Saturday, April 04, 2009

A crítica nos bastidores

"No dia que um sujeito atrevido quisesse ter o trabalhão de escrever contra o teatro, devia antes suicidar-se" 

João do Rio - A crítica dos Bastidores - O Percevejo Ano II, nº2, 1994

Wednesday, April 01, 2009

Recomeço

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."

Fernando Sabino

Tuesday, March 31, 2009

Tá e aí?

Há quem diga que devamos esperar para escrever sobre o que acaba de ser visto. Não discordo e nem concordo com esta opinião, mas, simplesmente, não pretendo respeitá-la. Acabo de voltar da comemoração de encerramento de uma temporada do espetáculo “Tá e aí?” (acredito que serão muitas) e confesso que não vou dormir direito enquanto não registrar minhas impressões. Fui assistir algo que levava o nome de duas pessoas muito queridas para mim: Julio Conte e Ian Ramil. Um, embora de tempo na terra semelhante ao meu, anos luz no caminho que eu acabaria escolhendo tardiamente: o teatro. Outro, colega de sala de aula onde demonstrava um talento e uma competência que não passa despercebida. Ou seja, a expectativa era grande. Por razões estritamente particulares, o ânimo não era dos melhores. Mas, lá me fui. Teatro praticamente cheio. Logo de cara a relação palco e platéia se estabelece e começam os jogos. Ian não está em cena.

 

Para quem fez práticas teatrais não são novidades totais, mas, a maneira como vão se apresentando impressiona profundamente. Exatamente por reconhecê-las é que é possível saber o grau de complexidade de algo que parece banal. Improvisar é uma das premissas de quem faz teatro, mas, como exercício testa o ator. Rapidez no raciocínio, disponibilidade, coragem de encarar cada desafio. Tudo está lá. O prazer é intenso. A risada vem fácil. O que acontece faz pensar: não é exatamente isso o teatro? Tendo como mestre primeiro Zé Adão, sendo aluna do DAD desde 2001 e hoje teórica do mestrado de artes cênicas, o espetáculo Tá e Aí condensa tudo e me traz à tona o fascínio completo e absoluto pelo teatro.

Quem pode não gostar de ver que tudo não passa de um jeito de brincar com a realidade, jogar com as palavras e ir além? Lembro de Augusto Boal com suas propostas do teatro fórum, teatro do invisível, teatro no dia-a-dia. “Tá e aí?” é isso tudo e mais. Tive certo receio quando pensei que a platéia deveria interagir. O que, sem dúvida, é ainda mais complicado para o público comum. No entanto, não há coerção. Participa quem, realmente, quer. E apesar de que quase tudo que é feito no palco ser feito nos moldes do que é proposto para os estudantes de teatro, não estamos falando de algo para principiantes. Quem está começando não tem o tempo certo como Rafael Pimenta, nem o jogo de cintura de Eduardo Mendonça e desse menino que não conhecia  ( e com certeza ele não faz a mínima idéia de quem eu seja) Leonardo Barison. Isso sem falar nas convidadas de hoje Ingra Liberato e Juliana Brondane. 

 Fiz várias anotações sobre cada proposta cênica, mas, vejo que nenhuma delas é importante ser registrada (aliás estão no blog para quem quiser saber). Vão ser retomadas nas próximas apresentações? Certamente. Mas, não é isso que importa. O que fica é o prazer de um teatro bem feito, com gente talentosa. Definir cada cena? Para que? Afinal, não é absolutamente delicioso pensar que o que vi hoje não vai ser o que será visto na próxima temporada? Eu quero voltar, mas, mais do que tudo, gostaria que outras pessoas fossem ver um teatro no qual a gente lava alma por ser divertido, por ser feito por gente com tanta competência e resultar em algo tão genial. 

O teatro precisa de mais gente assim que se doe pela arte, que se libere do ego, sem preocupações com a permanência e que, por isso mesmo, seja eterno se não historicamente em nossas memórias. Graças a pessoas assim e a um teatro como este sei que esta arte terá vida longa.

Fiquem atentos a próxima temporada na Álvaro Moreira: 14/21/28/ de abril e 5 de maio.

Créditos:

Direção: Clube da Patifaria.

Jogadores: Eduardo Mendonça, Ian Ramil, Leonardo Barison, Rafael Pimenta e Vicente Vargas.

Mediação: Júlio Conte.

Anfitrião: Mauricião.

Luz e som: Gabriel Lagoas.

http://blogdotaeai.wordpress.com

Faz dias que este verso vem me perseguindo, então, publico aqui. 

Bebeto Alves foi muito feliz quando escreveu:

Nas pegadas das minhas botas

Trago as ruas de Porto Alegre

E na cidade de meus versos

O sonho dos meus amigos

Monday, March 30, 2009

Rebatizemos a crítica!

Vivo em contradição. Não gosto de comprar briga com ninguém. Não sinto prazer em contrariar as pessoas, nem em provocá-las. Mas, preciso reconhecer que não sei deixar passar impunemente coisas ditas que me incomodam.  Cresci em um ambiente polêmico. Meus pais sendo professores sempre debateram assuntos políticos, sociais, econômicos, comportamentais, durante o almoço, na hora do café, nos encontros de família. Era natural para mim. Ficava surpresa quando algum amigo comentava: "a tua casa é tão diferente da minha. Lá, meu pai me diz para eu passar a manteiga. Aqui, vocês comentam as atitudes do presidente!". E não é que era assim mesmo? Provavelmente, venha daí minha escolha pelo jornalismo.  Pronto! Associei minha curiosidade às técnicas de elaborar perguntas de improviso e nunca mais parei.  Meus professores, desde o segundo grau pelo menos, são testemunhas disso. Quem me conhece há pouco tempo (e gosta de mim) ainda estranha. Acha que estou brava. Fica com medo que os outros me tratem mal. Eu perdi este medo faz tempo. Fiz amigos que admiro e respeito com este jeito de ser. Provavelmente, tenha feito alguns inimigos também, mas, eles não se apresentaram e, portanto, não me incomodam. 

Bem, mas, isto tudo é para falar do evento chamado "Estado da Crítica" ao qual me referi antes, pois, apesar de, praticamente, roubar a palavra, ainda tenho alguns comentários para fazer. 

Há um ano atrás, quando preparei meu projeto para o mestrado em Artes Cênicas levantava questões sobre a função da crítica, quem poderia fazer crítica, como formar um crítico. Hoje, depois dos estudos que fiz, percebo que estas questões eram superficiais e estavam impregnadas de conceitos (ou preconceitos) sobre a crítica. Quem tem acompanhado um pouco das minhas descobertas sabe que temi por ter escolhido um tema que já fizesse parte de um passado, morto e enterrado. Felizmente, era só uma impressão.  Aqueles que imaginam isso estão apegados ao termo crítica = julgamento, o que, para arte contemporânea não faz muito sentido.  Hoje, vivemos a valorização da figura do espectador e tomamos consciência de que não podemos falar de UM espectador, mas, de tantos quantos estiverem na platéia. Isso significa que não existe um único espetáculo, mas, o espetáculo que chega a cada um destes que lá está.  Então, não adianta refletir sobre ele? Nada disso. Só não podemos esquecer que aquele que escreve sobre o espetáculo também é espectador. Não sei se privilegiado (como dizia Sábato Magaldi), mas, que não surgiu só para cruzar a porta daquele teatro, mas, também vem de uma família (igual ou diferente da minha), tem uma formação e vivenciou coisas particulares e específicas. Ele é tudo isso, além de uma pessoa que escreve sobre teatro.  É uma figura imprescindível para a existência da arte? Não. Mas, acredito, profundamente, que ele colabore para sua existência, fortalecimento e permanência. Como? Primeiro, ele serve para fazer um registro do que foi apresentado. Não vai ser imparcial. Vai estar impregnado das suas próprias impressões.  Pode fazer avaliações preconceituosas, retrógradas. Afinal, mesmo aqueles que se dedicaram ou dedicam exclusivamente a esta função cometeram erros e, às vezes, até sem querer, tentam induzir o público a rechaçar artistas que acabaram se impondo e mostrando sua genialidade (Nelson Rodrigues é um bom exemplo).  Em segundo, aquele que se dispõe a escrever sobre os espetáculos pode acrescentar informações, trazer um novo olhar sobre aquilo que o público vê e não compreende. Mas, cuidado! Não estou dizendo que será ele a dizer o que devemos ou não gostar.  Nem a apontar a nossa ignorância se criticamos algo que ele considera uma obra-prima ou o contrário, se gostamos de algo que ele odeia e considera uma arte menor.  Não acredito que seja este seu papel.  E quanto a quem pode efetivamente fazer isso, tenho muitas outras questões ainda não resolvidas e que espero minha pesquisa me auxilie a chegar a algumas conclusões. Até agora, o que vi, na história da crítica foi uma disputa de poder entre os veículos de comunicação e a academia, ora um em alta ora outro e, mais recentemente, nenhum. E é neste momento que vão surgindo os espaços virtuais. Ocupados por qualquer um que resolve escrever sobre teatro? Sim, mas, qualquer um que pára tudo que tem para fazer para ir ao teatro, escrever sobre o que viu e expor suas idéias para quem quiser, inclusive, rechaçá-las. Até agora, encontrei na maioria diretores, artistas, produtores e tantas outras pessoas ligadas ao teatro.  Que prejuízo pode haver nisso? Pode induzir a opinião do público a ponto de afastá-lo do teatro? Bem, é preciso observar que nem os considerados maiores críticos conseguiram este feito. Ao contrário, suas opiniões, mesmo que negativas, acabaram contribuindo com a arte. Talvez, de forma prosaica, possa reduzir tudo isso no seguinte ditado: “fale bem ou fale mal, mas, fale de mim.” Este, vale também para as obras de arte e para os artistas.  Da minha parte, como apaixonada por teatro, quero mais é ler algo absurdo sobre um espetáculo em um espaço em que possa dar minha opinião. E para não perder o hábito, devo dizer que não concordo com Antonio Holfeldt (audácia minha) quando ele diz que a crítica é um gênero jornalístico, pois, como não chamar de crítica o que começa a surgir nos espaços virtuais não elaborados por jornalistas? E se é questão de nomenclatura, rebatizemos a crítica!

Saturday, March 28, 2009

Bem, acho que não preciso dizer que tive que "juntar meus caquinhos para ir ao Seminário sobre Crítica de teatro no Gasômetro ontem, mas, achei que devido a minha escolha de pesquisa era algo imperdível. Pensei que entraria por uma porta, sentaria calma e quieta para ouvir e viria embora uma hora depois. Por que será que eu ainda me minto desta maneira? Quem me conhece sabe que dificilmente isto irá acontecer enquanto eu estiver viva. Não deu outra. Eu tentei. Mas, quem estava lá sabe que fui provocada pelas declarações feitas pelos convidados. Na mesa: Antônio Holfeldt, Renato Mendonça. Luis Paulo Vasconcellos e Julio Conte. Após a fala de todos, veio a abertura para o debate. Alguns minutos de silêncio. Tempo suficiente para as questões que tinham ficado me provocando resultarem na minha fala. Outra hora, talvez, até fale mais sobre isso, pois mais uma vez confirmei que a escolha do meu tema de pesquisa "Crítica teatral na era digital" não foi para buscar um título, mas, é uma paixão que me move. Sendo assim, obviamente, tenho mais coisas a dizer, mas, como estou em fase de "convalescência" prefiro publicar o texto do blog de Julio Conte (http://julioconte.blogspot.com):
O DEBATE SOBRE A CRITICA


Conforme prometi, vou contar um pouco, sobre o debate ocorrido na Usina do Gasometro na sexta feira, dia do teatro. Presente no local poucas pessoas, o menor publico de todos os debates. Dizem que foi a sexta feira, o engarrafamento na saida do Centro, o calor etc. Acho que os teatreiros ainda não aprenderam a debater. Mas quem participou de outros jura que foi o melhor dabate.
Ponto negativo foi que não havia nenhum editor, nem da ZH, nem da Revista Aplauso, nem nenhum outro.
Momentos de tensão marcaram as primeiras intervenções do público. Quem mais sofre foi o Renato Mendonça tendo que defender a linha editorial da ZH. A fala inicial dele foi ótima, mas deixou uma gafe ao se referir ao teatro como algo pobre. Pressionado se atrapalhou.
Luiz Paulo estava com a sobriedade que lhe é característica. Quando questionado na dupla função de critico da Revista Aplauso e artista mostrou que está atento a esta contradição.
Eu falei sobre a transitoriedade do teatro e de como isso se manifesta no sistema crítico. Teatro sofre da urgência de existir. Mas o grande nome que emergiu do dabate foi Antonio Holhfeldt. Matou a pau. Carismático, centrado e sábio expos sua trajetória no Correio do Povo e no Jornal do Comercio. De quebra contou que a ZH não o quis como crítico. Antonio é um pedaço da história do teatro gaúcho. Da platéia Helena Mello, jornalista que pesquisa blogs de teatro, foi muitas vezes incisiva e Rodrigo Monteiro mostrou que está cada vez mais preparado para ocupar um lugar de destaque na refexão sobre teatro. O que me surpreendeu foi de como blog incomoda a imprensa oficial. Acho que é porque publica a voz de quem não tem voz e as pessoas estão cansadas de versões oficiais. Querem intimidade, querem o detalhe, o sentimento particular, querem alguma coisa mais do que a pasteurização da informação.
Confesso que sai feliz.

Outro dia publico minha fala, pois como sabia que estava frente a três feras bem articuladas, levei o texto por escrito. Ler me ajudou e ficou o registro.

Ah, e terça tem TA E AI com participação da Ingra Liberato e da Ju Brondani.

Friday, March 27, 2009

A arte de escrever

Algumas pessoas comentaram que escrever bem era de família...Sem falsa modéstia, estou começando a acreditar que elas têm razão. Transcrevo abaixo um texto da minha tia Dulce Menegassi:
 

Meu primeiro herói

 

Ao longo da vida, quem tem sorte, tem alguns heróis.

Tive sorte, tenho alguns: de ficção, muitos, reais, nem tantos, mas, o primeiro e real a gente não esquece.

Tinha quatro anos, ele cinco. Morávamos em Teresópolis há pelo menos 30: nós, nossos pais, um irmão de três anos e nossos avós.

Aos Domingos, muitos parentes, após a missa dominical, iam lá nos visitar e colher frutas, a chácara em que morávamos era pródiga nas mais variadas árvores frutíferas.

Nossa avó nos chamava:

- Crianças! Venham cumprimentar os tios e primos!

Após o protocolo, ela nos despedia:

- Agora, podem ir brincar.

Lá íamos nós. Felizes da vida fazer o que mais gostávamos: correr e brincar pela imensa chácara.

Nos fundos da chácara havia um córrego. Era uma festa! Molhávamos os pés, colocávamos barquinhos de papel na água, atirávamos água uns nos outros.

Um dia, ao tirar a sandalinha nova, domingueira, um pé caiu na água e começou a ser levada pela correnteza. Eu, muito aflita, comecei a gritar e a chorar.

Neste momento o “meu herói” entrou na água, sem medo e me trouxe a sandália de volta.

Faz mais de 70 anos, mas, eu nunca esqueci o fato e há pouco tempo o relembrei com o meu irmão Procópio. Ele também lembrava e rimos junto. Procópio, meu irmão...meu primeiro herói! Que saudades...

 
 
 

Sunday, March 22, 2009

Gênio Indomável


Meu pai se foi esta semana. Lembro das várias vezes que o meu temperamento e o dele se esbarravam. Em menos de cinco minutos conseguíamos começar uma discussão. Talvez, os astros expliquem: somos signos complementares. Ele ariano, eu libra. Não, meu pai não era uma pessoa fácil. Levei muito tempo (e alguns anos de terapia) para entender que devia olhar para suas atitudes e não me incomodar com o seu discurso.

Ele achava que devia me preparar para o que ia encontrar fora de casa e procurava dizer coisas que fortalecessem minha personalidade. Não funcionava. Suas palavras me desestabilizavam de tal forma que quando comecei a enfrentar o mundo lá fora nada me pareceu tão difícil. Já há algum tempo compreendi que a força das palavras daqueles que a gente ama é muito maior do que a dos possíveis inimigos que possam cruzar nosso caminho.  Mas, reconheço que devo a ele minha capacidade de refletir sobre as coisas e organizar meu pensamento. Na minha casa, todo dia era dia de debate!

Meu pai radicalizava suas idéias, tinha dificuldade em expressar seus sentimentos. Mas, bastava um pequeno contato com suas atitudes para descobrir uma das pessoas mais interessadas no bem estar alheio que já conheci. E não digo isso apenas por ser sua filha. Tenho certeza de que qualquer pessoa que saiba que ele há mais de 30 anos repassava todos os ganhos que havia conquistado com seu trabalho, ao longo de uma vida, para os seus, concordará comigo. Nunca falava em comprar algo, fosse um carro novo ou uma camisa. Mas, era muito consciente de que as coisas custavam dinheiro e se preocupava, frequentemente, com o nosso futuro. Aliás, foi isso que o fez enfrentar um concurso e ser bancário por 25 anos, quando sua paixão era ser professor, o que ele fazia paralelamente.

Seu jeito irônico, muitas vezes, me feria. E quando eu consegui, finalmente, verbalizar isso. Ouvi dele uma confissão: a ironia é a arma dos covardes. Coisa que, sem dúvida, ele não era. É preciso coragem para acreditar em um projeto como ele acreditava, de investir tanto tempo em um ideal, de bater em portas fechadas para idéias novas e ir aos pouquinhos conseguindo entrar. 

Há mais de 30 anos, foi ter um ataque do coração em Paris. Anos depois, fez pontes de safena. Depois, vieram várias outras complicações de saúde. Nada o derrubava. “Um Fênix” consideravam os médicos. Nestes últimos anos, entrou e saiu do hospital algumas vezes. Em 2007, instigado pela minha mãe, elaborou um livro chamado Enigmas do Futuro com várias histórias lógicas inéditas cheias de criatividade e depoimentos de pessoas ligadas à educação elogiando seu trabalho.

Para muitos, era um gênio. Afinal, a partir dos seus conhecimentos e estudos, criou algo inédito com o objetivo de ajudar as pessoas a pensar. Investiu tempo de vida nisso. Enquanto teve energia, era obsessivo na tarefa de repassar seus conhecimentos. Tinha pressa, se angustiava e era incansável na tentativa de convencer as pessoas de que algo diferente, novo, era bom. Quando ele mesmo começava a duvidar, alguém vinha lhe dizer o quanto o seu trabalho havia mudado sua vida.

Amigos me dizem que o reconhecimento do que ele fez ainda está por acontecer. Não duvido. Assim, como aconteceu comigo, será preciso tempo para que as pessoas entendam uma mente como a do meu pai. Não. Meu pai não era perfeito, mas, não tenho dúvidas, de que era um homem a frente do seu tempo, o que dificultou até mesmo a sua família de compreendê-lo melhor, mas, isso não nos impediu de amá-lo, embora ele possa ter partido sem ter certeza disso. Sabemos, no entanto, que é isso que acontece com pessoas geniais. 

Saturday, March 21, 2009

O homem de cinzento não pode esperar *


Vera Mello

Meu pai se foi na última quarta feira do verão e me deixou seu nariz adunco, mesmo nariz do pensador grego Aristóteles cujo busto da era romana foi encontrado sob a Acrópole, em Atenas. Me deixou igualmente suas sombrancelhas grossas e sua audácia em escrever histórias cujo os nomes seguem uma lógica muito peculiar. Meu pai me deixou também um legado que eu me apropriei antes mesmo de sua partida. Ele me ensinou a aceitar com ironia aquilo que não podemos mudar embora o dito seja "Que Deus nos dê "coragem" para...Assador de renome, entre os inúmeros frequentadores da casa e de paladar "gourmand", enquanto aguardava sua hora, meu pai buscou rever passagens da sua vida naquilo que degustava. Isso, talvez justifique seus desejos bizarros parecendo um "enfermo glutão". Eu, há pouco recebi dele, um "pedido solene" de preparar um arroz com coração de galinha. E me perguntei por que, entre os bolinhos de bacalhau do Chalé da Praça XV, as batatas fritas do kioske da praia, o camarão do restaurante chinês, a massa com gorgonzola feita em casa, e uma tainha na brasa, meu coração era tão importante. Até que compreendi que ele, estava reconstruindo sua história (da qual eu fazia parte e me encaixava tão bem) na lógica dele. Na prática, passamos meses compartilhando e degustando a mesa, lembranças de um passado feliz. Em tese esse parece ter sido o pensamento de um professor tão admirado por respeitar a lógica particular de cada um.

* O título é uma referência a um personagem criado pelo meu pai (no estilo Sherlock Holmes) para os seus enigmas

Friday, March 20, 2009

Meu herói, meu bandido


Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...


letras acima

Thursday, March 19, 2009


Os ventos que às vezes tiram algo de nós são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar. Por isso, não devemos chorar pelo que foi tirado e sim aprender a amar o que nos foi dado, pois o que, realmente, é nosso, nunca se vai para sempre.
Bob Marley

Sunday, March 15, 2009

Sunday night fever


“Chupa o meu pau”. Esta é apenas uma das frases que não passariam na censura da minha mãe tão facilmente e que estão em um filme que assisti quando tinha uns 15 anos: Embalos de sábado à noite (Saturday night fever, 1977). Tinha na minha memória adolescente um filme com músicas dançantes, aquela roupa branca e preta inesquecível do John Travolta (veja na foto) e seu rebolado impagável pelas ruas. No entanto, fui assistir hoje na televisão e vi que havia muito mais por trás. 

Os cuidados extremados do protagonista com a sua aparência, seus gestos e posturas já não me pareciam tão masculinos a ponto de despertar a paixão de tantas mulheres como aconteceu na época. Mas, não é apenas isso. Streep-tease, cenas de sexo, estupro, drogas, mortes e violências outras. Tudo aparece no filme que havia me parecido inocente.

Hoje, chega a ser engraçada a cena na qual Tony levanta da mesa do jantar e começa a juntar os pratos e seu pai diz para que ele não faça aquilo, pois as mulheres irão fazer. Quem diria... De qualquer forma, ele trata as mulheres com total desrespeito e se mete em várias situações “politicamente incorretas”. Talvez, a única atitude que indique o seu bom caráter seja a entrega do prêmio do concurso final aos concorrentes que ele considerou melhor do que ele. No mundo real, porém, isso não fez a menor diferença. Os fãs do filme nem se lembram mais da dança do outro casal e sim dos rodopios do galã.

 É bem verdade que a trilha é maravilhosamente dançante. Ainda lembro da euforia e do modismo que se criou no Brasil nas discotecas. Todos imitávamos ou já imitamos alguma vez Tony Manero e seus gestos na pista. Não é à-toa que John Travolta recebeu a indicação ao Oscar e levou seis milhões de pessoas aos cinemas no Brasil. As músicas dos Bee Gees marcaram toda uma geração com More Than Woman”, “How Deep is Your Love”, “Night Fever”, “Staying Alive”. O álbum permaneceu um total de 24 semanas no 1.º lugar das paradas e vendeu eventualmente mais de 30 milhões de cópias (hoje este número chega a 50 milhões), tornando-se um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Considerada a trilha sonora mais vendida da história.

Mas, Tony está longe de ser um herói e o filme não é a historinha de dança que a minha mãe achou que eu tinha ido assistir naquela tarde da década de 70. 

PS: Eu que nunca mais tinha ouvido falar de karen Gorney (a partner de Tony Manero), descobri que no ano passado ela fez Margaret em Ricardo III.  

Tuesday, March 03, 2009

Na língua de Camões


Já venho lendo sobre o acordo ortográfico há algum tempo e confesso que não estava (e ainda não estou) com a maior vontade de ficar revendo o jeito que escrevo. Não é que não goste de mudanças. Mas, uma parte de mim, vinha resistindo a algo que me parece insignificante diante de tantas mazelas brasileiras. No entanto, não há mais nada a fazer. Está decidido e insistir em não me adaptar parece bobagem . Afinal, como dizem seus defensores, nem são tantas mudanças assim. Da minha parte, por exemplo, posso dizer que se me pedissem para soletrar o alfabeto acabaria dizendo o k, o w e o y. Decorei assim e acabei mantendo. Pronto. Agora já os incluíram novamente. Também devo dizer que nunca fui muito fã de trema e só colocava em provas que exigiam este tipo de correção tipo em linguiça, freqüente, seqüência... Já aguentei muita coisa e não escrevia a palavra com a trema e tranquilo? Nunca viu uma trema por aqui. (Acabo de perceber que vou ter que atualizar meu corretor ortográfico, se não ele vai insistir em colocá-la). Claro que têm aquelas que vão dificultar a minha adaptação, como por exemplo: plateia e estreia. Sem acento? Não é a mesma coisa. Paranoia? Cruzes...muito estranho. Alcateia? Por favor...palavra que só escrevi no vestibular e olhe lá! Ah, e têm coisas mais esquisitas como: creem, deem, leem, perdoo, veem. E para variar (sem acento) vem as exceções: "ele para o carro" (verbo parar) perde o acento, mas, "ele pôde dirigir ontem" tem acento. Ai,ai,ai....Assim como os verbos ter,vir, convir, deter que mantêm o acento: eles têm, eles vêm, eles convêm, eles detêm. Bem, e tem várias outras coisas chatinhas. O hífen, que quase ninguém acertava até hoje, muda também. Erraria naquelas ditas provas: autoestrada, coautor, autoescola, aeroespacial... tudo sem hífen. E nesta regra sim, acho que vão continuar não sabendo. Continua aquela história...ora tem, ora não tem. Ou seja, volto a ser semianalfabeta? Mas, não vou ser superexigente comigo mesma! Então, não esperem que aqui no blog meus textos sigam estas regras. Vou, aos poucos, tentando acertar, mas, não é porque assinaram uma lei que vou acordar sabendo como redigir do jeito que decidiram que seria melhor. Esta regra aqui, por exemplo, não vai ser fácil de lembrar: se chegar no final da linha e uma palavra que levava hífen ficar dividida, o hífen repete na linha seguinte. Bem, mas, ninguém pode dizer que eu não tentei colaborar. Por enquanto, a única coisa que me faz tentar esta adaptação é a remota possibilidade de eu querer me corresponder com portugueses e não deixar que a língua nos atrapalhe. Sabe-se lá quando e se isso vai acontecer! 

PS: O Acordo Ortográfico de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial única da língua portuguesa e com isso aumentar o seu prestígio internacional, dando fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes: uma no Brasil  e  outra nos restantes países de língua portuguesa. 

Saturday, February 28, 2009

Festival de teatro em Curitiba


Quatro estréias nacionais e uma internacional marcam a programação deste ano do Festival de Curitiba, que acontece de 17 a 29 de março. A companhia chilena Teatro Cinema estréia em palcos brasileiros o espetáculo Sin Sangre, dirigido por Juan Carlos Zagal. A peça é uma adaptação do romance homônimo do autor italiano Alessandro Baricco, e trata da reconstrução da memória e do perdão.

A montagem chilena atinge várias dimensões ao fundir as linguagens do teatro e do cinema em uma emocionante história humana em que a vingança se encaminha para o amor, e onde a guerra pede paz e amor. Com esses elementos e sentimentos, Juan Carlos e Laura Pizzarro – que além de participar da adaptação do texto, também atuam em Sin Sangre – deram à montagem uma linguagem universal.

Entre as peças brasileiras, Felipe Vidal e Tato Consorti dirigem a versão brasileira de Rock’N’Roll, do dramaturgo tcheco Tom Stoppard. A peça, sucesso de público e crítica no Royal Court Theatre, em Londres, e na Brodway, se passa entre os anos de 1968 e 1990, sob uma dupla perspectiva. Em Praga, na república Tcheca, onde uma banda de rock aparece para simbolizar a resistência ao regime autoritário comunista; e em Cambridge, na Inglaterra, onde as questões do amor e da morte definem as vidas de três gerações da família de um filósofo Marxista.

Dirigido por Moacir Chaves e baseado no conto homônimo de Drauzio Varella, o espetáculo Por um Fio conta histórias de pessoas surpreendidas pela notícia de que suas vidas podem chegar ao fim. Na experiência de Varella, nenhum acontecimento provoca transformações tão radicais quanto conviver com essa possibilidade. As histórias descrevem as maneiras que cada um tem de perceber o tempo e o transcorrer da vida. No elenco a premiada atriz Regina Braga e o vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2008, Rodolfo Vaz, por Salmo 91.

Em Borbulho, espetáculo de dança das coreógrafas Rosane Chamecki e Andrea Lerner, curitibanas radicadas em Nova York, um cenário fururista abriga uma versão poética da evolução das espécies de um planeta imaginário. Neste mundo, criaturas crescem e se desenvolvem. Aos poucos, sentimentos também vão ganhando. Os seres em cena refletem o desejo e a capacidade de adaptação e levantam questões sociais e ambientais.

Completa a lista de estréias brasileiras o monólogo Doido, em que um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal. A montagem – dirigida e encenada por Elias Andreato – fala de amor, de loucura e de arte mostrando ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum.

Fonte: Alexandre Staut

PS:  Maria Amélia Gimmler Netto, minha colega de mestrado, participa do Festival na mostra Fringe com o Espetáculo "A".  Datas: 22/03 - 12:00, 23/03 - 15:00, 24/03 - 18:00, 25/03 - 21:00

Monday, February 23, 2009

A gente não quer só comida


Não posso mais esperar para escrever sobre a peça Dona Gorda, pois, falta muito pouco para eu me tornar o personagem principal depois de tudo que tenho comido nos últimos dias. Eu sei...Tem vários amigos que vão dizer: Ah, pára com isso. Tu estás ótima! Tu, gorda? Nem pensar. Mas, são amigos e conhecidos recentes, pois, em várias épocas de minha vida estive com vários quilos a mais. Sim. Porque existem os gordos e os de alma gorda e eu me encaixo às vezes nos dois perfis, às vezes só no primeiro e às vezes no segundo, mas, vou ter que nascer de novo para ter uma alma magra. Gosto de comer. Sempre gostei.

Quando pequena costumava ficar perto das mesas de aniversário. No colégio, meu apelido de adolescente era saúva. Preciso dizer por quê? E o quanto foi devastador para minha auto-estima? Tinha até batucada quando eu chegava para me receber. Em 1985, acabei consultando um cirurgião plástico devido a uma cicatriz de um tombo de bicicleta quando eu tinha sete anos e ele sugeriu que eu fizesse uma lipoaspiração nos culotes. Ou seja, acho que fui uma das primeiras cobaias deste tipo de cirurgia aqui no sul. Bem, mas, foi ótimo. Não só pelas medidas que diminuíram radicalmente, mas, pelo bem que fez para minha alma gorda! Mas, os anos se passaram e mesmo que os culotes não tenham voltado (como advertira o médico) depois de engordar 10 quilos novamente, a gordura ingerida passou a ocupar um outro lugar: a barriga! Não era mais a saúva, mas, em uma eleição não tão passada, uma senhora queria me dar o lugar: “tu tens preferência. Estás grávida.” Não estava. Nem perto. Naquela época, só se fosse do espírito santo.

Bem, teria muitas outras coisas para contar nesta minha luta contra o peso, mas, está mais do que na hora de falar do espetáculo. Queria deixar claro, porém, que falar de Dona Gorda é falar de mim, independente do que a balança ou as fotos hoje, felizmente, digam! E, tenho absoluta certeza, da grande maioria das mulheres. E é isso que Lúcia Bendati faz. Cria uma identificação com todos os seres do sexo feminino que um dia acharam que estavam ou estavam mesmo com quilos a mais. Várias balanças no palco já dão indício desta paranóia. 

Vestida em malha de ginástica, ela corre, pula, salta. Ai, que cansaço! O patético da cena faz rir. Mais tarde, Dona Gorda tenta entrar em um vestido vermelho para ir ao casamento da amiga. As pessoas acham graça. Eu rio para não chorar. Vermelho é minha cor predileta e, não faz muito, alguns vestidos que tenho nesta mesma cor não passavam das canelas. E se passavam faziam exatamente o que figurino de Lúcia fez: marcavam tudo! A atriz conversa com um manequim, onde alguns acessórios estão pendurados. Quer coisa mais adequada? Aquele corpo esquálido que tudo aceita e tudo pode? E fala todo o tempo com a platéia. Improvisa. Algo que exige de quem vai ao teatro, mas, mais ainda de quem atua. Na noite em que assisti ao espetáculo ela escolheu para contracenar um homem tímido que tomará uma das duas atitudes: ou voltará satisfeito com a nova e desafiante experiência ou nunca mais colocará os pés em um teatro. Dona Gorda volta várias vezes para falar com ele, mesmo sabendo que ele não está à vontade. No final, ele ganha um brinde do espetáculo. Espero que tenha sido o suficiente para fazê-lo rir de si mesmo. Não é, Vitor?

Como jornalista, acho impressionante que Dona Gorda não precise inventar manchetes para as revistas. Ela simplesmente lê em cena, auxiliada por pessoas da platéia, aquelas promessas de emagrecimento comendo chocolate, pipoca, sorvete. Perdas de peso em prazos exíguos. Pior. Eu ainda fico tentada a comprar até hoje estas revistas! E é isso que o espetáculo faz. Mostra o nosso ridículo, mas, ao mesmo tempo, nos afaga. Afinal, não estamos sós. Temos, ao menos, a Dona Gorda e mais, temos Lúcia Bendati com sua força, sua energia, seu carisma. Se me repeti ao falar dela não é culpa minha, mas da atriz que estava em cartaz com duas peças ao mesmo tempo. Hummm....Será que fazer teatro, emagrece?

O espetáculo trata também da questão da compulsão. O frigobar que “chama” cada vez que as coisas não vão bem. Cada vez que Dona Gorda fica ansiosa ou decepcionada. Alguém aí reconhece este momento? Relaciona também a questão da comida com as relações amorosas. Eu que o diga. De que adianta ir a nutricionistas, endocrinologistas, ler e fazer todas as dietas do mundo? Basta uma briga com o namorado, aliás, nem isso, uma discussão com a família para que as almas gordas (que são muitas no planeta) queiram comer guloseimas e beber todas. Por isso, Dona Gorda oferece brigadeiros à platéia. Minha alma gorda em dieta (ou seria controle alimentar?) recusa. Mas, depois, fica esperando que ela queira repartir aquele pedaço de pizza.... Não. Ela come sozinha e guarda o resto. Ora, ora. Resultado: saio do espetáculo com fome, mas, feliz por ver um teatro bem feito!  Teatro? Sei, não...Poderia ser eu mesma no espelho.

Texto: Lisiane Berti e Marcelo Vázquez

Elenco: Lúcia Bendati
Direção: Paulo Guerra
Participações Especiais (em off):
Adriana Marques, José Alessandro, 
Luciano Figueiró, Paulo Sant’ana

Fotos: Cláudio Etges

Friday, February 20, 2009

Dona Gorda...não sou eu não, viu?

Assisti Dona Gorda esta semana e vou escrever a respeito porque o espetáculo merece. Só não quero tratar levianamente um assunto que já me consumiu tantas horas da minha existência, então, preciso terminar algumas coisas antes. Não estou falando de teatro, não. Estou falando de quilos a mais mesmo! Eu volto!

Wednesday, February 18, 2009

Crítica teatral é tema de escola de samba

Não. Não vou passar o carnaval de 2009 no Rio de Janeiro desfilando na Sapucaí, embora já tenha feito isso no século passado, nos anos 90, e recomende. Nem na Bahia, atrás do carro da Ivete Sangalo, cantando: “como se fosse flor você me cheiraaaa”. Aliás, também não vou estar nas ruas de Porto Seguro, sentindo o suor da multidão que dança até com timbre de celular. Vou estar em Porto Alegre. Afinal, o dinheiro para a folia foi gasto na Praia do Rosa em dias de meditação antes do encontro com meu orientador que mora em Florianópolis. Mas, estou preparada.

Há um ano venho ensaiando para botar meu bloco na rua. O desfile vai começar com a ala da Grécia Antiga com destaque para Aristóteles e sua poética em carro alegórico cercado de lindas mulheres cobertas apenas por cachos de uvas como no espetáculo de Zé Celso, Os Bandidos. Afinal, não podemos esquecer que foi lá que tudo começou: nas festas para Dionísio, o Deus do vinho. Depois, entrarão na passarela Foucault e Sartre, cuidando para não misturar as alas dos Estruturalistas com os Existencialistas e nem atrasar no recuo da bateria porque se é para discutir “gosto” o barulho é grande. Vão ter mais alguns carros alegóricos com membros da Escola de Frankfurt. Alemães famosos, mas, sem samba no pé, não vão medir esforços para fazer o público cantar o samba enredo, inspirado em Guimarães Rosa: “Pão ou pães é questão de opiniães”. Tomara que esta liberdade gramatical não tire pontos da escola, ainda mais em ano de reforma ortográfica. De qualquer jeito, não tem como não dar nervoso só de imaginar as notas de Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Bárbara Heliodora. Mas, espero que o gaúcho Cláudio Heemann levante o resultado final e, por falar nisso, como perdi minha máquina digital na viagem para a reunião de orientação de mestrado em artes cênicas cuja pesquisa é a Crítica Teatral na era digital, espero que minha história não seja apenas bonitinha nem ordinária e que eu mereça o prêmio máximo. A nota? É 10!

PS: Escrevi este texto para participar do concurso do site Diálogos Universitários com a intenção de ganhar a câmera digital que perdi nos últimos dias. Não venci, mas resolvi publicá-lo. O texto do vencedor vocês podem conferir aqui: 

www.dialogosuniversitarios.com.br/pagina.php?id=2584

 

 

Sunday, February 15, 2009

Parabéns minha Rainha


Fui convidada para assistir a peça Rainha do Lar hoje à noite. Tenho mais de 40 anos, ou seja, este título chega a me dar arrepios. Mesmo depois de já ter refletido tantas vezes sobre o tema. De saber que este lance da mulher ir para rua e trabalhar também foi meio imposto por uma época de guerra, pela necessidade de mão-de-obra, etc. De pensar muito sobre quão complexa é a atividade de uma dona de casa que precisa saber executar tantas tarefas braçais e ainda ter cabeça para administrar funcionários e tratar de questões financeiras. Com certeza, não é tarefa para principiantes.

De tarde, ligo a tv e vejo Marília Gabriela entrevistando Cecília Troiano sobre o livro Vida de Equilibrista – dores e delícias da mãe da mulher que trabalha. Fico sabendo que 50% das mulheres já pensaram em abandonar a carreira pelo menos uma vez, que dispensam apenas 1h20 para a própria vida. Os homens apenas “ajudam” na tarefa de cuidar dos filhos.

 

Bem, mas, voltando ao espetáculo, cheguei pensando que não havia nada de novo que pudesse ser dito sobre este tema e, no entanto, mesmo que eu tivesse razão, por que não usufruir do prazer da identificação? No entanto, foram muitos prazeres mais. O texto de Lisiane Berti é ótimo. Na boca de Lucia Bendati ganha vida, forma, cheiro e gosto. Dá até vontade de comer o nhoque que ela prepara em cena. Ainda bem que a receita foi entregue junto com um imã de geladeira na entrada. 

Nota-se que a atriz se sente à vontade naquele personagem, naquele lugar e isso se transmite para o público. A Rainha do lar, dirigida por Paulo Guerra, lava o chão, passa roupa, fala no telefone e conosco e, como se não bastasse, ainda canta com uma voz límpida, suave, gostosa de ouvir. Tudo isso no cenário criativo, funcional e esteticamente interessante de Cláudio Benevenga que também é o responsável pelos figurinos que dão o tom certo a esta mulher, dona de casa e mãe em todos os seus momentos. Com destaque para a cena final que salienta o talento desta atriz que consegue nos fazer ver o que ela vê, sentir o que ela sente e diria até pensar o que ela pensa: não é fácil ser uma Rainha do Lar, mesmo no dia do aniversário. Agora, uma coisa é certa: Lucia reina naquele palco. 

Obs: Estranhei um pouco a participação em off do marido e dos filhos no início que me parece um tanto artificial. Mas, nada que prejudicasse o todo que, sem dúvida, vale a pena assistir.

Saturday, February 14, 2009

Praia do Rosa, um paraíso sobre a Terra


Meu orientador é de Santa Catarina e, desde o ano passado, falamos que seriam feitas reuniões a cada três meses, o que acabamos não fazendo até porque a internet nos permite manter contato virtual sempre que queremos. Mas, trata-se de uma pessoa que me agrada. Cuja convivência gostaria que fosse intensificada e, convenhamos que ir a Santa Catarina não é nenhum sacrifício. Então, comecei a pensar como faria isso. A grana, como sempre, pouca. Assim, teriam que ser poucos dias.  Passei a pesquisar locais de hospedagem e um dos mais baratos que encontrei foi na Praia do Rosa. Na hora, nem me dei conta de que não ficaria tão fácil ir até Florianópolis, local do encontro. 

Há muitos anos ouvia falar bem desta praia. Eu mesma já havia feito uma visita nos anos 80 da qual não tenho boas lembranças pois tive uma insolação naquela oportunidade.  Bem, estava decidido. Era para lá que iríamos. Convoquei minha irmã, parceira de viagens. Avisei o orientador e lá nos fomos. Ainda não estava certo que conseguiríamos nos encontrar, mas, o pretexto havia funcionado. Primeiro: a viagem de ônibus, que me preocupava pelas longas horas, foi muito tranqüila. Durmo o tempo todo. Não vou contar todos os detalhes, mas, quis frisar isso, pois, recomendo. A pousada melhor do que poderíamos esperar. Uma boa estrutura para os R$ 50,00 de diária por pessoa que conseguimos. Piscina, sala de jogos, tv e nossa cabana bem bacana. Mas, o melhor ainda estava por vir. Foram 4 dias de caminhadas, banhos de mar e sol. Uma água límpida em que podia olhar meus pés quando a água já alcançava o peito. Fria é verdade, mas, imperdível. Os turistas? 95% de Argentinos. Nas ruas só se ouvia espanhol. Horários diferentes. Ninguém na praia pela manhã quando íamos. Muita gente no final da tarde quando saíamos. Não sem intervalos no horário do almoço, pois, eu não agüento. Bati meu record: 7 horas na praia. Guarda sol e protetor 30, é claro! Confesso que no segundo dia já não podia mais buscar aquele bronzeado, inclusive dos lados, pois, foi a primeira vez que consegui ficar vermelha nestas áreas. Se insistisse, com certeza,  acabaria com aquela insolação novamente.  Estrada de terra batida. Muito pó. Mas, silêncio, tranqüilidade e um contato com a natureza que nos faz sentir pertencentes do universo e fazer contato com o divino. Locais para comer maravilhosos, mas caros, lógico.  Parte do que economizamos em  hospedagem e passagem de avião gastamos em um jantar em um local luxuoso e com vistas de tirar o fôlego. Tem muitos por lá (sentamos naquela mesa com guarda-sol aí da foto). 

No último dia, o encontro com o orientador. Certa apreensão. Toda aquela calmaria teria fim? Nada. Foi prazeroso. Em um bar em no Mercado de Florianópolis conversamos. Ele me falou de seus projetos e trocamos idéias sobre a minha pesquisa. Ótimas sugestões. E o alívio: ele havia gostado do artigo que escrevi. Então, posso ficar tranqüila. Vou saber escrever a dissertação de um jeito que o agrade. Ah, detalhe. Foi nesta hora que percebi que não estava com a câmera digital que eu havia cuidado todos os dias para não esquecer em nenhum lugar. Perdi. Com todas as lindas fotos que tirei tentando registrar os momentos parasidíacos que passamos. Agora, o que resta é a minha memória. As imagens registradas na minha alma. Que seja assim.

 

De volta a Porto Alegre, sem lamúrias, pois costumo dizer que sou feliz, pois sempre gostei tanto de viajar como de retornar, mas, ainda tentando me adaptar aos horários, a rotina novamente. Com vontade de sair todos os dias o que, aliás, me fez ir ontem até o Lami buscando uma paisagem de verde e água novamente (sem comparações, é claro!).  Paramos (desta vez meu pai e eu) no único local próximo a “praia”. Sem sair do carro podíamos ver uma cena que me fez sentir novamente a falta da digital.  Vou tentar descrevê-la. Em um primeiro plano, uma placa grande amarela dizendo: local impróprio para banho. Águas poluídas. No mesmo ângulo, mais adiante, uma casinha vermelha e três salva-vidas. Abaixo dela, um homem, sentado em uma cadeira de praia e sob um guarda-sol. Ao seu lado, uma mulher deitada na área pegando sol.  Logo chamei a atenção do meu pai. Se o banho é proibido, o que fazem aqui estes três salva-vidas? Perguntei para logo depois tentar uma resposta cômica: É para o caso de alguém cair na água sem querer.  Bem, meu pai, que ainda se lembra de todas as coisas que contava enquanto mediadora da Bienal, disse: Dava para tirar uma foto e mandar para os curadores da próxima exposição! Não é que ele tem lá sua razão? Quer dizer....se eu tivesse como fotografar. 

Obs: Ao chegar em casa, havia um email para um concurso cujo prêmio é uma máquina digital. Já estou concorrendo. Torçam por mim.

 

Monday, February 02, 2009

Pelo direito de ser alienada

Ultimamente, tenho participado (ou seria melhor dizer estado presente?) de várias discussões e como acabo as evitando ou argumentando sempre de forma mais compreensiva e flexível do que as pessoas em volta,tenho sido acusada de alienada. As pessoas querem discutir assuntos sobre os quais elas têm apenas informações geradas pelos veículos de comunicação e, mesmo sendo jornalista, provavelmente exatamente por isso, acho que é pouco. Não interessa se o tema é política, religião, comportamento, sexo e futebol (embora eu raramente discuta sobre este último) o que é divulgado são quase sempre coisas negativas, que salientam os aspectos mais agressivos e, até mesmo, criminosos do ser humano. Na hora, fico incomodada, desconfortável. Não sinto prazer em aprofundar estas conversas. 

Sei o quanto me custa para manter minha energia, meu bom humor, minhas vontades. Tenho atribuído isso a minha prática de yoga na qual entrar em sintonia com os aspectos positivos da vida, da natureza e de nós mesmos está sempre presente. Mas, não é apenas isso. É toda uma busca para ser saudável, para filtrar o que não me serve e o que não me faz bem. E isso parece 
acabar sendo visto como egoísmo. 

Bem, mas, em função destas discussões (que não são poucas) acabei refletindo e confesso que fiquei mais aliviada com as “conclusões” a que cheguei. Por que sou alienada quando não quero dar ênfase às questões negativas da existência e não são consideradas alienadas as pessoas que não têm informações sobre as coisas boas que estão acontecendo neste exato 
momento? Se alguém pensou que é porque não existem, minha tese é de que esta pessoa é alienada. Assim como tem gente matando, roubando, destruindo, fazendo a mãe em picadinhos, atirando o filho pela janela, tem gente se dedicando de corpo e alma a algo que torne a vida de alguém um pouco melhor. Tem gente fazendo descobertas incríveis na área da saúde, da tecnologia. Tem gente que passa dia e noite tentando achar a cura da AIDS, do câncer. Outros
buscando a solução para o aquecimento global. Bom, pensem em qualquer tema que, hoje, seja a
maior aflição para a humanidade...Não importa. Tem pessoas dedicadas a resolver estes problemas. Pode acreditar. Não acredita porque não saiu no jornal? Não viu na tv? É provável que até tenha aparecido sim, mas, era em uma parte pequena da página e acabou não chamando a sua atenção. Culpa de quem? Não interessa. Basta que a gente não se deixe manipular tão facilmente. Acredito que desta forma sobrará mais tempo, mais energia para buscarmos uma vida melhor para todos.  

Ok. O que me moveu a escrever sobre isso foi um desconforto pessoal, eu assumo. Mas, o que eu
gostaria mesmo é que mais pessoas pensassem nas coisas boas que existem, nas que ainda vão existir e que nos tornássemos mais conscientes do que a nossa mente anda “consumindo” como verdade. Que observássemos o espaço que estamos dando para as informações que nos deixam tristes, aborrecidas e ocupam tanto do nosso tempo em discussões seja na hora do almoço ou no final de tarde naquele barzinho. 

PS: Ah, por falar em alienação (ou não), estou,  indo daqui a pouco, à convite de uma amiga também jornalista, assistir "Sim, senhor!" com Jim Carrey.