoração. Mas, não acredito que ela acesse meu blog até hoje à noite.

Monday, October 12, 2009

Perdas e ganhos

Passei meu primeiro aniversário sem meu pai. No momento, não estou com muita vontade de falar sobre isso.
Passei meu quarto aniversário sem meu irmão. São muitas lembranças e uma delas é que ele gostava de escrever poesias. Escreveu textos que eu achava lindos e que nunca foram publicados. Vou fazer isso por aqui de agora em diante e começo por um bem curtinho:

"Os amores-perfeitos desabrochavam assustados com as bocas-de-leão." João Alfredo Mello Neto

Mas, nem tudo foram perdas. Tenho feito novos amigos. Tido novas experiências. Vivido outras emoções. Queria as pessoas que perdi de volta, é claro! Mas, ganhei outra percepção da vida nos últimos tempos com as ausências que se fazem tão presentes todos os dias e ainda mais em datas especiais.

Friday, October 09, 2009

Fazer mestrado é uma buena onda?*





Quanto mais coisas acontecem, menos tempo sobra para escrever sobre elas. De qualquer forma, não gosto de deixar o blog tão desatualizado, então, acabo me cobrando uma paradinha por aqui para registrar algumas coisas.

Estive em Montevideo apresentando meu trabalho no V Colóquio internacional de teatro. Eu e um bom grupo da pós-graduação da UFRGS. Ou seja, éramos plateia de nós mesmos. Pelo menos, tínhamos esta impressão. No entanto, teve um dia que fui a uma sorveteria na extensa rua 18 de julho e uma pessoa veio falar comigo dizendo que havia assistido a minha mesa sobre Novas Tecnologias em cena e havia gostado muito. Comentou que era da Bahia e que lá havia uma pessoa que falava sobre a crítica na dança. Aconteceu isso com outras pessoas também. Claro, pelo fato de não as conhecer não havia registrado suas fisionomias, mas, elas estavam lá e pelo jeito tiveram interesse no que eu disse. 

Foi um momento tão bom para mim, pois, era apenas a segunda vez em que fazia este tipo de apresentação. A primeira foi na Jornada da UDESC e agora já era em outro país e no Solis, um templo do teatro internacional. Coisa boa!
Confesso que do conteúdo de todas as ponencias do colóquio não ficou registrado muita coisa. Muitas informações e a dispersão própria de uma viagem tornaram isso menos importante. Se valeu a pena? Muito. Foram dias extremamente interessantes, de muitas conversas, muitos passeios, muita comida. Algo que ajuda a tomar fôlego para o trabalho que ainda tenho pela frente antes da minha defesa e que me garante que este caminho de discussão dos temas teatrais quero, realmente, percorrer. 

Ri muito. Emocionei-me algumas vezes. Senti medo em outras. Afinal, voltamos justamente na segunda-feira, quando Porto Alegre passava por um “Tsunami.” Dias condensados de atividades, novidades, experiências, pensamentos e reflexões. A convivência com os colegas também foi bacana, mesmo que tenha feito lembrar a frase de um texto do meu irmão sobre os amigos: “não me contentaste sempre, mas isso também nem eu”. Uma única frase repleta de verdade. São assim as relações.

O contato com outra língua, outros costumes, outras comidas, outras paisagens enriquece nossa percepção e isso é algo que sempre valorizei. Adoro viajar e, felizmente, gosto de voltar também. Assim, estou sempre feliz. Estava lá, enquanto percorria as ruas da capital uruguaia e estou aqui cercada das coisas que me são familiares. É outro tipo de satisfação, mas, nem por isso menor.

Foi o mestrado que me trouxe a oportunidade de conhecer estas pessoas que têm afinidades comigo. Foi o mestrado que me deu a oportunidade de viajar agora para Montevideo. Dá trabalho? Claro. Faz a gente sentir uma insegurança que achávamos que já estava completamente superada? Não tenho dúvidas. Mas, também, traz vantagens que não imaginávamos que teríamos enquanto respondíamos aquelas questões da prova.

Um novo Edital está aberto www.ppgac.ufrgs.br
Quem sabe você também não se aventura?


·        * Expressão utilizada para indicar algo bacana, agradável.

Wednesday, September 16, 2009

O silêncio dos amantes e o mudismo da platéia


Não gosto de ler sinopse, nem de tomar conhecimento de nenhuma informação antes de ir ao cinema ou ao teatro. Quando muito aceito a recomendação de alguém. No Porto Alegre Em cena não foi muito diferente. Comprei meus ingressos pela escolha dos teatros, das datas, do lugar de onde vinham os grupos. Como estava fora da cidade, ontem fui assistir ao meu primeiro espetáculo do Festival: o silêncio dos amantes.

Quando escolhi o lugar parecia bom. Bem na frente, meio central, na platéia baixa do teatro do CIEE, mas, bastou olhar para o palco para constatar que estava perto demais. Torci para que isso não prejudicasse minha visão das cenas e deu certo.

No palco, uma grande caixa de madeira. Panos pendurados pelas “paredes”. Uma luz indireta, suave, tornando o ambiente meio poético. Anjos mascarados fazem movimentos suaves que mais lembravam um ballet. Uma música de piano agradável acompanhava os atores. Ou seriam bailarinos? Vim assistir a um espetáculo de dança? Nada contra. Mas, minha expectativa era outra. Assim, fiquei feliz quando vieram as primeiras palavras. Um dos atores manipulava um boneco e contava a sua história de preconceito, de discriminação, de solidão familiar por ser ele um anão! Poderia até ser engraçado, mas, não. O jeito contundente e sofrido dele fazer seu relato elimina qualquer ruído da platéia. Muito menos risos, embora em alguns momentos ocorram falas divertidas. Pronto. Já fui conquistada. A expressividade do ator, seu tom de voz, seu jeito absolutamente perfeito de dizer o texto me arrebatou. Como se não fosse o suficiente convencer-me da fala daquele menino-anão, ele ainda fazia as vozes da mãe, do pai, da irmã. Como é bom ver alguém se apropriar tão bem das palavras e das emoções que surgem com elas. Sem titubear. Sem nenhum vacilo. Fala de sentimentos, mas, nos apresenta algo com começo, meio e fim e é assim que passamos para o próximo monólogo.

Outra proposta interessante. Os anjos mascarados trazem um pequeno marionete. Colocam em uma posição deitada. Logo em seguida, uma das atrizes começa a falar do suicídio do marido. Mas, não explicitamente. Vai nos introduzindo ao que levou aquele momento. De uma maneira que nos sentimos lá, com ela, “vemos” o que ela fala e entendemos o seu drama. No meio de outro texto profundamente bem escrito, frases poéticas, profundas, filosóficas: “não saber é que torna a vida possível”. Toda a platéia segue em total silêncio e olhos vidrados. Outra frase: “Nenhum de nós rompeu aquele acordo sem palavras”. Palavras, palavras, palavras. Nada mais. Mas, estas tem movimento, ganham o espaço, preenchem o teatro. Outra vez compartilhamos de tudo que aconteceu com aquela personagem.

Um dos anjos coloca vários copos sobre a caixa. O ator que fará o terceiro monólogo os espalha e começa a contar seu sonho com a mãe. Mais uma vez, frases que merecem ser registradas: “que dificuldade você tem para ser feliz!”. Outro ótimo texto. O alcoolismo na família. O ritmo das palavras se mantém. O nível de expressividade também. Há uma homogeneidade na atuação de todos eles. “Naquele instante eu fui feliz”. “Só as famílias felizes querem ficar registradas”. “Sofrendo numa confusão de amor e ódio”. “Tinha um poder maior sobre ela do que qualquer sensatez”.

Mesmo que a proposta cênica seja criativa e diferente, a maneira como os anjos foram colocando as máscaras na medida em que os monólogos iam acontecendo, indicam que falta apenas um. É interessante esta questão de códigos. Mesmo que não previstos, há uma lógica que nos tranqüiliza, que nos faz sentir inteligentes. Para o último, abrem-se espelhos. Outro texto brilhante. “Eu entendi que a nossa cumplicidade só existia na minha imaginação”. Fala da burocracia da morte. Eu que vivi exatamente isso com a morte do meu irmão e que vi meu pai fugir dela, doando seu corpo para estudos, entendo perfeitamente. “Não importa quanto tempo se passou. O amor é o mesmo. Eu sou a mesma”. “Vamos calar em um silêncio maior do que qualquer palavra”. De novo a morte. Sob outra ótica. Outro vínculo. A mesma tristeza. O mesmo desespero e o mesmo talento de todos os outros para dizer o texto. Longo por sinal, como os demais. E a platéia imóvel, absorvendo cada sílaba, cada pausa que vai nos calando fundo e só se rompe ao final com os gritos de bravo e o barulho das palmas.

PS: Como disse no início, não gosto de me informar sobre o que vou ver. Só chegando em casa fico sabendo que o espetáculo é uma adaptação dos contos de Lya Luft, com o mesmo nome. Ah...

Ficha técnica
Direção: Moacyr Goes
Elenco: Carla Rosa, Giselle Lima, Augusto Garcia, Leon Góes
Assistência de direção: André Chevitarese
Direção musical: Ary Sperling
Cenografia: Paulo Flaskman
Figurinos: Inês Salgado e Fúlvia Costalonga
Iluminação: Paulo César Medeiros
Direção de produção: Companhia Escola 2 Bufões
Duração: 90 min

Crédito fotos: Renata Dillon e Rogério Resende

Tuesday, September 15, 2009

A verdadeira arte de viajar*


Fazia uma semana que não via uma casa. Estava em Brasília. Dizem que existe. Meu amigo que me hospedou até pensa em ir morar em uma. Por enquanto, isso quer dizer há cinco anos, ele mora em um apartamento bem espaçoso e com fácil acesso ao Ministério da Saúde, onde trabalha. Mas, é claro que esta diferença em relação à moradia não foi a única que observei. Nem todas são favoráveis, mas, é importante dizer que elas partem da perspectiva de uma gaúcha que ama a sua cidade. Porém, adoro viajar e deixo as comparações para fazer só depois que retorno. Se não, para que sair de casa?

Não posso deixar de tirar meu chapéu para a arquitetura. Não é à-toa que Oscar Niemeyer é tão famoso. Os profissionais da área do mundo todo costumam ir até lá só para conhecer. Meu amigo põe alguns defeitos e acredito que ele tenha mesmo razão, pois, apesar de extremamente diferente e bonito, segundo ele, existem prédios que não tem estrutura para suportar a temperatura e as intempéries da região, como raios, por exemplo. Peca em aspectos funcionais. Porém, para quem é turista isto não faz diferença e cada prédio traz uma surpresa.

Aliás, já conhecia Brasília. Havia estado lá em 1987, no Festival de Arte e Cultura. Desta vez, constatei que eu era mais “barroca” há mais de 20 anos atrás. Tantas linhas retas, este estilo organizado e clean da cidade havia me incomodado. Continuo achando que a cidade não é acolhedora, mas, hoje, já consigo apreciar a estrutura de quadras, com seus espaços comerciais, oferecendo autonomia aos seus moradores. Por falar neles, é preciso lembrar que a cidade foi criada há apenas 49 anos (a cidade faz 50 anos no ano que vem), então, a quantidade de pessoas nascidas em Brasília ainda é pequena e esta costuma ser uma das observações: uma cidade sem tradições, sem alma, dizem seus críticos. No entanto, é possível olhar isso sobre outra perspectiva, pois, nos oferece a chance de conviver com pessoas de todo o país. Nestes poucos dias que fiquei lá, conheci mineiros, cariocas, paulistas e nordestinos, claro! Aliás, o sotaque que se ouve nas ruas é uma mistura de tudo isso. Estas são em sua grande maioria extensas avenidas, com várias faixas e carros, muitos carros.

Pouco se vê pessoas caminhando. Raro mesmo. Assim, como ver animais na rua. Muito diferente daqui. Posso contar nos dedos e não vou preencher nem uma mão os cães que encontrei com seus donos. Gato? Nenhumzinho. Nem mendigos tampouco. Vi alguns dormindo nas ruas. Três para ser mais exata. E, nestes sete dias em que vaguei por lá ninguém me pediu nem um tostão para comprar leite, remédios ou o que quer que fosse. Flanelinhas? Nunca.

A gente anda muito para chegar a qualquer lugar. Mas, as tarifas dos taxis lá não se comparam com as daqui. Muito menores. Além disso, os motoristas respeitam as faixas de segurança e aguardam o pedestre atravessar. Ufa! Soube, ontem, que começaram uma campanha para que aqui em Porto Alegre isto também aconteça. Que ótimo!

Bom, como todos sabem o clima em Brasília é seco e quente. O que para mim nestes dias em que fiquei lá foi uma vantagem em relação aos que estavam aqui em Porto Alegre, onde só chovia e fazia frio. O gaúcho é mesmo um forte. Sobrevive a estas alterações brutas de temperatura. Lá, também não é fácil. A gente tem que tomar água o tempo todo. Nas empresas, existe um programa no computador que avisa que é preciso tomar água, tamanha secura. Meu amigo disse que é o lugar com o maior índice de pedra nos rins, em função disso.

Ah, mas, não posso encerrar sem falar de comida, é claro! Não tive chance de experimentar nada mais típico. Gostei muito das saladas de frutas que vendem na rua. Uma boa quantidade, muito bem feita, com ingredientes novos, acrescidos de leite em pó, granola, canela, aveia, leite condensado e, talvez, mais alguma coisa que agora não me recordo por R$ 3,00. Em geral, porém, achei as coisas caras. Em um dos lugares mais bonitos onde estive, o Portal do Lago, uma porção pequena de batata frita, R$ 17,00! Nos shoppings, os preços são, certamente, mais altos do que aqui. Vinho então... Um rombo no orçamento. Ontem, porém, comi um crepe delicioso. A massa era bem semelhante aquelas casquinhas que vendiam na praia e paguei R$ 5,00. Na noite anterior também havia saído com uns amigos e comido umas pizzas em uma padaria muito boas e baratas. Só que não havia vinho para acompanhar, o que, para mim, faz falta. O que percebi é que é preciso descobrir onde e o que comer e daí já não se gasta tanto. Desta vez, quando comecei a encontrar estes lugares já estava na hora de voltar. O que, aliás, me agrada tanto quanto viajar!

Não andava de avião desde 2001. Gosto. Na volta, até consegui dormir, embora, tenha voltado a estranhar as decolagens e aterrissagens depois de tanto tempo sem voar.

PS: Fomos à Brasília apresentar os Jogos Boole em francês no Congresso Internacional de Professores de Francês. (www.jogosboole.com.br)

*A Verdadeira Arte de Viajar- Mario Quintana

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Saturday, September 05, 2009

Esbanjando competência


Talvez não seja coincidência que justamente na véspera de uma viagem de avião, coisa que eu não fazia desde 2001 quando fui a França, eu tenha ido ver o Avarento. Afinal, foi lá, na Comédie Française, que eu fui assistir a esta peça de Molière (L’Avare). Comentei isso com o meu colega e diretor Gilberto Fonseca quando ele me falou que estava montando esta peça. Falei que se tratava de uma proposta pós-moderna, sem figurino e um cenário cheio de portas que abriam e fechavam todo tempo. Acho que cheguei a comentar que, tirando a experiência de estar em um teatro com tanta história, mal pude acompanhar o texto e nada na encenação francesa me impressionou.

Bem, mas, hoje tive o prazer de ir ali ao Teatro de Câmera, aqui mesmo na minha cidade e assistir a uma excelente montagem. O que parece já está chegando aos ouvidos daqueles que gostam de teatro, tendo em vista o bom público que lá estava. Mas, não é surpreendente já que este é o último fim-de-semana desta temporada. Ou seja, se queria ver o espetáculo tinha que ser hoje, pois, desde que entrou em cartaz recebei o convite, mas, uma faringite me exigiu repouso. Sim, Marcos Chaves, “eu estive com um punhal na garganta” e posso te garantir que no meu caso isso era bem menos uma metáfora do que uma sensação que a doença provoca. Dito isso, falarei do Avarento do Grupo Farsa.

O cenário é simples, mas, com elementos suficientes para nos colocar no ambiente para aqueles personagens. Já o figurino é um caso a parte. Além de serem totalmente adequado-as para cada um que estava no palco, as roupas eram extremamente bem elaboradas. Diria até que não se tratava de figurinos, mas, de roupas de época. Teriam sido arrematadas em algum leilão com o dinheiro ganho? Não. Vejo no programa que é um trabalho de Daniel Lion. Aliás, não saberia dizer o quanto o prêmio da Funarte fez diferença no trabalho, até porque sei que os ensaios já vinham há bastante tempo e isso é visível no resultado. O que vi não se constrói em pouco tempo.

No palco, um grupo de atores coesos em sua proposta e em seu talento representado no início por Zé Mario Storino e que no decorrer das cenas surge com tantas outras figuras. Enquanto assistia, pensava em destacar alguém, mas, agora vejo que se começar vou ter que falar de todos. Além do Marcos, tem Lúcia Bendati que desde que comecei a ver seus espetáculos tem me dado aulas de interpretação, a Ariane Guerra, minha colega do DAD que pequena na estrutura tem aquele vulcão por dentro e que aparece no palco, exatamente como acontece com a Daiane Oliveira. Isso sem falar no prazer de ver João Madureira e Lucas Krugg. Bem, mas, posso falar do ator que fez o Avarento, “protagonista” desta história. Elison Couto está convincente, autêntico, divertido. E se não é fácil priorizar alguém posso, certamente, dar ênfase a toda movimentação dos atores em cena e suas marcações, as soluções de distribuição no espaço e, por último, e uma das coisas que me deixa feliz, a competência de todos na maneira de dizer o texto que, convém que se observe, não é fácil, exige aquele famoso tempo da comédia que ou acontece ou é um fracasso. Se considerar a quantidade de pessoas rindo na platéia e o número de vezes que isso aconteceu, não tenho dúvidas de que é um espetáculo extremamente bem sucedido. E como se não bastasse tudo isso, eles cantam divinamente e sem exageros, a não ser no final quando a cantoria parecia clichê (e já começava a me incomodar) e acontece a revelação de era de propósito, levando todo mundo mais uma vez ao riso.

Já disse outras vezes que vou mais ao cinema do que ao teatro, mas, bastariam mais peças como o Avarento e, certamente, este hábito se modificaria. Parece que no que depender do Gilberto é isso mesmo que irá acontecer, afinal, ele pretende colocar em cartaz Tartufo e As Preciosas Ridículas.

PS: Já li o texto há muito tempo e não lembro o que estava realmente no original e o que é liberdades do grupo, mas, a fala “seu catarrozinho lhe cai bem”, dita ao Avarento, me lembrou o vídeo da entrevista do Nelson Rodrigues e a forte impressão que o seu pigarro causou no diretor.

Wednesday, September 02, 2009

A dona da voz

Parece mentira, mas, uma faringite me tirou do ar. Perdi a voz e sem voz fiquei também sem vontade de escrever. "Falei" no msn com as pessoas e por email, enquanto nem um som saia da minha garganta. Mas, não tive vontade de comunicar mais nada a ninguém. A conversa passou a ser interna. O quanto deixo de ser eu mesma sem a minha fala? Bem, quem me conhece deve saber que muito. A gozação veio logo. Entre os parentes mesmo. De corpo presente, mas, impedida de participar das polêmicas que meus familiares sempre conseguem provocar, lá fiquei eu, no exercício mais severo que uma praticante de yoga possa realizar: o silêncio. Isso logo depois de uma viagem de apresentação do meu trabalho, de uma ida a Santa Catarina um estado que deixa a gente mesmo sem palavras e da minha qualificação, onde feita a devida apresentação, mais ouvi do que falei. Felizmente, o que restou foi um sentimento bom de missão cumprida e de vínculo real com a minha pesquisa. Autêntico, como tenho dito ultimamente. Ainda não estou pronta para pensar em todo o trabalho que tenho pela frente, pois, ainda preciso de mais uns dias para descansar de todo o esforço que ficou para trás.
Bem, mas, voltando ao silêncio, foram dias em que percebi o quanto as pessoas reivindicam os meus comentários, as minhas opiniões, a minha participação em tudo. Em casa, batia palmas para chamar a atenção. Seria irritante se não fosse engraçado! Vi minha mãe, mesmo sabendo da minha mudez, querendo conversar comigo apesar de estar em outros ambientes e me dei conta de quantos comentários, quantas falas sem objetivo fazemos entre nós durante o dia-a-dia, só para trocarmos idéias. Não. Não valia a pena. Precisava me recuperar. Às vezes, a voz voltava e eu já começava a extrapolar. Dia seguinte, pronto, sem voz outra vez. Mas, desde ontem que eu acho que ela veio para ficar. Ainda sigo com a medicação (e sem álcool) até sábado.
Vou usar esta experiência para pensar em economizar algumas falas, mas, fiquei feliz que os meus amigos me querem de volta, tagarelante, dando palpite em tudo, comentando a vida alheia e compartilhando não somente o que sei, mas, também minhas dúvidas e inseguranças. E voltando a escrever por aqui também...

Wednesday, August 19, 2009

Da serra ao litoral


Voltei de Gramado na segunda para viajar para Florianópolis na quarta à noite onde apresentaria o meu trabalho na Jornada Latino Americana de Estudos teatrais. Outras duas colegas estavam no mesmo ônibus. Não tenho problemas para dormir em viagens noturnas. Assim, três horas depois estava em Sombrio onde só acordei devido ao aviso do motorista. Já amanhecia quando comecei e ver a ponte Hercílio Luz. Com o apoio das colegas e de uma em particular que já havia morado por lá chegamos a UDESC. Eu com uma mala que já começava a parecer inapropriada nas roletas e nas escadarias da Universidade.

A inscrição não foi cobrada e já fomos avisadas que muita gente havia desistido da participação por causa da Gripe A. Sem problemas. O que importava é que lá estava. Logo em seguida, revejo um dos professores doutores que veio a Porto Alegre fazer um Seminário. Daqueles que fazem a gente saber por que resolveu ir em busca do título de mestre.

A manhã passou rápida, embora a palestra de abertura em espanhol em tom monocórdio e com uma pronúncia nada fácil tenha me feito sentir uma ignorante total desta língua estrangeira. Nada que o almoço no restaurante escolhido pelo meu orientador, na companhia de outra doutora em história não compensasse.

À tarde, já começava a “gincana”. Sim, porque tínhamos que nos dividir para tentar assistir as mesas de comunicação. Meio na obrigação, mas, sabendo que não haveria arrependimentos, fui ver meu orientador falar do que ele chamou de Eu, como o outro. Acabou. Corro para ir ver a apresentação de uma colega. Tudo tranquilo. Bem explicado. Começo a perceber que não eram necessárias minhas aflições. Eu estava pronta.

Final do dia. Consigo carona até o local onde vou ficar hospedada. Nada perto, por sinal, mas, a própria dona da residência vai me pegar na frente da Universidade, gentilezas que vão se prolongar durante toda a minha hospedagem. À noite panquecas, com direito a lareira e uma cama fofa. As duas crianças da casa me recebem de maneira gentil e afetiva.

Na manhã seguinte, outra carona e lá estou eu na frente da UDESC outra vez. Mais mesas de comunicação. Alguns temas bem curiosos e interessantes como o teatro de rua de Frederico Garcia Lorca “La Barraca”, os grupos de teatro negros e o teatro russo visto por um brasileiro, apresentado por Vera Collaço, doutora daquela universidade. Tinha mais coisas, mas, o que foi lido não memorizei. Apesar de achar o texto muito bem escrito e pensar que esta era uma boa opção de apresentação para quem fica nervoso. (Será?)

Noite na Lagoa da Conceição. Duas caipirinhas e muita batata-frita. Boas risadas. Gente. Muita praia e burburinho. Ainda não consigo voltar para casa sozinha. Também ninguém me explicou o que era TICEN, TITRI, TILAG, TISAN. Sou levada até um dos terminais e consigo outra carona dos meus hospedeiros até a casa. Banho e cama.

Manhã da apresentação. Minha colega acha que estou ansiosa, mas, o que acontece é que estou atrasada para a minha própria mesa, pois, os organizadores não haviam aparecido e saímos para tomar café. Felizmente, chego poucos minutos depois. Ninguém começou ainda. Estão apenas se organizando. Sou a terceira a falar. Ótimo. Aliás, falar não. Ler. Um texto coloquial. Quase uma conversa com slides. Apenas para não me perder já que o assunto é muito vasto e eu sigo apaixonada por ele. Parece que faz sentido já que quando termino todos começam a discuti-lo. Polêmica. Argumento algumas coisas, mas, me divirto com os comentários que vão surgindo. 15 pessoas na sala. A média daqueles que tiveram sorte de ter algum público. Almoço com gente bacana. Na tarde, um pouco de palestra e está na hora de fugir para ir ver as praias. A Jornada chegava ao fim algumas horas antes para mim.

Guiada pela minha colega que já morou na terrinha não há como se perder. Mas, depois de belíssimas paisagens e algumas fotos para registrar o momento, o sol se põe rápido e tento chegar a casa sozinha. Acabo pedindo ajuda pelo celular mesmo estando há poucas quadras do lugar. Sou resgatada de carro. Aliás, algo que parece imprescindível nas rodovias da cidade catarinense.

À noite, meu celular começa a dar sinal de vida. Minha irmã que está em Gramado me comunica: melhor roteiro Sergio Silva por Quase um tango. Melhor atriz: Viviane Pasmanter por Quase um tango. Eu em Santa Catarina e os Kikitos indo parar na mão do meu mestre amigo e da minha “irmã” na ficção.

Domingo. Dia de preguiça. A vizinhança prepara um churrasco para o qual acabo sendo convidada. Mais caipirinha. Boa conversa. Gente divertida e muito receptiva. Resolvo andar. Meu primeiro passeio por conta e risco. Muita distância em uma única rua. A paisagem? Incluo aqui a foto para terem uma idéia. Meu orientador também mora nesta rua. Não sabia disso quando consegui hospedagem na casa da filha de um amigo de meu pai. Assim como não tinha idéia de que me sentiria tão bem acolhida. Quem não acredita em sincronicidade? Na volta, na hora do jantar acabamos indo comer Tainha em um bairro próximo. Casas antigas. Sotaque português nas ruas.

Segunda-feira, dia da partida. Depois de dias esplendorosos de sol e céu azul, as nuvens aparecem. Vou para Floripa comprar a passagem. Caminho muito pela Beira Mar tirando fotos. Já despachei a mala por uma colega que voltou antes de carro. Compro uma mochila para guardar algumas coisas que ainda ficaram. Agora sim. Sou cidadã do mundo. Tênis, pouco peso, ruas gigantescas para andar muito e ver o mar. Cansada, de volta ao centro, vou ao mercado comer pastel de camarão e siri e mais caipirinha. A cada esquina uma surpresa. Uma casa portuguesa, uma catedral, um museu. Penso nas fotos lindas que minha irmã tiraria. A mim chama atenção, crianças mendigas na frente do prédio justamente da Secretaria da Fazenda ou do Museu da cidade em frente a uma lancheria multinacional. Contrastes.

Tento assistir a um espetáculo inscrito no Festival de Teatro que acontecia por lá. Não dá. Uma mistura de besteirol para criança com algo de mau gosto para os adultos. Melhor sair e tomar o rumo de casa. O céu já está escuro e a chuva já começou a cair. Desta vez, consigo chegar até o local onde está a minha cama (a qual até já arrumei, pois não dormirei lá esta noite), uma linda cadela preta e três gatos que convivem pacificamente. Algumas ligações depois e estou dentro de casa para tomar um ótimo banho quente e esperar os donos. Dia de pizza. Danças das crianças, ambos com muita energia e boas possibilidades de um futuro artístico. Mais uma carona até a rodoviária.

A viagem de volta já não foi tão tranquila. Fecho as cortinas da janela que parece que vai partir ao meio de tanto barulho. Um passageiro ronca no banco de traz e outro ronca no banco da frente. Chego em casa exausta. Aliás, ainda estou me recuperando de uma viagem em que tudo deu muito certo e todos foram muito agradáveis e simpáticos. Fazer o que? Ser feliz também consome energia.

Tuesday, August 11, 2009

Quase um tango é um dos seis selecionados entre mais de 80 filmes


Se não registrasse o que me aconteceu nestes últimos dias, este blog perderia um pouco a razão de sua existência. Afinal, como o próprio nome diz, ele foi criado para falar das coisas que me provocam quaisquer que sejam as emoções. Pois bem. Fiz minha inscrição como jornalista no Festival de Cinema de Gramado, como já faço há vários anos. Mas, quem acompanha a minha história sabe que eu sou uma freqüentadora deste evento mesmo antes de ser jornalista. Ainda estava na universidade quando comecei a ir para Gramado, uma cidade que freqüento desde pequena (meu avô veraneava lá) para assistir a uma semana de filmes, debates, tomando muito chocolate quente, vinhos e comendo aquelas delícias da serra. Era uma época em que ninguém conhecia Jorge Furtado, um carinha gaúcho que insistia em fazer cinema. Roberto Kovalick (agora no Japão) dava idéias de como poderíamos furar a festa de encerramento. Bem, mas, chega de falar do passado. Vamos ao 37º festival.

Embora inscrita, já começava a pensar que não seria possível estar presente. Com viagem marcada para Santa Catarina, onde vou apresentar meu trabalho na UDESC, achei que as agendas iam colidir e que seria impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas, recebi a notícia de que o filme no qual participei (já disse outras vezes que entro muda e saio calada), ia passar no dia da abertura, enquanto eu ainda estaria por aqui. Assim, comecei a me convencer de que iria a cidade nem que fosse para passar o dia rodopiando. Mas, como quem não quer nada, liguei para o hotel onde estive o ano passado e tinha vaga. Fiz a reserva. Pronto. O local para dormir estava garantido. Agora, faltava apenas o ingresso. Felizmente, isso também acabou não sendo problema. Tem muita gente nova por lá organizando, mas, eles ainda sabem quem ama cinema, o que ao meu ver deveria ser o real passaporte para o Palácio dos Festivais.

Tomei a maior chuva o dia todo. Caminhei mais do que devia já que trocaram a sede do Festival do prédio da UFRGS para a Expogramado, mas, nada que uma sopa de capeletti e um cálice de vinho não resolvesse. Hora de tapete vermelho. Quem vai indo justamente na minha frente? Sergio Silva. Meu mestre. Diretor deste filme e acho que posso dizer: meu amigo. Chego perto dele, toco no ombro e ele se vira e diz: Dona Mello!! Bem, daí para frente tive a companhia dele e dos seus amigos Luis Paulo Vasconcellos, Sandra Dani e Araci Esteves. Gente por quem tenho admiração como atores e que estou começando a conhecer como pessoas. Alegres, divertidas e profundamente simpáticas, pelo menos, comigo. Por isso, era uma satisfação ver um deles se virar e me dizer: “vamos beber alguma coisa?”, “vamos entrar no cinema?”. Todo o resto era lucro. E teve muitos. Pela primeira vez em um quarto de século subi ao palco. Fiquei ao lado de Viviane Pasmanter e todo aquele elenco. Se tivesse previsto este fato, diria que era sonho e daqueles bem mirabolantes (Espero que as fotos, que ainda vão chegar, comprovem o contrário).

Bem, mas, devem estar esperando que eu fale do filme... Eu já tinha visto em uma prévia na casa do Sergio. Um momento que também foi bem significativo para esta relés mortal. Mas, ali ele estava acabado, fechadinho e na tela grande do cinema. Que delícia! Como antes, já tinha gostado da história e como o Sergio diz todo o tempo não é um filme com uma história extraordinária. É sobre a vida. Sobre o que nos acontece. Nossas alegrias, tristezas, medos. Li alguns comentários de pessoas que acharam tudo isso muito sem graça. Não estou entre elas. Não porque esteja no filme (aliás, o desafio será me encontrar), nem porque admire o diretor e nem...Mas, porque acho que a vida é muito interessante mesmo sem terremotos, sem queda das Torres gêmeas, sem a descoberta da cura da AIDS e acho que o Sergio soube contar isso de uma forma que, para mim, é uma homenagem ao cinema. Quem foi aluna dele reconhece em muitas passagens suas paixões, suas admirações por outros grandes mestres desta arte. Estão lá. Colocados de um jeito bonito, gostoso de ver. Por causa disso, não é a história que faz deste filme algo especial, mas, o jeito que ela está sendo contada. Acho que vai cair no gosto do público. Quanto as críticas que li, até agora, só pude achar graça. Afinal, há quem diga que Marcos Palmeira está terrível e que é Viviane Pasmanter que salva o filme. Logo adiante, um outro, diz exatamente o contrário: é Marcos Palmeira que leva todos os outros de arrasto. Questionam as escolhas do Diretor, comparam com Anahy de las Missiones (que depois de premiado ninguém ousa dizer nada de ruim), destroem até as cenas que eu achei absolutamente lindas: os sonhos e os pesadelos do protagonista. Ou seja, espero que entre em cartaz para que mais gente possa dar os seus palpites. A arte é para isso: provocar.

PS: Dá para ler meu nome nos créditos, isso eu garanto!

Friday, August 07, 2009

Ingênua e crédula eu? Nem tanto.

Bem, resolvi entrar aqui rapidinho para fazer um comentário que ainda pode ser útil. Todos sabem que eu tenho um certo fascínio pelas possibilidades de comunicação via internet. Quando tudo isso começou, estava trabalhando em uma empresa de informática, dirigida por um cara que desde cedo assistia Discovery Chanel quando eu via o que hoje seria a Ana Maria Braga. O tesão dele por maquinetas e geringonças me contaminou. E é, justamente, para falar de contaminação que resolvi escrever.
Devido a este interesse e a este contato de muitos anos com todo este mundo on line, aos poucos, fui percebendo que tem muita falcatrua e balela que acaba circulando por aí. Caem na mão dos desavisados e bem intencionados e se multiplicam de forma muito mais vertiginosa do que o vírus da Gripe A. E é isso que está acontecendo agora. Como se já não bastasse todos os grandes escândalos da política e a situação real da doença, ainda sobra espaço para pessoas que eu não considero apenas brincalhonas e irresponsáveis, mas, cruéis e com falta de caráter, que decidem espalhar as notícias mais alarmantes e bizarras.
Recebi agora há pouco um email da minha irmã e comecei a ler. Era um cópia e cola de uma conversa de msn que mesmo que pareça um espaço de diálogos banais, quem usa sabe que a gente acaba falando até de coisas que não falaria cara a cara. Pois bem, estas pessoas têm uma conversa sobre o que está de "fato" acontecendo na saúde do país. Nem vou entrar em detalhes, pois estaria também dando eco a esta gente que não merece nenhuma atenção.
O que gostaria efetivamente de dizer é que aprendi, ao longo destes anos de rede mundial de computadores, é devemos tentar verificar sempre que pudermos as informações, antes de pegarmos todo o nosso catálogo de endereços e de repassar. E garanto: não será necessário que você seja um repórter investigativo, com acesso a fontes secretas e especiais. A própria internet lhe dará as respostas. Bem, mas, porque estas serão confiáveis? Bom, eu tento ver de onde elas vem. As entidades e os veículos de comunicação até cometem erros também, mas, pelo menos, elas tentam evitar. E estas mensagens adoram colocr nomes, profissões, endereços, telefones. Tudo que nos faça pensar o quão real e dignas de confiança elas são. Assim, houve época em que eu ainda me prestava a pegar um telefone daqueles e ligar. Depois, passei a tentar mandar email para o endereço eletrônico que constava lá, aparentemente, disponível para qualquer esclarecimento. Confesso que hoje só faço este tipo de conferência para ajudar meus amigos e parentes a não cairem nesta esparrela. Paro o que eu estou fazendo para tentar conter estas bobagens que não contribuem em nada para este veículo tão incrível e poderoso que é a internet. Resumindo: sugiro cautela.

Monday, August 03, 2009

De espírito nu e coração aberto


Fui assistir a uma palestra em um centro espírita. Lá pelas tantas, notei que o palestrante estava com a braguilha aberta. Em seguida, percebi que outras pessoas também já tinham reparado. Não conheço bem o lugar. Muito menos as pessoas que são responsáveis pelas atividades, mas, cheguei a pensar em avisar o que estava ao lado daquele que falava só por imaginar como ele se sentiria quando percebesse.

Terminada a exposição, uma das pessoas na sala foi até ele e cochichou no seu ouvido. Ele sorriu. Agradeceu e vi que por baixo da mesa ele fechava a calça. Fiquei só imaginando como ele deve ter ficado constrangido. É um cara que fala bem. Estava explicando uma das parábolas de Cristo, bem complicada até. Mas, saber que fazia isso com a calça aberta não deve ter lhe deixado muito feliz. Mas, enquanto pensava que devia avisá-lo, ao mesmo tempo, dizia para mim mesma: que bobagem, que diferença isso faz? Não estamos aqui falando de desprendimento corporal? J

Depois disso, mil coisas me surgiram na cabeça. Naturalmente, relacionadas ao meu momento. Afinal, hoje, entreguei meu texto para a qualificação no mestrado. A próxima etapa é ficar diante de uma banca e explicar o que afinal de contas eu estou pesquisando e querendo com a minha pesquisa. Quanto ao conteúdo, acho que está bastante bom. Muita coisa ainda por fazer. Mas, acredito que esteja interessante. O problema é que quando pensamos em expor (e falo aqui no plural, pois, vejo que com os outros colegas acontece a mesma coisa) parece bem mais complicado.

Porém, comecei a pensar que eu poderia ser cega e ter que fazer esta exposição. Poderia ter que usar cadeira de rodas para chegar à sala. Poderia ter uma cicatriz ou uma queimadura no rosto, por exemplo. Ou me faltar um dedo da mão... Poderia ser vesga. Poderia ser gaga. E, se inventassem que deveríamos estar nus para a apresentação? Maluquice? E se o Zé Celso fosse o coordenador do pós? Bem, acho que já deu para ter uma idéia de quantas coisas poderiam dificultar bem mais.

No entanto, não tenho nenhum destes problemas. Tudo que vou ter que me preocupar é em saber do que estou falando. Bem, e para me ajudar a ter mais confiança pode ser bom vestir uma roupa bonitinha e não muito chamativa para não tirar o foco (nada de vermelho, snif, snif). Ah, e limpar o nariz e fechar as calças pode causar uma boa impressão também!

Conclusão: Nada de drama. O momento é bom! Favorável! Tudo dará certo! Aliás, tendo em vista que não terei que enfrentar nenhuma das coisas que falei acima para me atrapalhar, já deu.