Sunday, April 26, 2009

Over Milka


Então, hoje, lá me fui assistir ao desfile da Milka, pensando: esta não é definitivamente a minha praia. Mas, o convite vinha de uma pessoa que eu sei que me quer bem e que gostaria que eu aceitasse. Além disso, convites, em uma época de tempos bicudos, devem ser mesmo aceitos. Não tive que esperar muito para entrar o que já foi uma ótima coisa. 

No “palco”, em pleno Gigantinho, um grupo de cantores/músicos vestidos de mexicanos se apresentavam. Música estranha, mas, familiar. O cinema americano já se encarregou de acharmos isso. Ah, sim, o tema era o México. Por isso, o “cenário” era uma “hacienda” com luzes acesas nas janelas e tudo. No teto, várias “pinatas” penduradas em cores verde, branco e vermelha. Depois, muitas danças. Figurinos coloridos, corpos bonitos, muitos movimentos bem coordenados. Energia boa. Um Zorro invade a “cena”. A dança passa a girar em torno dele. Muitos bailarinos no palco. Ótima sincronia. Crianças também. Uma homenagem a Frida Kahlo. Pinturas e mais danças. Surge, então, o fogo! É o grupo Tholl. Preciso descrever? Palhaços com ricos figurinos, outros em pernas de pau e o malabarismo com as labaredas! Admiração completa. Eu, certamente, já teria queimado o meu lenço da cabeça. Não... pior, já teria incendiado metade do Gigantinho. Sejamos realistas.

Começa, então, o desfile. Roupas lindas. Tecidos deslumbrantes. Nada muito estranho, nem desconfortável. Bem...eu dispensaria um tomara que caia que fez a modelo puxar a roupa mais de uma vez. Mas, na maior parte, vinha a vontade de gritar: - Ei, pode tirar este aí que eu vou para casa com ele agora! Diferentes. Vibrantes. Sensuais. 

Começa a se encaminhar para o fim. Depois de tudo, já deu prá sacar que não vai ser assim por acaso. Entram as pessoas segurando uma bandeira de cada país que já foi homenageado pela “costureira”. Aí vem ela. Recebe flores (grande novidade!). Cai uma chuva de papel prateado. Então, tá. Fim. Nada! Entra um pessoal de escola de samba batucando forte. Ah, agora sim. As pessoas sobem para cumprimentá-la. Afinal, a gente até pode não gostar de alguma parte, mas, com certeza, vai achar algo que fará pensar: não é que valeu a pena?

PS: Infelizmente, a música não foi um ponto forte do desfile. Estar perto das caixas de som não ajudou, mas, a escolha barulhenta e bate-estaca não tinha nada a ver nem com o México, nem com o tipo de público da Milka e, sem dúvida, nada a ver comigo.

Wednesday, April 22, 2009

Pensamento Francês e Cultura Francesa

 Inicia na próxima quarta-feira, 22 de abril, o Ciclo de Palestras Pensamento Francês e Cultura Francesa, promovido por UFRGS, PUCRS, Unilasalle e 55a Feira do livro de Porto Alegre. A atividade faz parte do Ano da França no Brasil, uma homenagem do governo brasileiro à França – em   2005 foi o Ano do Brasil na França. Serão oito encontros, nas três instituições de ensino superior, de abril a novembro.


Na próxima quarta-feira, 22 de abril, o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil falará sobre o tema “Artistas franceses no contexto brasileiro”. A professora Maria Eunice Moreira, da PUCRS, será a mediadora do debate. O encontro está marcado para o horário das 17h30min às 19h, na sala 305 do Prédio 8 da PUC, em Porto Alegre.
As inscrições podem ser feitas no local.


PRÓXIMOS DEBATES

* 20 de Maio  2009 – PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
  Ana Maria Lisboa de Mello (PUCRS/UFRGS): Teorias do Imaginário: Contribuições do Pensamento Francês
    Marina Alves Amorim (RENNES2/ Colégio Doutoral Franco-Brasileiro: Imaginário Francês sobre o Brasil
     Zilá Bernd (UFRGS/LA SALLE): O pensamento francófono e a reinvenção da literatura comparada no Brasil
    Mediador: Robert Ponge

 * 24 de Junho 2009 - PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
   Irmão Justo (Unilasalle): A contribuição Educacional Lasallista Francesa no RS 
  Ir. Evilásio Teixeira (PUCRS): A contribuição Marista no Brasil
 Mediador: Luiz Antonio de Assis Brasil
* 05 de Agosto 2009/ I – UFRGS – Campus do Vale – Instituto de Letras – Auditório Celso Pedro Luft – 14h-15h30
  Rita Olivieri-Godet (Rennes 2/IDA): Imagem do Brasil no Romance Francês Contemporâneo
 Nestor Ponce (Rennes2/IDA): O Naturalismo Francês nas Américas
 Maria Luiza Berwanger da Silva (UFRGS): Presença Francesa na Poesia Brasileira Contemporânea 
  Mediador: Lúcia Rebello
 * 26 de Agosto de 2009/II – PUCRS – 17h30-19h – sala 305 – Prédio 8
  Maria Eunice Moreira (PUCRS):Ferdinand Denis e  História Literária Brasileira
Juremir Machado da Silva (PUCRS):
  Leonardo Tonus (Paris IV): Humilhados, marginais e traidores(o pensamento francês na dialética da não-pertença de Samuel Rawet) 
Mediador: Ana Maria Lisboa de Mello

* 23 de setembro – UNILASALLE – Campus de Canoas – 17h 
   Cleusa Gomes Graebin (UNILASALLE): Impacto da Nova História Francesa na Historiografia Brasileira
   José Rivair Macedo (UFRGS): Intelectuais franceses: aportes à cultura brasileira
Alceu Ferraro (UNILASALLE): O impacto do Pensamento de Bourdier na Educaçãono Brasil
Mediador: Sydney Sabedot

* 04 de Novembro 2009 – 55ª  Feira do Livro de Porto Alegre
   Pierre Rivas (PARIS X): Trajetórias da Cultura Francesa: Herança. Polêmica e Mutação 
Núbia J. Hanciau (FURG): Nancy Huston: uma autora entre dois mundos (França e Canadá)
Bernard Andrès (UQAM): Os aventureiros franceses nas Américas
   Mediador: Zilá Bernd

* 11 de novembro 2009 – UFRGS – Campus do Vale – Instituto de Letras – Auditório Celso Pedro Luft – 14h-15h30
 Robert Ponge (UFRGS): Surrealismo Francês e Cultura Brasileira
Pierre Rivas (Paris X): O Brasil na poesia francesa do séc. XX
 Sergio Bellei (PUCRS): T.S. Elliot e a presença de Edgar Alan Poe na poesia francesa
Mediador: Ricardo Barberena (PUCRS)

 


Thursday, April 16, 2009

Desde quando faxina é cultura?

Chego atrasada, mas, chego. Localizei este texto meio por acaso na internet e achei que, assim como eu não tinha lido ainda, outras pessoas também, talvez, não. E, apesar de não gostar de assinar embaixo antes de confirmar informações,  abro uma exceção, pois, afinal,  se o Luiz Paulo falou, tá falado! 

texto de Luiz Paulo Vasconcellos, publicado em junho de 2008 no Caderno de Cultura da Zero Hora 

A Secretária de Estado da Cultura – e, por tabela, a Governadora também – precisam saber que “a intenção de usar a Cultura para promover a inclusão social” é picaretagem, demagogia ou, para ser um pouquinho mais erudito, uma falácia. Se elas pensam que comovem a sociedade – olha como elas são boazinhas, como estão preocupadas com os pobrezinhos!... – devem logo, logo, tomar consciência de que a sociedade, pelo menos a parcela da sociedade minimamente culta, abomina essa maquiagem com a qual o Governo do Estado conspira contra uma verdadeira política cultural. É claro, cultura é um termo genérico demais, sob o qual cabe desde o Porto Alegre em Cena ou o Museu Iberê Camargo, até “as ações sociais junto às áreas de educação, segurança e saúde”. E isto é cultura? – pergunto eu. Porque os governos têm sido incompetentes e a sociedade refratária à miséria que vai tomando conta das sinaleiras de Porto Alegre, agora a Secretária da Cultura tem que brincar de fada madrinha e promover a troca de “armas de brinquedo” por livros? Que livros, minha senhora? E as armas verdadeiras, o que fazemos com elas? Continuarão sendo usadas em assaltos? Inclusiva a livrarias? E o que dizer sobre o projeto hip-hop e funk? Uma mostra competitiva de grupos com oficinas de rap e grafite. Gente, nem no pior dos governos populistas se promoveu tamanha safadeza. Tem ainda a limpeza dos monumentos históricos e prédios tombados. Um dia no semestre. Em agosto. E desde quando faxina é cultura? E os projetos para a dança, para as artes plásticas, para o teatro, para a música, para a memória cultural, para o cinema, para a literatura? – ah, não, a literatura está contemplada no projeto das tais bancas montáveis em praças de cidades para incentivar a leitura.  E sob essa intenção caridosa esconde-se toda a promiscuidade de uma política que não passa de esmola, se é que chega a tanto.

 

Quando o governador Rigotto tomou posse, publiquei na revista Aplauso uma carta em que dizia: “Se a um governo responsável cumpre, por um lado, reconhecer, incentivar e cultivar as manifestações culturais do povo, por outro, deve necessariamente valorizar seus artistas e intelectuais, porque é através de suas obras que a cultura faz algum sentido para a sociedade. O desenrolar da história serve sempre de modelo. Assim, não será demais recordar o papel da democracia na consolidação da tragédia grega, o da igreja na renovação da cena medieval, o do mecenato na transformação da arquitetura teatral renascentista, para ficarmos com alguns exemplos tirados ao acaso da história do teatro. Eurípedes, Shakespeare, Molière, Ibsen, Beckett e O´Neill, para citar apenas alguns dos grandes, resultaram de políticas culturais definidas, não necessariamente ideais, mas de qualquer modo definidas, que reconheciam no artista um elo de ligação fundamental entre governo e povo, entre sociedade e cultura”. 

 Senhora Secretária: falácia, segundo o Aurélio, quer dizer “qualidade ou caráter de falaz”. Falaz, por sua vez, quer dizer, “1. enganador, ardiloso, fraudulento; 2. vão, quimérico, ilusório, enganoso. No texto do verbete, o exemplo usado é de Euclides da Cunha, e diz: “Será o eterno tatear entre miragens de um processo falaz e duvidoso”. Exatamente como é hoje o projeto de política cultural do Estado. 

Luiz Paulo Vasconcellos

(ator, diretor, professor e poeta)

Wednesday, April 08, 2009

Precisa dizer algo?

Revista Bravo - nº 140 - Abril 2009 - O som e a palavra

Tuesday, April 07, 2009

Livro de cabeceira


Ontem, na disciplina do mestrado, assisti ao filme Livro de Cabeceira de 1996 do diretor Peter Greenaway . Recomendo. Mas, uma das coisas que me pareceram interessantes foi as listas às quais a protagonista se referia. Lista de coisas que dão prazer, por exemplo. Quem acha que é fácil devia experimentar. Eu achei que faria a minha rapidinho. Não foi bem assim.

Pensei que seria uma coisa boa de colocar aqui. Pessoal e instransferível, mas, afinal,  blog se chama Palcos da vida, não é mesmo?

Lista de coisas que dão prazer. Sem ordem de prioridade e sem incluir alimentos e bebidas. Quer dizer...vinho, queijo, chocolate! 

1. Dias de sol
2. Viajar
3. beijo na boca
4. nadar
5. cafuné (acho que até a palavra tá saindo de moda)
6. conversar com amigos
7. risada de criança
8. chocolate
9. lareira
10. cinema
11. teatro
12. escrever
13. ler (mas, não é sempre)
14. banho de mar
15. yoga
16. abraço  (é um gesto recíproco, né?)
17. cantar (faço pouco)
18. ouvir pessoas inteligentes
19. ouvir música
20. dançar (quase nunca faço)
21. aplaudir
22. dormir
23. cozinhar
24. fazer um trababalho bem feito
25. pensar

E por último, mas, nem por isso menos importante, sexo, é claro! 

Saturday, April 04, 2009

A crítica nos bastidores

"No dia que um sujeito atrevido quisesse ter o trabalhão de escrever contra o teatro, devia antes suicidar-se" 

João do Rio - A crítica dos Bastidores - O Percevejo Ano II, nº2, 1994

Wednesday, April 01, 2009

Recomeço

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."

Fernando Sabino

Tuesday, March 31, 2009

Tá e aí?

Há quem diga que devamos esperar para escrever sobre o que acaba de ser visto. Não discordo e nem concordo com esta opinião, mas, simplesmente, não pretendo respeitá-la. Acabo de voltar da comemoração de encerramento de uma temporada do espetáculo “Tá e aí?” (acredito que serão muitas) e confesso que não vou dormir direito enquanto não registrar minhas impressões. Fui assistir algo que levava o nome de duas pessoas muito queridas para mim: Julio Conte e Ian Ramil. Um, embora de tempo na terra semelhante ao meu, anos luz no caminho que eu acabaria escolhendo tardiamente: o teatro. Outro, colega de sala de aula onde demonstrava um talento e uma competência que não passa despercebida. Ou seja, a expectativa era grande. Por razões estritamente particulares, o ânimo não era dos melhores. Mas, lá me fui. Teatro praticamente cheio. Logo de cara a relação palco e platéia se estabelece e começam os jogos. Ian não está em cena.

 

Para quem fez práticas teatrais não são novidades totais, mas, a maneira como vão se apresentando impressiona profundamente. Exatamente por reconhecê-las é que é possível saber o grau de complexidade de algo que parece banal. Improvisar é uma das premissas de quem faz teatro, mas, como exercício testa o ator. Rapidez no raciocínio, disponibilidade, coragem de encarar cada desafio. Tudo está lá. O prazer é intenso. A risada vem fácil. O que acontece faz pensar: não é exatamente isso o teatro? Tendo como mestre primeiro Zé Adão, sendo aluna do DAD desde 2001 e hoje teórica do mestrado de artes cênicas, o espetáculo Tá e Aí condensa tudo e me traz à tona o fascínio completo e absoluto pelo teatro.

Quem pode não gostar de ver que tudo não passa de um jeito de brincar com a realidade, jogar com as palavras e ir além? Lembro de Augusto Boal com suas propostas do teatro fórum, teatro do invisível, teatro no dia-a-dia. “Tá e aí?” é isso tudo e mais. Tive certo receio quando pensei que a platéia deveria interagir. O que, sem dúvida, é ainda mais complicado para o público comum. No entanto, não há coerção. Participa quem, realmente, quer. E apesar de que quase tudo que é feito no palco ser feito nos moldes do que é proposto para os estudantes de teatro, não estamos falando de algo para principiantes. Quem está começando não tem o tempo certo como Rafael Pimenta, nem o jogo de cintura de Eduardo Mendonça e desse menino que não conhecia  ( e com certeza ele não faz a mínima idéia de quem eu seja) Leonardo Barison. Isso sem falar nas convidadas de hoje Ingra Liberato e Juliana Brondane. 

 Fiz várias anotações sobre cada proposta cênica, mas, vejo que nenhuma delas é importante ser registrada (aliás estão no blog para quem quiser saber). Vão ser retomadas nas próximas apresentações? Certamente. Mas, não é isso que importa. O que fica é o prazer de um teatro bem feito, com gente talentosa. Definir cada cena? Para que? Afinal, não é absolutamente delicioso pensar que o que vi hoje não vai ser o que será visto na próxima temporada? Eu quero voltar, mas, mais do que tudo, gostaria que outras pessoas fossem ver um teatro no qual a gente lava alma por ser divertido, por ser feito por gente com tanta competência e resultar em algo tão genial. 

O teatro precisa de mais gente assim que se doe pela arte, que se libere do ego, sem preocupações com a permanência e que, por isso mesmo, seja eterno se não historicamente em nossas memórias. Graças a pessoas assim e a um teatro como este sei que esta arte terá vida longa.

Fiquem atentos a próxima temporada na Álvaro Moreira: 14/21/28/ de abril e 5 de maio.

Créditos:

Direção: Clube da Patifaria.

Jogadores: Eduardo Mendonça, Ian Ramil, Leonardo Barison, Rafael Pimenta e Vicente Vargas.

Mediação: Júlio Conte.

Anfitrião: Mauricião.

Luz e som: Gabriel Lagoas.

http://blogdotaeai.wordpress.com

Faz dias que este verso vem me perseguindo, então, publico aqui. 

Bebeto Alves foi muito feliz quando escreveu:

Nas pegadas das minhas botas

Trago as ruas de Porto Alegre

E na cidade de meus versos

O sonho dos meus amigos

Monday, March 30, 2009

Rebatizemos a crítica!

Vivo em contradição. Não gosto de comprar briga com ninguém. Não sinto prazer em contrariar as pessoas, nem em provocá-las. Mas, preciso reconhecer que não sei deixar passar impunemente coisas ditas que me incomodam.  Cresci em um ambiente polêmico. Meus pais sendo professores sempre debateram assuntos políticos, sociais, econômicos, comportamentais, durante o almoço, na hora do café, nos encontros de família. Era natural para mim. Ficava surpresa quando algum amigo comentava: "a tua casa é tão diferente da minha. Lá, meu pai me diz para eu passar a manteiga. Aqui, vocês comentam as atitudes do presidente!". E não é que era assim mesmo? Provavelmente, venha daí minha escolha pelo jornalismo.  Pronto! Associei minha curiosidade às técnicas de elaborar perguntas de improviso e nunca mais parei.  Meus professores, desde o segundo grau pelo menos, são testemunhas disso. Quem me conhece há pouco tempo (e gosta de mim) ainda estranha. Acha que estou brava. Fica com medo que os outros me tratem mal. Eu perdi este medo faz tempo. Fiz amigos que admiro e respeito com este jeito de ser. Provavelmente, tenha feito alguns inimigos também, mas, eles não se apresentaram e, portanto, não me incomodam. 

Bem, mas, isto tudo é para falar do evento chamado "Estado da Crítica" ao qual me referi antes, pois, apesar de, praticamente, roubar a palavra, ainda tenho alguns comentários para fazer. 

Há um ano atrás, quando preparei meu projeto para o mestrado em Artes Cênicas levantava questões sobre a função da crítica, quem poderia fazer crítica, como formar um crítico. Hoje, depois dos estudos que fiz, percebo que estas questões eram superficiais e estavam impregnadas de conceitos (ou preconceitos) sobre a crítica. Quem tem acompanhado um pouco das minhas descobertas sabe que temi por ter escolhido um tema que já fizesse parte de um passado, morto e enterrado. Felizmente, era só uma impressão.  Aqueles que imaginam isso estão apegados ao termo crítica = julgamento, o que, para arte contemporânea não faz muito sentido.  Hoje, vivemos a valorização da figura do espectador e tomamos consciência de que não podemos falar de UM espectador, mas, de tantos quantos estiverem na platéia. Isso significa que não existe um único espetáculo, mas, o espetáculo que chega a cada um destes que lá está.  Então, não adianta refletir sobre ele? Nada disso. Só não podemos esquecer que aquele que escreve sobre o espetáculo também é espectador. Não sei se privilegiado (como dizia Sábato Magaldi), mas, que não surgiu só para cruzar a porta daquele teatro, mas, também vem de uma família (igual ou diferente da minha), tem uma formação e vivenciou coisas particulares e específicas. Ele é tudo isso, além de uma pessoa que escreve sobre teatro.  É uma figura imprescindível para a existência da arte? Não. Mas, acredito, profundamente, que ele colabore para sua existência, fortalecimento e permanência. Como? Primeiro, ele serve para fazer um registro do que foi apresentado. Não vai ser imparcial. Vai estar impregnado das suas próprias impressões.  Pode fazer avaliações preconceituosas, retrógradas. Afinal, mesmo aqueles que se dedicaram ou dedicam exclusivamente a esta função cometeram erros e, às vezes, até sem querer, tentam induzir o público a rechaçar artistas que acabaram se impondo e mostrando sua genialidade (Nelson Rodrigues é um bom exemplo).  Em segundo, aquele que se dispõe a escrever sobre os espetáculos pode acrescentar informações, trazer um novo olhar sobre aquilo que o público vê e não compreende. Mas, cuidado! Não estou dizendo que será ele a dizer o que devemos ou não gostar.  Nem a apontar a nossa ignorância se criticamos algo que ele considera uma obra-prima ou o contrário, se gostamos de algo que ele odeia e considera uma arte menor.  Não acredito que seja este seu papel.  E quanto a quem pode efetivamente fazer isso, tenho muitas outras questões ainda não resolvidas e que espero minha pesquisa me auxilie a chegar a algumas conclusões. Até agora, o que vi, na história da crítica foi uma disputa de poder entre os veículos de comunicação e a academia, ora um em alta ora outro e, mais recentemente, nenhum. E é neste momento que vão surgindo os espaços virtuais. Ocupados por qualquer um que resolve escrever sobre teatro? Sim, mas, qualquer um que pára tudo que tem para fazer para ir ao teatro, escrever sobre o que viu e expor suas idéias para quem quiser, inclusive, rechaçá-las. Até agora, encontrei na maioria diretores, artistas, produtores e tantas outras pessoas ligadas ao teatro.  Que prejuízo pode haver nisso? Pode induzir a opinião do público a ponto de afastá-lo do teatro? Bem, é preciso observar que nem os considerados maiores críticos conseguiram este feito. Ao contrário, suas opiniões, mesmo que negativas, acabaram contribuindo com a arte. Talvez, de forma prosaica, possa reduzir tudo isso no seguinte ditado: “fale bem ou fale mal, mas, fale de mim.” Este, vale também para as obras de arte e para os artistas.  Da minha parte, como apaixonada por teatro, quero mais é ler algo absurdo sobre um espetáculo em um espaço em que possa dar minha opinião. E para não perder o hábito, devo dizer que não concordo com Antonio Holfeldt (audácia minha) quando ele diz que a crítica é um gênero jornalístico, pois, como não chamar de crítica o que começa a surgir nos espaços virtuais não elaborados por jornalistas? E se é questão de nomenclatura, rebatizemos a crítica!

Saturday, March 28, 2009

Bem, acho que não preciso dizer que tive que "juntar meus caquinhos para ir ao Seminário sobre Crítica de teatro no Gasômetro ontem, mas, achei que devido a minha escolha de pesquisa era algo imperdível. Pensei que entraria por uma porta, sentaria calma e quieta para ouvir e viria embora uma hora depois. Por que será que eu ainda me minto desta maneira? Quem me conhece sabe que dificilmente isto irá acontecer enquanto eu estiver viva. Não deu outra. Eu tentei. Mas, quem estava lá sabe que fui provocada pelas declarações feitas pelos convidados. Na mesa: Antônio Holfeldt, Renato Mendonça. Luis Paulo Vasconcellos e Julio Conte. Após a fala de todos, veio a abertura para o debate. Alguns minutos de silêncio. Tempo suficiente para as questões que tinham ficado me provocando resultarem na minha fala. Outra hora, talvez, até fale mais sobre isso, pois mais uma vez confirmei que a escolha do meu tema de pesquisa "Crítica teatral na era digital" não foi para buscar um título, mas, é uma paixão que me move. Sendo assim, obviamente, tenho mais coisas a dizer, mas, como estou em fase de "convalescência" prefiro publicar o texto do blog de Julio Conte (http://julioconte.blogspot.com):
O DEBATE SOBRE A CRITICA


Conforme prometi, vou contar um pouco, sobre o debate ocorrido na Usina do Gasometro na sexta feira, dia do teatro. Presente no local poucas pessoas, o menor publico de todos os debates. Dizem que foi a sexta feira, o engarrafamento na saida do Centro, o calor etc. Acho que os teatreiros ainda não aprenderam a debater. Mas quem participou de outros jura que foi o melhor dabate.
Ponto negativo foi que não havia nenhum editor, nem da ZH, nem da Revista Aplauso, nem nenhum outro.
Momentos de tensão marcaram as primeiras intervenções do público. Quem mais sofre foi o Renato Mendonça tendo que defender a linha editorial da ZH. A fala inicial dele foi ótima, mas deixou uma gafe ao se referir ao teatro como algo pobre. Pressionado se atrapalhou.
Luiz Paulo estava com a sobriedade que lhe é característica. Quando questionado na dupla função de critico da Revista Aplauso e artista mostrou que está atento a esta contradição.
Eu falei sobre a transitoriedade do teatro e de como isso se manifesta no sistema crítico. Teatro sofre da urgência de existir. Mas o grande nome que emergiu do dabate foi Antonio Holhfeldt. Matou a pau. Carismático, centrado e sábio expos sua trajetória no Correio do Povo e no Jornal do Comercio. De quebra contou que a ZH não o quis como crítico. Antonio é um pedaço da história do teatro gaúcho. Da platéia Helena Mello, jornalista que pesquisa blogs de teatro, foi muitas vezes incisiva e Rodrigo Monteiro mostrou que está cada vez mais preparado para ocupar um lugar de destaque na refexão sobre teatro. O que me surpreendeu foi de como blog incomoda a imprensa oficial. Acho que é porque publica a voz de quem não tem voz e as pessoas estão cansadas de versões oficiais. Querem intimidade, querem o detalhe, o sentimento particular, querem alguma coisa mais do que a pasteurização da informação.
Confesso que sai feliz.

Outro dia publico minha fala, pois como sabia que estava frente a três feras bem articuladas, levei o texto por escrito. Ler me ajudou e ficou o registro.

Ah, e terça tem TA E AI com participação da Ingra Liberato e da Ju Brondani.

Friday, March 27, 2009

A arte de escrever

Algumas pessoas comentaram que escrever bem era de família...Sem falsa modéstia, estou começando a acreditar que elas têm razão. Transcrevo abaixo um texto da minha tia Dulce Menegassi:
 

Meu primeiro herói

 

Ao longo da vida, quem tem sorte, tem alguns heróis.

Tive sorte, tenho alguns: de ficção, muitos, reais, nem tantos, mas, o primeiro e real a gente não esquece.

Tinha quatro anos, ele cinco. Morávamos em Teresópolis há pelo menos 30: nós, nossos pais, um irmão de três anos e nossos avós.

Aos Domingos, muitos parentes, após a missa dominical, iam lá nos visitar e colher frutas, a chácara em que morávamos era pródiga nas mais variadas árvores frutíferas.

Nossa avó nos chamava:

- Crianças! Venham cumprimentar os tios e primos!

Após o protocolo, ela nos despedia:

- Agora, podem ir brincar.

Lá íamos nós. Felizes da vida fazer o que mais gostávamos: correr e brincar pela imensa chácara.

Nos fundos da chácara havia um córrego. Era uma festa! Molhávamos os pés, colocávamos barquinhos de papel na água, atirávamos água uns nos outros.

Um dia, ao tirar a sandalinha nova, domingueira, um pé caiu na água e começou a ser levada pela correnteza. Eu, muito aflita, comecei a gritar e a chorar.

Neste momento o “meu herói” entrou na água, sem medo e me trouxe a sandália de volta.

Faz mais de 70 anos, mas, eu nunca esqueci o fato e há pouco tempo o relembrei com o meu irmão Procópio. Ele também lembrava e rimos junto. Procópio, meu irmão...meu primeiro herói! Que saudades...

 
 
 

Sunday, March 22, 2009

Gênio Indomável


Meu pai se foi esta semana. Lembro das várias vezes que o meu temperamento e o dele se esbarravam. Em menos de cinco minutos conseguíamos começar uma discussão. Talvez, os astros expliquem: somos signos complementares. Ele ariano, eu libra. Não, meu pai não era uma pessoa fácil. Levei muito tempo (e alguns anos de terapia) para entender que devia olhar para suas atitudes e não me incomodar com o seu discurso.

Ele achava que devia me preparar para o que ia encontrar fora de casa e procurava dizer coisas que fortalecessem minha personalidade. Não funcionava. Suas palavras me desestabilizavam de tal forma que quando comecei a enfrentar o mundo lá fora nada me pareceu tão difícil. Já há algum tempo compreendi que a força das palavras daqueles que a gente ama é muito maior do que a dos possíveis inimigos que possam cruzar nosso caminho.  Mas, reconheço que devo a ele minha capacidade de refletir sobre as coisas e organizar meu pensamento. Na minha casa, todo dia era dia de debate!

Meu pai radicalizava suas idéias, tinha dificuldade em expressar seus sentimentos. Mas, bastava um pequeno contato com suas atitudes para descobrir uma das pessoas mais interessadas no bem estar alheio que já conheci. E não digo isso apenas por ser sua filha. Tenho certeza de que qualquer pessoa que saiba que ele há mais de 30 anos repassava todos os ganhos que havia conquistado com seu trabalho, ao longo de uma vida, para os seus, concordará comigo. Nunca falava em comprar algo, fosse um carro novo ou uma camisa. Mas, era muito consciente de que as coisas custavam dinheiro e se preocupava, frequentemente, com o nosso futuro. Aliás, foi isso que o fez enfrentar um concurso e ser bancário por 25 anos, quando sua paixão era ser professor, o que ele fazia paralelamente.

Seu jeito irônico, muitas vezes, me feria. E quando eu consegui, finalmente, verbalizar isso. Ouvi dele uma confissão: a ironia é a arma dos covardes. Coisa que, sem dúvida, ele não era. É preciso coragem para acreditar em um projeto como ele acreditava, de investir tanto tempo em um ideal, de bater em portas fechadas para idéias novas e ir aos pouquinhos conseguindo entrar. 

Há mais de 30 anos, foi ter um ataque do coração em Paris. Anos depois, fez pontes de safena. Depois, vieram várias outras complicações de saúde. Nada o derrubava. “Um Fênix” consideravam os médicos. Nestes últimos anos, entrou e saiu do hospital algumas vezes. Em 2007, instigado pela minha mãe, elaborou um livro chamado Enigmas do Futuro com várias histórias lógicas inéditas cheias de criatividade e depoimentos de pessoas ligadas à educação elogiando seu trabalho.

Para muitos, era um gênio. Afinal, a partir dos seus conhecimentos e estudos, criou algo inédito com o objetivo de ajudar as pessoas a pensar. Investiu tempo de vida nisso. Enquanto teve energia, era obsessivo na tarefa de repassar seus conhecimentos. Tinha pressa, se angustiava e era incansável na tentativa de convencer as pessoas de que algo diferente, novo, era bom. Quando ele mesmo começava a duvidar, alguém vinha lhe dizer o quanto o seu trabalho havia mudado sua vida.

Amigos me dizem que o reconhecimento do que ele fez ainda está por acontecer. Não duvido. Assim, como aconteceu comigo, será preciso tempo para que as pessoas entendam uma mente como a do meu pai. Não. Meu pai não era perfeito, mas, não tenho dúvidas, de que era um homem a frente do seu tempo, o que dificultou até mesmo a sua família de compreendê-lo melhor, mas, isso não nos impediu de amá-lo, embora ele possa ter partido sem ter certeza disso. Sabemos, no entanto, que é isso que acontece com pessoas geniais. 

Saturday, March 21, 2009

O homem de cinzento não pode esperar *


Vera Mello

Meu pai se foi na última quarta feira do verão e me deixou seu nariz adunco, mesmo nariz do pensador grego Aristóteles cujo busto da era romana foi encontrado sob a Acrópole, em Atenas. Me deixou igualmente suas sombrancelhas grossas e sua audácia em escrever histórias cujo os nomes seguem uma lógica muito peculiar. Meu pai me deixou também um legado que eu me apropriei antes mesmo de sua partida. Ele me ensinou a aceitar com ironia aquilo que não podemos mudar embora o dito seja "Que Deus nos dê "coragem" para...Assador de renome, entre os inúmeros frequentadores da casa e de paladar "gourmand", enquanto aguardava sua hora, meu pai buscou rever passagens da sua vida naquilo que degustava. Isso, talvez justifique seus desejos bizarros parecendo um "enfermo glutão". Eu, há pouco recebi dele, um "pedido solene" de preparar um arroz com coração de galinha. E me perguntei por que, entre os bolinhos de bacalhau do Chalé da Praça XV, as batatas fritas do kioske da praia, o camarão do restaurante chinês, a massa com gorgonzola feita em casa, e uma tainha na brasa, meu coração era tão importante. Até que compreendi que ele, estava reconstruindo sua história (da qual eu fazia parte e me encaixava tão bem) na lógica dele. Na prática, passamos meses compartilhando e degustando a mesa, lembranças de um passado feliz. Em tese esse parece ter sido o pensamento de um professor tão admirado por respeitar a lógica particular de cada um.

* O título é uma referência a um personagem criado pelo meu pai (no estilo Sherlock Holmes) para os seus enigmas

Friday, March 20, 2009

Meu herói, meu bandido


Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...


letras acima

Thursday, March 19, 2009


Os ventos que às vezes tiram algo de nós são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar. Por isso, não devemos chorar pelo que foi tirado e sim aprender a amar o que nos foi dado, pois o que, realmente, é nosso, nunca se vai para sempre.
Bob Marley

Sunday, March 15, 2009

Sunday night fever


“Chupa o meu pau”. Esta é apenas uma das frases que não passariam na censura da minha mãe tão facilmente e que estão em um filme que assisti quando tinha uns 15 anos: Embalos de sábado à noite (Saturday night fever, 1977). Tinha na minha memória adolescente um filme com músicas dançantes, aquela roupa branca e preta inesquecível do John Travolta (veja na foto) e seu rebolado impagável pelas ruas. No entanto, fui assistir hoje na televisão e vi que havia muito mais por trás. 

Os cuidados extremados do protagonista com a sua aparência, seus gestos e posturas já não me pareciam tão masculinos a ponto de despertar a paixão de tantas mulheres como aconteceu na época. Mas, não é apenas isso. Streep-tease, cenas de sexo, estupro, drogas, mortes e violências outras. Tudo aparece no filme que havia me parecido inocente.

Hoje, chega a ser engraçada a cena na qual Tony levanta da mesa do jantar e começa a juntar os pratos e seu pai diz para que ele não faça aquilo, pois as mulheres irão fazer. Quem diria... De qualquer forma, ele trata as mulheres com total desrespeito e se mete em várias situações “politicamente incorretas”. Talvez, a única atitude que indique o seu bom caráter seja a entrega do prêmio do concurso final aos concorrentes que ele considerou melhor do que ele. No mundo real, porém, isso não fez a menor diferença. Os fãs do filme nem se lembram mais da dança do outro casal e sim dos rodopios do galã.

 É bem verdade que a trilha é maravilhosamente dançante. Ainda lembro da euforia e do modismo que se criou no Brasil nas discotecas. Todos imitávamos ou já imitamos alguma vez Tony Manero e seus gestos na pista. Não é à-toa que John Travolta recebeu a indicação ao Oscar e levou seis milhões de pessoas aos cinemas no Brasil. As músicas dos Bee Gees marcaram toda uma geração com More Than Woman”, “How Deep is Your Love”, “Night Fever”, “Staying Alive”. O álbum permaneceu um total de 24 semanas no 1.º lugar das paradas e vendeu eventualmente mais de 30 milhões de cópias (hoje este número chega a 50 milhões), tornando-se um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Considerada a trilha sonora mais vendida da história.

Mas, Tony está longe de ser um herói e o filme não é a historinha de dança que a minha mãe achou que eu tinha ido assistir naquela tarde da década de 70. 

PS: Eu que nunca mais tinha ouvido falar de karen Gorney (a partner de Tony Manero), descobri que no ano passado ela fez Margaret em Ricardo III.  

Tuesday, March 03, 2009

Na língua de Camões


Já venho lendo sobre o acordo ortográfico há algum tempo e confesso que não estava (e ainda não estou) com a maior vontade de ficar revendo o jeito que escrevo. Não é que não goste de mudanças. Mas, uma parte de mim, vinha resistindo a algo que me parece insignificante diante de tantas mazelas brasileiras. No entanto, não há mais nada a fazer. Está decidido e insistir em não me adaptar parece bobagem . Afinal, como dizem seus defensores, nem são tantas mudanças assim. Da minha parte, por exemplo, posso dizer que se me pedissem para soletrar o alfabeto acabaria dizendo o k, o w e o y. Decorei assim e acabei mantendo. Pronto. Agora já os incluíram novamente. Também devo dizer que nunca fui muito fã de trema e só colocava em provas que exigiam este tipo de correção tipo em linguiça, freqüente, seqüência... Já aguentei muita coisa e não escrevia a palavra com a trema e tranquilo? Nunca viu uma trema por aqui. (Acabo de perceber que vou ter que atualizar meu corretor ortográfico, se não ele vai insistir em colocá-la). Claro que têm aquelas que vão dificultar a minha adaptação, como por exemplo: plateia e estreia. Sem acento? Não é a mesma coisa. Paranoia? Cruzes...muito estranho. Alcateia? Por favor...palavra que só escrevi no vestibular e olhe lá! Ah, e têm coisas mais esquisitas como: creem, deem, leem, perdoo, veem. E para variar (sem acento) vem as exceções: "ele para o carro" (verbo parar) perde o acento, mas, "ele pôde dirigir ontem" tem acento. Ai,ai,ai....Assim como os verbos ter,vir, convir, deter que mantêm o acento: eles têm, eles vêm, eles convêm, eles detêm. Bem, e tem várias outras coisas chatinhas. O hífen, que quase ninguém acertava até hoje, muda também. Erraria naquelas ditas provas: autoestrada, coautor, autoescola, aeroespacial... tudo sem hífen. E nesta regra sim, acho que vão continuar não sabendo. Continua aquela história...ora tem, ora não tem. Ou seja, volto a ser semianalfabeta? Mas, não vou ser superexigente comigo mesma! Então, não esperem que aqui no blog meus textos sigam estas regras. Vou, aos poucos, tentando acertar, mas, não é porque assinaram uma lei que vou acordar sabendo como redigir do jeito que decidiram que seria melhor. Esta regra aqui, por exemplo, não vai ser fácil de lembrar: se chegar no final da linha e uma palavra que levava hífen ficar dividida, o hífen repete na linha seguinte. Bem, mas, ninguém pode dizer que eu não tentei colaborar. Por enquanto, a única coisa que me faz tentar esta adaptação é a remota possibilidade de eu querer me corresponder com portugueses e não deixar que a língua nos atrapalhe. Sabe-se lá quando e se isso vai acontecer! 

PS: O Acordo Ortográfico de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial única da língua portuguesa e com isso aumentar o seu prestígio internacional, dando fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes: uma no Brasil  e  outra nos restantes países de língua portuguesa. 

Saturday, February 28, 2009

Festival de teatro em Curitiba


Quatro estréias nacionais e uma internacional marcam a programação deste ano do Festival de Curitiba, que acontece de 17 a 29 de março. A companhia chilena Teatro Cinema estréia em palcos brasileiros o espetáculo Sin Sangre, dirigido por Juan Carlos Zagal. A peça é uma adaptação do romance homônimo do autor italiano Alessandro Baricco, e trata da reconstrução da memória e do perdão.

A montagem chilena atinge várias dimensões ao fundir as linguagens do teatro e do cinema em uma emocionante história humana em que a vingança se encaminha para o amor, e onde a guerra pede paz e amor. Com esses elementos e sentimentos, Juan Carlos e Laura Pizzarro – que além de participar da adaptação do texto, também atuam em Sin Sangre – deram à montagem uma linguagem universal.

Entre as peças brasileiras, Felipe Vidal e Tato Consorti dirigem a versão brasileira de Rock’N’Roll, do dramaturgo tcheco Tom Stoppard. A peça, sucesso de público e crítica no Royal Court Theatre, em Londres, e na Brodway, se passa entre os anos de 1968 e 1990, sob uma dupla perspectiva. Em Praga, na república Tcheca, onde uma banda de rock aparece para simbolizar a resistência ao regime autoritário comunista; e em Cambridge, na Inglaterra, onde as questões do amor e da morte definem as vidas de três gerações da família de um filósofo Marxista.

Dirigido por Moacir Chaves e baseado no conto homônimo de Drauzio Varella, o espetáculo Por um Fio conta histórias de pessoas surpreendidas pela notícia de que suas vidas podem chegar ao fim. Na experiência de Varella, nenhum acontecimento provoca transformações tão radicais quanto conviver com essa possibilidade. As histórias descrevem as maneiras que cada um tem de perceber o tempo e o transcorrer da vida. No elenco a premiada atriz Regina Braga e o vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2008, Rodolfo Vaz, por Salmo 91.

Em Borbulho, espetáculo de dança das coreógrafas Rosane Chamecki e Andrea Lerner, curitibanas radicadas em Nova York, um cenário fururista abriga uma versão poética da evolução das espécies de um planeta imaginário. Neste mundo, criaturas crescem e se desenvolvem. Aos poucos, sentimentos também vão ganhando. Os seres em cena refletem o desejo e a capacidade de adaptação e levantam questões sociais e ambientais.

Completa a lista de estréias brasileiras o monólogo Doido, em que um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal. A montagem – dirigida e encenada por Elias Andreato – fala de amor, de loucura e de arte mostrando ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum.

Fonte: Alexandre Staut

PS:  Maria Amélia Gimmler Netto, minha colega de mestrado, participa do Festival na mostra Fringe com o Espetáculo "A".  Datas: 22/03 - 12:00, 23/03 - 15:00, 24/03 - 18:00, 25/03 - 21:00

Monday, February 23, 2009

A gente não quer só comida


Não posso mais esperar para escrever sobre a peça Dona Gorda, pois, falta muito pouco para eu me tornar o personagem principal depois de tudo que tenho comido nos últimos dias. Eu sei...Tem vários amigos que vão dizer: Ah, pára com isso. Tu estás ótima! Tu, gorda? Nem pensar. Mas, são amigos e conhecidos recentes, pois, em várias épocas de minha vida estive com vários quilos a mais. Sim. Porque existem os gordos e os de alma gorda e eu me encaixo às vezes nos dois perfis, às vezes só no primeiro e às vezes no segundo, mas, vou ter que nascer de novo para ter uma alma magra. Gosto de comer. Sempre gostei.

Quando pequena costumava ficar perto das mesas de aniversário. No colégio, meu apelido de adolescente era saúva. Preciso dizer por quê? E o quanto foi devastador para minha auto-estima? Tinha até batucada quando eu chegava para me receber. Em 1985, acabei consultando um cirurgião plástico devido a uma cicatriz de um tombo de bicicleta quando eu tinha sete anos e ele sugeriu que eu fizesse uma lipoaspiração nos culotes. Ou seja, acho que fui uma das primeiras cobaias deste tipo de cirurgia aqui no sul. Bem, mas, foi ótimo. Não só pelas medidas que diminuíram radicalmente, mas, pelo bem que fez para minha alma gorda! Mas, os anos se passaram e mesmo que os culotes não tenham voltado (como advertira o médico) depois de engordar 10 quilos novamente, a gordura ingerida passou a ocupar um outro lugar: a barriga! Não era mais a saúva, mas, em uma eleição não tão passada, uma senhora queria me dar o lugar: “tu tens preferência. Estás grávida.” Não estava. Nem perto. Naquela época, só se fosse do espírito santo.

Bem, teria muitas outras coisas para contar nesta minha luta contra o peso, mas, está mais do que na hora de falar do espetáculo. Queria deixar claro, porém, que falar de Dona Gorda é falar de mim, independente do que a balança ou as fotos hoje, felizmente, digam! E, tenho absoluta certeza, da grande maioria das mulheres. E é isso que Lúcia Bendati faz. Cria uma identificação com todos os seres do sexo feminino que um dia acharam que estavam ou estavam mesmo com quilos a mais. Várias balanças no palco já dão indício desta paranóia. 

Vestida em malha de ginástica, ela corre, pula, salta. Ai, que cansaço! O patético da cena faz rir. Mais tarde, Dona Gorda tenta entrar em um vestido vermelho para ir ao casamento da amiga. As pessoas acham graça. Eu rio para não chorar. Vermelho é minha cor predileta e, não faz muito, alguns vestidos que tenho nesta mesma cor não passavam das canelas. E se passavam faziam exatamente o que figurino de Lúcia fez: marcavam tudo! A atriz conversa com um manequim, onde alguns acessórios estão pendurados. Quer coisa mais adequada? Aquele corpo esquálido que tudo aceita e tudo pode? E fala todo o tempo com a platéia. Improvisa. Algo que exige de quem vai ao teatro, mas, mais ainda de quem atua. Na noite em que assisti ao espetáculo ela escolheu para contracenar um homem tímido que tomará uma das duas atitudes: ou voltará satisfeito com a nova e desafiante experiência ou nunca mais colocará os pés em um teatro. Dona Gorda volta várias vezes para falar com ele, mesmo sabendo que ele não está à vontade. No final, ele ganha um brinde do espetáculo. Espero que tenha sido o suficiente para fazê-lo rir de si mesmo. Não é, Vitor?

Como jornalista, acho impressionante que Dona Gorda não precise inventar manchetes para as revistas. Ela simplesmente lê em cena, auxiliada por pessoas da platéia, aquelas promessas de emagrecimento comendo chocolate, pipoca, sorvete. Perdas de peso em prazos exíguos. Pior. Eu ainda fico tentada a comprar até hoje estas revistas! E é isso que o espetáculo faz. Mostra o nosso ridículo, mas, ao mesmo tempo, nos afaga. Afinal, não estamos sós. Temos, ao menos, a Dona Gorda e mais, temos Lúcia Bendati com sua força, sua energia, seu carisma. Se me repeti ao falar dela não é culpa minha, mas da atriz que estava em cartaz com duas peças ao mesmo tempo. Hummm....Será que fazer teatro, emagrece?

O espetáculo trata também da questão da compulsão. O frigobar que “chama” cada vez que as coisas não vão bem. Cada vez que Dona Gorda fica ansiosa ou decepcionada. Alguém aí reconhece este momento? Relaciona também a questão da comida com as relações amorosas. Eu que o diga. De que adianta ir a nutricionistas, endocrinologistas, ler e fazer todas as dietas do mundo? Basta uma briga com o namorado, aliás, nem isso, uma discussão com a família para que as almas gordas (que são muitas no planeta) queiram comer guloseimas e beber todas. Por isso, Dona Gorda oferece brigadeiros à platéia. Minha alma gorda em dieta (ou seria controle alimentar?) recusa. Mas, depois, fica esperando que ela queira repartir aquele pedaço de pizza.... Não. Ela come sozinha e guarda o resto. Ora, ora. Resultado: saio do espetáculo com fome, mas, feliz por ver um teatro bem feito!  Teatro? Sei, não...Poderia ser eu mesma no espelho.

Texto: Lisiane Berti e Marcelo Vázquez

Elenco: Lúcia Bendati
Direção: Paulo Guerra
Participações Especiais (em off):
Adriana Marques, José Alessandro, 
Luciano Figueiró, Paulo Sant’ana

Fotos: Cláudio Etges