Saturday, July 10, 2010

Uma jornada noite à dentro – Blumenau

Não há como falar de um evento, sem comentar tudo que envolve participarmos dele. A viagem, as companhias, a cidade, os almoços e jantares. Até mesmo o hotel e o café da manhã. Devo dizer que vir de Porto Alegre à Blumenau de ônibus não foi tão fácil quando eu imaginara. A estrada continua muito ruim, o motorista corria horrores e nós, sem querer, é claro, escolhemos os lugares em cima das rodas. Ou seja, sacolejamos toda a noite. A gente bem que tentou dormir e, em alguns momentos, o cansaço até ajudou, mas não rendeu um bom descanso. Longe disso. Assim, chegamos aqui todos meio quebrados. Eu, agradecendo por não ter que fazer minha comunicação logo de cara, como alguns colegas. Mas um banho depois, roupas limpas, um excelente café da manhã (regado a muitas risadas devido a temas nada acadêmicos), já estava disposta a assistir aos outros. É sempre bom estar reunido com pessoas com as quais temos algo em comum, ainda mais quando é o teatro. Melhor ainda quando começamos a encontrar outras caras conhecidas, além de nós mesmos. Eu, que até o ano passado nunca tinha me apresentado academicamente, agora, já começo a me sentir em casa. Além do mais, acabei vendo a apresentação de uma diretora de uma Universidade Argentina que falava justamente sobre crítica teatral e chegava na virtualidade. Porém, não obtendo os mesmos resultados que eu. Assim, eu estava interessada em contatá-la e ela, em receber informações sobre a minha pesquisa. Estava estabelecido o meu primeiro contato internacional. Bem, não estou considerando aqui os emails trocados com Pierre Lévy que, apesar de aberto aos meus questionamentos, acabou não dando resultados efetivos, justamente porque perdi as oportunidades de encontrá-lo nos eventos de Porto Alegre e Passo Fundo.

Bem, mas resumindo, o dia foi muito produtivo e a noite, bem, a noite fica mais difícil de explicar. Andávamos pelas ruas a procura de um lugar para jantar e depois de algumas escolhas e desistências, acabamos no bar típico da cidade, onde encontramos vários outros participantes do evento. Alunos, mestres, quase mestres, doutores, palestrantes nacionais e estrangeiros, todos em uma grande mesa. Depois de uma longa espera (pelo menos a fome me fez perceber assim) pizza e vinho foram uma excelente pedida. Porém, a parte que não é simples de colocar em palavras é a volta ao hotel. Vai ser preciso uma boa dose de imaginação. Junte várias pessoas do teatro, vindas de áreas diferentes, experiências de vida diversas e com habilidades múltiplas, e dará para ter uma pequena ideia do grupo, andando pelas ruas, inventando performances, orquestra de narizes (?) e outras mais. A expressão chorar de tanto rir para mim, na companhia destas pessoas, tem sido um fato cotidiano. Uma boa prévia para o sono, quase desmaio, da primeira noite na Jornada Latino-americana de estudos teatrais em Blumenau.

Friday, July 02, 2010

Entre o teatro e o futebol

Há alguns dias venho pensando que não poderia ficar mais alguns dias em Blumenau, onde vou para participar da III Jornada de Estudos Teatrais, pois queria estar em Porto Alegre para o jogo do Brasil. Tudo bem... Santa Catarina também é o Brasil, mas eu queria estar próxima dos amigos. Para festejar, realmente, preciso compartilhar minha alegria.

Ontem, falava com um amigo meu já apostando que passaríamos por este jogo. Fiquei assim. Mal acostumada. Nascida em 62, guardei a memória das Copas que vencemos, até mesmo a de 70, ainda está firme em minha memória (e olha que são poucas coisas que permanecem por lá).

O jogo começa. Estou sozinha assistindo. Começo a vibrar, me empolgar, fico tensa e penso: que bom que ainda sinto tudo isso pelo futebol. Porque, afinal, a gente precisa de algumas coisas que sejam assim pouco racionais, mais por instinto, por prazer. No meio do campo, a situação não era fácil. Um início nervoso fazia eles cometerem muitas faltas. Ambos os times.

Não demorou muito para que o Galvão começasse a falar que aquilo era “teatro”. Enquanto isso eu divagava...No teatro também os atores e diretores muitas vezes tentam algo que não funciona, que parece que vai ser muito interessante e não dá em nada. No entanto, acho que existe uma coisa pior que é apresentar o espetáculo para pouca plateia.

Nas minhas poucas experiências, isso não chegava a acontecer porque trazíamos amigos e parentes para ver as nossas peças e acabávamos com um público bem razoável. Mas nunca entrei em temporada. Espetáculo quando “compete” com um dia de chuva ou frio intenso ou até mesmo um jogo de futebol, em geral, perde. No futebol, eu que moro perto do Internacional, vejo que o mesmo não ocorre. Diminui, é claro. Porém, resta ainda uma bela multidão. Em Copa do Mundo,então...

Só que não havia exatamente jogadas. A bola andava e parava. Falta, trancaço, tombos, só faltaram beliscões. Aos poucos, foi dando uma melhorada e, de repente, lá estava o nosso gol. Alívio. Entretanto, ainda havia muito de jogo e não estava uma partida nada fácil e assim foi até o final do primeiro tempo.

Como além de gostar de futebol, também sou responsável pela cozinha, não vi o gol da Holanda. Muito menos me dei conta que havia sido contra. Se soubesse, já teria ficado sem esperanças. Antes mesmo do lance ridículo do Felipe Melo de pisar na perna do adversário e acabar sendo expulso. Creio até que este sentimento atravessou o oceano e chegou a África, pois o time ficou apático. Estava empatado, com apenas um golzinho e parecia que perdia de goleada nos últimos instantes do segundo tempo.

Claro que como boa brasileira, acostumada com o inusitado no café da manhã, achei que ainda haveria alguma jogada genial que nos levaria para a prorrogação e de lá para uma vitória. É, mas aquele tempo em que boas chances caiam do céu nas pernas do zagueiro do Brasil ficou no passado. Então, perdemos de um jeito feio. Nem a atuação incrível do Robinho conseguiu salvar o espetáculo. Por isso, assim que passar este sentimento de frustração, sou capaz de torcer para a Holanda, pois só me resta agora ter perdido para o campeão da Copa do Mundo de 2010 e, é claro, esperar a de 2014. Enquanto isso, vou para Blumenau ver um pouco do teatro em que não se pode ser expulso e nem se pisa no adversário.

Thursday, July 01, 2010

Olá,


Este texto, na verdade, é uma advertência de alguém da comunicação que se apaixonou por esta ferramenta chamada internet. Eu a vi praticamente nascer e acompanhei sua evolução. Acabo de associar estes conhecimentos a minha dissertação de mestrado e, mais uma vez, achei fascinante todo o seu potencial. Mas, ao mesmo tempo, lido diariamente com o mau uso desta.

Receber um email de uma pessoa muito querida, que se sensibilizou com uma mensagem pedindo auxílio a uma criança com câncer, me motivou a escrever este email. Não pretendo me alongar. Mas aprendi com o tempo a verificar (como já fazia na profissão) as informações que recebo na internet. Gasto um pouco de tempo, mais raramente um pouco de dinheiro quando decido telefonar para os números publicados, mas deixo de fazer mais pessoas cometerem o mesmo erro e acreditarem em informações falsas, ficarem tristes por situações tão desesperantes.

Comento com as pessoas que faço parte da comunidade do Orkut: Eu não repasso correntes. Mas acho que isso não é suficiente. Assim decidi repassar aos meus amigos e parentes informações que podem ajudá-los a evitar que pessoas em escrúpulos usem a internet só para fazer os outros de bobos.

Então, escrevo para pedir que façam o mesmo. Tentem checar os principais dados divulgados nos emails que pedem ajuda. Vejam quem está assinando e saibam que mesmo quando parece bem oficial, não é. Ninguém vai escancarar que se trata de uma bobagem. Vão colocar nomes e sobrenomes, cargos, telefones, às vezes, inscrições das entidades. Tudo para dar a impressão de que é real e verdadeiro. No entanto, se você não conhece, desconfie.

Existem muitos sites que já publicam as principais fraudes da internet. Vou colocar aqui apenas um que me indicou a falsidade do email da minha amiga: www.e-farsas.com

mas não estou ganhando nenhum centavo para fazer isso da AOL, UOL, etc...Existem outros que denunciam.

Pronto. Era isso. Não desistam de usar a Internet. Ela nos conecta. Permite a nossa interatividade. É um veículo de comunicação mágico. Mas como em tudo que o ser humano participa tem seu lado bom e seu lado mau.

Para vocês terem uma ideia o email com fotos terríveis de uma criança pequena doente que precisaria de ajuda repassado pela minha amiga, circula na Internet desde 2003. Acredito, porém que possamos interditar estes desocupados gastando um pouco do nosso tempo, assim como faço agora.

Monday, June 28, 2010

Um terremoto chamado Brasil


Espero que o meu santo me escute tanto quanto os profissionais que trabalham em televisão, sejam eles comunicadores ou artistas. Minha irmã tem sido testemunha dos meus diálogos com este aparelho ao longo dos anos. Hoje, no jogo da copa, mais uma vez, aconteceu exatamente isso. O Galvão Bueno fazia uma longa explicação sobre a história das Copas. Lá pelas tantas, eu me perdi e disse: “Não entendi”. Do outro lado, Galvão, retornou: “Já te explico”. Às vezes, quando conto esta história para outras pessoas tenho a leve impressão de que elas não me acreditam. É claro que é preciso considerar que eu fale em voz alta na frente da tv, ou seja, não se trata de uma leitura de pensamento. É um diálogo mesmo. Mas parece que não é só um privilégio meu, pois logo depois do próprio Galvão perguntar ao Arnaldo César Coelho se não estava faltando Robinho no jogo, quem faz o Gol? O próprio.


Em outros momentos, não faço perguntas, mas afirmações e mal acabo de dizer, o apresentador ou o artista do outro lado repete. Bem, isso sem falar nas previsões do que vão dizer ou fazer, das ações que está para acontecer nos filmes. É claro que estas eu não comento para não estragar o prazer dos demais. Tem horas que escapa e daí recebo uma advertência. Não sei se existe algo de sobrenatural nisso ou se isso significa que eu sou resultado da geração da televisão. São muitos anos de observação da linguagem televisiva. Além do mais, minha formação jornalística e de teatro também pode colaborar um pouco com isso.

Já na vida real o mesmo não acontece. Não sei o que está por vir. O máximo que faço é saber o final das frases de quem conversa comigo ou o final de uma história que estão me contando. Agora, quanto aos fatos, ao que será do amanhã, não tenho a menor ideia. Por isso, penso duas vezes antes de me juntar a algum grupo para assistir aos jogos. Outro dia ainda vi os torcedores, de um time destes que foi desclassificado, totalmente fantasiados saindo cabisbaixos do campo...Muito complicado. Felizmente, hoje, conseguimos mais uma vitória. Bem bonita, por sinal. Gols suficientes para nos alegrar depois do último empate e alimentar as nossas esperanças para a próxima partida.

Agora, cá entre nós, foi tanta rasteira que acho que é por isso que o Dunga não quer que vejam os treinos. Eles devem treinar isso também. Ninguém cai no chão de todo o cumprimento com uma perninha levantada sem pensar nisso antes. Ainda bem que o juiz não teve os mesmos problemas dos últimos colegas. Não teve nenhuma situação polêmica. De qualquer forma, talvez, nem precisasse dizer que sou a favor de chip na bola, câmeras atrás do gol e toda e qualquer tecnologia que ajude a estes profissionais a serem mais justos. Porque, convenhamos, nós com todos estes aparatos adicionais em nossas casas e eles lá, no calor da emoção, só contando com dois olhos e um apito? Isso sim é injustiça! Se eles ainda me ouvissem do outro lado da telinha...

Saturday, June 26, 2010

Um ano sem MJ

Gosto de lembrar das pessoas que já se foram. Não tenho problemas com isso. Às vezes, me pego rindo sozinha imaginando as coisas que o meu irmão diria em uma determinada situação. Não fico triste, nem nostálgica. É um sentimento bom. É uma emoção. E a única que eu acho que a gente deve evitar (não sublimar) é a raiva. No entanto, comecei a ver os programas de 1 ano sem Michael Jackson e sinto que vou ficando abatida. Não sei se é porque gostaria de entender melhor o que houve, se ficaram faltando tantas informações... Os programas trazem títulos fortes, aparentemente indicam que vão dizer o que eu ainda não sei. Mas isso não acontece. São horas de entrevistas, reportagens, depoimentos e quando penso que estou começando a compreender, alguma coisa me leva para um outro rumo.

Embora ele seja um pouco mais velho do que eu, regulamos de idade. Então, ele, praticamente me acompanhou. Uma das primeiras apresentações que fiz para uma plateia foi uma dança com Marília Bressani na Colônia de Férias da UFRGS, onde eu veraneava. Lembro até hoje que errei o passo e olha que não tínhamos a menor pretensão de dançarmos como ele. Não sei que idade eu tinha, mas posso garantir que eu era pequena. Depois, foram as reuniões dançantes nas garagens e por aí vai. Não era exatamente uma fã, mas ele sempre esteve presente. Desrespeitando totalmente a cronologia, tem a vinda no Rio, as acusações de abuso infantil e as mudanças grotescas de pele, de rosto, até chegar no grotesco e eu parar de pensar nele. Foi quando a admiração foi se transformando em pena e quando esta começava a me incomodar. Pensava: mas afinal, ele foi um artista absolutamente incrível, influenciou gerações, ganhou horrores de dinheiro, ficará para sempre na história da música... melhor, da humanidade. Pena, talvez, deva sentir de mim que não fui capaz de fazer nada nem parecido! Porém, por que será que é assim? Por que os grandes astros, as pessoas extremamente talentosas tem vidas tão caóticas e são tão meteóricas? No vídeo abaixo, que mostra a metamorfose dele, termina com uma frase: Se isto estava acontecendo por fora, o que não estaria se passando por dentro? Acho que é esta a verdadeira resposta que eu gostaria e que não há programa que vá me dizer, mas querem saber? Acho que faço uma ideia.

http://www.youtube.com/watch?v=ri61lBfMBu0

Friday, June 25, 2010

O segredo de Fátima


Dias antes do jogo do Brasil de hoje na Copa começou o ti-ti-ti. Mais de uma pessoa me passou um email sobre uma rusga entre jornalistas da Globo e Dunga. Pedia um boicote a Globo. Não repassei. Faço parte da comunidade do Orkut “não envio correntes”, mas a questão não é apenas esta. Poderia dizer que já sou macaca velha (se não achasse que esta expressão em muito me deprecia) para acreditar em tudo que escrevem na internet. Mesmo quando são informações assinadas, que começam depois de uma provocação ferrenha, e retornam para o “vamos aos fatos...”Não é preciso dizer nada. Em pouco tempo se descobre que não há uma única verdade nestes tais textos. No entanto, como estes se esparramam da maneira mais eficiente que a tecnologia hoje permite, dizer algo contra acaba causando alguma ira. Assim, pensei em me poupar. Até porque, assisti a uma entrevista de Silvio Meira (doutor em ciência da computação na Inglaterra) e uma das coisas que ele fala é que a gente teme que as informações desapareçam do dia para a noite, mas não se dá conta que pode acontecer o contrário: elas permanecerem lá por muito mais tempo do que a gente deseja. E, hoje em dia, não está nada fácil encontrar a tal informação isenta para que a gente possa dar uma opinião, ou melhor, um palpite que seja, sobre qualquer situação polêmica. A gente se empolga, toma partido, vai lá defende, discute, até vota no cara e depois ele é um mentiroso, safado, gatuno, arrogante e tantas outras coisas com as quais não concordamos. Até lá, muitas vezes, já dissemos aos quatro-ventos o que pensávamos sobre o tal, quase perdemos amigos e é, claro, escrevemos por aí.

Achei que ia custar mais a usar aquele velho ditado: “cautela e canja de galinha não faz mal a ninguém”. Não é que eu não ache bacana certos arroubos. Acho que precisamos disso. Principalmente, quando as consequências não são graves. Assim, recebi achando certa graça estas mensagens dizendo que Fátima Bernardes havia sido expulsa pelo Dunga e outras coisitas mais. Tentei ir atrás de alguém em quem confiasse para me dizer o que tinha acontecido. Uma avalanche de versões chegou as minhas mãos. Nenhuma havia me feito crer no que realmente poderia ter ocorrido. E, olha que não sou dessas que precisam ver para crer. Além disso (e agora sinto que posso estar me expondo mais do que devia) não acho que o Dunga devesse perder a compostura, como diria a minha mãe. Se alguém o estava enfrentando, fazendo caretas, jogando tomates ou ovos podres...pouco importa. Deste jogo ele deveria ficar fora. Existem emissoras prepotentes, manipuladoras? Não tenho dúvidas. Jornalistas que dizem coisas que não deveriam? Claro! Mas um cara que está lá para orientar nosso time para ganhar uma copa vai se dar ao direito de deixar o temperamento falar mais alto? Não dá. Até porque se existe algum fato nesta história é que comprar briga com a imprensa neste momento só vai prejudicar todo mundo.

Chega a ser engraçado imaginar que os jogadores já tiveram especialistas em “alto-astral”, palestras de auto-confiança e outros treinamentos semelhantes para manter a calma e a tranquilidade e hoje, Dunga seja tão reagente. Resumindo: Nesta situação de destempero que aconteceu, na minha opinião, ninguém estava certo. Pronto. Disse. No mais, queria apenas advertir as pessoas quanto ao que elas estão lendo, vendo, ouvindo, não só na internet, mas nos demais veículos de comunicação. Todos são um reflexo da nossa sociedade que está longe de ser honesta e verdadeira. Não é para desacreditar em tudo também. Sugiro apenas um pouco de bom senso, este que parece ter faltado ao Dunga porque, hoje, o Brasil ficou no 0 X 0, mas jogou bem. Agora, se o técnico ficar se ocupando de outras lutas, a que estamos travando no meio do campo pode acabar sendo perdida.

No mais, devo admitir que tem gente muito criativa por aí:

http://www.youtube.com/watch?v=LZ253pMWyxY

Sunday, June 20, 2010

Entendimentos e desintendimentos

Em outras ocasiões já comentei como era difícil eu e o meu pai concordar, mas havia uma situação em que isto acontecia.Por incrível que pareça era em vendo futebol.  Aqui em casa eu era a única que me interessava. Nem mesmo meu irmão gostava. Assim, assistimos várias partidas juntos. Embora ele fosse gremista e eu colorada isso não nos impedia de entrarmos em acordo sobre o melhor jogador, a melhor estratégia e criticar todas as jogadas mal feitas, tanto de um time, quando de outro. São estas mágicas que só o esporte concretiza.
Nos últimos anos, fui me desinteressando. Mal sei do meu time, mas não ia deixar de assistir a mais uma Copa do mundo. Mesmo minha mãe que não tem quase nenhum interesse comentou: é uma ótima chance poder assistir aos melhores jogadores do mundo. E não é só isso. Futebol me acalma. A voz dos narradores, os comentários de Galvão Bueno, as análises de Arnaldo Coelho são coisas estáveis, neste mundo de impermanência em que vivemos. Já são personagens, eu diria. Eles passam o tempo todo criando contrapontos.  Galvão fala tudo boca a fora, faz gracinhas, provoca. Arnaldo Coelho é o sério, rígido e contido eterno juiz. Ouvindo suas vozes narrando futebol e comentando lembro de pessoas que amei e me sinto segura e esperançosa nos jogos do Brasil. Assim, mesmo quando o jogo começa com o time adversário jogando melhor como hoje, acredito que isso logo vá mudar.
Custou um pouco mais do que eu gostaria, mas terminamos o primeiro tempo com um certo alívio. O Brasil parecia começar a achar seu futebol. Antes do intervalo, porém, já comentávamos a força do time adversário, as camisetas mais pareciam baby-looks nos jogadores da Costa do Marfim. E é isso que vai atrapalhar todo o segundo tempo. Depois daquele gol “lindo, mas ilegal”, como disse, honestamente, Arnaldo, o jogo devia ficar bonito, ter jogadas interessantes e, no entanto, tudo que acontece são chegadas maldosas, faltas, jogadores machucados e assim vai até que Kaká nitidamente perde a paciência e é expulso pelo mesmo juiz que fez um dos lances mais curiosos que já tinha visto até hoje. Vimos ele “perguntando” para Luis Fabiano se ele tinha colocado o braço na jogada doo gol e o jogador desmentindo, claro. Agora, é muita cara de pau dizer que "para ficar mais bonito ainda é melhor um toque duvidoso". Não estou nem um pouco interessada em vitórias roubadas.
Bem, mas nós aqui quase previmos que Kaká acabaria expulso. Como o Dunga não viu? Porque não o retirou de campo quando percebeu que aquelas atitudes não iam dar bom resultado? Provavelmente, porque estava ele tão irritado quanto o próprio jogador. Aliás, se Galvão diz que não pode adivinhar os diálogos porque não sabe fazer leitura labial, posso garantir para vocês que ninguém “lê” melhor a alma dos técnicos da seleção brasileira do que ele. Quer dizer...nenhum deles o desmentiu até hoje quando, ao olhar seus gestos e movimentos, ele garante: “Dunga não gostou!” Bem, quem não gostou fui eu de ver uma partida de jogadas bem feitas e interessantes se transformar em um desentendimento tão grande em campo. Felizmente, a saída de Kaká aliviou a tensão e o jogo termina com uma vitória de 3 X 1 para o Brasil e os jogadores dos dois times trocando as camisas e dando abraços. Quem disse que futebol e teatro não tem nada em comum? Acho melhor, porém, não darem um atenção especial aquela defesa que fracassou totalmente no momento do gol da Costa do Marfim. Se o Brasil quiser aplausos no fim do seu “espetáculo” vai precisar melhorar neste sentido. Tenho certeza que o meu pai concordaria.


PS: Por falar em espetáculo, levei minha mãe e tias para assistir O Sobrado que está em cartaz no Renascença até dia 4 de julho e gostaria de usar meu recente título de mestra para recomendá-lo. 



Saturday, June 19, 2010

Orquestrando corpos

Estava em um encontro com uma amiga que não via desde o ano passado. Foi no mínimo estranho dizer Feliz Ano Novo em pleno junho, mas, talvez, isso seja uma amostra do ritmo de vida que estamos levando. Menos de uma hora depois, olho meu celular e tem nove chamadas não atendidas. Todas com o número de casa. Cheguei a ficar preocupada. No fim, era o convite para assistir o balé Mahavidyas, no qual dançavam Didi Pedone, Francine Pressi, Gabriela Peixoto, Gelson Farias, Raul Voges, Rodrigo de Almeida e, por último, mas não menos importante, minha prima Angela Siazzi. Tinha, assim, pouco tempo para me arrumar. Sem combinarmos, eu, minha mãe e minha irmã acabamos as três de chapéu. Diferentes estilos, mesmas cores: preto e branco. O que rendeu elogios da artista plástica Zoravia Betiol, nossa amiga, lá presente.

Com o teatro cheio. Rampas no palco. Minha mãe estranha. Eu digo que é o cenário pelo qual, em breve, a Angela deverá escorregar. Não é vidência. É a experiência de já ter assistido outras coreografias de Carlota Albuquerque. Mal começa o espetáculo e eu penso: toda orquestra deveria ter bailarinos. Todos os bailarinos deveriam ter uma orquestra. Não tenho dúvidas de que presenciar o encontro de tantos artistas ao vivo é um privilégio. Embora meu lugar na primeira fila não me permitisse ver os músicos direito, sabia que eles estavam ali e, ficar a quatro degraus do palco do Teatro São Pedro nunca me deixará incomodada. Além do mais, vejo bem os bailarinos. Quatro mulheres e três homens que dançam juntos, sozinhos, se revezam e apresentam um equilíbrio de competência, mesmo que meu olhar insista em destacar minha prima que respira diferente e tem um olhar tão expressivo que, por vezes, me assusta. Aliás, quem disse que bailarina tem vida curta não a viu neste espetáculo. Ela consegue estar ainda melhor do que da última vez que a vi dançar. Assim como Carlota que se supera a cada espetáculo. Em vários momentos pensei: este é o melhor espetáculo dela. Claro que isso é apenas a minha opinião. A verdade é que muitos (se não todos) traziam sempre algo novo, desafios e propostas inusitadas. Este, não foge a regra. Em um jogo de revela e esconde, entrega e controle, cumplicidade e rivalidade, os bailarinos encantam com sua agilidade, leveza, perfeição de movimentos. Provocando encontros ou fugas, “discussões” ou “entendimentos”, eles ora rastejam, ora parecem voar.

Os bailarinos dançam para a música? Ou a música acontece para que eles dancem? Pouco importa porque, se no palco eles se atraem e se rechaçam, entre os bailarinos e os músicos da orquestra a integração é total e, na efemeridade deste momento, a preparação prévia pode ser percebida em alguns movimentos que se repetem e, devido a estes códigos que fazem parte da arte, quando a bailarina volta a posição inicial, sei que o espetáculo está no fim, mas não sem antes ter mostrado algo único e belo: a comunhão dos corpos e melodias que só pode acontecer devido a direção de Voltaire Dackwardt e da regência de Antônio Carlos Borges Cunha.

Friday, June 18, 2010

Wednesday, June 16, 2010

Espero que o Brasil tenha conserto

Véspera do começo da Copa, a televisão pifa e somos informados que não terá conserto. Com esta sorte, melhor mesmo não ter recursos para ir a África, pois poderia acabar sendo atropelada por uma girafa. Exageros à parte, poderia, pelo menos, acabar como o professor Ruy Carlos Ostermann tendo que ser “resgatado” no caminho, pois suas pernas “semi-congeladas” não obedeciam ao comando de seguir em frente. Sem uma tv descente, decidi ao menos tornar agradável o ambiente. Como aqui a temperatura estava amena, optei por ficar na rua. Isso, porém, significava usar apenas o recurso da antena para obter uma boa imagem. Várias tentativas infrutíferas... O jogo já ia começar quando ainda havia uma sombra para cada jogador. Minha irmã disse que estava assistindo a Ghostwisper uma série que costumamos ver sobre espíritos que aparecem na Terra. Bem que teriam sido úteis, principalmente, naquele primeiro tempo.


Aquela conversa toda de que a Coréia não ganhava há séculos de um time Ocidental, que éramos melhores, que iríamos fazer muitos gols, não me agradou. Minha experiência em outras Copas, mesmo muito bem sucedidas como a de 70 quando tinha seis anos, já me fizeram entender que em disputas como esta todo adversário merece respeito. Nunca se sabe se por uma questão de justiça divina não seja justamente aquele o dia do time adversário sair vencedor. Os primeiros minutos até que foram animadores, mas, logo em seguida, lembrava minha mãe dizendo coisas como “só vejo camisas vermelhas em campo”. Desta vez, ela só vinha espiar o jogo. Preferiu seguir suas atividades cotidianas, sabendo que não seria interrompida por nenhuma ligação pelo menos durante aqueles 90 minutos.

Confesso que na possibilidade de uma goleada, acabo com pena do time contrário. Acho humilhante. Gosto de uma vitória, claro! Mas não vejo porque dar aqueles “balaios” de mais de cinco gols. Uns 3X0 tá de bom tamanho. Só que o tempo foi passando e nada. Depois da discussão que tive com mais duas mulheres da família que insistiam em dizer que agora não tem mais a menor graça, pois só vale a grana que os jogadores recebem e eu contrapondo dizendo que sim, eles eram hiper bem pagos e, por isso mesmo, tinham que eu queria vê-los fazendo um bom “serviço”, comecei a pensar em quanto a exposição na mídia (talvez, até mais do que o dinheiro) estava afetando o desempenho dos jogadores. Em uma situação em que até os botões do casaco do Dunga até as cores da bola são motivos para discussão, tinha a impressão de que os jogadores não queriam arriscar a sua imagem e que ficavam deixando um para o outro as tentativas. Tipo...só chuto se tiver certeza de que vou acertar. Terminar o primeiro tempo 0 x 0 já era todo o mérito que a Coréia poderia merecer. Estava na hora de acontecer alguma coisa. Logo no início do segundo tempo, veio então o nosso gol. Maicon marca. Ufa! Demorou um pouco mais para o segundo. Parece que as emoções do dia eram para Yum Nam que chorou compulsivamente na hora do hino da Coreia e que fez o gol do time aos 44 minutos do segundo tempo.

Como sempre acontece com o futebol, as opiniões divergem. Ninguém morreu de amores pelo jogo de ontem, mas vi comentaristas dizendo que foi assim com todo mundo (menos a Alemanha) na estreia e que considerando todas as circunstâncias nem foi tão ruim assim. Em contrapartida, tem gente que diz que foi o pior jogo da copa até agora. Pelas outras copas que já assisti, nada quer dizer nada. O que vai decidir mesmo será aqueles últimos minutos da última partida que eu desejo que seja do Brasil contra qualquer outro time que faça por merecer para ir até a final.

Thursday, June 10, 2010

Casa do artista riograndense

Apresentação

A Casa do Artista Riograndense, entidade assistencial sem fins lucrativos e reconhecida como utilidade pública, foi fundada em 1946 pelo radialista Antonio Amabíle com a finalidade de abrigar artistas com mais de 60 anos de idade, em situação financeira instável e sem as mínimas condições de prover o próprio sustento.

Durante as administrações que se sucederam, a Casa do Artista Riograndense acolheu, carinhosamente, a inúmeros artistas e trabalhadores da área cultural que a procuraram em busca de amparo.

As ações da Diretoria eleita visam a recuperação da Casa do Artista Riograndense em seus aspectos físicos e administrativos, dando-lhe condições plenas de funcionamento, resgatando assim sua imagem perante a opinião pública e oferecendo condições dignas de atendimento a tantos quantos a procurarem.


Atenciosamente,

Luciano Fernandes

Presidente da Casa do Artistas Riograndense

Fone: (51) 9123.7519
conheça mais a casa
visite o blog provisório:
http://casadoartistariograndese.blogspot.com/

Tuesday, June 08, 2010

Tempo...tempo...tempo.

Saber envelhecer... o que é isso? Houve época em que era saber a hora de ficar em casa fazendo tricot, de pantufas. Mas e hoje? Vi a Julia Lemmertz em entrevista a Fernanda Young dizer que se recusava a fazer papel de mãe e, de repente, se viu fazendo a mãe do Wagner Moura na série JK. Fernanda declarou que ainda se sente aos 10 anos, cantando Lança Perfume. Acabo de ver Sharon Stone na propaganda da série Lei e Ordem. Não a reconheci. Fiquei pensando que era a artista da série A Gata e o rato que não existe mais. Era uma loura bonita, mas envelhecida. Vi também um filme sobre a vida de Natalie Wood onde uma personagem representando a Marilyn Monroe dizia que tinha 36 anos e que estava velha demais para Hollywood. Este fim-de-semana passamos por uma casa para idosos chamada Tempo de viver. Estava inspirada a pessoa que o criou.

Eu estou a caminho dos 50. Faço 48 em outubro. Às vezes esqueço a idade que tenho. Não por que a negue, mas porque começo a dizer a idade que vou fazer e acabo me confundindo. Tenho que prestar mais atenção. Afinal, os 50 quero comemorar em Paris. Outro dia, atravessava a rua com os cabelos presos, tênis e abrigo. Não me sentia diferente de quando tinha 20 anos. Menos angustiada, talvez. Com mais gana de viver, com certeza. Eu precisei de uma doença que me colocasse em risco para me apaixonar pela vida. E da terapia, do teatro, da ioga e, sem dúvida, dos amigos. Tenho amigos mais jovens que eu. Me identifico com eles. Talvez, porque não tenha me casado, nem tido filhos que me comprovariam que o tempo passou. Mas quando vejo minha irmã, quatro anos mais velha do que eu, e um filho de 30, de bermuda e botinha em plena forma, andando de bicicleta, já não tenho tanta certeza. Meu irmão se preocupava muito com a idade. Bobagem. Sempre pareceu mais jovem do que era. Mas brigava quando dizíamos a idade dele e insistia em não ser o irmão mais velho. Morreu com 49 anos. Será jovem para sempre em nossa memória. Meu pai, ao contrário. Foi ficando debilitado fisicamente e um pouco antes dele morrer tivemos uma conversa sobre isso. Concluímos que se continuássemos tendo todas as capacidades de quando jovem, não aceitaríamos a morte e achamos sabia a natureza.

Observo que os mais jovens logo começam a dizer que as pessoas mais velhas já não tem noção das coisas, que não deveriam se vestir de uma determinada maneira e vão sendo excluídas. Mas meu conhecimento da maneira como os mais velhos são tratados na França (na Europa em geral) insiste em não aceitar esta ideia. Em outros países, os mais velhos fazem muitas atividades não só físicas, mas intelectuais. As pessoas estão vivendo mais. Os avanços da medicina estão permitindo isso. Houve um tempo em que as pessoas morriam muito jovens. Está aí a história que não me deixa mentir. Heróis, poetas, escritores não passavam dos 30.

Acho bonito as pessoas com rugas. Na natação, estes tempos, tinha uma senhora com uns 90 anos. Achei lindo. Agora, me assusto com aquelas que ficam puxando a cara com plásticas. Ou que mantém o rosto jovem enquanto o resto denuncia a verdadeira idade. Provavelmente seja isso envelhecer bem. Aceitar que o exterior apresente estas marcas. Não tentar mascarar, fingir que é jovem. Mas por dentro, como se sentir mais velho? Quando começo a me sentir um pouco culpada por não me sentir assim, lembro que não estou sozinha. Um dos meus ídolos, o poeta Mario Quintana fez até uma poesia sobre isso:

RECORDO AINDA



Recordo ainda... e nada mais me importa...

Aqueles dias de uma luz tão mansa

Que me deixavam, sempre, de lembrança,

Algum brinquedo novo à minha porta...



Mas veio um vento de Desesperança

Soprando cinzas pela noite morta!

E eu pendurei na galharia torta

Todos os meus brinquedos de criança...



Estrada afora após segui... Mas, aí,

Embora idade e senso eu aparente

Não vos iludais o velho que aqui vai:



Eu quero os meus brinquedos novamente!

Sou um pobre menino... acreditai!...

Que envelheceu, um dia, de repente!...

Sunday, May 23, 2010

Grupo Galpão: o talento de contar histórias


Foi a mestre em teatro Betha Medeiros que me convidou no sábado para ir ver o Galpão. Devia ter deixado a preguiça de lado e ido. Nem sempre temos uma segunda chance. Felizmente, neste caso, o espetáculo ainda seria apresentando no Domingo. Cedo e de graça. Ou seja, não havia mais desculpas para não ir. Além disso, já não era mais um convite, era uma ordem: “vai!”, me disse minha colega de mestrado depois de assistir Till, a saga de um herói torto. Como se ainda não fosse suficiente, a Doutora Mirna Spritzer também enviou um email sugerindo a ida ao Gasômetro, local que costuma ficar extremamente movimentado aos Domingos. E, claro que hoje não foi diferente. Cheguei, razoavelmente cedo e isso me permitiu ficar em um local que me permitiu ver e ouvir bem tudo que acontecia no palco montado naquele espaço.


Logo de início, eu que já confessei ter mais hábito de ir ao cinema do que ao teatro, senti que seria conquistada. O cenário é simples. Não há recursos técnicos sofisticados, mas os atores são de um carisma impressionante. Talvez não seja esta a palavra correta para denominar atuações tão competentes, bem definidas que só a experiência teatral pode trazer. Em pouco tempo me vejo pensando em quantas vezes já ouvi dizer que teatro é a arte de contar histórias. É justamente isso que me fascina.

Eles usam alguns recursos cênicos simples de serem executados, mas que propiciam uma estética impecável. Um deles, ao jogar um pó branco a sua frente para simular a neve, me lembra meu professor Sergio Silva, que dizia que o teatro tinha esta magia. Bastava que um ator dissesse: “fecha a janela que lá fora está frio” para que ficasse definido que a cena era em um lugar interno. O texto “Till Eulenspiegel”, de Luís Alberto de Abreu, que deu origem a esta montagem que é ótima, engraçada, inteligente e o elenco nos conduz ao riso solto, aquele que anda cada vez mais difícil ultimamente. E olha que gosto de rir. Rio bastante com meus amigos, com a minha família, mas quando se trata de trabalhos artísticos no teatro ou na tv, acabo achando tudo muito caricato, forçado ou agressivo e vulgar. Nada disso acontece durante este espetáculo. E em muitos momentos a gente sente o controle que eles têm das cenas, seja nos momentos de improviso com a plateia, seja olhando para o fundo do palco e fazendo com que até eu me vire para verificar se tem alguém.

Bem, mas desta vez, não levei papel nem caneta, o que já no começo senti falta. Algumas falas precisavam fazer parte deste meu comentário. Lembrando delas, agora, porém, me dou conta que elas tinham outro efeito na boca dos atores. “Vamos peregrinar”, dizia um dos três cegos que são responsáveis por uma das partes mais divertidas do espetáculo. Mesmo utilizando algumas brincadeiras já conhecidas com as palavras, quando se trata da cegueira, eles provocam risos na plateia. Às vezes, basta o simples fato de salientar coisas que dizemos sem nos dar conta como ao ameaçar alguém: “tu vais ver!”

E eu ri profundamente, ri alto como há tempos não fazia. Ao mesmo tempo, o Till não tem nada de bobo, ao contrário. Lembrei de outro comentário que escutei relativo a outra situação, mas que se adapta, perfeitamente, aqui: “Há várias camadas de compreensão” e os próprios autores comentam isso com a plateia. É interessante também como eles são “narradores deles mesmos”, referindo-se ao seu próprio personagem, enquanto se dirigem a plateia.

Além disso, embora eu tenha destacado os três cegos, não falei nem do “protagonista” da história (que na ficha técnica é uma mulher, mas hoje jurava que era um homem) em particular porque é muito nítido que se trata do trabalho de um grupo formado há quase 30 anos com “G” maiúsculo cujo resultado é uma ação coesa, intensa e cheia de talentos. A Ficha técnica do espetáculo não me deixa mentir. Para parecer simples e perfeito é preciso muita gente.

PS: Doutora Mirna Sprizer esclarece: A montagem na sua concepção tem a Inês Peixoto como Till. Logo,começaram a revezar-se no papel, ela e o ator que vimos aqui, Paulo André.

Direção JÚLIO MACIEL

Texto: LUÍS ALBERTO DE ABREU

Cenografia e figurino MÁRCIO MEDINA

Direção musical - arranjos, adaptações e composições ERNANI MALETTA

Preparação corporal para cena: JOAQUIM ELIAS

Iluminação ALEXANDRE GALVÃO E WLADIMIR MEDEIROS

Caracterização MONA MAGALHÃES

Adereços LUIZA HORTA, MARNEY HEITMANN E RAIMUNDO BENTO

Sonorização ALEXANDRE GALVÃO

Assistente de figurino PAULO ANDRÉ

Assistentes de cenografia POLIANA ESPÍRITO SANTO E AMANDA GOMES

Pintura de telão ESTEVÃO MACHADO

Elenco ANTONIO EDSON : Borromeu : Povo : Anão

ARILDO DE BARROS : Parteira : Juiz : Camponês : Padre : Miserável

BETO FRANCO : Parteira : Português : Padre : Camponês : Miserável

CHICO PELÚCIO : Demônio : Camponês : Voz do Soldado

EDUARDO MOREIRA : Doroteu : Povo

INÊS PEIXOTO: Till

LYDIA DEL PICCHIA : Parteira : Consciência : Cozinheira : Menino

SIMONE ORDONES : Alceu : Povo

TEUDA BARA : Mãe : Miserável

Preparação vocal BABAYA

Técnica de Pilates WANESKA TORRES

Assistente de técnica de Pilates CAMILA COURI

Construção do palco TECNOMETAL

Ajudante de cenotécnica NILSON SANTOS, ELTON JOHN E GERALDO ALVES

Costureiras TAIRES SCATOLIN E IDALÉIA DIAS

Fotos GUTO MUNIZ / CASA DA FOTO

Projeto gráfico LÁPIS RARO

Consultoria de planejamento ROMULO AVELAR

Assessoria de planejamento ANA AMÉLIA ARANTES

Assessoria de comunicação PAULA SENNA

Estagiários de comunicação ANA ALYCE LY E JOÃO LUIS SANTOS

Consultoria de patrocínio MAURO MAYA

Assistente de produção ANNA PAULA PAIVA

Produção executiva BEATRIZ RADICCHI

Direção de produção GILMA OLIVEIRA

Produção GRUPO GALPÃO

Patrocínio PETROBRAS

Tuesday, May 18, 2010

É hora de fazer do limão uma limonada

Já há algum tempo que tinha ouvido falar do filme sobre Simonal, este cantor dos anos 70 que eu também já havia esquecido. Na época, fiquei com vontade de ver, mas o tempo passou e não tive chance. Hoje assisti o DVD. Ouvir Simonal para mim é fazer uma longa viagem no tempo. Eu, que não sou saudosista, sinto uma alegria, ao ver no palco aquela figura com uma faixa na cabeça cantando: "Nem vem que não tem. Sacundim, sacundá".

Ansiosa, com contrações nas costas que dão trabalho a minha massagista, sempre admirei as pessoas que passam esta idéia de estarem completamente à vontade, que tem malemolejo (esta palavra estará no dicionário?), que parecem sempre relaxadas, mesmo que diante de uma multidão de mais de 30.000 pessoas. Simonal, convidado para abrir o show de Sergio Mendes "roubou a cena" fazendo toda a platéia cantar "Meu limão, meu limoeiro..." a partir do seu comando. Conta seu filho que a faixa na cabeça, que acabaria se tornando uma marca registrada, foi colocada para segurar as batatas que deveriam eliminar a sua dor de cabeça e que ele teria esquecido de tirar antes de entrar no palco.

Não é à-toa que conseguiram juntar tantos depoimentos de pessoas de áreas tão diversas para falar (bem) dele, entre estes Nelson Motta. Poderiam ter entrevistado minha mãe que disse: "eu adorava ele". Fiquei surpresa, afinal, ela sempre tão ligada a rígida cultura francesa se declara uma apaixonada por aquele cantou que aparece dizendo: "prá ter fun fun trabalhei, trabalhei". Ela que quer que eu pronuncie todos os "sss" e "rrr" das palavras, encantada com um cara que diz: "masque belê?"

A verdade é que poucas pessoas resistiam ao carisma de Simonal, ao seu jeito alegre e irreverente. Até mesmo Pelé, que sempre aparece tão sério, sorria ao falar do seu amigo, dizendo que a aproximação deles aconteceu porque todo "jogador quer ser cantor e todo cantor quer ser jogador". No entanto, na cena em que Pelé aparece cantando não chega aos pés do seu amigo (e olha que eu acho o Pelé um sujeito com uma energia muito forte e uma voz bem poderosa).

E o filme se desenrola assim, a partir de histórias contadas por aqueles que conviveram com ele, como é o o caso de Mièle. Uma das mais curiosas é a que eles vão juntos a uma sauna e Simonal, recebido com todo o zumzumzum que o seu sucesso já estava causando, reconhece que está na mesma casa onde a sua mãe era cozinheira e colocava um prato de comida no muro, já que os patrões não permitiam que ele entrassse. Ah, talvez seja necessário dizer que estamos falando de um cara negro e pobre, o que pode ter contribuído para a total intolerância ao que foi considerado um grande mal entendido. Li comentários de pessoas que se queixam que o filme não chega aos fatos. Eu não sou uma entendida em época de ditadura, mas pelo que sei não é tão simples assim. Além do mais, o fato de ser um documentário não quer dizer que não possam ter decidido dar ênfase ao talento de Simonal que este sim me parece inquestionável. Cinema não é lugar de investigação, embora o filme até mostre momentos em que o cantor apresenta a documentação que diz que ele não colaborou com a ditadura. Para mim, isso pouco muda. Estar escrito em um papel por mais "oficial" que este possa ser, não garante que tenha acontecido.

Os comentários surgem. Ao descobrir que estava sendo roubado pelo seu contador, Simonal teria mandado o pessoal do DOPS torturá-lo. No filme, o contador aparece confirmando estes dados. Os demais porém dizem que acreditam que a ingenuidade de Simonal misturada com uma certa arrogância tenham feito ele se comprometer com algo que ele não podia sequer imaginar.Para levá-lo a uma Sibéria de recepção como diria um dos entrevistados, muitas notícias da imprensa o acusavam de colaborar com o governo da época da
ditadura. Foi o suficiente para que a classe artística também não o perdoassem. Sobre isso, para minha supresa, Bárbara Heliodora diria: "Era um petisco para os preconceitos teóricos e práticos".

Chamou minha atenção que é justamente Ziraldo que fala que era uma época de intolerância. Outro dirá que "era comum a imprensa brasíleira tomar qualquer indício por fato, qualquer fato por julgamento, qualquer julgamento por condenação e a condenação por lixamento". Era? Tony Tornado dirá que Simonal era simples demais para ter tudo isso planejado. O fato é que, como disse, Boni da Rede Globo, escalar o Simonal era uma dor de cabeça. Os artistas tinham sérias restrições a isso e os veículos de comunicação não perdoavam. É muito triste ouvir sua segunda esposa contar que ele se escondia atrás de uma pilastra no show dos seus filhos que já começavam a fazer sucesso por conta própria.

O filme mostra uma manchete de jornal de uma matéria de 1995, de Mario Prata dizendo: Esquecemos de anistiar Wilson Simonal. Bem, mesmo tarde, este filme parece fazer isso. No entanto, Raphael Viviani, o contador, é entrevistado e insiste no seu espancamento. Ou seja, o filme, não mostra só gente falando bem e defendendo Simonal. Chico Anysio fala da overdose de ostracismo pela qual passou o cantor e diz que gostaria que aparecesse apenas uma pessoa que tenha sido dedurada pelo Simonal. "De qualquer forma, deve haver uma outra vida onde ele vai comandar os anjos e São Pedro vai dizer: 'o que esse cara tem que manda nos anjos mais do que eu", diz Chico Anysio.

PS: Ainda estou esperando quem me explique o que quer dizer "esquindô lelê" e para quem acha que eu contei toda a história, garanto que não há como descrever as apresentações de Simonal.



 
 

Tuesday, May 11, 2010

O amor e o futebol

O futebol começou a fazer parte da minha vida muito cedo. Não lembro exatamente quando, mas ainda recordo que meu avô colorado oferecia balas para que a gente torcesse para o time dele, o Internacional. Claro que naquela época isso era apenas uma brincadeira com os netos e não exatamente um suborno como hoje (depois de tantas maracutaias) acabaríamos pensando.

Também tenho fortes lembranças da copa de 70. Tinha oito anos na época e achava muito engraçado meu avô gritando com o Tostão pela tv, dizendo: “vamos sua vaca”. Devo esclarecer que meu avô era um homem de aparência séria, careca de sobrancelhas grossas, mas que assistindo a uma partida se transformava. O que, sem dúvida, faz ainda mais sentido se considerarmos que ele estava diante de um time com Pelé, Gérson e Rivelino, entre outros. Além disso, que criança não ficaria impressionada com todos aqueles carros na rua, as pessoas gritando, bandeiras, fogos de artifício? E é um mistério o que acabamos guardando na memória.

Anos mais tarde, quando estava com 12 anos conheci meu primeiro namorado. Ele estava indo jogar futebol. Vi pela janela do carro que, enquanto os outros jogadores do time zombavam do menor porque ele não conseguia pegar a bola, meu futuro amado pegou a bola e entregou para ele. Foi paixão a primeira vista. Durou nove anos. Nestes anos, muitas partidas de futebol assistimos juntos. Torcíamos os dois para o Internacional. Sim, meu avô conseguiu me “influenciar”.

Ainda neste período, muitas partidas de futebol assisti da nossa turma. Havia um clube na esquina da minha casa e era comum os meninos alugarem a cancha e fazerem partidas, campeonatos. Mauro Galvão era um deles. Embora naquela época ninguém pudesse imaginar que aquela fissura toda pela bola não os tornaria jogadores profissionais, creio que os demais seguem no anonimato. Bem, talvez, outros joguem em times que eu desconheça, espalhados pelo Brasil.

Mais tarde, conheci outro menino que era gandula do Inter. Assim, depois de passarmos horas segurando a mão um do outro e ele me dando beijos no pescoço (o que me deixava meio incomodada), ele se despedia de mim e ia para o estádio. Quando o jogo era televisionado, eu ia para casa. Não para ver o jogo. Mas para vê-lo ir buscar a bola quando esta saía do campo. Diante de uma multidão, ele aparecia por alguns segundos segurando a bola e jogando de volta. Eu me esforçava para identificá-lo e quando conseguia confirmar que era, realmente ele, era uma emoção.

Curiosamente, nunca namorei alguém do time oposto. Talvez as afinidades também passem pelo esporte. Meu pai, com quem sempre discutia, era gremista. Um tio tinha conseguido influenciar ele mais fortemente do que o próprio pai. Não com balas, mas o levando a assistir aos jogos. Mesmo em times opostos, eu era a única a fazer companhia a ele quando via os jogos. Meu irmão nunca se interessou por futebol. Naquela época, era ele que preferia as artes, a poesia. Ouvir os Beatles fazia muito mais sentido. Aliás, na família, apenas outra mulher tem um interesse profundo pelo esporte. Justamente a irmã do meu pai. Colorada. Costuma não programar nada em dia de jogo e já foi, muitas vezes, ao campo. Lê todos os comentaristas. Ouve rádio o dia inteiro em dia de jogo.

De qualquer forma, estamos prestes a começa a assistir a uma Copa do Mundo e a antiga paixão pelo futebol reacende e traz a memória meus amores que, hoje, estão espalhados, distantes, mas que ainda assim tenho certeza de que por 90 minutos, assim que a Copa começar vão estar desejando mais uma vez o mesmo que eu.

Vou buscar novas companhias, pois para mim, o futebol sempre veio acompanhado de afeto.

Monday, May 10, 2010

Queimem os didáticos ou...

Texto de Márcio Silveira

No tempo da inquisição era queimado todo livro que fosse considerado herege, fora da filosofia da Santa Madre Igreja, que macula-se os bons modos e costumes da sociedade medieval. Como supressão milhares de obras foram queimadas sem se quer sobrar um exemplar, que hoje poderiam esclarecer melhor a formação do homem e das sociedades até então. O filme O Nome da Rosa, baseado no livro homônimo de Umberto Eco, retrata bem este momento histórico.

Na atualidade os livros que são jogados fora por estarem defasados ao dono, são reciclados ou reutilizados abastecendo bibliotecas públicas municipais, estaduais e bibliotecas populares de ONGs, Associações e Escolas. Sejam livros didáticos ou não. Porém há uma retomada da ação praticada na inquisição, os alunos pelo Brasil afora estão queimando os livros didáticos dentro do ambiente escolar. Um fenômeno crescente no país! Sintomático? Possivelmente sim!

Cabe-nos refletir e agir quanto a essa questão antes que pensem ser o imperador Nero, que mandou por fogo em Roma, e incendeiem também as escolas brasileiras de fato. É um ato brutal a Educação, mas por outro lado pode representar uma atitude de protesto. Quais os motivos? Pode dever-se ao fato das aulas serem pouco significativas; ou os professores terem aplicado erroneamente o conhecimento ali contido, gerando desinteresse à disciplina em questão; ou é apenas um vandalismo desenfreado; enfim uma gama de possibilidades.

No momento me sobressalta a questão de um possível protesto, inconsciente que seja, pela falta de consonância dos conteúdos e sua aplicabilidade com a vida dos alunos. Os didáticos, por exemplo, são livros que não se aplicam a 50% da vida dos alunos de periferia. Faltam livros didáticos que possibilitem trabalhar com as novas realidades, existem alguns, mas são raros e voltados a seguimentos específicos da Educação Brasileira.

Portanto é necessário que os autores revejam e reformulem as abordagens dos conteúdos em sintonia com um Brasil tão diverso. Seria interessante pensar em livros didáticos que falassem não só na língua destas gerações de jovens em formação e desenvolvimento da aprendizagem, como também com ares da cultura dos povos de cada região onde eles seriam aplicados. Respeitando e mantendo evidentemente a diversidade cultural do país.

Do contrário sou a favor da queima dos didáticos que servem de bengalas para professores e professoras acomodados nos conteúdos plasmados no papel. Assim acabaríamos de vez com as aulas e o ano letivo que já iniciam em conflito quando o docente entra na sala de aula e diz do alto da sua magnitude de mestre do saber de coisa nenhuma: - Abram o livro na página...


Márcio Silveira dos Santos é Professor

Publicado originalmente no Jornal Vale dos Sinos em 27 de Abril de 2010

Sunday, May 09, 2010

AVARENTO TAMBÉM TEM MÃE


Se gosto de um filme sou capaz de vê-lo muitas vezes. Já ao teatro, posso contar nos dedos espetáculos que assisti mais de uma vez. O que a princípio não deixa de ser uma incoerência. Afinal, o filme não vai mudar e um espetáculo nunca é o mesmo. Entretanto, tinha ido ver logo perto da estréia, ainda com Zé Mário no elenco. Gostado muito. Publicado meu comentário por aqui. Não tinha idéia de voltar, mas fui convidada pelos meus colegas de mestrado Gilberto Fonseca, o diretor e pelos atores Marcos Chaves e Ariane Guerra para ir ver O Avarento neste dia das mães. De novo.
Falei sobre a programação a minha mãe que, em poucas conversas com o Gilberto já virou fã. Sugeri levarmos as tias. Elas toparam. Só quem conhece as Barcellos de Mello sabem que não é uma platéia fácil. Embora minha mãe tenha lido muito sobre teatro durante sua formação enquanto professora de francês, várias obras no original e venha acompanhando por tabela meu interesse há mais de uma década, ela não tem o hábito de ir ao teatro. Sua irmã já é mais interessada. Mãe da Angela Spiazzi do grupo Terpsi sempre que pode ou é convidada vai assistir aos espetáculos que se apresentam na cidade. Muitas vezes, me acompanha. A terceira, já foi ver algumas coisas até comigo no palco, outras para as quais convidei e seguido vai assistir a neta Fernanda cantando. É a mais exigente e mais crítica.
Explicado isso, quero dizer que me diverti assistindo novamente o espetáculo, me admirei de novo com a qualidade do figurino, dos deslocamentos no palco, da atuação do elenco. Só reforçou minha primeira impressão: é um ótimo espetáculo, feito com toda dedicação e muito bem dirigido. Acho que não tinha falado sobre a direção antes. Talvez, por não me considerar capaz de avaliar este quesito. Mas, as vésperas de defender meu título de mestre, vou fazer esta ousadia.
Quanto a minha mãe e as tias, adoraram, se divertiram, elogiaram todos. Fizeram questão de me agradecer por tê-las convidado. Consegui fazer três mães felizes em pleno dia das mães levando ao teatro e isso, é claro, me faz feliz. Ainda mais por ser um espetáculo feito pelos meus amigos.

PS: Alguns do elenco não conheço muito, mas desejo que se tornem meus amigos, pois nunca escondi que gosto de estar perto de gente talentosa.

Friday, May 07, 2010

Relaxando em SAMPA?

Quem disse que não dá para descansar em São Paulo? Como não gosto de viajar sozinha, acabei convidando minha cunhada para ir comigo. Aqui de Porto Alegre mesmo tracei nossa programação. Algo digno de uma guia turística. Passagens compradas e hospedagem garantida, lá nos fomos! Faço aqui o relato destes 4 dias em São Paulo. Sabia que ficaria longo, mas resolvi não editar. Assim, leiam o que quiserem, mas já adianto: cada dia teve momentos gastronômicos, culturais, turísticos...

1º DIA: DOMINGO – PERNAS PARA QUE TE QUERO (Aqui, não sabia que o “erro” linguístico seria justificado ainda durante este relato).
Para conseguir as menores tarifas, a hora de sair de Porto Alegre, era 7h30. Muito cedo para mim. Bem, mas pouco tempo depois já estávamos chegando no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Chegaríamos antes do início de nossa diária, mas acostumada com a “camaradagem” hoteleira gaúcha, achava que conseguiríamos nos instalar. Nada feito. Podíamos deixar a bagagem, pagando R$ 5,00 por cada volume. Saímos em busca de uma padaria indicada por um conhecido lá perto, chamada Princesa. O Google havia me dado o caminho. Chegamos na rua e nada. Usei o método tradicional: perguntei para uma senhora que passava. Estava em frente, mas o nome havia mudado. Entramos e descobrimos que havia um esquema de “brunch” em  que pagaríamos um preço único e poderíamos comer todo o tipo de pão, bolacha, bolo, assim como tomar espumante, comer ovos, queijos, etc. Fila. Mas os paulistas pareciam não se importar, então, não seria eu a me incomodar. Rapidamente, conseguimos nosso lugar. Bem alimentadas, a ideia neste dia lindo de sol era ir ao Parque Ibirapuera.
Dias antes, me divertira fazendo os trajetos pelo Google maps. Nada como alguém que saiba nos dizer de onde viemos e para onde vamos! O que não aparece, porém, é que o trajeto pode ser lomba acima ou lomba abaixo. Porém, começamos a perceber que nos aproximávamos quando começaram a aparecer os primeiros ciclistas, corredores, pessoas com roupas de ginástica. Neste momento, tínhamos certeza de que nossos trajes não estavam adequados para a temperatura.  Ainda gripadas e saídas do sul, todas nossas roupas eram mais quentes do que o necessário. Meu celular tocou. Era uma amiga nossa que depois de fazer o caminho inverso do meu (formada em teatro e depois em jornalismo) está morando em São Paulo. Combinamos de nos ver aquela noite.
Finalmente, chegamos ao parque. Entramos pelo portão 8 e eu já quis ir em busca de minhas referências: os pavilhões da Bienal. Passeamos vendo uma multidão de pessoas, entramos no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Lá pelas tantas, achei que seria interessante pegar um ônibus e ir ao Shopping Ibirapuera já que tantos consideram um ponto turístico. Definitivamente, não me incluo entre estes. Tirando a possibilidade de entrar e comprar uma regata e já sair com ela, pouca diferença faz de nossos shoppings por aqui. É claro que o fato de morar do lado do Barra Sul afetou meu julgamento. Assim, após nos hidratarmos, estávamos de volta na rua.
Em dúvida sobre qual a melhor forma de transporte, sugeri que seguíssemos a pé e que quando estivéssemos cansadas, decidiríamos por um táxi ou por um ônibus (a quem eu queria enganar?). Sem ter previsto este trajeto, começamos a nos perder. Sei lá o que me leva a achar que minha intuição me indicará o caminho correto. Andamos, andamos, andamos com o sol em nossas cabeças, pernas, braços. Até que parei para olhar o mapa. Letras miúdas e pedaços de nomes de ruas separados me faziam acreditar que estava andando por uma rua chamada República e que deveria ir até a rua Líbano. Em verdade, após perguntar para duas senhoras que passavam, descobri que já estava na República do Líbano e que deveria andar pelo menos mais oito quarteirões. Após ter passado por todas as clínicas médicas possíveis, casas antigas extremamente bem cuidadas que indicavam o “gabarito” dos médicos, constatamos que estávamos no portão 2. Estávamos fazendo a volta no “pequeno” parque. Decidimos (ou nossas pernas?) que já era hora de pegar um ônibus. Ao chegar na avenida Paulista, sem que o cobrador lembrasse de nos indicar onde deveríamos descer, enquanto esperávamos o sinal fechar, fomos importunadas por um senhor de idade que insistiu em saber nossos signos orientais. Entregou uma folha para cada uma e pediu uma ajuda. Dou R$ 1,00 e pouco, o troco que tinha no bolso, pois ainda não estou preparada para ficar vasculhando minha bolsa em plena Avenida Paulista. O senhor nos xinga. Pede de volta um dos papéis (Seria o único a nos importunar durante toda a viagem). Pouco tempo depois, estávamos em nosso hotel. Outras bolhas nos pés se juntaram a que eu havia levado de Porto Alegre.
Algum tempo depois e estava na hora de encontrar nossa amiga. Sugeri que fossemos até um bar há algumas quadras do hotel. A “recém paulistana” não pareceu muito animada com a ideia. Preocupada com a segurança e sem muita disposição para caminhar pelas ruas de São Paulo não via a hora de chegar ao tal destino. Acabamos, assim, escolhendo jantar em uma pizzaria que já estava de qualquer forma incluída na programação. Ótima pizza, vinho e conversa, na volta, pegamos um táxi até o hotel e ela seguiu até a Vila Madalena.

2º DIA: SEGUNDA - PARA SE SENTIR EM SÃO PAULO

Descemos para tomar café. Sentamos à mesa que estava posta. Víamos garçons, outras pessoas tomando café, mas ninguém veio falar conosco. Foi quando observamos um movimento dos hóspedes em direção a uma outra sala que percebemos que devíamos ir até lá se quiséssemos comer algo. Estranhamos o atendimento, além do pó na sala de ginástica e o pequeno tamanho da piscina.
Apesar de ouvir dizer que quem vai a São Paulo tem que passar pela 25 de março, eu não trazia na memória boas lembranças. Bem, mas não iria tirar de minha cunhada esta oportunidade. Sem saber como seria ir de metrô e seguindo as dicas do Google, pegamos um ônibus. Ao pedir ao cobrador que nos dissesse onde descer, recebemos de volta...nenhuma palavra, gesto, expressão facial. Outro passageiro, empático com nosso problema, disse que nos avisaria. Assim, descemos atrás da Igreja da Sé. Linda, por sinal. Mesmo sem vínculos religiosos gosto de entrar em igrejas e minha comparação (graças a Deus) é sempre com a Notre Dame que, alias, não tem o “glamour” de tantas outras. É preciso usar a imaginação de toda a história que se passou por aquelas paredes para que a gente, realmente, se emocione. Rumo a 25 de março. Fiquei surpresa com a tranquilidade que tivemos de entrar e sair de lojas. Muitas. Preços incomparavelmente menores para bijuterias e sapatos. Lembrando que o objetivo da viagem não eram as compras, assim mesmo sai de lá com uma nova sandália e alguns prendedores de cabelo.
Hora do almoço. Destino: bairro Liberdade. Outro ponto turístico da cidade. A sede e a memória me fizeram escolher um dos primeiros restaurantes. Repartimos um salmão com um molho de pimenta rosa e tomamos um vinho branco. Também em uma das primeiras lojas, encontro um casaco japonês vermelho e preto lindo. Por um valor para lá de razoável. Saio da loja com mais uma sacola. Sou abordada por uma pessoa e entendo que ela me perguntava “quem é Galvão Bueno?”, surpresa, respondo: um jornalista e apresentador da área esportiva. Ela sorri e diz: Queria saber onde fica a rua com este nome. Rimos juntas. Mais algumas lembrancinhas orientais e estava pronta para pegar o metrô, refazendo um trajeto que havia feito há pelo menos cinco anos. Foi, então, que rememorei a facilidade de andar neste meio de transporte. Muitas indicações e um trajeto inalterável por um preço mínimo. O paraíso dos turistas. Aliás, esta era uma das estações que tínhamos que cuidar, pois trocávamos de linha. O que parecia complexo no papel foi muito fácil na prática.  
Chegamos cedo ao hotel. Saímos no final da tarde para tomar um café. Vi o hotel Maksoud. Resolvemos ir até lá “espiar”. Entramos e sentamos na cafeteria. O lugar é mesmo impressionante. O interior do prédio é “oco” e os apartamentos ficam em volta. Mas ficamos lá durante uns 20 minutos. Atendentes e garçons circulavam pelo salão e nenhum veio perguntar o que queríamos. Por um lado, não nos impediram de estar ali. Por outro, nos ignoraram por completo. Decidi ir até a Casa das rosas, pois sabia que era um lugar de atividades culturais. Estava fechado. Ia ter um evento. Na volta ao hotel, passamos por um grupo com cartazes escrito “Abraço”. Não lembrava que era uma campanha do australiano Juan Mann, mas sabia que se tratava de uma “intervenção” chamada free hugs. Ao ser abordada, recusei. Mas cheguei poucos passos depois,  resolvi voltar. Fui na direção da menina que havia me pedido um abraço e disse que queria. Ela sorriu. A gente se abraçou. Minha cunhada esperava na esquina. Comentei que teria que contar isso a minha mãe que estava tão temerosa com nossas andanças paulistas e eu lá abraçando uma desconhecida em plena Avenida Paulista! De volta ao hotel. Hora do descanso.
Na lista dos lugares para comer e beber outra coisa que não água, estava o tal Squat. Localizado por minhas pesquisas prévias na internet. Um pouco em dúvida quanto à segurança do bairro (depois dos temores de minha amiga), pegamos um táxi. Por R$ 8,00 percorremos as várias quadras até o lugar. Vazio. Decidi fazer uma mudança na programação e ficamos no bar da esquina: o Malley’s. No cardápio, algumas combinações exóticas e deliciosas. Bom preço. A bebida nem tanto. Mas eu sou daquelas que não consigo saborear algo sem um vinho acompanhando. Tenho que lembrar de prever isso no meu orçamento turístico. Muito agradável o lugar, mas saímos cedo. O cansaço nos obrigava a retornar ao hotel, porém, para aproveitar a noite e o movimento: a pé.

3º DIA: TERÇA – MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA
Chegava o dia do objetivo real da minha vontade de ir a São Paulo: voltar ao Museu da Língua Portuguesa. Mas antes, havia previsto uma passagem pela José Paulino, rua famosa pelas mercadorias que atraem lojistas gaúchas que buscam produtos para revender aqui.  Agora, o metrô seria nosso transporte favorito. Meu mapa, porém, não era claro sobre a Estação da Luz, onde pretendíamos descer. Era ainda mais fácil do que imaginávamos. Também para nossa surpresa, pouco movimento. Roupas lindas. Preços mais ainda. Sem a intenção de comprar, resistíamos a ofertas incríveis. Claro que não o suficiente a ponto de não fazermos também nossas comprinhas, o que para minha cunhada significou três trajes completos ao preço de um daqui. Fomos salvas pelo fato de que em diversas lojas não aceitavam cartão de crédito (só dinheiro ou cheque) ou de venderem apenas por atacado (em muitos casos, isso significava escolher 12 produtos, o que nem era tão complicado assim).
Próxima parada: a Pinacoteca. O prédio é lindo. Meu plano era almoçar lá. Lembrava que o lugar era agradável e que tinha coisas deliciosas para comer.  R$ 6,00 depois, estávamos sem nossas sacolas, ufa! A primeira pergunta que faço a quem recebe os nossos tickets é qual o acesso até a cafeteria. A resposta: está fechada! Assim, ficamos vendo as obras de Rodin, Anita Malfaltti, entre outras. Descubro que Portinari morreu envenenado pelas tintas! Não fazia a menor ideia. Além disso, vimos as obras elaboradas por ele a pedido do mecenas Castro Maia, um dos primeiros a transformar sua coleção em patrimônio público, doando, inclusive, sua residência.
Atravessamos a rua, estamos no Museu da Língua Portuguesa. Mesmo sabendo que a visita seria fascinante, meu interesse continua sendo matar minha sede. O rapaz que recebe os nossos bilhetes, nos indica a cafeteria da Pinacoteca e se surpreende quando eu digo que está fechada. Ou seja, já estou começando a dar informações. Na entrada, esbarramos em várias placas de acrílico com pedaços de palavras suspensas. Como não consigo lê-las, decido consultar uma das mediadoras. Este é um hábito que só adquiri depois de ser eu mesma uma. Gentilmente, ela nos passa todas as explicações. Era preciso espiar por um buraco para que as frases fizessem sentido. A exposição do momento chama-se “Menas”. Uma provocação que coloca em debate a forma como tratamos a língua, apontando a linha tênue entre o certo e o errado, dando ênfase a comunicação.
Fomos direto assistir ao vídeo que faz uma apresentação sobre a língua portuguesa. Eu já me encanto com o fato de que o logotipo do museu é uma constelação formada de letras. Assim, o vídeo as coloca em movimento pela “atmosfera”. A seguir, várias pessoas vão falando sobre a importância da língua. A voz de Maria Bethânia aparece com uma frase de Fernando Pessoa: “quem não vê bem uma palavra, não pode ver uma alma”. Depois, passamos para uma sala onde as palavras circulam do teto ao chão e somos envolvidos pelas luzes que são na verdade letras, textos, poesias. A voz de Dorival Caymmi me emociona pela sua leveza e tranquilidade cantando: “coqueiro de Itapuã, areia...” Só lá para ouvir José de Alencar na voz de Zé Celso Martinez Correa!
Saindo desta sala fomos explorar o resto do Museu que coloca à disposição dos visitantes várias “estações” interativas. Computadores com interfaces bastante simples de serem acessadas e informações interessantes. Entre estas, um jogo de certo ou errado da língua portuguesa que era, na verdade muito mais uma maneira de instruir o jogador do que outra coisa. Entre muitas dicas e informações fiquei sabendo que a palavra “eslaide” foi aportuguesada! Esta exposição abre espaço para a língua que anda nas ruas e isso inclui para-choques de caminhão. Cheguei a anotar uma: “A fé move montanhas, mas os ecologistas são contra”. É nesta exposição que frases como do meu primeiro subtítulo são justificadas. Pode!
Outro espaço bem bolado eram os vídeos com a mesma atriz fazendo quatro personagens diferentes. Cada um “encarnando” uma norma: a gramatical, a lexical, a semântica e a discursiva. Ocorria diante dos visitantes um diálogo entre elas sobre o certo e o errado das frases em cada situação. Sem dúvida, uma forma divertida de esclarecer do que se tratava. Na saída, entramos na estação de metrô em frente e pouco tempo depois, estávamos no hotel. Enquanto descansávamos, víamos Os Normais 2. Quando terminou disse a minha cunhada: ainda bem que não fui até o cinema ver isso. Ela disse: pois eu fui. Quase todo o filme é Fernanda Torres e Luis Fernando buscando uma parceira para um ménage à trois.
À noite, fomos, finalmente, ao SQUAT. O cardápio era muito atraente. Pedimos coisas deliciosas para comer e, claro, vinho. De sobremesa churros com sorvete. Recomendo. Na frente, manobristas cobrando R$ 15,00 para estacionar os carros. É...parece que fazer isso em São Paulo vale cada tostão. Se bem que minha cunhada disse que eles ganham mesmo melhor do que nós. Uma movimentação intensa no prédio em frente chamou nossa atenção. Pensamos que era alguma inauguração. Perguntamos para o garçon e ele disse: não, é uma igreja chamada A Cabala. Ele contou que só este ano a Madonna já esteve lá duas vezes. Ah, se eu soubesse...Falha minha não ter incluído uma visita na programação.

4º DIA – QUARTA-FEIRA: ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU CORAÇÃO
A ideia era, finalmente, ir ao MASP. Há apenas algumas quadras do nosso Hotel tinha ficado para o último dia. Como só abria às 11h, saímos pela Paulista e começamos a voltar pela Oscar Freire, rua das lojas de griffe. Na calçada, na nossa direção, vinha uma pessoa bem magra com um chapéu de aba super larga e óculos escuros que me chamou a atenção. Ao passar por ela me dei conta de que era, justamente, Fernanda Torres. Sabendo que este era o seu “disfarce” para não ser reconhecida, não pensei em pedir autógrafo, mas me passou pela cabeça ir dizer que topava o ménage à trois. E se ela aceitasse? Melhor não.
Mais R$ 25,00 para guardar as bagagens após o término da diária e lá estávamos nós no Museu de Arte de São Paulo. Quatro exposições estavam acontecendo. De cara uma exposição de “retratos”. Os detalhes, a capacidade de alguns artistas pintarem os olhos das pessoas que encomendavam seus retratos, a riqueza das vestimentas, me atraem. Logo em seguida, uma exposição sobre o Romantismo. Muito bem montada. Separada pelas características deste período artístico (natureza, exotismo, urbanismo, etc), as explicações eram claras e a grande maioria das obras impactantes. Tive o prazer de ver O Azul e o Rosa de Renoir de novo. Como é bom (re) conhecer obras de arte. O que achava que seria impossível, hoje, já acontece de vez em quando. Olhando à distância sei que é um Modigliani, um Lautrec, un Van Gogh, um Picasso. Claro que não ponho minha mão no fogo, mas não sou mais tão ignorante em artes plásticas e isso graças a pessoas que souberam me instigar, que foram generosas em repassar seus conhecimentos, sem a arrogância que tão seguidamente acompanha algumas outras, que fazem questão de dar esta ideia de que a arte é só para entendidos.  
Ainda lá no MASP vimos o processo de recuperação das obras do francês Poussin, um dos maiores representantes do classicismo do século XVII. Muito interessante. Tudo explicadinho. Passo a passo. Além das próprias obras. Ou seja, um verdadeiro antes e depois.
Minha cunhada, que acha que não entende de arte, fez ótimos comentários partindo única e exclusivamente de suas observações. Foi isso que aprendi com um artista plástico que até hoje é muito especial para mim: olhar as obras sem o compromisso de saber sobre elas, a explorá-las como só as crianças sabem fazer, sem preconceito, sem ideias preconcebidas, sem julgamento, sem compromisso. Aliás, havia um grupo delas sentada no chão do museu ouvindo, atentamente, as explicações da mediadora. Adoro quando isso acontece. Olhei para eles com interesse. A mediadora me olhou de volta e sorriu.
Precisamos lembrar que o objetivo da arte não é separar as pessoas em categorias, mas tocá-las, sensibilizá-las, provocá-las. Em função do mercado da arte e daqueles que se dizem especialistas, esquecemos disso. Aprendi, participando das Bienais, a andar pelos Museus de forma inquieta e curiosa fazendo minhas próprias descobertas e me permitindo não me interessar por algumas propostas artísticas sem me sentir estúpida por isso. Obrigar as pessoas a gostar de alguma coisa, só as afasta ainda mais, o que é, sem dúvida, uma pena. Nesta visita ao MASP, me deparei com uma palavra que não tinha a menor ideia do significado. Refiro-me a “palimpseto”. Prometi a mim mesma verificar o que era: palimpsestos são pergaminhos que, depois de lavados e raspados para apagar o texto primitivo, são reutilizados para outro texto; o próprio nome já diz: palim (Grego, “de novo”) e psestos (”raspar”).  Segundo o professor Claudio Moreno pode ser utilizado, metaforicamente. “A vida é um palimpsesto”. (Todos nós seríamos esse conjunto de inúmeras camadas superpostas, nem sempre visíveis a olho nu, que foram se acumulando ao longo de nossa existência; todos nós somos “palimpsestos”, escritos e reescritos continuamente). 
Passei batido pela exposição de Max Ernst. 184 colagens criadas pelo artista que foram reunidas no que foi chamado de “une semaine de bonté” (uma semana de bondade). Na descrição dizia que havia uma crítica cáustica e surrealista às convenções sociais da Europa do período entre guerras. Não me detive, mas percebia que cada uma poderia render longas discussões na mão de um bom mediador.
Antes de almoçarmos lá mesmo, vimos uma exposição chamada Festival do minuto. Onde as pessoas eram convidadas a enviar seus vídeos-respostas sobre algo em relação a cidade de São Paulo. O melhor receberia um prêmio de dois mil reais. Gostei mais da ideia do que dos vídeos que vi. Achei que é algo que poderia ser implantado por aqui.
Lá pelas tantas vejo um recado de uma das pessoas que faz parte da minha pesquisa de e que mora em São Paulo. Tínhamos pensado que seria uma oportunidade para nos conhecermos, já que desde 2008 quando comecei meu mestrado apenas nos falamos virtualmente. Faltavam poucas horas para eu sair da cidade quando conseguimos, finalmente, sentar para tomar um café. Nossa conversa comprovou uma teoria minha de que a virtualidade, embora não substitua os contatos pessoais, pode aproximar as pessoas e que a linguagem é, realmente, algo que nos permite encontrar gente que compartilhe das mesmas ideias. Foi rápido, mas muito interessante e agradável. Mais um bom momento desta viagem que para mim já  tinha sido perfeita. Não podia eu imaginar que ainda haveria mais.
Mal entramos no avião, começamos a ouvir um comissário com um sotaque carioca começar a dar os avisos de um jeito muito engraçado. Disse que o nosso voo seria de 40 minutos que passariam voando, literalmente. Ao falar das máscaras que cairiam caso acontecesse alguma coisa, completava com: assim eu espero. Assim como:  “Em poucos instantes nosso serviço de bordo estará servindo...toda nossa simpatia”. Ele não apenas dizia coisas engraçadas, mas tinha o tempo certo para fazer as pausas, exagerar a voz, etc. Dá para ter uma ideia acessando, como ele próprio sugeriu, o youtube e pesquisando por Ronald, o comissário.
Chegando no aeroporto, as pernas doíam e o sono era grande, mas, se o corpo demonstrava sinais de cansaço, sair da rotina, trouxe, sem dúvida, novas energias. Foram quatro dias sem ler jornal, sem acompanhar nenhuma roubalheira política, nem saber de nenhum ato de violência no Brasil ou no mundo. Alguém quer algo mais repousante do que isso?
Não estranhei as pessoas, não me sentir diferente daquele povo. Ao contrário, tinha a impressão de conhecer vários rostos até que, realmente, esbarrei em uma professora gaúcha amiga da família caminhando pela Paulista que estava de passagem com destino para a Turquia. O mundo é mesmo uma ilha.
Não, não cruzei a Avenida Ipiranga com a Avenida São João, mas alguma coisa aconteceu em meu coração. Com ou sem garoa, São Paulo, definitivamente, me conquistou.
Obs: Levei um livro para passear em São Paulo tendo em vista que ele até saiu da mala, mas  não li nem uma página.

Tuesday, April 27, 2010

Estrelas e anjos

Muita gente fala que ficar em casa vendo tv não presta, mas acabo de assistir duas coisas que valiam a pena. Primeiro, a entrevista de Marília Gabriela com Nelson Xavier e Antônio Angelo. Os dois atores falaram sobre o filme Chico Xavier. É gostoso ficar sabendo que Nelson Xavier se irritava quando as pessoas se confundiam e o chamavam de Chico e que, no entanto, este foi o único papel que ele, realmente, quis fazer na vida. Assim, como é divertido ouvir Antonio Angelo dizer que voltou a ter medo do escuro. Para mim, que pouco sei sobre Chico Xavier, mas que estudei durante bastante tempo o espiritismo, agrada que ambos tenham ficado admirados com a pessoa que protagonizaram no cinema. Nelson Xavier chegou a dizer que o papel mudou sua vida. Pelo menos, fez uma grande diferença que ele gostaria de manter. Está mais calmo. Aliás, o jeito manso dos dois fez com que a entrevistadora até brincasse com a situação, dizendo que tamanha tranquilidade a deixava meio desconfortável.

Logo depois, peguei já andando o programa Profissão Repórter que não costumo ver com frequência, mas que está sob o comando de Caco Barcellos que há muito conquistou minha admiração. Pude assistir a dois jovens jornalistas, um homem e uma mulher fazendo a cobertura dos bastidores dos shows de Roberto Carlos nos Estados Unidos. Chamou minha atenção que a jornalista embora nervosa por ir falar com o Rei, acabou perguntando se ele havia composto algo lá em Nova York. Roberto Carlos reagiu de forma extremamente simpática e disse que em mais de 50 anos ninguém havia perguntado isso. Responde que sim e fala de três canções: Emoções, Cavalgada e Lady Laura. Mal sabia ele que, no dia seguinte, receberia a notícia da morte de sua mãe. Antes disso, porém, vi Roberto falando, novamente, com a jornalista, fazendo questão de cumprimentá-la na entrada do teatro. Pareceu-me que o fato dela ter conseguido ser inédita em suas questões havia conquistado o respeito do cantor. Talvez não seja isso. Talvez, ele seja sempre assim. Não sei. De qualquer forma, não tenho dúvidas de que nenhum dos jovens jornalistas poderia imaginar que estariam fazendo parte de um dos momentos mais emblemáticos da carreira do ator. Como se já não bastasse ele estar comemorando seu aniversário, chegando a cortar o bolo no palco, no segundo dia, Roberto receberia a notícia da morte de “Lady Laura”. Seu show seria suspenso e ele retornaria ao Brasil.

Assim, em poucas horas recebi informações jornalísticas curiosas e assisti a inexorabilidade da vida, seja pela história de vida de Chico Xavier, os shows de Roberto Carlos e a morte de “Lady Laura”. Vendo os registros destes momentos, percebo que ando tão acostumada a apenas ler ou receber de “segunda mão” os fatos que ando perdendo o prazer de assistir mesmo que não seja ao vivo momentos como estes e nestas horas, no sofá da minha casa, compreendo porque Roberto pedia para sua mãe o levar para casa.

PS: Falando em estrelas, aproveito para contar que, hoje, minha irmã esteve em contato com crianças que trabalham com os Jogos Boole, criados pelo meu pai, que disseram que sabiam que ele agora era um anjo. Mas não conseguiam entender como ele podia adivinhar que elas não gostavam de matemática.

Friday, April 02, 2010

Chico Xavier: "Eu sou como um carteiro"

Sexta-feira santa. Escutei na tv que era um dia de recolhimento para os católicos. Embora não siga exatamente os preceitos desta religião, virou tradição, pelo menos, comer peixe e tomar vinho. Também não me imagino na farra neste dia. Para dizer a verdade, acho que em nenhum outro, tão pouco. Por outro lado, a vontade de sair por aí era grande. Então, o que sobra? O cinema. Como minha mãe e minha irmã estavam com a mesma vontade, escolhemos ver a estreia de Chico Xavier. Havia achado o Globo Repórter, dedicado a ele, muito fraco. Depois de tantas chamadas, eles ficaram numa conversa mole muito decepcionante. Mesmo para quem acredita na vida após a morte, não acrescentou lá grande coisa. Como sempre, pouco li a respeito do filme. Vi uma matéria em algum lugar e observei que a semelhança entre o ator Nelson Xavier (que faz um dos períodos da vida do espírita) e o próprio Chico Xavier era grande. Conquista do ator, aliás que, sendo bom, tem a capacidade de “clonar” os trejeitos, jeito de andar, tom de voz de seu personagem.
Escolhi o Cinemark do Barra shopping Sul pela proximidade de casa. Já na entrada, fiquei surpresa com a quantidade de gente no cinema. É feriado, é verdade. Mas tem tantos filmes interessantes em cartaz...Não sabia que este tema iria atrair tão bom público para assistir a um filme nacional. Pensei na influência neste sentido de Jorge Furtado, ou melhor, da Casa de Cinema inteira aqui no Rio Grande do Sul. Não fizessem eles filmes do agrado do público e não batalhassem tanto pelo cinema brasileiro, provavelmente não haveria tanta gente naquela sala quase lotada. Logo depois, lembrei da força do próprio diretor, Daniel Filho. Ao fazer Se eu fosse você 1 e 2 e cair no gosto da plateia, também acaba levando muita gente para frente das telas. E, de fato, não há arrependimentos. É preciso conhecimento, experiência e talento para contar a história da vida de uma pessoa tão complexa e, ao mesmo tempo, tão simples quanto a de Chico. Claro que algumas características, talvez, agradem, mais particularmente a mim. A que norteia o filme, por exemplo. Afinal, a história é contada a partir da aparição do médium em um programa de tv até com aquele papo de “corta para a câmera um”. Para mim, jornalista, é sempre um prazer observar estas coisas mesmo que “nos bastidores”.
O roteiro criado joga com cenas do passado e do presente de um jeito que dá dinâmica a um filme que se concentra, basicamente, em seu protagonista e, se não fosse tão bem construído, acabaria por levar todos ao mais profundo tédio. No entanto, o que acontece é, justamente, o contrário. Apesar de já conhecer a trajetória de Chico Xavier (mesmo sem ter lido a biografia de Marcelo Souto Maior na qual o filme foi embasado), o elenco me conduziu pelas cenas de forma agradável e cativante. Angelo Antônio, que já conquistou o Brasil em Dois Filhos de Francisco, tem uma atuação impecável. Luis Melo no papel de pai de Chico também fica na mesma altura. Pedro Paulo Rangel, que sempre me conquista em cena, aparece no papel de um padre. Além de vários outros nomes que vão dando solidez a história como Tony Ramos, Giulia Gam, Letícia Sabatella, Giovanna Antonelli. A novidade para mim é Mateus Costa que faz o personagem menino com muita autenticidade.
No mais, a história é emocionante, sem ser piegas, divertida, sem ser comédia, curiosa, sem ser boba. Não cai na esparrela de tentar julgar as crenças de Chico Xavier ou dos espíritas. É um filme que conta uma história, retrata uma personalidade que diverte e instrui. Em doses homeopáticas traz alguns pensamentos mais conhecidos de Chico. Algumas frases ditas por ele, diálogos com o seu “guia espiritual” como quando ele diz: “Isso é impossível”. E Emanuel retruca: “só se você acreditar que é”. Ou outra, quando ele se queixando das acusações publicadas pela imprensa, ouve: “Jesus foi para cruz. Você só foi parar na revista Cruzeiro”. Momentos como este tiraram gargalhadas de plateia. O filme consegue tramitar entre a vida ordinária e a vida extraordinária do Chico com um capricho que o cinema brasileiro merece.
Confesso que tendo grande simpatia pela temática do filme, não saberia dizer se ele terá o mesmo impacto para quem nunca se sentiu atraído pelo assunto. Embora, eu arrisque dizer que quem gosta de cinema e de gente, não tenha por que não se agradar de Chico Xavier. Do filme ou da pessoa que se dizia apenas um carteiro, um entregador de mensagens. . 

Para quem gosta de ler mais: www.chicoxavierofilme.com.br

ERRATA: Voltei neste fim-de-semana ao cinema e me dei conta que a frase que fala sobre o que é possível ou impossível faz parte do trailler do filme Alice. Nada a ver com o filme do Chico Xavier. Por esta eu não esperava...