Convites comprados há muito
tempo, lá me fui encontrar minha irmã Vera Mello e minha cunhada Vera Beatriz Brasil Mello para ver Charles
Aznavour. De cara, chamou à atenção a
quantidade de gente muito mais moça, inclusive, do que os que estavam na
plateia do Ney Matogrosso. Quando esse
cantor francês, que faz parte da minha vida desde que me conheço por gente,
chega ao palco, não tem como não sentir uma emoção e, enquanto ele canta uma
música que fala de Paris no mês de agosto, eu fico pensando que adoro viajar,
mas estou pronta para sair agora, já, para poucos lugares, sendo que a capital
francesa é o principal deles. E essa noite trouxe a França para Porto Alegre,
mais precisamente para o Araújo Viana onde, como fez Bebel Crosseti, é possível brindar o aniversário do cantor.
Claro que queríamos que ele
cantasse as músicas que ouvimos sempre, mas ele começa por outras que não
reconhecemos. No entanto, não tem como não achar a voz dele linda e ele
performático no palco. Seus gestos, seus deslocamentos, sua postura, demonstram
um domínio que atrai. Mas, enquanto ele canta, eu me pergunto que “gaiola” é
aquela onde está o baterista e logo penso que o Arthur de Faria deveria saber. E,
quando Aznavour começa a cantar Que c’est triste Venise vejo que é em italiano
e, no mesmo instante, lembro da Paola Morais. Primeiro, brinco com a minha irmã
que ele não queria que eu cantasse junto. Depois, me digo que foi para não me
fazer chorar pois aquela história de que a cidade é triste quando nossos amores
são mortos antes mesmo de existir e que nossos amigos partiram acaba comigo. E
a iluminação farta, várias cores fortes usadas no palco, contrastando com o
figurino negro do cantor, me fazem pensar no Fernando Uchoa. E a moça que
correu feliz ao pegar o lenço usado pelo Aznavour depois que ele cantou La
Bohème me traz à cabeça a Fernanda Petit. E enquanto me impressiono com a
competência vocal desse homem de 89 anos (completados exatamente nesse dia) recordo das aulas da Gisela Haybeche. Daí, emendo no Rodrigo
Scolari que está na cidade luz. Já as músicas que falam da passagem do tempo,
da valorização do aqui e agora reverberam com os textos de Clara Corleone e L’amour
c´est comme un jour ça s’en va (o amor é como um dia, ele passa) me traz a
mente Janaina Kraemer e, depois do arrepio que sinto com Hier Encore, só She, a
música escolhida pelo Zé Adão para a minha entrada na última vez em que pisei em um palco, mexe
mais comigo. E junto a todos esses estão também minha mãe, meu irmão que já se
foi e meus amigos franceses. Porque a música faz isso com a gente. Mexe
profundamente com a memória. E todas essas lembranças só são interrompidas pela
maneira interessante que Aznavour conversa com o público, explicando que não
sabe falar português, mas que dirá em francês e alguém do lado poderá traduzir,
pressupondo que a plateia está cheia de francófonos. E o que ele diz? Que já se
perguntou muitas vezes o que é uma canção. Nessa hora, não tenho dúvida de que
é por isso que ele domina o que faz. Além de mostrar simplicidade e interesse,
ele é capaz de ficar por tanto tempo em pé. Eu mesmo sentada já sinto cansaço
por estar na multidão. Porque um show não é uma gravação, não é um vídeo. É
energia que vem, mas que também vai. E esse entusiasmo pela vida me faz pensar
em alguém especial para mim que preciso tirar para dançar. E mergulhada nesse
momento mágico que anuncia que o show está no fim, aproveito para chegar bem
pertinho do palco e observar o quanto Aznavour parece frágil há poucos metros,
mas que ainda carrega esse negócio que faz parte de todo artista e que surge de
um jeito inexplicável diante da plateia que o aplaude com entusiasmo a cada
música e é por essas e por outras que a cada uma delas ele impressiona mais e,
todo o tempo, eu me pergunto se para os franceses estas palavras, essa poesia
que ele declamou sobre a passagem do tempo, a perda da juventude, os amores
perdidos causam o mesmo impacto que eu sinto nos meus ouvidos quando ele diz:
“Il faut savoir qu’on ne sait pas”, o que eu traduziria por: “é preciso saber
que não sabemos”, mas que dito assim parece tão menos intenso do que em francês,
essa língua que me transportou para o outro lado do oceano e me trouxe aquela sensação
de beleza e de aconchego que, fora da arte, só um bom vinho pode trazer ou essa sensação
de que somos todos aqueles que passam pelo nosso caminho real ou até mesmo
virtual como alguns dos que estiveram comigo essa noite no show, ainda que em
pensamento.
Os amigos me convenceram a começar o meu blog. Sou jornalista e mestra em artes cênicas. Sempre adorei escrever e tenho enviado textos para os meus conhecidos com uma certa frequência. Os assuntos? Os mais variados possíveis, mas, ligados as minhas experiências, ao que acho de tudo que está em minha volta. Gostaria de compartilhar com mais pessoas.
Thursday, May 23, 2013
Monday, May 20, 2013
Brecht: o teatro muito além do palco
14º SIMPÓSIO DA
INTERNATIONAL BRECHT SOCIETY – 1º DIA
Ano
que vem estará completando 30 anos que sou jornalista. Durante esse tempo já
participei de muitos eventos, trabalhando ou apenas assistindo e posso dizer
que existem coisas extremamente simples que anunciam a qualidade de qualquer
congresso, simpósio, jornada. Entre estas estão: a forma como somos recebidos
no momento da inscrição e, por incrível que pareça, a beleza e o cuidado com o
material impresso, ou seja, o crachá, a programação, a pastinha, o bloco de
anotações. Parece bobagem, mas minha experiência diz que não é. Se alguém tiver
que escrever o seu nome com uma caneta hidrocor e colar uma etiqueta na sua camisa,
desconfie. Outra coisa é o local do evento. Não importa se é no Brasil ou no
exterior. Se a gente entra em um prédio bacana, bem cuidado, há uma maior
probabilidade da palestra para a qual você se inscreveu valer a pena. Assim,
sabendo que a abertura do Simpósio sobre Brecht ia ser na Reitoria já achei que
era bom me arrumar um pouco. A prova de que estava certa foi encontrar o
coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes cênicas, João Pedro Gil, de
terno. Ele mesmo, quando eu elogiei a elegância, já me cumprimentou dizendo que
não era sempre. No mais, reparei no banner da entrada, nas camisetas daqueles
alunos todos que pareciam muito animados em dar informações.
Também
acho prenúncio de um bom evento a abertura ser curta, apesar da mesa repleta de
nomes importantes da cultura, do teatro, da educação como o Reitor da UFRGS,
Carlos Alexandre Neto, do Diretor do Instituto de Artes, Alfredo Nicolaievsky, de
Mirna Spritzer que já foi parabenizada no começo por ter aceitado o desafio de
fazer parte da organização. E, assim, o tom das palavras iniciais foi de
satisfação em estar ali, com a humildade de quem se interessa por arte. Outro
detalhe que também faz a diferença para um evento internacional é a quantidade
de pessoas na plateia com fones de ouvido. Evidencia de que não se trata de
apenas um convidado para garantir o status do encontro, mas de uma presença
significativa de pessoas que se comunicam em idiomas diversos. Eu mesma pude
ouvir alemão, inglês, espanhol e até auxiliar um dos convidados franceses a
pedido de Susi Weber poucos minutos antes de tudo começar.
Com
a palavra Miguel Rubio Zapata, do Peru. Diretor e dramaturgo do Grupo Cultural
Yuachkani, ele fala sobre a influência de Brecht no teatro da América Latina e
vai citando Enrique Buanaventura, Augusto Boal, Atahualpa, entre outros.
Comenta sobre como o dramaturgo alemão Bertold Brecht inspirou seu próprio grupo
ao propor um teatro que trouxesse à tona as contradições da sociedade, ao
levá-los a observar a vida cotidiana e a se surpreender diante dela. Salienta
os equívocos iniciais das interpretações da proposta de Brecht que levavam a
falar de uma atuação a frio na tentativa de compreender o efeito de
distanciamento. Aprofunda-se na busca de uma definição da presença cênica. O
ator dirigindo-se aos espectadores com consciência plena de estar diante de uma
cena. Enfatiza os elementos utilizados: a iluminação, o cenário, o figurino, os
cartazes. Tudo para reforçar o objetivo do estranhamento. Destaca as propostas
de Boal do teatro fórum, do invisível, do dramaturgo Brasileiro, que, segundo ele, não atingiram apenas a
América Latina, mas os cinco continentes, como o teatro do oprimido,
incorporando a comunidade, fazendo com que o “espectador esteja preparado para
ser ator de sua própria vida”. Cita a mensagem desse pela passagem do dia
mundial do teatro em 2009, destacando o trecho que diz que “ao ver um mundo de
opressores e oprimidos, temos obrigação de reinventar outro mundo. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no
palco e na vida”. Toca na
questão da teatralidade, o que me faz divagar em uma reflexão que me ocorre
seguido: quem sou eu? Essa que senta aqui nessa cadeira escrevendo o que escuto
porque sou jornalista? A que repete mantras na aula de yoga? A que ama
cozinhar? Quantos “personagens” existem
em mim? Mas Zapata me puxa de volta para outro pensamento relevante. “O teatro
não é só um exemplo, mas uma forma de vida.” Ele exemplifica com as
consequências da montagem do seu grupo do espetáculo Galileu Galileu,
apresentado em 1965, que acabou provocando a invasão do escritório pelo
exército. O que me faz compreender melhor o que ele quer dizer com “atitude
Brecht”, pois não se trata de fazer de conta, mas de introjetar os preceitos do
dramaturgo alemão e agir. Ao falar do próprio grupo ele comenta os diferentes
processos coletivos, a necessidade de beber de diversas fontes, de dialogar com
o tempo do seu país, um tempo de violência, de corrupção que faz com que ele
tenha dificuldade de falar sobre o assunto. “Não sou ator, mas teria que
utilizar as técnicas de Brecht em meu próprio corpo para fazer do meu país”. E
ainda sobre o fato de não atuar, Zapata conta que, em 1950, foi convidado para observar
o teatro em Pequim e que, em um determinado momento, disseram a ele que poderia
mostrar seus personagens. Ao explicar que não fazia isso, foi interpelado: “e
como você ensina o que não sabe?”. Aspecto curioso para mostrar as diferenças
do teatro oriental, no qual os mestres modelam seus atores e entregam seus
personagens aos seus discípulos. Dito isso, ele relata os caminhos percorridos
pelo grupo que presenciou um momento histórico de um país em convulsão, com
mortos, executados. Uma realidade que exigiu dos atores uma presença diferente
em cena e para isso eles recorreram às artes marciais, as danças orientais, aos
personal trainners gerando uma confluência, uma energia diferente do cotidiano,
fazendo os atores reconhecer os próprios corpos e colocando-os à disposição. A
violência política mexendo com os pressupostos do trabalho do grupo, criando
importantes desafios, tentando responder a pergunta: o que o teatro pode fazer
nesse momento? Zapata comenta a importância do teatro do seu grupo atrelada ao
surgimento da comissão da verdade em busca de justiça, devolvendo um olhar para
eles como cidadãos, questionando como a violência os afetava, buscando sentido
e pertinência ao trabalho. Ele explica que Brecht sempre foi uma influência
constante, mas não a única. Para encerrar mostra em vídeo cenas de alguns
espetáculos e não esconde os erros cometidos pelo grupo em alguns momentos, levando
para determinados locais propostas que frustram as expectativas. “Pensamos
estar sendo muito inovadores, mas devemos, antes de tudo, escutar a comunidade”.
A
manhã termina e eu saio satisfeita por constatar mais uma vez a importância dessa
arte que tanto me atrai, refletindo sobre o equívoco daqueles que pensam que
dramaturgia é apenas o que está nas telas da TV e que para ser ator basta fazer
caras e bocas. Esse pensamento vai totalmente ao encontro da placa (segurada
por um ator na foto mostrada desde o início no telão), com a frase: “A
burguesia quer do artista uma arte que corteje e adule o seu gosto medíocre”.
Monday, May 13, 2013
Yoga: um vício irresistível
Exercitar o
corpo ou a mente? Em um determinado momento tive que optar pelo segundo. Vivemos uma sociedade que acha isso muito
normal e se falar que o que deixei de fazer foi o yoga, muita gente acharia que
a escolha tinha que ser mesmo essa. Não me questionei mais. Simplesmente
parei. Foi graças à indicação de uma
amiga que acabei nas mãos de uma nova professora. Jornalista, professora de
yoga e que mora e atende na minha rua. Se eu tivesse sonhado não ia ser tão
perfeito. Ah, além do preço da aula ser bem menos do que qualquer um possa
imaginar. Então, mesmo que eu estivesse às vésperas de uma importante viagem,
querendo economizar todo e qualquer tostão, resolvi experimentar. Lembro-me de
tentar saber quem me daria aula. Olhei informações que a própria professora
escrevera em um espaço virtual, vi fotos e conclui que, no mínimo, era uma
pessoa que tinha cuidado com o corpo humano.
Bastou uma
única aula para eu saber que queria voltar a praticar. Por quê? O que essas
posturas têm de especial para mim? Bem, para quem lidou com ansiedade durante
grande parte da vida, foi na yoga que encontrei um lugar, que não era “somente”
um estado de espírito, mas uma calma mental que antes de fazer yoga eu nem sabia
que existia. Quem me conhece sabe que eu gosto de falar muito e posso garantir
que guardo dentro de mim muito mais a dizer. Que minha mente é agitada. Até
hoje me surpreendo como sou capaz de passar de um pensamento a outro em
segundos. O que as pessoas não imaginam
é o grande prazer que eu sinto quando tudo isso se acalma. Quando o melhor
lugar do mundo é naquele tapetinho, respirando profundamente, de olhos
fechados. Quando não sinto falta de nada. Quem não viciaria em viver esse
momento perfeito pelo menos uma vez por semana? Sim, eu sinto dor, às vezes.
Calor, quase sempre. Vontade de sair daquela posição em todas as aulas. Não, eu
não emagreci fazendo yoga. Mas eu me sinto no domínio dos meus movimentos. Claro
que queria poder fazer mais. Mas o meu corpo tem uma história.
Lembro que
ando fiz reeducação postural descobri que tentava ignorar meu corpo da cintura
para baixo devido aos comentários negativos que sempre havia recebido. Então,
não se trata só de abrir e fechar as pernas, sentar ou levantar, mas de “reescrever
essas linhas” e isso, na yoga, acontece sem pressa. E o mais importante para
mim nem são os aspectos físicos, mas essa harmonia interna que vai surgindo sem
que a gente perceba. Esse lugar dentro de nós para o qual podemos sempre voltar
quando o lado de fora está agressivo demais, violento demais, triste demais.
Além disso, ele se reflete nas nossas ações externas, na nossa forma de encarar
os outros, os fatos. E não é algo forçado, fabricado. É intuitivo, natural,
espontâneo. E não tem nenhum dogma por trás, nenhuma obrigação. Ao contrário,
tudo busca o respeito ao nosso corpo, a nós mesmos. E se somar a tudo isso, uma
pessoa doce, afetiva, cuidadosa, que nunca se coloca como dona da verdade, que
tem a honestidade de se questionar sobre a sua própria prática, sobre a sua
competência como professora, que te recebe com um chazinho e te cobre com uma
cobertinha na hora do relaxamento, daí, é simplesmente irresistível.
Thursday, April 25, 2013
Caetano : um amor de ontem?
Eu devia ter desconfiado quando,
depois de comprar o último CD do Caetano só consegui ouvir uma vez. Mas, depois de tantos anos, ficava difícil
acreditar que eu não tinha gostado de suas músicas. Assim, decidi ir ao show.
Araújo Viana lotado. Pessoas de todas as idades. Porém, já estava na metade do
show e eu , sentada, perguntando a mim mesma: será que o nosso amor acabou?
Depois de me conscientizar de que
devia ser proibido, proibir e me encher de vontade de sair por aí sem lenço e
sem documento, será que um dos meus ídolos da adolescência havia seguido o seu
caminho sozinho? Escondido segredos embaixo dos caracóis dos seus cabelos? Ele,
que me apresentou a um estado de transcendência cantando Um índio, que
acariciou meu coração com a suavidade de sua voz com Kalu? Que cantou em
inglês, espanhol e até em francês? Que reforçou minha autoestima toda vez que
cantava Você é linda? Que me deu uma das melhores lembranças da minha vida ao
ver um dos caras mais interessantes da turma cantar Leãozinho prá mim no meu
aniversário? Que idade eu tinha, mesmo? Não lembro. Em algum ano da década de
80. O mesmo que traduziu tantas emoções que a paixão pode provocar cantando
Tantas Palavras... Que me estonteava com demonstrações da riqueza da nossa
língua. Não, eu não conseguia acreditar que todas aquelas músicas que embalaram
por anos tardes, noites manhãs faziam parte do passado. Então, pensei que,
talvez, fosse a distância e fiz questão de me aproximar e, por alguns minutos,
enquanto eu via o seu rosto e o seu sorriso, eu voltei a reconhecê-lo. Mas,
durou pouco. Logo em seguida, vieram àquelas músicas, cujas letras já não
parecem apresentar a mesma poesia, que tem um tom amargo, um arranjo de notas
por vezes arrastado e eu só pensava: não enche. Porém, quando eu já estava
quase desistindo, chegando até a olhar o relógio, veio uma melodia do passado e
outra e outra. E a plateia, que até então, estava praticamente inerte começou a
reagir e eu até dancei na cadeira enquanto ele cantava “de noite na cama eu
fico pensando...”. Eu também pensei. Pensei que não podia jogar fora uma
história tão antiga, uma história que provoca tantas lembranças incríveis, que
me reportam a uma época em que eu descobria o amor, a mim mesma. E, assim, me
dei conta, Caetano, que não, eu não te odeio. É apenas uma crise. Afinal, eu
ainda desejei ter sido uma das pessoas que tocou a tua mão e ainda quero que
seja prá mim que tu cantas “e quero que você venha comigo”. Então, eu peço
desculpas se, nesse momento, não estamos tão sintonizados. Aconteceu algo assim
com Circuladô e Tropicália e, hoje, isso está superado. Assim, volto prá casa,
sentindo que depois de mais de 30 anos, a paixão, talvez, tenha acabado, mas o
amor, esse não se despreza.
Thursday, April 18, 2013
As perdas e as recompensas
Tive vários bichos ao longo da
vida. Muitos gatos, alguns cachorros e meu irmão gostava de ter tartarugas
quando ainda morávamos em um apartamento. Lembro, ainda que vagamente, que
algumas acabavam morrendo de uma maneira meio besta. Uma porta que se abria
enquanto a dita estava em baixo ou coisa parecida. Porém, eu não era apegada a
elas.
Depois quando fomos para uma
casa, a história com os gatos foi diferente. Eles apareciam no pátio e a gente
começava a cuidar, dava comida e quando batizava, pronto! Era nosso. Ainda mais
quando escolhíamos nomes como: Epaminondas da Silva Silvério. No entanto,
muitas vezes, meus pais nos fizeram levar os gatos para a Dona Palmira (uma
dessas casas que acolhiam os bichos). Lembro que era uma choradeira. Minha mãe
fazia longos discursos, dizendo que eles iriam ficar mais bem cuidados, etc. A
gente esperneava, mas, não havia jeito. Lembro, particularmente, de um gato
cinza que eu e minha irmã achamos na rua, enquanto andávamos de bicicleta, que
mais parecia um rato. Mas a gente resolveu que levaria para casa e o gato acabou
crescendo e foi ficando lindo, com alguma mistura de Angorá. Irreconhecível. Depois,
tivemos um cachorro. Não lembro como ele foi parar lá em casa. Já que minha mãe
e meu pai nunca foram muito interessados em animais. Todos eram apaixonados
pelo Toby, que latia bastante, fazia um furdunço na vizinhança. Acabou sendo
envenenado, provocando uma choradeira na família por vários dias. Era meio
ridículo até. A gente ficava bem, conversava sobre, dali a pouco, nos olhávamos
e voltávamos a chorar.
Passamos muitos anos sem querer
ter um cachorro de novo. Depois, quando eu já tinha meu próprio dinheiro,
resolvi que meu sobrinho que morava conosco deveria ter um cachorro e comprei
um Cocker, cor de mel, meigo que só vendo. Mas ele adoeceu e eu tive que correr
para o veterinário que disse que era Sinomose, que não tinha volta e seria
melhor eu me despedir do cachorro ali mesmo.
Chorei horrores, mas ouvi a voz do profissional e tive que dar a
notícia. Foi um drama. Afinal, um dia o cachorro estava ali. No outro, não
mais. Assim, essa tentativa nos afastou
da ideia de ter bichos de novo por muitos anos. Até que esse mesmo sobrinho
acabou trazendo para a casa uma cadela, batizando-a de um nome francês,
provavelmente para amolecer o coração da minha mãe e, mais tarde, um gato que,
durante um bom tempo, ficou escondido no quarto dele, pois ele sabia que havia
uma resistência a novos bichanos. Afinal, todos sabemos, eles exigem cuidados.
Anos depois, quando meu sobrinho
se mudou, começou levando os bichos com ele: a Charlotte e o Bernard, um gato
branco lindo. Senti a ausência dos dois, mas sabia que estavam sendo bem
tratados e podia visitá-los sempre que quisesse. Quis a vida, porém, que eles
acabassem voltando, assim como meu sobrinho, para casa. Isso fez com que minha
mãe, vendo que havia certa negligência de nossa parte, incluísse em suas
tarefas diárias dar comida e água para os animais. Para mim, sobrava a parte de
dar banho e levá-los ao veterinário eventualmente. Muito pouco para o benefício
de ter uma cadela que festeja todas as entradas que eu fazia na casa. Não havia
uma única vez que ela não me recebesse com a maior demonstração de alegria. Eu,
que achava que só gostava de cachorros pequenos e peludos, não tinha como não
me apaixonar pela forte personalidade da Charlotte que parecia encantar a
todos. E, foi assim, que o Dick entrava em nossas vidas. Primeiro, apenas
fazendo companhia para a cadela em suas corridas lomba acima e lomba abaixo,
usufruindo da liberdade fora do portão. Depois, fazendo plantão na frente da
casa todos os dias, inclusive quando chovia. Dia de festa, não raro, ele
acabava entrando com algum convidado, tentando se misturar. Mas foi um atropelamento que abriu as portas
definitivamente para a sua nova morada. Ao vê-lo machucado, minha mãe tentou
localizar o dono e descobriu que ele não tinha ninguém que assumisse
verdadeiramente esse papel. Ele recebia comida? Sim. Tinha o que beber? Também.
Mas, só. E, assim, sem entrar nos pormenores de toda uma saga do que era para ser
uma guarda compartilhada, assumimos definitivamente o Dick. Em troca, ele fazia
questão absoluta de demonstrar toda a sua alegria de não ser mais um “homeless”
como nós costumávamos dizer nas muitas vezes em que ele dava as suas escapadas
para fazer uma ronda na rua que havia sido seu habitat por tantos anos. Mas,
não se enganem, não havia dúvidas sobre a sua felicidade em ser chamado de
volta, pois ele agora tinha a possibilidade de viver nesses dois mundos em que
os vizinhos passavam para dar olá e nós “conversávamos” com ele cada vez que
ele nos recebia.
Dick latia para tudo e para
todos. Isso fez minha irmã apelidá-lo de “guardião”. Logo que o adotamos não
era fácil dormir com seus latidos ininterruptos. Muitas vezes, tive que abrir a
janela para mandá-lo calar a boca. Bem, mas, aqui estou escrevendo detalhes de
coisas que qualquer pessoa que tem um animal já sabe: um animal exige cuidados,
mas nos dá muito mais em troca. Entre tantos momentos em que me senti querida
pela manifestação de alegria do Dick, ficou ainda a compreensão de que existem
muitas formas de afeto e, foi cuidando dele quando a idade começou a provocar
problemas mais sérios de saúde, acordando só para ver como ele estava,
alternando coisas que poderiam deixá-lo mais confortável, que eu, finalmente,
compreendi o jeito de me amar dos meus pais.
Não faz muito tempo, nós já
preocupados com as condições que a idade trazia para o Dick, o vimos ser
agredido por um cão da rua, que o abocanhava e o largava. Eu, entendendo que
ele não teria condições de resistir, sem saber o que fazer, corri em direção ao
cão aos gritos e consegui salvá-lo. Ele levou pontos. Exigiu cuidados
especiais, mas voltou a latir como sempre e a dar suas escapadas sempre que
podia. Voltando sempre com a mesma satisfação com que saía. Por isso, foi
preocupante, vê-lo nesses últimos dias tão abatido. Já não tendo o ímpeto de
explorar o lado de fora, buscando ficar próximo de mim quase todo o tempo. Só
que já não era tão simples escolher como tratar essa insuficiência respiratória que
agonia quem está em volta e deve ser terrível para quem a sofre. Fiquei
tentando evitar deixá-lo nas clínicas, pois, achava que o melhor era ele estar
entre as coisas e pessoas que conhecia. E, muitas vezes, quando ele estava em
silêncio, achavámos que já tinha chegado a sua hora. Mas, ainda na noite
passada, quando, finalmente, a falta de ar deu uma trégua e ele dormiu pensei
que tinha sido seu último suspiro. Aproximei a mão e ele levantou a orelha,
como se dissesse: não, ainda não.
Então, hoje, dia em que o Dick,
definitivamente, se foi, acabei derramando muitas lágrimas. Tendo uma reação
maior do que eu imaginava já que enfrentei da melhor maneira possível a perda
do meu irmão, do meu pai, da minha tia, de amigos. Provavelmente, fazendo uma espécie de catarse
de todas essas ausências, talvez lastimando o vazio que a partida do Dick deixa
no pátio e em nossas vidas. Mas, hoje, eu vou, tentar, finalmente, dormir
direito, pois sei que ele se sentia acolhido, que era grato pelo carinho que
recebeu. Tomara que eu consiga honrar o guerreiro que suportou tanta
dificuldade respiratória, a pouca audição, a pouca visão, e outras coisas que
eu jamais vou saber, só para me dar o prazer de tê-lo por perto. E, para quem acha que é melhor se poupar do
trabalho que um bicho dá ou prefere evitar as emoções que a perda pode
provocar, saiba que eu não tenho nenhuma dúvida: se eu pudesse voltar atrás
faria tudo de novo, pois receber o afeto de um bicho mais do que compensa,
recompensa.
Wednesday, April 10, 2013
Anna Karenina: Uma nova linguagem cinematográfica para um clássico da literatura
Bem feito para mim. Não gosto de
ler nada antes de ver um filme. Nenhum comentário, sinopse. Crítica, muito
menos. Mas, ouço rumores e foi assim que fui parar no cinema para assistir Anna
Karenina. Embora esse nome tenha estado presente durante grande parte da minha
vida como uma personagem do livro de Tostoi, nada sabia sobre ela. O livro está por aqui em uma das prateleiras,
mas é só. Sendo assim, os primeiros minutos do filme foram de puro
estranhamento. Eu adoro cinema. Tenho o mesmo sentimento pelo teatro, mas
quando essas duas coisas se misturam não é assim tão fácil de absorver. Woody Allen
gosta de fazer isso, mas enquanto o assunto é comédia, minha aceitação é mais
tranquila, sem resistência, o que não é o caso.
Se partirmos do princípio que
para ser teatro é preciso corpo presente, troca entre atores e plateia, não é
disso que eu estou falando. Mas então porque a gente vê como teatrais movimentos
que não correspondem aos fatos? Portas que se abrem levando para lugares
improváveis, gestos, movimentos totalmente fora do cotidiano. Também não dá
para ignorar que muitas cenas são feitas no ambiente de um edifício teatral,
com abertura de cortinas e tudo mais. Junta-se a isso uma fotografia de
contrastes entre cores, uma luz que dá foco artificial em algum objeto ou
personagem, contextualizando a cena e eu reconheço elementos cênicos ali. Daqueles
que transformam uma cena de capinar, de trabalho braçal uma das imagens mais
poéticas que já vi.
Porém, não se iludam. Eu estava
dizendo que fiquei achando tudo muito estranho no início. E aqui essa palavra é
sinônimo de incomodo, contrariedade, quase desgosto, não o contrário. E vai
assim até que, sabendo que ainda teria um bom tempo de filme, decido relaxar.
Ah, a proposta é essa. Então, vejamos o que posso aproveitar dela. E é a partir
daí que eu saio daquele momento de me remexer nas cadeiras para começar a
pensar: nossa... isso foi ousado, intenso, Aaron Taylor-Johnson nos
convence de que não é nada difícil perder a cabeça por ele e mostra que, apesar
de ter apenas 22 anos, “o garoto de Liverpool” já está preparado para atuações
mais audaciosas. Nem vou entrar no mérito do resto do elenco, mas tem muita
gente boa aí envolvida.
O diretor Joe Wrigth deve ter
tido um trabalho imenso em orquestrar cada cena. E a palavra é essa mesma, pois
a gente percebe que é tudo milimetricamente previsto. Não falta nada. Nada
excede. Acabo saindo do cinema com a opinião transformada sobre essa “linguagem”
que o filme resolveu criar e eu já deveria saber que, não é porque é imagem que
é mais importante ou mais verdadeiro do que a impressão que nós sentimos. Então,
o meu conselho é: esqueça aquilo que você acha que sabia e esteja aberto para o
encontro inusitado entre o teatro e o cinema e divirta-se com os caminhos da
arte no século XXI.
Monday, April 01, 2013
Natalício Cavalo: a vida em forma de espetáculo
Até ver Natalício Cavalo eu achava que “peça” e “espetáculo” eram
sinônimos. Não acho mais. Quando uma peça é capaz de nos envolver nos primeiros
minutos, apresenta atores com um mesmo nível (alto) de interpretação que cantam,
dançam, trocam de papéis, estamos falando de um espetáculo. Mas, para ser
sincera preciso dizer que sempre que vejo Heinz Limaverde no palco ele me conquista.
Então, assim que ele se dirige ao público e começa a dizer o que vamos ver e
fala do jeito mais tranquilo e doce que o protagonista vai morrer, eu já fico
impressionada. Depois, quando todas as luzes se apagam, eu seguro a folha que
me entregaram na entrada, tentando lembrar o que fiz naquela tarde, nas últimas
semanas, vou sendo conduzida por eles a uma “regressão” da minha própria existência.
Uma coisa é certa: eu não estava preparada para a beleza dessa história contada
pela Cia Rústica e dirigida por Patrícia Fagundes.
Já havia escutado comentários de que
o espetáculo falava da morte. Não para mim. Nem para eles. Como consta no
programa: é uma comemoração à vida. A partir de alguém que, eles mesmos dizem,
não é famoso, nem teve uma vida perfeita ou fez coisas extraordinárias. Ao
contrário, é sobre as experiências de um ser humano qualquer que se questionou várias vezes sobre sua
existência, que “desperdiçou” tempo se envolvendo com várias mulheres, gerando
várias outras vidas. Que, se não era um mau caráter, jogava, bebia, perdia mais
do que ganhava dinheiro. Então, o que tem de especial? O que me fez ir às lágrimas?
Talvez porque eu tenha ido ver a peça na
mesma semana em que vi duas borboletas e me perguntei se elas teriam noção de
que em pouco tempo estariam mortas, mas
que ainda bem que elas estavam ali para embelezar o mundo. Ou porque tenha sido
no momento em que a Xuxa fez a mesma idade que eu e nos 50 anos dela tornou-se
conhecida em todo o país, construiu uma fundação, ajudou milhares de pessoas,
enquanto eu... Ou então, porque meu pai, que se expressava tão pouco, ouvia
música gaudéria o dia todo. Ou ainda porque meu irmão tenha vindo almoçar aqui
em um Domingo e partido para sempre naquele mesmo dia depois de um mal-estar. Talvez
também porque, quando eu tinha 30 anos, recebi um diagnóstico de uma doença
rara e incurável que me colocava em risco de derrame cerebral e ataque
cardíaco. Quer dizer, é sobre isso que a
peça trata. Sobre a vida, sobre a morte. Sobre os sonhos, sobre as perdas. Sobre
o fato de sermos todos sobreviventes.
É forte a presença dos elementos
da cultura gaúcha, a minha cultura. Cavalos, botas, chapéus... Assim como a
presença das mulheres que não são colocadas aqui em segundo plano. Ao contrário.
Destacam-se pela beleza dos gestos, personalidade, sensibilidade. E assim, palavras,
misturadas a um figurino impecável de Daniel Lion, imagens de fotos, jornais,
cartas, vários elementos jornalísticos, tudo isso me faz gostar ainda mais e
sair dali procurando confirmações de que Natalício Cavalo de fato existiu (ou
não). Mas não é preciso ser dessa área para achar impressionantes esses
registros, aparecendo assim, em grandes telas que também fazem um jogo de
sombras do próprio ator no palco, ora preenchendo a foto, ora servindo de fundo para o personagem. De
qualquer forma, poético. Enquanto, no palco, os atores, Heinz Limaverde, Lisandro Belloto, Marcelo
Mertins, Marina Mendo, Priscilla Colombi, Rossendo Rodrigues, dão vida às
palavras escritas. Há uma cronologia, mas também há cortes. Há um roteiro
cheirando a fantasia, entremeado de citações, de datas. Há a explicação técnica
do que se trata uma gineteada. Há um tom dramático. Há partes que provocam o
riso. Mas mais do que tudo, há os corpos dos atores fazendo movimentos
integrados, deslocando partes do cenário de Rodrigo Shalako, nos levando a
filosofar sobre o tempo, o envelhecimento.
Tudo vai acontecendo de um jeito
sincronizado com um ritmo que vai na contramão do tema pesado que, a princípio,
está sendo tratado. E não dá para
ignorar, trilha sonora de Arthur de Faria, introjetada com naturalidade,
costurando os atos que nos perturbam pela sua simplicidade. Afinal, sabemos que
eles estão se referindo a Natalício Cavalo, esse “marginal do sucesso”, mas
podia ser meu pai, meu tio, eu mesma. Ah, e quase ia esquecendo a figura da morte.
Essa que aparece em tantas cenas, com máscaras, de um jeito quase divertido e
que negocia com os atores em cena, mostrando que ela não tem pressa, pois,
afinal, todos sabemos, é só uma questão de tempo. Aliás, por falar nisso,
sabendo que “uma vida não cabe no tempo de uma peça”, vários eventos da
existência de Natalício Cavalo são citados um atrás do outro e nos levam para
uma forma simbólica de vivenciar sua morte. E seria triste, se ele mesmo não
aparecesse falando sobre o que houve, sem a angústia de toda a sua vida, mas
querendo deixar algo mais que não permita esquecê-lo. Mas já não era mais
necessário. A Cia Rústica me fez crer que Natalício Cavalo de fato existira e
sendo um personagem que relembra toda e qualquer pessoa, tanto ele como o espetáculo
são inesquecíveis.
Saturday, March 16, 2013
Ney Matogrosso: esse eterno sedutor
Um
pequeno comentário nas redes sociais sobre o show de Ney Matogrosso não é
suficiente para relatar esse momento. Até porque era minha primeira vez. E como
sempre acontece nessas ocasiões, a gente nunca sabe o que esperar. Que eu não
leio a respeito antes para não perder a surpresa, todo mundo já sabe. Ver uma
lista de músicas? Comentários de pessoas que já assistiram? Ele mesmo dizendo o
que pretende? Não vejo por quê. Afinal, é fácil saber que nada vai ser igual.
Decidi
ir ao show meio por acaso. Minha amiga Betha Medeiros colocou uma foto do seu
ingresso no Facebook e eu pensei: gostaria de ir. Providenciar os ingressos não
foi assim tão simples. Para tirar minhas dúvidas da compra pela internet, fiquei
pendurada no telefone por mais de dez minutos. Acabei levando o cartão de
crédito errado para retirar meu ingresso e fui obrigada a retornar no ponto de
venda lá no Moinhos de Ventos. Detalhe: eu moro na zona sul. Mas, tudo bem. Sabia que quando visse o Ney
esqueceria.
O
lugar era ótimo. Muito próximo ao palco e a última cadeira da fila, o que me
permitiria levantar a qualquer momento. E essa foi a minha vontade durante todo
o show. Porém, ninguém, em uma plateia lotada no Araújo Vianna, fez esse
movimento. E olha que o espaço permite. É algo que já tinha me conquistado em
shows anteriores: a informalidade. Pessoas bebendo, comendo, dançando. Isso sem
prejuízo da visão ou da audição dos demais. E eu, confesso, achei irresistível
aquela figura sensual, dançante no palco. Não esperava que Ney viesse com um
figurino de roupas colantes, penas, brilhos, embora tenha sido assim que ele me
conquistou há quase 40 anos. E se ele cantou poucas músicas daquela época, todo
o repertório ficou lindo com o seu jeito de dançar e suas provocações.
Dizer
que o corpo desse homem de 72 anos é perfeito seria exagero. Mas entre homens e
mulheres não há quem não fique de queixo caído quando ele se movimenta. E é sua
audácia, sua imagem autoconfiante que atrai. Ney Matogrosso é um leonino que
tem o sol na barriga, quer dizer, naquela área chapada e musculosa que ele exibe
ora apenas levantando a blusa ora com um figurino que a expõe completamente. Aliás,
um ponto forte são suas roupas mínimas, suas botas acima do joelho que ele põe
e tira diante dos olhos da plateia.
E
como se não bastasse ser impressionante Ney no palco, ele usa vídeos que
ilustram suas letras e também não teme colocar suas imagens ainda jovem. Parece
não ter a mínima preocupação com as possíveis comparações. Provavelmente, servem
de artifício para permitir que ele aguente por quase duas horas diante de tanta
gente sempre em movimentos e gestos insinuantes. Como aquele de escorregar
pelas escadas em direção à plateia enquanto cantava repetidamente: “beija-me, beija-me”...
ou quando estica-se no chão e, apoiado em apenas um braço, segue cantando
A
voz? É tudo aquilo que o tornou famoso, que encanta as plateias por onde passa,
com seus agudos e sua interpretação incomum. E de lambuja a gente ainda ganha
aquele olhar penetrante que eu poderia jurar, bateu no meu e me levou a querer
dançar com ele. Assim, quando chega o fim, ele canta a música de Vitor Ramil, Astronauta
lírico, bolhas de sabão caem do teto e ninguém quer que termine.
Na
saída, todas aquelas pessoas, das mais diferentes idades, comentam praticamente
a mesma coisa: a performance desse que, sem dúvida, é um homem com H e cujas
imagens vão me servir para aqueles dias em que o desânimo se aproxima. Afinal,
a vida é breve e “já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, mas
antes quero encará-la com muita garra, coragem e ousadia, ou melhor, mais Ney.
Thursday, February 28, 2013
Sempre de malas prontas
O destino: Florianópolis. Com
passagens compradas já há algum tempo e hospedagem garantida, na véspera, minha
mãe diz que não conseguiu dormir a noite preocupada com os incêndios dos ônibus
que acontecem na cidade. Verifico com amigos que estiveram e outras que moram
por lá e elas me dizem que, apesar de ser uma situação delicada, não há o que
temer. Assim, começo a minha viagem com uma amiga que nunca havia andado de
avião. Eu viajei pela primeira vez aos
30 anos. Depois disso, não parei mais. Se tenho medo? Bem, minhas pernas
bambearam a caminho do primeiro avião que peguei na vida. Agora, já contabilizo
duas viagens sobre o oceano e muitas decolagens e aterrissagens. Então, lá
estávamos nós, dentro do avião, felizes por conseguir fazer algo juntas. Depois
dos avisos de que iríamos decolar, começam a fechar as portas dos bagageiros e
a pedir que as poltronas fiquem na posição vertical, etc, etc. Um dos
comissários aproxima-se de uma senhora idosa no lado oposto ao nosso, duas
filas à frente, que está de olhos fechados. Cutuca ela e diz: senhora..... Ela...
nada. Ele cutuca um pouco mais forte. Ela... nada. Na terceira cutucada, dá
para reparar que ele já está ficando um tanto angustiado. A senhora acorda e os
dois se surpreendem. Eu e minha amiga nos olhamos e rimos. Havíamos pensado a
mesma coisa. O que não seria um bom começo. Mas, no fim das contas, o voo é
bastante tranquilo.
Assim que chegamos, vamos para a
parada de ônibus. Afinal, havíamos planejado uma viagem econômica. Não demora,
começam as ofertas de transporte. Quando consideramos que o preço vale a pena,
entramos em um táxi com mais dois passageiros. O motorista não demora para falar sobre várias coisas ruins da cidade,
enquanto faz um zigue-zague maluco por entre os carros, numa velocidade assustadora.
“Por mim, explodiria essa ponte!”, disse ele enquanto olhávamos admiradas para
a Hercílio Luz. Argumenta que o dinheiro
gasto até agora para restaurá-la era um absurdo que daria para ter feito várias outras pontes. “Tinha um
japonês que disse que poderia trazer uma ponte inteira, igual a essa e colocar
aqui por muito menos, mas não quiseram. O japonês acabou aparecendo morto, isso
sim”. Frustrante ser recebida assim tendo
ainda em mãos o folheto turístico dizendo: “bem-vindos ao paraíso”. Felizmente,
o trajeto era curto e não demorou muito chegamos ao nosso hotel. Nossa aventura
pelo solo (?) catarinense estava apenas começando.
Devidamente hospedadas, sugiro
começarmos pela Barra da Lagoa. Uma praia que eu havia ido há poucos meses. Aproveitamos
o mar, a paisagem e vemos muitas mulheres de óculos dentro d’água. Na hora da
fome, não achamos tão simples achar um lugar barato. Mas, ao encontrarmos, os
lanches são muito bem feitos e somos muito bem tratadas. Com atenção e
gentileza. E será assim por toda a
viagem. Seremos chamadas de “queridas” várias vezes por pessoas de ambos os
sexos e das mais diferentes idades. Logo percebemos que é um hábito, mas isso
não quer dizer que, por isso, não seja extremamente agradável. Outra coisa que
nos alegrou foi o sistema de transporte, os terminais. Graças a eles logo
entendemos como ir de um canto a outro. Tivemos a chance de ver até uma das
vendedoras de passagens falando inglês com um casal de turistas e, quando
perguntei se ela sabia, ela disse que não, que aprendeu ali mesmo falando com
os estrangeiros que passam. Devido ao intenso calor, sentimos falta, porém, de
ar-condicionado nos ônibus.
Na primeira noite, saímos a pé. Querendo
informações sobre um lugar para comer, escolho uma senhora que atravessava a
rua. Ela para e começa a nos falar sobre de onde vinha, sobre a cidade, sobre
suas crenças, sem tomar fôlego. Enquanto minha amiga tenta ser gentil, eu
espero uma brecha para encerrar a conversa. Ela acaba, inclusive, nos dando o
seu endereço. Não seguimos a indicação dela, mas sua longa conversa e sua
tranquilidade a transforma em um dos personagens insólitos da nossa viagem. Outro,
acabou sendo um senhor que veio ao nosso encontro quando já aguardávamos o
ônibus para o centro em Jurerê Internacional. Uma praia de águas calmas que nos
permitiu um dos melhores banhos desses dias. Um breve passeio pelo calçadão
onde encontramos os doces de Pelotas, cidade da minha amiga, e nos dirigimos à
parada. Foi a única vez em que o ônibus custou para chegar. Já estávamos ali há
algum tempo, admirando as casas chiques em volta, quando um senhor aproxima e pergunta
se sabíamos onde ficava o Banco do Brasil. Não sei nem como a conversa começou.
Fato é que se tratava de um biólogo que tinha também uma formação em história e
ele nos dá uma aula sobre os Incas e um desbravador de terras estrangeiras que
partiu de Santa Catarina em direção a Machu Picchu antes mesmo de Francisco Pizarro.
O senhor, que chegara sem fôlego, distraiu-se conosco demonstrando seu
conhecimento.
Sem constrangimentos, nem medos,
vemos as pessoas se aproximarem criando durante toda a viagem uma sensação de segurança e tranquilidade. E é
assim que chegaremos a Campeche. Praia onde as vitrines nos atraem logo de cara
e conseguimos encontrar produtos com preços acessíveis mas, talvez o mais
importante: alguém que nos atende como há muito tempo não acontece comigo em
Porto Alegre. Quanto ao mar, é exatamente como eu me lembrava. Muito agitado.
Chega a ser engraçado, pois cada onda vem de uma direção diferente mas, mesmo
para quem tem medo como eu, é possível entrar na água. Estamos lá aproveitando
o sol quando chega um desses ambulantes que circulam pela praia oferecendo
coquetéis, caipirinhas e sucos. Não resisto. Ao me aproximar, vejo que quem
atende é um cara com pele morena, olhos verdes e um sorriso que mais parece um
teclado, como dizia a minha avó. Retorno com a bebida na mão e comento com a
minha amiga que gostaria de encontrar o Zulu que acabara de esbarrar em alguém
tão bonito quanto e nos divertimos olhando ele servir os drinks, conversar com
as pessoas. Penso no quanto ele ganharia se fosse descoberto, mas depois me dou
conta que, talvez, esse não seja o seu desejo, que ele poderia adorar estar ali
mesmo, naquela vida, sendo admirado apenas por clientes como eu.
À noite, saio na busca de um
lugar que havia pesquisado na internet antes mesmo de ir. Vi fotos, o local no
mapa, tudo. Assim, posso me deslocar em uma cidade que pouco conheço e ir a um
lugar onde nunca estive como sempre soubesse onde fica. Acabo tendo uma sensação
de reconhecimento apesar de nunca ter estado no lugar. A virtualidade faz isso.
Claro que pela web não tem como prever que os garçons serão tão atenciosos.
Escolhemos o prato feito por R$ 15,00. Foi a única refeição completa que
fizemos em cinco dias. Arroz, feijão, frango, salada, batatas e ovo fritos.
Tudo muito saboroso e com uma apresentação impecável. Ah, e tinha ainda música
ao vivo. Pena que chegamos ao final da tarde e acabamos não aproveitando tanto
a movimentação do lugar que deve acabar ficando bem cheio.
Dia seguinte, minha ideia era ir
a Praia Mole. Ao lermos as características já não temos tanta certeza: “corpos
sarados desfilam na areia...” Digo para minha amiga que será apenas por um dia
que invadiremos esse espaço. Fizemos bem. Na verdade, como toda praia tinha de
tudo, mas de vez em quando aparecia uns corpos masculinos que pareciam ter
passado no photoshop. Há tempos não via tanta “barriga tanquinho” por metro
quadrado. E quando menos esperávamos passa um carinha com uma menina que parecia
sua filha que desbancava o Rodrigo Santoro. No mais, a diversão era a narração
do campeonato de surf. Intrigadas em como os participantes conseguiam escutar
as ordens lá de dentro do mar e obedecer. Coisa que muitas outras pessoas não
faziam em relação às ordens dos salva-vidas para não ir tão para dentro.
Resultado: o salvamento de um casal. Minha amiga estava indignada. Eu, havia
ficado surpresa com a capacidade dos dois de nadar de costas, boiar, tentar
várias alternativas até que um surfista chegasse para ajudá-los, antes mesmo
dos profissionais da área. Na hora de ir embora, passamos por um grupo de
senhoras idosas na frente do pórtico que valia uma foto. Elas não estavam nem
aí para os tais corpos sarados. Era Domingo, dia de sol. Ou seja, engarrafamento
garantido. Para nossa sorte o ônibus não demora muito a chegar. De volta ao
hotel, com coisinhas para comer e aguardar o Oscar. Porém, o vinho nos faz
dormir muito antes.
Chega o dia do retorno. Teríamos
que sair do hotel às 14h. Difícil curtir a praia cuidando o relógio. Decidimos
pagar mais meia diária e esquecer da vida. Foi ótimo. Teria sido uma pena não
ter curtido a Praia da Armação. Calma com água limpa e sem ondas. Uma paisagem
de cinema. Perfeita para despedida. Mais uma vez, os ônibus parecem estar a
nossa disposição. Sem cuidar os horários, acertamos em cheio a hora de nos
deslocarmos. A não ser pela ida ao aeroporto em que concordamos em ir bem cedo
para não correr o risco de não chegar a tempo. Já sei por experiência anterior
que se perdêssemos o voo promocional custaria muito caro para conseguir outra
passagem e toda a economia que fizemos iria por água a baixo.
No aeroporto, a chuva começa. E
não uma chuvinha qualquer. Uma tempestade de raios e trovões. Não faço nenhum
comentário para não assustar minha amiga, mas ninguém gosta de voar assim. Já
passei por isso, mas não recomendo. Não deu outra. Turbulência. Nada que me
deixe nervosa. Aprendi a não dar muita importância e depois de vários dias fora
da rotina, andando para tantos lados, o cansaço é maior do que o medo. Para
contrabalançar, o piloto faz um poso perfeito e desliza nos solo gaúcho.
Chegamos. Despedimo-nos já falando das próximas viagens. É, acho que agora
minha amiga me entende: viajar vicia.
Friday, February 01, 2013
Django Livre - A violência da arte de Tarantino
Como sempre fui para o cinema com muito pouca informação sobre o filme. Mas pelo menos duas mereciam a minha consideração: estava na lista do Oscar e meu sobrinho João Mello havia gostado. Mas não sabia que tinha Jamie Foxx no elenco, muito menos Di Caprio. Tinha visto comentários muito favoráveis à trilha sonora no Facebook. Então, vou começar por essa. Até porque na primeira música já dá para entender porque as pessoas elogiavam. Durante toda a película, as músicas não passam despercebidas. Não são pano de fundo. Elas surgem salientes, em destaque e nos divertem, desde o início, com a competência em contribuir para nos colocar no clima. Já no primeiro acorde, na primeira cena fui fisgada para dentro da tela. Devo dizer, porém, que Django Livre não é exatamente o meu tipo de filme. Tem cenas, como a dos cães e da luta que eu, praticamente, não consegui olhar, tamanha violência, apesar de tentar manter a consciência de que não era real. Aliás, não sei se posso fazer esse tipo de comparação, mas há, nesse filme, um tipo de distanciamento provocado. Algum elemento que nos diz todo o tempo que se trata de ficção, como as produções teatrais de Brecht. Assim mesmo, tem horas que, para mim, é difícil de encarar. Mas, ao mesmo tempo, dei risada em várias cenas e eu acho que essa é uma das características mais interessantes do Tarantino. Esse humor agressivo, irônico, associado a imagens sanguinolentas, torturas, judiarias. Cada uma delas elaboradas tão cuidadosamente, com um senso estético tão perfeito que, mesmo que a gente fique arrepiada, vale uma espiadela. É preciso ser um gênio para fazer isso sem cair no ridículo, sem exagerar. Somam-se a isso interpretações incríveis como a de Christoph Waltz, no papel do alemão Dr. King Schultz, caçador de recompensas, que desencadeia o enredo. Gestos e falas tão precisas que nos levam a emoções autênticas e a reações as mais surpreendentes. Não importa quantas pessoas ele mate no filme, a gente acaba torcendo por ele. Quanto à Foxx, já tinha me deixado boquiaberta em Ray e segue provando que não há papel que ele não possa fazer. Assim, como Di Caprio, que ficou muito tempo fazendo personagens açucarados, mas que, desde o início de sua carreira (quando ele fez um personagem coadjuvante de um menino excepcional, cujo nome do filme nem localizei em sua biografia), já tinha mostrado que é muito mais do que um rostinho bonito. No mais, todo o elenco impressiona e dirigido por Quentin Tarantino fazem cenas extremamente difíceis. Não reconheci Samuel L. Jackson, apesar de ficar fascinada pelo personagem do mal (?) que ele faz, Stephen. Kerry Washington, que ainda não identifico com facilidade, aparece com toda a sua beleza. Todos os demais, e são muitos, ótimos em seus personagens, em suas atuações. E, apesar de todo sangue derramado, o filme, como já disse, me fez rir, principalmente pela forma debochada como Tarantino nos conta toda uma época. Sim, porque apesar dos exageros quase caricatos, a história está lá, no roteiro elaborado por ele. Os preconceitos, a crueldade. Além disso, a mim, parece que nenhum detalhe escapa. O figurino é impressionante. A fotografia também merece destaque. Seja nos detalhes ou nos planos abertos há um jogo de luz e sombra que não é comum. Por tudo isso, mesmo eu que não sou fã de filmes violentos, saio do cinema convencida de que vale muito a pena, que, mais do que um filme, o que assisti foi uma obra de arte, ou melhor, de muitas artes: musical, plástica, cênica e, é claro, cinematográfica.
Monday, January 28, 2013
O dia em que o coração do Rio Grande parou
Sempre morei em Porto Alegre.
Adoro a cidade. Quando escolhi o jornalismo sonhava em ser correspondente
internacional, mas não pensava em morar em outro lugar. Em verdade, só tive uma
oportunidade em Santa Catarina para exercer fora a minha profissão. Não quis.
Mas, era comum eu dizer que se tivesse que morar no interior seria Santa Maria,
conhecida como o coração do estado. Não conhecia muito a cidade, mas, nas
poucas vezes em que fui, percebi uma energia boa no ar. A juventude, associada
ao desejo de conhecimento, era uma mistura que tornava o lugar especial. Muitos
eventos culturais, muitos cursos e, é claro, muitas festas, muitos bares
charmosos e agradáveis, locais de discussão dos mais diversos temas e diversão.
Por tudo isso, tinha ainda mais
interesse em acompanhar desde cedo as informações sobre a tragédia deste Domingo, 27.
Como tenho hábito de acordar e ir olhar o Facebook já havia alguém comentando sobre o incêndio na boate Kiss mas ainda não dava para ter ideia da gravidade.
A partir de então, foram surgindo novos dados, comentários, informações
diversas. De crônicas a solicitações de auxílio. Não liguei o rádio, nem a TV.
Perdi esse hábito. Estou cansada da maneira como a imprensa trata as notícias
no dia-a-dia e em como conduzem as pessoas a falarem só sobre tragédias e
violência todo o tempo, imagina uma hora dessas... Na rede social, os dados
também chegam e, a meu ver, de uma forma mais reflexiva, atenta, afetiva e por
fontes que eu tenho melhores condições de avaliar a veracidade, a confiabilidade.
As opiniões vão se somando e eu posso tirar minhas próprias conclusões. Não sou
induzida por uma linha editorial sanguinolenta. Sendo assim, fazia muito tempo
que não assistia o Jornal Nacional. Nessa segunda, depois de ler uma publicação
no Facebook que sobre a presença de “estrelas” do jornalismo na cidade, resolvi
encarar. Logo de cara, comecei a me emocionar, a ficar angustiada, mas tomei
uma decisão: assistir analisando o trabalho jornalístico.
Willian Bonner provou que sabe
entrar ao vivo. Não titubeia. Também não esperava menos de alguém com toda a
sua experiência. As matérias mostram os jornalistas indo atrás de várias
fontes, dando ênfase a vários aspectos que o tema abrange. Os recursos
tecnológicos permitem avaliar diversos ângulos das principais dúvidas
levantadas. Os repórteres, no entanto, insistem em forçar reações emocionais
dos entrevistados. É sempre assim, embora eu não lembre de ter aprendido isso
na faculdade (e posso garantir que não era de faltar as aulas). O objetivo? Eu
não ainda não sei. As pessoas dizem que é pela audiência. Isso quer dizer que
está cheio de gente em casa querendo ver pela televisão o sofrimento alheio? Prefiro
acreditar que é despreparo mesmo. Incompetência. Conclui que o próprio curso de
comunicação deveria aprofundar a forma de abordar esses momentos, criar regras,
impor limites. Ou de nada adiantará todos os recursos, jatinho, computadores de
última geração. Estarão sempre pondo tudo a perder e merecendo todas as
críticas e o deboche que recebem. Foi assim com os integrantes da banda.
O depoimento de um dos artistas pode
ser criticado pelos parentes e amigos, mas posso imaginar o que ele quis dizer
quando falou que pareciam animais. Tenho para mim que se não praticarmos ações
menos egoístas em horas calmas não vai ser no pânico que vamos ajudar quem está
querendo achar uma porta da saída. Os peritos ainda vão definir melhor tudo.
Mas, embora existam queimados, já sabemos que foi a asfixia que matou a maioria
das vítimas e... gente que caiu, foi pisoteada, o fato de terem sido
encurralados buscando uma forma de sair.
Culpados? Eu tenho pavor de “caça
às bruxas”. Acho que as pessoas são totalmente irracionais nessas horas. Considero
que prender aqueles que estão sendo apontados como responsáveis é uma maneira
de protegê-los, nesse momento. Tenho medo das pessoas que acham que devem tomar
a justiça com as próprias mãos e não estou falando dos familiares e amigos.
Fora isso, foi uma tragédia, mas
não uma catástrofe e mesmo assim, apesar de todos os esforços, de toda a união,
há muitas falhas na hora de socorrer as pessoas. Muita informação desencontrada
e fico simplesmente apavorada quando vejo lista de necessidades que vão de água
ao papel higiênico. Por que estamos tão despreparados? Afinal, estamos falando
de um evento localizado, com um número grande, mas muito inferior à população
geral da cidade, do estado e infinitamente menor do país. No entanto, é um corre-corre absurdo para resolver
grandes e pequenos problemas. Então, é verdade. Podemos ser dizimados a
qualquer instante por algum fenômeno da natureza, crise de energia, etc,
tornando reais as profecias?
Não acredito no acaso. Não acho
que a morte dos jovens tenha sido “causada” pela negligência. Minha crença é
outra. Mas atenção: não estou dizendo que tudo deva ficar por isso mesmo. Muito
ao contrário. Quero que se aprofundem muito em todas as questões, estudem a
fundo o que pode ser feito diferente. Façam tudo para impedir novas tragédias
como essa porque, como já foi dito muitas vezes, existem milhares de lugares em
circunstâncias semelhantes a esse de Santa Maria. Provavelmente, entrarei em um
amanhã. Quanto às questões
jornalísticas? Apesar dos exageros e
dessa tendência macabra de expor desgraças, a imprensa tem trazido à tona
muitas discussões, investigado muitos fatos que de outra forma ficariam
ocultos. De uma forma, meio torta, prestam um serviço à sociedade que tem ido muito
além da informação.
Quanto a Santa Maria? Jamais será
a mesma. Ela já não é. Mas sei que a dor também une as pessoas e essa união se
transforma em uma força que todos vão precisar para enfrentar a tristeza, a
saudade. Acredito que, aos poucos, a cidade vai renascer e que no lugar do eu,
do tu, do dedo em riste, o que vai importar vai ser o “nós”. Não vai ser
amanhã, nem mês que vem, mas as ruas vão voltar a ter aquele som de risadas e
gente falando alto e música, todos aqueles ruídos da alegria quando se
manifesta e eu espero que os jornalistas neste dia voltem para ver a cidade eu
sempre achei que valia a pena morar.
Friday, January 25, 2013
O Rio na metamorfose da memória
Cada vez que volto ao Rio de
Janeiro tenho novas impressões. O que comprova que as cidades estão
permanentemente em mutação, assim como as pessoas. Sim, o Cristo está no mesmo lugar (embora eu
só tenha visto de longe dessa vez). O Pão de açúcar também. Aliás, todos os
monumentos, pelo que eu saiba. Eu, porém, certamente, cheguei lá diferente das outras vezes e isso afeta a forma como observei a cidade, agora, sob
a minha ótica em 2013.
A maneira como fui tratada nas
ruas dessa vez foi bem melhor. Consegui
informações das pessoas sobre os locais onde eu gostaria de ir. Uma moça me
ajudou, inclusive, a retirar uma bicicleta para andar pela Lagoa Rodrigo de
Freitas gastando o tempo dela e me proporcionando um dos melhores momentos da viagem. Fui bem atendida em lojas, comércios, etc. Isso,
porém, não facilitou muito o meu trânsito por lá. Dependendo de transporte
público, fui deixada na parada algumas vezes por motoristas que passavam pela
faixa central, correndo, sem dar nenhuma atenção aos potenciais passageiros. Em
poucos dias, porém, comecei a pegar alguns macetes. Escolhi paradas menos
congestionadas, pedi ajuda aos que também esperavam o ônibus para confirmar se
o ônibus que vinha à distância era o que eu desejava e andei, andei, andei, me perdendo e me achando e, nos momentos de maior preguiça, pegava táxi, o que não chega a causar grande prejuízo ao meu pequeno orçamento.
Quanto à moda no Rio de Janeiro é
bem difícil dizer. Lembro que há muitos anos, ficávamos impressionados com a
quantidade de cores e adereços que nossos amigos cariocas gostavam de usar. Os
dedos cheios de anéis, os brincos encostando nos ombros e as fortes cores das
vestimentas eram motivo de comentários. Já não sinto mais esse estranhamento.
Não sei se me acostumei, se também começamos a usar coisas assim... Porém, não
é fácil falar de hábitos locais de uma cidade está repleta de turistas. Mas, embora seja uma cidade praiana, eles parecem ter suas regras. A
gente não vê ninguém nos calçadões de biquíni, nem mesmo maiô. Se for para
andar assim, vá para a areia. Mas é
claro que a gente vê muita gente de bermuda, de chinelo e que chamam a atenção
os homens de terno. Aliás, os homens foram mais gentis comigo do que aqui em
Porto Alegre, abrindo portas, dando passagem, oferecendo lugar. Até no trânsito
alguns motoristas pararam para me dar passagem. Coisas que aqui já não acontecem
mais comigo faz tempo. E isso que há muitas avenidas longas e largas o que, sem
dúvida, faz com que eles gostem de correr e tentar chegar primeiro, como em
qualquer outra cidade um pouco maior do Brasil.
Não aproveitei os famosos
botecos, mas a cidade tem muita oferta de comidas rápidas e gostosas, lanches,
sucos e coisas assim. Já os peixes e camarões mexeriam mais no meu bolso,
então, só foram possíveis nas ocasiões em que meus amigos me “patrocinaram”, como em Búzios, mais precisamente na praia João Fernandes. Coincidência ou não, justamente essa praia foi escolhida pelo The Guardian como uma das oito praias mais lindas do mundo. Não posso opinar sobre isso pois ainda me falta conhecer muitas. mas, sem dúvida, foi um privilégio ter estado lá. Mas convenhamos... flanar gratuitamente pelas ruas do Rio de Janeiro já é algo especial. A
paisagem, misturando mar e serra, é uma das coisas mais lindas que eu já vi e
sempre me impressiona e me encanta. A proximidade da água, a falta de compromisso,
o calor do sol na areia... tudo isso vai relaxando não só o corpo mas a mente. Sou dessas que acredita sim que o clima
interfere no comportamento das pessoas. E por falar nisso o astro rei apareceu
sempre muito timidamente enquanto estive lá. Tinha que apostar que ia dar
praia. Felizmente, ganhei quase todos os dias. Só no último, o que consegui foi me despedir com um banho de chuva como há muito eu não
tomava. A sensação (antes de enfrentar encharcada o frio do ar-condicionado a toda do
ônibus) foi de liberdade, de prazer. Sentimentos que estiveram presentes em toda a
minha estada em férias. Se fosse a
trabalho (o que nunca fiz), as impressões, muito provavelmente, seriam outras.
Não sei quantas vezes já fui ao
Rio. Na verdade, não sei nem mesmo qual foi a primeira. Minhas recordações
estão todas misturadas. Lembro-me de uma época em que fui com o pai e a mãe e
que andávamos de carro por toda cidade, esbarramos em uma gravação com o Antônio Fagundes e a Ana pediu o autógrafo dele no nosso guia que nos permitia descobrir novos lugares, bem como meu
pai gostava de fazer... Lembro de outra em que o meu irmão também estava, com a
minha cunhada e o meu sobrinho e inventava programas como ir a Petrópolis ou a
Paquetá. Lembro-me da minha primeira viagem de avião cujo destino foi justamente o Rio. Lembro-me
do incrível convite para ir ao primeiro Rock in Rio e, é claro, jamais esquecerei de
ter desfilado na Sapucaí devido a um convite inusitado que surgiu por causa da
desistência de outra pessoa.
Dessa vez, não fui a teatro, não
fui a cinema. Não vi nenhum show e, sem dúvida, tudo isso também faz do Rio de
Janeiro uma cidade especial. No entanto, há algo que venho aprendendo com essa
cidade: a vida é feita de escolhas. Não adianta ficar lastimando aquilo que a
gente não viu, aquilo que a gente não fez, o lugar em que a gente não esteve.
Somos exigentes e insaciáveis. Queremos sempre mais e mais. Perdemos a chance
de parar um pouco, respirar fundo e pensar: eu estou exatamente onde deveria
estar, fazendo exatamente o que deveria estar fazendo, seja dentro do ônibus
trancado no trânsito ou com água até o pescoço vendo os dedos dos pés.
Tomara que eu ainda possa voltar
muitas vezes. Que eu possa ir decifrando cada vez mais essa cidade incrível da
qual tenho cada vez mais ótimas lembranças para guardar porque, para quem não sabe,
até o que parece ruim em um momento, acaba sofrendo uma metamorfose na memória
e acaba provocando saudade.
Monday, December 31, 2012
"A vida vem em ondas"
Desde os dez
anos que escrevo algo no dia 31. Sério. Considero uma data importante, pois
além das comemorações é um dia em que a gente acaba fazendo uma espécie de
avaliação do que nos aconteceu e das nossas atitudes, é meio inevitável. Pelo
que me lembro, sempre dei um jeito de encerrar o meu texto com alguma mensagem
de esperança e não creio que esse ano vá ser diferente.
Comecei 2012
ganhando a possibilidade de cuidar melhor da minha saúde de um jeito muito
especial que mais me parecia um presente divino. Logo no início, fui ao Rio de
Janeiro e fortaleci ainda mais uma amizade com alguém que entrou na minha vida
pelo trabalho e se instalou pelo afeto.
Foi o ano em
que consegui, finalmente, retornar à Paris e, talvez, por isso mesmo, pelo
menos até outubro, nenhuma coisa ruim de fato me atingiu. Passei por momentos
chatos, claro. Encarei pessoas inconvenientes, óbvio. Falta de grana? Alguma
dúvida? Porém, em todos esses momentos, eu estava lá, concentrada, pensando que
no dia do meu aniversário estaria na cidade luz, falando uma língua que amo e,
dessa vez, de lambuja, com a minha irmã, meus dois sobrinhos e amigos. Não dava
para ter “tempo ruim”. E não é que com isso o dia-a-dia ficou mais
interessante?
Fiz novos e
especiais amigos. Fui chamada para fazer pequenos trabalhos ligados ao teatro,
comemorei com muita conversa e risadas vários momentos com as pessoas que amo.
Ah, fiz muitos almoços, jantares, comidinhas especiais por puro prazer de
reunir as pessoas em volta de uma mesa. Acompanhei a compra da casa nova de minha
irmã e produzi, com a minha irmã e a minha mãe, vários materiais tentando levar
as pessoas um pouco mais de conhecimento. Em troca, muitos elogios ao meu pai, criador
dos jogos da família, muitos agradecimentos por esses produtos existirem.
Surgiram trabalhos inesperados, assim
como continuei fazendo outros em que posso perceber o que aprendi até agora.
Fui a Buenos
Aires, apresentar minhas ideias. Venci meus medos de falar em público e até em
outras línguas, vejam só...Vi trabalhos artísticos lindos, outros de muita
garra. Andei pelas ruas da minha cidade, de outras cidades, em outros países. Segui
fazendo natação e reduzindo assim minhas ansiedades e, sempre que algo me
tirava do meu equilíbrio, logo logo encontrava um amigo para me tranquilizar,
para mostrar que a vida era muito mais do que aquele momento e que sim, o que
quer que fosse ia passar. E passou. A prova está que chegamos ao final do ano. E há poucos dias lá se foi uma pessoa que
sempre teve muita importância na minha vida, mesmo quando distante. A simples
lembrança dela era capaz de me fazer sorrir, de me confortar. Mas eu me nego a
ficar triste. Me emociono, de vez em quando, claro, mas eu e ela sempre
soubemos que a vida é efêmera e que como 2012 passa muito rápido. Tão rápido
que só me instiga a continuar com essa urgência de viver, de me concentrar nas coisas
boas, a dar valor para o que realmente importa e a continuar tentando ter cada
vez mais gente que dê valor a cada minuto por perto. E por incrível que pareça
o ano está terminando cheio de perspectivas de que eu não vou querer isso
sozinha. Que 2013 seja um ano de mais
encontros e de reencontros.
Monday, December 03, 2012
Palavras que estremecem, cenas que transformam o espetáculo da vida
Não sou
dessas pessoas que se apaixonam pelas palavras, mas “estremeço” tem uma
sonoridade que me agrada e que me atraiu para ver o trabalho da Cia Stravaganza
mesmo mantendo o hábito de não ler nada a respeito para não
estragar a surpresa. Assim, desde o primeiro momento, fiquei em suspensão ao
ouvir cada parte daquele texto curioso, enigmático, profundo. Não demorou muito
para surgir uma sensação de prazer, de alívio, por constatar mais uma vez a força
do teatro em traduzir o que nos angustia, o que está em nosso pensamento, o que
faz parte do nosso dia-a-dia. Porém, não de um jeito mastigado, liquidefeito,
mas instigante e desafiador.
Precisava ser
um grupo como esse para trazer ao palco o texto de Joël Pommerat, esse francês
que descobriu, desde os 12 anos, que era o teatro que lhe interessava. Essa
paixão está em cada palavra. Todas as dúvidas de quem se interessa pela arte,
de quem não deixa a vida passar em vão, de quem quer ir ao fundo de todas as
questões da existência e que volta ao começo, busca as origens, tentando
resgatar um otimismo, uma razão e esbarrando tantas vezes no vazio, no susto,
no medo, mas mantendo ainda assim o humor, me levando a uma disputa entre manter
a atenção no palco e ao que cada cena me provocava.
Dei muitas
risadas nos espetáculos anteriores do Stravaganza. Admirei o trabalho de
Rodrigo Mello quando o vi pela primeira vez e segui apreciando as atuações dos
meus amigos Lauro Ramalho e Sofia Salvatori. Dessa vez, tenho ainda o prazer de
rever Adriane Mottola em cena. De fixar meu olhar em Cassiano Ranzolin que tem
uma energia magnética. De sentir medo do personagem de Duda Cardoso durante
todo o tempo e de me impressionar e divertir com a multiplicidade de Janaina
Pelizzon. Todos expressivos e intensos.
Enquanto os
assistia me perguntava o que era criação do grupo, o que o autor havia definido
e vislumbrei uma semelhança ao pouco que conheço dos textos de Heiner Müller, em
que tudo fica para ser pensado por quem decide encená-lo, sejam os atores, ou o
diretor. Devo dizer que não tenho facilidade em identificar as habilidades desse
último. Não sem conhecer o processo. Não quando ele acerta. Nesse caso, ela:
Camila Bauer. Porém, um amigo tornou isso muito claro ao explicar que, mesmo
que as escolhas das ações, do cenário ou de qualquer outra coisa em cena não
seja da diretora, ela tem que aprovar. Afinal, é o seu nome que vai “assinar”
tudo isso. E em Estremeço existem
momentos muito especiais, audaciosos, mostrando que ainda não vimos tudo que é
possível no teatro. Fernanda Petit dando
seu texto em um microfone no chão é um desses e existem muitos outros. Também
observo que quando não há nada a excluir, quando há uma precisão, isso é mérito
da diretora.
Além disso, ao
verificar que Elcio Rossini assina a cenografia já não me espanta que tenha visto
pernas de aranha no que deveria ser uma cortina, de me surpreender com os
artefatos que traziam e levavam os atores e, embora Naray Pereira seja um nome
novo para mim, não posso deixar de falar do figurino que me parece absolutamente
impecável.
Estremeço prova mais uma vez para mim que arte é
literatura, arte é comunicação, arte é psicanálise e sintetiza isso tudo ali,
naquele palco. Resume todas as discussões filosóficas em
pouco mais de uma hora de uma forma contundente, impactante, mostrando o quanto
o teatro pode revolucionar por fora e por dentro. A sensação de sair do teatro diferente
de quando entrei me garante que nesse mundo tão caótico em que vivemos é a arte
que nos manterá vivos no sentido mais profundo dessa palavra. E por falar
nisso, tem horas (não muitas), em que o português consegue ser mais belo que o
francês. Assim, “Je tremble” passou a ser “Estremeço” cuja palavra soa aos meus
ouvidos de uma forma muito mais intensa causando sensações que só quem viu o
espetáculo pode sentir. Estremecer
significa fazer tremer, abalar, sacudir, causar medo. Esse espetáculo faz tudo
isso e vai além.
Saturday, November 24, 2012
Randevú com o homem que mudou a minha vida
Nem sei se o que tenho para dizer
do espetáculo de Zé Adão Barbosa vai servir de alguma forma. Mas ficar tentando
verificar a utilidade das palavras me parece ainda mais inútil quando se trata
de arte. Não li os comentários sobre o espetáculo Coração Randevú. Tive medo que me
tirassem as surpresas, interferissem em minhas próprias impressões. E foi assim
que cheguei a Casa de Teatro para ver o meu mestre.
Confesso que não há coisa melhor
do que ver alguém que a gente admira atuando. Nem pior. Ainda essa semana, comentava
que simplesmente detesto o “compromisso” de ter que gostar das coisas. Essa é
uma palavra que traz junto uma carga, um peso, um desagrado. Fui ver o Zé
porque queria, porque desejava ver em cena nem que fosse uma pequena parte de
tudo que aprendi com ele, pois muito antes de dar importância para o seu trabalho
como ator, diretor, eu o conheci como professor.
Já contei outras vezes que foi,
por acaso (se é que isso existe) que fui parar no teatro, levada por uma colega
de trabalho que iria começar uma oficina com ele. Ela desistiu. Eu me
apaixonei. E, hoje, só posso pensar que
tenha sido essa paixão comum que fez ele me acolher, me entender, me
incentivar. Assim, no final dos anos 90, passei a ver Zé Adão Barbosa todas as
semanas durante três anos. E não só a ver. Mas ouvir, entender, visualizar cada
gesto, cada palavra, cada movimento. E nunca foi chato, nunca foi repetitivo,
nunca foi rotina. Ao contrário, o compromisso da aula me fazia pensar por que
fazia aquilo, mas não houve um só dia que não saísse feliz, cheia de energia e
de vontade de sugar a vida. E é isso que vemos no espetáculo. Essa intensidade,
essa garra, esse desvario que persegue todo o artista.
Disse para o Zé, ao final do
espetáculo, que chorei todo o tempo. E ele disse que é porque é um espetáculo
que mexe com a memória. E ele não está errado. Mas é porque trazia a minha
lembrança a importância de tê-lo conhecido. De já saber de algumas histórias
que ele traz para o palco. Pela emoção de ter compartilhado algumas em minha
própria casa e por lembrar quem eu era antes e depois de tê-lo conhecido. De
voltar a sentir a emoção de vê-lo inteiro, expressivo, exposto, escancarado ao
contar a sua vida, ao mostrar como é possível tratar as palavras de forma tão
diferente só com a mudança de timbre, de intenção. Tal qual aquela vez em que
ele provou por A + B que podíamos dizer “nuvem” com leveza e alegria como
também com pesar, bastando para isso imaginar que essa impediria uma ida à
praia. Ou a tantas outras em que, acrescentando um “detalhe”, ele fazia
crescer, impactar a ação de um ator e foram tantos aprendizes que hoje estão
por aí...
Bem, mas tudo isso pode ser muito
pessoal e não convencer ninguém de que Randevú merece ser visto. Mas isso só para quem acha que Fernando
Pessoa não tem nada a nos dizer, quem não se interessa por poesia, por música,
por reviver tudo o que nos faz sonhar. Para esses não há encontro possível. Zé
Adão leva para o palco o que ele é, o que ele sabe, o que ele não sabe, com a
delicadeza e a firmeza que passou pela mão de Patrícia Fagundes e que enfrentou
as dúvidas, as certezas, as inseguranças desse artista, a quem eu só posso
agradecer pelo resultado, não só do trabalho mas pelo que sinto ela fez pela sua
alma.
Minha vida se divide entre antes
e depois de cruzar com Zé Adão Barbosa no meu caminho. Permitiu-me resgatar todas
as coisas que sempre tiveram valor para mim, provocou uma descoberta da minha
essência. Depois do Zé, fiquei ousada,
corajosa, sedenta. Dei destino a minha sensibilidade que, até então, tanto me
atrapalhara. Assim, nada melhor do que voltar a ver agora esse homem em cena.
Esse que considero meu amigo. Amizade que deixava meu pai, cuja relação fora
sempre tão difícil comigo, orgulhoso. Que também impressionara minha mãe, meus
sobrinhos (que também foram seus alunos), meu irmão (que já sei foi), ou seja, minha
família. Que passou a ser para ele: os Mello, sempre tratados com a delicadeza
que ele teve ao entregar a rosa do final do espetáculo para a minha mãe. Esse é o meu eterno professor, o homem que
mudou a minha vida e que, em cena, provocou emoções que só podiam me levar às
lágrimas.
Tuesday, November 13, 2012
Um por todos e todos por Plauto Cruz. E quem pela arte brasileira?
Foi pelo Facebook que fiquei
sabendo que Plauto Cruz precisava de ajuda e não estava bem de saúde. Foi também
pela rede social que recebi a informação de que os artistas haviam se
mobilizado para fazer um show cuja arrecadação seria destinada a ele. As duas coisas me sensibilizaram de um modo
especial. Afinal, mesmo não sendo tão
musical quanto eu gostaria, esse músico entrou em minha vida há uns 30 anos,
quando Ricardo Silvestrin me informou sobre suas apresentações no Vinha d’alho,
cujo nome só identifiquei quando citado hoje no show.
No programa, 30 músicas
previstas. Alguns nomes que eu conhecia muito bem, outros nem tanto. A plateia
lotada. Confesso que os primeiros quatro nomes eu não conhecia. Já as músicas...
Em 3º lugar, Darcy Alves cantou “Esses moços” e mesmo esquecendo em alguns
momentos parte da letra, sua voz e sua interpretação, receberam fortes aplausos.
De mim, em pé. Tem sido fácil me emocionar ultimamente.
Cristiano Quevedo cativou a
plateia com o seu refrão “Eu te espero, meu coração, vem dividir comigo o
chimarrão”. Logo em seguida, Renato Borguetti, mesmo dizendo que não era muito
de falar, conta que teve o prazer de dividir o espaço muitas vezes com o
homenageado na Cia de Sanduíche, já que morava em frente. No palco, ele mistura
piano, violão, flauta, gaita e parece se divertir. Faz um verdadeiro diálogo
com as notas, o que parece explicar porque ele não é apenas mais um gaitista. O
Clube do Choro também não faz feio e tudo parecia bem até Plauto Cruz aparecer
no palco.
Em uma cadeira de rodas, surgia o
homenageado, visivelmente debilitado. Já vi minha irmã, que foi ao show comigo,
em uma cadeira de rodas depois de ter sido atropelada e convivi com meu pai
debilitado por uma doença cardíaca, mas ali o Plauto era o foco. E nem Claudio Britto (um dos apresentadores além de Tânia Carvalho e Juarez Fonseca), nem os aplausos, nem o pessoal da emergência de prontidão, conseguiu
minimizar a agonia de vê-lo tão de perto tentando ajustar o microfone ou tocar
sua própria flauta. No início, todos apenas aguardavam enquanto ele dizia:
“surgiram alguns imprevistos, mas não é nada”. Mas não demorou para que suas
tentativas se mostrassem totalmente improdutivas. Enquanto isso, as pessoas comuns e a imprensa
faziam fotos e filmavam. Por alguns instantes me vi a favor da censura. Qual a
necessidade daqueles registros? Doía em
mim as tentativas de Plauto de tentar se comunicar ou soprar a flauta. Minha vontade era subir no palco e protegê-lo,
segurar a sua mão, passar a mão na sua cabeça. Onde estavam, afinal, seus
amigos? Ninguém podia tentar ao menos ouvi-lo? Só posso imaginar que ele fizera
questão de estar ali e que aqueles que lhe são mais próximos sabiam o quanto
era importante deixá-lo tentar fazer o que pretendia. Finalmente, Britto tomou a
atitude de pedir palmas e alguém, que acredito ser da sua família, pouco
depois, recolhia a sua flauta. Finalmente, os paramédicos o retiraram do palco.
Ainda ouvimos Plauto dizer: “não era isso que eu tinha planejado”. Ele
argumentara que a flauta não estava funcionando, que o microfone não estava
bom, mas sua fragilidade parecia a explicação para tudo, tivesse ele ou não
razão já que tantos outros músicos reclamariam de algo parecido depois.
Creio que só consegui começar
mesmo a me recompor quando Rafael Ferraz disse que Plauto havia mostrado que a
musicalidade ainda existia em seu coração que, segundo ele, aliás, é onde
aparece pela primeira vez em qualquer músico. Até ver e ouvir Ivone Pacheco,
minha cabeça ainda fervilhava com essas imagens. Depois, Lucio Yanel
apresentou El Condor Pasa não sem antes
dizer que, durante os 26 anos nos quais morou em Porto Alegre, esteve pela
noite próximo de Plautinho, como o chamavam.
E o clima de celebração foi ressurgindo com a interpretação de Noites
Cariocas, do grupo liderado por Luiz Machado, com Feijão no pandeiro. O
destaque para esse último vem por conta do fato de que eu o conheço. Já quase
fizemos um trabalho juntos e sei da sua ligação profunda com a música e seu
jeito divertido, o que deve justificar ele continuar exatamente igual há anos
quando nos encontramos pela primeira vez. Além disso, é nessa hora que eu fico
sabendo que as músicas do Plauto foram registradas por escrito pelo líder do
grupo, o que, sem dúvida, é algo vital para todo e qualquer músico. “Eles são
os que mais se divertem”, disse a minha irmã, se referindo aos músicos. O que me fez pensar o quanto isso também é
válido para o teatro. Creio que, na verdade, para todo e qualquer artista.
Bem, e aos poucos, vários
artistas foram desfilando pelo palco do Renascença em homenagem a Plauto Cruz.
Dizendo palavras carinhosas, de reconhecimento pelo seu talento, pela sua
generosidade, sua genialidade. Vi gente tocando violão de um jeito quase
divino. Não fosse a necessidade de ter que ajustar os instrumentos a cada
apresentação, aquelas vozes e notas pareceriam toques de mágica. Porém, o
trabalho incrível dos assistentes de palco eram registros concretos das
necessidades técnicas que um show com tantos artistas, tantos talentos exige. E
um único holding fazia quase todos os ajustes, demonstrando que entendia de
todos os instrumentos e ainda era capaz de se comunicar com os demais apenas
por sinais. E assim, seguiram-se as horas em que cada artista, por instrução da
produção do espetáculo, foi contando qual o seu vínculo com o homenageado,
alguma história que os ligava, o que tornava tudo mais interessante e não
deixava nenhuma dúvida da importância desse para a música não só do Rio Grande
do Sul, nem do país, mas, simplesmente, da música. Houve mudanças na
programação, estabelecida por Pedrinho Figueiredo. E foram muitas apresentações,
muitas histórias de todos os voluntários que se engajaram nessa ideia provocada
inicialmente por Graça Garcia até chegar a outro músico que também faz parte da
minha lembrança de uma mesma época em que eu começava a ganhar a minha
independência e sair por aí. Foi a vez de Nelson Coelho de Castro que cantou
Cristal 753 e explicou que, quase sem querer, fez a escolha dessa música que
era o seu endereço de uma casa no bairro onde eu moro hoje e onde Plauto havia
estado. Diferente dos demais, confessou que, às vezes, se irritava com o
flautista que atendia a todas as súplicas da plateia para que tocasse alguma
música, “o que ele fazia a cada vez melhor, com uma generosidade que o faz um
baluarte da cultura de Porto Alegre, um patrimônio da cidade”. Nelson encerrou sua
participação dizendo: “Salve Plauto para sempre”.
E de resto foi tudo muito lindo,
muito emocionante, muito bem pensado pelos organizadores e pela Secretaria
Municipal de Cultura, permitindo que Hique Gomez mais uma vez mostrasse o seu
talento ao se apresentar com uma banda formada nos bastidores. Porém, não posso deixar de concordar com um
dos meus poucos amigos músicos, Marcos Ungaretti, que nunca, jamais um artista,
quanto mais no nível de Plauto Cruz, deveria ter que chegar ao ponto de fazer
um show beneficente a si próprio. Enquanto
a cidade e a imprensa discutem a Copa do Mundo de 2014 e as obras dos estádios,
os músicos, em geral, seguem sem espaço para mostrar os seus talentos e sem
condições de manter uma vida digna, principalmente, se o corpo não lhes permite
continuar fazendo aquilo que mais sabem: arte. Nesse espetáculo tão especial,
em tantos sentidos, tive orgulho de ser gaúcha. Tive vergonha de como tratamos
nossos artistas. Queria ter apenas chorado com o choro da flauta de Plauto
Cruz, mas foram lágrimas reais que molharam meu rosto nessa noite.
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