Sunday, July 27, 2008

Quem disse que sonhar não custa nada?


Fui assistir ao filme O Banheiro do Papa. Já tinha passado o sábado sem fazer nada quando amanheceu este Domingo de chuva. Fazia horas que não ia no Guion. Olhando o preço do estacionamento já consigo lembrar por que. R$ 7,00? Ainda bem que quem vai ao cinema tem desconto. Fica por R$ 3,00. Mas, o cinema é R$ 12 e tem que ter dinheiro vivo. Bem, mas, a sala é muito cômoda e ainda dão aqueles saquinhos transparentes para a gente comer as coisas e não fazer barulho. Claro...chuva=chocolate!
Já tinha ouvido falar do filme, mas, na minha cabeça tinha final feliz. Que nada! Isso quem faz são os americanos. De qualquer forma, é um ótimo filme. Faz a gente cair na real, pensar, dar mais valor a tudo o que temos. Sem forçar a barra. Gosto muito de histórias que se referem a fatos reais. Nunca esqueço, porém, que a forma como são contados, é ficcional e pode ser boa ou rim. Neste caso, é ótima. Os atores são incríveis. A fotografia é excelente.
Não gosto de ler sinopses, mas, agora que já vi, não me importo. De qualquer forma, acho estranho eles dizerem que o protagonista era contrabandista. Este termo é muito pejorativo para o que ele faz para sobreviver...
Apesar de ter saído de casa apenas para me distrair e acabar vendo um filme sem happy-end, valeu muito a pena. Recomendo. Mas, não aceito reclamações. Afinal, eu avisei.

Para um domingo chuvoso

Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Friday, July 25, 2008

Mestrandos na gandaia


Um absoluto sucesso a nossa primeira festa ontem. Sim, porque no que depender de mim, muitas outras virão. Nem foi tão difícil acertar uma data em que a maioria pudesse vir. Todos procuraram seguir as regras de trazer coisas para beber e comer e foram além: bons quitutes, ótimos vinhos. A mesa ficou farta e bonita e, desta vez, diferente de tantas outras, eu pouco tive a ver com isso! Assim, fica fácil programar qualquer festa. Não tem stress. Casa limpa, flores nos vasos (se não minha mãe não deixa ninguém entrar) e pronto! A cada pessoa que chegava eu ia ficando mais feliz. Estava com saudades destas pessoas que conheci há tão pouco tempo. Ainda tenho tantas curiosidades a respeito de todos. Mas, independente das lacunas curriculares, são pessoas que olham nos olhos, que sorriem e que quando abrem a boca tem coisas legais para dizer, mesmo quando é por pura brincadeira! Sei que são cabeças pensantes, se não, não seriam meus colegas de mestrado em teatro, mas, são corpos dispostos e almas alegres. Assim, não tem como não ser divertido nos reunirmos.

Quando pensei em me deitar, depois que todos haviam ido embora, eram 2h da manhã, sendo que o primeiro a chegar estava aqui as 8h. Ou seja, ficamos juntos bastante tempo, mas, não foi o suficiente. Passou rápido e consegui conversar um pouco mais com apenas alguns, não com todos. Vi que o pessoal gostou da casa e eu que trabalhei intensamente na reforma da mesma, fico orgulhosa. Mas, de que adiantaria uma casa assim se não fosse para abrir as portas para os amigos, para a alegria? Era assim antes, quando a casa nem tinha toda esta estrutura. E meus colegas puderam ver pela minha mãe que são festas que recebem a aprovação de todos. As "férias" estão no fim. Não vou negar que bate um certo pavor perceber que não fiz as leituras que precisava e que muito ainda vem pela frente, mas, sei que tudo isso vai acontecer com estas pessoas por perto, então, vamos em frente. Com cada vez mais certeza de que o que se leva desta vida não são os títulos, os bens, mas, momentos como os de ontem em que as vozes encheram o ar e as risadas, os corações!

Friday, July 18, 2008

Ia me esquecendo da poesia...

Por estas e por outras que tenho que ser a favor do Orkut. Estava bisbilhotando (sim, eu faço isso) mensagens para ver se uma amiga minha já chegou ao Brasil, depois de alguns anos fora, e encontrei no perfil de outra um texto que me chamou a atenção. Era de Rainer Maria Rilke. Nunca tinha ouvido falar, não que eu lembre. Lembrei de Heiner Muller, dramaturgo alemão, mas, isso é outra história.

Bom, daí, coloco o nome deste poeta, até então desconhecido para mim, no Google e surgem milhares de páginas e textos. Quem diria...Na verdade, eu mesma. Canso de me dar conta de quantas coisas desconheço. O quanto sou ignorante em diversos setores. E olha que poesia é uma das coisas que sempre gostei, desde os 12 anos. Bem, mas, agora que descobri esta pessoa vou buscar mais informações e já vou publicando algumas coisas por aqui. Nestas horas, redescubro o poder da palavra!

"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)"

"Pois não é apenas a indolência que faz as relações humanas se repetirem de modo tão monótono e sem renovação de caso a caso, é a timidez diante de qualquer experiência nova, imprevista,para a qual não nos consideramos amadurecidos.(...)”

Quero lhe implorar Para que seja pacienteCom tudo o que não está resolvido em seu coração e tente amar.As perguntas como quartos trancados e como livros escritos em língua estrangeira.Não procure respostas que não podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a questão é viver tudo. Viva as perguntas agora.Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante.

Wednesday, July 09, 2008

Diário de um mestrado

Talvez, este título não esteja lá muito correto, já que não tenho a menor intenção de escrever todos os dias. Ao contrário. Pensei em fazer isso a cada seis meses apenas. Acho que já é o suficiente. Antes de qualquer coisa, preciso dizer que chorei quando não entrei a primeira vez. Tinha feito planos. Estava cheia de expectativas e queria, a todo custo me manter vinculada a minha segunda grande paixão, depois, do jornalismo: o teatro. É importante dizer isso para ficar óbvio o quanto fiquei feliz em me transformar, finalmente, em uma mestranda. Orgulhosa também, eu diria, por fazer o site do Pós-Graduação de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aliás, visitem: www.ppgac.ufrgs.br. Ainda tem várias coisas para explorar, mas, dá para o gasto.

Fiz minha inscrição, obviamente, cheia de dúvidas. Pensei que havia ficado fora de uma disciplina que só mais tarde percebi que era importante. Mas, não. Logo no início, conheci meu orientador que, sendo de Santa Catarina, estava aqui para dar um curso e me orientar, é claro! Foi um ótimo encontro. De posse de uma lista de dez livros para ler e vários questionamentos (inquestionáveis) feitos por ele, eu começava a me assustar, percebendo o trabalho que ainda teria pela frente. No entanto, nos primeiros quatro meses praticamente não mexi no meu projeto. Também pudera.

Envolvida com as aulas e as leituras das disciplinas normais, não conseguia achar tempo para mais nada. Felizmente, uma delas nos obriga a ir revendo o que pretendíamos no começo, o que dissemos que gostaríamos de pesquisar. Gostaríamos? Não. Adoraríamos! Em uma das primeiras aulas, declarei a minha paixão ao meu tema e me sentia inteligente por isso. Sabia que só alguém muito a fim conseguiria manter a energia que seria necessária. Ah, preciso dizer também que me senti bem burrinha muitas vezes. Algumas palavras ricocheteavam na minha cabeça e saiam pelas orelhas exatamente do mesmo modo como entraram. Sem antes, causar certo estrago. Meus colegas me viram participar das aulas, dizer várias coisas e perguntar outras tantas, mas, eu aguardava ansiosamente o horário do café. Só uma pausa poderia trazer de volta o meu fôlego para tentar compreender todos aqueles conteúdos. Esbarrei em gente que se delicia em dar voltas nas palavras, criar verdadeiros labirintos nas idéias e no final... o que eles disseram mesmo?

Mas, tirando algumas raras exceções, este era o sentimento geral e assim fomos nos apoiando e sobrevivendo a aulas que, às vezes, nos sugavam para um buraco negro, o buraco negro da ignorância. Sim, porque aos poucos descobríamos o quanto ainda não sabíamos. Nós, aqueles mesmos seres que havíamos conseguido passar na prova e sermos aprovados na entrevista!

Bem, mas, seis meses (ou seja ¼ do tempo) já se passaram. E preciso confessar: meu projeto ainda está apenas começando. Após uma segunda visita do meu orientador até o nome da minha pesquisa sofreu alterações. Que dirá o resto! Mas, não se enganem. Eu continuo animada. Só que não posso evitar certa angústia que me invade dia sim, dia não e que se associa ao prazer e ao entusiasmo de encontrar mais um livro, mais um texto que preciso ler, mais nomes que devo contatar. E não creio que isso aconteça apenas com o meu tema que trata do mundo global, virtual, da rede de comunicação mundial.

Na cadeira que fiz com os colegas, que agora têm o mesmo tempo que já se passou para mim para concluir o curso, observei que suas pesquisas ainda estavam sendo processadas, discutidas, questionadas. E assim como tantos outros conceitos que se diluíram na minha mente nesta metade do ano, o do tempo é definitivo. Tenho o mesmo tempo de mestrado feito que os alunos do segundo ano para concluir e não preciso perguntar para eles se o que para mim já é muito para eles é quase nada! E, embora nenhum deles tenha me dito: “eu sou você amanhã”, isso está claro para mim.

Volto em dezembro com outro relato para que todos me acompanhem nesta saga, rumo ao pior!
  

Tuesday, July 08, 2008

Lei seca

Tenho evitado de escrever sobre a nova lei de proibição de bebidas antes de dirigir. Não porque não tenha uma ou muitas opiniões formadas sobre ela, mas, porque na minha pretensão, fico receosa (para não dizer com medo) de que se for parada alguém verifique minhas idéias antes de me pedir para fazer o exame do bafômetro. Então, vou aproveitar este mundo de internauta e publicar aqui parte do texto do jornalista e autor teatral Sergio Roveri.

Com medo da lei seca
Na noite de domingo, após sair da última sessão do genial Wall-e, o robozinho que é capaz de cativar qualquer um mesmo em cópias dubladas, eu e dois grandes amigos, o ator e professor Alberto Guzik e o jornalista Ricardo Moreno, paramos em um restaurante para a tradicional saideira do domingo. Passava um pouco das onze da noite. O Guzik pediu uma cerveja longneck, o Ricardo foi de caipirinha de lichia e eu, bem...como naquela noite eu estava dirigindo, pedi um copo de água e aceitei dar no máximo dois goles na cerveja do Guzik, linda, gelada, amarelinha e irresistível. Naquela hora eu senti o peso da lei seca e, ainda que sob o risco de atrair uma chuva de críticas à minha opinião, gostaria de explicar aqui como eu me senti naquele momento. Eu me senti infeliz.Concordo com um outro grande amigo que costuma dizer que os números de acidentes de trânsito no Brasil são pornográficos. Concordo com qualquer medida, lei ou decreto que visem diminuir tais estatísticas e preservar a vida de motoristas e pedestres, principalmente dos mais jovens, que parecem ser as principais vítimas desta guerra que se trava nas ruas do País. Concordo também que tolerância zero é tolerância zero, sem brechas, exceções ou jeitinhos. Mas, apesar de tudo isso, continuo achando que esta lei ainda é um pouco difícil de engolir - e não sei se ela se tornará mais digestiva com o tempo, pois o problema não parece estar em sua adaptação, mas sim em suas raízes.É ridículo acreditar que alguém possa ser flagrado pelo bafômetro por ter usado Listerine, ser diabético, tomado antidepressivos ou, o que é pior, comido dois bombons recheados de licor. Com apenas um chopinho a gente já corre o risco de perder a carteira de habilitação e ainda arcar com uma multa de quase mil reais. Conversei hoje com um psiquiatra, estudioso de vários tipos de drogas e seus efeitos sobre o organismo humano a partir de certas dosagens. Ele diz que não há consenso médico que classifique como alcoolizada um pessoa que tenha ingerido um copo de chope. Parece pouco. Sei que se a lei usasse como parâmetro a medida mínima de dois copos de chope, ainda assim haveria reclamações - até porque somente os outros ficam bêbados. Nós, no máximo, ficamos alegrinhos, e olhe lá.Repito que sou favorável a qualquer lei criada para diminuir o número de acidentes de trânsito, mas esta me parece invasiva demais, penalizante demais, espetaculosa demais. Ou seja: um cenário propício para casos de propina que nosso jeitinho brasileiro bem sabe como administrar. Acredito que esta lei, da maneira como vem sendo aplicada, só reforça a idéia de que o mundo está se tornando um lugar cada vez menos prazeroso, cada vez mais vigiado e repressor.Naquele domingo à noite, ao lado do Guzik e do Ricardinho, tomei dois goles tão pequeninos de chope que parecia que estava tomando a vacina Sabin: deu para molhar a língua, mas não para engolir. Na volta, tive de cruzar toda a Vila Madalena para deixar o Ricardinho na casa dele. Fiz este trajeto com medo de ser parado pela polícia, eu olhava para cada esquina da Vila com tamanho pavor de ser flagrado que parecia que eu estava transportando um cadáver no porta-malas. Mas não um cadáver qualquer: um cadáver que eu mesmo havia produzido. Achava que a qualquer momento uma viatura ia interceptar o meu caminho, um policial desceria com um bafômetro, meu carro seria guinchado e eu passaria a noite na cadeia por causa daqueles dois golinhos de chope. E talvez nunca mais pudesse dirigir. E é isso que me dá medo nesta lei e no mundo de hoje: parece haver uma ação orquestrada para que a gente viva acuado, temeroso, marginalizado e com aquela sensação de que está constantemente fazendo algo de errado.Eu trabalhei, há alguns anos, com um famoso jornalista que matou a namorada com dois tiros nas costas. E continua em liberdade. Se eu tivesse sido pego no domingo, talvez fosse detido após meus dois goles de cerveja. Repito que não quero ser contra a lei, mas que mundo é este em que dois goles de cerveja são mais graves do que dois tiros pelas costas? É para dar medo ou estou exagerando?

Postado por Só no blog Quinta-feira, Junho 26, 2008

Monday, July 07, 2008

A língua

Vira e mexe me dou conta de que escrevi algo errado por aqui. Felizmente, entro no texto e corrijo. Mas não sei quantas pessoas já leram meus erros e fico com uma certa vergonha. Jornalista deveria saber escrever. Depois me lembro que todos eles têm revisores. Pessoas que são pagas apenas para ficar, justamente, corrigindo os erros dos outros, mesmo depois que o Word já o fez. Porque escrever algo interessante, com emoção e ainda pensar na gramática? Nem sempre é possível. No texto anterior, havia escrito "hospéde" e como me referia a um canadense, de repente, tem gente que pensou que era assim que se escrevia a palavra em francês. Que nada! Bem, mas, neste fim-de-semana, ainda sob o efeito canadense, ficamos repetindo o erro do Charles e falando no mousse "maracúja". Ou seja, basta uma mudança de acento para ficarmos ridículos. Que saco...Bem, mas, eu vou seguir escrevendo e revisando quando encontrar os erros. Muitos deles ainda devem estar por aí. Fazer o que?

Saturday, July 05, 2008

Nosso hóspede canadense vai embora


Hoje levei no aeroporto o canadense que esteve hospedado aqui em casa desde o dia 24 de maio. Como detesto despedidas definitivas, prefiro sempre pensar que voltarei a revê-lo um dia, seja ele retornando a Porto Alegre ou eu indo ao Canadá. Deixo registrado aqui o texto que escrevi para entregar a ele na festa de despedida que eles (os 14 canadenses que estavam aqui na cidade estudando português) organizaram. Vai dar uma idéia de como todos nos sentimos.
"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar..." Pequeno Príncipe




No início, era apenas um nome em um papel. No primeiro dia, este nome se transformou em um jovem sorridente e simpático com o qual passaríamos a conviver todos os dias.
Ele é uma das pessoas mais educadas e gentis que já conhecemos. Durante o período que esteve conosco, elogiou tudo: comida, lugares, pessoas. Agradeceu mais ainda. Cada pequeno gesto nosso foi sempre retribuído com um “muito obrigado”.
Em todos estes dias, nunca pareceu estar contrariado com nada, mesmo diante de alguns imprevistos no seu local de hospedagem.

Curioso, fez sempre várias perguntas sobre a política, a economia, os costumes, sem nunca dizer que no Canadá era mais organizado ou melhor. Ao contrário, fez sempre questão de mostrar estar gostando de tudo que conhecia.
Quase dois meses depois, muitas conversas, sorrisos, infinitos agradecimentos, nos despedimos de alguém de quem sentiremos saudades.

No primeiro momento, era um desconhecido. Hoje, é um amigo.

Thursday, July 03, 2008

Ah...Não. Só A.


Quanto tempo depois de ver um espetáculo a gente ainda pode comentar? Fui assistir ao espetáculo “A” nas segundas-dramáticas do Departamento de Artes Dramáticas, na General Vitorino. É aberto ao público. Apareçam por lá, às 18h. Em geral, é coisa boa. E foi assim.
Entrei lá à tarde e as vi preparando o cenário. Não era sofisticado, mas, já causava certo impacto. No entanto, é quando elas encenam que aqueles panos e balões fazem sentido. A energia daqueles corpos esbarra nos tecidos e se reflete no público. Teve discussão depois. Justamente com o meu orientador, Edélcio Mostaço. Foi ele que me fez perceber que aquele tema que, para mim não causou surpresa, ainda podia provocar tanto estranhamento, principalmente, nos homens.
A peça fala do universo feminino. Bem, o assunto desperta o meu interesse há vários anos. Já li muito. Discuti muito e elas estavam ali falando de maternidade, de violência no casamento e por aí vai. Então, o que realmente me deixou de boca aberta era a forma como elas resolveram trazer tudo isso à tona. Não havia homens em cena. Eram apenas três mulheres. No entanto, elas contracenavam com seus machos invisíveis e reagiam a eles de forma intensa, natural e verdadeira.
Ontem ainda, alguém me perguntou: tu és atriz? Sempre respondo: faço teatro. Porque sei o quanto é difícil chegar aquele resultado ali que vi no palco. Tem gente que acha que fazer teatro é fazer caras e bocas e até é, mas, as caras e bocas tem que acontecer no tempo exato e do jeito certo. E foi isso que vi. Havia teatralidade, é claro! Mas, ao mesmo tempo tudo aquilo podia estar acontecendo na sala da casa da gente. Tinha uma proposta lúdica, mas, que nem por isso era leve ou divertida. Lembra um pouco aquela música do boi da cara preta que “pega esta criança que tem medo de careta”. Ou seja, mais assusta do que faz rir.
Minha colega de mestrado, Maria Amélia Netto, foi a última a fazer o seu monólogo e isso me gerou forte expectativa, pois, as anteriores haviam sido incríveis. Mas, o bom é isso. As três têm o mesmo nível de atuação: alto, eu diria, e isso só pode dar bom resultado. Luciana Holanda, Marina Monteiro e Maria Amélia são dirigidas por Cleistenes Grött e Meire Silva. Elas partiram do texto de Dario Fo e Franca Rame, mas, fizeram entrevistas com muitas mulheres, saíram a campo para elaborar a peça e introduziram coisas que fizeram o espetáculo se tornar bem interessante mesmo para mim que por ter nascido feminina sabia exatamente do que elas estavam falando desde que Rita Lee cantava: “mulher é bixo esquisito, todo mês sangra!” Mas, vejam, isso não diminui em nada este espetáculo que é sensível e contundente ao mesmo tempo.

Sunday, June 29, 2008

Vive la musique!

Fui ontem assistir ao 1º Festival da Canção Francesa, promovido pela Aliança. Para quem não sabe, eu havia me inscrito. Não porque já tivesse o hábito de cantar, mas, porque o prêmio era uma passagem com estada (não estadia, como dizem e disseram) para Paris. Para isso, sou capaz de cantar, sapatear e tocar flauta! Já escrevi sobre esta experiência aqui. Mas, quero falar de ontem.
Eles distribuíram dois ingressos para cada aluno. O que achei pouco, imaginando o tamanho do teatro da Reitoria onde foi realizado o evento. Bem, mas, seja como for, eles conseguiram um excelente público. Havia ainda lugares, mas, todos os níveis estavam com muitas pessoas. Foram selecionados apenas 10 que cantariam ontem. O diretor da Aliança Cristophe Benest abriu o Festival falando pouco, mas, falando bem, quase tudo em português de forma clara e gentil.
Já no primeiro candidato, foi possível prever o que nos aguardava. A candidata Sheila Schipper (2º lugar) cantou de forma tão extraordinária que comentei com a minha irmã: “se eu fosse a próxima, iria embora”. No entanto, a candidata que a sucedeu, Elizabeth Jaeger, entrou e cantou com outro estilo, outra maneira, mas, tão encantadora quanto. Uma dicção perfeita e uma voz doce, quase mágica. E assim, na medida em que os candidatos iam se apresentando, ficávamos cada vez mais felizes de não fazermos parte do júri. Havia esquecido que três pessoas seriam premiadas, mas, como os demais prêmios eram um bolsa na Aliança Francesa e um jantar no Chez Philipe, realmente, o prêmio que fazia toda a diferença era o do vencedor.
Foi interessante pensar que gostaria de estar ali no palco naquele momento. Só quem me conhece há muito mais tempo pode entender por que. É que isso significa uma longa conquista de uma boa auto-estima, algo que, sem dúvida, é muito importante para minha existência. Como candidata, havia planejado fazer uma performance. Interpretar, realmente, a música, utilizando o aprendizado teatral. E foi interessante perceber que os nove candidatos (um não se apresentou por motivos de saúde o que fez minha irmã dizer que, na verdade, ele se enforcara nas cortinas do teatro ontem à noite ao perceber o nível dos demais candidatos) não fizeram nada parecido. Havia como critério a questão da postura cênica e isso levou os candidatos a tentarem movimentar os braços, trocando o microfone de mão, o que em alguns casos, era até um pouco enervante, mas, não fizeram nada além. Havia uma cantora cega que não deixou nada a desejar em relação aos outros, nem na voz, nem nos movimentos (o que mostra a falha dos demais). Não que não fosse impressionante ver um dos candidatos, Maurício Barcellos, começar a música cantando a capela (ou seja, sem qualquer instrumento), mas, isso nada tinha a ver com a movimentação cênica que eu havia imaginado. Assim, apesar de ficar maravilhada com o nível dos cantores que se apresentaram ontem, ainda consegui pensar que meu projeto poderia ser algo diferente. Pelo menos nos meus planos.
O terceiro lugar ficou para Vanessa Medeiros de Jesus que cantou "Non, je ne regrette rien". Acho esta música maravilhosa, mas, não vi vantagens em vê-la cantada por esta menina. Ela tinha uma linda voz e cantou muito bem, mas, imitar Edith Piaf é algo que não me agrada. Piaf tinha um timbre incrível, só seu. Além disso, esta música é daquelas que estão entre as mais conhecidas e famosas e eu queria algo mais atual. Felizmente, não que a música não seja linda, ninguém escolheu "La vie en rose!"
Bem, mas, apesar não ter condições de rejeitar nenhum dos candidatos, tinha meus preferidos e Richard Emunds, o vencedor da noite, com a música "Mes yeux dans ton regard", não estava entre eles. Ele tem uma voz maravilhosa. Canta divinamente, mas, eu já o conheço há mais de dez anos fazendo isso e queria algo inédito. Seu profissionalismo não parecia fazer parte da minha idéia deste concurso. No entanto, a bem da verdade, o edital não o impedia. O único requisito é que a pessoa cantasse algo em francês nesta segunda etapa. Nada contra a vida artística anterior dos candidatos ou a ausência desta (meu caso). Assim, ontem, não fiquei muito satisfeita com o resultado. Parecia “marmelada”. Palavra que expliquei, hoje, para meu hóspede canadense. No entanto, com mais calma, hoje, pela manhã, comecei a pensar que o vencedor é uma pessoa que valoriza a língua francesa e insiste em divulgar esta cultura há muito tempo. Coisa na qual a Aliança também tem interesse. Além do mais, em seu “discurso” de agradecimento, ele foi bastante gentil elogiando o nível dos candidatos que foi, realmente, extraordinário. Sendo assim, para mim, que acompanhei a luta da minha mãe, enquanto vice-presidente da Associação Francesa do Rio Grande do Sul na valorização da língua no estado, foi uma grande satisfação ver o sucesso do evento realizado ontem.
Creio que para todos que amam esta língua, que não serve apenas para que sejamos arrogantes em relação aos que a desconhecem, mas, que nos abre para uma cultura tão rica e interessante, foi uma noite de contentamento e realização. Isso me fez lembrar, imediatamente, um texto que lemos durante a minha aula de francês sobre um questionamento feito pela imprensa americana se a cultura francesa estaria morta. Tenho certeza de que todos que estavam ontem na reitoria ontem à noite (e não eram poucas pessoas) diriam com muita ênfase e categoricamente que não.


PS: Senti falta de rever todos os candidatos no palco no final. Fica aqui minha sugestão para os próximos festivais.


LETRA DA MÚSICA QUE EU PRETENDIA CANTAR - MON MEC /MEU HOMEM

Il joue avec mon coeur - Ele brinca com meu coração
Il triche avec ma vie - Ele trapaceia com a minha vida
Il dit des mots menteurs - Ele diz palavras mentirosas
Et moi je crois tout ce qu’il dit - E eu acredito em tudo que ele me diz
Les chansons qu’il me chante - As canções que ele me canta
Les rêves qu’il fait pour deux - Os sonhos que ele faz por dois
Cest comme les bonbons menthe - É como bombons de menta
ça fait du bien quand il pleut - faz bem quando está chovendo
Il me raconte des histoires - Ele me conta histórias
En écoutant sa voix - Escutando sua voz
Cest pas vrai ces histoires - Não são verdadeiras estas histórias
Mais moi j’y crois. - Mas, eu acredito nelas
Mon mec à moi - Meu homem ...
il me parle d’aventures - Ele me fala de aventuras
Et quand elles brillent dans ses yeux - e quando elas brilham em seus olhos
Je pourrais y passer la nuit - eu poderia passar a noite
Il parle d’amour - ele me fala de amor
Comme il parle des voitures - como ele fala de carros
Et moi je suis où il veut - e eu fico onde ele quer
Tellement je crois tout ce qu’il me dit - tanto que eu acredito no que ele me diz
Tellement je crois tout ce qu’il me dit - tanto que eu acredito no que ele me diz
Oh oui - Ah, sim
Mon mec à moi - meu homem
Sa façon d’être moi - sua maneira de ficar comigo
Sans jamais dire je t’aime - sem jamais dizer eu te amo
C’est rien que du cinéma - não é cinema
Mais c'est du pareil au même - mas, é, ao menos, parecido
Ce film en noir et blanc - este filme em preto e branco
Qu’il m’a joué deux cents fois - que ele me apresentou duzentas vezes
Cest gabin et morgan - É Gabin e Morgan
Enfin ça ressemble tout ça - Enfim, se parece a tudo isso.
Je me raconte des histoires - Eu me conto histórias
Des scenarios chinois - Com cenários chineses
C’est pas vrai ces histoires - Não são verdadeiras estas histórias
Mais moi j’y crois - mas, eu acredito nelas


Monday, June 23, 2008

Canção de Assis: levando a alegria onde houver tristeza


Fui convidada (ou intimada?) a escrever sobre Canção de Assis pelo diretor Gilberto Fonseca. Infelizmente, não consigo ser imparcial enquanto isto for motivo de orgulho para mim. Fazer o que? Admiro alguém que tenha a mesma paixão pelo teatro que eu e competência para dirigir uma peça. Mas, por ora, tentarei deixar isso de lado.

O espetáculo era na sala Álvaro Moreira e, nada contra esse gaúcho fundador do teatro de brinquedo (primeiro movimento de renovação do teatro no Brasil): não gosto da sala. Não há uma razão específica, mas, em geral, vi espetáculos ali que não me agradaram e acabei associando uma coisa à outra. Mas, era hora de dar uma chance ao lugar.

Sentei bem na frente, pois se vou ao teatro é para sentir toda a energia dos atores. Não me arrependi. Mal a peça começa e os atores cantam. Suas vozes, em perfeita harmonia, enchem a sala e, imediatamente, o espaço se transforma. Pronto! Estava estabelecida a magia do teatro. Dali para frente só um erro muito grave me jogaria de volta para a sala fria daquela rua em Porto Alegre. Enquanto isso, eu ia sendo levada por cidades da Itália em busca de um burrinho perdido. Burrinho, aliás, objeto inanimado, mas, muito bem feito e que ganha vida na mão dos atores. Mãos que desaparecem sob meus olhos, enquanto mergulho no drama e na singeleza da história tão bem contada (ou seria cantada?) pelos atores.

A personagem principal interpretada por Fernanda Petit me emociona e me faz sorrir. Graças, é preciso destacar, a contracenação com Cássio Schonarth. Rio alto, como fazemos quando a risada vem de dentro e, em outros momentos, me esforço para não lacrimejar. Como assim? Mas, não era uma peça infantil? Quem disse? Então, só as crianças podem ter compaixão? Só elas se identificam com o sofrimento alheio? Jamais aceitarei isso. Sim, ok, eles estão fingindo, mas as emoções estavam ali, eu as vi, tenho certeza. Mesmo que as trocas de roupa fossem feitas na minha frente. Mesmo que um único ator fizesse mais de um personagem. Não importa. Fui conduzida em uma tarde de Domingo para a história de um menino frágil e sozinho que descobre um amigo, ou melhor, dois: um, gente, outro bicho. Sente o prazer de não estar mais só no mundo e não é isso que todos queremos?

Pois é, Gilberto, acho que vou ter que pedir desculpas. Minha capacidade de identificar os elementos teatrais e procurar analisá-los ficou perdida entre as notas das melodias tão bem executadas. Tudo que pude perceber foi um ótimo trabalho de grupo, de pessoas entrosadas que, na tua mão, nos envolvem e nos levam para aquela linha tênue onde a fantasia e a realidade se mistura, onde os atores e os personagens são apenas um, onde tudo parece verdade e mentira, onde, simplesmente, isso não importa. Sai leve, feliz e sem nenhuma dúvida do porquê da minha paixão pelo teatro. Por que a vida é um teatro e o teatro, quando bem feito, é a vida!

PS: Só para que o Gilberto não reclame (muito) da minha falta de objetividade, achei que algumas falas da Lúcia Bendati foram abafafas pelo instrumento que a acompanhava.

Thursday, June 19, 2008

Idiossincrasias

Meu blog também é cultura. Idiossincrasia quer dizer: característica comportamental própria de um indivíduo ou grupo de indivíduos responsável pela interpretação de uma situação de acordo com sua cultura e formação.
Idiossincrasia vem do
Grego ιδιοσυγκρασία, "um temperamento peculiar" "hábito corporal" (idios "próprio de si" e sun-krasis "mistura"). É definido como uma característica de comportamento ou estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo.
A última vez que usei esta palavra, recentemente, foi para falar do meu amigo Gilberto. Ele tem armários cheios de coleções de gibis e é louco pela série Lost. Eu também gostei muito dos capítulos que vi, mas, ficava tão ansiosa e eles eram exibidos tão tarde, me deixando sempre muito acordada, que eu desisti de assistir. Gilberto não. Viu todas as temporadas. Fica torcendo para o começo de uma nova. Pois bem, eu também tenho os meus vícios, idiossincrasias ou sei lá do que estejamos falando.

Comecei a assistir a série House, da Universal Chanel por acaso. Não lembro o dia, nem por que. Agora, não quero fazer nada naquele horário. Vejo as reprises. Das 13h às 14h. Horariozinho complicado, bem o sei, mas, eu tenho esta disponibilidade. Viva o trabalho autônomo. E eu nem sei por que gosto tanto. Ele é um crânio e isso me fascina, mas, é também agressivo, grosso mesmo. Mas, o texto! O roteiro! Tão inteligente quanto seu protagonista. Tem frases que dá vontade de copiar e sair usando por aí. Em alguns episódios, sou obrigada a nem olhar, pois, sempre fui muito sensível a esta história de sair picoteando o corpo humano, mas, não é isso que me atrai. Ali tem uma estrutura dramática pensada, arquitetada para ficar interessante.

Trata-se de uma série, mas, a cada capítulo há uma história com começo, meio e fim, o que é sempre reconfortante para quem assiste. Além disso, as únicas coisas que se repetem são os atores, os personagens e o local. A história é sempre cheia de novos elementos, desafios, estratégias.

O House é o cara, mas, quem está a sua volta não deixa por menos. Se não executassem bem o seu papel não seria tão convincente. Ah, meu sobrinho veterinário discorda deste aspecto. Já comentou comigo que está cheio de baboseiras médicas (ele não usou este termo), mas, quem se importa? Eles poderiam estar receitando remédio de coelho para uma paciente loura, House daria um jeito para que não prestássemos atenção a isso e ficássemos tentando seguir sua entruncada linha de racicínio.

Bem, mas, o que quero dizer é que espero que vocês assistam e decidam se vale ou não a pena. Hoje, está terminando uma temporada. Mas, a nova deve começar em seguida às quintas-feiras, 23h. Enquanto isso, quem tiver tempo, faça como eu, almoce vendo a atividade hospitar de House. (Agora entendo porque idiossincrasia está ligada a área psiquiátrica!)

Tuesday, June 17, 2008

Comédia de erros. Espetáculo de acertos.


Fui assistir ontem a Comédia de Erros. Segunda-feira. Dia estranho para teatro em Porto Alegre, mas, bom para mim que tenho aula de francês aos sábados e fico com preguiça de fazer quase tudo no fim-de-semana até mesmo o que me dá prazer como o teatro. Mas, sempre digo aos meus amigos que adoro fazer teatro, mas, vou mesmo é ao cinema! É chato, eu sei, mas, quem gosta de teatro como eu, acaba entendendo. É que cinema, quando o filme é ruim, a gente sempre aproveita alguma coisa. Teatro quando o espetáculo é mal feito, fico constrangida. Não só porque, muitas vezes, eu conheço quem está no palco. Mesmo quando nunca vi o ator antes, me sinto assim. Pois bem, mas, ontem, foi totalmente ao contrário.

Foi um prazer estar naquela platéia. Porque é assim, quando o teatro é bom. Não há coisa melhor do que ter as pessoas ali, ao vivo, em carne e osso. E quando a representação é bem feita, somam-se todas aquelas emoções e expressões. E, na Comédia de Erros, são muitas e muitos acertos (será que forcei o trocadilho?), também, eu diria. E olha que a minha expectativa era alta. Com Sofia Salvatori, Gustavo Curti e Lauro Ramalho no elenco, eu já esperava muito. Então, foi perfeito ver que eles não decepcionam. Aliás, não somente eles, mas todo o elenco. Os demais atores, que não conheço pessoalmente, estão ótimos, convincentes, divertidos. Falando nisso, preciso destacar a atuação de Rodrigo Mello que, apesar do sobrenome, não é meu parente. Trata-se de um jovem ator. Um dos seus colegas de cena me disse que este parece ser seu segundo trabalho. Então, Porto Alegre prepare-se:está nascendo um ótimo ator! Não conseguia tirar os olhos dele em cena.

Bem, mas, antes de me aprofundar nos meus comentários sobre a atuação, preciso falar do espaço cênico. É muito bom ver o Stravaganza conseguindo transformar aquele “garajão” em um local tão aconchegante, tão receptivo, principalmente, em uma noite em que os termômetros estavam próximos dos 5º. A cada espetáculo, eles conseguem, realmente, criar. A idéia de um mercado não só se insere, completamente, ao conteúdo da peça, como serve de atrativo para o público. Percebe-se um cuidado nos detalhes de todos os elementos colocados em cena. Assim, mesmo antes, dos atores começarem a contar a história, eu já estava impressionada com tudo que via e feliz por verificar que não é preciso de um palco italiano e poltronas forradas para que a gente se sinta confortável.

Sim. Prestei à atenção a iluminação. Nilton Filho, diretor e meu professor de iluminação, me deixou com este “cacoete”, mas, não tem nada a ver com a história estar entediante ou não, pois, certamente, este não era o caso. Mas, é algo que, até fazer a sua disciplina, nunca me dava conta e agora me divirto percebendo como uma boa luz, como a do Fernando Ôchoa, pode conduzir o nosso olhar, mesmo em um espaço tão grande como do Stravaganza.

Voltando ao espetáculo, encenar Shakespeare só confirma, cada vez mais, minha opinião sobre ele. Escrevia uma história como ninguém. Mas, claro que isso não é suficiente para fazer um bom espetáculo. São muitos componentes. Por isso, no programa vemos uma grande equipe para chegar a este resultado que não é fácil atingir. A gente sabe. No entanto, o que mais chama a atenção de quem assiste é a “inteireza” dos personagens. Quando o espetáculo começa com o texto dado pelo Lauro Ramalho já comecei a pensar: “como será que ele aprendeu a dizer um texto assim?” Claro que ele ensaiou e muito. Lembro que nos vimos pouco antes da peça estrear e ele estava preocupado. Só que o que ele faz não se aprende em poucos meses. É um trabalho de anos e diria sim: talento. Por isso, ele consegue receber o público totalmente maquiado, com cílios postiços, roupas extravagantes e depois aparecer no final com a aparência humilde de um prisioneiro.

Também dava para perceber que não deve ter sido nada fácil dirigir a Comédia de Erros, mesmo com este grupo de atores. A proposta de Adriane Mottola é irreverente, com vários momentos em que os atores se deslocam de forma “anárquica” pelo espaço. É claro que para chegar a isso é preciso saber exatamente o que se quer.

Quanto à história, não gosto de adiantar nada, principalmente para quem não conhece o texto, mas, preciso dizer que mesmo os atores não sendo tão parecidos, a interpretação estava tão convincente que comecei a me confundir com os atores, sem saber quem era quem, confundindo-os, exatamente, como pretendia aquele menino (como diz Sergio Silva), o Shakespeare.

Será que preciso dizer mais? Não creio. Quando vou ao cinema não leio a sinopse e quando retiro um DVD não leio a caixinha. Então, por que estragaria a surpresa das peças de teatro? Assistam.

PS: Desta vez, escrevi olhando os tópicos repassados por Bárbara Heliodora durante a sua passagem em Porto Alegre, mas, continuo preferindo deixar fluir minhas idéias do jeito que elas vão surgindo. Espero que isto não seja um defeito, mas, meu estilo!

Sunday, June 08, 2008

Babel e Van Gogh


Chovia do lado de fora. Chovia no saguão do teatro Renascença ontem à noite. Último dia do espetáculo Babel, pelo menos desta temporada lá. Bom público, diga-se de passagem. A gente fica em casa com este tempo desagradável e pensa que todo mundo faz a mesma coisa. Ledo engano. Encontrei o diretor, meu colega de mestrado e com quem simpatizei desde o início, sem ter a mínima idéia do importante trabalho que ele já havia desenvolvido no teatro. (Mais uma razão para me convencer de que tenho mesmo algo a ver com esta forma de expressão artística.) Lá dentro, fui achando outros colegas. Afinal, fiz parte, com muito orgulho e suor, da primeira etapa de oficinas do espetáculo.

Em pleno verão, tínhamos práticas que tinham por objetivo ir nos colocando, aos poucos, em contato com este universo do Jean Genet. Não cheguei a ficar triste por não ter sido selecionada para o espetáculo. Já havia valido a pena o que tínhamos feito naquelas tardes quentes. Desde então, fiquei distante do processo e só ontem fui ver o resultado. Tinha comentado que tinha medo de não gostar. Sabia que o espetáculo ia apresentar uma temática do baixo-mundo, que ia explorar o nosso “lado negro”, etc. E a yoga vem me levando para outros caminhos. No entanto, detesto qualquer tipo de radicalismo, assim, tenho que estar aberta a propostas que estejam distantes do mundo tal como eu queria que fosse.

Não sabia que o “coro” (do qual faria parte se tivesse sido escolhida) teria uma participação tão ativa. Gostei do trabalho final. Estavam coesos, interessantes e com alguns destaques como a Ágata, exuberante no palco e Kalil que nem reconheci em seu personagem. Marcelo Mertins, aquele jovem ator doce, generoso que me ajudou a pular corda nas oficinas com a cumplicidade do seu olhar e que agora estava ali forte e intenso no palco. O cenário também era bem associado à proposta e o talento da coreógrafa Carlota Albuquerque está visível nos movimentos bem feitos no palco por pessoas que não tem formação em dança e estão mais acostumados com simples deslocamentos.

Humberto fez uma ousadia incluindo músicas entre as cenas. Algo meio brechtiniano, que confesso, me incomodou (não que isso seja, necessariamente ruim). A música não estava ali para sublinhar as cenas. Elas significaram um corte. Bem executadas, mas, de uma forma mais melodiosa do que eu esperava para o contexto de Genet.

Não havia exatamente uma história, nem personagens bem definidos, mas, isso nunca chegou a me atrapalhar. Só que preferia compreender melhor o que estava sendo dito, o que nem sempre acontecia e eu estava na segunda fila, ou seja, sem desculpas. Bem, mas, preciso falar de uma exceção: os textos dados pelo meu professor de mestrado e ator João Pedro Gil. Sua presença em cena era algo digno de registro individual. Ele, realmente, ocupou o espaço cênico, foi orgânico e todos aqueles adjetivos que ficamos estudando sobre os bons atores. Denis Gosch também é convincente.

De quase todos os outros, no entanto, eu esperava mais. Mal eu sabia, mas, queria ser provocada, me sentir desconfortável, abalada pela dramaturgia deste homem que deu ênfase aos excluídos. Isso acontece, mas, na última cena do espetáculo. Ali, veio o desequilíbrio que eu imaginava estaria presente em todo o espetáculo. Genet, pelo pouco que sei, gostava de apresentar o ser humano no seu limite e desestruturar com sua dramaturgia e, no final das contas, sai para ir tomar sopa no Van Gogh, a atitude mais alternativa da noite.

Thursday, June 05, 2008

"Estou na amplitude"

Sei que já me estendi falando do espetáculo de ontem, mas, como o blog se chama Palcos da vida achei importante voltar ainda hoje para falar do meu "eu líquido". Ontem, sai da aula me sentindo um ratinho. Também pudera... reunir Nietzche (será que escrevi certo?) e Artaud na mesma manhã é de derreter a massa encefálica de qualquer um. Mas, culpa também do formato daquela discussão. Mas, minha, também, é claro! Hoje, cheguei destruída após a leitura do De Marinis sobre Sociologia do Teatro. Se não dou importância para os diplomas, se respeito o conhecimento de um plantador de batata, por que fazer mestrado? Bem, acontece que sempre gostei de aprender e de estudar pelo menos desde que entrei para a primeira faculdade e as disciplinas de matemática, física e química desapareceram. Além disso, teatro me fascina. E acho que uma das respostas para isso está na própria posição de um dramaturgo em relação, justamente, a estes temas. Vejam um pequeno trecho da entrevista com Antunes Filho, publicada no site Questão de crítica:

DANIEL SCHENKER - O senhor parece pautar sua argumentação em visões sobre conceitos de interioridade/exterioridade, essência/aparência, conteúdo/forma...
ANTUNES FILHO - Meu sistema não conhece estas palavras. Considero reducionista. Estou na amplitude.

Eu também! Eu também!!!

Ninguém está livre do seu destino!

Fui assistir Édipo ontem, convidada pela artista Ida Celina que foi minha mãe no filme de Sergio Silva. Agora, mãe de Édipo. Nada mais, nada menos do que Jocasta. Então, preciso dizer que a ida ao teatro começou no momento que atendi o celular no domingo e era ela dizendo que eu estava convidada para uma sessão especial, não aberta ao público. Fico feliz e orgulhosa por ser lembrada por alguém que ganhou tão rapidamente meu respeito e minha admiração. Ela atriz, experiente, ex-diretora do DAD. Eu, amadora. Uma mesma paixão: as artes e um mesmo interesse: gente. Perguntei se podia estender o convite ao canadense que estou recebendo. “Sim, claro”, disse ela. Assim, ficou combinado. Mas, Charlie tem muitas ocupações e toda a dificuldade de se organizar em um lugar desconhecido. Ainda lembro o prazer e agonia que isso significa. A dificuldade de assumir compromissos, ao mesmo tempo em que tudo que ser quer é poder “ir ao sabor do vento”. Perto da hora combinada, comecei a ligar para o celular dele. Nada, nem um sinal. Meia hora antes do espetáculo, já havia decidido. Eu vou. Fazer o que? Um pouco contrariada pela falta de notícias. Teria acontecido alguma coisa? Seria descaso? Sim, quem me conhece sabe que sou levemente paranóica. Às vezes, insisto em achar que o mundo gira ao redor de mim, mas, no mau sentido. Ops, mas isso não é paranóia, é egocentrismo. Seja o que for, estava me deixando meio invocada. Estou chegando ao teatro quando o celular toca. Faltavam menos de 10 minutos para o espetáculo. Ele estava perto. Pede desculpas. Digo que vou buscá-lo. Mal abro a porta do carro, ele diz: “como tu estás bonita”, cheio de um sotaque que não tem como não me fazer sorrir.

Bem, mas, é hora de falar do espetáculo. Como Bárbara Heliodora, vou para gostar. E foi o que aconteceu. Bem, a história me fascina. Como alguém pode inventar um enredo tão interessante? Alguém que tenta fugir do seu destino e não consegue? Matar o pai e casar com a mãe sem saber? Quer algo mais perturbador? Agora o que interessa é que já li e reli a história algumas vezes, mas, Luciano Alabarse conseguiu montar um espetáculo que me colocou tão para dentro que me vi totalmente envolvida, angustiada, sofrendo com os personagens. Brecht que me desculpe.
Marcelo Adams (Édipo), para mim, é garantia de que não vou perder meu tempo. Gosto de tudo que o vi fazer até agora e o resto do elenco não fica atrás. O vidente Tirésias, pelo ator Lutti Pereira, merece também destaque. Palmas para o figurino de Rô Cortinhas que não exagera e sublinha o corpo dos atores com suas vestes. E o mais importante. Não há apenas pontos fortes. O todo é bem feito. O cenário, incluindo as projeções, não peca pelo excesso, nem pela falta. É limpo, poético e dramático, ao mesmo tempo. O coro reforça a tragédia, esclarece o que precisávamos para ir compondo melhor a história. Gosto também dos deslocamentos no palco, faz parte do ritmo do espetáculo.

No entanto, mesmo acreditando que possa ser uma escolha do diretor com o objetivo de acompanhar o tema trágico, devo confessar que já no final, depois da revelação da intensa brutalidade dos fatos para Édipo, comecei a me inquietar com a entrada ou re-entrada de personagens para terminar a história. Talvez, fosse porque já havia atingido o meu nível máximo de reação ao espetáculo e precisasse de um momento de alívio, mas, senti esta perturbação. Também pode ser porque estou desacostumada com um outro ritmo, “sem efeitos especiais”, como disse o canadense que elogiou o trabalho, provavelmente, porque também estava ali para apreciar o momento e pode compreender mais claramente as palavras ditas com tanta apropriação por todos os atores. Não entendo inglês para saber se a trilha de Stones era inconveniente, mas, não entendi o uso de Satisfaction em um determinado momento. Ignorância minha? É possível. De qualquer forma, recomendo: assistam ao espetáculo e depois me digam.

Tuesday, June 03, 2008

Eu preciso dizer que te amo!

Tenho medo de não dizer que te amo...Tenho medo de dizer que te amo. Por que? Porque posso até ser correspondida, mas, meio sem querer. Como assim? Bem, todos falam que tu tens um forte sentimento por mim. Dizem que tá no jeito que tu me olhas. No teu sorriso. Na maneira como tu implicas com o meu jeito de dizer as coisas. E eu, querendo acreditar, fico feliz! Tenho esperanças de que tu também percebas que não és indiferente. Mas, enquanto isso não acontece, os dias passam contigo longe de mim. A gente até se fala, se vê mais do que antes, mas, são encontros rápidos, superficiais e, enquanto falo de amenidades, coisas práticas, tento te dizer com o olhar o quanto tu és importante para mim. Mas, vejo que tu não ouves. Talvez, até escutes um certo murmúrio, porque teu olhar também me diz alguma coisa. Algo que fala a mesma língua que eu. Mas, por falar nisso...ah, quanto tempo não sinto o teu beijo. E quanto tempo mais vou continuar esperando por ele? Ah, se eu tivesse a certeza de que ele viria, nem me importava de esperar muito, mas,muito mais. Te vi hoje, mas, estou com saudades.

Friday, May 30, 2008

A língua dos homens


Estou vivendo uma crise lingüística. Por um lado, mergulhada em textos para o mestrado onde há maioria das palavras é no nível de “hermenêutica” e “epifania”. Por outro lado, recebendo aqui em casa um Canadense que aprendeu português em um ano. Fala bem para o pouco tempo. Juro! Mas, não posso dizer “eu tava lá”, nem “péra aí”. É claro que ele não entende. E não tiro a razão dele, mas, aposto como vocês não fazem a mínima idéia de quantas palavras abreviadas ou metafóricas ou gírias vocês usam em apenas um dia. Aliás, estou adorando esta percepção, mas, é claro que, junto com as sete resenhas que estou fazendo, está um pouco cansativo.
Hoje, por exemplo, percebi que ainda pouco sei do Charles Fréderick e amanhã faz uma semana que ele dorme e acorda na minha casa. Um fracasso para uma jornalista. Não é que a gente não tenha conversado, mas, vai uma meia hora para explicar o que é “torcer”, não a roupa, mas, para o Inter, meu time e uma referência para o caminho dele até a casa. E o pior é que mesmo que eu o desobedecesse e puxasse o meu francês (ops, já vejo ele me imaginando, agarrando um francês pelos cabelos) tem palavras que eu também não sei na língua dele. Bom, mas tudo isso vai parecer que estou reclamando e, na verdade, estou feliz que ele esteja por aqui. Ele é muito simpático e para ele, tudo está bom (acho que já disse isso antes). Ah, mas, eu ainda não disse que o som da palavra ruim não existe em francês e ele não sabe dizer! Quero ver a hora que aprender. Confesso que não estou fazendo força para ensinar. Por falar nisso, os mais velhos devem lembrar de um quadro cômico em que a personagem era uma americana que pedia explicações sobre o significado das palavras e alguém malandro sempre dizia uma baixaria ou algo nada a ver e ela saia pelos cantos dizendo errado e o bordão: "brasileiro é tão bonzinho"...É quase assim.
Mas, o que eu queria mesmo com este texto era chamar a atenção para este lance da língua que a gente fala. Acho bacana a gente se dar conta de que aprender uma língua é muito, mas, muito mais do que decorar um dicionário. Por falar nisso, é melhor eu ir fazer meus temas de francês para amanhã, língua que eu passei anos aprendendo e que tantas vezes quando ouço no cinema ou lá nos DVDs da faculdade não consigo entender. Muito rápido, palavras estranhas... Então, quem sou eu para não ter paciência com o meu hóspede? Até o início de julho ele vai ter pegado o ritmo (e inclusive entendido esta frase). Agora, tem coisas que são mesmo universais. A boa música, por exemplo. Fomos ontem no Ocidente ouvir o pessoal da Roda viva tocar e cantar Chico Buarque. Tinha mais duas bandas juntas, é verdade. Carne de panela e Tribo Brasil, me disseram. Ótimo som. O canadense que o diga. Não está acostumado a músicos ao vivo e ao ouvir “Ela é carioca” e outras coisas lindas queria mesmo era dançar. E esta língua eu entendo.

Arnaldo Jabor sobre o RS



Pois é.

O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo
ressentimentos passivos.
Olham o escândalo na televisão e exclamam 'que horror'..
Sabem do roubo do político e falam 'que vergonha'.
Vêem a fila de aposentados ao sol e comentam 'que absurdo'.
Assistem a uma quase pornografia no programa dominical de televisão e dizem
'que baixaria'.
Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram 'que medo'.
E pronto!
Pois acho que precisamos de uma transição 'neste país'.
Do ressentimento passivo à participação ativa'.
Pois recentemente estive em Porto Alegre, onde pude apreciar atitudes com as quais não estou acostumado, paulista/paulistano que sou.
Um regionalismo que simplesmente não existe na São Paulo que, sendo de todos, não é de ninguém.
No Rio Grande do Sul, palestrando num evento do Sindirádio, uma surpresa.
Abriram com o Hino Nacional.
Todos em pé, cantando.
Em seguida, o apresentador anunciou o Hino do Estado do Rio Grande do Sul.
Fiquei curioso.
Como seria o hino?
Começa a tocar e, para minha surpresa, todo mundo cantando a letra!

'Como a aurora precursora /
do farol da divindade, /
foi o vinte de setembro /
o precursor da liberdade '

Em seguida um casal, sentado do meu lado, prepara um chimarrão.
Com garrafa de água quente e tudo.
E oferece aos que estão em volta.
Durante o evento, a cuia passa de mão em mão, até para mim eles oferecem.
E eu fico pasmo.
Todos colocando a boca na bomba, mesmo pessoas que não se conhecem.
Aquilo cria um espírito de comunidade ao qual eu, paulista, não estou acostumado.
Desde que saí de Bauru, nos anos setenta, não sei mais o que é 'comunidade'.
Fiquei imaginando quem é que sabe cantar o hino de São Paulo.
Aliás, você sabia que São Paulo tem hino? Pois é....
Foi então que me deu um estalo.
Sabe como é que os 'ressentimentos passivos' se transformarão em
participação ativa?
De onde virá o grito de 'basta' contra os escândalos, a corrupção e o
deboche que tomaram conta do Brasil?
De São Paulo é que não será.
Esse grito exige consciência coletiva, algo que há muito não existe em São Paulo.
Os paulistas perderam a capacidade de mobilização.
Não têm mais interesse por sair às ruas contra a corrupção.
São Paulo é um grande campo de refugiados, sem personalidade, sem cultura própria, sem 'liga'.
Cada um por si e o todo que se dane.
E isso é até compreensível numa cidade com 12 milhões de habitantes.
Penso que o grito - se vier - só poderá partir das comunidades que ainda têm essa 'liga'.
A mesma que eu vi em Porto Alegre.
Algo me diz que mais uma vez os gaúchos é que levantarão a bandeira.
Que buscarão em suas raízes a indignação que não se encontra mais em São Paulo.

Que venham, pois.
Com orgulho me juntarei a eles.
De minha parte, eu acrescentaria, ainda:

'...Sirvam nossas façanhas, de modelo a toda terra...'

Arnaldo Jabor

Monday, May 26, 2008

Tempo,tempo,tempo...


Parece mentira que já faz uma semana que escrevi por aqui. Nem senti o tempo passar, mesmo apesar do feriado. Também fiquei estudando com duas colegas. Lendo textos que estão dando nós nos meus neurônios, lacinhos, eu diria...E com o prazo para a entrega das 7 resenhas (que já decidi que serão 6) justamente para o meu orientador do mestrado a vida está de pernas para o ar. Passo a maior parte do tempo lendo, o resto achando que deveria estar lendo e uma pequena parte não aguentando mais ler nada. A boa notícia é que estamos hospedando um Canadense. Não...não é ninguém do circo que veio parar aqui em casa por engano. É um estudante de português do Quebéc que veio para fazer um curso na UFRGS e fica até julho por aqui. Quando a gente pergunta por que estudar nossa língua, aí, sim, ele não entende. Ora, por que, porque o Brasil é um país interessante e porque a língua é linda! É fiquem sabendo, meus leitores incrédulos. Bem, mas, ele chegou no sábado à noite. Já foi ver uma maratona, comeu o churrasco que eu assei, foi ver um show com músicas do Raul Seixas no Gasômetro, deu várias voltas em torno da reitoria e viu Dois filhos de francisco com legendas em inglês (afinal, o sotaque perturba). Um banho de brasilidade. Hoje, saiu para o curso e acabou caindo na noite. Ainda não chegou. Ainda é cedo,mas, estamos gostando da idéia. Ele acha tudo ótimo. Aliás, ótimo não, achou o quarto dele "magnífico" e agradece tudo. Sorri bastante também, o que é "ótimo". Ñão quer falar francês. Quer mesmo esforçar-se para aprender. Os verbos vão saindo meio tortos e a palavra não vem à cabeça, mas, ele insiste. Tinha dito que se ele não fosse bacana, ia deixar ele meio de lado, mas, seu jeito fez com que eu queira ajudar como puder. Ah, na quinta, ele deve ir ao Ocidente com a minha irmã ver um show do grupo Roda Viva que interpreta Chico Buarque. Eu vou estar arrancando meus últimos cabelos na tentativa de entregar minhas resenhas na sexta. E para terminar com nuances da nossa língua um trecho de Raul Seixas: Quem vai chorar, quem vai sorrir? Quem vai ficar, que vai partir?