Thursday, January 22, 2009

Sobre anjos e grilos

Um espetáculo com os textos de Mário Quintana já seria motivo bastante para me agradar. Este poeta gaúcho já está na minha vida há mais de 30 anos, pelo menos. Foi uma das leituras mais importantes da minha vida, com certeza. Decorei vários versos. Fui a uma sessão de autógrafos dele. Comemorei um aniversário na Casa de Cultura Mário Quintana e decorei o texto que ele fala de sua vida para dizer aos convidados. Pedia a cada um desses que também decorasse algo para dizer. Dia muito marcante já que meu irmão que, já não está mais conosco, declamou o poema A Vida:

"a vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas. 
Quando se vê, ja é sexta feira. 
Quando se vê, já terminou o ano. 
Quando se vê, ja se passaram 50 anos! 
E agora é tarde demais para ser reprovado. 
Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inutil das horas. 
Dessa forma eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a unica falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais." 

Além disso, Sobre Anjos e Grilos traz Deborah Finochiaro, a quem admiro também há muito tempo. Estivemos juntas em um Porto Alegre em Cena em Buenos Aires lá se vão mais de 10 anos. Fazia passeios com ela pelas ruas quando ela ficava fazendo sons esquisitos. Eram seus exercícios para voz. Atriz talentosa, disciplinada, dedicada e de tantas outras qualidades.

Juntava-se, ainda a isso (o que já não era pouco) as imagens inéditas projetadas em forma de quadros e animações de Zoravia Bettiol. Uma das poucas artistas plásticas que conheço pessoalmente, a qual respeito e admiro como artista e tenho carinho como amiga. Minha tia trabalhou com ela e Vasco Prado durante muitos anos. Acompanhei, de certa forma, sua trajetória. É uma pessoa que não está só voltada em produzir objetos de arte, mas, em mudar o mundo que vive, utilizando a beleza, a criatividade. Tem uma ong. Faz oficinas com crianças carentes. Participa de movimentos reivindicatórios para uma vida melhor. Resumindo: artista com “A” maiúsculo.

Já no início, Deborah adverte que o espetáculo não vai ser apresentado em seu formato original. Ela machucou o joelho (está com a perna toda enfaixada), mas, para que “ninguém perdesse a viagem” veremos a peça de um novo jeito. Isso não me incomoda. Ao contrário, é bom que tenhamos prova que uma atriz, que tem o compromisso de estar no palco, está sujeita a todas as intempéries da vida.  

Preciso destacar que Deborah é muito forte no palco. Sempre foi. Tem uma incrível presença cênica. Muito carisma. Deveria ensinar todos os atores e atrizes de Porto Alegre e, por que não, do Brasil a dizer um texto. Cada palavra é pronunciada com uma sensação, um jeito, um sentimento que vem grudado nela de uma forma que raramente vejo acontecer nos palcos. Algo, realmente, fascinante.

Mas, não sei se foi o excesso de ar-condicionado da sala (o que fez algumas pessoas trocarem de lugar e outras se encolherem nas cadeiras), mas, achei que seria emocionante e não foi. Pelo menos, não para mim. Eu que choro até com comerciais de tv! Achei lindas algumas imagens. Admirei vários efeitos cênicos criados pela grande tela no fundo do palco e o corpo da atriz. Fiquei encantada com o jogo de luz e sombra como um recurso artístico. Mas, não mexeu comigo... Ainda estou tentando descobrir exatamente por que, mas, resolvi não esperar para escrever porque isso pode demorar muito. Entendi, porém, que tem a ver com algo da poesia do próprio Quintana. Percebi isso por ter alguns textos que aparecem gravados  pelo ator Paulo José e, não que eu o quisesse a dizer todos os textos, mas, ele, como ator, representa muito de Quintana na poesia. Algo minimalista. Algo que está intrínseco em sua atuação. Paulo José quando atua não faz “caras e bocas”. Não reage de modo exagerado. É algo no olhar dele, num pequeno gesto, que traduz tudo que ele está ali para dizer.

Pois bem. Mário Quintana, na minha leitura, também tem esse minimalismo. A força das palavras dele, do cômico ao emocionante está em um jeito de escrever que vem aos poucos, devagar, de uma forma muito sutil. Ele não faz estardalhaço das palavras. Não as atira ao vento. É como se ele fosse as colocando devagar por baixo da porta.  Acredito que tenha sido isso. Na ótima performance de Deborah isso mudou para mim e me causou uma estranheza que foi mais forte do que os meus sentimentos. Além disso, como já disse antes, minha paixão pelo Quintana me fez ter meus versos preferidos e, é óbvio, muitos não estavam lá. Claro que isso é muito pessoal e não deve induzir ninguém a deixar de ver o espetáculo que eu recomendo. De qualquer forma, coloco aqui um verso que, talvez, traduza o que quero dizer com a maneira que eu vejo o poeta:

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Coloco também as premiações recebidas para mostrar que, independente, da minha impressão pessoal, é um espetáculo que tem recebido a apreciação de muitos especialistas.

PREMIAÇÕES

Prêmio Quero-Quero SATED/RS 2006 de Melhor Atriz;

Prêmio de Melhor Espetáculo, Melhor Cenário, Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz no XIV Festival Nacional de Teatro de Florianópolis Isnard Azevedo 2007;

Prêmio de Melhor Atriz no VII Festival de Teatro de Resende 2007;

Prêmio de Melhor Atriz e Júri Popular Melhor Espetáculo no 35° FENATA - Festival Nacional de Teatro de Ponta Grossa 2007;

Prêmio de Melhor Espetáculo, Melhor Atriz, Melhor Texto Adaptado e Prêmio Especial do Júri para Zoravia Bettiol no 2º FENAT - Festival Nacional de Teatro de Campos dos Goytacazes 2007

 Ficha Técnica

Textos e Poemas - Mario Quintana

Concepção, Roteiro e Interpretação - Deborah Finocchiaro

Direção - Deborah Finocchiaro e Jessé Oliveira

Imagens - Zoravia Bettiol

Trilha Sonora Original - Chico Ferretti 
(Com exceção das músicas Ecogliter, de Laura Finocchiaro e Franco Jr, e trechos das músicas Baleada Noturna, de Lory Finocchiaro, 4ª Sinfonia de Mahler e Concertos de Brandenburgo n° 4 e 5 de Johann S. Bach)

Voz em Off - Paulo José

Iluminação - Fabrício Simões e Jessé Oliveira

Figurino - Raquel Cappelletto

Programação Visual - Ricky Bols

Técnico de Som e Imagens - Zé Derli Rodrigues

Técnico de Luz - Fabrício Simões

Assistência de Produção (RS) - Vanice Schuler

Produção Executiva (RS) - Elisete Idalgo e Deborah Finocchiaro

Produção Executiva (SP) - Fernando Padilha e Clarissa Rockenbach

Direção Geral - Deborah Finocchiaro

Realização - Companhia de Solos & Bem Acompanhados

www.sobreanjosegrilos.com.br

www.zoraviabettiol.com.br

http://www.deborahfinocchiaro.com/

 

 

Monday, January 19, 2009

A curiosa e o curioso


Neste fim-de-semana fui convidada mais uma vez para ir ao cinema por uma amiga que não via desde o meu aniversário em outubro. Minha vida tem sido assim com o mestrado. Como todo mundo que se envolve intensamente com alguma coisa, vejo mais os colegas do que os meus amigos mais antigos. Mas, o presente de Natal dela já estava aqui há algum tempo e eu havia comprado pensando exatamente na cara que ela faria ao abrir aquele livro sobre a Marilyn Monroe. Uma edição “classuda”. Capa dura, lindas fotos, papel grosso e brilhante e em inglês. Uma língua que ela aprendeu a dominar. Então, estava na hora de ir encontrá-la e ver o Brad Pitt não ia me fazer mal.
Sabia muito pouco do que se tratava e confesso que aquela idéia de que o protagonista nascia velho e ia rejuvenescendo não fazia muito a minha cabeça. Sou daquelas que o realismo incomoda e o surrealismo perturba. Fazer o que? Mas, estava curiosa, o que, sem dúvida, parecia perfeitamente adequado, considerando o título do filme: O curioso caso de Benjamin Button, um longa (mais de duas horas, diga-se de passagem), baseado no conto escrito pelo famoso escritor norte americano F. Scott Fitzgerald.

No início, ao ver aquela figura grotesca do nenê enrugado, senti uma mistura de asco com vontade de rir. Bizarro. Para dizer o mínimo. Mas, aos poucos, fui sendo transportada para dentro de uma história de generosidade, compaixão, aceitação do outro e tantos outros sentimentos que estão fazendo falta e que estavam ali, agora, todos ao mesmo tempo. Fui sugada pelo trabalho maravilhoso dos atores e nem sei dizer quantas vezes me emocionei ao ponto das lágrimas encherem os meus olhos e lá ficarem. 

A narrativa continuava estranha. Era difícil prever o rumo dos acontecimentos e isso é mais uma razão para que o filme me agrade. Certo. Sabia que Benjamin estava remoçando, mas, quais seriam as conseqüências disso? No entanto, esta preocupação corria paralela a outras bem mais relevantes. Aquelas que me faziam pensar no que significa envelhecer. E as velhas, mas, não menos preocupantes questões: De onde viemos? Para onde vamos? Sim. Nessa história que me causou estranhamento, havia uma discussão profunda sobre a velhice, a beleza, a morte, os desejos, os sonhos. Era uma história de amor, de ódio, de euforia e de dor, de felicidade, de perda e de escolhas. Serviu para mim como uma lembrança de que a vida é um ciclo. Nascemos e vamos morrer. Mas, esta ordem ela não é um equívoco. Quem somos nós para pensar em interferir?

Uma das falas (e tinham muitas) que me impressionou foi quando foi dito que “devemos nos orgulhar do que fizemos na vida quando olharmos para trás. E se isso não acontecer, devemos ter força para criar um novo caminho”.

No meio disso tudo, a beleza exuberante... pensaram que eu ia falar do Brad Pitt? Não. Da Cate Blanchett. Ela estava extraordinariamente linda. Dançando então...parece um anjo ou uma deusa. Nunca tinha pensado nestes dois juntos. Aliás, não consigo pensar o Brad com ninguém e, no fim, me rendo as mulheres que aparecem com ele, seja nas telas ou na vida real.

Bem, mas, não vejo a hora de trocar idéias com outras pessoas que tenham assistido o filme que, aliás, estou recomendando. Preciso amadurecer mais as idéias e isso fica mais fácil ouvindo a opinião alheia. Talvez, nem devesse estar escrevendo nada, mas, era o único assunto que me interessava no momento.

PS: Não posso deixar de comentar a beleza...Não, não vou falar do Brad agora. É da fotografia deste filme! 
PS2: Valeu à pena ver a cara da minha amiga ao abrir o pacote do presente de natal dela! 

Monday, January 12, 2009

Nosso dramaturgo Ivo Bender

* Márcio Silveira

No mês de dezembro faleceu Harold Pinter, um dos maiores dramaturgos do século 20, ferrenho defensor dos direitos humanos e opositor às políticas belicistas, que em 2005 recebeu o Prêmio Nobel de literatura. Seu melhor tradutor no Brasil é o maior dramaturgo do teatro moderno e contemporâneo gaúcho, o professor Ivo Bender, que também merece reconhecimento pelo conjunto da obra, ainda em desenvolvimento a todo vapor.
O leopoldense descendente de alemães trás como marca maior em sua obra o profundo conhecimento do teatro grego. Transpôs o gênero dos pais do teatro ocidental, como Sófocles, Ésquilo e Eurípides para um Rio Grande do Sul em formação. Com sua lavra e entalhes de um mestre marceneiro, profissão de seu pai, criou consistentes textos, chegando a ser chamado de o novo Qorpo Santo, dramaturgo gaúcho do século 19 considerado precursor do teatro do absurdo.
Ivo não se encaixa em nenhuma vertente temática ou estilística da dramaturgia brasileira, segundo a crítica literária Léa Masina se descobre nas peças do autor, dissimuladas pela aparência do nonsense, do absurdo, da loucura, uma fidelidade incrível àquilo que há de mais genuíno no homem: existe nelas, de modo inequívoco e dialético, a oposição entre Eros e Tanatos, o amor e a morte. Justapõem-se os significados e cria-se assim uma estranha relação em que o absurdo resulta da vivência do real. É na realidade que o circunda de suas vivências mais profundas que busca examinar a alma humana. O autor através de textos como da Trilogia Perversa e Queridíssimo Canalha, polvilha os palcos brasileiros com situações insólitas, afunila os conflitos deixando a mostra hipocrisias e falsas aparências neste mundo de meias verdades.
Se em tempos de sapatadas, onde a maior atitude que se pode chegar diante de governantes hipócritas é o lançamento de sapatos, o que dizer senão que devemos recorrer a grandes intelectuais como Pinter e Bender para que possamos entender melhor as transformações históricas da humanidade. Para pensarmos em como poderão ser as relações no futuro próximo e melhor estruturá-las.
O tradutor das poesias de Emily Dickinson e de peças de Pinter e Jean Racine além de ter sido o patrono da feira do livro de São Leopoldo em 2007 foi padrinho do Porto Alegre Em Cena 2008. Mas falta uma homenagem maior, como sugestão, a exemplo de Porto Alegre com Carlos Carvalho, que São Leopoldo crie um concurso nacional de dramaturgia. Homenagem à altura deste renovador da dramaturgia gaúcha.

Márcio Silveira dos Santos é professor, dramaturgo, diretor e ator.

Friday, January 02, 2009

Para que serve o amor?


À quoi ça sert l'amour? 
Para que serve o amor?
On raconte toujours 
Contamos sempre
Des histoires insensées. 
Histórias insensatas
À quoi ça sert d'aimer? 
Para que serve amar?

L'amour ne s'explique pas! 
O amor não se explica!
C'est une chose comme ça! 
É uma coisa assim...
Qui vient on ne sait d'où. 
Que vem não sabemos de onde
Et vous prend tout à coup. 
E nos domina rapidamente.

Moi, j'ai entendu dire. 
Eu, eu ouvi dizer
Que l'amour fait souffrir, 
Que o amor faz sofrer
Que l'amour fait pleurer, 
que o amor faz chorar
À quoi ça sert d'aimer? 
Para que serve amar?

L'amour ça sert à quoi? 
O amor serve para que?
À nous donner de la joie. 
Para nos dar alegria
Avec des larmes aux yeux...
Com lágrimas nos olhos
C'est triste et merveilleux! 
É triste e maravilhoso!

Pourtant on dit souvent. 
Assim, dizemos seguido
Que l'amour est décevant. 
Que o amor é decepcionante...
Qu'il y en a un sur deux. 
Que existe um em dois 
Qui n'est jamais heureux...
Que nunca é feliz.

Même quand on l'a perdu. 
Mesmo quando perdemos
L'amour qu'on a connu. 
O amor que conhecemos
Vous laisse un goût de miel. 
Deixa um gosto de mel
L'amour c'est éternel! 
O amor é eterno.

Tout ça c'est très joli, 
Tudo isso é muito bonito
Mais quand tout est fini, 
Mas, quando tudo acaba
Il ne vous reste rien.
 E não lhe resta nada
Qu'un immense chagrin...
a não ser uma imensa tristeza

Tout ce qui maintenant. 
Tudo que agora 
Te semble déchirant. 
Te parece terrível
Demain, sera pour toi. 
Amanhã, será para ti
Un souvenir de joie
Uma lembrança de alegria

En somme, si j'ai compris, 
Em resumo, se eu comprendi,
Sans amour dans la vie,
Sem amor na vida,
Sans ses joies, ses chagrins,
Sem suas alegrias, seus sofrimentos,
On a vécu pour rien?
Vivemos por nada?

Mais oui! Regarde-moi!
Mas, sim, olhe pra mim!
À chaque fois j'y crois!
A cada vez que eu acredito
Et j'y croirai toujours...
E eu acreditarei sempre
Ça sert à ça, l'amour!
Serve para isso o amor
Mais toi, t'es le dernier!
Mas, tu és o último
Mais toi, t'es le premier!
Mas, tu és o primeiro!
Avant toi, y avait rien
Antes de ti não havia nada
Avec toi je suis bien!
Contigo eu estou bem
C'est toi que je voulais!
És tu que eu quero!
C'est toi qu'il me fallait!
És tu que eu precisava!
Toi qui j'aimerai toujours...
Tu que eu amarei sempre...
Ça sert à ça, l'amour!...
Serve para isso o amor!

Friday, December 26, 2008

2009 = ANO DO SOL!



Tania Cavalheiro, minha amiga numerologa, mandou algumas dicas para 2009 que resolvi compartilhar com vocês:

Na astrologia, 2009 vai ser regido pelo Sol, o centro do nosso universo, o que nos instiga na busca da expansão.

SOL fornece energia, vida, força e calor. Começa por portar-te ( e sentir-te) como o que és: o centro do teu universo! BRILHA, aparece, irradia energia e luz!

2009 vai te propiciar a chance  de criar, de “ser”  e de organizar.

Uma dica: PRECISAS ter projetos em mente, ok?

Será um ano de grandes desafios, então estabelece metas e caminhos pra chegar a elas e não saias dos teus planos nem permitas interferências alheias.

Busca tua individualidade te policiando para evitar o egoísmo, a arrogância e o orgulho.

Na mitologia grega, SOL era associado a Apolo (beleza!) então capricha no visual, cuida da tua aparência e da tua saúde.

BRILHA  por dentro e por fora, TU PODES!

A soma de 2009 é 11, que resulta em 2. Isso mostra que será um ano no qual deveremos ter muito tato, força de caráter e paciência.

Nada de querer que as coisas aconteçam de forma instantânea. Observa o que acontece ao teu redor, ouve a voz de tua intuição e cuida dos sentimentos.

Vais colher exatamente o que plantares!

2 na numerologia é sinônimo de paz, união e harmonia. Não é uma linda chance?!

Wednesday, December 24, 2008

Estou roubando este texto do perfil do Orkut de uma amiga, da qual não vou dizer o nome porque não pedi licença! Mas, acho muito perfeito. Só troquei o lance do signo, para encaixar com o meu. O resto, acho que é assim com todo mundo, por isso, cometi este gesto ilícito de copiar e colar. Somos assim mesmo...muitas. Acadêmicamente falando: é uma questão de recepção!

"O horóscopo diz que sou libriana com ascendente em peixes, minha mãe diz que eu sou preguiçosa, minha irmã diz que sou bagunceira, uma amiga diz que sou perfeccionista, um amigo diz que sou madura, meu irmão diz que sou infantil, uma colega diz que sou tímida, outra diz que sou louca, um guri já me chamou de patricinha, uma guria disse que sou estilosa, na rua já gritaram: ET!, e tb: gostosa... um ficante disse que sou fogo, outro disse que sou fria, um cara me disse que sou misteriosa, outro me disse que sou cheia, alguém disse que sou boa atriz, minha professora disse: tá horrível!... uma pessoa disse que sou inteligente, um cara me disse que quase tenho uma falha de caráter, uma pessoa diz que sou chata, outra me chama de amiga, já me chamaram de lady e de barraqueira, já me chamaram de liberal, já me chamaram de ciumenta, já me chamaram de palhaça, já me chamaram de emburrada, já me disseram que estou à frente dos meus tempos e já me disseram: evolua!... já arregalaram os olhos e me disseram: que corajosa! já me disseram: ah vai pôr uma mochila nessas costas! já me chamaram de calma, já disseram que sou neurótica, já disseram que sou estressadinha, já disseram que tenho um bom coração, já disseram que sou narcisista, dizem que sou debochada, dizem que sou negativa e já me chamaram de idealista, dizem que sou teimosa, já me chamaram de hippie e de capitalista egoísta e nazista, dizem que sei o que quero, já me perguntaram: o que tu quer?...

Sunday, December 21, 2008

Um ritual de casamento

Hoje, fui a um casamento que teve um ritual budista. Lindo...Uma das coisas que eu achei muito bacana é que eles acreditam que para o relacionamento dar certo é preciso a presença dos elementos terra, água, fogo e ar e eles explicam por quê. O noivo lava os pés da noiva (e vice-versa) para limpar todas as vivências negativas anteriores, abrindo espaço para as que estão começando com a união dos dois. Teria muitas coisas para escrever sobre, mas, este calor do dia todo me deixou mortinha e se esperar descansar vou acabar entrando 2009 sem dizer nada. Então, coloco aqui a mensagem do convite da minha amiga que eu achei maravilhosa e uma foto dela linda de morrer! Foi minha professora de yoga por muitos anos, agora é uma grande amiga. Aproveito para dizer Namastê que para quem não sabe quer dizer que o Deus que está dentro de mim, saúda o Deus que está dentro de cada um. 

"Hoje eu caso com meu amigo, o único com quem eu tenho rido e chorado. O único com quem aprendi e compartilhei. O único que eu escolhi para apoiar, encorajar e dar a mim mesma todos os dias que nos for permitido compartilhar. Hoje eu caso com meu único amor."

Thursday, December 18, 2008

De olho no meu umbigo

Estou literalmente de olho no meu umbigo. Fazendo exercícios e fechando a boca para perder a barriga que está em volta. Mas, só fui perceber isso quando li a notícia ontem, quarta-feira, sobre o jornalista iraquiano que atirou os sapatos em Bush no Domingo. Nem sempre me interesso por notícias políticas. Internacionais, então, menos ainda. Mas, vamos ter que concordar que esta, além de interessante, é divertida.

Eu, assim como escreveu Marta Medeiros em sua coluna da Zero ontem, não consigo aprovar estas manifestações de jogar torta na cara dos políticos, ovos, tomates e fazer estas coisas terrivelmente constrangedoras, sejam as vítimas merecedoras ou não. Ainda acho que a palavra deve ser a nossa arma. Quanto mais de jornalistas! No entanto, pensar no instante que inspirou este jornalista a tirar os seus sapatos e jogar no ex-presidente é algo que me atrai. A agência France Press disse que suas palavras na hora do arremesso foram: “É o beijo do adeus, espécie de cão”.  Direto lembrei de uma tia que tem uma ojeriza aos americanos. Rebate qualquer um que tente dizer algo a favor. Nada escapa. Ela deve ter vibrado com a notícia. O problema é que acabam tratando o caso como se o autor da atitude tivesse tentando ou mesmo conseguido dar um tiro no dito cujo, o que não é nada incomum na história política americana. Aliás, gente muito boa (diferente deste caso) já foi vítima.

Afinal, os sapatos...Acho até que quem saiu perdendo (mesmo antes da punição) foi o jornalista. Porque mesmo sendo sapatos baratos, nada parecido com os de Carrie Bradshaw dos Sex and the city, não deixa de ser um desperdício. Por outro lado, a cena valia cada centavo. Pena que o jornalista tivesse uma mira tão ruinzinha.

Quanto a Bush tentou fazer uma de suas piadinhas dizendo que só calçava o número 10. Espero, do fundo do coração, que ninguém tenha rido na hora. Afinal, mesmo os puxa-sacos poderiam dar uma folga agora que ele não é mais o presidente.  Bem, mas, por falar nisso, “I don’t wanna walk in your shoes” Obama!

Wednesday, December 10, 2008

Falando de pretensão

Escolhi como tema para a minha pesquisa de mestrado a crítica teatral. Não foi uma escolha ao acaso. Como jornalista e apaixonada por teatro, esta questão estava sempre presente. Creio que nem preciso dizer que logo percebi a grande lacuna que há no Rio Grande do Sul em relação a este tema. 

Bem, o primeiro ano de mestrado já está no fim e confesso que não foi um período fácil. Do meu projeto, apresentado para seleção dos escolhidos para fazer o mestrado, até agora, muita coisa mudou. Meu primeiro contato com o meu orientador Edélcio Mostaço foi interessantíssimo e impactante. Enquanto o escutava falar com tanta propriedade, via minhas questões sobre quem deveria fazer crítica, quais eram os critérios da crítica, etc, etc, caírem por terra. Precisávamos falar na morte da crítica. Ou seja, meu projeto era um natimorto. Embora o trabalho ainda nem tivesse começado não me parecia, naquele momento, tão simples mudar a rota. E agora? Pensei. Mas, tive a humildade de não rebater os aspectos que estavam sendo apresentados por uma pessoa que subiu aos palcos, exerceu a crítica por muitos anos e obteve reconhecimento nacional. Não seria pretensão. Não seria ousadia. Seria burrice.

 

Então, tudo o que tinha a fazer era recomeçar com outro olhar o meu trabalho e foi, então, que ele se tornou ainda mais atraente. Hoje, 10 meses depois, vejo que meus questionamentos eram ingênuos, que não estava dando a atenção a questões mais importantes do que o como fazer crítica. Que é preciso discutir o por que e o quem a fará. Ainda é muito insipiente a minha pesquisa (em março, achava que já estaria com tudo quase pronto), mas, olhando a história da crítica pude concluir que estas idéias que temos sobre quem pode fazer crítica é algo que nos foi imposto. No início, a crítica era uma voz que questionava o poder reinante, mas, depois, ela passou a ser este poder. Chegou um momento em que os acadêmicos estabeleceram diversas regras, estilos e sabe-se lá mais o que para julgar, avaliar o que era posto em cena.  Só que por mais que os fazedores de teatro se sintam abalados com o que é escrito sobre o seu trabalho, trata-se de uma ilusão achar que isso, hoje em dia, influi na quantidade de público. São outros fatores. Talvez, até as fases da lua...Ok. Exagerei. Mas, não são as críticas. Ao contrário, quantos exemplos temos de que críticas extremamente negativas levam a platéias cheias? Imagino que isto ocorra justamente porque as pessoas não querem que alguém julgue as coisas por elas. Querem ter suas próprias opiniões. E eu, acho isso ótimo. Ainda não tenho a menor idéia de que rumo a minha pesquisa irá tomar no futuro. 

Mas, percebo e acho engraçado que algumas pessoas tentem defender uma reserva de um mercado que nem existe: o dos críticos. Dizem que não pode ser qualquer um a comentar, mas, sabem definir o que este qualquer um deveria saber para ser aceito? O levantamento que fiz até agora de todas as pessoas que mantém algum espaço com críticas de teatro em blogs, sites, comunidades, são de pessoas que estão relacionadas com a arte, que estudaram estes temas, que atuam na área e por aí vai. O que não deveria surpreender ninguém, pois, quem iria se dispor a escrever sobre teatro sem ser alguém que se interesse muito por ele? Tem que ter disponibilidade para ir assistir aos espetáculos e depois ter a paciência e a coragem de escrever sobre. Definitivamente não é para qualquer um. Assim, não vejo porque o temor. Além disso, acredito (até prova em contrário) que uma boa forma de manter esta arte viva é falando e escrevendo sobre ela.  Os meios virtuais facilitaram isso. Que prejuízo isso pode causar, afinal? Manter o teatro em uma redoma, intocável e indiscutível e acessível somente a eleitos é matar a sua essência.  Para mim, o crítico é mais um expectador e quem faz teatro sem querer ter o retorno do que está fazendo está no rumo errado. 

Décio de Almeida Prado, considerado um dos maiores críticos do Brasil, escreveu uma carta de despedida, dizendo que não tinha mais como criticar o teatro que estava surgindo onde todos os parâmetros estavam desaparecendo e encerrou sua carreira. Pode-se concluir daí, que esta tarefa ficara ainda mais difícil e que tenha surgido, a partir deste momento, todo este caos sobre a crítica. 

Estou sendo muito pretensiosa com o título: A crítica teatral na era digital – da poética a cibernética, mas, tenho consciência disso e estou pronta para correr os riscos. No entanto, não tenho muito a perder. Lá se vão mais de 20 anos quando ainda estava começando a tentar achar meu lugar no mercado (coisa que continuamos fazendo sempre), mas, já não há mais porque não ousar, não provocar polêmica. Foi esta maneira que conquistou o diretor da Aliança Francesa de Porto Alegre que me abriu o espaço no site www.afpoa.com.br para o que ele chamou La Chronique d'Helena, onde falo sobre a cultura francesa, outro tema que me apaixona. 

Nas pesquisas que fiz, recebi respostas maravilhosas, de gente muito reconhecida no meio teatral e acadêmico, doutores, mestrandos, atores globais, etc,etc, mas, também tive dois críticos que se manifestaram negativamente. Um apenas disse que não responderia a SPAM (?) e outro ficou chocado com a contundência do meu título e disse: “Mas, o que é isso? O teatro é mais gentil.” 

Bem, o teatro eu não sei, mas, os espaços virtuais acho que devem ser. Sou totalmente contra usá-los para denegrir a imagem de quem quer que seja.  Fora isso, fico bastante feliz quando tenho retorno ao que escrevo aqui, pois, antes, tudo acabava guardado em minhas gavetas e eu perdia a chance de compartilhar com outros idéias e pensamentos, o que acho muito enriquecedor e estimulante. 

Tuesday, December 09, 2008

Projeto Picasso – um sonho realizado


À convite de Thiago Pirajira, que foi meu colega no DAD e com quem muito simpatizo, fui assistir O Projeto Picasso, com direção de Julia Rodrigues. O espetáculo, baseado no texto As Quatro Meninas de Pablo Picasso é apresentado por seus autores como o resultado de uma pesquisa de linguagem e identidade do Grupo Barraquatro.

Tenho lido em textos escritos pela classe que os espetáculos que são realizados por alunos em fase de experimentação não devem ser avaliados com os mesmos critérios dos demais. O Projeto Picasso, para mim, é uma prova de que isso não é sempre verdade. Por quê? Porque se trata de um espetáculo extremamente bem feito, digno de qualquer espaço teatral e de uma bela temporada. E digo isso com alívio e alegria, pois, justamente neste momento acontece uma polêmica na comunidade do DAD sobre um comentário que fiz sobre as apresentações do departamento serem pretensiosas. Tudo que este não é. 

A simplicidade da proposta (que sem dúvida exige complexidade em sua execução) é arrebatadora. O trabalho é realmente de um grupo e de talento, sem celebridades, mas, com várias estrelas, pois, sem dúvida, brilham. A trilha sonora nos delicia. Projeto Picasso traz para a cena uma delicadeza da qual acredito que o teatro esteja necessitando e o público ainda mais. Nesta mesma linha do simples está o figurino e o cenário, mas, não há como continuar vendo um pano branco da mesma maneira depois de ver o que este pessoal fez. E que jeito criativo de fazer uma cadeira entrar em cena! Elementos como o fogo, a água e o ar se fazem presentes real ou metaforicamente. 

Estavam certos aqueles que disseram que é preciso assistir os espetáculos para poder comentar, mas, não fui eu que disse, mas Bárbara Heliodora, que o grande problema dos espetáculos ruins é que eles afastam o público do teatro por muito tempo e, às vezes, para sempre e é por isso que fico tão constrangida e provocada quando isto acontece. Felizmente, não foi o caso. Assim, pude ver atores como Thiago, a Carol Pommer, a Daniela Dutra, a Juliana Dias e a Kayane Rodrigues provocando risos e emoções com gestos, expressões e movimentos totalmente integrados e que nos falam, mesmo quando não há texto. Saí do teatro com a alma lavada, com a leveza que a má-fé e as maledicências costumam consumir no nosso dia-a-dia. Espetáculos como este colaboram para que esta arte maravilhosa do teatro continue viva. E eu também. Obrigada Barraquatro!

Monday, December 01, 2008

PÓS SEGUNDA DRAMÁTICA

Não pude acompanhar, realmente, a programação das Segundas Dramáticas, atividades realizadas no Departamento de Artes Cênicas da UFRGS durante o ano.  Recebia os convites, colocava na agenda e no dia alguma coisa acontecia e me impedia de ir. Nestas ocasiões, ficava sempre aquela sensação de perda. Assim, quando soube que seria a última apresentação do ano, comecei a me programar bem antes. A proposta era uma conversa sobre Dramaturgia com Ivo Bender e Jorge Furtado. Dois nomes que, sem dúvida, impõem respeito, sendo que do primeiro, como sempre confesso minhas fraquezas, pouco sei e muito ouço falar há anos. Do segundo, acompanho há bem mais tempo. Ainda era estudante de jornalismo quando comecei a ir a Gramado para participar do Festival de Cinema de Gramado e ele já era presença destacada por lá.

Bem, mas, antes da tal conversa, estava prevista uma leitura dramática da colagem de textos produzidos durante a oficina de Criação dramatúrgica com o Bender. Já estive em outras leituras e quando dá para ser ruim, é trágico. Se teatro mal feito é lamentável, leitura dramática mal executada é um tédio absoluto. No entanto, não foi assim.  Foi muito bom ver gente nova sabendo dizer um texto. Todos mostraram competência em relação a isso. Agora, Ian Ramil tem um jeito de estar no palco que merece destaque. É um jeito despretensioso, natural, mas, ao mesmo tempo impactante, convincente que se transforma de acordo com o personagem lido. Personagem? Na leitura nem chega a ser isso. Mas, Ian os fez aparecerem. Eu os vi.

 

Logo depois, começou a conversa. Ivo Bender falou sobre a oficina e foi logo dizendo: “É muito penoso escrever”. Ele atribui a isso o fato das pessoas irem desistindo dos laboratórios, na época em que ele ministrava aulas no departamento e, agora, da oficina. No entanto, segundo ele, aqueles que ficam produzem algo interessante. Para ele, o ator tem outro feeling em relação ao texto. “Quem tem experiência de palco, tem mais facilidade na redação dramatúrgica”, afirmou. Disse também que para escrever era preciso ler muito, tudo. Jorge Furtado foi entrando na conversa dizendo que era um leitor compulsivo e que ficava sempre com a impressão de que ainda há muito para ler, que não leu nada. Explicou que, no início, achava que havia dois mundos inconciliáveis: o das palavras e o das imagens até que assistiu Deu pra ti anos 70 e acreditou que era possível uma relação entre os dois. “A escrita exige três coisas: memória, observação e imaginação”. Para ele, é o que possibilita escrever algo. Disse que depois a gente não sabe mais o que é uma coisa ou outra. Que, muitas vezes, pensa que está se lembrando de algo que viveu e, na verdade, é algo inventado. Falou das preocupações que tem como diretor e que, várias vezes, lê, pensando: “e se eu for filmar como faço?”. 

Ivo Bender disse que uma das primeiras coisas que fala para quem está começando a escrever é: “não tente ser Shakespeare, nem Racine, nem Molière”.  Defende que existem elementos que podem ser identificados em um bom texto. Para ele, isso só se perde no teatro pós-dramático que ele considera “um bom barbitúrico”. Jorge Furtado disse que os textos que vão ser transformados em cena têm que ser lidos em voz alta. Contou que ele criara uma piada em que o homem dizia que havia abandonado a mulher porque ela comprara uma calça de couro. Como esta última palavra não foi compreendia pela platéia, a piada se perdeu.

Comparando literatura e cinema, Furtado disse que o cinema tem um tempo, que a literatura não tem. No primeiro, cabe ao diretor definir que tempo será esse em cada cena e, na leitura, o tempo é o do leitor, ou seja, pode levar anos. E, apesar de dar exemplos de quantos aspectos precisam ser levados em conta na hora de filmar, garantiu que “nada supera o texto”. Deu como exemplo a afirmação do quadro de Magritte: Isto não é um cachimbo, para mostrar que só na linguagem escrita é possível empregar a negação. “No entanto, o cinema é comovente”.

 

Ambos fizeram indicações de leituras imperdíveis. Jorge Furtado disse que Gonçalo de Tavares chega a ser irritante de tão bom e Ivo Bender disse que seríamos, praticamente, amaldiçoados se não lêssemos até o final do ano O Romanceiro da inconfidência, de Cecília Meirelles. Baseada na competência destes dois, acho melhor seguir estes conselhos. 

Autores dos textos da leitura dramática: Alexander Kleine (Cargo de Desconfiança), Clóvis Massa, (Das Profundezas), Marcos Chaves (Quartas-feiras de Três Notas) e Shirley Rosário (Emma Zunz, de Borges)

 Direção de LUCIANA ÉBOLI 

com Francine Kliemann, Ian Ramil, Karine de Bacco, Luísa Herter e Pablo Damian.

Thursday, November 27, 2008

Exigências

Muita gente já disse que estou sozinha porque sou muito exigente.
Mas, será que é exigir demais querer alguém que como você tem conversas inteligentes, gosta de cinema, de um bom vinho, de estar ao ar livre, de andar pelas ruas se deixando levar?
Será que é exigir demais querer ter alguém que goste de gente,
que goste da vida, de ser e de estar?
Que saiba sorrir quando eu falo e adore viajar?
Alguém que como você seja firme em suas convicções, mas, meigo e compreensivo em relação ao meu modo de pensar?
Que me faz sentir segura, mas, que também aparenta precisar de mim para se reafirmar?
Alguém que me abra a porta para eu passar, puxe uma cadeira para eu sentar, não em um gesto machista, mas, em uma atitude gentil que demonstra que era ali mesmo o meu lugar?
Que até vai achar graça quando ver que eu fui escrever algo sobre ele e que, sem querer, tudo me levou a rimar?
Se é exigir demais, por que você veio, mostrando que existe alguém com o jeito que eu sonho para amar?

Sunday, November 16, 2008

O mar quando chega na praia é bonito


Passei dois dias e meio na praia. Como sempre, parece muito mais até porque dois foram de céu azul e calor. Ou seja, pude renovar minhas energias entrando no mar, o que adoro fazer. Vou à praia desde pequena, como já disse aqui, e adoro. Depois que cresci, comecei a achar que o mar tem, realmente, algo de transcendente e fica muito mais fácil meditar, pensar na paz, no amor, nos meus planos, nos meus amigos quando estou diante da infinitude das águas marinhas.

Não, não estava nas Bahamas, nem em Salvador, nem mesmo em Santa Catarina. Estava em Capão da Canoa, no apartamento adquirido pela minha cunhada e pelo meu irmão, que já não está mais conosco (sou espírita dizer que ele, simplesmente, morreu não reflete o meu sentimento e quando ouço algumas pessoas dizerem “o finado” acho muito esquisito...). Sim, o apartamento tem muitas lembranças dele, mas, todas boas. Embora eu ele discutíssemos muitas vezes, ele adorava receber a gente. Seja aqui em Porto Alegre ou lá na praia, ele era o anfitrião perfeito. Batia boca comigo quando vinha na casa dos meus pais, vejam só! Em uma das paredes está o brasão da família Mello que eu dei de presente em um Natal. O edifício tem o formato de castelo e meu irmão gostava destas coisas de árvore genealógica, de onde viemos (já que para onde vamos não sabemos mesmo...), então, achei que ele gostaria deste negócio. Encomendei pelo correio e mesmo não tendo chegado na noite do dia 24, quando veio foi recebido com satisfação, minha e dele. 

Eu, minha irmã e minha mãe sempre ficamos felizes (pode parecer incoerente para muitos), quando estamos lá, porque lembramos da torcida dele para que aquele negócio desse certo e da vontade que ele tinha que todos pudessem aproveitar depois. Lembro que ele começou a pensar na possibilidade de ter uma casa na serra e me disse:  “o bom disso é que eu não vou poder estar em duas casas ao mesmo tempo, então, quando eu estiver numa, vocês vão poder estar na outra”! As coisas não saíram bem assim, mas, fazemos questão de aproveitar esta conquista dele. E como... Tem tudo por lá. Entramos e saímos só com as nossas roupas do corpo. Uma delícia. Quando via este tipo de coisa nos filmes, pensava: “não sei como estas pessoas não vendem a casa, com todas estas lembranças de tal pessoa.” Hoje, sei que era uma bobagem, pois, a saudade vai estar em qualquer lugar. Além disso, estar por lá é estar um pouco perto de novo dele. Em um lugar, em que só temos recordações felizes. Ele feliz e nós em volta.

 

Hoje, fizemos algo que, de certa forma, já tinha vontade há mais tempo. De mãos dadas, sentadas à mesa do apartamento, falamos sobre como gostaríamos que ele estivesse, não aqui, se não tivesse morrido, mas, neste outro caminho que a gente acredita que ele deva estar fazendo. Como gostaríamos que ele se sentisse em relação a vida que teve aqui conosco, da forma como lembramos dele, do exemplo que ele nos deixou e do privilégio de ter convivido com ele, mesmo que por pouco tempo. Ele servia de apoio para a minha mãe. Costumava se comportar como um oráculo. Tinha resposta para tudo. De receitas culinárias a casos complicados na justiça. E muito entusiasmo para tudo. Fazer planos era com ele mesmo. Coisas banais, como comprar um carro, a projetos futuros de vida. Era um santo? Não, longe disso. Tinha um temperamento forte. Gostava de discutir ferozmente, ainda mais com quem achava que era páreo para ele. Isso era quase um esporte. Alías, um dos poucos homens que conheço que não gostava de futebol. Em compensação, era daqueles que lia até as bulas de remédio! Ok. Exagerei. Mas, só no tipo de literatura, não na quantidade de livros lidos e quando falava destes os olhos brilhavam. Escrevia também e muito bem. Não tivesse usado este talento tão intensamente para redigir petições, teria mais chance de escrever ótima literatura. Quem leu seus contos e poesias sabe que, agora, não estou exagerando. 

Bom, mas, isso tudo me fez pensar. Às vezes, a gente não precisa deixar grandes descobertas para humanidade, nem ser reconhecido por milhões de pessoas como um Dorival Caymmi. Ser um bom exemplo para aqueles que estão em volta também pode ser, totalmente, inesquecível. Para menos gente, é verdade, mas, não com menos importância ou intensidade. 

PS: Minha intenção, quando comecei a escrever, era falar dos babacas do trânsito na estrada que estão sempre com pressa, cometendo imprudências e ameaçando a vida dos demais. Acabei mudando o assunto. Mas, não demora, vou retomar esta bronca.  

Monday, November 10, 2008

Segunda dramática

Andei meio fora do ar, mas, estou por aqui. Nesta segunda-feira nublada em Porto Alegre, deixo vocês com Caetano. Aproveito também para divulgar as Segundas Dramáticas lá no DAD, às 18h. Hoje, é uma apresentação da minha colega de mestrado e amiga Cibele Sastre, chamada Experimento da Cadeira. Não vi ainda, mas, acho que vai valer a pena. Tem bate papo depois.

Wednesday, October 29, 2008

Le rendez-vous cinema

 

Cinema, francês, comidas e vinhos? Morri e fui para o céu? Não, ainda não. Mesmo, assim, não dava para resistir ao convite da Aliança Francesa para “Le rendez-vous cinema”. O filme era “Questão de Gosto”, de Bernard Raap, e mesmo que não tivesse absolutamente naaaada a ver com a minha pesquisa de mestrado em teatro sobre crítica, assim que li o título, fui atraída. Bem, saber que era uma sessão comentada com Philippe Rémondeau e com a mediação do diretor Cristophe Benest também ajudou.

 

No momento, era o mais perto do Chez Philippe que eu podia chegar e quase que isso não acontece, pois, já de cara fomos avisados que ele se atrasara. O que, no entanto, não fez nenhuma diferença, pois, ver o filme no escuro e em silêncio com ele do lado não ia tornar o filme mais interessante do que já é. Talvez, eu pudesse olhar para ele com um olhar de fome cada vez que aparece uma das cenas maravilhosas de comida, mas, sem luz, acredito que pouco adiantaria.

 

O filme é instigante. Com um roteiro desconstruído (linguagem dos pós-dramáticos) cuja primeira cena é o final e já nos avisa de antemão que não será feliz. Eu, que não leio nem caixinha de DVD para não saber os detalhes, não me importei. De qualquer forma, o filme prende e a história vai sendo contada aos poucos. O trabalho dos atores Bernard Giraudeau, Charles Berling, Florence Thomassin, Jean-Pierre Leaud, Jean-Pierre Lorit é muito bom e a relação que se estabelece entre os dois principais é curiosa, bizarra até. Ao mesmo tempo familiar. Sim, porque embora a história vá evoluindo para situações patológicas, trata-se de uma relação de poder, de trabalho, de patrão e empregado. De humilhação, de assédio moral e estas coisas que não são tão desconhecidas assim.

 

Lá pelas tantas, enquanto me perguntava como alguém poderia suportar tanta maluquice, lembrei de um dos meus empregos na virada do milênio (ano de produção do filme, aliás) em que a relação entre eu e meu chefe (um ex caso de amor) também descambou de modo muito esquisito. Pensava nas vezes em que ele me “obrigava” a ir trabalhar nos sábados para realizar reuniões estratégicas para a empresa, garantindo que desta forma me transformaria em sócia, para depois me deixar todo o sábado pela manhã absolutamente sozinha e aparecer, próximo ao meio-dia, com o maior sorriso, me chamando pelo apelido que me criara e dizendo que, infelizmente, tinha ficado preso em uma situação inesperada. Fato que se repetiu por muitos meses e eu continuava indo trabalhar aos sábados contrariada.  E, aproveitando o filme, vou empregar um verbo francês que aprendemos lá na Aliança na aula de sábado de manhã (sim, agora, este é muito melhor aproveitado): subir = suportar alguma coisa dolorosa sem querer.

 

Importante frisar, porém, que eu não tinha as vantagens que o cara do filme teve: o alto salário, as regalias. Aliás, na descrição do filme diz: “o que no início era uma relação profissional acaba por tornar-se muito perigosa para ambos”, eu discordo. Acho que nem, no início pareceu apenas uma relação profissional. Adoro cinema por isso. As coisas vão sendo ditas aos poucos, mas, já estão lá. É um olhar, um jeito de andar, uma frase aparentemente casual. Muitas vezes até o figurino ou um objeto qualquer vão dando indícios do que irá acontecer depois. De qualquer forma, mesmo neste filme em que a cena final já apareceu, e inclui uma camisa encharcada de sangue, ainda queremos saber o que aconteceu até chegar ali. E quando sabemos, não decepciona. Ao contrário, dá vontade de saber mais. É aquele tipo de filme que não termina com os créditos, que podemos aprofundar com as discussões. Importante observar o ritmo deste filme, pois, os franceses têm sua fama de fazer cinema lento e, muitas vezes, sem final, como muitos de nós, brasileiros, costumamos dizer. Não é este o caso.

 

Mas, apesar da presença simpática do Philippe (sim, ele apareceu!) e das coisas curiosas e inteligentes que ele falou sobre culinária, o tema do filme era para uma discussão com psiquiatras e psicanalistas de plantão. Um chef, por mais brilhante que fosse, pouco poderia fazer para explicar aquela relação de dependência doentia que se estabeleceu entre os dois atores principais, mesmo que eles tenham passado quase todo o filme entre uma refeição e outra. Como dizia a chamada do email que recebi convidando: “Goûter n’est pas jouer”! (Provar não é jogar). Agora, verdade seja dita: saímos todos com vontade de jantar. Infelizmente, ainda não foi desta vez que fui parar no Chez Philippe, mas, estou chegando perto...

 
 

Tuesday, October 28, 2008

Teatro quase à força


Fui assistir O Médico à Força, depois de um Domingo de eleição e horas ininterruptas de chuva. Havia escutado alguns comentários não muito bons. Mas, minha irmã me convidou e ela quase nunca vai ao teatro, então, quem sou eu para dizer que não?

Na entrada, sou recebida com as boas-vindas da diretora Margarida Peixoto e na bilheteria ganho o desconto da “classe”. Isso é motivo de satisfação para mim, amante do teatro e dos atores que sou. Em seguida, recebo o programa. Ficamos lendo, minha irmã (professora de francês) e eu, sobre Molière, o autor do texto de 1666, “uma das peças que têm a medicina como alvo principal do riso”. Para mim, que fui assessora de imprensa da Associação Médica do Rio Grande do Sul antes dos anos 90, isso não me surpreende. É uma classe que merece todo o meu respeito, mas, que, convenhamos, é capaz de provocar todas as reações humanas: da ira ao riso. 

Bem, o primeiro impacto é do cenário de Elcio Rossini. Grandes fotos coloridas em painéis separados em formato triangular que se revezam. Interessante. Inteligente. Esteticamente eficiente. Logo no início, Anna Fuão e Marcelo Adams no palco. A primeira, minha colega de faculdade e o segundo, um ator cujo trabalho, até hoje, sempre me agradou. Anna não é ela. É o seu personagem. Inclusive no seu rosto que, mesmo sem máscara, apresenta feições que não é daquela moça de olhos claros que sentava na mesma sala de aula que eu. Atriz. Ponto. Marcelo Adams não poderia ficar atrás. Tem uma presença cênica que admiro. Um jeito de dizer o texto que me atrai. E canta! Bem, por sinal. O último trabalho que vi dele foi Édipo e agora lá está ele vivendo Sganarelo, um lenhador. Para que outras vidas se temos o teatro? E se vamos falar do elenco, todos me convencem, todos me divertem. 

Falei que o texto era de 1666? Segue atual. Por isso, Molière é tão montado. Por isso, chegou aos nossos dias pós internet, pós-dramático, sem as Leis de Incentivo, sem o marketing. Coisa de gênio. Gosto das “confusões verbais” que ele cria, como diz o programa. Não sei se precisava inspirar-se na estética da produtora brasileira Atlântida para me apresentar o que vi. Não li o texto original. Mas, acredito na escolha da Cia. De Teatro ao Quadrado.

Algum “porém”? Quase sempre. Neste caso, em algum momento, sem que eu saiba identificar por quê, algo acontece em cena que me dispersa, me traz aquela sensação incômoda de querer saber quanto tempo falta, estas coisas que não deveriam acontecer em um bom espetáculo. No entanto, como disse, pode ter sido algo daquele dia, ou melhor, daqueles dias, de chuva, chuva, chuva. Felizmente, aceitei o convite de minha irmã, pois, se tivesse dado ouvidos aos comentários, teria ficado em casa sem dar boas risadas e ver um bom espetáculo. 

Thursday, October 23, 2008

Sexy and the city. Where?


Fui devolver o filme O criado que havia tirado na locadora devido a disciplina que faço no mestrado sobre a Dramaturgia do Século XX. Olhando o folheto de divulgação, vi que o filme Sex and the city estava na lista de filmes disponíveis e trouxe para casa. Cheguei a pensar em ir ao cinema assistir, mas, o tempo passou. Despretenciosamente, comecei a assistir. Não cheguei a ser graaande fã da série. Um amigo meu achava que eu iria gostar e me indicou há bastante tempo atrás. Só fui ver as reprises. Ele estava certo. Já o filme pensei que ia ser besteira. Aquela história daquelas mulheres. buscando o amor, a Carrie eternamente apaixonada pelo Big que tinha outras e nunca estava disponível... Eu conheço esta história. Não preciso ver na tv. Falso. Acaba sendo emocionante até. Afinal, se fazem um filme sobre algo que me é tão familiar é, no mínimo, interessante. E foi assim que fui vendo o filme. 

Não dou bola para grifes. Reconheço a beleza, mas, em questão de moda, muitas vezes, a esquisitisse anda junto. Então, não ligo se a bolsa é Louis Vitton (talvez, até me darem uma!) e tenho pavor destas griffes por mais chiques que sejam que colocam as iniciais do bambambam no produto. Um horror! Bem, mas, como já disse, não é isso que me impressiona no filme. É que se trata das relações, do amor, da paixão, do perdão e de sexo, é claro. Não podemos esquecer que Samantha faz parte deste relacionamento. 

Outra coisa que me emociona, as lágrimas até, é amizade destas mulheres. Este amor incondicional que resiste a tudo, ao tempo, à distância, as mancadas e, principalmente: a inveja. Elas são bonitas, inteligentes, tem desejos e buscam um amor. É claro que damos um jeito de nos identificarmos. Principalmente as que seguem só. Bateu saudades das minhas amigas. Bateu vontade de estar vivendo uma paixão. Bateu saudade...

Monday, October 20, 2008

O que faz você feliz?


Nunca fui contra propagandas. Todo comunicador convive dois anos com pessoas que estudam para aprender a fazê-las. Assim, aprecio espaços comerciais inteligentes, divertidos e emocionantes. Emocionantes sim. Acho possível um comercial trazer este sentimento.  Mas, como todo mundo, quando o comercial é bacana, esqueço o que estava anunciando. Uma pena...comercialmente falando! Bem, mas, no título ponho a frase de um que me chama, particularmente, a atenção e que repete esta frase: “o que faz você feliz?”* e abre para as muitas possibilidades. Bem, eu já há algum tempo acredito que felicidade, esta permanente, não existe. E repetindo algo bastante batido, ouso dizer: o que existe são momentos felizes. Como passei hoje.

Fui ao litoral a trabalho. Estou fazendo um vídeo sobre o trabalho dos meus pais, no qual já estou engajada há algum tempo, os Jogos Boole (www.jogosboole.com.br). Fui gravar o depoimento de uma professora que decidiu alfabetizar seus alunos utilizando este projeto criado pelo meu pai para desenvolver o raciocínio lógico. Enquanto ela falava, pensava nos longos anos do meu pai tentando explicar sua idéia, parecendo meio louco, insistindo em uma idéia que a maioria das pessoas não conseguia entender e acabava ridicularizando suas atitudes intempestivas que visavam à divulgação do que ele havia descoberto. Hoje, esta idéia se espalha por aí, nas escolas e chega em vários lugares do país, inclusive, em escolas pequenas, mas, com professores dedicados como a professora Vera Traut de Santo Antônio da Patrulha da escola Padre Réus onde estive hoje.

Minha próxima parada era Osório. Falar com outra professora, a Elena Chemale, também entusiasta dos Jogos Boole. Esta foi uma das primeiras a entender a proposta e vibrar com as possibilidades de trabalhar com o material em sala de aula. É assim até hoje, mais de 20 anos depois. Vera Traut, por exemplo, foi sua aluna. Foi muito bom vê-la dando seu depoimento também, falando sobre como o jogo pode ser sempre utilizado em situações difíceis, com crianças desinteressadas que logo se entusiasmam com o trabalho.

Dois momentos, portanto, bem bacanas. Mas, ainda faltava o melhor. Como poderia ir até tão próximo ao mar e não ir lá dar uma olhadinha? Sou fanática pela praia, sua amplitude. O mar tem algo de transcendental para mim. Ah, e preciso dizer que o dia estava absolutamente perfeito? Um céu azul de brigadeiro, como dizia minha vó, enquanto eu pensava no doce (chocolate com leite condensado) e ela se referia a patente mais alta das Forças Aéreas. E como fui com um músico, cantor e compositor, infelizmente, ainda não reconhecido, na última hora, passei a mão no meu violão. Pronto. Céu, sol, sul, água e cor e uma boa música para completar. 

Ainda bem que, hoje, não deixo um momento assim passar em vão. Percebo, imediatamente, que se trata de um momento feliz e faço as pazes com as forças criadoras do universo, esqueço o trânsito, as caras feias, as contas no banco e me deixo levar pelo barulho do vento. Vento....muito vento que espero tenha levado a todos aqueles que fazem parte das minhas relações as energias positivas que mandei hoje. Um dia em que, sem dúvida, eu fui feliz!

* Dei uma pesquisada na "minha bíblia"; o Google. O comercial é do Pão de Açúcar.

Thursday, October 16, 2008

O filho do padeiro não ganhou o Nobel


Márcio Silveira dos Santos

 

     "O teatrólogo brasileiro Augusto Boal, o filho do Padeiro como se intitula em sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas, estava entre os indicados ao Prêmio Nobel da Paz 2008. Boal não levou o prêmio, entregue a um finlandês, mas cabe aqui destacar a relevância do seu trabalho, bem como a influência no que desenvolvo nas aulas de artes com jovens.

     Augusto Boal é um dos mais importantes criadores de teatro de sua época e a sua maior criação, o Teatro do Oprimido, é realizado em mais de 70 países por centenas de grupos em diversas áreas como educação, movimentos sociais e entidades socioculturais. Os grupos de Teatro do Oprimido ajudam milhões de pessoas a afirmarem sua cidadania em suas lutas contra o racismo, o sexismo e todas as formas de desrespeitos aos inalienáveis direitos humanos. Um teatro estruturado na relação dialógica, proposta por Paulo Freire na sua Pedagogia do Oprimido, a qual Boal se inspirou.

      Tenho trabalhado nesta linha com os jovens da periferia da cidade. Utilizando desta potente ferramenta para conscientização de todos que a praticam. Considero minhas aulas como pequenos CTOs - Centros do Teatro do Oprimido. Onde procuro desenvolver caminhos para a transformação da realidade dos alunos, a partir da restauração de suas capacidades estéticas na melhor compreensão das relações que estabelecem socialmente. É um processo lento, respeitando individualidades nos coletivos, que vem apresentando resultados e se multiplicando.

     Recentemente, Boal disse que não tinha expectativa em ganhar o prêmio, mas anda extremamente feliz porque recebeu apoio para nomeação de diferentes pessoas dos cinco continentes. Ainda neste ano o dramaturgo recebeu o prêmio da Fundação Príncipe Claus para a Cultura e o Desenvolvimento, entregue pela Família Real holandesa. No Brasil, não é tão reconhecido quanto no exterior, como em Nova York, onde existe o dia do Teatro do Oprimido, proclamado pela Prefeitura local.

      O fato de Augusto Boal ter sido nomeado candidato já justifica a importância humanística do seu trabalho nos tempos líquidos em que vivemos. Repleto de violência sensacionalista, de falsidades ideológicas, da negligência com a cultura e com quem a faz. Em seu livro Teatro do Oprimido, de 1973, já dizia o que hoje representa sua condição: Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à arte - é seu direito ou condição! -, mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida. Assim o filho do padeiro segue, através do seu teatro, provocando reflexão sobre o humano que ainda há em nós."

Márcio Silveira dos Santos é professor

Este artigo foi publicado no Jornal Vale dos Sinos desta quarta dia 15 (dia do professor). Reproduzo aqui, pois, vejo que muitas pessoas desconhecem ou não tem o devido respeito pelo trabalho de Augusto Boal