Wednesday, May 06, 2009

BOAL – O HOMEM QUE INVENTAVA O FUTURO

            No dia 02 de maio, veio a falecer aos 78 anos, o diretor, dramaturgo e teórico Augusto Boal, vítima de insuficiência respiratória, sofria de leucemia e estava internado desde o dia 28 de abril.

            O filho do Padeiro, como se intitulou em sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro, criador do Teatro do Oprimido, esteve entre os indicados ao Prêmio Nobel da Paz 2008. Não ganhou, mas no mesmo ano recebeu o prêmio da Fundação Príncipe Claus para a Cultura e o Desenvolvimento, entregue pela Família Real holandesa. No Brasil, nunca foi tão difundido quanto no exterior, em Nova Iorque , por exemplo, existe até o dia do Teatro do Oprimido, proclamado pela Prefeitura.

            Augusto Boal foi um dos mais importantes criadores de teatro do século e o seu método de trabalho é realizado em mais de setenta países, em diversas áreas como educação e movimentos sociais. Os grupos de Teatro do Oprimido ajudam milhões de pessoas ao redor do mundo a afirmarem sua cidadania nas lutas contra todo desrespeito aos Direitos Humanos.

            Uma das modalidades de Teatro do Oprimido mais utilizadas, segundo a Professora Drª Sílvia Balestreri, incentivadora da criação do CTO-Rio, é o Teatro-Fórum. Veículo de ativação e mobilização não apenas na hora de ser apresentado e de se convidar a platéia a intervir na cena, quando ela toma lugar dos protagonistas para propor alternativas à situação mostrada, mas também no processo de criação e montagem de peças, pois há confrontos com questões que reviram qualquer possibilidade de postura cristalizada.

            Para se ter uma idéia da relevância de seu trabalho, Boal lembra que trinta dias após a tragédia das torres gêmeas do World Trade Center começou uma oficina no Teatro Laboratório do Oprimido em Nova Iorque com os jovens próximos do local onde ainda estavam soterrados seis mil mortos. Com cautela para não provocar emoções dolorosas, percebeu que o medo era a tônica do que brotava nas cenas. Um medo desvelado pelo teatro que possibilitava compartilhar os anseios e vontades oprimidas e não estava restrito a tragédia recente, mas ao desamparo do humano frente a insegurança no mundo. Constatou Boal que a verdade é terapêutica, jovens aprenderam a ver o mundo além de suas fronteiras praticando o teatro, o diálogo, queriam conquistá-la. Perplexos, buscavam sua verdadeira identidade, escamoteada pelo mentiroso discurso político e pela mídia censurada.

            O embaixador do teatro pela UNESCO Augusto Boal inventava o futuro, por que via mais além. No discurso de homenagem ao dia do teatro Boal disse: Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

 

Márcio Silveira dos Santos

Mestrando do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da UFRGS

 

Publicado originalmente no Jornal Vale dos Sinos em 06 de Maio de 2009.

Sunday, May 03, 2009

No meio do caminho tinha uma casca de banana...


Um amigo me disse que tinha convite para eu ir ao teatro com ele. Perguntou se eu queria. Respondi, imediatamente, que sim. Nem sabia que peça era, onde era, nada. Se ia ter companhia, não precisava de recursos e veria um espetáculo, só podia ser esta a resposta. Mais tarde, quis saber detalhes e ele me disse: “vamos assistir o espetáculo "A última gravação de Krapp e Ato sem Palavras I", do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, com Sérgio Britto. Acrescentava ainda informações que estavam na revista Arte SESC: "No primeiro texto, um escritor grava os acontecimentos do ano que passou e escuta passagens de anos anteriores e, no outro, um personagem no deserto tenta, em vão, matar sua sede". Era mais do que eu precisava saber. 

Tenho esta mania. Não sou como os gregos que, mesmo sabendo exatamente o que iria acontecer no “palco”, iam do mesmo jeito. Gosto de ir “no escuro”, o que no caso de um espetáculo Beckettiano parece muito apropriado. No entanto, já nos primeiros momentos da peça em que o ator entra, abre uma gaveta, pega um banana e come. Pega uma segunda banana e come e parte para uma terceira... Atira a casa no chão e caminha. Estava instaurada a apreensão do espetáculo. Ah, mas, em seguida o ator junta. A partir dali, eu pensei que era bom saber que Becket gostava de tratar em suas obras da incomunicabilidade do homem e de retratar coisas prosaicas para mostrar o absurdo da vida (lembrei do chapéu em Esperando Godot). Isso fez com que eu aceitasse com total tranqüilidade aqueles minutos de silêncio no palco, enquanto podia sentir a forte expectativa da platéia lotada, a energia densa que se estabelecia. 

Devo confessar que, em outras ocasiões, não conseguir compreender o que este dramaturgo irlandês propõe já foi motivo de apreensão para mim. Por isso, foi com satisfação que fiquei aproveitando a competência de Sergio Brito em me transmitir tão claramente tudo que se passava com Krapp, enquanto ouvia uma gravação muitos anos antes. Provavelmente, isto acontece porque Beckett já fez parte da vida artística do ator em outras experiências teatrais. Aliás, o espetáculo é provocador (nem poderia ser diferente) já que a voz é o suficiente (pelo menos na atuação de Sergio Britto) para formatar o personagem que contracena com ela. Vamos tomando contato com o registro que evoca a memória, mas, que traz a certeza de que o que está feito, está feito, assim como aquela gravação. Esta, aliás, é tão bem elaborada que “vemos” aquela pessoa jovem, um tanto ingênua e pretensiosa, contrastando com aquele homem velho que a escuta.

 

Enquanto eu entrava na história que me apresentava o arrependimento, a melancolia, o sofrimento de alguém que vê (ou ouve?) a si mesmo fazer coisas que o futuro mostraria que deveriam ter sido diferentes, admirava a capacidade daquele homem de 85 anos de viver aquele faz-de-conta com tanta intensidade a ponto de nos sensibilizar e nos fazer pensar naquilo que gostaríamos também de refazer em nossas vidas. Então, vejo um Beckett se revelar para mim e me provocar emoções e lembranças. 

O cenário de Fernando Mello “cumpre o seu papel” como gostam de dizer, embora eu ache esta colocação um tanto fraca já que em sua simplicidade de elementos, vamos para aquela sala que tem o peso daquilo que acontece nela. E pensar que isso seja simples de acertar, não corresponde à realidade do teatro (e ele não digo isso por ser meu parente, pois, não é).

 

Infelizmente, sobre a iluminação (de Tomás Ribas) só sei falar quando atrapalha. O que, neste caso, não acontece. Quanto ao figurino (Ney Madeira), é muito acertado na medida em que me faz ver o personagem no que ele tem de patético. A música de Tato Taborda por vezes marcava mais do que a cena, o que acredito não deveria ocorrer. Mas, é preciso que se diga que, em outros momentos, sublinhava a angústia de forma muito competente. 

Na segunda parte, no Ato sem palavras I, mais uma vez, fica comprovado que, no teatro, as palavras não são indispensáveis. Alguns elementos cênicos, uma proposta, razoavelmente, simples, algo a ser dito e um ator com “A” maiúsculo e temos algo que merece ser visto.

 

Bate-papo

Após o espetáculo, Sergio Britto ainda fez um bate-papo com a platéia, formada, aliás, por muitas pessoas da própria classe. Assim, era possível sentir a admiração e o respeito pelo que acabava de ser mostrado. Consideração, aliás, que faltou a equipe técnica ao não apagar a luz direcionada ao palco, ofuscando o ator e fazendo-o reagir como alguém cego, surdo e mudo, coisa que, certamente, não é o caso. Eu não tinha entendido nada. Até que o Diretor Alex Cassal, amigo de amigas minhas, me explicou o que havia acontecido. Por falar em diretores, Isabel Cavalcanti foi muito citada pelo ator durante a conversa. Pelo que ele relatou, ela teve forte influência no resultado que tínhamos acabado de ver.

Sergio Britto contou, também, que esta peça foi escrita por Beckett relatando uma situação de sua própria vida. Ou seja, tínhamos tido o privilégio de acompanhar a forma nada tradicional de uma espécie de anotações em um diário à la Beckett. Não quero deixar de citar aqui o que o ator disse quando foi questionado sobre o tipo de formação que deve ter um ator. Para ele, todos deveriam passar por Stanislavski. 

Saturday, May 02, 2009

Morre Augusto Boal

Há poucos dias, um amigo me dizia: acho que a tua pesquisa devia ter sido sobre este Boal. Tu tá sempre falando nele. Nem falava tanto assim. Muito menos do que deveria. Mas, é verdade que, desde que tive um contato um pouco mais próximo com suas propostas, achei que tinha aí algo muito importante para o teatro. Desde então, tudo sempre vinha me confirmando isso, mesmo que eu percebesse que muita gente resistia a aceitar a sua supremacia. Aliás, esta é mais uma razão para que, sempre que eu achasse que era oportuno, relembrá-lo. Não achava bacana ver um brasileiro tão talentoso meio de escanteio. Bem, agora, vou me limitar a transcrever a matéria de sua morte, pois, como acontece na maioria das vezes, agora que ele se foi, por um bom tempo ninguém vai questionar o quanto ele significava.

Morre Augusto Boal, um dos maiores dramaturgos do Brasil

Publicada em 02/05/2009 às 16h54m

Christina Fuscaldo de Erika Azevedo

O dramaturgo Augusto Boal em 2006 / Foto Leonardo Aversa

RIO - Morreu na madrugada deste sábado aos 78 anos o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal. Expoente do Teatro de Arena de São Paulo (1956 a 1970) e fundador do Teatro do Oprimido (inspirado nas propostas do educador Paulo Freire), ele sofria de leucemia e estava internado na CTI do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. No final de março, ainda teve forças para marcar presença um uma conferência da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Paris, onde recebeu o título de Embaixador Mundial do Teatro.

A notícia foi enviada aos amigos pelo diretor Aderbal Freire-Filho, que lamentou a grande perda para o teatro brasileiro. O último encontro de Aderbal com o amigo foi na sala de espera do consultório do Dr. Flavio Cure Palheiro, médico que monitorou o desenvolvimento da doença de Boal.

- A gente sempre diz que os mortos são insubstituíveis, mas Boal, de fato, o é. Ele é um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. É uma perda irreparável - lamentou Aderbal.

Augusto Pinto Boal nasceu em 16 de março de 1931, na Penha, bairro da zona Norte do Rio. Suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo, notadamente nas três últimas décadas do século XX, sendo largamente empregadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política mas também nas áreas de educação, saúde mental e no sistema prisional. Suas teorias sobre o teatro são estudadas nas principais escolas de teatro do mundo. No jornal inglês The Guardian, já se escreveu que "Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski".

- Boal nos representa no Brasil e fora dele. Há livros traduzidos em francês, holandês, mais de vinte línguas. O Teatro do Oprimido é estudado em muitos países. Se ele falecesse na França, a repercussão ia ser enorme - comenta Aderbal Freire-Filho.

Ao voltar de uma temporada em Nova York - onde estudou Engenharia Química (Columbia University) e dramaturgia (School of Dramatics Arts) e pôde acompanhar as montagens do Actor's Studio, que utlizava o método de interpretação Stanislavski - em 1956, Boal passa a integrar o Teatro de Arena de São Paulo, que tornou-se uma das mais importantes companhias de teatro brasileiras. Com sua experiência, incentivou a encenação de textos brasileiros, de autores como Gianfrancesco Guarnieri, o que livrou o grupo da falência, na década de 50. Essa retomada do Arena causa uma revolução na cena brasileira, abrindo caminho para uma dramaturgia nacional de nomes como Oduvaldo Vianna Filho.

A enciclopédia do Itaú Cultural traz uma análise do crítico Yan Michalski, um dos mais importantes do teatro brasileiro, sobre Boal:

"Até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país".

Com o fechamento do Teatro de Arena, veio o Teatro do Oprimido. Boal dizia que "o Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'". Criada no final da década de 60, em São Paulo, sua técnica utiliza a estética teatral para discutir questões políticas e sociais.

Na década de 70, enquanto esteve exilado em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil, Boal difundiu o método na América Latina e Europa. Na época, Chico Buarque compôs "Meu caro amigo", como uma carta em forma de música, em homenagem ao dramaturgo.

Em 2008, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz devido ao reconhecimento a seu trabalho com o Teatro do Oprimido. No dia 16 de março do mesmo ano, atores, teatrólogos e militantes da cultura comemoraram pela primeira vez o Dia Mundial do Teatro do Oprimido. A data foi escolhida por ser a mesma do nascimento de Augusto Boal. 

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/05/02/morre-augusto-boal-um-dos-maiores-dramaturgos-do-brasil-755596226.asp

Sunday, April 26, 2009

Over Milka


Então, hoje, lá me fui assistir ao desfile da Milka, pensando: esta não é definitivamente a minha praia. Mas, o convite vinha de uma pessoa que eu sei que me quer bem e que gostaria que eu aceitasse. Além disso, convites, em uma época de tempos bicudos, devem ser mesmo aceitos. Não tive que esperar muito para entrar o que já foi uma ótima coisa. 

No “palco”, em pleno Gigantinho, um grupo de cantores/músicos vestidos de mexicanos se apresentavam. Música estranha, mas, familiar. O cinema americano já se encarregou de acharmos isso. Ah, sim, o tema era o México. Por isso, o “cenário” era uma “hacienda” com luzes acesas nas janelas e tudo. No teto, várias “pinatas” penduradas em cores verde, branco e vermelha. Depois, muitas danças. Figurinos coloridos, corpos bonitos, muitos movimentos bem coordenados. Energia boa. Um Zorro invade a “cena”. A dança passa a girar em torno dele. Muitos bailarinos no palco. Ótima sincronia. Crianças também. Uma homenagem a Frida Kahlo. Pinturas e mais danças. Surge, então, o fogo! É o grupo Tholl. Preciso descrever? Palhaços com ricos figurinos, outros em pernas de pau e o malabarismo com as labaredas! Admiração completa. Eu, certamente, já teria queimado o meu lenço da cabeça. Não... pior, já teria incendiado metade do Gigantinho. Sejamos realistas.

Começa, então, o desfile. Roupas lindas. Tecidos deslumbrantes. Nada muito estranho, nem desconfortável. Bem...eu dispensaria um tomara que caia que fez a modelo puxar a roupa mais de uma vez. Mas, na maior parte, vinha a vontade de gritar: - Ei, pode tirar este aí que eu vou para casa com ele agora! Diferentes. Vibrantes. Sensuais. 

Começa a se encaminhar para o fim. Depois de tudo, já deu prá sacar que não vai ser assim por acaso. Entram as pessoas segurando uma bandeira de cada país que já foi homenageado pela “costureira”. Aí vem ela. Recebe flores (grande novidade!). Cai uma chuva de papel prateado. Então, tá. Fim. Nada! Entra um pessoal de escola de samba batucando forte. Ah, agora sim. As pessoas sobem para cumprimentá-la. Afinal, a gente até pode não gostar de alguma parte, mas, com certeza, vai achar algo que fará pensar: não é que valeu a pena?

PS: Infelizmente, a música não foi um ponto forte do desfile. Estar perto das caixas de som não ajudou, mas, a escolha barulhenta e bate-estaca não tinha nada a ver nem com o México, nem com o tipo de público da Milka e, sem dúvida, nada a ver comigo.

Wednesday, April 22, 2009

Pensamento Francês e Cultura Francesa

 Inicia na próxima quarta-feira, 22 de abril, o Ciclo de Palestras Pensamento Francês e Cultura Francesa, promovido por UFRGS, PUCRS, Unilasalle e 55a Feira do livro de Porto Alegre. A atividade faz parte do Ano da França no Brasil, uma homenagem do governo brasileiro à França – em   2005 foi o Ano do Brasil na França. Serão oito encontros, nas três instituições de ensino superior, de abril a novembro.


Na próxima quarta-feira, 22 de abril, o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil falará sobre o tema “Artistas franceses no contexto brasileiro”. A professora Maria Eunice Moreira, da PUCRS, será a mediadora do debate. O encontro está marcado para o horário das 17h30min às 19h, na sala 305 do Prédio 8 da PUC, em Porto Alegre.
As inscrições podem ser feitas no local.


PRÓXIMOS DEBATES

* 20 de Maio  2009 – PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
  Ana Maria Lisboa de Mello (PUCRS/UFRGS): Teorias do Imaginário: Contribuições do Pensamento Francês
    Marina Alves Amorim (RENNES2/ Colégio Doutoral Franco-Brasileiro: Imaginário Francês sobre o Brasil
     Zilá Bernd (UFRGS/LA SALLE): O pensamento francófono e a reinvenção da literatura comparada no Brasil
    Mediador: Robert Ponge

 * 24 de Junho 2009 - PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
   Irmão Justo (Unilasalle): A contribuição Educacional Lasallista Francesa no RS 
  Ir. Evilásio Teixeira (PUCRS): A contribuição Marista no Brasil
 Mediador: Luiz Antonio de Assis Brasil
* 05 de Agosto 2009/ I – UFRGS – Campus do Vale – Instituto de Letras – Auditório Celso Pedro Luft – 14h-15h30
  Rita Olivieri-Godet (Rennes 2/IDA): Imagem do Brasil no Romance Francês Contemporâneo
 Nestor Ponce (Rennes2/IDA): O Naturalismo Francês nas Américas
 Maria Luiza Berwanger da Silva (UFRGS): Presença Francesa na Poesia Brasileira Contemporânea 
  Mediador: Lúcia Rebello
 * 26 de Agosto de 2009/II – PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
  Maria Eunice Moreira (PUCRS):Ferdinand Denis e  História Literária Brasileira
Juremir Machado da Silva (PUCRS):
  Leonardo Tonus (Paris IV): Humilhados, marginais e traidores(o pensamento francês na dialética da não-pertença de Samuel Rawet) 
Mediador: Ana Maria Lisboa de Mello

* 23 de setembro – UNILASALLE – Campus de Canoas – 17h 
   Cleusa Gomes Graebin (UNILASALLE): Impacto da Nova História Francesa na Historiografia Brasileira
   José Rivair Macedo (UFRGS): Intelectuais franceses: aportes à cultura brasileira
Alceu Ferraro (UNILASALLE): O impacto do Pensamento de Bourdier na Educaçãono Brasil
Mediador: Sydney Sabedot

* 04 de Novembro 2009 – 55ª  Feira do Livro de Porto Alegre
   Pierre Rivas (PARIS X): Trajetórias da Cultura Francesa: Herança. Polêmica e Mutação 
Núbia J. Hanciau (FURG): Nancy Huston: uma autora entre dois mundos (França e Canadá)
Bernard Andrès (UQAM): Os aventureiros franceses nas Américas
   Mediador: Zilá Bernd

* 11 de novembro 2009 – UFRGS – Campus do Vale – Instituto de Letras – Auditório Celso Pedro Luft – 14h-15h30
 Robert Ponge (UFRGS): Surrealismo Francês e Cultura Brasileira
Pierre Rivas (Paris X): O Brasil na poesia francesa do séc. XX
 Sergio Bellei (PUCRS): T.S. Elliot e a presença de Edgar Alan Poe na poesia francesa
Mediador: Ricardo Barberena (PUCRS)

 


Thursday, April 16, 2009

Desde quando faxina é cultura?

Chego atrasada, mas, chego. Localizei este texto meio por acaso na internet e achei que, assim como eu não tinha lido ainda, outras pessoas também, talvez, não. E, apesar de não gostar de assinar embaixo antes de confirmar informações,  abro uma exceção, pois, afinal,  se o Luiz Paulo falou, tá falado! 

texto de Luiz Paulo Vasconcellos, publicado em junho de 2008 no Caderno de Cultura da Zero Hora 

A Secretária de Estado da Cultura – e, por tabela, a Governadora também – precisam saber que “a intenção de usar a Cultura para promover a inclusão social” é picaretagem, demagogia ou, para ser um pouquinho mais erudito, uma falácia. Se elas pensam que comovem a sociedade – olha como elas são boazinhas, como estão preocupadas com os pobrezinhos!... – devem logo, logo, tomar consciência de que a sociedade, pelo menos a parcela da sociedade minimamente culta, abomina essa maquiagem com a qual o Governo do Estado conspira contra uma verdadeira política cultural. É claro, cultura é um termo genérico demais, sob o qual cabe desde o Porto Alegre em Cena ou o Museu Iberê Camargo, até “as ações sociais junto às áreas de educação, segurança e saúde”. E isto é cultura? – pergunto eu. Porque os governos têm sido incompetentes e a sociedade refratária à miséria que vai tomando conta das sinaleiras de Porto Alegre, agora a Secretária da Cultura tem que brincar de fada madrinha e promover a troca de “armas de brinquedo” por livros? Que livros, minha senhora? E as armas verdadeiras, o que fazemos com elas? Continuarão sendo usadas em assaltos? Inclusiva a livrarias? E o que dizer sobre o projeto hip-hop e funk? Uma mostra competitiva de grupos com oficinas de rap e grafite. Gente, nem no pior dos governos populistas se promoveu tamanha safadeza. Tem ainda a limpeza dos monumentos históricos e prédios tombados. Um dia no semestre. Em agosto. E desde quando faxina é cultura? E os projetos para a dança, para as artes plásticas, para o teatro, para a música, para a memória cultural, para o cinema, para a literatura? – ah, não, a literatura está contemplada no projeto das tais bancas montáveis em praças de cidades para incentivar a leitura.  E sob essa intenção caridosa esconde-se toda a promiscuidade de uma política que não passa de esmola, se é que chega a tanto.

 

Quando o governador Rigotto tomou posse, publiquei na revista Aplauso uma carta em que dizia: “Se a um governo responsável cumpre, por um lado, reconhecer, incentivar e cultivar as manifestações culturais do povo, por outro, deve necessariamente valorizar seus artistas e intelectuais, porque é através de suas obras que a cultura faz algum sentido para a sociedade. O desenrolar da história serve sempre de modelo. Assim, não será demais recordar o papel da democracia na consolidação da tragédia grega, o da igreja na renovação da cena medieval, o do mecenato na transformação da arquitetura teatral renascentista, para ficarmos com alguns exemplos tirados ao acaso da história do teatro. Eurípedes, Shakespeare, Molière, Ibsen, Beckett e O´Neill, para citar apenas alguns dos grandes, resultaram de políticas culturais definidas, não necessariamente ideais, mas de qualquer modo definidas, que reconheciam no artista um elo de ligação fundamental entre governo e povo, entre sociedade e cultura”. 

 Senhora Secretária: falácia, segundo o Aurélio, quer dizer “qualidade ou caráter de falaz”. Falaz, por sua vez, quer dizer, “1. enganador, ardiloso, fraudulento; 2. vão, quimérico, ilusório, enganoso. No texto do verbete, o exemplo usado é de Euclides da Cunha, e diz: “Será o eterno tatear entre miragens de um processo falaz e duvidoso”. Exatamente como é hoje o projeto de política cultural do Estado. 

Luiz Paulo Vasconcellos

(ator, diretor, professor e poeta)

Wednesday, April 08, 2009

Precisa dizer algo?

Revista Bravo - nº 140 - Abril 2009 - O som e a palavra

Tuesday, April 07, 2009

Livro de cabeceira


Ontem, na disciplina do mestrado, assisti ao filme Livro de Cabeceira de 1996 do diretor Peter Greenaway . Recomendo. Mas, uma das coisas que me pareceram interessantes foi as listas às quais a protagonista se referia. Lista de coisas que dão prazer, por exemplo. Quem acha que é fácil devia experimentar. Eu achei que faria a minha rapidinho. Não foi bem assim.

Pensei que seria uma coisa boa de colocar aqui. Pessoal e instransferível, mas, afinal,  blog se chama Palcos da vida, não é mesmo?

Lista de coisas que dão prazer. Sem ordem de prioridade e sem incluir alimentos e bebidas. Quer dizer...vinho, queijo, chocolate! 

1. Dias de sol
2. Viajar
3. beijo na boca
4. nadar
5. cafuné (acho que até a palavra tá saindo de moda)
6. conversar com amigos
7. risada de criança
8. chocolate
9. lareira
10. cinema
11. teatro
12. escrever
13. ler (mas, não é sempre)
14. banho de mar
15. yoga
16. abraço  (é um gesto recíproco, né?)
17. cantar (faço pouco)
18. ouvir pessoas inteligentes
19. ouvir música
20. dançar (quase nunca faço)
21. aplaudir
22. dormir
23. cozinhar
24. fazer um trababalho bem feito
25. pensar

E por último, mas, nem por isso menos importante, sexo, é claro! 

Saturday, April 04, 2009

A crítica nos bastidores

"No dia que um sujeito atrevido quisesse ter o trabalhão de escrever contra o teatro, devia antes suicidar-se" 

João do Rio - A crítica dos Bastidores - O Percevejo Ano II, nº2, 1994

Wednesday, April 01, 2009

Recomeço

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."

Fernando Sabino

Tuesday, March 31, 2009

Tá e aí?

Há quem diga que devamos esperar para escrever sobre o que acaba de ser visto. Não discordo e nem concordo com esta opinião, mas, simplesmente, não pretendo respeitá-la. Acabo de voltar da comemoração de encerramento de uma temporada do espetáculo “Tá e aí?” (acredito que serão muitas) e confesso que não vou dormir direito enquanto não registrar minhas impressões. Fui assistir algo que levava o nome de duas pessoas muito queridas para mim: Julio Conte e Ian Ramil. Um, embora de tempo na terra semelhante ao meu, anos luz no caminho que eu acabaria escolhendo tardiamente: o teatro. Outro, colega de sala de aula onde demonstrava um talento e uma competência que não passa despercebida. Ou seja, a expectativa era grande. Por razões estritamente particulares, o ânimo não era dos melhores. Mas, lá me fui. Teatro praticamente cheio. Logo de cara a relação palco e platéia se estabelece e começam os jogos. Ian não está em cena.

 

Para quem fez práticas teatrais não são novidades totais, mas, a maneira como vão se apresentando impressiona profundamente. Exatamente por reconhecê-las é que é possível saber o grau de complexidade de algo que parece banal. Improvisar é uma das premissas de quem faz teatro, mas, como exercício testa o ator. Rapidez no raciocínio, disponibilidade, coragem de encarar cada desafio. Tudo está lá. O prazer é intenso. A risada vem fácil. O que acontece faz pensar: não é exatamente isso o teatro? Tendo como mestre primeiro Zé Adão, sendo aluna do DAD desde 2001 e hoje teórica do mestrado de artes cênicas, o espetáculo Tá e Aí condensa tudo e me traz à tona o fascínio completo e absoluto pelo teatro.

Quem pode não gostar de ver que tudo não passa de um jeito de brincar com a realidade, jogar com as palavras e ir além? Lembro de Augusto Boal com suas propostas do teatro fórum, teatro do invisível, teatro no dia-a-dia. “Tá e aí?” é isso tudo e mais. Tive certo receio quando pensei que a platéia deveria interagir. O que, sem dúvida, é ainda mais complicado para o público comum. No entanto, não há coerção. Participa quem, realmente, quer. E apesar de que quase tudo que é feito no palco ser feito nos moldes do que é proposto para os estudantes de teatro, não estamos falando de algo para principiantes. Quem está começando não tem o tempo certo como Rafael Pimenta, nem o jogo de cintura de Eduardo Mendonça e desse menino que não conhecia  ( e com certeza ele não faz a mínima idéia de quem eu seja) Leonardo Barison. Isso sem falar nas convidadas de hoje Ingra Liberato e Juliana Brondane. 

 Fiz várias anotações sobre cada proposta cênica, mas, vejo que nenhuma delas é importante ser registrada (aliás estão no blog para quem quiser saber). Vão ser retomadas nas próximas apresentações? Certamente. Mas, não é isso que importa. O que fica é o prazer de um teatro bem feito, com gente talentosa. Definir cada cena? Para que? Afinal, não é absolutamente delicioso pensar que o que vi hoje não vai ser o que será visto na próxima temporada? Eu quero voltar, mas, mais do que tudo, gostaria que outras pessoas fossem ver um teatro no qual a gente lava alma por ser divertido, por ser feito por gente com tanta competência e resultar em algo tão genial. 

O teatro precisa de mais gente assim que se doe pela arte, que se libere do ego, sem preocupações com a permanência e que, por isso mesmo, seja eterno se não historicamente em nossas memórias. Graças a pessoas assim e a um teatro como este sei que esta arte terá vida longa.

Fiquem atentos a próxima temporada na Álvaro Moreira: 14/21/28/ de abril e 5 de maio.

Créditos:

Direção: Clube da Patifaria.

Jogadores: Eduardo Mendonça, Ian Ramil, Leonardo Barison, Rafael Pimenta e Vicente Vargas.

Mediação: Júlio Conte.

Anfitrião: Mauricião.

Luz e som: Gabriel Lagoas.

http://blogdotaeai.wordpress.com

Faz dias que este verso vem me perseguindo, então, publico aqui. 

Bebeto Alves foi muito feliz quando escreveu:

Nas pegadas das minhas botas

Trago as ruas de Porto Alegre

E na cidade de meus versos

O sonho dos meus amigos

Monday, March 30, 2009

Rebatizemos a crítica!

Vivo em contradição. Não gosto de comprar briga com ninguém. Não sinto prazer em contrariar as pessoas, nem em provocá-las. Mas, preciso reconhecer que não sei deixar passar impunemente coisas ditas que me incomodam.  Cresci em um ambiente polêmico. Meus pais sendo professores sempre debateram assuntos políticos, sociais, econômicos, comportamentais, durante o almoço, na hora do café, nos encontros de família. Era natural para mim. Ficava surpresa quando algum amigo comentava: "a tua casa é tão diferente da minha. Lá, meu pai me diz para eu passar a manteiga. Aqui, vocês comentam as atitudes do presidente!". E não é que era assim mesmo? Provavelmente, venha daí minha escolha pelo jornalismo.  Pronto! Associei minha curiosidade às técnicas de elaborar perguntas de improviso e nunca mais parei.  Meus professores, desde o segundo grau pelo menos, são testemunhas disso. Quem me conhece há pouco tempo (e gosta de mim) ainda estranha. Acha que estou brava. Fica com medo que os outros me tratem mal. Eu perdi este medo faz tempo. Fiz amigos que admiro e respeito com este jeito de ser. Provavelmente, tenha feito alguns inimigos também, mas, eles não se apresentaram e, portanto, não me incomodam. 

Bem, mas, isto tudo é para falar do evento chamado "Estado da Crítica" ao qual me referi antes, pois, apesar de, praticamente, roubar a palavra, ainda tenho alguns comentários para fazer. 

Há um ano atrás, quando preparei meu projeto para o mestrado em Artes Cênicas levantava questões sobre a função da crítica, quem poderia fazer crítica, como formar um crítico. Hoje, depois dos estudos que fiz, percebo que estas questões eram superficiais e estavam impregnadas de conceitos (ou preconceitos) sobre a crítica. Quem tem acompanhado um pouco das minhas descobertas sabe que temi por ter escolhido um tema que já fizesse parte de um passado, morto e enterrado. Felizmente, era só uma impressão.  Aqueles que imaginam isso estão apegados ao termo crítica = julgamento, o que, para arte contemporânea não faz muito sentido.  Hoje, vivemos a valorização da figura do espectador e tomamos consciência de que não podemos falar de UM espectador, mas, de tantos quantos estiverem na platéia. Isso significa que não existe um único espetáculo, mas, o espetáculo que chega a cada um destes que lá está.  Então, não adianta refletir sobre ele? Nada disso. Só não podemos esquecer que aquele que escreve sobre o espetáculo também é espectador. Não sei se privilegiado (como dizia Sábato Magaldi), mas, que não surgiu só para cruzar a porta daquele teatro, mas, também vem de uma família (igual ou diferente da minha), tem uma formação e vivenciou coisas particulares e específicas. Ele é tudo isso, além de uma pessoa que escreve sobre teatro.  É uma figura imprescindível para a existência da arte? Não. Mas, acredito, profundamente, que ele colabore para sua existência, fortalecimento e permanência. Como? Primeiro, ele serve para fazer um registro do que foi apresentado. Não vai ser imparcial. Vai estar impregnado das suas próprias impressões.  Pode fazer avaliações preconceituosas, retrógradas. Afinal, mesmo aqueles que se dedicaram ou dedicam exclusivamente a esta função cometeram erros e, às vezes, até sem querer, tentam induzir o público a rechaçar artistas que acabaram se impondo e mostrando sua genialidade (Nelson Rodrigues é um bom exemplo).  Em segundo, aquele que se dispõe a escrever sobre os espetáculos pode acrescentar informações, trazer um novo olhar sobre aquilo que o público vê e não compreende. Mas, cuidado! Não estou dizendo que será ele a dizer o que devemos ou não gostar.  Nem a apontar a nossa ignorância se criticamos algo que ele considera uma obra-prima ou o contrário, se gostamos de algo que ele odeia e considera uma arte menor.  Não acredito que seja este seu papel.  E quanto a quem pode efetivamente fazer isso, tenho muitas outras questões ainda não resolvidas e que espero minha pesquisa me auxilie a chegar a algumas conclusões. Até agora, o que vi, na história da crítica foi uma disputa de poder entre os veículos de comunicação e a academia, ora um em alta ora outro e, mais recentemente, nenhum. E é neste momento que vão surgindo os espaços virtuais. Ocupados por qualquer um que resolve escrever sobre teatro? Sim, mas, qualquer um que pára tudo que tem para fazer para ir ao teatro, escrever sobre o que viu e expor suas idéias para quem quiser, inclusive, rechaçá-las. Até agora, encontrei na maioria diretores, artistas, produtores e tantas outras pessoas ligadas ao teatro.  Que prejuízo pode haver nisso? Pode induzir a opinião do público a ponto de afastá-lo do teatro? Bem, é preciso observar que nem os considerados maiores críticos conseguiram este feito. Ao contrário, suas opiniões, mesmo que negativas, acabaram contribuindo com a arte. Talvez, de forma prosaica, possa reduzir tudo isso no seguinte ditado: “fale bem ou fale mal, mas, fale de mim.” Este, vale também para as obras de arte e para os artistas.  Da minha parte, como apaixonada por teatro, quero mais é ler algo absurdo sobre um espetáculo em um espaço em que possa dar minha opinião. E para não perder o hábito, devo dizer que não concordo com Antonio Holfeldt (audácia minha) quando ele diz que a crítica é um gênero jornalístico, pois, como não chamar de crítica o que começa a surgir nos espaços virtuais não elaborados por jornalistas? E se é questão de nomenclatura, rebatizemos a crítica!

Saturday, March 28, 2009

Bem, acho que não preciso dizer que tive que "juntar meus caquinhos para ir ao Seminário sobre Crítica de teatro no Gasômetro ontem, mas, achei que devido a minha escolha de pesquisa era algo imperdível. Pensei que entraria por uma porta, sentaria calma e quieta para ouvir e viria embora uma hora depois. Por que será que eu ainda me minto desta maneira? Quem me conhece sabe que dificilmente isto irá acontecer enquanto eu estiver viva. Não deu outra. Eu tentei. Mas, quem estava lá sabe que fui provocada pelas declarações feitas pelos convidados. Na mesa: Antônio Holfeldt, Renato Mendonça. Luis Paulo Vasconcellos e Julio Conte. Após a fala de todos, veio a abertura para o debate. Alguns minutos de silêncio. Tempo suficiente para as questões que tinham ficado me provocando resultarem na minha fala. Outra hora, talvez, até fale mais sobre isso, pois mais uma vez confirmei que a escolha do meu tema de pesquisa "Crítica teatral na era digital" não foi para buscar um título, mas, é uma paixão que me move. Sendo assim, obviamente, tenho mais coisas a dizer, mas, como estou em fase de "convalescência" prefiro publicar o texto do blog de Julio Conte (http://julioconte.blogspot.com):
O DEBATE SOBRE A CRITICA


Conforme prometi, vou contar um pouco, sobre o debate ocorrido na Usina do Gasometro na sexta feira, dia do teatro. Presente no local poucas pessoas, o menor publico de todos os debates. Dizem que foi a sexta feira, o engarrafamento na saida do Centro, o calor etc. Acho que os teatreiros ainda não aprenderam a debater. Mas quem participou de outros jura que foi o melhor dabate.
Ponto negativo foi que não havia nenhum editor, nem da ZH, nem da Revista Aplauso, nem nenhum outro.
Momentos de tensão marcaram as primeiras intervenções do público. Quem mais sofre foi o Renato Mendonça tendo que defender a linha editorial da ZH. A fala inicial dele foi ótima, mas deixou uma gafe ao se referir ao teatro como algo pobre. Pressionado se atrapalhou.
Luiz Paulo estava com a sobriedade que lhe é característica. Quando questionado na dupla função de critico da Revista Aplauso e artista mostrou que está atento a esta contradição.
Eu falei sobre a transitoriedade do teatro e de como isso se manifesta no sistema crítico. Teatro sofre da urgência de existir. Mas o grande nome que emergiu do dabate foi Antonio Holhfeldt. Matou a pau. Carismático, centrado e sábio expos sua trajetória no Correio do Povo e no Jornal do Comercio. De quebra contou que a ZH não o quis como crítico. Antonio é um pedaço da história do teatro gaúcho. Da platéia Helena Mello, jornalista que pesquisa blogs de teatro, foi muitas vezes incisiva e Rodrigo Monteiro mostrou que está cada vez mais preparado para ocupar um lugar de destaque na refexão sobre teatro. O que me surpreendeu foi de como blog incomoda a imprensa oficial. Acho que é porque publica a voz de quem não tem voz e as pessoas estão cansadas de versões oficiais. Querem intimidade, querem o detalhe, o sentimento particular, querem alguma coisa mais do que a pasteurização da informação.
Confesso que sai feliz.

Outro dia publico minha fala, pois como sabia que estava frente a três feras bem articuladas, levei o texto por escrito. Ler me ajudou e ficou o registro.

Ah, e terça tem TA E AI com participação da Ingra Liberato e da Ju Brondani.

Friday, March 27, 2009

A arte de escrever

Algumas pessoas comentaram que escrever bem era de família...Sem falsa modéstia, estou começando a acreditar que elas têm razão. Transcrevo abaixo um texto da minha tia Dulce Menegassi:
 

Meu primeiro herói

 

Ao longo da vida, quem tem sorte, tem alguns heróis.

Tive sorte, tenho alguns: de ficção, muitos, reais, nem tantos, mas, o primeiro e real a gente não esquece.

Tinha quatro anos, ele cinco. Morávamos em Teresópolis há pelo menos 30: nós, nossos pais, um irmão de três anos e nossos avós.

Aos Domingos, muitos parentes, após a missa dominical, iam lá nos visitar e colher frutas, a chácara em que morávamos era pródiga nas mais variadas árvores frutíferas.

Nossa avó nos chamava:

- Crianças! Venham cumprimentar os tios e primos!

Após o protocolo, ela nos despedia:

- Agora, podem ir brincar.

Lá íamos nós. Felizes da vida fazer o que mais gostávamos: correr e brincar pela imensa chácara.

Nos fundos da chácara havia um córrego. Era uma festa! Molhávamos os pés, colocávamos barquinhos de papel na água, atirávamos água uns nos outros.

Um dia, ao tirar a sandalinha nova, domingueira, um pé caiu na água e começou a ser levada pela correnteza. Eu, muito aflita, comecei a gritar e a chorar.

Neste momento o “meu herói” entrou na água, sem medo e me trouxe a sandália de volta.

Faz mais de 70 anos, mas, eu nunca esqueci o fato e há pouco tempo o relembrei com o meu irmão Procópio. Ele também lembrava e rimos junto. Procópio, meu irmão...meu primeiro herói! Que saudades...

 
 
 

Sunday, March 22, 2009

Gênio Indomável


Meu pai se foi esta semana. Lembro das várias vezes que o meu temperamento e o dele se esbarravam. Em menos de cinco minutos conseguíamos começar uma discussão. Talvez, os astros expliquem: somos signos complementares. Ele ariano, eu libra. Não, meu pai não era uma pessoa fácil. Levei muito tempo (e alguns anos de terapia) para entender que devia olhar para suas atitudes e não me incomodar com o seu discurso.

Ele achava que devia me preparar para o que ia encontrar fora de casa e procurava dizer coisas que fortalecessem minha personalidade. Não funcionava. Suas palavras me desestabilizavam de tal forma que quando comecei a enfrentar o mundo lá fora nada me pareceu tão difícil. Já há algum tempo compreendi que a força das palavras daqueles que a gente ama é muito maior do que a dos possíveis inimigos que possam cruzar nosso caminho.  Mas, reconheço que devo a ele minha capacidade de refletir sobre as coisas e organizar meu pensamento. Na minha casa, todo dia era dia de debate!

Meu pai radicalizava suas idéias, tinha dificuldade em expressar seus sentimentos. Mas, bastava um pequeno contato com suas atitudes para descobrir uma das pessoas mais interessadas no bem estar alheio que já conheci. E não digo isso apenas por ser sua filha. Tenho certeza de que qualquer pessoa que saiba que ele há mais de 30 anos repassava todos os ganhos que havia conquistado com seu trabalho, ao longo de uma vida, para os seus, concordará comigo. Nunca falava em comprar algo, fosse um carro novo ou uma camisa. Mas, era muito consciente de que as coisas custavam dinheiro e se preocupava, frequentemente, com o nosso futuro. Aliás, foi isso que o fez enfrentar um concurso e ser bancário por 25 anos, quando sua paixão era ser professor, o que ele fazia paralelamente.

Seu jeito irônico, muitas vezes, me feria. E quando eu consegui, finalmente, verbalizar isso. Ouvi dele uma confissão: a ironia é a arma dos covardes. Coisa que, sem dúvida, ele não era. É preciso coragem para acreditar em um projeto como ele acreditava, de investir tanto tempo em um ideal, de bater em portas fechadas para idéias novas e ir aos pouquinhos conseguindo entrar. 

Há mais de 30 anos, foi ter um ataque do coração em Paris. Anos depois, fez pontes de safena. Depois, vieram várias outras complicações de saúde. Nada o derrubava. “Um Fênix” consideravam os médicos. Nestes últimos anos, entrou e saiu do hospital algumas vezes. Em 2007, instigado pela minha mãe, elaborou um livro chamado Enigmas do Futuro com várias histórias lógicas inéditas cheias de criatividade e depoimentos de pessoas ligadas à educação elogiando seu trabalho.

Para muitos, era um gênio. Afinal, a partir dos seus conhecimentos e estudos, criou algo inédito com o objetivo de ajudar as pessoas a pensar. Investiu tempo de vida nisso. Enquanto teve energia, era obsessivo na tarefa de repassar seus conhecimentos. Tinha pressa, se angustiava e era incansável na tentativa de convencer as pessoas de que algo diferente, novo, era bom. Quando ele mesmo começava a duvidar, alguém vinha lhe dizer o quanto o seu trabalho havia mudado sua vida.

Amigos me dizem que o reconhecimento do que ele fez ainda está por acontecer. Não duvido. Assim, como aconteceu comigo, será preciso tempo para que as pessoas entendam uma mente como a do meu pai. Não. Meu pai não era perfeito, mas, não tenho dúvidas, de que era um homem a frente do seu tempo, o que dificultou até mesmo a sua família de compreendê-lo melhor, mas, isso não nos impediu de amá-lo, embora ele possa ter partido sem ter certeza disso. Sabemos, no entanto, que é isso que acontece com pessoas geniais. 

Saturday, March 21, 2009

O homem de cinzento não pode esperar *


Vera Mello

Meu pai se foi na última quarta feira do verão e me deixou seu nariz adunco, mesmo nariz do pensador grego Aristóteles cujo busto da era romana foi encontrado sob a Acrópole, em Atenas. Me deixou igualmente suas sombrancelhas grossas e sua audácia em escrever histórias cujo os nomes seguem uma lógica muito peculiar. Meu pai me deixou também um legado que eu me apropriei antes mesmo de sua partida. Ele me ensinou a aceitar com ironia aquilo que não podemos mudar embora o dito seja "Que Deus nos dê "coragem" para...Assador de renome, entre os inúmeros frequentadores da casa e de paladar "gourmand", enquanto aguardava sua hora, meu pai buscou rever passagens da sua vida naquilo que degustava. Isso, talvez justifique seus desejos bizarros parecendo um "enfermo glutão". Eu, há pouco recebi dele, um "pedido solene" de preparar um arroz com coração de galinha. E me perguntei por que, entre os bolinhos de bacalhau do Chalé da Praça XV, as batatas fritas do kioske da praia, o camarão do restaurante chinês, a massa com gorgonzola feita em casa, e uma tainha na brasa, meu coração era tão importante. Até que compreendi que ele, estava reconstruindo sua história (da qual eu fazia parte e me encaixava tão bem) na lógica dele. Na prática, passamos meses compartilhando e degustando a mesa, lembranças de um passado feliz. Em tese esse parece ter sido o pensamento de um professor tão admirado por respeitar a lógica particular de cada um.

* O título é uma referência a um personagem criado pelo meu pai (no estilo Sherlock Holmes) para os seus enigmas

Friday, March 20, 2009

Meu herói, meu bandido


Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...


letras acima

Thursday, March 19, 2009


Os ventos que às vezes tiram algo de nós são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar. Por isso, não devemos chorar pelo que foi tirado e sim aprender a amar o que nos foi dado, pois o que, realmente, é nosso, nunca se vai para sempre.
Bob Marley

Sunday, March 15, 2009

Sunday night fever


“Chupa o meu pau”. Esta é apenas uma das frases que não passariam na censura da minha mãe tão facilmente e que estão em um filme que assisti quando tinha uns 15 anos: Embalos de sábado à noite (Saturday night fever, 1977). Tinha na minha memória adolescente um filme com músicas dançantes, aquela roupa branca e preta inesquecível do John Travolta (veja na foto) e seu rebolado impagável pelas ruas. No entanto, fui assistir hoje na televisão e vi que havia muito mais por trás. 

Os cuidados extremados do protagonista com a sua aparência, seus gestos e posturas já não me pareciam tão masculinos a ponto de despertar a paixão de tantas mulheres como aconteceu na época. Mas, não é apenas isso. Streep-tease, cenas de sexo, estupro, drogas, mortes e violências outras. Tudo aparece no filme que havia me parecido inocente.

Hoje, chega a ser engraçada a cena na qual Tony levanta da mesa do jantar e começa a juntar os pratos e seu pai diz para que ele não faça aquilo, pois as mulheres irão fazer. Quem diria... De qualquer forma, ele trata as mulheres com total desrespeito e se mete em várias situações “politicamente incorretas”. Talvez, a única atitude que indique o seu bom caráter seja a entrega do prêmio do concurso final aos concorrentes que ele considerou melhor do que ele. No mundo real, porém, isso não fez a menor diferença. Os fãs do filme nem se lembram mais da dança do outro casal e sim dos rodopios do galã.

 É bem verdade que a trilha é maravilhosamente dançante. Ainda lembro da euforia e do modismo que se criou no Brasil nas discotecas. Todos imitávamos ou já imitamos alguma vez Tony Manero e seus gestos na pista. Não é à-toa que John Travolta recebeu a indicação ao Oscar e levou seis milhões de pessoas aos cinemas no Brasil. As músicas dos Bee Gees marcaram toda uma geração com More Than Woman”, “How Deep is Your Love”, “Night Fever”, “Staying Alive”. O álbum permaneceu um total de 24 semanas no 1.º lugar das paradas e vendeu eventualmente mais de 30 milhões de cópias (hoje este número chega a 50 milhões), tornando-se um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Considerada a trilha sonora mais vendida da história.

Mas, Tony está longe de ser um herói e o filme não é a historinha de dança que a minha mãe achou que eu tinha ido assistir naquela tarde da década de 70. 

PS: Eu que nunca mais tinha ouvido falar de karen Gorney (a partner de Tony Manero), descobri que no ano passado ela fez Margaret em Ricardo III.