Wednesday, August 19, 2009

Da serra ao litoral


Voltei de Gramado na segunda para viajar para Florianópolis na quarta à noite onde apresentaria o meu trabalho na Jornada Latino Americana de Estudos teatrais. Outras duas colegas estavam no mesmo ônibus. Não tenho problemas para dormir em viagens noturnas. Assim, três horas depois estava em Sombrio onde só acordei devido ao aviso do motorista. Já amanhecia quando comecei e ver a ponte Hercílio Luz. Com o apoio das colegas e de uma em particular que já havia morado por lá chegamos a UDESC. Eu com uma mala que já começava a parecer inapropriada nas roletas e nas escadarias da Universidade.

A inscrição não foi cobrada e já fomos avisadas que muita gente havia desistido da participação por causa da Gripe A. Sem problemas. O que importava é que lá estava. Logo em seguida, revejo um dos professores doutores que veio a Porto Alegre fazer um Seminário. Daqueles que fazem a gente saber por que resolveu ir em busca do título de mestre.

A manhã passou rápida, embora a palestra de abertura em espanhol em tom monocórdio e com uma pronúncia nada fácil tenha me feito sentir uma ignorante total desta língua estrangeira. Nada que o almoço no restaurante escolhido pelo meu orientador, na companhia de outra doutora em história não compensasse.

À tarde, já começava a “gincana”. Sim, porque tínhamos que nos dividir para tentar assistir as mesas de comunicação. Meio na obrigação, mas, sabendo que não haveria arrependimentos, fui ver meu orientador falar do que ele chamou de Eu, como o outro. Acabou. Corro para ir ver a apresentação de uma colega. Tudo tranquilo. Bem explicado. Começo a perceber que não eram necessárias minhas aflições. Eu estava pronta.

Final do dia. Consigo carona até o local onde vou ficar hospedada. Nada perto, por sinal, mas, a própria dona da residência vai me pegar na frente da Universidade, gentilezas que vão se prolongar durante toda a minha hospedagem. À noite panquecas, com direito a lareira e uma cama fofa. As duas crianças da casa me recebem de maneira gentil e afetiva.

Na manhã seguinte, outra carona e lá estou eu na frente da UDESC outra vez. Mais mesas de comunicação. Alguns temas bem curiosos e interessantes como o teatro de rua de Frederico Garcia Lorca “La Barraca”, os grupos de teatro negros e o teatro russo visto por um brasileiro, apresentado por Vera Collaço, doutora daquela universidade. Tinha mais coisas, mas, o que foi lido não memorizei. Apesar de achar o texto muito bem escrito e pensar que esta era uma boa opção de apresentação para quem fica nervoso. (Será?)

Noite na Lagoa da Conceição. Duas caipirinhas e muita batata-frita. Boas risadas. Gente. Muita praia e burburinho. Ainda não consigo voltar para casa sozinha. Também ninguém me explicou o que era TICEN, TITRI, TILAG, TISAN. Sou levada até um dos terminais e consigo outra carona dos meus hospedeiros até a casa. Banho e cama.

Manhã da apresentação. Minha colega acha que estou ansiosa, mas, o que acontece é que estou atrasada para a minha própria mesa, pois, os organizadores não haviam aparecido e saímos para tomar café. Felizmente, chego poucos minutos depois. Ninguém começou ainda. Estão apenas se organizando. Sou a terceira a falar. Ótimo. Aliás, falar não. Ler. Um texto coloquial. Quase uma conversa com slides. Apenas para não me perder já que o assunto é muito vasto e eu sigo apaixonada por ele. Parece que faz sentido já que quando termino todos começam a discuti-lo. Polêmica. Argumento algumas coisas, mas, me divirto com os comentários que vão surgindo. 15 pessoas na sala. A média daqueles que tiveram sorte de ter algum público. Almoço com gente bacana. Na tarde, um pouco de palestra e está na hora de fugir para ir ver as praias. A Jornada chegava ao fim algumas horas antes para mim.

Guiada pela minha colega que já morou na terrinha não há como se perder. Mas, depois de belíssimas paisagens e algumas fotos para registrar o momento, o sol se põe rápido e tento chegar a casa sozinha. Acabo pedindo ajuda pelo celular mesmo estando há poucas quadras do lugar. Sou resgatada de carro. Aliás, algo que parece imprescindível nas rodovias da cidade catarinense.

À noite, meu celular começa a dar sinal de vida. Minha irmã que está em Gramado me comunica: melhor roteiro Sergio Silva por Quase um tango. Melhor atriz: Viviane Pasmanter por Quase um tango. Eu em Santa Catarina e os Kikitos indo parar na mão do meu mestre amigo e da minha “irmã” na ficção.

Domingo. Dia de preguiça. A vizinhança prepara um churrasco para o qual acabo sendo convidada. Mais caipirinha. Boa conversa. Gente divertida e muito receptiva. Resolvo andar. Meu primeiro passeio por conta e risco. Muita distância em uma única rua. A paisagem? Incluo aqui a foto para terem uma idéia. Meu orientador também mora nesta rua. Não sabia disso quando consegui hospedagem na casa da filha de um amigo de meu pai. Assim como não tinha idéia de que me sentiria tão bem acolhida. Quem não acredita em sincronicidade? Na volta, na hora do jantar acabamos indo comer Tainha em um bairro próximo. Casas antigas. Sotaque português nas ruas.

Segunda-feira, dia da partida. Depois de dias esplendorosos de sol e céu azul, as nuvens aparecem. Vou para Floripa comprar a passagem. Caminho muito pela Beira Mar tirando fotos. Já despachei a mala por uma colega que voltou antes de carro. Compro uma mochila para guardar algumas coisas que ainda ficaram. Agora sim. Sou cidadã do mundo. Tênis, pouco peso, ruas gigantescas para andar muito e ver o mar. Cansada, de volta ao centro, vou ao mercado comer pastel de camarão e siri e mais caipirinha. A cada esquina uma surpresa. Uma casa portuguesa, uma catedral, um museu. Penso nas fotos lindas que minha irmã tiraria. A mim chama atenção, crianças mendigas na frente do prédio justamente da Secretaria da Fazenda ou do Museu da cidade em frente a uma lancheria multinacional. Contrastes.

Tento assistir a um espetáculo inscrito no Festival de Teatro que acontecia por lá. Não dá. Uma mistura de besteirol para criança com algo de mau gosto para os adultos. Melhor sair e tomar o rumo de casa. O céu já está escuro e a chuva já começou a cair. Desta vez, consigo chegar até o local onde está a minha cama (a qual até já arrumei, pois não dormirei lá esta noite), uma linda cadela preta e três gatos que convivem pacificamente. Algumas ligações depois e estou dentro de casa para tomar um ótimo banho quente e esperar os donos. Dia de pizza. Danças das crianças, ambos com muita energia e boas possibilidades de um futuro artístico. Mais uma carona até a rodoviária.

A viagem de volta já não foi tão tranquila. Fecho as cortinas da janela que parece que vai partir ao meio de tanto barulho. Um passageiro ronca no banco de traz e outro ronca no banco da frente. Chego em casa exausta. Aliás, ainda estou me recuperando de uma viagem em que tudo deu muito certo e todos foram muito agradáveis e simpáticos. Fazer o que? Ser feliz também consome energia.

Tuesday, August 11, 2009

Quase um tango é um dos seis selecionados entre mais de 80 filmes


Se não registrasse o que me aconteceu nestes últimos dias, este blog perderia um pouco a razão de sua existência. Afinal, como o próprio nome diz, ele foi criado para falar das coisas que me provocam quaisquer que sejam as emoções. Pois bem. Fiz minha inscrição como jornalista no Festival de Cinema de Gramado, como já faço há vários anos. Mas, quem acompanha a minha história sabe que eu sou uma freqüentadora deste evento mesmo antes de ser jornalista. Ainda estava na universidade quando comecei a ir para Gramado, uma cidade que freqüento desde pequena (meu avô veraneava lá) para assistir a uma semana de filmes, debates, tomando muito chocolate quente, vinhos e comendo aquelas delícias da serra. Era uma época em que ninguém conhecia Jorge Furtado, um carinha gaúcho que insistia em fazer cinema. Roberto Kovalick (agora no Japão) dava idéias de como poderíamos furar a festa de encerramento. Bem, mas, chega de falar do passado. Vamos ao 37º festival.

Embora inscrita, já começava a pensar que não seria possível estar presente. Com viagem marcada para Santa Catarina, onde vou apresentar meu trabalho na UDESC, achei que as agendas iam colidir e que seria impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas, recebi a notícia de que o filme no qual participei (já disse outras vezes que entro muda e saio calada), ia passar no dia da abertura, enquanto eu ainda estaria por aqui. Assim, comecei a me convencer de que iria a cidade nem que fosse para passar o dia rodopiando. Mas, como quem não quer nada, liguei para o hotel onde estive o ano passado e tinha vaga. Fiz a reserva. Pronto. O local para dormir estava garantido. Agora, faltava apenas o ingresso. Felizmente, isso também acabou não sendo problema. Tem muita gente nova por lá organizando, mas, eles ainda sabem quem ama cinema, o que ao meu ver deveria ser o real passaporte para o Palácio dos Festivais.

Tomei a maior chuva o dia todo. Caminhei mais do que devia já que trocaram a sede do Festival do prédio da UFRGS para a Expogramado, mas, nada que uma sopa de capeletti e um cálice de vinho não resolvesse. Hora de tapete vermelho. Quem vai indo justamente na minha frente? Sergio Silva. Meu mestre. Diretor deste filme e acho que posso dizer: meu amigo. Chego perto dele, toco no ombro e ele se vira e diz: Dona Mello!! Bem, daí para frente tive a companhia dele e dos seus amigos Luis Paulo Vasconcellos, Sandra Dani e Araci Esteves. Gente por quem tenho admiração como atores e que estou começando a conhecer como pessoas. Alegres, divertidas e profundamente simpáticas, pelo menos, comigo. Por isso, era uma satisfação ver um deles se virar e me dizer: “vamos beber alguma coisa?”, “vamos entrar no cinema?”. Todo o resto era lucro. E teve muitos. Pela primeira vez em um quarto de século subi ao palco. Fiquei ao lado de Viviane Pasmanter e todo aquele elenco. Se tivesse previsto este fato, diria que era sonho e daqueles bem mirabolantes (Espero que as fotos, que ainda vão chegar, comprovem o contrário).

Bem, mas, devem estar esperando que eu fale do filme... Eu já tinha visto em uma prévia na casa do Sergio. Um momento que também foi bem significativo para esta relés mortal. Mas, ali ele estava acabado, fechadinho e na tela grande do cinema. Que delícia! Como antes, já tinha gostado da história e como o Sergio diz todo o tempo não é um filme com uma história extraordinária. É sobre a vida. Sobre o que nos acontece. Nossas alegrias, tristezas, medos. Li alguns comentários de pessoas que acharam tudo isso muito sem graça. Não estou entre elas. Não porque esteja no filme (aliás, o desafio será me encontrar), nem porque admire o diretor e nem...Mas, porque acho que a vida é muito interessante mesmo sem terremotos, sem queda das Torres gêmeas, sem a descoberta da cura da AIDS e acho que o Sergio soube contar isso de uma forma que, para mim, é uma homenagem ao cinema. Quem foi aluna dele reconhece em muitas passagens suas paixões, suas admirações por outros grandes mestres desta arte. Estão lá. Colocados de um jeito bonito, gostoso de ver. Por causa disso, não é a história que faz deste filme algo especial, mas, o jeito que ela está sendo contada. Acho que vai cair no gosto do público. Quanto as críticas que li, até agora, só pude achar graça. Afinal, há quem diga que Marcos Palmeira está terrível e que é Viviane Pasmanter que salva o filme. Logo adiante, um outro, diz exatamente o contrário: é Marcos Palmeira que leva todos os outros de arrasto. Questionam as escolhas do Diretor, comparam com Anahy de las Missiones (que depois de premiado ninguém ousa dizer nada de ruim), destroem até as cenas que eu achei absolutamente lindas: os sonhos e os pesadelos do protagonista. Ou seja, espero que entre em cartaz para que mais gente possa dar os seus palpites. A arte é para isso: provocar.

PS: Dá para ler meu nome nos créditos, isso eu garanto!

Friday, August 07, 2009

Ingênua e crédula eu? Nem tanto.

Bem, resolvi entrar aqui rapidinho para fazer um comentário que ainda pode ser útil. Todos sabem que eu tenho um certo fascínio pelas possibilidades de comunicação via internet. Quando tudo isso começou, estava trabalhando em uma empresa de informática, dirigida por um cara que desde cedo assistia Discovery Chanel quando eu via o que hoje seria a Ana Maria Braga. O tesão dele por maquinetas e geringonças me contaminou. E é, justamente, para falar de contaminação que resolvi escrever.
Devido a este interesse e a este contato de muitos anos com todo este mundo on line, aos poucos, fui percebendo que tem muita falcatrua e balela que acaba circulando por aí. Caem na mão dos desavisados e bem intencionados e se multiplicam de forma muito mais vertiginosa do que o vírus da Gripe A. E é isso que está acontecendo agora. Como se já não bastasse todos os grandes escândalos da política e a situação real da doença, ainda sobra espaço para pessoas que eu não considero apenas brincalhonas e irresponsáveis, mas, cruéis e com falta de caráter, que decidem espalhar as notícias mais alarmantes e bizarras.
Recebi agora há pouco um email da minha irmã e comecei a ler. Era um cópia e cola de uma conversa de msn que mesmo que pareça um espaço de diálogos banais, quem usa sabe que a gente acaba falando até de coisas que não falaria cara a cara. Pois bem, estas pessoas têm uma conversa sobre o que está de "fato" acontecendo na saúde do país. Nem vou entrar em detalhes, pois estaria também dando eco a esta gente que não merece nenhuma atenção.
O que gostaria efetivamente de dizer é que aprendi, ao longo destes anos de rede mundial de computadores, é devemos tentar verificar sempre que pudermos as informações, antes de pegarmos todo o nosso catálogo de endereços e de repassar. E garanto: não será necessário que você seja um repórter investigativo, com acesso a fontes secretas e especiais. A própria internet lhe dará as respostas. Bem, mas, porque estas serão confiáveis? Bom, eu tento ver de onde elas vem. As entidades e os veículos de comunicação até cometem erros também, mas, pelo menos, elas tentam evitar. E estas mensagens adoram colocr nomes, profissões, endereços, telefones. Tudo que nos faça pensar o quão real e dignas de confiança elas são. Assim, houve época em que eu ainda me prestava a pegar um telefone daqueles e ligar. Depois, passei a tentar mandar email para o endereço eletrônico que constava lá, aparentemente, disponível para qualquer esclarecimento. Confesso que hoje só faço este tipo de conferência para ajudar meus amigos e parentes a não cairem nesta esparrela. Paro o que eu estou fazendo para tentar conter estas bobagens que não contribuem em nada para este veículo tão incrível e poderoso que é a internet. Resumindo: sugiro cautela.

Monday, August 03, 2009

De espírito nu e coração aberto


Fui assistir a uma palestra em um centro espírita. Lá pelas tantas, notei que o palestrante estava com a braguilha aberta. Em seguida, percebi que outras pessoas também já tinham reparado. Não conheço bem o lugar. Muito menos as pessoas que são responsáveis pelas atividades, mas, cheguei a pensar em avisar o que estava ao lado daquele que falava só por imaginar como ele se sentiria quando percebesse.

Terminada a exposição, uma das pessoas na sala foi até ele e cochichou no seu ouvido. Ele sorriu. Agradeceu e vi que por baixo da mesa ele fechava a calça. Fiquei só imaginando como ele deve ter ficado constrangido. É um cara que fala bem. Estava explicando uma das parábolas de Cristo, bem complicada até. Mas, saber que fazia isso com a calça aberta não deve ter lhe deixado muito feliz. Mas, enquanto pensava que devia avisá-lo, ao mesmo tempo, dizia para mim mesma: que bobagem, que diferença isso faz? Não estamos aqui falando de desprendimento corporal? J

Depois disso, mil coisas me surgiram na cabeça. Naturalmente, relacionadas ao meu momento. Afinal, hoje, entreguei meu texto para a qualificação no mestrado. A próxima etapa é ficar diante de uma banca e explicar o que afinal de contas eu estou pesquisando e querendo com a minha pesquisa. Quanto ao conteúdo, acho que está bastante bom. Muita coisa ainda por fazer. Mas, acredito que esteja interessante. O problema é que quando pensamos em expor (e falo aqui no plural, pois, vejo que com os outros colegas acontece a mesma coisa) parece bem mais complicado.

Porém, comecei a pensar que eu poderia ser cega e ter que fazer esta exposição. Poderia ter que usar cadeira de rodas para chegar à sala. Poderia ter uma cicatriz ou uma queimadura no rosto, por exemplo. Ou me faltar um dedo da mão... Poderia ser vesga. Poderia ser gaga. E, se inventassem que deveríamos estar nus para a apresentação? Maluquice? E se o Zé Celso fosse o coordenador do pós? Bem, acho que já deu para ter uma idéia de quantas coisas poderiam dificultar bem mais.

No entanto, não tenho nenhum destes problemas. Tudo que vou ter que me preocupar é em saber do que estou falando. Bem, e para me ajudar a ter mais confiança pode ser bom vestir uma roupa bonitinha e não muito chamativa para não tirar o foco (nada de vermelho, snif, snif). Ah, e limpar o nariz e fechar as calças pode causar uma boa impressão também!

Conclusão: Nada de drama. O momento é bom! Favorável! Tudo dará certo! Aliás, tendo em vista que não terei que enfrentar nenhuma das coisas que falei acima para me atrapalhar, já deu.

Wednesday, July 29, 2009

ABOBRINHAS RECHEADAS: uma receita que dá samba...tango...pagode...rock


Você sabe o que é dança? Será? Se você não assistiu Abobrinhas recheadas, acho que você pensa que sabe... e não é uma questão de arrogância de minha parte, mas, de estranhamento.

Fui ontem ver este espetáculo. Minha colega de mestrado Daniela Aquino me convidou. Aliás, percebo que, ultimamente, não vou a mais a nada por iniciativa própria. Mas, embora isso possa parecer ruim, significa que tenho amigos que estão por aí, fazendo arte, expondo seus trabalhos e que me querem na platéia. Bom, mas, não fui com uma idéia pré-concebida. Não sabia o que iria ver. De cara, já gostei de sentar em pequenos pufs que formavam um quadrado, deixando o centro vazio. Estava disposta a ficar mais próxima do que estava para acontecer (nem sempre é assim).

Não vou saber como começou, nem tudo que vi. Minha memória não me ajuda e não fui preparada para fazer anotações. Então, vou comentar minhas impressões e para isso vou dizer que, enquanto, o elenco se apresentava, voltei no tempo e lembrei-me de um curso de dança que fiz com uma professora que tinha um método bastante diferente para a época. Falo dos anos 80. A idéia dela era que a dança podia partir de movimentos simples do corpo e que, deviam, antes de mais nada, não ser impostos por ela. A motivação de seus alunos devia ser as músicas, os ritmos, os sons. Buscando pensar menos no que fazer. Deixar-se levar pelo instinto, pela emoção. Lembrei ainda do quanto me surpreendia com a beleza dos movimentos que acabávamos criando, do quanto eram coreográficos, mesmo que não tivessem surgido com esta intenção.

É claro que não me lembrei disso tudo à-toa. O que acontecia na minha frente tinha um caráter de improvisação e ao mesmo tempo organizado e ensaiado, quase orquestrado pelo diretor que sugere movimentos ao microfone. Uma mão em movimento ganhava vida própria. Partituras repetidas em diversos ritmos, em situações as mais variadas. Eram apenas 4 pessoas: Daniela Aquino, Fabi Vanoni, Nilton Gaffre, Roberta Savian. O fato de eles estarem juntos, mas, também separados, ora sós, ora em dois, depois três, depois quatro... me deixaram a impressão de ter assistido a um corpo de baile. Mas, não pensem que existe alguma relação com um ballet clássico. Esqueçam. O projeto coreográfico de Alessandra Chemello e Diego Mac foge disso e o faz de uma maneira surpreendente, irreverente e competente (mais uma vez me aproveito de não ser crítica e usar todos os adjetivos que tenho vontade e até rimando). Isso não quer dizer que a gente até não possa se lembrar de algo assim quando Nilton e Roberta dançam juntos uma melodia romântica, mas, luvas de Box vermelhas nas mãos femininas lembram que “qualquer semelhança é mera coincidência”.

Todos os intérpretes (ah, era essa a palavra que eu procurava) nos dão aulas do que o nosso corpo é capaz. Mas, Nilton Gaffree me deixou de boca aberta, pronta para engolir uma abobrinha inteira! Sozinho, lá no meio, nos lados, na ponta, ele muda de forma vertiginosa de um ritmo a outro e deixa bem claro que música não é tudo igual e dança muito menos! Mudando de estilo incessantemente vasculha e caça sons e imagens em nossa memória.

Não bastasse tudo que eles nos dizem com seus corpos, o figurino é feito de camisetas variadas, coloridas e que trazem mensagens curiosas, inteligentes, engraçadas, reflexivas. E deixo para o final, mas, para mim, o ponto alto do espetáculo para falar sobre a trilha sonora. Ainda bem que a intenção destes dois jovens responsáveis por este espetáculo era nos divertir, pois, não dá para ficar impassível diante da seleção musical que eles fizeram. Abusaram dos clichês, misturaram a “baixa” e a “alta” cultura (será que ainda existe esta fronteira?). Apelaram para nossas reminiscências musicais, mas, rompendo com qualquer expectativa.

Outra parte do espetáculo que ficou registrada é a dança (?) elaborada ao som de Deus lhe pague de Chico Buarque. Um momento muito forte para mim do espetáculo. A letra desta música sempre me provocou um sentimento de desconforto. Uma bruta realidade me atinge e aquelas 4 pessoas mais uma vez, de formas diferentes, mas, sintonizadas, mexem com minhas emoções e aparecem na contramão do tom do espetáculo que até em tão havia me feito rir, se não de forma audível, por dentro. Aliás, fiquei aliviada ao ver agora, o folheto de apresentação e ler: “Cabe lembrar que não temos o objetivo de sermos engraçados. O ‘humor na dança’ não foi nosso objetivo de investigação. No entanto, como em tudo, não podemos negar as diversões que apareçam durante os percursos. Assim, esperamos que vocês também não neguem, caso o riso, em algum momento apareça.” Ufa! Tinha autorização do diretor para dar aquelas gargalhadas que surgiram espontâneas, assim como a dança de todos eles parecia vir da alma.

E no mais...blá, blá,blá.

PS: Esqueçam a Luana Piovani. Daniela Aquino é mais bonita e exuberante e está mais perto de nós gaúchos. Tivesse ela mais holofotes e ameaçaria Marilyn Monroe.

deus lhe pague

chico buarque

Composição: Chico Buarque

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

Tuesday, July 21, 2009

O que sobra de mim foi ver O sobrado

Foto de Mira Gonçalves

Depois de cruzar algumas vezes com Rodrigo Fiatt nos corredores do DAD e receber dele vários convites para ir ver O Sobrado, uma mensagem no Orkut dizendo que ele ficaria feliz de me ver na platéia me fez, finalmente, ir até o Memorial. Não que eu não quisesse ver o espetáculo. Queria sim. Não só este, como vários outros. Mas, confesso que não tenho tido disposição para quase nada enquanto finalizo meu texto para a qualificação do mestrado. Estou na fase da revisão e, obviamente, com sentimentos antagônicos: por um lado, satisfeita com minha própria produção. De outro, me perguntando: mas, é isso que tenho feito desde março de 2008? Bem, mas, não é hora para inseguranças. Se eu não acreditar na importância da minha pesquisa, quem acreditará? Espero que, ao menos, Clovis Massa e Antônio Hohlfeldt, os dois convidados para compor a minha banca neste momento.

Bom, mas, deixando estas questões momentaneamente de lado, quero falar sobre o espetáculo, adaptação da obra de Erico Veríssimo. Mas, não sem antes dizer que quem ficou profundamente feliz de estar naquela platéia fui eu e, justamente, devido ao trabalho de Rodrigo Fiatt, como Licurgo, o chefe político e intendente da Cidade de Santa Fé. Este ator participou comigo das filmagens de Quase um tango, filme de Sergio Silva, selecionado para o Festival de Gramado. Mais do que isso, fez o papel de meu irmão. Eu não o conhecia até então. E mesmo que nós tenhamos entrado mudos e saído calados (tenho quase certeza que sua única fala foi cortada), percebi em Rodrigo uma autenticidade que só reconheço nos atores talentosos e, felizmente, lembro de ter dito isso a ele. Sim porque, se o destino não atrapalhar, Rodrigo vai longe atuando e espero que não esqueça da sua “irmã” e continue me querendo na platéia. Eu que fiz parte de sua família, quase não o reconheci. Rodrigo muda a fisionomia, a postura corporal, o tom de voz. Não sei como Erico Veríssimo imaginou Licurgo, mas, acho que ficaria feliz (parece que esta é a palavra do dia) em ver este ator em cena.

Mas, sejamos justos. Um único ator não faz um espetáculo. E em O Sobrado são muitos, 14 para dizer a verdade. É um elenco muito forte e competente. (Desculpem aqueles que não gostam deste tipo de adjetivos. Eu estudo a crítica. Nunca disse que era uma). E estes ainda fazem vários papéis. Estou aqui catando o nome dos atores que faziam os meninos, filhos do Licurgo, que eram também soldados, que tocavam também instrumentos e, talvez, ainda mais alguma coisa que eu não tenha reparado. Ah, vi no folder que eles também são responsáveis pela pesquisa histórica. Pronto! Achei: Toríbio e Rodrigo, ou seja, Philipe Philippsen e Felipe Rossato. (Seu Google acaba de me ajudar nesta tarefa!). Na minha opinião, estes dois também merecem destaque, pois, quem pensa que fazer papel de criança é algo fácil, se engana profundamente. E eles convencem e trazem uma leveza para um momento tão denso da história e, ao mesmo tempo, a reflexão sobre o que era crescer em tempos como aquele.

Bom, mas, aqui já começo a compreender a questão de falta de espaço que os críticos sentiam para o que queriam dizer sobre os espetáculos. Ainda não comentei quase nada e já escrevi uma página inteirinha. E mesmo que o “meu patrão” não se preocupe com isso, ninguém lê algo muito longo na internet. Então, a partir de agora, vou tentar condensar informações, mas, sem deixar de elogiar rasgadamente (nestas hora é ótimo não estar sendo paga para escrever sobre o espetáculo) as soluções cênicas trazidas pela Inês Marocco para nos remeter ao ambiente e aos momentos das ações. Ficaram na memória, as “representações” do vento e dos cavalos. São fortes, lindas, poéticas... Preciso falar também do figurino da minha colega Rô Cortinhas que, neste momento passa pelo mesmo processo que eu no mestrado, e ainda consegue produzir este trabalho digno de nota. Bem, e agora me perdoem todos os outros que não vou citar, mas, como disse, um espetáculo deste nível é resultado de um trabalho conjunto, um trabalho que só o teatro sabe produzir e que só bons atores sabem realizar. Assim, o que posso fazer é agradecer ao Grupo Cerco por me fazer sair deste momento estressante do mestrado e viver por 1h40 o drama da família Terra Cambará.

ELENCO
Anildo Michelotto – Florêncio, Inocêncio, Capitão Rodrigo, Peão
Celso Zanini – Liroca, Antero, Coronel Alvino Amaral
Elisa Heidrich – Santo, Tinoco, Menina, Peão, Coro de Mulheres
Filipe Rossato – Rodrigo, Peão
Isandria Fermiano – Maria Valéria
Kalisy Cabeda – Santo, Sombra de Pedro Malasarte, Menina, Peão, Coro de Mulheres
Luís Franke – Fandango, Pedro Terra
Manoela Wunderlich – Luzia, Peão, Coro de Mulheres
Marina Kerber – Santo, Sombra do Homem à Cavalo, Peão, Corpo de Mulheres
Martina Fröhlich – Alice, Santo, Coro de Mulheres
Mirah Laline – Laurinda, Santo, Menina, Coro de Mulheres
Philipe Philippsen – Toríbio, Bolívar, Peão
Rita Maurício – Bibiana, Santo
Rodrigo Fiatt – Licurgo
*
Promoção: Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS
Direção: Inês Alcaraz Marocco
Adaptação e criação: O grupo
Cenografia: Élcio Rossini
Figurinos: Rô Cortinhas
Assistentes de Figurino: Amanda Rocha, André Dullius, Carolina C. Puccini e Geluza Tagliaro
Desenho de luz e operação: Cláudia de Bem
Assistência de Direção: Isandria Fermiano, Kalisy Cabeda e Rodrigo Fiatt
Dramaturgia: Celso Zanini, Elisa Heidrich, Isandria Fermiano, Marina Kerber, Mirah Laline e Rodrigo Fiatt
Trilha Sonora: Celso Zanini, Luís Franke, Martina Fröhlich e Philipe Philippsen
Pesquisa Histórica: Filipe Rossato e Philipe Philippsen
Produção: Inês Alcaraz Marocco, Manoela Wunderlich, Martina Fröhlich e Patrícia Gatteli
Contra Regragem: Beliza Gonzales e Adriana Sommacal
ilheteria: Patrícia Gatteli

Tuesday, July 14, 2009

A Revolução Francesa de 1789


- A queda do Antigo Regime –

VOLTAIRE SCHILLING

Considera-se a Revolução Francesa de 1789 o acontecimento político e social mais espetacular e significativo da história contemporânea. Foi o maior levante de massas até então conhecido que fez por encerrar a sociedade feudal, abrindo caminho para a modernidade.

O alvorecer de uma nova era



Assinala a Revolução de 1789 a inauguração de uma nova era, um período em que não se aceitaria mais a dominação da nobreza, nem um sistema de privilégios baseado nos critérios de casta, determinados pelo nascimento. Só se admite, desde então, um governo que, legitimado constitucionalmente, é submetido ao controle do povo por meio de eleições periódicas. O lema da revolução, "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité) universalizou-se, tornando-se no transcorrer do século seguinte uma bandeira da humanidade inteira.

Influência do Iluminismo

Ela foi conseqüência direta das idéias das luzes, difundidas pelos intelectuais e pensadores dos séculos XVII e XVIII, tais como John Locke, Montesquieu, Voltaire, Diderot, D'Holbach, D'Alembert, J.J. Rousseau, Condorcet e o filósofo Emanuel Kant, que, em geral, asseguravam ser o homem vocacionado ao progresso e ao auto-aperfeiçoamento ético. Para eles a ordem social não é divina, e sim construída pelos próprios homens, portanto sujeita a modificações, e a alterações substanciais. Era possível, portanto, segundo a maioria dos iluministas, por meio de um conjunto de reformas sociopolíticas, melhorar a situação jurídica e material de todos. O poder político, além de emanar do povo e em seu nome exercido, deveria, seguindo-se a sugestão de Locke e reafirmada por Montesquieu, ser submetido



a uma divisão harmônica, para evitar a tentação do despotismo. Cada um desses poderes - o executivo, o legislativo e o judiciário - é autônomo e respeitador da independência dos demais. As prerrogativas individuais, em grande parte extraídas dos direitos naturais, não só devem ser respeitadas pelos governantes como garantidas por eles.

O programa da revolução

A Revolução de 1789 é o princípio da era moderna. Nela tudo teve seu início ou sua consagração: a separação do Estado da Igreja, a proclamação do Estado secular, a participação popular pelo voto, a instrução pública, estatal e gratuita, o serviço militar generalizado, os direitos da cidadania, o sistema de pesos e medidas decimal, a igualdade dos filhos perante a herança e

a igualdade de todos perante a lei, o divórcio, a abolição das torturas e dos castigos físicos, acompanhado do abrandamento das leis penais, os primórdios da emancipação feminina levada a diante por Théroigine de Méricourt, a extensão da cidadania aos judeus, a condenação da escravidão e a imorredoura idéia de que devemos viver em liberdade, igualdade e fraternidade.

A convocação dos Estados Gerais

Os reis da França não convocavam os Estados Gerais - organização integrada por representantes do clero, da nobreza e do povo - desde 1614. Centralizadores, convictos do absolutismo, os reis franceses desprezavam qualquer instituição que lhes criasse obstáculos ao uso irrestrito do poder. Naquele início de 1789, no entanto, Luís XVI resolveu chamar aquela antiga assembléia, cujas origens vinham dos tempos medievais, na tentativa de resolver a grave crise financeira que se alastrava pela França, ameaçando-a com o caos.

Em 24 de janeiro de 1789, o rei baixou um decreto instituindo as votações para a sua composição, tendo sua primeira reunião marcada para cinco de maio daquele ano, a ser realizada em Versalhes. O local não foi escolhido ao acaso: o Palácio de Versalhes, a morada do rei e sede do governo, era um templo de esplendor erguido por Luís XIV, o rei Sol, para celebrar a magnificência do absolutismo. Luís XVI pretendia de certa forma impressionar os deputados com a suntuosidade das instalações e também não interromper as suas caçadas pelos bosques vizinhos, enquanto os parlamentares tentariam tirar o reino do fundo do poço.

Sunday, July 12, 2009

É preciso saber viver...

Se você tiver sorte, como eu, um dia você vai estar perto de fazer 50 anos e vai ter deixado para trás muitas angústias e inseguranças e seus velhos amigos vão lhe dizer que você está mais bonita e interessante e os novos, que você não parece ter a idade que tem. Você vai ter vivido muitas paixões, mas vai ter perdido algumas pessoas que amava, que vão lhe fazer falta e provocar muita saudade. Mas, você vai se dar conta de que é bom ter coisas estáveis na sua vida, mesmo que você saiba que elas podem sumir da noite para o dia, como as vitórias do Airton Senna aos Domingos. É aí que você vai perceber a importância de Roberto Carlos fazer 50 anos de carreira. Sim, porque você já viu a moeda brasileira mudar algumas vezes, viu a esquerda assumir o poder e mudar seu discurso e se comportar como você jamais imaginou, mas, ele, o Rei, segue cantando: “Quando eu estou aqui...” e mesmo que nos seus anos mais rebeldes aquelas músicas tenham parecido bregas, piegas ou qualquer outro adjetivo pejorativo que você possa encontrar, você vai se emocionar ao ver Roberto e Erasmo no palco fazendo o reconhecimento de que já se passaram muitos anos. Eles vão chorar no palco e você vai ficar com os olhos cheios d’água. Vai lembrar das aulas de violão e que uma das primeiras músicas que aprendeu foi “Eu tenho tanto para lhe falar...” e sempre haverá alguém que você lembrará quando Roberto começar a cantar: “não adianta nem tentar me esquecer...”

Vai se dar conta que ele sabia descrever uma noite de paixão quando cantava “travesseiros soltos, roupas pelo chão. Vai lembrar das bobagens que diziam de suas músicas, do melô (não sei por que chamam assim) do pão duro: “amanhã, de manhã, vou pedir um café prá nós dois...” Achar que ele perdeu uma oportunidade de fazer um vínculo ainda maior com aquele público que já o venera quando cantar “chovia lá fora”, afinal, despencava água na hora do show. E seu lado profissional vai questionar a apresentadora Patrícia Poeta também fingir que nada está acontecendo, pensando que Zeca Camargo na mesma hora falaria sobre isso e vai rir quando a apresentadora voltar do comercial tocando exatamente neste assunto. Observará que as cadeiras foram minuciosamente arrumadas para serem vistas de cima. E que chegar de calhambeque exigiu uma grande produção. Que existe uma super orquestra ajudando aquela voz que, certamente, não é de um Caubi Peixoto, já diria meu pai. E se você tiver perto de um metro e meio vai achar que ele está falando de você quando ele cantar mulher pequena e, principalmente, naquela parte em que ele fala que você é “mulher gostosa com jeito de menina...”E vai ser incrível quando a Wanderléa chegar no palco mais linda do que nunca com suas famosas coxas de fora e aquelas botas maravilhosamente longas. Vai lembrar que ela tocava pandeiro e querer que ela cante: “Seu juiz! Pare agora....!" Vai achar estranho, mas, divertido, aqueles três ficarem insistindo que são terríveis! Talvez fossem...Mas, em um tempo de guitarras, sonhos e emoções e é tudo isso que ele vai lembrar você e você vai ficar feliz por ele ainda estar lá, mesmo que você se dê conta de que ele não é bonito como você achava que deveria ser um rei. Não importa. Vai entender que ele é carismático e que se manteve íntegro e honesto e que mesmo sendo um rei e tendo lá suas idiossincrasias, tudo que fez foi cantar e é lindo saber que ele fez parte da sua vida, mesmo quando você se recusava a ouvi-lo....Por isso é que eu agora digo: byyye...byyye...

Monday, July 06, 2009

Identidade

Quando fui assistir A Comédia de Erros da Adriane Mottola, um dos pontos altos do espetáculo foi Lauro Ramalho dando o texto de abertura. Agora, encontro no Orkut dele as palavras de Win Wenders. E vem a minha mente o jeito de dizer do Lauro. Especial, sem dúvida. De qualquer forma, publico aqui para que mais gente possa ter acesso.

Pretensiosa...

Texto de Win Wenders

VOCÊ MORA ONDE MORA,
FAZ O SEU TRABALHO,
VOCÊ FALA O QUE FALA,
COME O QUE VOCÊ COME,
VESTE AS ROUPAS QUE VESTE,
OLHA PARA AS IMAGENS QUE VÊ...
VOCÊ VIVE COMO PODE VIVER,
VOCÊ É QUEM VOCÊ É.
IDENTIDADE DE UMA PESSOA,
DE UMA COISA, DE UM LUGAR
IDENTIDADE, SÒ A PALAVRA JÁ ME DÁ CALAFRIOS.
ELA LEMBRA CALMA, CONFORTO, SATISFAÇÃO.
MAS O QUE É A IDENTIDADE?
CONHECER O SEU LUGAR?
CONHECER O SEU VALOR?
SABER QUEM VOCÊ É?
COMO RECONHECER A IDENTIDADE?
CRIAMOS UMA IMAGEM DE NÓS MESMOS
E ESTAMOS TENTANDO NOS PARECER COM ESSA IMAGEM...
É ISSO QUE CHAMAMOS IDENTIDADE?
A RECONCILIAÇÃO ENTRE A IMAGEM QUE CRIAMOS
DE NÓS MESMOS E...NÓS MESMOS?
MAS QUEM SERIA ESSE NÓS MESMOS?
NÓS MORAMOS NAS CIDADES,
AS CIDADES MORAM EM NÓS
O TEMPO PASSA...
MUDAMOS DE UMA CIDADE PARA OUTRA,
DE UM PAÍS PARA OUTRO.
TROCAMOS DE IDIOMA, TROCAMOS DE HÁBITO,
TROCAMOS DE OPINIÃO, TROCAMOS DE ROUPA,
TROCAMOS TUDO, TUDO MUDA E RÁPIDO,
SOBRETUDO AS IMAGENS.
ELAS MUDAM CADA VEZ MAIS RÁPIDO
E SE MULTIPLICAM NUM RITMO INFERNAL
DESDE A EXPLOSÃO QUE DESENCADEOU AS IMAGENS
ELETRÔNICAS, AS MESMAS IMAGENS QUE AGORA
ESTÃO SUBSTITUINDO A FOTOGRAFIA,
APRENDEMOS A CONFIAR NA IMAGEM FOTOGRÁFICA.
PODEMOS CONFIAR NA ELETRÔNICA?
NO TEMPO DA PINTURA TUDO ERA SIMPLES:
O ORIGINAL ERA ÚNICO E TODA CÓPIA ERA UMA CÓPIA,
UMA FALSIFICAÇÃO.
COM A FOTOGRAFIA E O CINEMA,
A COISA COMEÇOU A SE COMPLICAR.
O ORIGINAL ERA UM NEGATIVO.
SEM UMA AMPLIAÇÃO, SÓ EXISTIA O OPOSTO.
CADA CÓPIA ERA O ORIGINAL.
MAS AGORA, COM A IMAGEM ELETRÔNICA E COM A DIGITAL,
NÃO EXISTE MAIS NEGATIVO, NEM POSITIVO.
A PRÓPRIA IDÉIA DE ORIGINAL FICOU OBSOLETA.
TUDO É CÓPIA.
NÃO ADMIRA QUE A IDÉIA DE IDENTIDADE
ESTEJA TÃO ENFRAQUECIDA.
A IDENTIDADE ESTÁ FORA. FORA DE MODA.

Texto extraído do documentário “CADERNOS E NOTAS SOBRE ROUPAS E CIDADES” (1989).

Saturday, July 04, 2009

Sou fã


Esta semana, quando fiz uma das pequenas pausas do meu trabalho de pesquisa, enquanto almoçava,via o filme Apolo 13, com Tom Hanks. Bem, já perdi a conta do número de vezes que assisti a este filme. Já sei o que acontece. Talvez, possa até descrever cada cena. Então, por que insisto em ver de novo? Por causa do Tom Hanks. Mas, afinal, por que sou fã deste cara? Vejo o Náufrago toda vez que passa e me digo que é por que vi pela primeira vez em Paris e quero lembrar de como me sentia. Depois, começo a me dar conta que também revejo O Terminal sempre que reprisa. É...melhor assumir que sou fã do cara. Afinal, Forrest Gump é um filme incrível. E daí sigo...Prenda-me se for capaz (eu nem gosto tanto assim do Di Caprio...). Histórias melosas e açucaradas como Mensagem para você, Eu quero ser grande...Tudo me agrada. Estranhei Matador de Velhinhas, Estrada para perdição, mas, dizer que não gostei? Nunca! Tom Hanks para mim é uma mistura de talento e carisma, bom caráter, dizem que bom colega de set, coisas que me agradam. Tanto que, às vezes, preciso de algum documentário como o de hoje mostrando ele na escola (com um cabelo ridículo,diga-se de passagem),na igreja e em outras atividades prosaicas, só para lembrar que ele é gente como gente. E isso só me conscientiza de que sou fã. Ah, e não vamos esquecer o seu trabalho em A espera de um milagre. Cá entre nós...coisa mais fofa! E Filadélfia? Nossa...emocionante. Ah, e tem algumas cenas antológicas como em Um dia a casa cai. Quando me mudei, lembrava direto...Ele preso em um buraco dentro do tapete! Tom Hanks me faz rir, me faz chorar, me faz ter medo, me faz torcer, me faz acreditar em um mundo melhor onde a arte e o talento têm espaço. Dia 9 de julho ele faz aniversário. Acabo de descobrir olhando coisas sobre ele na internet. Ele não sabe que eu existo, mas, espero que receba a minha energia de fã. Vida longa para o Tom Hanks!


PS Quem sabe outra hora não volto aqui e tento ser mais objetiva sobre o seu trabalho? Vai ser um desafio, mas, posso tentar.

Friday, June 26, 2009

Michael Jackson e Farrat: as lembranças que mexem com minha cabeça


Estou na loucura de escrever meu trabalho de pesquisa do mestrado em artes cênicas para apresentar na qualificação em agosto. Motivada, é verdade, mas, com muito conteúdo para organizar e regras da ABNT para seguir. De qualquer forma, sempre disse que se a gente não pára, a vida pára a gente e foi o que aconteceu com a morte de dois ícones da minha vida: Michael Jackson e Farrah Fawcett. Quando tento ligar um ao outro apenas uma coisa me vem à cabeça: estrelas! De primeira grandeza. E é claro que eles foram muito importantes, fizeram transformações em suas épocas, alimentaram sonhos, etc, etc. Mas, como todos e cada um, o que penso é nas coisas que surgem na MINHA lembrança...

Na minha infância e início da adolescência, veraneava em Tramandaí, na Colônia de Férias da UFRGS. Eram dias mágicos de dezembro. Brincadeiras, o mar e uma certa liberdade. Roupas novas costuradas pela minha mãe... Comidinhas diferentes e gente! Gente estranha, gente nova, gente divertida. Como passávamos o Natal lá, eram organizadas algumas apresentações e um ano eu lembro de me apresentar dançando uma música de Michael Jackson. Calma... Não era nada parecido com o Thriller. Algo lento, romântico que a Marília Bressani havia escolhido. Ensaiamos bastante e na noite de Natal ficamos lá diante de um monte de outras pessoas. Até hoje, me lembro que errei uns passos. Tímida, me perturbei com a idéia de estar diante de tanta gente. Mas, foi tão bom. Hoje, não tenho dúvida de que de alguma forma, voltei à universidade de teatro por causa desta coisa que significava ser artista, com A maiúsculo como foi este cara que, em algum momento de ruptura entre o interno e o externo se perdeu e não teve mais volta.

Já Farrah é mais complicado. Teve época em que ela me incomodava. No auge da sua fama, ela vivia no imaginário dos rapazes. Lembro de ver suas fotos espalhadas por todo lugar, mas, não sei por que, lembro mais precisamente de um vizinho, chamado Paulo que não faço a menor idéia de onde esteja, mas, que tinha um enorme pôster dela no seu apartamento. Talvez, eu lembre porque, naquela época, não era tão comum uma mulher entrar no quarto de um homem. Então, o que, provavelmente, ficou registrado na minha memória foi esta transgressão, a taquicardia do meu coração ao entrar em um espaço masculino e lá, atrás da porta, dar de cara com um gigantesco pôster da eterna Pantera. Como concorrer com alguém assim?

Bem, poderia continuar escrevendo durante horas sobre os dois. São muitas informações, realizações e lembranças. Cheguei a ouvir a voz de um amigo engraçadinho dizendo: “nem a vida de Michael Jackson passou em branco”. Quantas piadas foram feitas em torno desta história bizarra de transformação deste artista... Difícil compreender. Isso sem falar em tantas acusações que recaíram sobre ele, a tal ponto de ficar, realmente, difícil acreditar em sua inocência. Mas, quer saber? Neste momento, não me importa. Afinal, alguém duvida do seu talento e da sua importância para a música do mundo? Qualquer pessoa que conheça um pouco da vida dos artistas sabe que levar uma vida prosaica quando se é único é totalmente impossível. Espero que outros ídolos surjam para que, no futuro, os jovens de amanhã tenham lembranças como as minhas.

Wednesday, June 24, 2009


Adicionar vídeoJornalistas promovem manifestação pelo diploma em Porto Alegre

Monday, June 22, 2009

Manifestação em Porto Alegre

Indignação cresce de norte a sul: novos protestos convocados para segunda-feira

Estudantes de Jornalismo de diversas cidades do país organizam novas manifestações de desagravo à decisão do STF que aboliu a obrigatoriedade da formação universitária para a profissão de jornalista. Os atos estão marcados para esta segunda-feira, dia 22, em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Teresina e Caxias do Sul. Serão simultâneos, a partir das 10h. Em Porto Alegre, haverá manifestação na quarta. A FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas e o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo se engajaram na mobilização e estão convocando profissionais e professores a participarem ativamente. Também conclamam demais segmentos profissionais, movimentos sociais, parlamentares, autoridades a comparecerem às atividades, levando às ruas o apoio e preocupações que já vêm externando aos jornalistas. Conforme os Diretórios Acadêmicos dos Cursos de Jornalismo que lideram a organização, serão promovidas passeatas que culminarão com atos e a orientação é para que todos participantes vistam preto, usem nariz de palhaço, levem apitos e empunhem colheres de pau, além de faixas e banners da campanha pela valorização da formação e profissão de jornalista. As manifestações serão simultâneas em todas estas cidades, a partir das 10h desta segunda-feira. Já em Porto Alegre, o Sindicato está convocando mais um ato para quarta-feira.


PORTO ALEGRE (RS)DIA 24/06, quarta-feiraHORÁRIO: 13hCONCENTRAÇÃO: Esquina Democrática

Friday, June 19, 2009

Mais sobre o diploma

Da minha pergunta sobre o por quê e para quê da lei contra o diploma de jornalista, recebi uma resposta de Fabricio Muriana, Editor da Revista Bacante (www.bacante.com.br) que publico aqui:

Oi Helena
Fiquei com vontade de responder, mas achei que a Ivana Bentes já fez bem melhor do que qualquer palavra que pudesse te mandar sobre o assunto.
http://www.trezentos.blog.br/?p=1839

Leiam este texto, pois, não tenho a menor intenção de ser dona da verdade! Temos mesmo que refletir.

Fim do Fim do diploma de jornalista. Para quê? Por quê?

“Olá, colega”. Disse-me hoje, por email, meu sobrinho, ironizando o fim da exigência do diploma de jornalista. Como a questão é sensível para mim, falei que estava atrás do meu título de mestre em Artes Cênicas, caso ele quisesse me acompanhar. Confesso que não consigo compreender quem tirará vantagem desta decisão. Duvido muito que seja o público, a população em geral.

Há uns 20 anos atrás, mais ou menos, tive uma carta minha publicada na Zero Hora justamente sobre o mesmo tema. Alguém, importante na época tinha escrito sobre esta mesma idéia de acabar com o diploma. Naquela ocasião, eu brigava por um espaço no mercado e não via nos jornais anúncios para jornalistas trabalharem nos principais veículos de comunicação e retruquei: para que permitir que mais pessoas possam concorrer a estas vagas? Não seria mais lógico escolher entre os formados primeiro para depois abrir vaga para prováveis talentos de nascença? Continuo pensando a mesma coisa. Não que eu não acredite que exista gente com dom para a comunicação e que até possa não precisar passar pela faculdade, mas, eu aprendi bastante por lá. Não é mesmo, Carlos Kober? Mas, o que me perturba, realmente, é que por que este critério foi válido somente para o jornalismo?

Tenho uma tia que, sem dúvida, poderia ter o título de veterinária, pois, há mais de 20 anos cuida de uma quantidade absurda de cachorros, preocupando-se e tratando de suas doenças. Outra tia passou mais de 10 anos cuidando diariamente do marido com um problema de saúde que comprometia sua fala, seu caminhar, seu raciocínio. Tudo. Daria o título de enfermeira para ela sem vacilar. Minha mãe trabalhou pela Associação dos Professores de francês do Rio Grande do Sul e recebeu o reconhecimento do Governo daquele país com as Palmas Acadêmicas, mas, quando começara a chamá-la de relações públicas, o Sindicato a advertiu.Como todo mundo, sei de gente com diploma que não é bom profissional. Assim, como conheço outros que têm a carteira de motorista, mas, não dirigem.

Mas, não consigo deixar de me perguntar a quem servirá esta mudança? Afinal, aqui no sul, se considerarmos o número de jornalistas que se formam todos os anos e os poucos veículos existentes, precisamos saber para onde irão todos os outros. Passado todos estes anos, diria que já não tenho a mesma audácia daqueles tempos, mas, isto não quer dizer que possa deixar passar em silêncio esta notícia. A afirmação do Ministro Cezar Peluzo (ZH, p.19 – 18/06) de que “não existe no exercício do jornalismo nenhum risco que decorra do desconhecimento de alguma verdade científica”, é, no mínimo, preocupante. Até parece que as palavras não têm a força que tem.

Disse ontem a alguns amigos que só não iria dormir chorando porque não estou em uma faculdade particular de jornalismo agora pagando um valor que me permitiria ir para a Europa ou comprar um carro novo. Mas, além de todas as conseqüências que este fato ainda pode trazer para todos, não vou dizer que as horas que dediquei ao estudo das Leis da Comunicação, da ética do jornalista, não me pareçam agora tempo perdido. Como alguém pode imaginar que exercer a profissão de jornalista não exija um saber prévio? Um compromisso desenvolvido e firmado com o público?

Como falei no início, não há como negar que não conseguiria ser imparcial em uma questão tão nevrálgica para mim, mas, será que todos não precisam refletir sobre esta decisão? Acabo de lembrar o mestre Marques Leonam que tanto me ensinou durante os anos de faculdade... E agora uma lei vem dizer que não é preciso nenhuma técnica? E o pior ainda são os argumentos: “trata-se de uma lei pela liberdade de expressão”. Dá para acreditar? Mesmo eu que sou otimista e crédula por natureza, não creio. E o que me entristece agora é que isso não fez e não fará a menor diferença, pois, quem sou eu para questionar uma decisão do Supremo Tribunal Federal? Uma jornalista.

Wednesday, June 10, 2009

Ausência

Não vou abandonar meu blog. Já nem escrevo mais em meus diários. Este é o meu espaço para soltar minhas idéias. Mas, é que vivo em adaptação de tempo. Andava exausta. Mil implicações. Emoções diversas. Preocupações múltiplas. De repente, alguém de perto comenta: "admiro esta tua coragem de te envolver sempre em coisas novas e desafiantes." Não é que é mesmo? Sou eu que escolho este ritmo. Meio sem perceber, é claro! E depois me queixo da ansiedade, da exaustão. Mas, realmente, é muito melhor do que a mesmice. E essa? Não tem lugar em minha vida que, apesar do ritmo frenético, tem sido quase só de momentos interessantes e que me dão prazer. O resto? Eu descarto! Hoje, preenchi um cadastro. A menina me perguntou só o dia e o mês do meu aniversário. Eu disse a data completa. Ela se surpreendeu: "agora, eu sei a tua idade". Ao que eu respondi: Mas, eu tenho orgulho da minha idade! Lá vou eu fazendo coisas pela primeira vez a caminho dos 47! Quem diria...

Saturday, June 06, 2009

Um silêncio que diz muito


Ontem à noite fui assistir a pré-estréia de Retratos do Silêncio, um espetáculo com a Direção do meu amigo Nilton Filho. Mas, não pensem que é por causa desta relação, da qual tanto me orgulho, que vou falar bem. Acontece que toda vez que vou assistir a algum trabalho feito por ele fico impressionada com a qualidade, o apuro, o capricho. Depois de muito estudar teatro, de tomar contato com propostas audaciosas como as de Zé Celso Martinez Correa (isso para citar apenas um brasileiro), entre tantas outras provocações do teatro contemporâneo, Nilton aposta no teatro bem feito com aquilo que é mais básico: um texto e o trabalho dos atores. Isso não quer dizer, porém, que ele não dê a mais absoluta atenção ao figurino e ao cenário. Coisas que, cá para nós, ajudam sim, a compor um personagem. Vemos isso neste espetáculo com muita clareza. Perucas, brincos, cintos, laços de fita e tantas outras coisas que nos convencem de que aquelas pessoas estão ali, quase reais. Há ainda a música ao vivo, o que torna uma noite fria de inverno em um ambiente aconchegante, mesmo que em alguns momentos tenha encoberto um pouco a fala de alguns dos atores. O cenário também é algo que compõe a cena. Aquele pequeno palco do confortável teatro Nilton Filho é transformado diante de nossos olhos em uma gigantesca sala de uma mansão. É a poltrona no meio do espaço, a estátua, os espelhos...Tudo isso mais a atuação firme e autêntica dos principais personagens, incluindo as duas crianças no palco e somos levados para dentro de uma história de relações humanas, de vínculos entre aqueles que se amam nesta e na outra vida. É...estamos falando de vida além da morte. É disso que o espetáculo trata, mas, não pense que vai tentar catequizar você. De forma alguma. Vai levá-lo para dentro de uma história que revela as possibilidades da existência. Pelo menos, fez isso comigo. Ao ponto de quando disseram o sobrenome da personagem eu me surpreendesse pensando: mas, é o meu sobrenome! Para só depois pensar que deve ter sido até uma homenagem do meu amigo diretor e do responsável pelo texto, Hyro Mattos, a nossa família. Afinal, neste tempo em que nos conhecemos, eles estiveram presentes em dois momentos de partida de duas pessoas muito importantes para nós: meu pai e meu irmão. Ou seja, não há porque esconder, o teatro de Nilton Filho é especial para mim, mas, quem for ver descobrirá que é especial para qualquer um.

PS: Hyro Mattos já está em cena quando o público começa a entrar. Inicialmente, eu não reconheci. Esta é a magia do teatro. Ontem, até mesmo para mim, ele era Vitor, o dono da propriedade.


Ficha Técnica:
Texto: Hyro Mattos
Direção: Nilton Filho
Assistente de Direção: Hyro Mattos
Elenco: Hyro Mattos - Eduarda Meneghetti - Gisele Faerman - Jacqueline Severo - Júlia Pilotti - Júlio Morales - Lee Costa - Mariana Azevedo
Participação Especial: Antônio Carlos Castilhos
Trilha sonora: Rafael Ruschel Greco e Karine Isquierdo
Cenografia e Iluminação: Nilton Filho e Hyro Mattos
Cenotécnico: Hyro Mattos
Figurinos e Cabelos: Nilton Filho
Operação de luz: Kaká Medina
Operador de Retroprojetor: Rebecca Pegado
Fotos: Nilton Filho
Bilheteria: Sueli Ribeiro
Divulgação e Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu
Produção: Teatro Nilton Filho
Realização: Cia. de Teatro Construção

Serviço:
O Quê: “Retratos do Silêncio”, de Hyro Mattos. Espetáculo teatral com a Cia. de Teatro Construção. Direção de Nilton Filho
Quando: De 13 de junho a 02 de agosto, sábados e domingos, 20h
Onde: Teatro Nilton Filho (Rua Grão Pará, 179, bairro Menino Deus), Porto Alegre
Quanto: R$ 30,00. Desconto de 30% para sócios do Clube do Assinante ZH (+ 1 acompanhante), 50% idosos, estudantes e classe artística.
Duração: 1h10min
Censura: 12 anos
Observação: ambiente climatizado, 70 lugares (numerados)
Reservas e informações: (51) Fone: (51) 3233.0449 / (51) 3028.3663

Wednesday, May 06, 2009

BOAL – O HOMEM QUE INVENTAVA O FUTURO

            No dia 02 de maio, veio a falecer aos 78 anos, o diretor, dramaturgo e teórico Augusto Boal, vítima de insuficiência respiratória, sofria de leucemia e estava internado desde o dia 28 de abril.

            O filho do Padeiro, como se intitulou em sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro, criador do Teatro do Oprimido, esteve entre os indicados ao Prêmio Nobel da Paz 2008. Não ganhou, mas no mesmo ano recebeu o prêmio da Fundação Príncipe Claus para a Cultura e o Desenvolvimento, entregue pela Família Real holandesa. No Brasil, nunca foi tão difundido quanto no exterior, em Nova Iorque , por exemplo, existe até o dia do Teatro do Oprimido, proclamado pela Prefeitura.

            Augusto Boal foi um dos mais importantes criadores de teatro do século e o seu método de trabalho é realizado em mais de setenta países, em diversas áreas como educação e movimentos sociais. Os grupos de Teatro do Oprimido ajudam milhões de pessoas ao redor do mundo a afirmarem sua cidadania nas lutas contra todo desrespeito aos Direitos Humanos.

            Uma das modalidades de Teatro do Oprimido mais utilizadas, segundo a Professora Drª Sílvia Balestreri, incentivadora da criação do CTO-Rio, é o Teatro-Fórum. Veículo de ativação e mobilização não apenas na hora de ser apresentado e de se convidar a platéia a intervir na cena, quando ela toma lugar dos protagonistas para propor alternativas à situação mostrada, mas também no processo de criação e montagem de peças, pois há confrontos com questões que reviram qualquer possibilidade de postura cristalizada.

            Para se ter uma idéia da relevância de seu trabalho, Boal lembra que trinta dias após a tragédia das torres gêmeas do World Trade Center começou uma oficina no Teatro Laboratório do Oprimido em Nova Iorque com os jovens próximos do local onde ainda estavam soterrados seis mil mortos. Com cautela para não provocar emoções dolorosas, percebeu que o medo era a tônica do que brotava nas cenas. Um medo desvelado pelo teatro que possibilitava compartilhar os anseios e vontades oprimidas e não estava restrito a tragédia recente, mas ao desamparo do humano frente a insegurança no mundo. Constatou Boal que a verdade é terapêutica, jovens aprenderam a ver o mundo além de suas fronteiras praticando o teatro, o diálogo, queriam conquistá-la. Perplexos, buscavam sua verdadeira identidade, escamoteada pelo mentiroso discurso político e pela mídia censurada.

            O embaixador do teatro pela UNESCO Augusto Boal inventava o futuro, por que via mais além. No discurso de homenagem ao dia do teatro Boal disse: Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

 

Márcio Silveira dos Santos

Mestrando do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da UFRGS

 

Publicado originalmente no Jornal Vale dos Sinos em 06 de Maio de 2009.

Sunday, May 03, 2009

No meio do caminho tinha uma casca de banana...


Um amigo me disse que tinha convite para eu ir ao teatro com ele. Perguntou se eu queria. Respondi, imediatamente, que sim. Nem sabia que peça era, onde era, nada. Se ia ter companhia, não precisava de recursos e veria um espetáculo, só podia ser esta a resposta. Mais tarde, quis saber detalhes e ele me disse: “vamos assistir o espetáculo "A última gravação de Krapp e Ato sem Palavras I", do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, com Sérgio Britto. Acrescentava ainda informações que estavam na revista Arte SESC: "No primeiro texto, um escritor grava os acontecimentos do ano que passou e escuta passagens de anos anteriores e, no outro, um personagem no deserto tenta, em vão, matar sua sede". Era mais do que eu precisava saber. 

Tenho esta mania. Não sou como os gregos que, mesmo sabendo exatamente o que iria acontecer no “palco”, iam do mesmo jeito. Gosto de ir “no escuro”, o que no caso de um espetáculo Beckettiano parece muito apropriado. No entanto, já nos primeiros momentos da peça em que o ator entra, abre uma gaveta, pega um banana e come. Pega uma segunda banana e come e parte para uma terceira... Atira a casa no chão e caminha. Estava instaurada a apreensão do espetáculo. Ah, mas, em seguida o ator junta. A partir dali, eu pensei que era bom saber que Becket gostava de tratar em suas obras da incomunicabilidade do homem e de retratar coisas prosaicas para mostrar o absurdo da vida (lembrei do chapéu em Esperando Godot). Isso fez com que eu aceitasse com total tranqüilidade aqueles minutos de silêncio no palco, enquanto podia sentir a forte expectativa da platéia lotada, a energia densa que se estabelecia. 

Devo confessar que, em outras ocasiões, não conseguir compreender o que este dramaturgo irlandês propõe já foi motivo de apreensão para mim. Por isso, foi com satisfação que fiquei aproveitando a competência de Sergio Brito em me transmitir tão claramente tudo que se passava com Krapp, enquanto ouvia uma gravação muitos anos antes. Provavelmente, isto acontece porque Beckett já fez parte da vida artística do ator em outras experiências teatrais. Aliás, o espetáculo é provocador (nem poderia ser diferente) já que a voz é o suficiente (pelo menos na atuação de Sergio Britto) para formatar o personagem que contracena com ela. Vamos tomando contato com o registro que evoca a memória, mas, que traz a certeza de que o que está feito, está feito, assim como aquela gravação. Esta, aliás, é tão bem elaborada que “vemos” aquela pessoa jovem, um tanto ingênua e pretensiosa, contrastando com aquele homem velho que a escuta.

 

Enquanto eu entrava na história que me apresentava o arrependimento, a melancolia, o sofrimento de alguém que vê (ou ouve?) a si mesmo fazer coisas que o futuro mostraria que deveriam ter sido diferentes, admirava a capacidade daquele homem de 85 anos de viver aquele faz-de-conta com tanta intensidade a ponto de nos sensibilizar e nos fazer pensar naquilo que gostaríamos também de refazer em nossas vidas. Então, vejo um Beckett se revelar para mim e me provocar emoções e lembranças. 

O cenário de Fernando Mello “cumpre o seu papel” como gostam de dizer, embora eu ache esta colocação um tanto fraca já que em sua simplicidade de elementos, vamos para aquela sala que tem o peso daquilo que acontece nela. E pensar que isso seja simples de acertar, não corresponde à realidade do teatro (e ele não digo isso por ser meu parente, pois, não é).

 

Infelizmente, sobre a iluminação (de Tomás Ribas) só sei falar quando atrapalha. O que, neste caso, não acontece. Quanto ao figurino (Ney Madeira), é muito acertado na medida em que me faz ver o personagem no que ele tem de patético. A música de Tato Taborda por vezes marcava mais do que a cena, o que acredito não deveria ocorrer. Mas, é preciso que se diga que, em outros momentos, sublinhava a angústia de forma muito competente. 

Na segunda parte, no Ato sem palavras I, mais uma vez, fica comprovado que, no teatro, as palavras não são indispensáveis. Alguns elementos cênicos, uma proposta, razoavelmente, simples, algo a ser dito e um ator com “A” maiúsculo e temos algo que merece ser visto.

 

Bate-papo

Após o espetáculo, Sergio Britto ainda fez um bate-papo com a platéia, formada, aliás, por muitas pessoas da própria classe. Assim, era possível sentir a admiração e o respeito pelo que acabava de ser mostrado. Consideração, aliás, que faltou a equipe técnica ao não apagar a luz direcionada ao palco, ofuscando o ator e fazendo-o reagir como alguém cego, surdo e mudo, coisa que, certamente, não é o caso. Eu não tinha entendido nada. Até que o Diretor Alex Cassal, amigo de amigas minhas, me explicou o que havia acontecido. Por falar em diretores, Isabel Cavalcanti foi muito citada pelo ator durante a conversa. Pelo que ele relatou, ela teve forte influência no resultado que tínhamos acabado de ver.

Sergio Britto contou, também, que esta peça foi escrita por Beckett relatando uma situação de sua própria vida. Ou seja, tínhamos tido o privilégio de acompanhar a forma nada tradicional de uma espécie de anotações em um diário à la Beckett. Não quero deixar de citar aqui o que o ator disse quando foi questionado sobre o tipo de formação que deve ter um ator. Para ele, todos deveriam passar por Stanislavski. 

Saturday, May 02, 2009

Morre Augusto Boal

Há poucos dias, um amigo me dizia: acho que a tua pesquisa devia ter sido sobre este Boal. Tu tá sempre falando nele. Nem falava tanto assim. Muito menos do que deveria. Mas, é verdade que, desde que tive um contato um pouco mais próximo com suas propostas, achei que tinha aí algo muito importante para o teatro. Desde então, tudo sempre vinha me confirmando isso, mesmo que eu percebesse que muita gente resistia a aceitar a sua supremacia. Aliás, esta é mais uma razão para que, sempre que eu achasse que era oportuno, relembrá-lo. Não achava bacana ver um brasileiro tão talentoso meio de escanteio. Bem, agora, vou me limitar a transcrever a matéria de sua morte, pois, como acontece na maioria das vezes, agora que ele se foi, por um bom tempo ninguém vai questionar o quanto ele significava.

Morre Augusto Boal, um dos maiores dramaturgos do Brasil

Publicada em 02/05/2009 às 16h54m

Christina Fuscaldo de Erika Azevedo

O dramaturgo Augusto Boal em 2006 / Foto Leonardo Aversa

RIO - Morreu na madrugada deste sábado aos 78 anos o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal. Expoente do Teatro de Arena de São Paulo (1956 a 1970) e fundador do Teatro do Oprimido (inspirado nas propostas do educador Paulo Freire), ele sofria de leucemia e estava internado na CTI do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. No final de março, ainda teve forças para marcar presença um uma conferência da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Paris, onde recebeu o título de Embaixador Mundial do Teatro.

A notícia foi enviada aos amigos pelo diretor Aderbal Freire-Filho, que lamentou a grande perda para o teatro brasileiro. O último encontro de Aderbal com o amigo foi na sala de espera do consultório do Dr. Flavio Cure Palheiro, médico que monitorou o desenvolvimento da doença de Boal.

- A gente sempre diz que os mortos são insubstituíveis, mas Boal, de fato, o é. Ele é um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. É uma perda irreparável - lamentou Aderbal.

Augusto Pinto Boal nasceu em 16 de março de 1931, na Penha, bairro da zona Norte do Rio. Suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, notadamente nas três últimas décadas do século XX, sendo largamente empregadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política mas também nas áreas de educação, saúde mental e no sistema prisional. Suas teorias sobre o teatro são estudadas nas principais escolas de teatro do mundo. No jornal inglês The Guardian, já se escreveu que "Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski".

- Boal nos representa no Brasil e fora dele. Há livros traduzidos em francês, holandês, mais de vinte línguas. O Teatro do Oprimido é estudado em muitos países. Se ele falecesse na França, a repercussão ia ser enorme - comenta Aderbal Freire-Filho.

Ao voltar de uma temporada em Nova York - onde estudou Engenharia Química (Columbia University) e dramaturgia (School of Dramatics Arts) e pôde acompanhar as montagens do Actor's Studio, que utlizava o método de interpretação Stanislavski - em 1956, Boal passa a integrar o Teatro de Arena de São Paulo, que tornou-se uma das mais importantes companhias de teatro brasileiras. Com sua experiência, incentivou a encenação de textos brasileiros, de autores como Gianfrancesco Guarnieri, o que livrou o grupo da falência, na década de 50. Essa retomada do Arena causa uma revolução na cena brasileira, abrindo caminho para uma dramaturgia nacional de nomes como Oduvaldo Vianna Filho.

A enciclopédia do Itaú Cultural traz uma análise do crítico Yan Michalski, um dos mais importantes do teatro brasileiro, sobre Boal:

"Até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país".

Com o fechamento do Teatro de Arena, veio o Teatro do Oprimido. Boal dizia que "o Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'". Criada no final da década de 60, em São Paulo, sua técnica utiliza a estética teatral para discutir questões políticas e sociais.

Na década de 70, enquanto esteve exilado em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil, Boal difundiu o método na América Latina e Europa. Na época, Chico Buarque compôs "Meu caro amigo", como uma carta em forma de música, em homenagem ao dramaturgo.

Em 2008, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz devido ao reconhecimento a seu trabalho com o Teatro do Oprimido. No dia 16 de março do mesmo ano, atores, teatrólogos e militantes da cultura comemoraram pela primeira vez o Dia Mundial do Teatro do Oprimido. A data foi escolhida por ser a mesma do nascimento de Augusto Boal. 

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/05/02/morre-augusto-boal-um-dos-maiores-dramaturgos-do-brasil-755596226.asp