Thursday, May 23, 2013

Aznavour traz à França para Porto Alegre e meus amigos a minha memória


Convites comprados há muito tempo, lá me fui encontrar minha irmã Vera Mello e minha cunhada Vera Beatriz Brasil Mello para ver Charles Aznavour.  De cara, chamou à atenção a quantidade de gente muito mais moça, inclusive, do que os que estavam na plateia do Ney Matogrosso.  Quando esse cantor francês, que faz parte da minha vida desde que me conheço por gente, chega ao palco, não tem como não sentir uma emoção e, enquanto ele canta uma música que fala de Paris no mês de agosto, eu fico pensando que adoro viajar, mas estou pronta para sair agora, já, para poucos lugares, sendo que a capital francesa é o principal deles. E essa noite trouxe a França para Porto Alegre, mais precisamente para o Araújo Viana onde, como fez Bebel Crosseti, é possível brindar o aniversário do cantor.
Claro que queríamos que ele cantasse as músicas que ouvimos sempre, mas ele começa por outras que não reconhecemos. No entanto, não tem como não achar a voz dele linda e ele performático no palco. Seus gestos, seus deslocamentos, sua postura, demonstram um domínio que atrai. Mas, enquanto ele canta, eu me pergunto que “gaiola” é aquela onde está o baterista e logo penso que o Arthur de Faria deveria saber. E, quando Aznavour começa a cantar Que c’est triste Venise vejo que é em italiano e, no mesmo instante, lembro da Paola Morais. Primeiro, brinco com a minha irmã que ele não queria que eu cantasse junto. Depois, me digo que foi para não me fazer chorar pois aquela história de que a cidade é triste quando nossos amores são mortos antes mesmo de existir e que nossos amigos partiram acaba comigo. E a iluminação farta, várias cores fortes usadas no palco, contrastando com o figurino negro do cantor, me fazem pensar no Fernando Uchoa. E a moça que correu feliz ao pegar o lenço usado pelo Aznavour depois que ele cantou La Bohème me traz à cabeça a Fernanda Petit. E enquanto me impressiono com a competência vocal desse homem de 89 anos (completados exatamente nesse dia) recordo das aulas da Gisela Haybeche. Daí, emendo no Rodrigo Scolari que está na cidade luz. Já as músicas que falam da passagem do tempo, da valorização do aqui e agora reverberam com os textos de Clara Corleone e L’amour c´est comme un jour ça s’en va (o amor é como um dia, ele passa) me traz a mente Janaina Kraemer e, depois do arrepio que sinto com Hier Encore, só She, a música escolhida pelo Zé Adão para a minha entrada  na última vez em que pisei em um palco, mexe mais comigo. E junto a todos esses estão também minha mãe, meu irmão que já se foi e meus amigos franceses. Porque a música faz isso com a gente. Mexe profundamente com a memória. E todas essas lembranças só são interrompidas pela maneira interessante que Aznavour conversa com o público, explicando que não sabe falar português, mas que dirá em francês e alguém do lado poderá traduzir, pressupondo que a plateia está cheia de francófonos. E o que ele diz? Que já se perguntou muitas vezes o que é uma canção. Nessa hora, não tenho dúvida de que é por isso que ele domina o que faz. Além de mostrar simplicidade e interesse, ele é capaz de ficar por tanto tempo em pé. Eu mesmo sentada já sinto cansaço por estar na multidão. Porque um show não é uma gravação, não é um vídeo. É energia que vem, mas que também vai. E esse entusiasmo pela vida me faz pensar em alguém especial para mim que preciso tirar para dançar. E mergulhada nesse momento mágico que anuncia que o show está no fim, aproveito para chegar bem pertinho do palco e observar o quanto Aznavour parece frágil há poucos metros, mas que ainda carrega esse negócio que faz parte de todo artista e que surge de um jeito inexplicável diante da plateia que o aplaude com entusiasmo a cada música e é por essas e por outras que a cada uma delas ele impressiona mais e, todo o tempo, eu me pergunto se para os franceses estas palavras, essa poesia que ele declamou sobre a passagem do tempo, a perda da juventude, os amores perdidos causam o mesmo impacto que eu sinto nos meus ouvidos quando ele diz: “Il faut savoir qu’on ne sait pas”, o que eu traduziria por: “é preciso saber que não sabemos”, mas que dito assim parece tão menos intenso do que em francês, essa língua que me transportou para o outro lado do oceano e me trouxe aquela sensação de beleza e de aconchego que, fora da arte,  só um bom vinho pode trazer ou essa sensação de que somos todos aqueles que passam pelo nosso caminho real ou até mesmo virtual como alguns dos que estiveram comigo essa noite no show, ainda que em pensamento.

Monday, May 20, 2013

Brecht: o teatro muito além do palco


14º SIMPÓSIO DA INTERNATIONAL BRECHT SOCIETY – 1º DIA

Ano que vem estará completando 30 anos que sou jornalista. Durante esse tempo já participei de muitos eventos, trabalhando ou apenas assistindo e posso dizer que existem coisas extremamente simples que anunciam a qualidade de qualquer congresso, simpósio, jornada. Entre estas estão: a forma como somos recebidos no momento da inscrição e, por incrível que pareça, a beleza e o cuidado com o material impresso, ou seja, o crachá, a programação, a pastinha, o bloco de anotações. Parece bobagem, mas minha experiência diz que não é. Se alguém tiver que escrever o seu nome com uma caneta hidrocor e colar uma etiqueta na sua camisa, desconfie. Outra coisa é o local do evento. Não importa se é no Brasil ou no exterior. Se a gente entra em um prédio bacana, bem cuidado, há uma maior probabilidade da palestra para a qual você se inscreveu valer a pena. Assim, sabendo que a abertura do Simpósio sobre Brecht ia ser na Reitoria já achei que era bom me arrumar um pouco. A prova de que estava certa foi encontrar o coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes cênicas, João Pedro Gil, de terno. Ele mesmo, quando eu elogiei a elegância, já me cumprimentou dizendo que não era sempre. No mais, reparei no banner da entrada, nas camisetas daqueles alunos todos que pareciam muito animados em dar informações.
Também acho prenúncio de um bom evento a abertura ser curta, apesar da mesa repleta de nomes importantes da cultura, do teatro, da educação como o Reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Neto, do Diretor do Instituto de Artes, Alfredo Nicolaievsky, de Mirna Spritzer que já foi parabenizada no começo por ter aceitado o desafio de fazer parte da organização. E, assim, o tom das palavras iniciais foi de satisfação em estar ali, com a humildade de quem se interessa por arte. Outro detalhe que também faz a diferença para um evento internacional é a quantidade de pessoas na plateia com fones de ouvido. Evidencia de que não se trata de apenas um convidado para garantir o status do encontro, mas de uma presença significativa de pessoas que se comunicam em idiomas diversos. Eu mesma pude ouvir alemão, inglês, espanhol e até auxiliar um dos convidados franceses a pedido de Susi Weber poucos minutos antes de tudo começar.
Com a palavra Miguel Rubio Zapata, do Peru. Diretor e dramaturgo do Grupo Cultural Yuachkani, ele fala sobre a influência de Brecht no teatro da América Latina e vai citando Enrique Buanaventura, Augusto Boal, Atahualpa, entre outros. Comenta sobre como o dramaturgo alemão Bertold Brecht inspirou seu próprio grupo ao propor um teatro que trouxesse à tona as contradições da sociedade, ao levá-los a observar a vida cotidiana e a se surpreender diante dela. Salienta os equívocos iniciais das interpretações da proposta de Brecht que levavam a falar de uma atuação a frio na tentativa de compreender o efeito de distanciamento. Aprofunda-se na busca de uma definição da presença cênica. O ator dirigindo-se aos espectadores com consciência plena de estar diante de uma cena. Enfatiza os elementos utilizados: a iluminação, o cenário, o figurino, os cartazes. Tudo para reforçar o objetivo do estranhamento. Destaca as propostas de Boal do teatro fórum, do invisível, do dramaturgo Brasileiro,  que, segundo ele, não atingiram apenas a América Latina, mas os cinco continentes, como o teatro do oprimido, incorporando a comunidade, fazendo com que o “espectador esteja preparado para ser ator de sua própria vida”. Cita a mensagem desse pela passagem do dia mundial do teatro em 2009, destacando o trecho que diz que “ao ver um mundo de opressores e oprimidos, temos obrigação de reinventar outro mundo. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida”. Toca na questão da teatralidade, o que me faz divagar em uma reflexão que me ocorre seguido: quem sou eu? Essa que senta aqui nessa cadeira escrevendo o que escuto porque sou jornalista? A que repete mantras na aula de yoga? A que ama cozinhar?  Quantos “personagens” existem em mim? Mas Zapata me puxa de volta para outro pensamento relevante. “O teatro não é só um exemplo, mas uma forma de vida.” Ele exemplifica com as consequências da montagem do seu grupo do espetáculo Galileu Galileu, apresentado em 1965, que acabou provocando a invasão do escritório pelo exército. O que me faz compreender melhor o que ele quer dizer com “atitude Brecht”, pois não se trata de fazer de conta, mas de introjetar os preceitos do dramaturgo alemão e agir. Ao falar do próprio grupo ele comenta os diferentes processos coletivos, a necessidade de beber de diversas fontes, de dialogar com o tempo do seu país, um tempo de violência, de corrupção que faz com que ele tenha dificuldade de falar sobre o assunto. “Não sou ator, mas teria que utilizar as técnicas de Brecht em meu próprio corpo para fazer do meu país”. E ainda sobre o fato de não atuar, Zapata conta que, em 1950, foi convidado para observar o teatro em Pequim e que, em um determinado momento, disseram a ele que poderia mostrar seus personagens. Ao explicar que não fazia isso, foi interpelado: “e como você ensina o que não sabe?”. Aspecto curioso para mostrar as diferenças do teatro oriental, no qual os mestres modelam seus atores e entregam seus personagens aos seus discípulos. Dito isso, ele relata os caminhos percorridos pelo grupo que presenciou um momento histórico de um país em convulsão, com mortos, executados. Uma realidade que exigiu dos atores uma presença diferente em cena e para isso eles recorreram às artes marciais, as danças orientais, aos personal trainners gerando uma confluência, uma energia diferente do cotidiano, fazendo os atores reconhecer os próprios corpos e colocando-os à disposição. A violência política mexendo com os pressupostos do trabalho do grupo, criando importantes desafios, tentando responder a pergunta: o que o teatro pode fazer nesse momento? Zapata comenta a importância do teatro do seu grupo atrelada ao surgimento da comissão da verdade em busca de justiça, devolvendo um olhar para eles como cidadãos, questionando como a violência os afetava, buscando sentido e pertinência ao trabalho. Ele explica que Brecht sempre foi uma influência constante, mas não a única. Para encerrar mostra em vídeo cenas de alguns espetáculos e não esconde os erros cometidos pelo grupo em alguns momentos, levando para determinados locais propostas que frustram as expectativas. “Pensamos estar sendo muito inovadores, mas devemos, antes de tudo, escutar a comunidade”.
A manhã termina e eu saio satisfeita por constatar mais uma vez a importância dessa arte que tanto me atrai, refletindo sobre o equívoco daqueles que pensam que dramaturgia é apenas o que está nas telas da TV e que para ser ator basta fazer caras e bocas. Esse pensamento vai totalmente ao encontro da placa (segurada por um ator na foto mostrada desde o início no telão), com a frase: “A burguesia quer do artista uma arte que corteje e adule o seu gosto medíocre”. 

Monday, May 13, 2013

Yoga: um vício irresistível



Exercitar o corpo ou a mente? Em um determinado momento tive que optar pelo segundo.  Vivemos uma sociedade que acha isso muito normal e se falar que o que deixei de fazer foi o yoga, muita gente acharia que a escolha tinha que ser mesmo essa. Não me questionei mais. Simplesmente parei.  Foi graças à indicação de uma amiga que acabei nas mãos de uma nova professora. Jornalista, professora de yoga e que mora e atende na minha rua. Se eu tivesse sonhado não ia ser tão perfeito. Ah, além do preço da aula ser bem menos do que qualquer um possa imaginar. Então, mesmo que eu estivesse às vésperas de uma importante viagem, querendo economizar todo e qualquer tostão, resolvi experimentar. Lembro-me de tentar saber quem me daria aula. Olhei informações que a própria professora escrevera em um espaço virtual, vi fotos e conclui que, no mínimo, era uma pessoa que tinha cuidado com o corpo humano.  
Bastou uma única aula para eu saber que queria voltar a praticar. Por quê? O que essas posturas têm de especial para mim? Bem, para quem lidou com ansiedade durante grande parte da vida, foi na yoga que encontrei um lugar, que não era “somente” um estado de espírito, mas uma calma mental que antes de fazer yoga eu nem sabia que existia. Quem me conhece sabe que eu gosto de falar muito e posso garantir que guardo dentro de mim muito mais a dizer. Que minha mente é agitada. Até hoje me surpreendo como sou capaz de passar de um pensamento a outro em segundos.  O que as pessoas não imaginam é o grande prazer que eu sinto quando tudo isso se acalma. Quando o melhor lugar do mundo é naquele tapetinho, respirando profundamente, de olhos fechados. Quando não sinto falta de nada. Quem não viciaria em viver esse momento perfeito pelo menos uma vez por semana? Sim, eu sinto dor, às vezes. Calor, quase sempre. Vontade de sair daquela posição em todas as aulas. Não, eu não emagreci fazendo yoga. Mas eu me sinto no domínio dos meus movimentos. Claro que queria poder fazer mais. Mas o meu corpo tem uma história.
Lembro que ando fiz reeducação postural descobri que tentava ignorar meu corpo da cintura para baixo devido aos comentários negativos que sempre havia recebido. Então, não se trata só de abrir e fechar as pernas, sentar ou levantar, mas de “reescrever essas linhas” e isso, na yoga, acontece sem pressa. E o mais importante para mim nem são os aspectos físicos, mas essa harmonia interna que vai surgindo sem que a gente perceba. Esse lugar dentro de nós para o qual podemos sempre voltar quando o lado de fora está agressivo demais, violento demais, triste demais. Além disso, ele se reflete nas nossas ações externas, na nossa forma de encarar os outros, os fatos. E não é algo forçado, fabricado. É intuitivo, natural, espontâneo. E não tem nenhum dogma por trás, nenhuma obrigação. Ao contrário, tudo busca o respeito ao nosso corpo, a nós mesmos. E se somar a tudo isso, uma pessoa doce, afetiva, cuidadosa, que nunca se coloca como dona da verdade, que tem a honestidade de se questionar sobre a sua própria prática, sobre a sua competência como professora, que te recebe com um chazinho e te cobre com uma cobertinha na hora do relaxamento, daí, é simplesmente irresistível. 

Thursday, April 25, 2013

Caetano : um amor de ontem?



Eu devia ter desconfiado quando, depois de comprar o último CD do Caetano só consegui ouvir uma vez.  Mas, depois de tantos anos, ficava difícil acreditar que eu não tinha gostado de suas músicas. Assim, decidi ir ao show. Araújo Viana lotado. Pessoas de todas as idades. Porém, já estava na metade do show e eu , sentada, perguntando a mim mesma: será que o nosso amor acabou?
Depois de me conscientizar de que devia ser proibido, proibir e me encher de vontade de sair por aí sem lenço e sem documento, será que um dos meus ídolos da adolescência havia seguido o seu caminho sozinho? Escondido segredos embaixo dos caracóis dos seus cabelos? Ele, que me apresentou a um estado de transcendência cantando Um índio, que acariciou meu coração com a suavidade de sua voz com Kalu? Que cantou em inglês, espanhol e até em francês? Que reforçou minha autoestima toda vez que cantava Você é linda? Que me deu uma das melhores lembranças da minha vida ao ver um dos caras mais interessantes da turma cantar Leãozinho prá mim no meu aniversário? Que idade eu tinha, mesmo? Não lembro. Em algum ano da década de 80. O mesmo que traduziu tantas emoções que a paixão pode provocar cantando Tantas Palavras... Que me estonteava com demonstrações da riqueza da nossa língua. Não, eu não conseguia acreditar que todas aquelas músicas que embalaram por anos tardes, noites manhãs faziam parte do passado. Então, pensei que, talvez, fosse a distância e fiz questão de me aproximar e, por alguns minutos, enquanto eu via o seu rosto e o seu sorriso, eu voltei a reconhecê-lo. Mas, durou pouco. Logo em seguida, vieram àquelas músicas, cujas letras já não parecem apresentar a mesma poesia, que tem um tom amargo, um arranjo de notas por vezes arrastado e eu só pensava: não enche. Porém, quando eu já estava quase desistindo, chegando até a olhar o relógio, veio uma melodia do passado e outra e outra. E a plateia, que até então, estava praticamente inerte começou a reagir e eu até dancei na cadeira enquanto ele cantava “de noite na cama eu fico pensando...”. Eu também pensei. Pensei que não podia jogar fora uma história tão antiga, uma história que provoca tantas lembranças incríveis, que me reportam a uma época em que eu descobria o amor, a mim mesma. E, assim, me dei conta, Caetano, que não, eu não te odeio. É apenas uma crise. Afinal, eu ainda desejei ter sido uma das pessoas que tocou a tua mão e ainda quero que seja prá mim que tu cantas “e quero que você venha comigo”. Então, eu peço desculpas se, nesse momento, não estamos tão sintonizados. Aconteceu algo assim com Circuladô e Tropicália e, hoje, isso está superado. Assim, volto prá casa, sentindo que depois de mais de 30 anos, a paixão, talvez, tenha acabado, mas o amor, esse não se despreza. 

Thursday, April 18, 2013

As perdas e as recompensas


Tive vários bichos ao longo da vida. Muitos gatos, alguns cachorros e meu irmão gostava de ter tartarugas quando ainda morávamos em um apartamento. Lembro, ainda que vagamente, que algumas acabavam morrendo de uma maneira meio besta. Uma porta que se abria enquanto a dita estava em baixo ou coisa parecida. Porém, eu não era apegada a elas.
Depois quando fomos para uma casa, a história com os gatos foi diferente. Eles apareciam no pátio e a gente começava a cuidar, dava comida e quando batizava, pronto! Era nosso. Ainda mais quando escolhíamos nomes como: Epaminondas da Silva Silvério. No entanto, muitas vezes, meus pais nos fizeram levar os gatos para a Dona Palmira (uma dessas casas que acolhiam os bichos). Lembro que era uma choradeira. Minha mãe fazia longos discursos, dizendo que eles iriam ficar mais bem cuidados, etc. A gente esperneava, mas, não havia jeito. Lembro, particularmente, de um gato cinza que eu e minha irmã achamos na rua, enquanto andávamos de bicicleta, que mais parecia um rato. Mas a gente resolveu que levaria para casa e o gato acabou crescendo e foi ficando lindo, com alguma mistura de Angorá. Irreconhecível. Depois, tivemos um cachorro. Não lembro como ele foi parar lá em casa. Já que minha mãe e meu pai nunca foram muito interessados em animais. Todos eram apaixonados pelo Toby, que latia bastante, fazia um furdunço na vizinhança. Acabou sendo envenenado, provocando uma choradeira na família por vários dias. Era meio ridículo até. A gente ficava bem, conversava sobre, dali a pouco, nos olhávamos e voltávamos a chorar.
Passamos muitos anos sem querer ter um cachorro de novo. Depois, quando eu já tinha meu próprio dinheiro, resolvi que meu sobrinho que morava conosco deveria ter um cachorro e comprei um Cocker, cor de mel, meigo que só vendo. Mas ele adoeceu e eu tive que correr para o veterinário que disse que era Sinomose, que não tinha volta e seria melhor eu me despedir do cachorro ali mesmo.  Chorei horrores, mas ouvi a voz do profissional e tive que dar a notícia. Foi um drama. Afinal, um dia o cachorro estava ali. No outro, não mais.  Assim, essa tentativa nos afastou da ideia de ter bichos de novo por muitos anos. Até que esse mesmo sobrinho acabou trazendo para a casa uma cadela, batizando-a de um nome francês, provavelmente para amolecer o coração da minha mãe e, mais tarde, um gato que, durante um bom tempo, ficou escondido no quarto dele, pois ele sabia que havia uma resistência a novos bichanos. Afinal, todos sabemos, eles exigem cuidados.
Anos depois, quando meu sobrinho se mudou, começou levando os bichos com ele: a Charlotte e o Bernard, um gato branco lindo. Senti a ausência dos dois, mas sabia que estavam sendo bem tratados e podia visitá-los sempre que quisesse. Quis a vida, porém, que eles acabassem voltando, assim como meu sobrinho, para casa. Isso fez com que minha mãe, vendo que havia certa negligência de nossa parte, incluísse em suas tarefas diárias dar comida e água para os animais. Para mim, sobrava a parte de dar banho e levá-los ao veterinário eventualmente. Muito pouco para o benefício de ter uma cadela que festeja todas as entradas que eu fazia na casa. Não havia uma única vez que ela não me recebesse com a maior demonstração de alegria. Eu, que achava que só gostava de cachorros pequenos e peludos, não tinha como não me apaixonar pela forte personalidade da Charlotte que parecia encantar a todos. E, foi assim, que o Dick entrava em nossas vidas. Primeiro, apenas fazendo companhia para a cadela em suas corridas lomba acima e lomba abaixo, usufruindo da liberdade fora do portão. Depois, fazendo plantão na frente da casa todos os dias, inclusive quando chovia. Dia de festa, não raro, ele acabava entrando com algum convidado, tentando se misturar.  Mas foi um atropelamento que abriu as portas definitivamente para a sua nova morada. Ao vê-lo machucado, minha mãe tentou localizar o dono e descobriu que ele não tinha ninguém que assumisse verdadeiramente esse papel. Ele recebia comida? Sim. Tinha o que beber? Também. Mas, só. E, assim, sem entrar nos pormenores de toda uma saga do que era para ser uma guarda compartilhada, assumimos definitivamente o Dick. Em troca, ele fazia questão absoluta de demonstrar toda a sua alegria de não ser mais um “homeless” como nós costumávamos dizer nas muitas vezes em que ele dava as suas escapadas para fazer uma ronda na rua que havia sido seu habitat por tantos anos. Mas, não se enganem, não havia dúvidas sobre a sua felicidade em ser chamado de volta, pois ele agora tinha a possibilidade de viver nesses dois mundos em que os vizinhos passavam para dar olá e nós “conversávamos” com ele cada vez que ele nos recebia.
Dick latia para tudo e para todos. Isso fez minha irmã apelidá-lo de “guardião”. Logo que o adotamos não era fácil dormir com seus latidos ininterruptos. Muitas vezes, tive que abrir a janela para mandá-lo calar a boca. Bem, mas, aqui estou escrevendo detalhes de coisas que qualquer pessoa que tem um animal já sabe: um animal exige cuidados, mas nos dá muito mais em troca. Entre tantos momentos em que me senti querida pela manifestação de alegria do Dick, ficou ainda a compreensão de que existem muitas formas de afeto e, foi cuidando dele quando a idade começou a provocar problemas mais sérios de saúde, acordando só para ver como ele estava, alternando coisas que poderiam deixá-lo mais confortável, que eu, finalmente, compreendi o jeito de me amar dos meus pais.
Não faz muito tempo, nós já preocupados com as condições que a idade trazia para o Dick, o vimos ser agredido por um cão da rua, que o abocanhava e o largava. Eu, entendendo que ele não teria condições de resistir, sem saber o que fazer, corri em direção ao cão aos gritos e consegui salvá-lo. Ele levou pontos. Exigiu cuidados especiais, mas voltou a latir como sempre e a dar suas escapadas sempre que podia. Voltando sempre com a mesma satisfação com que saía. Por isso, foi preocupante, vê-lo nesses últimos dias tão abatido. Já não tendo o ímpeto de explorar o lado de fora, buscando ficar próximo de mim quase todo o tempo. Só que já não era tão simples escolher como tratar essa insuficiência respiratória que agonia quem está em volta e deve ser terrível para quem a sofre. Fiquei tentando evitar deixá-lo nas clínicas, pois, achava que o melhor era ele estar entre as coisas e pessoas que conhecia. E, muitas vezes, quando ele estava em silêncio, achavámos que já tinha chegado a sua hora. Mas, ainda na noite passada, quando, finalmente, a falta de ar deu uma trégua e ele dormiu pensei que tinha sido seu último suspiro. Aproximei a mão e ele levantou a orelha, como se dissesse: não, ainda não.
Então, hoje, dia em que o Dick, definitivamente, se foi, acabei derramando muitas lágrimas. Tendo uma reação maior do que eu imaginava já que enfrentei da melhor maneira possível a perda do meu irmão, do meu pai, da minha tia, de amigos.  Provavelmente, fazendo uma espécie de catarse de todas essas ausências, talvez lastimando o vazio que a partida do Dick deixa no pátio e em nossas vidas. Mas, hoje, eu vou, tentar, finalmente, dormir direito, pois sei que ele se sentia acolhido, que era grato pelo carinho que recebeu. Tomara que eu consiga honrar o guerreiro que suportou tanta dificuldade respiratória, a pouca audição, a pouca visão, e outras coisas que eu jamais vou saber, só para me dar o prazer de tê-lo por perto.  E, para quem acha que é melhor se poupar do trabalho que um bicho dá ou prefere evitar as emoções que a perda pode provocar, saiba que eu não tenho nenhuma dúvida: se eu pudesse voltar atrás faria tudo de novo, pois receber o afeto de um bicho mais do que compensa, recompensa.

Wednesday, April 10, 2013

Anna Karenina: Uma nova linguagem cinematográfica para um clássico da literatura



Bem feito para mim. Não gosto de ler nada antes de ver um filme. Nenhum comentário, sinopse. Crítica, muito menos. Mas, ouço rumores e foi assim que fui parar no cinema para assistir Anna Karenina. Embora esse nome tenha estado presente durante grande parte da minha vida como uma personagem do livro de Tostoi, nada sabia sobre ela.  O livro está por aqui em uma das prateleiras, mas é só. Sendo assim, os primeiros minutos do filme foram de puro estranhamento. Eu adoro cinema. Tenho o mesmo sentimento pelo teatro, mas quando essas duas coisas se misturam não é assim tão fácil de absorver. Woody Allen gosta de fazer isso, mas enquanto o assunto é comédia, minha aceitação é mais tranquila, sem resistência, o que não é o caso.
Se partirmos do princípio que para ser teatro é preciso corpo presente, troca entre atores e plateia, não é disso que eu estou falando. Mas então porque a gente vê como teatrais movimentos que não correspondem aos fatos? Portas que se abrem levando para lugares improváveis, gestos, movimentos totalmente fora do cotidiano. Também não dá para ignorar que muitas cenas são feitas no ambiente de um edifício teatral, com abertura de cortinas e tudo mais. Junta-se a isso uma fotografia de contrastes entre cores, uma luz que dá foco artificial em algum objeto ou personagem, contextualizando a cena e eu reconheço elementos cênicos ali. Daqueles que transformam uma cena de capinar, de trabalho braçal uma das imagens mais poéticas que já vi.
Porém, não se iludam. Eu estava dizendo que fiquei achando tudo muito estranho no início. E aqui essa palavra é sinônimo de incomodo, contrariedade, quase desgosto, não o contrário. E vai assim até que, sabendo que ainda teria um bom tempo de filme, decido relaxar. Ah, a proposta é essa. Então, vejamos o que posso aproveitar dela. E é a partir daí que eu saio daquele momento de me remexer nas cadeiras para começar a pensar: nossa... isso foi ousado, intenso, Aaron Taylor-Johnson nos convence de que não é nada difícil perder a cabeça por ele e mostra que, apesar de ter apenas 22 anos, “o garoto de Liverpool” já está preparado para atuações mais audaciosas. Nem vou entrar no mérito do resto do elenco, mas tem muita gente boa aí envolvida.
genial. O figurino por si só já encantaria. E ainda por cima com bailes! Minhas amigas da dança se divertiriam com os passos dos personagens. Bem, e por falar neles, Judy Law que costuma fazer um enorme sucesso em suas comédias românticas é, definitivamente, outra pessoa nesse filme. E, devo confessar, que todo rosto bonito que faz um papel em que já não fica tão bonito assim, sempre ganha o meu respeito. Keira Knightley que já havia me conquistado em Orgulho e Preconceito segue me impressionando pelo menos nesse papel de mulher apaixonada e sofredora.
O diretor Joe Wrigth deve ter tido um trabalho imenso em orquestrar cada cena. E a palavra é essa mesma, pois a gente percebe que é tudo milimetricamente previsto. Não falta nada. Nada excede. Acabo saindo do cinema com a opinião transformada sobre essa “linguagem” que o filme resolveu criar e eu já deveria saber que, não é porque é imagem que é mais importante ou mais verdadeiro do que a impressão que nós sentimos. Então, o meu conselho é: esqueça aquilo que você acha que sabia e esteja aberto para o encontro inusitado entre o teatro e o cinema e divirta-se com os caminhos da arte no século XXI.

Monday, April 01, 2013

Natalício Cavalo: a vida em forma de espetáculo


Até ver Natalício Cavalo eu achava que “peça” e “espetáculo” eram sinônimos. Não acho mais. Quando uma peça é capaz de nos envolver nos primeiros minutos, apresenta atores com um mesmo nível (alto) de interpretação que cantam, dançam, trocam de papéis, estamos falando de um espetáculo. Mas, para ser sincera preciso dizer que sempre que vejo Heinz Limaverde no palco ele me conquista. Então, assim que ele se dirige ao público e começa a dizer o que vamos ver e fala do jeito mais tranquilo e doce que o protagonista vai morrer, eu já fico impressionada. Depois, quando todas as luzes se apagam, eu seguro a folha que me entregaram na entrada, tentando lembrar o que fiz naquela tarde, nas últimas semanas, vou sendo conduzida por eles a uma “regressão” da minha própria existência. Uma coisa é certa: eu não estava preparada para a beleza dessa história contada pela Cia Rústica e dirigida por Patrícia Fagundes.
Já havia escutado comentários de que o espetáculo falava da morte. Não para mim. Nem para eles. Como consta no programa: é uma comemoração à vida. A partir de alguém que, eles mesmos dizem, não é famoso, nem teve uma vida perfeita ou fez coisas extraordinárias. Ao contrário, é sobre as experiências de um ser humano qualquer  que se questionou várias vezes sobre sua existência, que “desperdiçou” tempo se envolvendo com várias mulheres, gerando várias outras vidas. Que, se não era um mau caráter, jogava, bebia, perdia mais do que ganhava dinheiro. Então, o que tem de especial? O que me fez ir às lágrimas?  Talvez porque eu tenha ido ver a peça na mesma semana em que vi duas borboletas e me perguntei se elas teriam noção de que em pouco tempo  estariam mortas, mas que ainda bem que elas estavam ali para embelezar o mundo. Ou porque tenha sido no momento em que a Xuxa fez a mesma idade que eu e nos 50 anos dela tornou-se conhecida em todo o país, construiu uma fundação, ajudou milhares de pessoas, enquanto eu... Ou então, porque meu pai, que se expressava tão pouco, ouvia música gaudéria o dia todo. Ou ainda porque meu irmão tenha vindo almoçar aqui em um Domingo e partido para sempre naquele mesmo dia depois de um mal-estar. Talvez também porque, quando eu tinha 30 anos, recebi um diagnóstico de uma doença rara e incurável que me colocava em risco de derrame cerebral e ataque cardíaco.  Quer dizer, é sobre isso que a peça trata. Sobre a vida, sobre a morte. Sobre os sonhos, sobre as perdas. Sobre o fato de sermos todos sobreviventes.
É forte a presença dos elementos da cultura gaúcha, a minha cultura. Cavalos, botas, chapéus... Assim como a presença das mulheres que não são colocadas aqui em segundo plano. Ao contrário. Destacam-se pela beleza dos gestos, personalidade, sensibilidade. E assim, palavras, misturadas a um figurino impecável de Daniel Lion, imagens de fotos, jornais, cartas, vários elementos jornalísticos, tudo isso me faz gostar ainda mais e sair dali procurando confirmações de que Natalício Cavalo de fato existiu (ou não). Mas não é preciso ser dessa área para achar impressionantes esses registros, aparecendo assim, em grandes telas que também fazem um jogo de sombras do próprio ator no palco, ora preenchendo a foto, ora  servindo de fundo para o personagem. De qualquer forma, poético. Enquanto, no palco, os atores,  Heinz Limaverde, Lisandro Belloto, Marcelo Mertins, Marina Mendo, Priscilla Colombi, Rossendo Rodrigues, dão vida às palavras escritas. Há uma cronologia, mas também há cortes. Há um roteiro cheirando a fantasia, entremeado de citações, de datas. Há a explicação técnica do que se trata uma gineteada. Há um tom dramático. Há partes que provocam o riso. Mas mais do que tudo, há os corpos dos atores fazendo movimentos integrados, deslocando partes do cenário de Rodrigo Shalako, nos levando a filosofar sobre o tempo, o envelhecimento. 
Tudo vai acontecendo de um jeito sincronizado com um ritmo que vai na contramão do tema pesado que, a princípio,  está sendo tratado. E não dá para ignorar, trilha sonora de Arthur de Faria, introjetada com naturalidade, costurando os atos que nos perturbam pela sua simplicidade. Afinal, sabemos que eles estão se referindo a Natalício Cavalo, esse “marginal do sucesso”, mas podia ser meu pai, meu tio, eu mesma. Ah, e quase ia esquecendo a figura da morte. Essa que aparece em tantas cenas, com máscaras, de um jeito quase divertido e que negocia com os atores em cena, mostrando que ela não tem pressa, pois, afinal, todos sabemos, é só uma questão de tempo. Aliás, por falar nisso, sabendo que “uma vida não cabe no tempo de uma peça”, vários eventos da existência de Natalício Cavalo são citados um atrás do outro e nos levam para uma forma simbólica de vivenciar sua morte. E seria triste, se ele mesmo não aparecesse falando sobre o que houve, sem a angústia de toda a sua vida, mas querendo deixar algo mais que não permita esquecê-lo. Mas já não era mais necessário. A Cia Rústica me fez crer que Natalício Cavalo de fato existira e sendo um personagem que relembra toda e qualquer pessoa, tanto ele como o espetáculo são inesquecíveis.

Saturday, March 16, 2013

Ney Matogrosso: esse eterno sedutor



Um pequeno comentário nas redes sociais sobre o show de Ney Matogrosso não é suficiente para relatar esse momento. Até porque era minha primeira vez. E como sempre acontece nessas ocasiões, a gente nunca sabe o que esperar. Que eu não leio a respeito antes para não perder a surpresa, todo mundo já sabe. Ver uma lista de músicas? Comentários de pessoas que já assistiram? Ele mesmo dizendo o que pretende? Não vejo por quê. Afinal, é fácil saber que nada vai ser igual.
Decidi ir ao show meio por acaso. Minha amiga Betha Medeiros colocou uma foto do seu ingresso no Facebook e eu pensei: gostaria de ir. Providenciar os ingressos não foi assim tão simples. Para tirar minhas dúvidas da compra pela internet, fiquei pendurada no telefone por mais de dez minutos. Acabei levando o cartão de crédito errado para retirar meu ingresso e fui obrigada a retornar no ponto de venda lá no Moinhos de Ventos. Detalhe: eu moro na zona sul.  Mas, tudo bem. Sabia que quando visse o Ney esqueceria.
O lugar era ótimo. Muito próximo ao palco e a última cadeira da fila, o que me permitiria levantar a qualquer momento. E essa foi a minha vontade durante todo o show. Porém, ninguém, em uma plateia lotada no Araújo Vianna, fez esse movimento. E olha que o espaço permite. É algo que já tinha me conquistado em shows anteriores: a informalidade. Pessoas bebendo, comendo, dançando. Isso sem prejuízo da visão ou da audição dos demais. E eu, confesso, achei irresistível aquela figura sensual, dançante no palco. Não esperava que Ney viesse com um figurino de roupas colantes, penas, brilhos, embora tenha sido assim que ele me conquistou há quase 40 anos. E se ele cantou poucas músicas daquela época, todo o repertório ficou lindo com o seu jeito de dançar e suas provocações.
Dizer que o corpo desse homem de 72 anos é perfeito seria exagero. Mas entre homens e mulheres não há quem não fique de queixo caído quando ele se movimenta. E é sua audácia, sua imagem autoconfiante que atrai. Ney Matogrosso é um leonino que tem o sol na barriga, quer dizer, naquela área chapada e musculosa que ele exibe ora apenas levantando a blusa ora com um figurino que a expõe completamente. Aliás, um ponto forte são suas roupas mínimas, suas botas acima do joelho que ele põe e tira diante dos olhos da plateia. 
E como se não bastasse ser impressionante Ney no palco, ele usa vídeos que ilustram suas letras e também não teme colocar suas imagens ainda jovem. Parece não ter a mínima preocupação com as possíveis comparações. Provavelmente, servem de artifício para permitir que ele aguente por quase duas horas diante de tanta gente sempre em movimentos e gestos insinuantes. Como aquele de escorregar pelas escadas em direção à plateia enquanto cantava repetidamente: “beija-me, beija-me”... ou quando estica-se no chão e, apoiado em apenas um braço, segue cantando
A voz? É tudo aquilo que o tornou famoso, que encanta as plateias por onde passa, com seus agudos e sua interpretação incomum. E de lambuja a gente ainda ganha aquele olhar penetrante que eu poderia jurar, bateu no meu e me levou a querer dançar com ele. Assim, quando chega o fim, ele canta a música de Vitor Ramil, Astronauta lírico, bolhas de sabão caem do teto e ninguém quer que termine.
Na saída, todas aquelas pessoas, das mais diferentes idades, comentam praticamente a mesma coisa: a performance desse que, sem dúvida, é um homem com H e cujas imagens vão me servir para aqueles dias em que o desânimo se aproxima. Afinal, a vida é breve e “já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, mas antes quero encará-la com muita garra, coragem e ousadia, ou melhor, mais Ney.  

Thursday, February 28, 2013

Sempre de malas prontas




O destino: Florianópolis. Com passagens compradas já há algum tempo e hospedagem garantida, na véspera, minha mãe diz que não conseguiu dormir a noite preocupada com os incêndios dos ônibus que acontecem na cidade. Verifico com amigos que estiveram e outras que moram por lá e elas me dizem que, apesar de ser uma situação delicada, não há o que temer. Assim, começo a minha viagem com uma amiga que nunca havia andado de avião.  Eu viajei pela primeira vez aos 30 anos. Depois disso, não parei mais. Se tenho medo? Bem, minhas pernas bambearam a caminho do primeiro avião que peguei na vida. Agora, já contabilizo duas viagens sobre o oceano e muitas decolagens e aterrissagens. Então, lá estávamos nós, dentro do avião, felizes por conseguir fazer algo juntas. Depois dos avisos de que iríamos decolar, começam a fechar as portas dos bagageiros e a pedir que as poltronas fiquem na posição vertical, etc, etc. Um dos comissários aproxima-se de uma senhora idosa no lado oposto ao nosso, duas filas à frente, que está de olhos fechados. Cutuca ela e diz: senhora..... Ela... nada. Ele cutuca um pouco mais forte. Ela... nada. Na terceira cutucada, dá para reparar que ele já está ficando um tanto angustiado. A senhora acorda e os dois se surpreendem. Eu e minha amiga nos olhamos e rimos. Havíamos pensado a mesma coisa. O que não seria um bom começo. Mas, no fim das contas, o voo é bastante tranquilo.
Assim que chegamos, vamos para a parada de ônibus. Afinal, havíamos planejado uma viagem econômica. Não demora, começam as ofertas de transporte. Quando consideramos que o preço vale a pena, entramos em um táxi com mais dois passageiros. O motorista não demora para  falar sobre várias coisas ruins da cidade, enquanto faz um zigue-zague maluco por entre os carros, numa velocidade assustadora. “Por mim, explodiria essa ponte!”, disse ele enquanto olhávamos admiradas para a Hercílio Luz.  Argumenta que o dinheiro gasto até agora para restaurá-la era um absurdo que daria para  ter feito várias outras pontes. “Tinha um japonês que disse que poderia trazer uma ponte inteira, igual a essa e colocar aqui por muito menos, mas não quiseram. O japonês acabou aparecendo morto, isso sim”.  Frustrante ser recebida assim tendo ainda em mãos o folheto turístico dizendo: “bem-vindos ao paraíso”. Felizmente, o trajeto era curto e não demorou muito chegamos ao nosso hotel. Nossa aventura pelo solo (?) catarinense estava apenas começando.
Devidamente hospedadas, sugiro começarmos pela Barra da Lagoa. Uma praia que eu havia ido há poucos meses. Aproveitamos o mar, a paisagem e vemos muitas mulheres de óculos dentro d’água. Na hora da fome, não achamos tão simples achar um lugar barato. Mas, ao encontrarmos, os lanches são muito bem feitos e somos muito bem tratadas. Com atenção e gentileza.  E será assim por toda a viagem. Seremos chamadas de “queridas” várias vezes por pessoas de ambos os sexos e das mais diferentes idades. Logo percebemos que é um hábito, mas isso não quer dizer que, por isso, não seja extremamente agradável. Outra coisa que nos alegrou foi o sistema de transporte, os terminais. Graças a eles logo entendemos como ir de um canto a outro. Tivemos a chance de ver até uma das vendedoras de passagens falando inglês com um casal de turistas e, quando perguntei se ela sabia, ela disse que não, que aprendeu ali mesmo falando com os estrangeiros que passam. Devido ao intenso calor, sentimos falta, porém, de ar-condicionado nos ônibus.
Na primeira noite, saímos a pé. Querendo informações sobre um lugar para comer, escolho uma senhora que atravessava a rua. Ela para e começa a nos falar sobre de onde vinha, sobre a cidade, sobre suas crenças, sem tomar fôlego. Enquanto minha amiga tenta ser gentil, eu espero uma brecha para encerrar a conversa. Ela acaba, inclusive, nos dando o seu endereço. Não seguimos a indicação dela, mas sua longa conversa e sua tranquilidade a transforma em um dos personagens insólitos da nossa viagem. Outro, acabou sendo um senhor que veio ao nosso encontro quando já aguardávamos o ônibus para o centro em Jurerê Internacional. Uma praia de águas calmas que nos permitiu um dos melhores banhos desses dias. Um breve passeio pelo calçadão onde encontramos os doces de Pelotas, cidade da minha amiga, e nos dirigimos à parada. Foi a única vez em que o ônibus custou para chegar. Já estávamos ali há algum tempo, admirando as casas chiques em volta, quando um senhor aproxima e pergunta se sabíamos onde ficava o Banco do Brasil. Não sei nem como a conversa começou. Fato é que se tratava de um biólogo que tinha também uma formação em história e ele nos dá uma aula sobre os Incas e um desbravador de terras estrangeiras que partiu de Santa Catarina em direção a Machu Picchu antes mesmo de Francisco Pizarro. O senhor, que chegara sem fôlego, distraiu-se conosco demonstrando seu conhecimento.
Sem constrangimentos, nem medos, vemos as pessoas se aproximarem criando durante toda a viagem  uma sensação de segurança e tranquilidade. E é assim que chegaremos a Campeche. Praia onde as vitrines nos atraem logo de cara e conseguimos encontrar produtos com preços acessíveis mas, talvez o mais importante: alguém que nos atende como há muito tempo não acontece comigo em Porto Alegre. Quanto ao mar, é exatamente como eu me lembrava. Muito agitado. Chega a ser engraçado, pois cada onda vem de uma direção diferente mas, mesmo para quem tem medo como eu, é possível entrar na água. Estamos lá aproveitando o sol quando chega um desses ambulantes que circulam pela praia oferecendo coquetéis, caipirinhas e sucos. Não resisto. Ao me aproximar, vejo que quem atende é um cara com pele morena, olhos verdes e um sorriso que mais parece um teclado, como dizia a minha avó. Retorno com a bebida na mão e comento com a minha amiga que gostaria de encontrar o Zulu que acabara de esbarrar em alguém tão bonito quanto e nos divertimos olhando ele servir os drinks, conversar com as pessoas. Penso no quanto ele ganharia se fosse descoberto, mas depois me dou conta que, talvez, esse não seja o seu desejo, que ele poderia adorar estar ali mesmo, naquela vida, sendo admirado apenas por clientes como eu.
À noite, saio na busca de um lugar que havia pesquisado na internet antes mesmo de ir. Vi fotos, o local no mapa, tudo. Assim, posso me deslocar em uma cidade que pouco conheço e ir a um lugar onde nunca estive como sempre soubesse onde fica. Acabo tendo uma sensação de reconhecimento apesar de nunca ter estado no lugar. A virtualidade faz isso. Claro que pela web não tem como prever que os garçons serão tão atenciosos. Escolhemos o prato feito por R$ 15,00. Foi a única refeição completa que fizemos em cinco dias. Arroz, feijão, frango, salada, batatas e ovo fritos. Tudo muito saboroso e com uma apresentação impecável. Ah, e tinha ainda música ao vivo. Pena que chegamos ao final da tarde e acabamos não aproveitando tanto a movimentação do lugar que deve acabar ficando bem cheio.
Dia seguinte, minha ideia era ir a Praia Mole. Ao lermos as características já não temos tanta certeza: “corpos sarados desfilam na areia...” Digo para minha amiga que será apenas por um dia que invadiremos esse espaço. Fizemos bem. Na verdade, como toda praia tinha de tudo, mas de vez em quando aparecia uns corpos masculinos que pareciam ter passado no photoshop. Há tempos não via tanta “barriga tanquinho” por metro quadrado. E quando menos esperávamos passa um carinha com uma menina que parecia sua filha que desbancava o Rodrigo Santoro. No mais, a diversão era a narração do campeonato de surf. Intrigadas em como os participantes conseguiam escutar as ordens lá de dentro do mar e obedecer. Coisa que muitas outras pessoas não faziam em relação às ordens dos salva-vidas para não ir tão para dentro. Resultado: o salvamento de um casal. Minha amiga estava indignada. Eu, havia ficado surpresa com a capacidade dos dois de nadar de costas, boiar, tentar várias alternativas até que um surfista chegasse para ajudá-los, antes mesmo dos profissionais da área. Na hora de ir embora, passamos por um grupo de senhoras idosas na frente do pórtico que valia uma foto. Elas não estavam nem aí para os tais corpos sarados. Era Domingo, dia de sol. Ou seja, engarrafamento garantido. Para nossa sorte o ônibus não demora muito a chegar. De volta ao hotel, com coisinhas para comer e aguardar o Oscar. Porém, o vinho nos faz dormir muito antes.
Chega o dia do retorno. Teríamos que sair do hotel às 14h. Difícil curtir a praia cuidando o relógio. Decidimos pagar mais meia diária e esquecer da vida. Foi ótimo. Teria sido uma pena não ter curtido a Praia da Armação. Calma com água limpa e sem ondas. Uma paisagem de cinema. Perfeita para despedida. Mais uma vez, os ônibus parecem estar a nossa disposição. Sem cuidar os horários, acertamos em cheio a hora de nos deslocarmos. A não ser pela ida ao aeroporto em que concordamos em ir bem cedo para não correr o risco de não chegar a tempo. Já sei por experiência anterior que se perdêssemos o voo promocional custaria muito caro para conseguir outra passagem e toda a economia que fizemos iria por água a baixo.
No aeroporto, a chuva começa. E não uma chuvinha qualquer. Uma tempestade de raios e trovões. Não faço nenhum comentário para não assustar minha amiga, mas ninguém gosta de voar assim. Já passei por isso, mas não recomendo. Não deu outra. Turbulência. Nada que me deixe nervosa. Aprendi a não dar muita importância e depois de vários dias fora da rotina, andando para tantos lados, o cansaço é maior do que o medo. Para contrabalançar, o piloto faz um poso perfeito e desliza nos solo gaúcho. Chegamos. Despedimo-nos já falando das próximas viagens. É, acho que agora minha amiga me entende: viajar vicia.


Friday, February 01, 2013

Django Livre - A violência da arte de Tarantino


Como sempre fui para o cinema com muito pouca informação sobre o filme. Mas pelo menos duas mereciam a minha consideração: estava na lista do Oscar e meu sobrinho João Mello havia gostado. Mas não sabia que tinha Jamie Foxx no elenco, muito menos Di Caprio. Tinha visto comentários muito favoráveis à trilha sonora no Facebook. Então, vou começar por essa. Até porque na primeira música já dá para entender porque as pessoas elogiavam. Durante toda a película, as músicas não passam despercebidas. Não são pano de fundo. Elas surgem salientes, em destaque e nos divertem, desde o início, com a competência em contribuir para nos colocar no clima. Já no primeiro acorde, na primeira cena fui fisgada para dentro da tela. Devo dizer, porém, que Django Livre não é exatamente o meu tipo de filme. Tem cenas, como a dos cães e da luta que eu, praticamente, não consegui olhar, tamanha violência, apesar de tentar manter a consciência de que não era real. Aliás, não sei se posso fazer esse tipo de comparação, mas há, nesse filme, um tipo de distanciamento provocado. Algum elemento que nos diz todo o tempo que se trata de ficção, como as produções teatrais de Brecht. Assim mesmo, tem horas que, para mim, é difícil de encarar. Mas, ao mesmo tempo, dei risada em várias cenas e eu acho que essa é uma das características mais interessantes do Tarantino. Esse humor agressivo, irônico, associado a imagens sanguinolentas, torturas, judiarias. Cada uma delas elaboradas tão cuidadosamente, com um senso estético tão perfeito que, mesmo que a gente fique arrepiada, vale uma espiadela. É preciso ser um gênio para fazer isso sem cair no ridículo, sem exagerar. Somam-se a isso interpretações incríveis como a de Christoph Waltz, no papel do alemão Dr. King Schultz, caçador de recompensas, que desencadeia o enredo. Gestos e falas tão precisas que nos levam a emoções autênticas e a reações as mais surpreendentes. Não importa quantas pessoas ele mate no filme, a gente acaba torcendo por ele. Quanto à Foxx, já tinha me deixado boquiaberta em Ray e segue provando que não há papel que ele não possa fazer. Assim, como Di Caprio, que ficou muito tempo fazendo personagens açucarados, mas que, desde o início de sua carreira (quando ele fez um personagem coadjuvante de um menino excepcional, cujo nome do filme nem localizei em sua biografia), já tinha mostrado que é muito mais do que um rostinho bonito. No mais, todo o elenco impressiona e dirigido por Quentin Tarantino fazem cenas extremamente difíceis. Não reconheci Samuel L. Jackson, apesar de ficar fascinada pelo personagem do mal (?) que ele faz, Stephen. Kerry Washington, que ainda não identifico com facilidade, aparece com toda a sua beleza. Todos os demais, e são muitos, ótimos em seus personagens, em suas atuações. E, apesar de todo sangue derramado, o filme, como já disse, me fez rir, principalmente pela forma debochada como Tarantino nos conta toda uma época. Sim, porque apesar dos exageros quase caricatos, a história está lá, no roteiro elaborado por ele. Os preconceitos, a crueldade. Além disso, a mim, parece que nenhum detalhe escapa. O figurino é impressionante. A fotografia também merece destaque. Seja nos detalhes ou nos planos abertos há um jogo de luz e sombra que não é comum. Por tudo isso, mesmo eu que não sou fã de filmes violentos, saio do cinema convencida de que vale muito a pena, que, mais do que um filme, o que assisti foi uma obra de arte, ou melhor, de muitas artes: musical, plástica, cênica e, é claro, cinematográfica. 

Monday, January 28, 2013

O dia em que o coração do Rio Grande parou


Sempre morei em Porto Alegre. Adoro a cidade. Quando escolhi o jornalismo sonhava em ser correspondente internacional, mas não pensava em morar em outro lugar. Em verdade, só tive uma oportunidade em Santa Catarina para exercer fora a minha profissão. Não quis. Mas, era comum eu dizer que se tivesse que morar no interior seria Santa Maria, conhecida como o coração do estado. Não conhecia muito a cidade, mas, nas poucas vezes em que fui, percebi uma energia boa no ar. A juventude, associada ao desejo de conhecimento, era uma mistura que tornava o lugar especial. Muitos eventos culturais, muitos cursos e, é claro, muitas festas, muitos bares charmosos e agradáveis, locais de discussão dos mais diversos temas e diversão.
Por tudo isso, tinha ainda mais interesse em acompanhar desde cedo as informações sobre a tragédia deste Domingo, 27. Como tenho hábito de acordar e ir olhar o Facebook já havia alguém comentando sobre o incêndio na boate Kiss mas ainda não dava para ter ideia da gravidade. A partir de então, foram surgindo novos dados, comentários, informações diversas. De crônicas a solicitações de auxílio. Não liguei o rádio, nem a TV. Perdi esse hábito. Estou cansada da maneira como a imprensa trata as notícias no dia-a-dia e em como conduzem as pessoas a falarem só sobre tragédias e violência todo o tempo, imagina uma hora dessas... Na rede social, os dados também chegam e, a meu ver, de uma forma mais reflexiva, atenta, afetiva e por fontes que eu tenho melhores condições de avaliar a veracidade, a confiabilidade. As opiniões vão se somando e eu posso tirar minhas próprias conclusões. Não sou induzida por uma linha editorial sanguinolenta. Sendo assim, fazia muito tempo que não assistia o Jornal Nacional. Nessa segunda, depois de ler uma publicação no Facebook que sobre a presença de “estrelas” do jornalismo na cidade, resolvi encarar. Logo de cara, comecei a me emocionar, a ficar angustiada, mas tomei uma decisão: assistir analisando o trabalho jornalístico.
Willian Bonner provou que sabe entrar ao vivo. Não titubeia. Também não esperava menos de alguém com toda a sua experiência. As matérias mostram os jornalistas indo atrás de várias fontes, dando ênfase a vários aspectos que o tema abrange. Os recursos tecnológicos permitem avaliar diversos ângulos das principais dúvidas levantadas. Os repórteres, no entanto, insistem em forçar reações emocionais dos entrevistados. É sempre assim, embora eu não lembre de ter aprendido isso na faculdade (e posso garantir que não era de faltar as aulas). O objetivo? Eu não ainda não sei. As pessoas dizem que é pela audiência. Isso quer dizer que está cheio de gente em casa querendo ver pela televisão o sofrimento alheio? Prefiro acreditar que é despreparo mesmo. Incompetência. Conclui que o próprio curso de comunicação deveria aprofundar a forma de abordar esses momentos, criar regras, impor limites. Ou de nada adiantará todos os recursos, jatinho, computadores de última geração. Estarão sempre pondo tudo a perder e merecendo todas as críticas e o deboche que recebem. Foi assim com os integrantes da banda.
O depoimento de um dos artistas pode ser criticado pelos parentes e amigos, mas posso imaginar o que ele quis dizer quando falou que pareciam animais. Tenho para mim que se não praticarmos ações menos egoístas em horas calmas não vai ser no pânico que vamos ajudar quem está querendo achar uma porta da saída. Os peritos ainda vão definir melhor tudo. Mas, embora existam queimados, já sabemos que foi a asfixia que matou a maioria das vítimas e... gente que caiu, foi pisoteada, o fato de terem sido encurralados buscando uma forma de sair.

Culpados? Eu tenho pavor de “caça às bruxas”. Acho que as pessoas são totalmente irracionais nessas horas. Considero que prender aqueles que estão sendo apontados como responsáveis é uma maneira de protegê-los, nesse momento. Tenho medo das pessoas que acham que devem tomar a justiça com as próprias mãos e não estou falando dos familiares e amigos.
Fora isso, foi uma tragédia, mas não uma catástrofe e mesmo assim, apesar de todos os esforços, de toda a união, há muitas falhas na hora de socorrer as pessoas. Muita informação desencontrada e fico simplesmente apavorada quando vejo lista de necessidades que vão de água ao papel higiênico. Por que estamos tão despreparados? Afinal, estamos falando de um evento localizado, com um número grande, mas muito inferior à população geral da cidade, do estado e infinitamente menor do país.  No entanto, é um corre-corre absurdo para resolver grandes e pequenos problemas. Então, é verdade. Podemos ser dizimados a qualquer instante por algum fenômeno da natureza, crise de energia, etc, tornando reais as profecias?
Não acredito no acaso. Não acho que a morte dos jovens tenha sido “causada” pela negligência. Minha crença é outra. Mas atenção: não estou dizendo que tudo deva ficar por isso mesmo. Muito ao contrário. Quero que se aprofundem muito em todas as questões, estudem a fundo o que pode ser feito diferente. Façam tudo para impedir novas tragédias como essa porque, como já foi dito muitas vezes, existem milhares de lugares em circunstâncias semelhantes a esse de Santa Maria. Provavelmente, entrarei em um amanhã.  Quanto às questões jornalísticas?  Apesar dos exageros e dessa tendência macabra de expor desgraças, a imprensa tem trazido à tona muitas discussões, investigado muitos fatos que de outra forma ficariam ocultos. De uma forma, meio torta, prestam um serviço à sociedade que tem ido muito além da informação.
Quanto a Santa Maria? Jamais será a mesma. Ela já não é. Mas sei que a dor também une as pessoas e essa união se transforma em uma força que todos vão precisar para enfrentar a tristeza, a saudade. Acredito que, aos poucos, a cidade vai renascer e que no lugar do eu, do tu, do dedo em riste, o que vai importar vai ser o “nós”. Não vai ser amanhã, nem mês que vem, mas as ruas vão voltar a ter aquele som de risadas e gente falando alto e música, todos aqueles ruídos da alegria quando se manifesta e eu espero que os jornalistas neste dia voltem para ver a cidade eu sempre achei que valia a pena morar.

Friday, January 25, 2013

O Rio na metamorfose da memória



Cada vez que volto ao Rio de Janeiro tenho novas impressões. O que comprova que as cidades estão permanentemente em mutação, assim como as pessoas.  Sim, o Cristo está no mesmo lugar (embora eu só tenha visto de longe dessa vez). O Pão de açúcar também. Aliás, todos os monumentos, pelo que eu saiba.  Eu, porém, certamente, cheguei  lá diferente das outras vezes e isso afeta a forma como observei a cidade, agora,  sob a minha ótica em 2013.
A maneira como fui tratada nas ruas dessa vez foi bem melhor.  Consegui informações das pessoas sobre os locais onde eu gostaria de ir. Uma moça me ajudou, inclusive, a retirar uma bicicleta para andar pela Lagoa Rodrigo de Freitas gastando o tempo dela e me proporcionando um dos melhores momentos da viagem. Fui bem atendida em lojas, comércios, etc. Isso, porém, não facilitou muito o meu trânsito por lá. Dependendo de transporte público, fui deixada na parada algumas vezes por motoristas que passavam pela faixa central, correndo, sem dar nenhuma atenção aos potenciais passageiros. Em poucos dias, porém, comecei a pegar alguns macetes. Escolhi paradas menos congestionadas, pedi ajuda aos que também esperavam o ônibus para confirmar se o ônibus que vinha à distância era o que eu desejava e andei, andei, andei, me perdendo e me achando e, nos momentos de maior preguiça, pegava táxi, o que não chega a causar grande prejuízo ao meu pequeno orçamento.  
Quanto à moda no Rio de Janeiro é bem difícil dizer. Lembro que há muitos anos, ficávamos impressionados com a quantidade de cores e adereços que nossos amigos cariocas gostavam de usar. Os dedos cheios de anéis, os brincos encostando nos ombros e as fortes cores das vestimentas eram motivo de comentários. Já não sinto mais esse estranhamento. Não sei se me acostumei, se também começamos a usar coisas assim... Porém, não é fácil falar de hábitos locais de uma cidade está repleta de turistas. Mas, embora seja uma cidade praiana, eles parecem ter suas regras. A gente não vê ninguém nos calçadões de biquíni, nem mesmo maiô. Se for para andar assim, vá para a areia.  Mas é claro que a gente vê muita gente de bermuda, de chinelo e que chamam a atenção os homens de terno. Aliás, os homens foram mais gentis comigo do que aqui em Porto Alegre, abrindo portas, dando passagem, oferecendo lugar. Até no trânsito alguns motoristas pararam para me dar passagem. Coisas que aqui já não acontecem mais comigo faz tempo. E isso que há muitas avenidas longas e largas o que, sem dúvida, faz com que eles gostem de correr e tentar chegar primeiro, como em qualquer outra cidade um pouco maior do Brasil.
Não aproveitei os famosos botecos, mas a cidade tem muita oferta de comidas rápidas e gostosas, lanches, sucos e coisas assim. Já os peixes e camarões mexeriam mais no meu bolso, então, só foram possíveis nas ocasiões em que meus amigos me “patrocinaram”, como em Búzios, mais precisamente na praia João Fernandes. Coincidência ou não, justamente essa praia foi escolhida pelo The Guardian como uma das oito praias mais lindas do mundo. Não posso opinar sobre isso pois ainda me falta conhecer muitas. mas, sem dúvida, foi um privilégio ter estado lá. Mas convenhamos... flanar gratuitamente pelas ruas do Rio de Janeiro já é algo especial. A paisagem, misturando mar e serra, é uma das coisas mais lindas que eu já vi e sempre me impressiona e me encanta. A proximidade da água, a falta de compromisso, o calor do sol na areia... tudo isso vai relaxando não só o corpo mas a mente.  Sou dessas que acredita sim que o clima interfere no comportamento das pessoas. E por falar nisso o astro rei apareceu sempre muito timidamente enquanto estive lá. Tinha que apostar que ia dar praia. Felizmente, ganhei quase todos os dias. Só no último, o que consegui foi me despedir com um banho de chuva como há muito eu não tomava. A sensação (antes de enfrentar encharcada o frio do ar-condicionado a toda do ônibus) foi de liberdade, de prazer. Sentimentos que estiveram presentes em toda a minha estada em férias. Se fosse a trabalho (o que nunca fiz), as impressões, muito provavelmente, seriam outras.
Não sei quantas vezes já fui ao Rio. Na verdade, não sei nem mesmo qual foi a primeira. Minhas recordações estão todas misturadas. Lembro-me de uma época em que fui com o pai e a mãe e que andávamos de carro por toda cidade, esbarramos em uma gravação com o Antônio Fagundes e a Ana pediu o autógrafo dele no nosso guia que nos permitia descobrir novos lugares, bem como meu pai gostava de fazer... Lembro de outra em que o meu irmão também estava, com a minha cunhada e o meu sobrinho e inventava programas como ir a Petrópolis ou a Paquetá. Lembro-me da minha primeira viagem de avião cujo destino foi justamente o Rio. Lembro-me do incrível convite para ir ao primeiro Rock in Rio e, é claro, jamais esquecerei de ter desfilado na Sapucaí devido a um convite inusitado que surgiu por causa da desistência de outra pessoa.
Dessa vez, não fui a teatro, não fui a cinema. Não vi nenhum show e, sem dúvida, tudo isso também faz do Rio de Janeiro uma cidade especial. No entanto, há algo que venho aprendendo com essa cidade: a vida é feita de escolhas. Não adianta ficar lastimando aquilo que a gente não viu, aquilo que a gente não fez, o lugar em que a gente não esteve. Somos exigentes e insaciáveis. Queremos sempre mais e mais. Perdemos a chance de parar um pouco, respirar fundo e pensar: eu estou exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria estar fazendo, seja dentro do ônibus trancado no trânsito ou com água até o pescoço vendo os dedos dos pés.
Tomara que eu ainda possa voltar muitas vezes. Que eu possa ir decifrando cada vez mais essa cidade incrível da qual tenho cada vez mais ótimas lembranças para guardar porque, para quem não sabe, até o que parece ruim em um momento, acaba sofrendo uma metamorfose na memória e acaba provocando saudade.           

Monday, December 31, 2012

"A vida vem em ondas"


Desde os dez anos que escrevo algo no dia 31. Sério. Considero uma data importante, pois além das comemorações é um dia em que a gente acaba fazendo uma espécie de avaliação do que nos aconteceu e das nossas atitudes, é meio inevitável. Pelo que me lembro, sempre dei um jeito de encerrar o meu texto com alguma mensagem de esperança e não creio que esse ano vá ser diferente.
Comecei 2012 ganhando a possibilidade de cuidar melhor da minha saúde de um jeito muito especial que mais me parecia um presente divino. Logo no início, fui ao Rio de Janeiro e fortaleci ainda mais uma amizade com alguém que entrou na minha vida pelo trabalho e se instalou pelo afeto.
Foi o ano em que consegui, finalmente, retornar à Paris e, talvez, por isso mesmo, pelo menos até outubro, nenhuma coisa ruim de fato me atingiu. Passei por momentos chatos, claro. Encarei pessoas inconvenientes, óbvio. Falta de grana? Alguma dúvida? Porém, em todos esses momentos, eu estava lá, concentrada, pensando que no dia do meu aniversário estaria na cidade luz, falando uma língua que amo e, dessa vez, de lambuja, com a minha irmã, meus dois sobrinhos e amigos. Não dava para ter “tempo ruim”. E não é que com isso o dia-a-dia ficou mais interessante?
Fiz novos e especiais amigos. Fui chamada para fazer pequenos trabalhos ligados ao teatro, comemorei com muita conversa e risadas vários momentos com as pessoas que amo. Ah, fiz muitos almoços, jantares, comidinhas especiais por puro prazer de reunir as pessoas em volta de uma mesa. Acompanhei a compra da casa nova de minha irmã e produzi, com a minha irmã e a minha mãe, vários materiais tentando levar as pessoas um pouco mais de conhecimento. Em troca, muitos elogios ao meu pai, criador dos jogos da família, muitos agradecimentos por esses produtos existirem. Surgiram trabalhos inesperados,  assim como continuei fazendo outros em que posso perceber o que aprendi até agora.
Fui a Buenos Aires, apresentar minhas ideias. Venci meus medos de falar em público e até em outras línguas, vejam só...Vi trabalhos artísticos lindos, outros de muita garra. Andei pelas ruas da minha cidade, de outras cidades, em outros países. Segui fazendo natação e reduzindo assim minhas ansiedades e, sempre que algo me tirava do meu equilíbrio, logo logo encontrava um amigo para me tranquilizar, para mostrar que a vida era muito mais do que aquele momento e que sim, o que quer que fosse ia passar. E passou. A prova está que chegamos ao final do ano.  E há poucos dias lá se foi uma pessoa que sempre teve muita importância na minha vida, mesmo quando distante. A simples lembrança dela era capaz de me fazer sorrir, de me confortar. Mas eu me nego a ficar triste. Me emociono, de vez em quando, claro, mas eu e ela sempre soubemos que a vida é efêmera e que como 2012 passa muito rápido. Tão rápido que só me instiga a continuar com essa urgência de viver, de me concentrar nas coisas boas, a dar valor para o que realmente importa e a continuar tentando ter cada vez mais gente que dê valor a cada minuto por perto. E por incrível que pareça o ano está terminando cheio de perspectivas de que eu não vou querer isso sozinha.  Que 2013 seja um ano de mais encontros e de reencontros. 

Monday, December 03, 2012

Palavras que estremecem, cenas que transformam o espetáculo da vida



Não sou dessas pessoas que se apaixonam pelas palavras, mas “estremeço” tem uma sonoridade que me agrada e que me atraiu para ver o trabalho da Cia Stravaganza mesmo mantendo o hábito de não ler nada a respeito para não estragar a surpresa. Assim, desde o primeiro momento, fiquei em suspensão ao ouvir cada parte daquele texto curioso, enigmático, profundo. Não demorou muito para surgir uma sensação de prazer, de alívio, por constatar mais uma vez a força do teatro em traduzir o que nos angustia, o que está em nosso pensamento, o que faz parte do nosso dia-a-dia. Porém, não de um jeito mastigado, liquidefeito, mas instigante e desafiador.
Precisava ser um grupo como esse para trazer ao palco o texto de Joël Pommerat, esse francês que descobriu, desde os 12 anos, que era o teatro que lhe interessava. Essa paixão está em cada palavra. Todas as dúvidas de quem se interessa pela arte, de quem não deixa a vida passar em vão, de quem quer ir ao fundo de todas as questões da existência e que volta ao começo, busca as origens, tentando resgatar um otimismo, uma razão e esbarrando tantas vezes no vazio, no susto, no medo, mas mantendo ainda assim o humor, me levando a uma disputa entre manter a atenção no palco e ao que cada cena me provocava.
Dei muitas risadas nos espetáculos anteriores do Stravaganza. Admirei o trabalho de Rodrigo Mello quando o vi pela primeira vez e segui apreciando as atuações dos meus amigos Lauro Ramalho e Sofia Salvatori. Dessa vez, tenho ainda o prazer de rever Adriane Mottola em cena. De fixar meu olhar em Cassiano Ranzolin que tem uma energia magnética. De sentir medo do personagem de Duda Cardoso durante todo o tempo e de me impressionar e divertir com a multiplicidade de Janaina Pelizzon. Todos expressivos e intensos.
Enquanto os assistia me perguntava o que era criação do grupo, o que o autor havia definido e vislumbrei uma semelhança ao pouco que conheço dos textos de Heiner Müller, em que tudo fica para ser pensado por quem decide encená-lo, sejam os atores, ou o diretor. Devo dizer que não tenho facilidade em identificar as habilidades desse último. Não sem conhecer o processo. Não quando ele acerta. Nesse caso, ela: Camila Bauer. Porém, um amigo tornou isso muito claro ao explicar que, mesmo que as escolhas das ações, do cenário ou de qualquer outra coisa em cena não seja da diretora, ela tem que aprovar. Afinal, é o seu nome que vai “assinar” tudo isso. E em Estremeço existem momentos muito especiais, audaciosos, mostrando que ainda não vimos tudo que é possível no teatro. Fernanda Petit  dando seu texto em um microfone no chão é um desses e existem muitos outros. Também observo que quando não há nada a excluir, quando há uma precisão, isso é mérito da diretora.
Além disso, ao verificar que Elcio Rossini assina a cenografia já não me espanta que tenha visto pernas de aranha no que deveria ser uma cortina, de me surpreender com os artefatos que traziam e levavam os atores e, embora Naray Pereira seja um nome novo para mim, não posso deixar de falar do figurino que me parece absolutamente impecável.
Estremeço prova mais uma vez para mim que arte é literatura, arte é comunicação, arte é psicanálise e sintetiza isso tudo ali, naquele palco. Resume todas as discussões filosóficas em pouco mais de uma hora de uma forma contundente, impactante, mostrando o quanto o teatro pode revolucionar por fora e por dentro. A sensação de sair do teatro diferente de quando entrei me garante que nesse mundo tão caótico em que vivemos é a arte que nos manterá vivos no sentido mais profundo dessa palavra. E por falar nisso, tem horas (não muitas), em que o português consegue ser mais belo que o francês. Assim, “Je tremble” passou a ser “Estremeço” cuja palavra soa aos meus ouvidos de uma forma muito mais intensa causando sensações que só quem viu o espetáculo pode sentir.  Estremecer significa fazer tremer, abalar, sacudir, causar medo. Esse espetáculo faz tudo isso e vai além.

Saturday, November 24, 2012

Randevú com o homem que mudou a minha vida


Nem sei se o que tenho para dizer do espetáculo de Zé Adão Barbosa vai servir de alguma forma. Mas ficar tentando verificar a utilidade das palavras me parece ainda mais inútil quando se trata de arte. Não li os comentários sobre o espetáculo Coração Randevú. Tive medo que me tirassem as surpresas, interferissem em minhas próprias impressões. E foi assim que cheguei a Casa de Teatro para ver o meu mestre.
Confesso que não há coisa melhor do que ver alguém que a gente admira atuando. Nem pior. Ainda essa semana, comentava que simplesmente detesto o “compromisso” de ter que gostar das coisas. Essa é uma palavra que traz junto uma carga, um peso, um desagrado. Fui ver o Zé porque queria, porque desejava ver em cena nem que fosse uma pequena parte de tudo que aprendi com ele, pois muito antes de dar importância para o seu trabalho como ator, diretor, eu o conheci como professor.
Já contei outras vezes que foi, por acaso (se é que isso existe) que fui parar no teatro, levada por uma colega de trabalho que iria começar uma oficina com ele. Ela desistiu. Eu me apaixonei.  E, hoje, só posso pensar que tenha sido essa paixão comum que fez ele me acolher, me entender, me incentivar. Assim, no final dos anos 90, passei a ver Zé Adão Barbosa todas as semanas durante três anos. E não só a ver. Mas ouvir, entender, visualizar cada gesto, cada palavra, cada movimento. E nunca foi chato, nunca foi repetitivo, nunca foi rotina. Ao contrário, o compromisso da aula me fazia pensar por que fazia aquilo, mas não houve um só dia que não saísse feliz, cheia de energia e de vontade de sugar a vida. E é isso que vemos no espetáculo. Essa intensidade, essa garra, esse desvario que persegue todo o artista.
Disse para o Zé, ao final do espetáculo, que chorei todo o tempo. E ele disse que é porque é um espetáculo que mexe com a memória. E ele não está errado. Mas é porque trazia a minha lembrança a importância de tê-lo conhecido. De já saber de algumas histórias que ele traz para o palco. Pela emoção de ter compartilhado algumas em minha própria casa e por lembrar quem eu era antes e depois de tê-lo conhecido. De voltar a sentir a emoção de vê-lo inteiro, expressivo, exposto, escancarado ao contar a sua vida, ao mostrar como é possível tratar as palavras de forma tão diferente só com a mudança de timbre, de intenção. Tal qual aquela vez em que ele provou por A + B que podíamos dizer “nuvem” com leveza e alegria como também com pesar, bastando para isso imaginar que essa impediria uma ida à praia. Ou a tantas outras em que, acrescentando um “detalhe”, ele fazia crescer, impactar a ação de um ator e foram tantos aprendizes que hoje estão por aí...  
Bem, mas tudo isso pode ser muito pessoal e não convencer ninguém de que Randevú merece ser visto.  Mas isso só para quem acha que Fernando Pessoa não tem nada a nos dizer, quem não se interessa por poesia, por música, por reviver tudo o que nos faz sonhar. Para esses não há encontro possível. Zé Adão leva para o palco o que ele é, o que ele sabe, o que ele não sabe, com a delicadeza e a firmeza que passou pela mão de Patrícia Fagundes e que enfrentou as dúvidas, as certezas, as inseguranças desse artista, a quem eu só posso agradecer pelo resultado, não só do trabalho mas pelo que sinto ela fez pela sua alma.
Minha vida se divide entre antes e depois de cruzar com Zé Adão Barbosa no meu caminho. Permitiu-me resgatar todas as coisas que sempre tiveram valor para mim, provocou uma descoberta da minha essência.  Depois do Zé, fiquei ousada, corajosa, sedenta. Dei destino a minha sensibilidade que, até então, tanto me atrapalhara. Assim, nada melhor do que voltar a ver agora esse homem em cena. Esse que considero meu amigo. Amizade que deixava meu pai, cuja relação fora sempre tão difícil comigo, orgulhoso. Que também impressionara minha mãe, meus sobrinhos (que também foram seus alunos), meu irmão (que já sei foi), ou seja, minha família. Que passou a ser para ele: os Mello, sempre tratados com a delicadeza que ele teve ao entregar a rosa do final do espetáculo para a minha mãe.  Esse é o meu eterno professor, o homem que mudou a minha vida e que, em cena, provocou emoções que só podiam me levar às lágrimas. 

Tuesday, November 13, 2012

Um por todos e todos por Plauto Cruz. E quem pela arte brasileira?


Foi pelo Facebook que fiquei sabendo que Plauto Cruz precisava de ajuda e não estava bem de saúde. Foi também pela rede social que recebi a informação de que os artistas haviam se mobilizado para fazer um show cuja arrecadação seria destinada a ele.  As duas coisas me sensibilizaram de um modo especial.  Afinal, mesmo não sendo tão musical quanto eu gostaria, esse músico entrou em minha vida há uns 30 anos, quando Ricardo Silvestrin me informou sobre suas apresentações no Vinha d’alho, cujo nome só identifiquei quando citado hoje no show.
No programa, 30 músicas previstas. Alguns nomes que eu conhecia muito bem, outros nem tanto. A plateia lotada. Confesso que os primeiros quatro nomes eu não conhecia. Já as músicas... Em 3º lugar, Darcy Alves cantou “Esses moços” e mesmo esquecendo em alguns momentos parte da letra, sua voz e sua interpretação, receberam fortes aplausos. De mim, em pé. Tem sido fácil me emocionar ultimamente.
Cristiano Quevedo cativou a plateia com o seu refrão “Eu te espero, meu coração, vem dividir comigo o chimarrão”. Logo em seguida, Renato Borguetti, mesmo dizendo que não era muito de falar, conta que teve o prazer de dividir o espaço muitas vezes com o homenageado na Cia de Sanduíche, já que morava em frente. No palco, ele mistura piano, violão, flauta, gaita e parece se divertir. Faz um verdadeiro diálogo com as notas, o que parece explicar porque ele não é apenas mais um gaitista. O Clube do Choro também não faz feio e tudo parecia bem até Plauto Cruz aparecer no palco.
Em uma cadeira de rodas, surgia o homenageado, visivelmente debilitado. Já vi minha irmã, que foi ao show comigo, em uma cadeira de rodas depois de ter sido atropelada e convivi com meu pai debilitado por uma doença cardíaca, mas ali o Plauto era o foco. E nem Claudio Britto (um dos apresentadores além de Tânia Carvalho e Juarez Fonseca), nem os aplausos, nem o pessoal da emergência de prontidão, conseguiu minimizar a agonia de vê-lo tão de perto tentando ajustar o microfone ou tocar sua própria flauta. No início, todos apenas aguardavam enquanto ele dizia: “surgiram alguns imprevistos, mas não é nada”. Mas não demorou para que suas tentativas se mostrassem totalmente improdutivas.  Enquanto isso, as pessoas comuns e a imprensa faziam fotos e filmavam. Por alguns instantes me vi a favor da censura. Qual a necessidade daqueles registros?  Doía em mim as tentativas de Plauto de tentar se comunicar ou soprar a flauta.  Minha vontade era subir no palco e protegê-lo, segurar a sua mão, passar a mão na sua cabeça. Onde estavam, afinal, seus amigos? Ninguém podia tentar ao menos ouvi-lo? Só posso imaginar que ele fizera questão de estar ali e que aqueles que lhe são mais próximos sabiam o quanto era importante deixá-lo tentar fazer o que pretendia. Finalmente, Britto tomou a atitude de pedir palmas e alguém, que acredito ser da sua família, pouco depois, recolhia a sua flauta. Finalmente, os paramédicos o retiraram do palco. Ainda ouvimos Plauto dizer: “não era isso que eu tinha planejado”. Ele argumentara que a flauta não estava funcionando, que o microfone não estava bom, mas sua fragilidade parecia a explicação para tudo, tivesse ele ou não razão já que tantos outros músicos reclamariam de algo parecido depois.
Creio que só consegui começar mesmo a me recompor quando Rafael Ferraz disse que Plauto havia mostrado que a musicalidade ainda existia em seu coração que, segundo ele, aliás, é onde aparece pela primeira vez em qualquer músico. Até ver e ouvir Ivone Pacheco, minha cabeça ainda fervilhava com essas imagens. Depois, Lucio Yanel apresentou  El Condor Pasa não sem antes dizer que, durante os 26 anos nos quais morou em Porto Alegre, esteve pela noite próximo de Plautinho, como o chamavam.  E o clima de celebração foi ressurgindo com a interpretação de Noites Cariocas, do grupo liderado por Luiz Machado, com Feijão no pandeiro. O destaque para esse último vem por conta do fato de que eu o conheço. Já quase fizemos um trabalho juntos e sei da sua ligação profunda com a música e seu jeito divertido, o que deve justificar ele continuar exatamente igual há anos quando nos encontramos pela primeira vez. Além disso, é nessa hora que eu fico sabendo que as músicas do Plauto foram registradas por escrito pelo líder do grupo, o que, sem dúvida, é algo vital para todo e qualquer músico. “Eles são os que mais se divertem”, disse a minha irmã, se referindo aos músicos.  O que me fez pensar o quanto isso também é válido para o teatro. Creio que, na verdade, para todo e qualquer artista. 
Bem, e aos poucos, vários artistas foram desfilando pelo palco do Renascença em homenagem a Plauto Cruz. Dizendo palavras carinhosas, de reconhecimento pelo seu talento, pela sua generosidade, sua genialidade. Vi gente tocando violão de um jeito quase divino. Não fosse a necessidade de ter que ajustar os instrumentos a cada apresentação, aquelas vozes e notas pareceriam toques de mágica. Porém, o trabalho incrível dos assistentes de palco eram registros concretos das necessidades técnicas que um show com tantos artistas, tantos talentos exige. E um único holding fazia quase todos os ajustes, demonstrando que entendia de todos os instrumentos e ainda era capaz de se comunicar com os demais apenas por sinais. E assim, seguiram-se as horas em que cada artista, por instrução da produção do espetáculo, foi contando qual o seu vínculo com o homenageado, alguma história que os ligava, o que tornava tudo mais interessante e não deixava nenhuma dúvida da importância desse para a música não só do Rio Grande do Sul, nem do país, mas, simplesmente, da música. Houve mudanças na programação, estabelecida por Pedrinho Figueiredo. E foram muitas apresentações, muitas histórias de todos os voluntários que se engajaram nessa ideia provocada inicialmente por Graça Garcia até chegar a outro músico que também faz parte da minha lembrança de uma mesma época em que eu começava a ganhar a minha independência e sair por aí. Foi a vez de Nelson Coelho de Castro que cantou Cristal 753 e explicou que, quase sem querer, fez a escolha dessa música que era o seu endereço de uma casa no bairro onde eu moro hoje e onde Plauto havia estado. Diferente dos demais, confessou que, às vezes, se irritava com o flautista que atendia a todas as súplicas da plateia para que tocasse alguma música, “o que ele fazia a cada vez melhor, com uma generosidade que o faz um baluarte da cultura de Porto Alegre, um patrimônio da cidade”. Nelson encerrou sua participação dizendo: “Salve Plauto para sempre”.
E de resto foi tudo muito lindo, muito emocionante, muito bem pensado pelos organizadores e pela Secretaria Municipal de Cultura, permitindo que Hique Gomez mais uma vez mostrasse o seu talento ao se apresentar com uma banda formada nos bastidores.  Porém, não posso deixar de concordar com um dos meus poucos amigos músicos, Marcos Ungaretti, que nunca, jamais um artista, quanto mais no nível de Plauto Cruz, deveria ter que chegar ao ponto de fazer um show beneficente a si próprio.  Enquanto a cidade e a imprensa discutem a Copa do Mundo de 2014 e as obras dos estádios, os músicos, em geral, seguem sem espaço para mostrar os seus talentos e sem condições de manter uma vida digna, principalmente, se o corpo não lhes permite continuar fazendo aquilo que mais sabem: arte. Nesse espetáculo tão especial, em tantos sentidos, tive orgulho de ser gaúcha. Tive vergonha de como tratamos nossos artistas. Queria ter apenas chorado com o choro da flauta de Plauto Cruz, mas foram lágrimas reais que molharam meu rosto nessa noite.